31 agosto, 2008

valores humanos

In the kitchen during a house-party in Tehran
(© Olivia Arthur)


Os trabalhos dos 10 fotógrafos finalistas do Prémio PHotoEspaña OjodePez Volkswagen de Valores Humanos 2008 vão passar por várias lojas Fnac em Portugal. A primeira exposição é inaugurada no dia 11 de Setembro na Fnac Cascais Shopping. A inglesa Olivia Arthur venceu a primeira edição com o projecto Iran: Beyond the Veil. O júri foi composto por Tina Ahrens (editora gráfica), Gigi Gianuzzi (editor), Alberto García (responsável de publicidade da Volkswagen Espanha), Arianna Rinaldo (chefe de redacção da OjodePez) e Sérgio Mah (comissário PHotoEspaña). O espanhol Matias Costa foi reconhecido com uma menção honrosa com o trabalho Cargo. Os outros fotógrafos finalistas foram Daniel Stier, Frank Rohe, Johann Rousselot, Juergen Stein, Krisanne Johnson, Maziar Moradi, Rena Efendi e Stefano De Luigi.
Olivia Arthur, que foi recentemente nomeada para fotógrafa da agência Magnum, recebeu um prémio de 6 mil euros e vai ter uma exposição individual no PHotoEspaña 2009. Tanto o trabalho vencedor como os finalistas terão os seus trabalhos publicados no número extra de Outono de 2008 da revista OjodePez.
Para além do Cascais Shopping, a exposição poderá ser vista nas lojas do Norte Shopping (Porto), Braga, Vasco da Gama (Lisboa) e Viseu.

no chão

(© Kim Kyung-Hoon/Reuters)

É tão diferente o chão que estes dois corpos beijam. É tão desigual a causa que os deitou por terra. Usain Bolt olha para o céu em êxtase, coberto de glória. O monge tibetano esfrega a cara no alcatrão húmido em desespero, coberto de humilhação. É sempre comovente e extraordinária a multiplicidade de emoções que o mesmo acontecimento pode gerar.


(© Manpreet Romana/AFP)

30 agosto, 2008

C



A Fnac vai distribuir em Portugal a C, uma das mais exclusivas revistas de fotografia da actualidade. O lançamento oficial está agendado para 25 de Setembro (Fnac Colombo), dia em que será apresentado o número 7 da revista e uma exposição de 26 fotografias de 14 artistas que passaram por todas as edições anteriores: Amy Stein (EUA), Aniu (China), António Girbés (Espanha), Duarte Amaral Netto (Portugal), Flore-Aël Surun (França), Juan Manuel Castro Prieto (Espanha), Julia Fullerton-Batten (Alemanha), Kyungwood Chun (Coreia do Sul), Marcos López (Argentina), Marie Taillefer (França), Mitra Tabrizian (Irão), Sun Hongbin (China), Wang Qingsong (China) e Yasumasa Morimura (Japão).

Para folhear os últimos seis números da c clique aqui

(© Flore-Aël Surun)

Perpignan - 20 anos

(© Alexandra Boulat/VII)

Fotografia artística não entra, é isso que o Visa Pour L’Image diz, curto e grosso, no regulamento: “Gostaríamos de lembrar que somos um festival internacional de fotojornalismo. Lidamos com acontecimentos actuais e não estamos interessados em fotografia artística.”
Não é assim tão simples, claro – Paolo Pellegrin, por exemplo, está aqui como está nos Rencontres d’Arles, outro festival francês, consagrado à fotografia artística por excelência –, mas a fotógrafa portuguesa Sandra Rocha, do colectivo Kameraphoto (que desde 2003 está presente na Semana Profissional do Visa Pour L’Image, uma espécie de FIL com 250 agências e associações de fotógrafos de mais de 60 países), garante que o espírito é “fotojornalismo puro e duro”.
Jean-François Leroy, o director deste Festival Internacional de Fotojornalismo que anualmente se realiza em Perpignan, no sul de França, costuma dizer que programa o Visa Pour L’Image como se editasse um grande jornal, por isso é um filtro privilegiado para olhar o mundo e, em particular, para as suas convulsões mais recentes. Nas 30 exposições desta edição é inevitável encontrar o Iraque ou o mortífero terramoto que abalou a China em Maio, mas também há trabalhos de fôlego sobre acontecimentos e casos menos conhecidos ou ignorados – histórias como a da humanitária do Burundi, Marguerite Barankitse, que criou um oásis no inferno para milhares de crianças órfãs, ou os gangs de São Salvador.
Perpignan é também um lugar onde os fotojornalistas podem pendurar as suas imagens na parede sem meter a mão na consciência – a migração do fotojornalismo para as galerias, face ao desinteresse ou constrangimentos da imprensa, é uma realidade cada vez maior, mas isso constitui um problema ético para muitos profissionais.
Faz 20 anos o festival – o tempo voa, diz Jean-François Leroy, mas nota-se que foi há muito, muito tempo. “Parece que foi ontem que dissemos pela primeira vez: 'Vamos montar um festival só de fotojornalismo.’ As pessoas riram e gozaram: 'Estão malucos! Quem pensam que são?” Não queriam acreditar: 'Vai ser um desastre’.”

(P2, Público, 30.08.2008)

O programa do festival está aqui
A jornalista do Público Kathleen Gomes falou com Paolo Pellegrin, um dos fotógrafos em destaque no festival. Para ler essa entrevista clique aqui
Se quiser descarregar uma entrevista com o director, Jean-François Leroy, clique aqui

La Vida Loca
(© Christian Poveda/Distribution Vu)


20º Visa pour L’Image
Perpignan
De 30 de Agosto a 14 de Setembro

29 agosto, 2008

peregrinação

Xangai, China, 2006
(© Virgílio Ferreira)


Desde Julho que Virgílio Ferreira mostra Daily Pilgrims (Peregrinos do Quotidiano) no Centro Português de Fotografia. O conjunto revela paisagens urbanas asiáticas habitadas por personagens em trânsito fantasmagóricas, paradoxalmente sempre muito presentes. O catálogo da exposição, a cargo do autor, ficará como um dos melhores livros de fotografia do ano no escasso mercado editorial português. O design responde acertadamente ao formato das imagens e ao espírito intimista e ao mesmo tempo grandiloquente do trabalho.

Maria do Carmo Serén escreveu este texto para a apresentação da mostra:

Peregrinos do Quotidiano é um dos últimos projectos de Virgílio Ferreira que o levou a percorrer as cidades globalizadas asiáticas como Pequim, Xangai, Hong-Kong, Macau, Tóquio e Bangkok. O objectivo declarado liga-se com essa figura da Sociologia que lhe dá o título: o universo que se adivinha nos gestos e actividades dos habitantes urbanos do mundo em rede mediática.
Tudo nos surge numa perspectiva fotográfica muito actual, exuberância de cor em imagens directas, sem trabalho digital, debitando as alegorias contemporâneas do olhar fotográfico, como o desfocado a sobre-exposição e os 'timings' dessa mesma exposição, o objecto fotográfico fragmentário e ocultado, os contrastes entre a nitidez do fundo ou do primeiro plano e, acima de tudo, a composição que procura representar o que fica no olhar errante. Trata-se, pois, de um trabalho de autor que tem o mérito de deixar uma forte impressão sobre essas duas realidades coincidentes: a globalização patente no vasto continente asiático, (cidades pós-modernas, preenchidas pela informação) e a emergência multicultural de características orientais que não deixam perder o espírito da festa e da fundação: a ornamentação, um certo excesso da cor, a profusão do dourado, um ou outro traço cultural.
E, naturalmente, a solidão que matiza as metrópoles da contemporaneidade, mais nítida ainda porque temos de a identificar num rosto na penumbra, no alheamento dos gestos, sem velhas estratégias de abandono e melancolia.

>>post relacionado:
>/uma fotografia, um nome\

Xangai, China, 2006
(© Virgílio Ferreira)

28 agosto, 2008

da guerra



Memory of Fire: the War of Images and Images of War é o tema da Brighton Photo Biennial 2008 que, entre 3 de Outubro e 16 de Novembro, discutirá a criação, uso, circulação e estatuto das imagens fotográficas de guerra nas sociedades contemporâneas. Dez exposições da bienal serão comissariadas pelo escritor e crítico Julian Stallabrass que analisará a maneira como, desde o conflito do Vietname até aos nossos dias, as fotografias de guerra foram condicionadas pelas mudanças sociais e políticas. Entre fotografia, vídeo e material distribuído online, estarão representados fotojornalistas, artistas plásticos e fotógrafos amadores.
O site da Brighton Photo Biennial 2008 funciona numa lógica de blogue e permite debater o tema e os trabalhos propostos. Aqui

27 agosto, 2008

férias com Martin



Está indeciso entre o Pulo do Lobo e Benidorm? Águas bravas ou águas calmas? Areia fina ou areia grossa? Não sabe que rumo tomar nas suas férias? Sugestão: vá para a Ilha de Wight com Martin Parr aprender a encontrar a fealdade na beleza e o horror no lazer.
A empresa de turismo cultural The School of Life convenceu o fotógrafo da Magnum a explicar o que é que o atraiu tanto num dos grandes destinos de férias dos ingleses. Entre 19 e 21 de Setembro, os participantes ficarão alojados num dos hoteis preferidos de Parr e farão com ele visitas aos principais pontos turísticos da ilha. Pelo caminho, o fotógrafo inglês falará do seu trabalho e das suas famosas colecções de postais chatos.
Para saber mais sobre as férias com Martin Parr clique aqui

The Isle of Wight is a living theme park, like stepping back into an England of 20 or 30 years ago.

Martin Parr

Goldblatt

David Goldblatt em Serralves
(Paulo Pimenta/Público)


E comecei a gostar da língua. Isto colocou-me num conflito: vinha uma pessoa à loja que queria comprar um fato, uma camisa, meias, sapatos e eu tinha de a atender. E sabia que ela era racista, mas contudo, não conseguia deixar de gostar dela. Tinha necessidade de saber as razões disto e assim comecei a tirar fotografias de algumas destas pessoas.

O crítico do Público Óscar Faria falou com o fotógrafo sul-africano David Goldblatt a propósito da exposição Intersecções Intersectadas, inaugurada recentemente no Museu de Serralves, no Porto.
O resultado dessa conversa está aqui

Intersecções Intersectadas, de David Goldblatt
Museu de Serralves, Porto
Até
12 de Outubro

pelo bairro

(© João Santa Rita)

Esta é a fotografia vencedora da II Maratona de Fotografia Digital de Alfama. O concurso, organizado pela Associação do Património e População de Alfama, segue uma lógica temática à volta de vários aspectos do bairro. Foram submetidas a apreciação mais de 1100 fotografias captadas por 94 participantes que chegaram à fase final. A imagem de João Santa Rita, vencedora na categoria de Melhor Fotografia Individual, foi tirada dentro da colectividade Magalhães Lima e sublinha dois adjectivos em fricção que se podem colar a Alfama: folclórico; lânguido.

26 agosto, 2008

para Évora

(© José Manuel Rodrigues)


Conhecíamos mal o trabalho de José Manuel Rodrigues. Desconfiávamos disso, mas agora temos a certeza. Sobretudo depois de ver a exposição antológica que lhe é dedicada e que se pode visitar no Palácio da Inquisição na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. Revelam-se quase quatro décadas de labor fotográfico cruzado com doses generosas de criações experimentais e performativas realizadas maioritariamente durante os anos de Amesterdão.
Conhecíamos mal o trabalho de José Manuel Rodrigues e se calhar ainda não conhecemos bem. Ou melhor, conhecíamos mal mas queremos conhecer ainda mais. É essa uma das sensações com que se sai do belíssimo e austero Palácio da Inquisição, um espaço escolhido a dedo para dar abrigo a uma das melhores exposições de fotografia que este ano já viu.
À medida que as salas vão ficando para trás, descobrimos que José Manuel Rodrigues não gosta de sacralizar o negativo, a fotografia e o fotográfico. Pelo contrário, procura neles uma linguagem e um modo de expressão que usa para criar narrativas fotográficas, não necessariamente em fotografia (ou não apenas em fotografia). Há jogos sensoriais, de identidade, de matéria e de cor. Há ironia e desconstrução da ideia de espaço. Há intimidade e experiência (mãe do saber). E há um encontro perfeito - cada vez mais raro - entre um lugar e uma obra artística. A mão de Rui Oliveira, comissário de Antologia Experimental, soube guiar na perfeição cada trabalho para cada parede, cada corredor, cada sala. São memoráveis os diálogos entre imagem fotográfica e projecto museológico criados na Sala do Templo (In Situ), na Sala da Catedral (Vista) e na Sala do Tribunal (Lugar).
O que se pode ver em Évora não é só o percurso pessoal de José Manuel Rodrigues rumo à maturidade enquanto fotógrafo. É também a expressão de um artista que soube beber de um tempo e de um lugar particulares, em agitação criativa e em desalinho institucional. No fim, percebemos que José Manuel Rodrigues é um fotógrafo que só agora começamos a conhecer.
Notícia de última hora: a exposição foi prolongada até final de Outubro.
Aviso: por esta altura o calor aperta na planície. É melhor ir pela fresquinha.

A crítica que Luísa Soares Oliveira escreveu no Ípsilon desta semana está aqui
O Arte Photographica revela em primeira mão o texto de introdução do catálogo (ainda no prelo) assinado por Rui Oliveira. Aqui

Lugar, Sala do Tribunal

Antologia Experimental, de José Manuel Rodrigues
Palácio da Inquisição, Fundação Eugénio de Almeida, Évora
Todos os dias, das 9h30 às 18h30
Até 30 de Outubro

25 agosto, 2008

HCB 2

Henri Cartier-Bresson
(Charles Platiau/Reuters)


Pedro Mexia escreveu no P2 sobre Henri Cartier-Bresson à boleia do centenário do mestre que se cumpriu na sexta-feira. Em o Príncipe Incógnito Mexia traça um breve percurso profissional de HCB e manifesta um fascínio pelos retratos bressonianos.

O texto de Pedro Mexia está aqui

23 agosto, 2008


entre aspas

Miguel Santos, da série Love Forbids us to Love, 2007
(
© Miguel Santos, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa)

tous les voyages sont le début d`un retour aux sources.
un retour aux sources est le début de tous les voyages.


Al Berto, Dispersos, Assírio & Alvim

22 agosto, 2008

HCB

Henri Cartier-Bresson

Henri Cartier-Bresson nasceu há 100 anos. O mestre detestava comemorações e, se fosse vivo, era capaz de não achar grande piada à data, com dezenas de pessoas a lembrá-lo que tinha uma idade com três dígitos. Quem também hoje foi muito discreta foi a Fundação Henri Cartier-Bresson, criada pelo fotógrafo em 2003, em Paris. Mas, a partir de Setembro, promete uma homenagem "adequada". A começar pela exposição Henri Cartier-Bresson - Walker Evans, que recordará o trabalho que os dois mestres desenvolveram lado-a-lado nos Estados Unidos, entre 1929 e 1947. Em Outubro começa um colóquio internacional sobre a figura e obra de um dos homens que moldou boa parte da imagem que temos do século XX. O fotógrafo francês morreu no dia 3 de Agosto de 2004, com 95 anos.

Há mais informações sobre a exposição do centenário aqui
O programa completo do colóquio internacional HCB está aqui

Henri Cartier-Bresson, Itália

20 agosto, 2008

Portfolio



Geórgia antes das bombas ' Guillaume Pazat

Era um conflito em estado latente até que alguém ordenasse uns disparos de artilharia mais pesada, como aconteceu no dia 8 de Agosto, quando o Governo da Geórgia decidiu lançar uma operação militar para recuperar o controlo da região separatista da Ossétia do Sul, a começar pela cidade de Tskhinvali. No dia seguinte combatia-se também no vale de Kodori, na Abkházia, outro território georgiano com ambições independentistas apoiado por Moscovo. Moscovo que, dois dias depois, entrou na história desta guerra com bombardeamentos pesados nas cidades de Gori e Poti. Mais tarde, as bombas voaram também sobre Tbilissi e os tanques russos chegaram a rumar à capital. Até que a diplomacia veio deitar um pouco de água na fervura e agora, depois de demonstrar que chega ao coração do poder georgiano num abrir e fechar de olhos, o Exército russo promete sair do país. É uma declaração necessária para os diplomatas tentarem mostrar algum serviço, mas o certo é que as lagartas dos tanques russos parecem muito mais enferrujadas a sair da Geórgia do que a entrar. Um cenário que deixa antever o pior para a região do Cáucaso que precisa de muitas coisas, menos de mais uma guerra.
O fotógrafo Guillaume Pazat (kameraPhoto) andou por várias cidades da Geórgia em Novembro do ano passado e decidiu partilhar com os leitores do Arte Photographica uma parte desse trabalho. Temos a imagem de um país ora nebuloso, ora de céu aberto, mas sempre sem grandes sorrisos. De Gori, a cidade mais fustigada pela aviação e pela artilharia russas, vem o espectro de Estaline. De Gori vem Estaline, porque foi Gori que o viu nascer. Pelo caminho, rebanhos de ovelhas e um cão que as guarda e se confunde com elas. Depois há sempre a bandeira a espicaçar o nacionalismo. Às vezes é levada em ombros, esticada no ar, em procissão, mesmo que as vozes em massa já nem se ouçam. Outras, nem sabemos bem se está lá. O que vemos é um mastro despido a furar a terra e a dividir o céu.

19 agosto, 2008

polaróides até ao fim

31.03.79

Há pessoas determinadas. Jamie Livingstone era uma delas. Um belo dia fixou duas amigas numa polaróide e depois desse momento decidiu que haveria de fazer uma fotografia por dia. E fez. Até morrer de cancro, em Outubro de 1997. A totalidade desse puzzle de vida foi parar ao despretensioso site http://photooftheday.hughcrawford.com/ organizado por dois amigos de Livingstone com o objectivo de poderem escolher fotografias para uma exposição onde quer que se encontrassem. Quando se está na Internet o mais provável é ser encontrado. Um blogger australiano encontrou a página com as fotografias de Livingstone e os retalhos da vida deste fotógrafo e realizador nova-iorquino espalharam-se pela Rede.

Inês Nadais escreveu sobre a história de Jamie Livingstone aqui
Estes pedaços de 18 anos da vida de Livingstone são públicos.
Se quiser vê-los pode espreitar por aqui

25.10.97

100

Julia Margaret Cameron, Mrs. Herbert Duckworth, 1867
(The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)


Uma visita à exposição Framing a Century: Master Photographers, 1840-1940, patente no Metropolitan Museum de Nova Iorque, motivou uma crónica de António Muñoz Molina no El País (Babelia) que vale muito a pena ler.
A exposição do Met conta os primeiros 100 anos da história da fotografia através de trabalhos de figuras obrigatórias como Gustave le Gray, Roger Fenton, Carleton Watkins, William Henry Fox Talbot, Julia Margaret Cameron, Nadar, Édouard Baldus, Charles Marville, Eugène Atget, Walker Evans, Man Ray, Henri Cartier-Bresson e Brassaï.

O texto Una línea de sombra pode ser lido aqui
As informações sobre a exposição estão aqui

17 agosto, 2008

o dia

(© CPF/DGARQ - MC)

Se há dias mundiais para tudo, por que é que não haveria um Dia Mundial da Fotografia? Comemora-se no dia 19 de Agosto e dizem que foi o India International Photographic Council quem primeiro tomou a iniciativa de assinalar a data, em 1991. Desconheço a razão da escolha do dia 19 e os motivos da celebração. Desconfio muito que estes dias disto e daquilo sirvam para alguma coisa produtiva. A não ser que se faça como o Centro Português de Fotografia que, a pretexto do tal dia, vai inaugurar duas exposições e fazer um workshop para crianças.

De um Chão Nosso inclui 80 fotografias tomadas pelo arquitecto portuense Mário João Mesquita em 2007 durante a realização de "um inquérito sobre o património edificado num conjunto abrangente de aldeias que, dispersas no território duriense, formam entre si uma rede com significado, sentido e conteúdo identitário". Em Viagens, Manuel Araújo mostra um conjunto de 46 fotografias captadas durante a passagem do último século que também foi a passagem do milénio.

Durante o workshop O Aprendiz de Fotógrafo, destinado a crianças entre os 7 e os 10 anos, vai explicar-se o processo de formação da imagem fotográfica em papel sensível. As inscrições são gratuitas e estão limitadas a 24 participantes, 12 por cada sessão, uma de manhã, das 10h00 às 12h30, e outra à tarde, das 15h00 às 17h30. As inscrições podem ser feitas pelo telefone 222076310.

12 agosto, 2008

chet

William Claxton, Chet Baker (Piano), Hollywood, 1954

My funny valentine
Sweet comic valentine
You make me smile with my heart
Your looks are laughable
Unphotographable
Yet youre my favourite work of art (...)

Se virem por aí a edição Julho/Agosto da fanzine da discoteca Lux Frágil apanhem-na - traz algumas das mais célebres fotografias que William Claxton tirou ao trompetista Chet Baker. O texto de Tiago Manaia serve-se da efeméride dos 20 anos da estreia do documentário Let`s Get Lost (1988), realizado pelo também fotógrafo Bruce Weber, para nos traçar o percurso errante de Baker e para nos lembrar que no seu rosto nem sempre viveram aquelas rugas fundas nem os dentes postiços. O único senão do portfolio é a não identificação das imagens registadas por Claxton e por Weber.

Para saber mais sobre Let`s Get Lost e ver um excerto do documentário clique aqui
O site de William Claxton está aqui
E o de Bruce Weber aqui

Bruce Weber, Chet Baker

+ barato


O estúdio de fotografia Blues, do Porto, está aberto durante Agosto e promete preços mais baixos e descontos para projectos de exposição durante o mês da canícula e da certeza de que afinal Cristiano Ronaldo já não vai para o Real Madrid.

A lista de preços (parece que ainda sem os ditos descontos) pode ser consultada aqui


entre aspas


A porta do quarto se fechou, deixando Farida só. No pente de metal, em cima da mesinha, havia ainda cabelos seus, caracoladinhos como crianças no ventre materno. Tardou em cada objecto, parecendo que as coisas que em tempos tocara, saudosas, lhe reconheciam agora. Na parede húmida estava ainda uma fotografia sua, em moldura de madeira. Aquela era sua única imagem. Por isso, lhe ocorreu levar a foto consigo. Quando a retirava viu que, no papel amarelecido, ela já não estava sozinha. Em redor do rosto dela estavam desenhadas figurinhas várias, tantas que pareciam mover-se e trocarem de posição. Sorriu, decidida a devolver a moldura à parede. Aquela era obra de Virginha, pondo vida em seu retrato.

Mia Couto, Terra Sonâmbula

11 agosto, 2008

/uma fotografia, um nome\

Da série In the blue world
(Noriaki Hayashi)


Em Junho e Julho, na Galeria Serpente do Porto, Noriaki Hayashi expôs uma série de cianotipos onde dominavam imagens como estas, elevando-se nas paredes brancas como aquários de água Azul da Prússia.

Com os cianotipos, decididamente construídos, objecto a objecto, entramos no mundo da imaginação e do delírio. E não interessa conceptualizar que Hershell, o astrónomo inglês amigo de Talbot, os criou em 1842 ou que Pellet, em 1878, quase industrializa o papel sensível que lhes dá cor e menos trabalho; nem sequer que nos cansamos dos livros de botânica ilustrados a azul ciano e das gravuras requintadas e envelhecidas de uma tia velha qualquer, quando havia sala de estar só para as senhoras bordarem e lerem o Camilo.


Os cianotipos representam essa amálgama de Ilustração das elites curiosas e da Revolução Industrial dos capitalistas: o cianuro de potássio é um sub-produto do gás de iluminação e o ácido fórmico que nos imprimiu a higienização da vida é um dos derivados dos ferro-cianetos. Agora hesitam entre a insistência estética e o revivalismo. Hoje, usa-se o papel Diazo. Mas a velha mistura dos dois sais de ferro de Hershell, dá uma outra patine à experimentação.


A impressão fotográfica tradicional abre-nos sempre a porta do universo da Alquimia. Subjacente ao esclarecimento que a Química oitocentista exigiu das velhas fórmulas e vocabulário hermético, ficam inesquecíveis palavras-chaves para o mundo do maravilhoso, luna cornata, betume da Judeia, algodão-pólvera e, acima de tudo, aquela consciência de que nos apropriamos das forças maiores do interdito.


Este mundo azul de Hayashi traz consigo um pouco de Verão. Um Verão armadilhado com as cores artificiais das imagens do Mediterrâneo e da felicidade e deslumbramento que a publicidade do turismo nos oferece. Embora um ciclone ou um tsumani possam oferecer o mesmo efeito de perturbação da gravidade.


Este mundo azul não tem vida, o ar não borbulha pela água, a túnica insuflada resulta apenas numa ausência. Há constelações de luz, como cianobactérias, filamentos que se enrolam e esvoaçam. A túnica floreada, com espaços brancos de luz onde ela se ausentou, flutua, como uma medusa translúcida e transparente, num mar decididamente primordial. E é esta contradição, este anacronismo pregnante, que nos pode fixar uma interpretação.


A fotografia é um catalisador das nossas experiências e das nossas simulações. Inscreve-se na negação do seu significado de real e na realidade do seu papel de duplo material. Emulsiona mundos azuis que aceitamos como realidade visível mas inexistente. E, porque visível, exigimos entendê-la. Aqui, neste espaço que pode ser também um universo de convenção (porque o olhamos através do azul, bem nosso, do estreito céu) não há perspectiva, a olho nu tudo se passa na mesmo superfície. A única armadilha é a da imaginação. A nossa e a de Hayashi, sugerindo-nos esse mar primordial onde flutua uma impossível túnica de fibra artificial.


A água, ao que se sabe, no processo do cianotipo, intensifica ainda mais o azul.


Maria do Carmo Serén


Noriaki Hayashi, (1970, Gifu, Japão). Acumula prémios e citações no seu país e exposições na Europa e no México; editou a revista de arte No Count Papers

10 agosto, 2008

cicatrizes

Japão, 2006
(
© Antoine d`Agata, Magnum Photos/Contacto)

Para mim a fotografia não é um jogo, nem uma forma de ver o mundo, mas uma maneira de exercer a minha liberdade.

Antoine d`Agata foi um dos fotógrafos convidados do festival La Mar de Músicas, de Cartagena, Espanha, este ano dedicado a artistas franceses. Em Vortex, d`Agata mostra um conjunto de 300 imagens. No início de Julho, o El Mundo publicou um texto que nos ajuda a perceber os alicerces do seu trabalho e que nos revela alguns episódios do seu passado. É uma personagem complexa que não gosta de estar muito tempo no mesmo sítio.
No mesmo festival, na secção La Mar de Arte, há exposições de outros fotógrafos, entre os quais Bernard Plossu, Pierre Gonnord e Sophie Calle.

O texto do El Mundo está aqui.
Antoine d`Agata explica o seu trabalho aqui.

(© Antoine d`Agata, Magnum Photos/Contacto)

Vortex, de Antoine d`Agata
La Mar de Musicas
Cartagena, Espanha
Até 29 de Agosto

08 agosto, 2008

solidão

Cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, 2008
(
© Jerry Lampen/Reuters)

Os editores de fotografia não devem ter tido hoje um dia fácil. A tarefa de seleccionar as imagens dos Jogos Olímpicos que inundam já os sites de informação e vão encher os jornais de amanhã é delicada e, muitas vezes, frustrante. A espectacularidade do que se apresenta à vista é de tal forma incandescente que ofusca. E o que parecia muito claro, torna-se opaco, confuso. A frustração aparece depois do ofuscamento, quando se percebe que não é possível mostrar tudo. E ainda bem.
Das centenas de fotografias que hoje me passaram pela frente, fixei-me neste grupo de homens-máquina fardados em devoção a uma bandeira. Cativa-me esta fracção duplamente congelada que, ainda assim, consegue isolar-nos na perfeição uma nesga de movimento e dirigir-nos o olhar para aquilo que aqui importa. A mão subiu, soltou o pano e ficou no ar, quieta. E ali, naquele vulcão de movimento e efervescência, foi possível dar-nos uma ponta de bandeira em rodopio. Em solidão.

07 agosto, 2008


entre aspas

Era por razão desse amor que ela queria partir. Porque a visão daquela terra, em tais desmandados maus tratos, era um espinho de sangrar seus todos corações. E suspirava, em imperfeita certeza: quanto tempo demora o tempo! Depois, dedo cruzando os lábios em ordem de segredo, conduzia Farida pelo corredor. Queria que a menina contemplasse o vestido verde, pendurado, pronto, sem nenhuma ruga.
- É para a viagem!
E sorria, alegre desse mais tarde, consoante o sonhado. Ficava na janela olhando o país que inexistia, desenhado em geografia da saudade. Tanto esmolou a Deus um outro lugar que ela se foi fazendo remota e, aos poucos, Farida receou que sua nova mãe nunca mais se acertasse. Sobre velhas fotografias, com um lápis, a velha portuguesa desenhava outras imagens. Às vezes, recortava-as com uma tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas outras. Era como se movesse o passado dentro do presente.
- Olha, vês? Este é o meu tio. Foi quando ele veio cá visitar-nos.
Um tal parente jamais estivera em África. Mas Farida nem ousava desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades a uma vida feita de mentiras.

Mia Couto, Terra Sonâmbula

05 agosto, 2008

Jogos a nu

Phillips Idowu, Triplo Salto
(© Nadav Kander)

Estão à porta os Jogos Olímpicos. E com eles algumas das melhores fotografias do ano na área do desporto. O desfile de músculos e habilidades começou muito antes das primeiras eliminatórias em Pequim. É o campeonato da publicidade e das marcas - a medalha de ouro vai para quem conseguir captar mais atenção ou para quem suscitar mais debate, galardões que não garantem à partida mais vendas, digo eu. No Reino Unido, a Coca-Cola decidiu tirar os equipamentos a três atletas (Phillips Idowu, saltador, Rebecca Romero, ciclista, Gregor Tait, nadador) para mostrar como se transformam os corpos em competição. Não é coisa nova, como se sabe. Mas sempre que surgem não deixam de nos surpreender estes jogos de pernas, troncos e braços que se projectam à procura de chegar mais longe, mais rápido. De ser o melhor.


Rebecca Romero, Ciclismo
(© Nadav Kander)

Gregor Tait, Natação
(© Nadav Kander)

02 agosto, 2008

Goldblatt

De Kol, Cabo Oriental, 10 de Abril de 1993. Monumento em honra de Karel Landman, que liderou o Great Trek, um dos movimentos de ocupação do território sul-africano por colonizadores Bóers no século XIX

Quando o apartheid foi abolido, em 1990, a realidade que tinha estado na origem do trabalho fotográfico de David Goldblatt (n. 1930, Randfontein, África do Sul) ao longo de 30 anos deixou de existir. Apesar de ser um momento pelo qual tinha esperado a maior parte da sua vida, Goldblatt entrou em crise e, ao que parece, deixou de fotografar durante alguns anos. Quando voltou à fotografia, voltou diferente: começou a fotografar a cores e paisagens (o que antes considerava inapropriado).
Branco e judeu, Goldblatt documentou de forma exaustiva a segregação na África do Sul, constituindo a sua cartografia humana e geográfica. A exposição no Museu de Serralves, composta sobretudo por pares de fotografias, confronta Goldblatt com Goldblatt, o apartheid com o pós-apartheid: nalguns casos, o fotógrafo sul-africano voltou aos mesmos lugares décadas depois para os fotografar. Nalguns casos, pouco mudou. O apartheid foi abolido, mas o pós-apartheid ainda não existe, porque a segregação continua inscrita na paisagem.
Há fotografias de Goldblatt que evocam o trabalho pioneiro de Robert Frank em The Americans (1958) e outras que nos fazem pensar no modo como Stephen Shore fotografou a paisagem americana na década de 1970. É preciso ter olho para ver Godblatt: as suas imagens revelam subtileza e ambiguidade. Não têm a ver com acontecimentos, mas com o que acontece nos seus intervalos. Se calhar, a vida.

(Público, 25.07.2008)

Para ler a crítica de Óscar Faria clique aqui.

De Kol, Cabo Oriental, 20 de Fevereiro de 2006. Monumento em honra de Karel Landman

Intersecções Intersectadas, de David Goldblatt
Museu de Serralves, Porto
Até 12 de Outubro

 
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