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29 janeiro, 2015

há photo no Novo Banco

Da série Bori Oxum
© Ayrson Heráclito


 Ângela Ferreira, Ayrson Heráclito e Edson Chagas finalistas do Novo Banco Photo


O fim do BES (o banco que criou e patrocinava o prémio BESPhoto) fez crescer a dúvida sobre se o maior prémio de arte contemporânea atribuído em Portugal se manteria. A resposta é “sim”, vai manter-se e os nomeados para a edição de 2015 são: Ângela Ferreira (Portugal), Ayrson Heráclito (Brasil) e Edson Chagas (Angola).

Nesta aposta pela continuidade, o Novo Banco manterá o seu principal parceiro — o Museu Colecção Berardo —, o formato e o valor pecuniário do prémio. Ou seja, prossegue a ambição de internacionalização, com a selecção dos artistas que podem ser de nacionalidade portuguesa, brasileira ou dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, bem como os 40 mil euros para o vencedor que será anunciado em Setembro.

Um mês depois da inauguração da exposição que marcou o décimo aniversário do prémio, em Junho do ano passado, começou o colapso e o calvário da marca BES, remetida para o universo do “banco mau”, colocando num limbo todas as iniciativas mecenáticas a que o banco liderado por Ricardo Salgado estava associado. Sem nunca ter havido um anúncio formal da continuidade do prémio, foram surgindo sinais de que este poderia continuar, como a atribuição do novo nome (Novo Banco Photo) à exposição dos finalistas de 2014 que foi levada para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, Brasil, inaugurada já depois do anúncio do fim do BES.

A manutenção do prémio na sua essência significa que, nesta fase, os artistas são nomeados por uma exposição de obras em suporte fotográfico e/ou a edição de uma publicação durante 2014.

Ângela Ferreira foi nomeada pela exposição Indépendance Cha Cha, apresentada em 2014 na galeria Lumiar Cité, em Lisboa. O júri explica que esta mostra surge “como uma continuação do projecto que a artista desenvolveu para a Bienal de Lubumbashi, justapondo uma forma escultórica reminiscente da arquitectura colonial do centro de Lubumbashi e dois vídeos”. Um destes trabalhos videográficos “documenta uma performance, apresentada na bienal, que lida com narrativas de trabalho forçado nas minas daquela zona”; o outro “mostra a interpretação de Indépendance Cha Cha, um hino emblemático dos movimentos independentistas da África francófona na década de 1960”.

A exposição Luanda, Encyclopedic City, que representou Angola na 55.ª Bienal de Veneza (2013), onde conquistou o Leão de Ouro pela melhor participação nacional, e a exposição na galeria Belfast Exposed Photography (2014), onde apresentou a série em curso Found Not Taken, valeram a Edson Chagas a nomeação para o prémio deste ano. No seu trabalho, este artista angolano “usa o contexto urbano de cidades como Luanda, Londres ou Newport como cenário para criar um ‘arquivo’ de objectos banais”. Uma das motivações destas deambulações é “captar a forma como os objectos abandonados, dispersos pela cidade, oferecem um olhar sobre os hábitos de consumo de um determinado local”.

O brasileiro Ayrson Heráclito usa o vídeo e a fotografia como principais suportes de trabalho. De acordo com o júri, ao longo da sua obra tem investigado “as ricas relações entre África e o Brasil, explorando as ligações políticas, sociais e culturais entre estes dois territórios, demonstrando um interesse especial na história da escravatura e nas religiões afro-brasileiras”. A perspectiva a partir da qual desenvolve esta reflexão “é privilegiada”: Salvador, Bahia, a capital do Brasil africano, onde vive e trabalha. Ao longo de 2014, Heráclito participou em várias exposições, entre as quais o júri destaca Segredos Internos (1999-2009), Do Valongo à Favela (Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro), Múltiplo II em Histórias Mestiças (Instituto Tomie Ohtake, São Paulo), bem como o vídeo Barrueco (2004) em Memórias Inapagáveis (VideoBrasil, SESC Pompeia, São Paulo).

O júri que escolheu os três finalistas foi composto por Luís Silva (Lisboa), fundador e director da galeria Kunsthalle Lissabon, Adriano Pedrosa (São Paulo), director artístico do Museu de Arte de São Paulo, e Bisi Silva (Lagos), fundadora e directora do Centre for Contemporary Art, em Lagos, Nigéria. A exposição dos artistas seleccionados será inaugurada no Museu Colecção Berardo no dia 17 de Junho. Os trabalhos apresentados serão inéditos e será a partir deles que o júri de premiação escolherá o vencedor.

Pedro Lapa, presidente do júri do prémio Novo Banco Photo e director artístico do Museu Colecção Berardo, louva a aposta na continuidade desta distinção e sublinha o seu papel na formação de “uma rede própria de conhecimento, circulação e premiação de artistas lusófonos”. “Todos os países envolvidos tiveram contacto com as práticas artísticas no domínio fotográfico dos seus parceiros, que muitas vezes desconheciam. O prémio tem sido, por isso, um relevante contributo para o aprofundamento desta rede lusófona, que importa salvaguardar num mundo cada vez mais globalizado, onde novas articulações se definem”, refere Lapa.

A artista brasileira Letícia Ramos foi a vencedora da edição do ano passado, que foi disputada com Délio Jasse (Angola) e José Pedro Cortes (Portugal).



Instalação e projecção vídeo da exposição Indépendance Cha Cha, de Ângela Ferreira



Da série Found Not Taken © Edson Chagas

09 outubro, 2014

BESPhoto - balanço




BESPhoto 2014
© David Rato


O que se ganhou (e o que se perdeu) 
(crónica, ípsilon, 06.06.2014, sendo que, entretanto, já mudaram algumas coisas)

Isto desde que o Jorge Jesus e a Paula Rego deram as mãos e trocaram piropos dentro de uma chaminé gigante em Cascais, futebol e arte são um só. Por isso, vamos lá.

Aqui há dias, a conquista da décima orelhuda pelo Real Madrid deu-nos um pouco de tudo. Foi uma final da Liga dos Campeões memorável a vários níveis: houve espectáculo, intensidade, drama, surpresa, reviravolta, imprevisibilidade, nervos e espanto. Houve vários momentos fotográficos (incluindo, claro, o de Ronaldo a exibir sem pudor a massa de que é feito) e um ou outro cinematográfico (como o de Sérgio Ramos a marcar milimetricamente o golo do empate a segundos do fim). Houve um duelo titânico de dois rivais muito próximos, que perceberam que só o facto de terem chegado aonde chegaram os transformaria em heróis. Seria a décima taça orelhuda para uns, a primeira para outros. Ficou o Real com ela, como bem sabemos, e agora dizem que foi ultrapassada uma pequena maldição — a da décima, que escapava aos merengues desde 2002. 

Pelo grito de raiva que significou, e como a arte da bola tem estado tão ligada a outras artes ditas belas, a conquista da décima pelo Real Madrid talvez seja um bom exemplo para outras décimas. Ainda que o campeonato seja outro, a décima do BESPhoto, que este ano se cumpre, bem pode olhar para o que se passou no Estádio da Luz e de lá tirar a inspiração para chegar à 11.ª, à 12.ª… (momento terapia de casal: parece que o que custa mais são os primeiros dez anos). 

Sou pela diversidade. Acho que o Prémio BESPhoto faz falta. Ao longo dos anos, o verniz estalou várias vezes. Houve quem recusasse a nomeação (João Maria Gusmão/Pedro Paiva, Paulo Nozolino, Luísa Cunha). Houve quem questionasse se havia photo no BESPhoto, houve quem duvidasse se o carro do júri de nomeação tinha gasolina suficiente para ir até ao Porto. Quem pusesse em causa os critérios (ou questionasse se haveria mesmo critérios…). E, claro, não podia faltar quem falasse em compadrios. 

No BESPhoto vi trabalhos muito bons e trabalhos muito maus. Paciência, o prémio não foi feito para me agradar. Nem a mim, nem ao meu dentista. Foi feito para distinguir criação artística com base na linguagem fotográfica (em sentido muito amplo, como se tem notado). E eu, nesta fase do campeonato, prefiro olhar para o que se ganhou: ganhou-se estímulo para as práticas fotográficas que se situam fora da tradição documental; ganharam-se boas exposições; ganharam-se bons catálogos de fotografia; ganharam-se discussões sobre a imagem fotográfica e não só (coisa que raramente se faz em Portugal); ganhámos artistas que desconhecíamos; ganharam artistas muito bons que nunca tinham ganho quase nada; ganharam as galerias dos nomeados e dos premiados… ganhou a fotografia (em sentido muito amplo, como se tem notado).

Durante a última inauguração no Museu Berardo, retive duas palavras ditas a propósito desta décima: “perseverança” e “coragem”. Acho que são qualidades que se podem colar a um prémio que tem sabido ser teimoso em relação a um país onde tudo acaba prematuramente, e onde, por estranho que pareça, se desdenha o que é, em geral, bem feito.

Para já, no placard do BESPhoto a arte está a ganhar ao dinheiro. Oxalá o resultado neste jogo se mantenha e o árbitro não faça soar o apito final.

E o que se perdeu? Pouca coisa. Quase nada.



BESPhoto 2014
© David Rato

07 outubro, 2014

o último BESPhoto?

Vostok
© Letícia Ramos

O BESPhoto tem 10 anos e vai ser o que tem sido
(ípsilon, 06.06.2014)


Já não há grandes dúvidas, mas quem ainda as tenha só precisa de olhar para o enfiamento das três salas que abrigam as exposições do BESPhoto 2014 no Museu Berardo, em Lisboa, para ter a certeza de que é muito mais do que fotografia o que aqui se mostra. O que vemos a partir da porta de entrada é a exploração dos limites plásticos e cénicos das práticas fotográficas que, passo a passo, vão esboroando aqueles que foram durante décadas os seus formatos criativos tradicionais. As propostas de José Pedro Cortes, Délio Jasse e Letícia Ramos (os três nomeados de uma edição que comemora um número redondo, dez anos) não defraudam a imagem de marca de um prémio que escolheu, para além do nome, o suporte, a linguagem e a prática fotográficas como ponto de partida. E que, ao longo destes últimos dez anos, tem procurado mostrar como são infinitas as possibilidades da fotografia e como com ela se podem percorrer múltiplos caminhos, vias alternativas, todo o tipo de paragens e apeadeiros desse imenso caldeirão onde fervem as artes plásticas.

O anfitrião do Museu Berardo, Pedro Lapa, chamou exactamente pela riqueza dessa diversidade quando, na inauguração das exposições, chegou o momento de fazer o elogio do percurso até aqui traçado. Pouco depois, em conversa com o Ípsilon, lembraria um dos principais propósitos do BESPhoto, que ao longo do tempo tem sido alvo de críticas justamente por se “desviar” das propostas fotográficas mais clássicas. “O que encontramos neste prémio são trabalhos sobre as possibilidades e as tecnologias da imagem. E a relação que essas tecnologias têm ora com a própria história da arte, ora com os seus protagonistas, como a memória, o arquivo, o documento, as convenções ou as subversões das convenções. Esta diversidade é constitutiva do que são hoje as práticas fotográficas. Já não podemos pensar na fotografia como um papel onde é impressa — se calhar de forma analógica — uma imagem. Esse mundo teve o seu tempo.”

Num país onde escasseiam as distinções capazes de potenciar trabalhos que tenham a fotografia como base criativa na sua prática conceptualmente mais ampla (excepção talvez para os Encontros da Imagem de Braga), Pedro Lapa destaca ainda a persistência com que o principal mecenas do BESPhoto, um banco, tem encarado o prémio e tentado encontrar formas de garantir a sua continuidade e expansão. Em 2010, a abertura a países de língua oficial portuguesa foi uma delas. “Um prémio que chega aos dez anos merece que se sublinhe a sua perseverança. É de louvar, porque em Portugal este tipo de iniciativas tende sempre a desfalecer ao fim de um certo tempo. Esta, não. Tem continuado. E não só tem continuado como tem expandido o seu programa.”

O som vai estar alto

Um sinal de como esta teia de relacionamento e de prestígio além-Atlântico vai dando os seus frutos é a maneira como a brasileira Letícia Ramos (S. Antônio da Patrulha, 1976) vê a sua presença no prémio. Num momento em que afirma estar a abandonar as câmaras fotográficas (umas construídas por si, outras oferecidas, outras compradas…), Letícia afirma-se “surpreendida” pela nomeação e elogia a forma “corajosa” como o prémio tem apresentado “um tipo de fotografia que não é convencional”. “A fotografia é um dos suportes do meu trabalho, que é sobre a natureza da imagem, mas eu não sou fotógrafa — sou uma artista que trabalha com fotografia. Fico feliz com este tipo de escolha, porque revela o que o prémio tem sido e o que vai ser.”

Como que a lembrar permanentemente que nem só de fotografia trata o BESPhoto, o som da curta-metragem Vostok, de Letícia Ramos, a última obra do percurso expositivo, é uma constante em todas as salas da mostra. “O som vai estar alto, mas combina com o que vou falar”, avisou Letícia no início da apresentação do seu projecto expositivo a que chamou Nós sempre Teremos Marte. A música orquestral cinematográfica, de mistério denso, intercalada por barulhos aquáticos e comunicações de walkie-talkie, recria uma expedição científica às paisagens e às águas geladas de um lago pré-histórico da Antárctida, à boa maneira de Júlio Verne ou Jacques Cousteau. Ao longo dos oito minutos de filme, em ambiente de sala de cinema, somos confrontados com a dúvida sobre o que há de verdade e de documento no que estamos a ver. A intenção de Letícia é essa: confundir. Viciada em noticiários de ciência, a artista gaúcha gosta de questionar o estatuto das imagens produzidas pela comunidade científica, muitas vezes encaradas como matrizes, como documentos originais inquestionáveis. Para ela, essas imagens revelam ao mesmo tempo uma enorme abstracção, “uma poética” que lhe interessa explorar, não para descobrirmos alguma coisa mas sobretudo para aceitarmos a experiência do “desconhecido” e do dúbio. E para aprendermos a questionar o que se apresenta como absoluto.

“A minha produção sempre esteve relacionada com esse lado mais romântico das invenções e das descobertas. A ideia da exposição é trabalhar com o imaginário da fotografia da ciência e tentar desconstruí-lo”, explica Letícia, que vê nesta exposição uma mudança de rumo no seu método de criação. Até aqui era ela que fazia ou que procurava as câmaras que melhor se ajustavam às imagens que queria mostrar. Agora parte da construção conceptual das imagens e só depois pensa com que formato ou tecnologia as apresentará. O microfilme foi um dos suportes que mais explorou, talvez por causa do poder que ainda representa no Brasil, onde está presente em muitas instituições e arquivos e é classificado como “documento original”. É o tipo de convenção que se põe a jeito para o escrutínio criativo da artista. “Esta noção de original é muito estranha, porque com o excesso de uso o microfilme abstrai a imagem, o que significa que se vai construindo outra imagem.”

O estudo dos suportes e dos dispositivos em que são depositadas as imagens é uma das questões centrais na obra de Letícia Ramos, que cultiva ainda um gosto particular pela subversão dos formatos fotográficos, como quando apresenta fotografias de fotografias polaróide sem que a estética associada a esta se sobreponha ao conteúdo (elementos já de si pouco óbvios de detectar, como espectros, fantasmas, clarões, tudo coisas “sobrenaturais”). O culto da imagem das “auras inesperadas”, dos acidentes e das manipulações fantasmagóricas será, aliás, o próximo corpo de trabalho de Letícia, que gosta de “enganchar” umas coisas nas outras. Mas isso já será outra exposição.

Nas fronteiras da memória

Quem também gosta de “enganchar” umas imagens nas outras é o angolano Délio Jasse (Luanda, 1980), que apresenta o projecto expositivo mais espectacular entre os três nomeados. Numa sala situada entre as fotografias de hiper-realismo quotidiano de José Pedro Cortes e das ficções científicas de Letícia Ramos, Jasse propõe feixes de luz coloridos sobre tinas de água onde bóiam grandes impressões. Estes “documentos fotográficos”, como os classifica, revelam uma síntese perfeita entre a sua principal formação técnica — a serigrafia —, as referências que norteiam as suas propostas criativas — a memória, o arquivo —, e a sua experiência pessoal, patente na imagética gráfica de carimbos e números que povoou o longo processo burocrático até à obtenção da nacionalidade portuguesa.

A manobra criativa de Délio Jasse é herdeira de uma forte experiência de laboratório e de uma ideia de construção de imagem em camadas. Em Ausência Permanente, o artista angolano propõe uma reflexão sobre as transformações e o (des)ordenamento do espaço a que tem estado sujeita a capital Luanda e a memória de portugueses que por lá passaram. A iluminação que Jasse faz incidir sobre as imagens remetem para uma ideia de cidade sob escrutínio, uma cidade que está debaixo de focos de luz. Luanda vive “um processo de iluminação”, um lugar para onde “toda a gente olha”, mas nem sempre por bons motivos. Délio Jasse dá exemplos: a destruição do mercado de Kinaxixe (considerado uma pérola da arquitectura modernista) ou do prédio Cuca (em 2011), dois equipamentos que serão substituídos por centros comerciais. “Só querem arranha-céus. Estamos a falar de negócio. Não estamos a falar de escolas, hospitais… Estamos a falar de dinheiro. Há muitas obras feitas só para impressionar.”

Ao nível do chão, os retratos ampliados a partir de negativos de vidros comprados em feiras de rua misturam-se com paisagens urbanas em desalinho ou onde já existiram edifícios históricos. Uma terceira camada revela todo o tipo de marcações gráficas relacionadas com burocracia ou troca de correspondência pessoal ou de terceiros não identificados. “Há aqui também algo de reflexão sobre a história colonial que me leva às fronteiras da memória e da identidade”, explicou na apresentação da mostra que, juntamente com as outras duas exposições, será analisada pelo júri de premiação composto por Elvira Dyangani Ose, curadora de arte internacional da Tate Modern (Londres), Luis Weinstein, fotógrafo e organizador do Festival Internacional de Fotografia de Valparaíso, e María Inés Rodríguez, directora do CAPC, Musée d’Art Contemporain de Bordeaux. A decisão final sobre o vencedor será conhecida no dia 2 de Julho.

Sair de casa, olhar à volta

Com os pés cada vez mais assentes no presente, no dia-a-dia e no que o rodeia num raio muito curto está José Pedro Cortes (Porto, 1976). O momento que marcou a decisão de apresentar um conjunto de imagens orientadas pelo tempo e não pela narrativa ou pela serialidade, como até aqui vinha sendo norma no seu trabalho que tem sido sobretudo divulgado em livro, foi de tal maneira importante que Cortes quis assinalá-lo logo à partida. Um Eclipse Distante começa com uma fotografia do curto obituário que a artista Laurie Anderson escreveu para o marido, Lou Reed, dias depois de o músico ter morrido, a 27 de Outubro de 2013. Funciona como um pionés, só que, em vez de fixar um lugar, fixa um tempo muito preciso (a exposição esteve para se chamar O Ano em Que Lou Reed Morreu).

Aliado ao registo diarístico e de quotidiano urbanístico, muito focado nas falhas, nos acidentes paisagísticos e naquilo que pode representar algum tipo de incoerência, a proposta expositiva do fotógrafo e editor aposta muito no retrato e no corpo femininos. É um género já antes explorado no seu trabalho, mas talvez só agora surja com a intenção clara de mostrar o processo de construção e a procura da “imagem perfeita”, o que na verdade não passa de um desejo utópico (assumido), tanto para fotógrafo como para fotografadas.

O livro mais recente de José Pedro Cortes, Costa, um dos trabalhos que lhe valeram a nomeação para o prémio, ajudou-o a recentrar geograficamente a sua fotografia (agora mais próxima do lugar onde vive, Lisboa). Foi lá que conseguiu isolar um tipo de luz ofuscante, do Sul, que marca cada vez mais presença nas suas imagens do espaço público e que nesta exposição volta a ter um lugar de destaque. A tentação de fazer “um estado da arte” a partir de imagens captadas antes desta nomeação era grande, mas José Pedro Cortes preferiu trabalhar com novas imagens criando um projecto expositivo que aposta em formatos muito distintos. “Tinha de construir alguma coisa que me desse prazer fazer. As imagens de Costa ajudaram a focar-me em Portugal, em coisas que me são próximas. Já tive a sensação de que precisava de sair para fotografar, para fazer alguma coisa. Hoje, sinto precisamente o contrário — sinto vontade de fotografar aqui, à volta da minha casa.”

É na ponte entre espaço público e privado, entre paisagem e retrato, que o fotógrafo procura “construir uma harmonia entre superfícies” e uma “materialidade na fotografia”, na busca de “uma narrativa que não é em si uma história”. Quanto mais não seja, para sentirmos que a fotografia ainda pode ser palpável.



© José Pedro Cortes

22 janeiro, 2014

BES Photo 2014 - os nomeados

  
© Letícia Ramos


Délio Jasse (Angola), José Pedro Cortes (Portugal) e Letícia Ramos (Brasil) foram os escolhidos para o Prémio BES Photo 2014. Estes finalistas vão receber uma bolsa para desenvolverem trabalhos que serão expostos em 2014 no Museu Colecção Berardo em Lisboa e, com base nesses projectos, um júri elege depois o vencedor.

O júri que escolheu os três finalistas daquele que é um dos mais relevantes prémios de arte contemporânea em Portugal (que este ano cumpre uma década) foi composto por Jacopo Crivelli Visconti (Brasil), crítico e curador independente, João Fernandes (Portugal), subdirector do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, e Bisi Silva (Nigéria), fundadora e directora do Centre for Contemporary Art, em Lagos. Os finalistas foram seleccionados com base em exposições realizadas durante 2013.

Em comunicado, o júri justificou a escolha de Délio Jasse (n. 1980) com “a apresentação de três trabalhos distintos, mas inter-relacionados, que exploram as formas como o passado continuam a ter impacto no presente”. A viver em Portugal, desde que aos 18 anos deixou Angola para escapar ao recrutamento para a guerra em 1998, o angolano, que trabalha com a Galeria Baginski, em Lisboa, tem focado o seu trabalho em Luanda, revelando uma cidade em constante mudança, mas marcada fortemente pelo seu passado colonial. “Estes vestígios do passado manifestam-se de maneiras diferentes: através da história colonial, como na série Além_Mar (2013), através da transformação da paisagem urbana (especialmente numa cidade como Luanda, que cresce a um ritmo fenomenal, com a arquitectura dos anos de 1950 e 1970 a ser apagada por novos edifícios), como em Arquivo Urbano (2013), ou apenas através de imagens de indivíduos encontradas pelo mundo fora, em feiras de objectos usados, como em Contacto (2012)”, destaca o júri.

Sobre José Pedro Cortes (Porto, 1976), o júri escreve que este se tem “destacado com uma obra fotográfica que cruza o registo da vida urbana contemporânea com uma narrativa muito pessoal da intimidade e da anonímia na delimitação entre o espaço público e o privado, centrada na relação entre os lugares e as pessoas que os vivem”. E dá como exemplo Costa, uma série de fotografias feitas na Costa da Caparica. Este projecto foi apresentado no Carpe Diem, em Lisboa, já depois de ter sido seleccionado para a primeira edição do European Exhibition Photo Award, uma iniciativa de quatro fundações europeias (a Fundação Calouste Gulbenkian, a italiana Fondazione Banca del Monte di Lucca, a alemã Krber-Stiftung e a norueguesa Institusjonen Fritt Ord).

Por fim, o júri destaca o trabalho de Letícia Ramos (Rio Grande do Sul, 1976): “Revela um amadurecimento da sua prática artística, evidenciado pelas recentes exposições no espaço Pivô, em São Paulo, e no Museu do Trabalho de Porto Alegre”. “Para ambas [as exposições], a artista construiu aparatos que mostram o processo de criação de imagens ao mesmo tempo simples e sofisticadas, sugerindo também uma reflexão sobre a evolução do meio fotográfico”, lê-se no comunicado.

Esta é a quarta vez que o prémio é aberto a artistas de expressão portuguesa no Brasil e Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), uma alteração implementada em 2011, devido ao reconhecimento internacional que o prémio, no valor de 40 mil euros, começou a ganhar. O que significa também que os trabalhos destes artistas não serão apenas apresentados no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. Depois de aqui serem expostos em Maio de 2014, os trabalhos seguem para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, para uma exposição a inaugurar em Outubro.

Agora, cada um dos artistas seleccionados receberá uma bolsa para a produção de um projecto inédito, que será apresentado na exposição BES Photo. Num segundo momento, que corresponde à fase de premiação, um júri internacional, com nacionalidades distintas daquelas que são as dos finalistas, elegerá o vencedor, com base nestes projectos expostos.

Em edições anteriores foram reconhecidos Helena Almeida (2004), José Luís Neto (2005), Daniel Blaufuks (2006), Miguel Soares (2007), Edgar Martins (2008), Filipa César (2009), Manuela Marques (2011), Mauro Pinto (2012), e Pedro Motta (2013).



© José Pedro Cortes

© Délio Jasse

07 maio, 2013

BES Photo 2013: Motta



© Pedro Motta

O fotógrafo brasileiro Pedro Motta (Belo Horizonte, 1977) é o vencedor da 9ª edição do Prémio BES Photo, galardão que reconhece o trabalho de artistas lusófonos e que se apresenta como "o principal prémio de arte contemporânea em Portugal de estatuto internacional", com um valor pecuniário de 40 mil euros.
O júri que escolheu o trabalho de Motta era composto pelo escritor Geoff Dyer (Londres), o professor Luc Sante (Nova Iorque), e a crítica de arte Rosa Olivares (Madrid). Para o júri, o prémio resulta “da forma como Pedro Motta, através da série 'Natureza das Coisas', estabelece um diálogo entre diferentes expressões artísticas, pela aproximação destas a uma linguagem fotográfica autónoma". E sublinha "a forma como o artista desenvolve a percepção do real e do falso através da adivinha, da sugestão e do imprevisto, na utilização da paisagem enquanto género tradicional da história da arte”.
Os trabalhos dos artistas finalistas do prémio estão expostos no Museu Colecção Berardo até 2 de Junho, mostra que viaja depois para o Brasil para o Instituto Tomie Ohtake, novo parceiro do galardão.

© Pedro Motta

26 setembro, 2011

BESphoto2012


Cia de Foto, da série Carnaval
© Cia de Foto


Os finalistas do Prémio BESphoto 2012 são: Duarte Amaral Netto (Portugal); Mauro Pinto (Moçambique); Rosangela Rennó (Brasil); e CIA de Foto (Brasil).
Esta é a segunda edição internacional do maior de fotografia dos países que falam português.

A escolha deste ano ano foi feita por um júri de selecção do qual fizeram parte Diógenes Moura, curador de fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Brasil); Delfim Sardo, curador, crítico de arte e professor (Portugal) e Bisi Silva, curadora e fundadora/directora do Centro de Arte Contemporânea de Lagos, CCA Lagos (Nigéria).

O júri justificou a selecção destes nomes da seguinte forma:
- Duarte Amaral Netto: "(...) resultou do trabalho que tem vindo a desenvolver ao longo de uma década, e, especificamente, pela qualidade conceptual da exposição ‘The Polish Club Case’, apresentada em Lisboa."

- Mauro Pinto: "(...) a forma coerente como tem vindo a efectuar o mapeamento e a representação de Moçambique. Destaca-se o trabalho apresentado na exposição ‘Maputo – Luanda – Lubumbashi’, em Lisboa."

- Rosangela Rennó: "(...) complexidade da forma como tem desenvolvido uma maturada reflexão sobre a natureza do fotográfico, articulada com o papel da memória. Esta nomeação surge pelas exposições apresentadas na Galeria Vermelho, em São Paulo, e na Galeria La Fábrica, em Madrid."

- Colectivo CIA de Foto: "(...) a qualidade da série ‘Carnaval’ (apresentada no âmbito do ‘New York Photo Fest’), num processo de trabalho que revela segurança técnica e, sobretudo poética. Trata-se da preparação de uma segunda camada para a memória de cada uma das imagens, ou da série, como um todo. Este exercício extende-se ao vídeo que acompanha o trabalho, ao fazer com que cada personagem avance para o olhar do espectador criando um outro tempo num plano mais fechado."

Cada um dos artistas seleccionados vai receber uma bolsa de produção para a realização da exposição BESphoto. Um júri de premiação distinguirá depois o vencedor, cujo valor pecuniário do prémio é de 40.000 euros.

Duarte Amaral Netto, Frederik Papin with the runaway car, Chicago, March, 1962
© Duarte Amaral Netto

12 abril, 2011

Manuela Marques


Manuela Marques, In Situ, 2009 © Manuela Marques/Galeria Caroline Pagès





Manuela Marques, portuguesa radicada em Paris, é a vencedora do BesPhoto 2011, o maior prémio de fotografia atribuído em Portugal (40 mil euros).

O júri que escolheu o trabalho de Manuela Marques (Tondela, 1959) foi composto por Agustin Pérez Rubio, director do Museu de Arte Contemporânea de Castilla y León, pelo curador Jean Hubert Martin e por Awam Ampka, director de Estudos Africanos da Universidade de Nova Iorque.

A artista expõe regularmente em França desde há 20 anos. No ano passado realizou uma grande exposição individual (Cour intérieure) no Festival Photo Levallois. Em 2006, foi alvo de retrospectiva (Manuela Marques: 1997-2006) no Centre Photographique d’Ile de France, Pontault-Combault.

Em 1993, a galeria do Porto ImagoLucis (dedicada à fotografia) expôs pela primeira vez imagens suas em Portugal. Quase dez anos depois, em 2002, foi a vez dos Encontros da Imagem de Braga mostraram o seu trabalho. O júri de selecção justificou a sua escolha para o grupo de finalistas com "a sua poética da intimidade" expressa, por exemplo, na exposição In Situ realizada na Galeria Caroline Pagès, em Lisboa.

A exposição com trabalhos dos finalistas da edição deste ano (o português Carlos Lobo, o brasileiro Mauro Restliffe, o angolano Kiluanji Kia Henda e o moçambicano Mário Macilau) podem ser vistos no Museu Colecção Berardo até Junho.

Manuela Marques sucede a Filipa César, Edgar Martins (2008), Miguel Soares (2007), Daniel Blaufuks (2006), José Luís Neto (2005) e Helena Almeida (2004).

23 fevereiro, 2010

BESPhoto2009 para Filipa César


© Filipa César

Filipa César (1975) venceu o prémio BESPhoto 2009.

O júri de premiação justificou a sua escolha pela "criação de um objecto ímpar. Pela maneira inédita de tratar múltiplos problemas - a história de Portugal, a censura e a moral salazarista, o degredo, a homossexualidade feminina, o trabalho e a matéria - cruzando narrativas com geografia e construindo imagens em que o a-humano, o elementar, o cósmico, contaminam com fora inatingível, a acção do homem".

A artista foi seleccionada para a fase final do galardão pelos projectos Le Passeur, na Fundação Ellipse; Rapport/ Raccord, na Galeria Distrito Cuatro, em Madrid, e The Four Chambered Heart, na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa. Quando foi nomeada, o júri apontou "as qualidades fílmicas de documentário" do projecto Le Passeur e destacou nele "o olhar fotográfico consciente da tradição retratística do fotógrafo", considerando que esta relação está também bem explícita nos outros projectos da artista.

A exposição do artista vencedor daquele que já se transformou no principal prémio de arte contemporânea em Portugal (com um valor pecuniário de 25 mil euros) pode ser vista até ao dia 4 de Abril no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. Os artistas finalistas foram seleccionados por um júri composto pelos críticos de arte e comissários Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo com base em exposições realizadas no ano passado.

O júri de premiação foi constituído por José Gil, professor universitário, filósofo, ensaísta e ficcionista; Alberto Anaut, director da La Fábrica e presidente do PHotoEspaña e Marcel Feil, curador do Foam-Fotografiemuseum Amesterdam.

12 agosto, 2009

BES Photo - nomeados

Ontem de André Cepeda
© Susana Pomba aka missdove


André Cepeda, de 33 anos, Filipa César, de 34, e Patrícia Almeida, de 39, são os nomeados para o prémio BES Photo 2010. A escolha foi feita pelos críticos e comissários Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo, em função das exposições realizadas nos últimos 12 meses. André Cepeda foi nomeado pelas exposições Ontem, na Galeria Zé Dos Bois (ZDB), e River, na Galeria Pedro Cera; Filipa César, por Le Passeur, na Fundação Ellipse, Rapport/Raccord, na Galeria Distrito Cuatro, em Madrid, e The Four Chambered Heart, na Galeria Cristina Guerra; e Patrícia Almeida por Portobello, na ZDB e Art Allgarve 2009.

O júri de selecção justificou as suas nomeações assim:

André Cepeda: “consistência de apresentação de dois projectos que retratam realidades e contextos sociais que denotam um amadurecimento notável das formas expressivas do autor”.

Filipa César: “qualidades fílmicas de documentário do projecto Le passeur no qual se destaca o olhar fotográfico consciente da tradição retratística do fotógrafo. Esta relação fica bem explícita no projecto Rapport/Raccord apresentado na Galeria Distrito 4 e volta a ser visível no projecto The Four Chambered Heart apresentado na Galeria Cristina Guerra.

Patrícia Almeida: “olhar pessoal e atento da artista sobre um contexto social específico”. O júri salientou ainda "a importância da publicação do livro de autor no âmbito do projecto Portobello”.

08 abril, 2009

Edgar Martins vence BES Photo08


s/t, da série When light casts no shadow, 2008
© Edgar Martins

Edgar Martins, de 32 anos, tornou-se o fotógrafo mais novo a vencer o Prémio BES Photo, um dos mais importantes galardões de arte contemporânea atribuídos em Portugal com uma dotação de 25 mil euros. O júri de premiação foi constituído pelos curadores Agnès Sire e Paul Wombell e pela artista plástica Helena Almeida, vencedora da primeira edição do BES Photo.

A escolha de Edgar Martins para vencedor da quinta edição do prémio "resulta da coerência e da consistência do trabalho desenvolvido pelo artista, critérios patentes na forma como seleccionou e apresentou as obras em exposição. O diálogo estabelecido entre as séries de obras escolhidas, bem como a percepção e o aproveitamento do espaço expositivo na instalação das fotografias". O júri aponta ainda "a diversidade das técnicas utilizadas pelo artista, bem como o processo e o propósito do trabalho inédito apresentado".

Depois do anúncio do prémio feito pelo ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, Edgar Martins afirmou-se "genuinamente surpreendido" com este reconhecimento. "Comunicar através da arte e da fotografia é difícil. Talvez este cheque facilite esse processo de comunicação", disse o fotógrafo nascido em Évora, a viver em Londres desde o final dos anos 90.

Com um discurso a enaltecer o prémio e a sublinhar a sua importância no panorama da arte contemporânea em Portugal, o ministro da Cultura lançou um "desafio" ao presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado, também presente na ocasião, pedindo-lhe que abrisse uma linha de crédito com taxas indexadas à Euribor para compra de peças de arte. Para Pinto Ribeiro, devia comprar-se arte em Portugal "com a mesma facilidade com que se compram casas" numa tentativa de "apoiar o mercado e os artistas". A plateia reagiu com um burburinho.

O ministro da Cultura pediu ainda ao "sector financeiro" presente na sala que apoiasse residências de artistas portugueses no estrangeiro em troca de obras de arte produzidas por esses criadores. Desta vez a reacção da audiência foi mais discreta.

Luís Palma e André Gomes foram os outros finalistas do Prémio BES Photo. A exposição com trabalhos inéditos dos três artistas estará patente ao público no Museu Colecção Berardo até ao dia 17 de Maio.

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23 setembro, 2008

GomesMartinsPalma

Edgar Martins, Topologies

Foram hoje divulgados os artistas seleccionados para a fase final do prémio BES Photo. André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma vão disputar o maior galardão de fotografia (25 mil euros) atribuído em Portugal. O júri de selecção foi composto pelos críticos de arte Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo que decidiram por unanimidade escolher estes três artistas por exposições apresentadas em 2007.
André Gomes foi escolhido pela exposição Macha, no Teatro Municipal de Almada (5 a 27 de Maio de 2007) e no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro de 2007), Edgar Martins pela exposição Topologies, no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro - 28 de Fevereiro de 2007) e Luís Palma pela exposição Territorialidade, Galeria Presença, Porto (7 de Janeiro a 23 de Fevereiro 2008).
O júri justificou as suas escolhas assim:
André Gomes pela "consistência de um longo percurso no qual a qualidade narrativa, a relação com a literatura e a teatralidade, bem como um raro sentido de relação com a transcendência, conferem uma marcante originalidade ao conjunto da obra";
Edgar Martins pelo "rigor da sua obra e o entendimento da fotografia como um meio artístico complexo que o artista tem vinculado a uma compreensão da paisagem nas suas mais diversas acepções";
Luís Palma pela "solidez do seu entendimento da relação entre fotografia e arquitectura, bem como a forma como a paisagem urbana tem vindo a encontrar no seu trabalho um mapeamento exemplar".
A exposição BES Photo será apresentada em Março de 2009 no Museu Colecção Berardo, que, desde o ano passado, organiza o prémio com o Banco Espírito Santo. O júri que escolherá o vencedor terá uma composição de âmbito internacional que ainda não foi divulgada.
Os vencedores das edições anteriores foram:
Helena Almeida (2004)
José Luís Neto (2005)
Daniel Blaufuks (2006)
Miguel Soares (2007)

12 abril, 2008

BESPhoto é photo?

Miguel Soares, retarC, 2008
(© Miguel Soares)

Causa sempre algumas interrogações a escolha dos candidatos e a atribuição do prémio BESPhoto. A edição deste ano, que reconheceu o trabalho de Miguel Soares, não foi excepção. Foi para tentar perceber melhor os parâmetros que regem o galardão e os caminhos que trilha a fotografia contemporânea que Inês Nadais escreveu no P2 o texto O "photo" em BESPhoto está a mais?. A procura de respostas foi feita com a ajuda de depoimentos de Maria do Carmo Serén (investigadora e historiadora) e Ricardo Nicolau (adjunto do director do Museu de Serralves e júri de selecção da edição deste ano do prémio).

O texto pode ser lido aqui.

07 abril, 2008

Miguel Soares vence BESPhoto

Miguel Soares, da série Liine, 2007
(Miguel Soares)

Miguel Soares ganhou IV Prémio BESPhoto, um galardão patrocinado pelo Banco Espírito Santo e pelo Museu Colecção Berardo. Os outros participantes da fase final do prémio eram Daniel Malhão e Eurico Lino do Vale. Luísa Cunha, também seleccionada, preferiu ficar de fora. O vencedor vai receber 25 mil euros. Miguel Soares concorreu com três séries de fotografias (planetas, crateras e carros).

"A nossa vontade de aceitar a ilusão, mesmo em casos inverosímeis e tecnicamente imperfeitos, a chamada teoria da Suspension of Disbelief interessa-me imenso. Há coisas que víamos há vinte anos atrás e pareciam altamente verosímeis e realistas e que hoje em dia parecem muito mal feitas", disse o artista sobre os trabalhos enviados a concurso.

O júri de selecção falou numa "reflexão sobre o real, uma ligação estreita entre a música e as imagens e uma análise dos mecanismos que regulam e determinam a percepção. (...)"

Miguel Soares (1970, Braga) tem formação em fotografia (Estudos de Fotografia no Ar.Co, Centro de Arte e Comunicação Visual, Lisboa) e uma licenciatura em design de equipamento (Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa).

Para ver mais fotografias da série Liine clique aqui.
Para ler uma conversa entre o artista e Filipa Ramos clique aqui.

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02 abril, 2008

PHE08

Florian Maier-Aichen, sem título, 2007
(© Florian Maier-Aichen, cortesia Blum & Poe, Los Angeles)


Está apresentado o programa do XI PHotoEspaña. E Portugal é, como se antevia, um dos protagonistas do Festival de Fotografia e Artes Visuais que tem conquistado uma posição de destaque no panorama fotográfico europeu.

Um ano depois de ter experimentado uma edição comemorativa sem tema estruturante e sem a figura de comissário, o festival madrileno volta ao modelo clássico de funcionamento com um fio condutor: Lugar.

Para o Museu Colecção Berardo, em Lisboa, virá a exposição colectiva Utopia (Frédéric Chaubin, Gayle Chong Kwan, Arni Haraldsson, Mathieu Pernot, entre outros). O Museu de Portimão receberá Sem Actividade, um projecto de Ignasi Aballí. Em Madrid, serão expostos os trabalhos dos três fotógrafos finalistas do Prémio BESPhoto (Daniel Malhão, Eurico Lino do Vale e Miguel Soares) e haverá ainda fotografias de Augusto Alves da Silva, Pedro Barateiro e João Maria Gusmão/Pedro Paiva.

A Secção Oficial contará com 32 exposições de alguns dos grandes mestres da fotografia (W. Eugene Smith, Bill Brandt, Robert Smithson) e dezenas de artistas contemporâneos (Javier Valhonrant, Thomas Demand, Roni Horn) que tentarão fazer um diálogo em torno do tema Lugar. Caberão aqui projectos convidados, exposições de prémio de fotografia internacionais e colecções privadas.

No Festival Off as principais galerias de arte de Madrid apresentam 37 exposições que poderão estar fora do tema principal proposto. É também dentro do do Off que decorrerão o Campus PHE - wokshops e conferências - o Descubrimientos PHE - apresentação de portfólios - e o Encuentros PHE - debates à volta da imagem fotográfica.

O lançamento do programa foi acompanhado com a renovação do sítio do festival que pretende tornar-se "um portal de referência para todos os amantes da imagem". Para além do noticiário geral do PHE, a organização quer ter informação permanente sobre a actualidade fotográfica internacional. Haverá um blogue com a participação de vários fotógrafos e será estreada a PHETV, plataforma audiovisual que produzirá especificamente e em exclusivo para o sítio do PHotoEspaña.

14 março, 2008

nomeados

Daniel Malhão

Foi ontem inaugurada no Museu Colecção Berardo a exposição da 4ª edição do prémio BESPhoto que mostra trabalhos recentes de Eurico Lino do Vale, Daniel Malhão e Miguel Soares.
Estes três artistas foram seleccionados para a fase final do galardão por um júri composto por Albano da Silva Pereira, José Luís Neto, Leonor Nazaré, Nuno Crespo e Ricardo Nicolau. O vencedor será anunciado no dia 7 de Abril.

Eurico Lino do Vale


Miguel Soares

02 dezembro, 2007

pensar

Atlântico visto do Cabo de Sagres, Pedro Neves Marques
(© Pedro Neves Marques)

Desde a primeira edição do prémio Bes Revelação que não se têm calado as vozes críticas a propósito do reconhecimento de trabalhos que usam o suporte ou a linguagem fotográfica dentro do vasto campo das artes visuais.

Sobre essa polémica Ricardo Nicolau, adjunto do director do Museu de Serralves, escreveu um curto ensaio onde se isolam problemáticas e se tentam identificar os campos de acção de cada artista seleccionado:

O que aconteceu à fotografia?*

‘O que aconteceu à fotografia?’ e, mais especificamente, ‘Onde está a fotografia?’, são duas perguntas recorrentemente associadas às duas primeiras edições do BES REVELAÇÃO, que apresentaram nos últimos anos, sempre na Casa de Serralves, o trabalho de jovens artistas – e não estritamente jovens fotógrafos – mostrando objectivos (esculturas e vídeos, nomeadamente) que à partida pareciam dissociar-se daquele suporte.
A presente exposição, apresentando trabalhos de Catarina Botelho, Ivo Andrade e Pedro Neves Marques vem confirmar, senão agudizar, aquelas dúvidas disciplinares, ou ontológicas, contribuindo mais uma vez para questionar o que se poderá afinal entender por ‘campo da fotografia’. Não apenas porque são de novo apresentados objectos (livros, peças escultóricas) e vídeos,mas também porque à produção fotográfica propriamente dita não correspondem autores fotógrafos, mas artistas. Explico melhor: mesmo quando se apresentam fitigrafias ded alguém, como CATARINA BOTELHO, que tem adoptado a fotografia como suporte exclusivo do seu trabalho, deve ter-se presente que este não se confronta com a história da fotografia, mas com a história das arte visuais, e que tem como horizonte de recepção o campo da arte, mais do que o da fotografia em sentido estrito – confirmam-no os projectos em que a artista se tem envolvido, os espaços e os contextos em que tem apresentado o seu trabalho, bem como a sua recepção crítica.
Optando pela fotografia instantânea, pelo “estilo sem estilo”, Catarina Botelho salvaguarda a natureza subjectiva e auto-biográfica do seu trabalho, plasmando o não procurado, o involuntário. Aponta a realidade ao mesmo tempo que nos recorda que a fotografia nunca a pode representar.
Ivo Andrade e Pedro Neves Marques, os outros dois artistas apresentados nesta exposição têm com a fotografia uma relação particular, cujas raízes se podem encontrar na arte dos anos de 1960 e 1970: utilizam, por vezes com fina ironia, a sua inata capacidade para descrever as coisas, a sua longa história de registo e de demonstração.

As imagens de IVO ANDRADE, por exemplo, jogam com o estatuto documental da fotografia, Fotografando batatas esculpidas em forma de rosto, e aoresentando-as como objecto técnico, informativos, o artista explora zonas liminares entre arte autónoma e documento útil.
PEDRO NEVES MARQUES, impõe o acto de fotografar como momento de autenticação, tirando partido da relação estrutural entre fotografia e legenda. Nos seus livros o artista aponta o limite do potencial documental da fotografia, declarando uma série de factos não verificáveis nos textos que acompanham as imagens – datas, localizações, itinerários.
É curioso como estes dois trabalhos, aparentemente afastados da fotografia em sentido estrito, de alguma forma herdeiros da arte conceptual, conseguem simultaneamente apontar para as características que podem ajudar a defini-la. Recordemo-nos que Jeff Wall argumentou num célebre texto
[1] que a orientação da arte conceptual para a fotografia representou uma curiosa procura do ideal modernista de auto-reflexidade di medium, permitindo localizar os traços que o definiriam.
Esta edição do BES REVELAÇÃO, permite uma aproximação crítica à fotografia, reconhecendo os esforços pioneiros dos artistas conceptuais dos anos de 1960 e 1970 e o compromisso dos seus “sucessores”, e instaura, pela terceira vez, a Casa de Serralves como um lugar priveligiado para examinar a relação da arte com a fotografia.

Ricardo Nicolau

*Título pedido de empréstimo a um livro que reúne uma série de conferências apresentadas no congresso Photography, Philosophy, Technology [Fotografia, Filosofia, Tecnologia], celebrado em Abril de 2002 e onde participaram nomes fundamentais da teoria da imagem, como David Green, Steve Edwards, Geoffrey Batchen, Peter Osborne, David Campany and Laura Mulvey. Este congresso foi o primeiro organizado pelo Photophorum, uma colaboração entre a Universidade de Brighton, o Kent Institute of Art and Design e o Surrey Institute of Art and Design University College. Foi criado com o principal objectivo de promover o debate crítico sobre a fotografia contemporânea, especialmente no que se relaciona com a sua função nas práticas artísticas. David Green (ed.), Qué há sido de la fotografia?, Barcelona: Editorial Gustavo Gili, S. L., 2007.
1 Jeff Wall, “Marks of indifference: aspects of photography in, or as, conceptual art”, in Douglas Fogle (ed.), The last picture show: artist using photography. 1960-1982, Walker Art Center, Mineapolis, 2003, pp. 32-44 [originalmente publicado in Ann Goldstein e Anne Rorimer (org./ed.), Reconsidering the object of art, 1965-1975, Museum of Contemporary Art, Los Angeles, 1995, pp. 247-267].


Sem título (Luísa a descascar feijão verde), 2007
(© Catarina Botelho)

BES REVELAÇÃO
Casa de Serralves, Porto
Até 6 de Janeiro

08 agosto, 2007

4-1=3

Uma instalação de Luísa Cunha exposta em Serralves
(Enrique Touriño)

E à quarta edição do Bes Photo há mais um artista a recusar-se participar no prémio. Luísa Cunha, uma das quatro escolhas do júri de selecção, prefere ficar de fora da fase final do maior galardão de fotografia atribuído em Portugal, ficando a concurso Daniel Malhão, Eurico Lino do Vale e Miguel Soares. Paulo Nozolino e a dupla João Maria Gusmão/Pedro Paiva também já tinham recusado entrar no prémio em edições anteriores. Vanessa Rato dá mais pormenores sobre o Bes Photo 2007 no Público de hoje.

Luísa Cunha tem actualmente uma exposição no Museu de Serralves, no Porto. O texto de apresentação da mostra diz o seguinte:

"Luísa Cunha (Lisboa, 1949) é uma das artistas mais singulares e inovadoras do contexto artístico português. Revelada na década de 90, a sua obra tem-se desenvolvido em diferentes media, como a escultura, o som, a fotografia e o vídeo, mas partindo sempre de enunciados linguísticos. Esta exposição, exibindo uma parcela considerável da sua obra vem finalmente permitir um confronto do público com as várias vertentes do seu trabalho e com a diversidade dos seus processos criativos, bem como um inédito confronto entre as próprias obras que foram sendo exibidas de modo avulso ao longo dos últimos 15 anos."

07 agosto, 2007

Malhão#Vale#Soares

D. Carlos
(© Eurico Lino do Vale)

Daniel Malhão, Eurico Lino do Vale e Miguel Soares são os candidatos à 4ª edição do Prémio BES Photo, o mais importante galardão na área da fotografia em Portugal.
O júri de selecção foi composto por Albano da Silva Pereira, director do Centro de Artes Visuais de Coimbra, pelo artista José Luís Neto, vencedor do BES Photo 2005, Leonor Nazaré, curadora do Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão da Fundação Calouste Gulbenkian, Nuno Crespo, crítico de arte, e Ricardo Nicolau, adjunto do director do Museu de Serralves.

A selecção dos artistas teve como base as exposições realizadas entre 1 de Julho de 2006 e 31 de Julho de 2007.

:Daniel Malhão: pela exposição Título (Galeria Vera Cortez - Agência de Arte)

:Eurico Lino do Vale: pelos Retratos dos Túmulos dos Reis de Portugal (Galeria Carlos Carvalho)

:Miguel Soares: por uma exposição individual (Galeria Graça Brandão)

Os trabalhos dos três artistas seleccionados vão poder ser revistos no Museu Colecção Berardo em Março de 2008, altura em que o júri de premiação seleccionará o vencedor. Em 2006, o júri atribuiu o prémio a Daniel Blaufuks. José Luís Neto (2005) e Helena Almeida (2004) foram os outros vencedores. O BES Photo, este ano patrocinado pelo Banco Espírito Santo em parceria com o Museu Colecção Berardo, é o prémio de fotografia com o valor pecuniário mais avultado em Portugal - 25 mil euros.

02 março, 2007

mentiras?

© Vasco Araújo, da série O que Eu Fui

Todas as imagens são uma mentira? Alexandra Prado Coelho ensaia uma resposta no ípsilon de hoje partindo das quatro exposições do Bes Photo (Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, Susanne S. D. Themlitz, Vasco Araújo), no CCB até ao dia 18 de Março.


© Daniel Blaufuks, sem título, 2005

27 fevereiro, 2007

Blaufuks vence Bes Photo


I Spy, da série Collected Short Stories, 2003 ( © Daniel Blaufuks)


Daniel Blaufuks venceu a edição deste ano do Bes Photo, o maior prémio de fotografia atribuído em Portugal. O nome escolhido pelo júri foi anunciado esta noite. Para além de Blaufuks, chegaram à fase final do galardão Vasco Araújo, Susanne S. D. Themlitz e Augusto Alves da Silva. Do júri de premiação fizeram parte Kate Bush (directora da Barbican Art Gallery), Manuel Castro Caldas (director do Ar.Co), Olga Sviblova (directora e curadora do Moscow House of Photography), Pepe Font de Mora (director da Fundación Foto Colectania) e Tereza Siza (directora do Centro Português de Fotografia).
Daniel Blaufuks junta-se a Helena Almeida e a José Luís Neto, vencedores das duas edições anteriores.
Fotógrafo lisboeta descendente de judeus polacos e alemães, Blaufuks (n.1963), começou a estudar fotografia no Ar.Co (Lisboa), continuou no Royal College of Art (Londres) e na Watermill Foundation (Nova Iorque). No final dos anos 80, os jornais Blitz e Independente publicaram as suas primeiras imagens. Em 1991, colabora com o escritor americano Paul Bowles em My Tangier, projecto a partir do qual a sua fotografia fica ligada à literatura, paixão antiga à qual nunca se entregou "por falta de confiança" nos seus talentos. Para além do suporte fotográfico usa outros meios para apresentar as suas obras, como o vídeo e os diários fac-similados. Em 1994 publica os London Diaries e, um ano depois, apresenta Ein Tag in Mostar. Uma Viagem a São Petersburgo surge em 1998. Mais recentemente, em 2003, publicou Collected Short Stories, um conjunto de dípticos fotográficos que se apresentam como "uma escrita de instantâneos" para cruzar público e privado.
Tem também um trabalho paralelo como documentarista. O primeiro filme nesse registo, Sob Céus Estranhos (2002), aborda a passagem de refugiados judeus por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial. Paisagens Invertidas (2002) reflecte sobre a arquitectura portuguesa e Um Pouco Mais Pequeno que o Indiana (2006) problematiza a paisagem e a memória colectiva em Portugal.
A série que mostrou no Centro Cultural de Belém deu a ver imagens de Terezín (antes chamada Theresienstadt, República Checa), uma localidade transformada em campo de concentração pelos nazis alemães.
As respostas de Daniel Blaufuks ao *Três perguntas a... estão aqui.

 
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