30 julho, 2008
alargar as vistas
A semelhança do que fez a Livraria do Congresso dos EUA, a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu partilhar através do Flickr centenas de fotografias de algumas das suas colecções. Apesar de ser ainda uma amostra ínfima do espólio da Biblioteca de Arte da fundação, esta iniciativa levará a muitos outros olhares uma boa selecção de imagens que fizeram a memória visual de Portugal do século XX.
Nesta primeira fase serão disponibilizadas mil fotografias das colecções A talha em Portugal (seis álbuns do levantamento fotográfico feito pelo historiador de arte americano Robert Chester Smith e pelo fotógrafo e editor Marques de Abreu nos anos 60), Azulejaria Portuguesa (seis álbuns do inventário feito por João Miguel dos Santos Simões entre 1960-1968), Estúdio Mário Novais (conotado com o Estado Novo que se especializou em fotografia de arquitectura e obras de arte) e Amadeo de Sousa Cardozo.
As imagens agora disponíveis na conhecida rede social de partilha de fotografias está livre de direitos de autor ou direitos conexos.
Para navegar pelas fotografias disponibilizadas no Flickr clique aqui.
18 julho, 2008
*À conversa com...
...Cristina García Rodero
Dez anos dentro de um
culto mestiço
Cristina García Rodero é dona de uma vasta obra sobre religiosidade e paganismo na Europa Mediterrânica. Depois do consagrado álbum España Oculta (1989) partiu à procura de outros cultos e manifestações de fé. No Haiti, maravilhou-se com os rituais do vudu. Na Venezuela embrenhou-se na montanha da Sorte durante dez anos para captar o mundo mágico-religioso da veneração a María Lionza. O espiritual é importante, mas o que a preocupa mais “é sempre o ser humano. O PHotoEspaña mostra em Madrid o resultado desse longo ensaio que foi reconhecido este ano no World Press Photo.
Sérgio B. Gomes, Madrid
(ípsilon, 18.07.2008)
María Lionza é deusa, rainha, donzela. E no meio da selva venezuelana há quem a veja como virgem marmórea, como mãe generosa, como mulher poderosa e vingativa ou como simples borboleta azul. As faces da “deusa dos olhos de água” podem ser muitas. Tantas quantas as origens dos que lhes prestam reverência e dos que se servem dos seus poderes para chegar à purificação, sarar males de amor, expulsar maus-olhados e curar maleitas várias. Nas cortes espirituais de devoção “marialioncera” reinam vikings, índios, escravos negros e malandros pop.
É este culto mestiço que se alimenta de vários tipos de religiosidade e outras tantas tradições exorcistas no meio da montanha da Sorte, província de Yaracuy, que Cristina García Rodero mostra numa das principais exposições do PHotoEspaña, o festival internacional de fotografia e artes visuais que decorre em Madrid.
Ano após ano. Várias viagens por ano. Nos últimos dez anos, a fotógrafa espanhola regressou vezes sem conta à Venezuela para dar aos rituais em torno desta figura mística uma visão ensaística profunda que não se ficasse pelo folclore dos exorcismos orgiásticos. O resultado impressiona não tanto pela dimensão da empreitada, por si digna de registo, mas sobretudo pelo sentido estético e pela intensidade da expressão com que aparecem rostos e corpos.
No princípio, à luz do dia, García Rodero (Puertollano, 1949) viu pouco mais do que cerimónias de “velação”, um dos principais ritos do culto que serve para curar, purificar e iniciar médiuns. Até que percebeu que “o susto acontecia à noite”. Que é como quem diz: é nas trevas que a verdadeira acção tem lugar. Foi a noite e as condições de luz adversas que, “por desgraça”, a obrigaram a usar o suporte digital, contou no dia da inauguração da exposição. Mas foi também graças a ela que se “encantou” pela cor que aparece em boa parte das fotografias deste trabalho.
Depois de uma visita guiada inaugural, acompanhada pelo comissário venezuelano Tomás Rodríguez Soto, Cristina García Rodero, uma verdadeira “anti-star”, falou sobre as diferenças entre portugueses e espanhóis, confessou uma paixão por S. Bartolomeu do Mar e mostrou confiança no regresso do ensaio fotográfico às páginas da imprensa escrita.
Juntou-se à Magnum em 2005 e tornou-se fotógrafa associada da agência no ano passado. De que maneira esta condição de “fotógrafa da Magnum” mudou o seu trabalho?
De maneira nenhuma. Porque já sou muito velha [risos]. O que é mais importante para mim na Magnum é saber que estou entre fotógrafos que têm uma enorme sabedoria. E isso é um aliciante para tentar estar à sua altura, para não entrar no marasmo. Para estar na Magnum é preciso ter a mesma categoria que eles têm. Digamos que é um aliciante extra, mas não mudou a minha maneira de olhar para as coisas. O que tenho é mais vontade de trabalhar.
É a única fotógrafa da Magnum na Península Ibérica. Interessa-lhe trabalhar em projectos que envolvam Portugal e Espanha?
Claro que sim. Estive a trabalhar em Portugal num projecto sobre o Sul. E estive nos Açores. Vou frequentemente a Portugal fazer carnavais e festas de Inverno. Trabalho também muito perto da fronteira entre os dois países. E há um sítio que me encanta em Portugal que é S. Bartolomeu do Mar. Sempre que posso vou lá. Ainda no ano passado lá estive. Houve uma tempestade e o mar ameaçou as casas. Tiveram de pôr pedras para tentar salvá-las. Deu-me muita pena. A praia ficou muito modificada e destruída por causa destas pedras enormes. Mas, para um espanhol, ir a Portugal é um prazer. Porque nos sentimos em casa, com pessoas mais delicadas, mais educadas. Em Portugal a fiesta é capaz de não ter a força que tem em Espanha. O carácter mais recatado, mais tranquilo dos portugueses tira-lhes a força que os espanhóis revelam para a diversão.
Exposição María Lionza, La Diosa de los Ojos de Agua
(© Nelson Garrido/Público)
Desde há muito que fotografa rituais ligados a crenças religiosas e pagãs. O que é que procura exactamente mostrar-nos nestes trabalhos?
O que me preocupa é sempre o ser humano. Tento sempre descrever as coisas que são importantes para ele, as coisas que estão relacionadas com a vida – o prazer, a ternura, o amor, a guerra, a fé, a religiosidade, as grandes tragédias naturais. Tudo o que é importante para o ser humano interessa-me – é o que me move. Quero mostrar as pessoas, os seus conflitos internos e externos.
Tem formação superior em Pintura. Transporta alguma dessa linguagem pictórica para a fotografia?
Estudei Belas-Artes. Sou licenciada em Pintura e quando terminei deram-me uma bolsa. Viajei por toda a Espanha e, ao fim de um ano, percebi o que queria fazer. A pintura é outro meio. Sou autodidacta na fotografia e o facto de nunca ter passado por uma escola complicou as coisas. O processo de aprendizagem é muito lento, difícil e gasta-se mais dinheiro. Foi a prática que me deu todo o conhecimento. Na pintura senti que estava formada, que havia um caminho pela frente, mas na fotografia não. Mas muitas das coisas que aprendi na pintura relacionam-se com a fotografia que hoje faço. Não sei se na maneira de tratar a forma, o espaço, a luz ou a composição. E depois há também toda a bagagem cultural que um curso de pintura dá. É importante saber quem foram os grandes mestres e conhecer as grandes tendências. Não damos bem conta disso, mas na hora de olhar pelo visor, esse conhecimento, que se expressa em fracções de segundo, está lá.
O ensaio fotográfico é um género em extinção nos principais jornais e revistas de todo o mundo. Acha que o espaço para este tipo de trabalho na imprensa acabará por desaparecer?
Creio que não. Tenho a esperança de que não. Há modas. Os anos 50 e 60 foram talvez os mais importantes para o ensaio fotográfico. Mas a técnica, a economia e as próprias ideias dos fotógrafos influenciam muito este género. E creio que os jornais neste momento estão mais preocupados com o lazer e com o bem-estar, onde a decoração, as marcas, a cozinha, os futebolistas são mais importantes. É um mundo um pouco vazio, superficial. O ensaio é um estudo em profundidade de algo e isso não interessa agora à imprensa. E, por outro lado, não querem gastar dinheiro. Querem gastar pouco e ganhar muito para comprarem outros meios. Não pensam no fotógrafo que está a arriscar a sua vida. Os fotógrafos têm cada vez mais dificuldade em encontrar espaços para publicarem o seu trabalho. Mas, em contraponto, cresce o interesse pela cultura. E esta tendência acabará por absorver o trabalho dos fotógrafos ligados tanto à reportagem como a outros géneros de fotografia. Se andar por Madrid aos domingos, todos os museus estão cheios, há filas à volta deles para entrar. Vê-se que as pessoas têm avidez de cultura e de conhecimento.
Exposição María Lionza, La Diosa de los Ojos de Agua
(© Nelson Garrido/Público)
Demorei este tempo porque sou muito pesada [risos]. Não conheço as condições ideais. Caso contrário, teria feito muitos mais livros. Era importante que houvesse mais bolsas, mais publicações, mais venda de livros, mais salas de exposição. Madrid – que é uma cidade que está a tentar vender-se ao mundo como destino de turismo cultural – não tem muitas salas para fazer exposições. Há salas oficiais, mas quem está a começar não consegue chegar lá. Eu sou uma privilegiada. Deram-me espaço e condições. Pagaram-me toda a produção, o livro [exposição e catálogo do trabalho sobre María Lionza]. Houve um designer, um comissário. Houve tudo o que precisei. Mas não há um meio termo...
Sou uma pessoa insistente, perfeccionista, insegura. E, de cada vez que começo um trabalho, nunca sei quando vai terminar. Muitas vezes são as circunstâncias que me fazem parar, expor e publicar. Mas quero continuar a seguir o fenómeno de María Lionza. Sei que vou continuar a pedir ao Tomás [comissário da exposição] que me consiga as autorizações para entrar no parque [da montanha da Sorte, na Venezuela, onde acontece o culto]. Demorei mais tempo por causa desse perfeccionismo e porque, a cada ano, fui encontrando coisas novas. Coisas que foram enriquecendo o trabalho. Porque quando se chega lá sem mais nem menos o que se vê são cerimónias normais. Custou muito encontrar coisas diferentes. Foi preciso ir lá muitas vezes. E cada vez que regresso conheço algo novo. Através destas pequenas coisas fui formando um trabalho com o qual me sinto contente.
O que é que a marcou mais no culto a María Lionza?
O transe. O transe é uma coisa que me surpreende muito e que está presente em muitas culturas. Surpreendeu-me esse comportamento que, num tempo tão curto, transforma tanto as pessoas, muda aquilo que elas são realmente. Outra coisa que me marcou muito foi o sentimento de comunidade e de entreajuda – lá todos se ajudam e todos estão para todos.
Algumas fotografias mostram rituais que parecem muito violentos. E nesses casos as coisas podem correr mal. Não há lutas?
Não. Em mais de dez anos de acompanhamento do culto nunca vi lutas.
A presença de uma máquina fotográfica nestas ocasiões nem sempre é bem-vinda. Foi fácil integrar-se no meio dos crentes durante estes anos todos?
Uma câmara fotográfica incomoda sempre. Fui procurando o máximo de intimidade. Creio que as pessoas facilitaram-me muito o trabalho – são abertos, as pessoas latinas são mais abertas do que outras pessoas. A relação é muito fácil. Não são precisos contactos directos. E quando se diz que se vai fazer um trabalho sobre María Lionza ainda abrem mais as portas. O facto de vir de fora da Venezuela também faz com que as pessoas fossem mais receptivas. Eles cuidaram de mim, mimaram-me, senti-me protegida. Já me perguntaram se alguma vez senti medo, porque há situações muito fortes. Nunca tive medo. E, às vezes, impediam-me de ir sozinha ao poço dos médiuns que está longe do centro onde tudo acontece, a um quilómetro da base.
Também já esteve nos Açores a registar os rituais católicos das ilhas. Pensa voltar a Portugal para outros trabalhos?
Aos Açores é difícil que volte, a não ser para as festas do Espírito Santo. Mas fui muito feliz nos Açores. Há paz. E, pelo menos na ilha onde estive a trabalhar, em S. Miguel, havia uma vegetação... recordo as hortênsias azuis que marcavam os limites do terreno. Marcar o limite dos terrenos com flores? Em vez de pedras, paus ou outra coisa qualquer? São flores tão grandes, tão azuis e tão presentes na paisagem. Recordo que, nos Açores, trabalhei muito e fui feliz. Portugal está tão perto e as pessoas são tão agradáveis. Não sei como os espanhóis... às vezes o que temos mais perto é o que desprezamos mais. Os espanhóis viajam para países longínquos e não vão ao país que está ao aqui ao lado. Mas cada vez está a descobrir-se mais. Ir a Portugal é como estar em casa.
María Lionza. La Diosa de los Ojos de Agua
Secção Oficial do PHotoEspaña2008
Consejería de Cultura y Turismo, Sala Alcalá, 31, Madrid
Até 31 de Agosto
17 julho, 2008
PHE08 - Últimos dias
O PHotoEspaña 2008 está quase a terminar. Para ver uma fotogaleria com um pequena amostra do que lá se mostrou clique aqui.
Pesadelo

Soldado americano atingido por um sniper em Karmah, Iraque, em Outubro de 2006
(© João Silva/The New York Times)
A Galeria Diário de Notícias, em Lisboa, inaugura hoje a exposição Pesadelo, do fotojornalista João Silva que trabalha habitualmente para o New York Times.
João Silva nasceu em Lisboa, em 1966, viveu em Moçambique até 1976 e depois emigrou para a África do Sul. Em 2005, ganhou o 2º prémio na categoria Temas Contemporâneos do World Press Photo. No ano passado, foi reconhecido com uma menção honrosa na categoria Spot News, por um portfólio publicado no New York Times sobre o ataque de um sniper a uma patrulha do Exército norte-americano, em Karmah, no Iraque. É considerado pelos seus pares como um dos melhores fotógrafos de conflitos.
16 julho, 2008
Prix Pictet
O banco suíço Pictet & Cie e o diário Financial Times lançaram um prémio de fotografia que dará ao vencedor uma soma considerável: cem mil francos suíços (cerca de 60 mil euros), talvez a maior recompensa do mundo no campo da fotografia.
O Prix Pictet apresenta-se como o "o primeiro prémio de fotografia mundial centrado no tema da sustentabilidade", onde a temática ligada à água será protagonista. No último fim-de-semana foi revelada uma shortlist de 18 fotógrafos, entre mais de 200 candidatos. A selecção foi feita por um painel global de 49 pessoas, entre as quais Jorge Molder, fotógrafo e director do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.
Os nomes escolhidos para a fase final foram estes:
Benoit Aquin, Edward Burtynksky, Jesus Abad Colorado, Thomas Joshua Cooper, Sebastian Copeland, Christian Cravo, Lynn Davis, Reza Deghati, Susan Derges, Malcolm Hutcheson, Chris Jordan, Carl De Keyzer, David Maisel, Mary Mattingly, Robert Polidori, Roman Signer, Jules Spinatsch, Munem Wasif.
Deste grupo sairá um grande vencedor e um segundo premiado com uma bolsa de 40 mil francos suíços (cerca de 25 mil euros) para o aprofundamento de um trabalho relacionado com o tema água. O anúncio será feito no dia 30 de Outubro, no Palais de Tokyo, em Paris, onde as obras dos finalistas estarão em exposição até 8 de Novembro. O prémio Nobel da Paz e antigo secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan foi escolhido como presidente honorário da primeira edição do Prix Pictet.
O júri de selecção é composto por:
>>Francis Hodgson - presidente, responsável da secção de fotografia da leiloeira Sotheby’s
>>Peter Aspden - jornalista de arte do Financial Times
>>Régis Durand - consultor, crítico de arte, e antigo director do centro de arte Jeu de Paume
>>Leo Johnson - co-fundador da Sustainable Finance
>>Abbas Kiarostami - realizador e fotógrafo
>>Richard Misrach - fotógrafo
>>Loa Haagen Pictet - consultor de arte e curador do Pictet & Cie
“(...) we didn't want to favour journalism over art, and we didn't really mind whether the authors thought of themselves as documentary photographers, autobiographers, landscape artists or anything else. We wanted powerful messages with the ring of truth.”
Para ver o trabalho de cada um dos artistas clique aqui.
Shahab-3 + 1
Imagem "original" AFP/HO/Jamejam Online
Na semana passada, os Guardas da Revolução do Exército iraniano quiseram mostrar ao mundo que os seus mísseis Shahab-3 podem chegar longe, muito longe. Uma lonjura tamanha que pode ir até Israel. Como convém, estas demonstrações de força do tipo "os nossos vão tão longe quanto os vossos" são sempre acompanhadas por uma campanha de propaganda de imagem. No caso das imagens fotográficas, parece que o resultado final não foi bem aquilo que os Guardas da Revolução desejavam. Os projécteis disparados não eram suficientes. Havia ali um que tinha ficado em terra, ou seja ficou mal na fotografia. E como repetir uma brincadeira daquelas ainda deve custar alguma coisa, recorreu-se ao virtuosismo do Photoshop para fazer aparecer e desaparecer pormenores de composição. O embuste foi descoberto pela agência de notícias francesa AFP que falou com especialistas habituados a ligar com imagens falsas. A brincadeira do "criativo" do Exército iraniano espalhou-se pela Net e fez nascer uma onda de imagens que parodia esta manobra manhosa "à la Hollywood" do disparo dos Shahab-3.
As minhas preferidas são estas:
15 julho, 2008
/uma fotografia, um nome\
“É um patamar qualquer, de um prédio qualquer com rés-do-chão e três andares de apartamentos. À esquerda, afirma-se um interruptor com restos de tinta. Mas o que dá o sentido periférico ao fragmento fotográfico são as caixas de correio erodidas, deixando ver a publicidade personalizada: uma lanterna de atenção, com a sua numeração de pintura caseira e irregular.
É isto. Uma parte decisiva da cidade não é representável pela imagem e, por isso mesmo, mantém-se imperceptível. Não vemos o feixe de complexos múltiplos, fluidos e metafóricos que definem uma cidade, que resistem a uma interpretação total no campo do visível. Porque, antes do mais, da cidade vemos apenas a sua pele, a superfície das coisas; na fotografia e na vida as formas que se desenham e contornamos com o olhar são apenas um limite, uma frágil exterioridade, a orla de qualquer coisa que se recorta no caos do que é. A cidade, porque se transmuta, se altera, porque o tempo, os homens e os acontecimentos fluem num vaivém do quotidiano, é essa agitação opaca de que falava o filósofo De Certeau.
Porque o interior destes burgos que perderam a muralha não pode ser apreendido na sua intimidade, no que ele tem de realidade. Só há intimidade nos dispositivos simbólicos, nos rituais das tribos urbanas, nas mitologias que explicam o quotidiano; a cidade é, decisivamente, esse conjunto de universos regrados ou anómicos dos seus habitantes. E essa complexidade de regras, gestos e saberes, as práticas e os olhares, entretece e caracteriza os significados das coisas e dos aconteceres e todas essas práticas não se registam nas imagens, são o seu lado opaco.
E, por tudo isso, se diz que a cidade é uma máquina de perda de sentido. Por tudo isso não podemos dar significados à amálgama indecisa e mutante da sua multiplicação semiótica.
Frente ao paradoxo do conhecer só ser possível pela união do visível e do invisível, o fotógrafo empresta sentido, usa os signos ou as metáforas. Tem de identificar e isolar os signos mais ricos que lhe são mais expressivos no seu catálogo de referências e transforma essa fragmentação sem sentido num quadro homogéneo. Então Bruno Santos dá-nos o prédio de cimento armado de que não vemos mais do que um apontamento da estrutura de base, usando o apelativo sortilégio das caixas do correio. As famílias alinham-se na nossa evocação vazia, o desleixo e a publicidade sugerem-nos, (impõem-nos?) a ideia que temos de lugar periférico e sentimos que há uma caixa que nos olha na sua ausência de significado imediato, o R/C B: podemos imaginar conflitos de vizinhança, destemperanças juvenis ou de bando, rivalidades muitas. E, porque Bruno Santos nos tem habituado às suas pesquisas de lugares periféricos do Sul europeu, aceitamos o sistema ordenador que é a noção de periferia . É como habitação periférica, desertificada nas suas horas diurnas, que a imagem nos olha.
E, no entanto, também sabemos que há em cada imagem uma zona cega: cada olhar leva consigo outras imagens, outras cidades, (Van der Elsken a fotografar Paris como se fora Amesterdão, Klein ou Frank fazendo europeias as suas cidades americanas, Plossu fotografando uma cidade que já não existe…) Na sua solidão de flâneur, o fotógrafo constitui em cada imagem um contexto que o ultrapassa. Não damos sentido ao modernismo das estruturas, que não joga com o empedrado do pavimento, é o invisível sugerido pelas caixas do correio que constitui o enigma da cidade: os pontos cegos que a cidade produz e Bruno Santos soube recriar.”
Maria do Carmo Serén
Bruno Santos é fotojornalista em Lisboa; as suas séries de fotografia de autor abordam habitualmente a identidade periférica.
14 julho, 2008
saldos Aperture
A Aperture está a fazer saldos de Verão. E não são só tamanhos grandes. Há uma boa selecção de livros com 30 por cento de desconto e edições limitadas de fotografias com 15 por cento.
Está tudo aqui.
11 julho, 2008
*À conversa com...
Flor Garduño nasceu e cresceu na Cidade do México. Assim que acabou os estudos na Academia de São Carlos, começou a trabalhar ao lado do mestre Manuel Álvarez Bravo. A Magia do Jogo Eterno foi o seu livro de estreia, em 1985. Dois anos depois, lançou Bestiarium. Testemunhos do Tempo, a obra que mais reconhecimento lhe deu, foi publicada em 1992 e teve 6 edições. Em 2000, a editora Aperture republicou a obra. As fotografias deste trabalho passaram por mais de 40 museus e galerias de todo o mundo. Flor/Inner Light (2002, Bulfinch Press, Nova Iorque) reproduz naturezas mortas, nus e retratos. Naturezas Silenciosas (2005, Gabriele Editore, Suíça) é o seu último álbum.
Em que sentido as mulheres são mais fantásticas nesta exposição: no sentido terreno ou mitológico?
Deixo a interpretação a cargo de cada um, para que sejam fantásticas ou tenham o significado que cada um lhe queira atribuir. São fantásticas porque são imagens que projecto dentro das minhas fantasias. São fantásticas porque dentro de mim são fantásticas. Através de exposições, de livros, da literatura vou imaginando como poderia ser uma imagem de um símbolo. Não sei se estas imagens são terrenas ou se são fantásticas como ideias. Na realidade, isso para mim não tem muito significado. Acredito - e espero - que quando o observador as encarar faça delas o seu próprio sonho.
O que é que lhe interessa destacar na condição feminina?
Quando trabalho num projecto não começo a pensar, a estipular ou a criar uma directiva muito precisa. Desde há muitos anos que trabalho com a temática do nu feminino, não porque seja minha intenção provar algo especial. Não tenho o intuito de demonstrar nada. É simplesmente uma maneira de dar corpo a uma ideia e a poder revelar um mundo lírico muito pessoal.
Na maior parte destas imagens, o nu feminino colocou-se lado a lado com a alegoria mitológica em torno da mulher. Não teme que a sedução erótica se sobreponha ao entendimento filosófico?
Isso é uma visão muito masculina. O nu tem estado presente desde o início da minha carreira, há 30 anos. Mas comecei a trabalhar o tema de uma forma mais sistemática depois de terminar um outro trabalho, na América Latina, do qual nasceu um livro, Testigos del Tiempo. Um amigo de Zurique perguntou-me uma vez em que é que estava a trabalhar e eu contei-lhe que estava a produzir uma série muito íntima, muito descontraída, muito suave sobre o feminino. Ele disse-me que não conseguia imaginar que tipo de trabalho sobre o nu eu estaria a preparar depois de algo como Testigos del Tiempo. Encontrámo-nos e comecei a mostrar-lhe aquilo que viria a ser Inner Light ou Flor. Fiquei muito surpreendida com a reacção porque ele disse-me que este trabalho de suave não tinha nada! Pelo contrário sentia uma carga muito forte, muito erótica, de um feminino tão intenso que não entendia porque lhe tinha falado em suave. Mas é assim que as vejo. E continuei sempre a ouvir o mesmo tipo de opiniões, vindas sobretudo de observadores masculinos.
Nestas fotografias de Mujeres Fantasticas vemos o rosto escondido, cortado ou num plano secundário. Há alguma razão especial para esta opção?
Quando trabalho o corpo, muitas vezes o rosto passa para um plano secundário. Ao trabalhar nestas imagens, que são um todo, senti que se retirasse a algumas o rosto ou o olhar, o corpo sobressairia mais. Isto porque não há um olhar a cruzar-se com o observador, deixando que a interpretação e aceitação do corpo em si seja mais geral, mais universal. Mujeres Fantasticas é de alguma forma uma continuação, não sei se lógica, mas uma continuação, a outro nível, do que foi Flor, onde, acima de tudo, quis mostrar o feminino, a maternidade, e onde me revelei mais intimamente enquanto mulher e não enquanto fotógrafa. Agora, com Mujeres Fantasticas, tento mostrar todas as possibilidades que o corpo e a própria mulher podem dar. Quando decido fazer um retrato com o olhar é porque esse olhar me dá algo mais sobre a pessoa fotografada. Quando não há olhar a fotografia ganha um sentido mais universal e deixa mais espaço para a interpretação.
Há aqui representações de contos, conceitos e mitos. Esta escolha de temas que viajam através da História é uma tentativa de fugir à temporalidade finita a que associamos a fotografia?
Como já disse não trabalho com conceitos a priori. A minha vida não é só a fotografia. Tenho muitos outros interesses, como a literatura, a música, a pintura. Sou apaixonada pela arte em geral e pelos mitos que através dessas artes se representam. Creio que são temas arquétipos que regressam. Por exemplo: na história da pintura, quantas Ofélias se fizeram? Ou quantas Ledas se fizeram? São mitos que continuam vivos, presentes e actuais no nosso imaginário, dentro de um mundo onírico, dentro da psique. É importante ir unificando todos estes interesses que fazem parte de mim e não ficar presa à imagem como tal.
No conjunto há imagens que remontam aos anos 80 e outras muito recentes. Diria que este trabalho em torno das representações da mulher é um eixo central na sua obra?
Tenho trabalhado este tipo de imagens desde o início da minha carreira. E, a par das mulheres, tenho cultivado, ao longo destes 30 anos, o género das naturezas mortas, a que chamo naturezas silenciosas. São recorrências que nunca hei-de deixar porque fazem parte de mim. Sempre andaram na minha cabeça e foram-se transformando. Provavelmente, quando as pessoas virem o trabalho anterior e o de agora dirão que é o mesmo. Outras dirão que é um processo e que primeiro havia mulheres e que em Mujeres Fantasticas há paisagem. Agora, há também um mundo exterior. Nos outros trabalhos havia um mundo mais interior, mais psicológico. Este é mais fantasioso e exterior. Na grande maioria, estas imagens foram captadas no exterior e isso, para mim, tem um significado - é um símbolo.
Durante os últimos 50 anos, o México deu à história da fotografia vários nomes importantes. Manuel Álvarez Bravo parece estar na origem de muitos deles. Que papel tem hoje o mestre na produção fotográfica mexicana?
É muito actual. Sempre foi muito actual. Continua vivo e, como os grandes mestres, continua a ter uma visão muito a posteriori. Penso que foi fundamental, abriu portas, internacionalmente, à fotografia mexicana. Mas não foi só ele, houve muitos outros. E agora há também várias mulheres, como por exemplo Lola Álvarez Bravo, que foi sua mulher, que apesar de menos conhecida também tem muito valor.
Não, de todo. É uma alusão às cariátides, as imagens gregas que tinham a cabeça coberta de objectos, vegetais ou animais. [Quando fiz este retrato] não pensei na Frida. Foi uma questão física casual. E não é uma questão de sofrimento, mas sim de vida. Porque em La Columna há precisamente uma planta que é uma suculenta. O grupo das suculentas está cheio de vida e de água. E também foi um jogo com a ideia de ser suculenta, como a mulher, com um porte digno, um porte fantástico... porque não?
Mujeres Fantasticas, de Flor Garduño
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes, 10 (ao Jardim das Amoreiras), Lisboa
Tel.: 212369569
Até 31 de Agosto
10 julho, 2008
membros+nomeados
O processo de selecção para integrar a cooperativa de fotógrafos Magnum não é coisa simples. E a progressão na carreira dentro da agência também não. Para atingir o estatuto de membro é preciso ter passado primeiro pela categoria de nomeado e depois pela de associado, período que se estende pelo menos durante quatro anos. A cada salto, é preciso também conquistar a admiração da maioria dos 60 efectivos que hoje compõe o colectivo de fotojornalismo mais reputado do mundo.
Depois de ter reunido para analisar mais de 200 portfolios candidatos, a agência, actualmente presidida por Stuart Franklin, decidiu tornar membros da Magnum Antoine d’Agata, Jonas Bendiksen e Alec Soth. Foram também admitidos como nomeados o americano Peter van Agtmael, de 27 anos, e a inglesa Olivia Arthur, de 28.
O site de Peter van Agtmael está aqui.
E o de Olivia Arthur aqui.
(© Peter van Agtmael)
09 julho, 2008
verão
Já tínhamos ouvido falar da semana da fotografia, da quinzena da fotografia e do mês da fotografia. A Bélgica inventou (?) agora o Verão da Fotografia, que decorrerá em várias cidades entre 27 de Junho e 14 de Setembro. Ao todo, serão apresentadas 43 exposições, em 29 instituições espalhadas por todo o país.
Entre as várias mostras, destaque para Le dessous des cartes (Mapas Abiertos), Photographie Contemporaine en Amerique Latine (Palais des Beaux-Arts, até 21 de Setembro) que promete o panorama mais completo jamais realizado na Europa sobre a fotografia contemporânea da América Central, do Sul e das Caraíbas. O comissariado está a cargo do espanhol Alejandro Castellote, responsável pelas primeiras edições do festival PHotoEspaña. As 200 fotografias apresentadas mostram muitos temas habituais na arte latino-americana, mas tentam relacionar-se com três linhas de força essenciais: rituais de identidade, cenários e histórias alternativas.
A Bélgica está a comemorar o 50º aniversário da Expo'58, a primeira exposição mundial pós-guerra que deixou para a posteridade o emblemático Atomium. Acabado de dobrar a casa dos 30, o português Gérard Castello-Lopes visitou a exposição e fotografou os edifícios e as principais instalações modernistas rodeadas de um público muito heterogéneo. O resultado desse trabalho ainda como "amador" pode ser visto agora no Musées royaux d'Art et d'Histoire (até 21 de Setembro).
Para ver toda a programação do Été de la Photographie clique aqui.
08 julho, 2008
07 julho, 2008
guardar
Há quanto tempo é que não vemos em Portugal uma capa e um trabalho de reportagem que nos faça guardar páginas e páginas de papel? Guardei esta grande reportagem de Ángeles Espinosa (texto) e Álvaro Ybarra Zavala (fotografia) publicada já há alguns meses no El País Semanal (Afganistán, Desde la Línea de Fuego, 2.03.2008). A qualidade do que aqui vem escrito e fotografado torna muito difícil o dever cívico de contribuir para a transformação do papel.
Aballí
O catalão Ignasi Aballí gosta de jogar com os materiais e os processos de criação artística para construir discurso em torno da imagem. E essa opção não é de agora: a sua obra convoca questões relativas à simulação, à especificidade dos modos de representação, às convenções da ilusão material e aos aspectos do social, subjacentes a todo o processo produtivo, como há também uma significativa acuidade sobre a ideia do tempo como agente construtor da materialidade do discurso artístico.
Na exposição Sem Actividade, que faz parte do programa oficial da PHotoEspaña 2008 em Portugal, este malabarismo estilístico vai mais longe envolvendo o espaço onde as obras são expostas: um edifício que albergou uma fábrica de conservas, um espaço com actividade, mas sem a actividade que esteve na sua origem. Para sublinhar ainda mais o imobilismo que invadiu as salas de exposição, o autor decidiu expor a sua máquina fotográfica transformando-a em objecto museológico que simboliza a incapacidade de produzir. A par da sua câmara, Aballí mostra as séries Luz (Ventanas), de 1993, e Manipulaciones, de 2008. Na primeira apresenta painéis de cartão que imitam as janelas da casa onde vive em Barcelona. A cada vez que se apresentam em exposição, estas peças desvanecem. Em Manipulaciones, há imagens reenquadradas de um manual de fotografia dos anos 80. A intenção é criar a ilusão de que estamos a ser informados de alguma coisa. A desconstrução do carácter didáctico das imagens é justamente um dos caminhos que tem marcado o percurso de Aballí, mostrando que afinal hiper-visibilidade e absoluta miopia se podem equivaler.
A exposição foi comissariada por Sérgio Mah.
A propósito de uma exposição na Galeria Pedro Oliveira, no Porto, Aballí falou com o crítico Óscar Faria. O resultado dessa conversa está aqui.
Sem Actividade, de Ignasi Aballí
Secção Oficial PHotoEspaña08
Museu de Portimão, Rua D. Carlos I (Antiga Fábrica Feu), Portimão
Até 7 de Setembro
06 julho, 2008
Buñuel fotógrafo
São fotografias feitas durante a preparação das rodagens dos seus filmes. O realizador espanhol fez 20 filmes no México (onde morreu) e existem imagens da preparação de uma dúzia de rodagens. Na exposição, ao lado de cada fotografia, pode ver-se um fotograma do filme em que aparece a mesma imagem. Esta fotografia foi feita durante a preparação do filme Los olvidados e captada nos arredores da Cidade do México, em Nonoalco. Quanto preparava este filme, Buñuel percorreu sozinho os subúrbios muito pobres durante cinco meses.
(Público, 4.7. 2008)
Para ler o artigo do El País clique aqui.
05 julho, 2008
04 julho, 2008
flor
A galeria de fotografia Pente 10 inaugurou esta semana a exposição Mujeres Fantasticas da mexicana Flor Garduño. Ao longo de 16 imagens a preto e branco, Flor deambula por algumas das mais importantes representações da feminilidade que marcaram a história da cultura.
Tereza Siza escreveu este texto para o catálogo:
Habituamo-nos a reconhecer em Flor Garduño séries de imagens recolhidas, de flaneuse atenta ao maravilhoso do mundo e dos mitos dos homens e a outras elaboradas, imagens construídas em torno de um sentido. Nisto Flor soube actualizar a transformação que a fotografia sofreu com o impacto de um forte conceptualismo. Não cedendo, naturalmente, ao registo modal, mantendo o dramatismo do contraste a preto e branco ou uma diversa gama de cinzentos e deixando, inteiro, o seu manual mitológico e de espanto.
Talvez por isso mesmo aqui se encontrem elementos étnicos, que deciframos não apenas numa perspectiva das Américas, mas de um código universal dessa mitologia que se revela como uma diversidade de coincidências, uma tentativa pertinaz do homem em representar-se como fazendo parte do todo.
E quem diz mito diz sempre poesia, de desleixo pelo racional e organizado, de invenção de um outro mundo – tão labiríntico e caótico como o mundo natural.
E, porque é difícil esquecer mitologias lapidares como as que conhecemos de Testemunhos do tempo, reencontramo-los aqui, nesta construção de entendimentos sobre a mulher, nas variadas asserções em que a cultura a tem vindo a representar.
O que há de comum entre a Ofélia romanticamente morta, ainda ligada ao trágico do destino desmancha-prazeres e a mulher tartaruga que se esconde sob a sua carapaça emprestada ou a mulher-leopardo, reiterado ícone de um masoquismo pan-americano e europeu? Fala-se claramente de um conjunto de medos masculinos que parece terem saído da velha constatação da mulher-feita-para-a-vida e do homem-feito-para-a-morte.
Trata-se, pois, de um conjunto de ideias sobre a mulher, um repositório, por vezes milenário, de construções culturais que transitam nos dois géneros e apenas se distinguem quando alguém, como Flor, faz com estes aiku em imagem, a percepção da diferença dos géneros através dos tempos e através dos sentidos.
Diz Flor Garduño que os homens olham estas imagens com muito mais erotismo do que as mulheres. As mulheres, amigas de Flor, que posam para estes encantamentos interiores, assim exteriorizados na nudez, na ausência de todo o código de sedução, porque esclarecidas pela simbólica que Flor lhes empresta, assumem assim, qualquer coisa de um sagrado quase primordial porque é esse precisamente o universo de entendimento que a fotógrafa aqui materializa de forma quase alegórica. Algumas imagens, carregadas de percepção cultural, como Argos, Purificação, ou mesmo a mulher com a sua própria representação, o fruto, parecem-nos actualizações de diversas composições que atravessam a história.
Outras, como a simbiose que se encontra em Repouso e Coluna, (na perspectiva clássica da coluna ou na subentendida “alma” das colunas sacrificiais gregas) exigem o conhecimento da mitologia europeia e da sua tradução greco-romana. Ou da serpente-emplumada a atravessar o corpo das virgens sacrificadas.
Mas a Lua Crescente, que nos confronta com um mundo feminino atento e, de certo modo irónico ou aquela espantosa Anémona, tão fatal como um campo de flores, estão para lá da interpretação. Introduzem-nos no indizível, no enigma. E essa é, por certo a cultura feminina na sua mais vasta indeterminação, na sua perversidade e no seu segredo.
Tereza Siza
Mujeres Fantasticas, de Flor Garduño
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes, 10 (ao Jardim das Amoreiras), Lisboa
Tel.: 212369569
Até 31 de Agosto
03 julho, 2008
encontros de regresso
Os Encontros da Imagem de Braga já têm data marcada: decorrem entre 27 de Setembro e 26 de Outubro. Fronteiras do Género é o tema escolhido para a edição deste ano que contará com exposições de: Guerrila Girls, Mary Kelly, Mireille Loup, Ana Leão, Ana Perez Quiroga, Ana Vidigal, Annette Frick, Aurore de Sousa, Blanca, Casa Brullet, Catarina Botelho, Celeste Cerqueira, Corinne Noordenbos, Frederique Aguillon, Joana Consiglieri, Laura Medler, Margarida Correia, Margarida Paiva, Maria Lusitano, Maria Ruído, Marina Núñez, Martinha Maia, Paulo Mendes, Pipilotti Rist, Rita Castro Neves, Roberta Lima, Sandra Rocha, Shirin Neshat, Slavica Perkovic, Soledad Córdoba, Susana Mendes Silva, Tatiana Parcero, Valter Vinagre, Vitoria Dihel e Vanessa Beecroft.
Rui Prata, director artístico dos EI, apresenta o tema assim:
(...)
Fronteiras do Género, não pretende revisitar as lutas feministas dos finais dos anos 60, mas reflectir, a partir dessa génese, na multiplicidade de linguagens e representações artísticas da contemporaneidade. Para o efeito, o projecto delineado, embora remeta para as raízes dos anos 60, evolui rapidamente para a diversidade actual, procurando verificar se efectivamente existe, ou não, uma expressividade mais característica do género feminino. Assim, para além da já tradicional representação do corpo, encontramos propostas que vão desde a evidência dos problemas actuais da sociedade, ao uso e forma de materiais mais tradicionalmente femininos, até conceitos mais abstractos.
(...)
Em paralelo, haverá outras actividades:
>>Ciclo de Cinema (Auditório do Theatro Circo)
Cinema no Feminino
>10, 11, 12 de Out.
>>Ciclo de Conferências e Palestras (auditório BLCS)
Guerrilla Girls
>28 de Set.
Mulher Artista/Mulher Comissária
>11, 12, 18, 19 de Out.
Ana Gabriela Macedo
Fátima Séneca
Isabel Carlos
Maria Ruído
Margarita Aizpuru
Amélia Jones
O Livro de Autor
>24 de Out.
Irene Atinger
Patrick Le Bescont
>>EI Emergentes 08 - Leitura crítica de portfolios
>3 e 4 de Out.
Críticos, directores de museus, editores e galeristas analisam, criticam e seleccionam novos autores.
02 julho, 2008
à la minuta
O próximo Serão em Torno da Fotografia em Évora será dedicado à fotografia à la minuta. A palestra, organizada pelo Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal, partirá de uma imagem captada por Gama Freixo, em 1920, para explicar esta técnica. O investigador José Borges, autor do livro Fotógrafos à La Minuta, será um dos oradores da noite que contará ainda com a estreia da peça Teatro à la Minuta, da autoria do grupo Trulé.
Serão em Torno da Fotografia
Pátio do Arquivo Fotográfico, Rua Diogo Cão, 19, Évora
Dia 4 de Julho, a partir das 21h00
01 julho, 2008
ainda Parr
Depois de ter vencido o prémio carreira no PHotoEspaña, Martin Parr deu uma pequena entrevista ao El País onde volta a questionar a verdade em muitas das imagens que nos rodeiam.
Para ler a entrevista clique aqui.