28 junho, 2006

Os Elementos mais Um

Augusto Brázio, Homem

Água, Terra, Ar, Fogo. Os Elementos mais um: o Homem.

O Homem como "quinta essência", aquela que os molda, conserva, destrói e contempla. Aquela que os concebe, amansa e combate, que aceita como seu princípio, génese, como seu caldo inicial. A Fundação Alentejo - Terra Mãe (Évora) ousou pedir a doze fotógrafos da casa que se lançassem na difícil tarefa de fixar imagens dos Elementos, mais um: Eles próprios, no seu espaço.

O resultado pode ser visto na exposição Alentejo Elementar, a partir de amanhã, e no catálogo que a acompanha.

A escrita de Paulo Barriga, comissário da exposição, sobre o projecto:

(...) O Homem enquanto quinto elemento, é também a máquina, é também o olhar, é também o instante retido. O Homem é também a técnica que eterniza o momento ou, no limite da provocação, é também aquele que se quer substituir aos demais elementos, aprisionando o tempo, parando o tempo, num quadrado de película.

in Alentejo Elementar, ed. Fundação Alentejo – Terra Mãe, Évora, 2006.

Rui Gaudêncio, Água

João Francisco Vilhena, Fogo

Edgar Martins, Terra
Luís Pavão, Ar
Alentejo Elementar, fotografias de António Carrapato, António Cunha, Augusto Brázio, Bruno Portela, Céu Guarda, Edgar Martins, João Francisco Vilhena, José Manuel Rodrigues, Luís Pavão, Mariano Piçarra, Nuno Cera, Rui Gaudêncio.
Fundação Alentejo – Terra Mãe, R. dos Penedos, nº 13-B, Páteo da Fundação, 7000 – 531, Évora
Tel: 266 746 754, e-mail: fundacao@alentejo-terramae.pt

26 junho, 2006

Para o B.I.

Pavel Nedved, Monika Fischer e Mathias Braschler

Mesmo aqui ao lado, no Em Revista, Joana Amado descobriu na Vanity Fair um portfolio de Monika Fischer e Mathias Braschler com retratos de jogadores de futebol (captados para o livro Faces of Football). São imagens tipo B.I. tiradas com a objectiva colada à cara, logo após o fim de um jogo. Rostos que transportam do relvado tensão, esforço, alegria e tristeza. Surpreende o preto e branco em caras que estamos habituados a ver a cores, protagonistas de “cenários” a cores, folclóricos. Há nestas expressões uma rudeza dramática que confere humanidade a pessoas que moram no nosso imaginário como peões virtuais, meros equipamentos em movimento.

17 junho, 2006

Dean fotógrafo

James Dean, Roy Schatt, 1954

Há também uma margem de arbitrariedade na história das imagens que nos ensina a importância das escolhas e a humildade do acaso
João Lopes, Entre as Imagens, Diário de Notícias

I knew James Dean... as a friend and as student. He was a disrupter of norms, a bender of rules, a disquieter of calm. Through these photographs I hope to transmit a glimpse of his most insistent, and perhaps eternal, presence
Roy Schatt

A fotografia é escolha. E acaso.
A fotografia revela. E esconde.
Um “dos” James Dean (1931–1955) que ficou guardado na nossa memória - a imagem de um homem contra o vento, um homem “contra” - revela e esconde. Foi fruto da escolha e do acaso. A escolha de Roy Schatt (1909-2002), o fotógrafo de celebridades que captou o gingar négligé de Dean West 68th Street fora, corria 1954. Quis o acaso (o esquecimento?) que outras imagens ficassem na penumbra durante mais de 50 anos. Até que a Lowe Galleries (Atlanta, Santa Monica) resolveu dar a conhecer outros quadrados do negativo da mítica sessão de Nova Iorque feita para um portfolio da revista Life. São duas fotografias que mostram um James Dean de olhar ainda mais longe, perdido, como quase sempre. Revelam-no de máquina fotográfica ao peito, não como simples acessório, mas como sinal de uma paixão recente. É que para se deixar fotografar o actor colocou uma exigência: Roy Schatt teria de lhe ensinar alguns segredos do seu ofício. O fotógrafo da revista americana - a quem voltarei - aceitou o desafio. Dean, um dos protagonistas da imagem em movimento da década de 1950, passou a querer fixar imagens. E fê-lo com mestria.
É esse James Dean que ficou escondido – o fotógrafo – que agora melhor se revela. Pelas imagens. De si. Por si.

James Dean, Roy Schatt, 1954

12 junho, 2006

Fotografar pintando

Eberhard Havekost, Dresden 3 (óleo sobre tela), 2003


Nem sempre foram pacíficas (longe disso) as relações entre fotografia e pintura, em particular desde que a primeira "roubou" o labor de reprodução (e representação) quase exclusivo da segunda. O suporte "intruso" acabaria por conquistar um lugar no Olimpo das artes e depois disso tornar-se num dos mais complexos e fundadores meios de expressão estética. A exposição Imagens em Pintura, que actualmente pode ser vista na Fundação de Serralves, mostra como os pincéis de Eberhard Havekost, Johannes Kahrs, Magnus Von Plessen e Wilhelm Sasnal se tornaram fotográficos quando chamados a escolher enquadramento, perspectiva, corte ou desfoque.

O texto de apresentação da mostra explica assim as propostas dos quatro artistas:
"Havekost pinta modelos fotográficos manipulados por computador de forma a sujeitar a sua actividade de pintura à imagem gerada electronicamente. Plessen lida com o estatuto de realidade da pintura e da fotografia, propondo uma espécie de ‘pintura indexada’ que pode ser vista como uma tentativa de cruzar e atravessar a superfície da pintura e da fotografia. O trabalho de Sasnal parte da enumeração e nomeação pictórica das coisas do seu mundo, sem uma lógica discernível, exercitando uma alargada variedade de formas de pintar que são elas mesmo passíveis de se tornar objectos do seu inventário. Kahrs escolhe frequentemente imagens que transforma em pinturas ou desenhos a carvão que enfatizam e questionam ao mesmo tempo a sua atracção emocional."

Imagens em Pintura
Eberhard Havekost, Johannes Kahrs, Magnus Von Plessen e Wilhelm Sasnal
Comissário: Ulrich Loock
Fundação de Serralves, Porto
De ter. a qui. das 10h00 às 19h00; de sex. a sáb. das 10h00 às 22h00; dom. e fer. Das 10h00 às 20h00.
Até 9 de Julho.

08 junho, 2006

PHotoEspaña, o regresso da natureza

Flanders trees - Linde, Ronse, Rodney Graham, 2006

Natureza é o tema genérico da edição deste ano da PHotoEspaña, Festival Internacional de Artes Visuais, que abriu portas na semana passada. Durante um mês e meio, Madrid e Toledo recebem as propostas de 375 fotógrafos e artistas visuais de 33 nacionalidades. O desafio passa por identificar "as novas relações entre natureza e cultura e as novas interpretações do conceito de paisagem”.

Palavras de Horacio Fernández, comissário da PHotoEspaña, sobre a escolha do tema:

(...) La desconfianza, la incomprensión y hasta el desprecio de la naturaleza ha sido común en el arte del siglo XX. El paisaje era un tema caduco, anacrónico, aburrido, romántico. Y no sin razones. ¿Para qué representar visualmente la naturaleza, que ya de por sí es visible? ¿Cómo dotarla de orden, expresión o significado?
(...)
Esta nueva edición de PHotoEspaña está compuesta por un conjunto de exposiciones en las que se quiere aproximar a los espectadores a algunas de las partes visibles de la complejidad natural-cultural. Por medio de trabajos de todo tipo, sobre todo técnicos y en particular fotográficos, y con semejante atención a la prestada en las dos ediciones anteriores al desarrollo actual de los lenguajes documentales, el programa de PHE06 plantea de manera problemática y crítica una panorámica variada de uno de los asuntos importantes de nuestro tiempo.

As exposições do festival estão divididas em duas grandes secções: a Secção Oficial (museus, instituições e grandes centros de exposições); e o Festival Off (galerias de arte e outros espaços).
Paulo Nozolino é um dos artistas portugueses seleccionados no espaço Campus PHE, ao lado de Hiroshi Sugimoto, Ouka Leele e Paolo Roversi. No Centro Cultural Conde Duque, apresenta-se “o contraponto” às imagens de plantas de Karl Blossfeldt com Momentos de Vídeo-arte Portugués Contemporáneo, que reúne trabalhos de dez artistas portugueses.

Em parceria com a Greenpeace, a PHotoEspaña criou o PHotoBlog, onde se podem denunciar todo o tipo de agressões ao meio ambiente.

06 junho, 2006

Monges fotógrafos

Antonin Jaussen e Raphäel Savignac durante uma das suas expedições (EBAF)

Alexandra Lucas Coelho escreve na PÚBLICA do último domingo (4 Junho, 2006) acerca de Antonin Jaussen (1871-1962) e Raphäel Savignac (1874-1951), dois monges fotógrafos que se perderam de amores pelas Arábias, durante a primeira vintena do século XX. Partindo do antigo Convento de Saint-Étienne/Escola Prática de Estudos Bíblicos de Jerusalém, onde se ordenaram, Jaussen e Savignac fizeram várias expedições de cariz arqueológico, etnológico e epigráfico. Sempre com a máquina fotográfica e o tripé no alforge dos camelos. Numa altura em que "a imagem que o Ocidente tinha do Oriente 'era em boa parte fruto da sua própria fantasia, dos seus fantasmas'". Há nos rostos de quem se deixou apanhar pela objectiva uma atitude passiva de alguém que diz: "Aqui estou. Sou assim". Para acabar com os fantasmas?
O convento, que agora se chama Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém (EBAF), tem à sua guarda 15 mil negativos em placas de vidro e cinco mil positivos.

02 junho, 2006

Palmas

Esta vista de Lisboa atribuída a Francesco Rocchini foi uma das surpresas do leilão (Martim Ramos/PÚBLICO)


Acabou com palmas o leilão de ontem, o primeiro exclusivamente dedicado à fotografia em Portugal. A venda foi animada com vários lotes a provocarem aceso despique na sala. Ficou provado que a imagem fotográfica tem um mercado em Portugal. A Potássio 4 já anunciou o próximo leilão para Outubro. Parece claro que há aspectos a melhorar.

Os mais disputados:

Daguerreótipos (lote 1)
O primeiro é sempre o primeiro. O estado de conservação dos dois daguerreótipos não era muito famoso, mas o lote 1 acabou por resultar numa disputa interessante. Começou nos 100 euros e acabou nos 280.

Álbum presidencial (lote 30)
Era apontado como um dos grandes protagonistas da noite e acabou por se confirmar como tal. As imagens de Salazar e outras figuras do Estado Novo representadas nesta Visita de S. Ex.ª Presidente da República Óscar Carmona a São Tomé e Príncipe e Lourenço Marques, (1939), merecem ser estudadas, estejam onde estiverem. Começou nos 1000 euros e acabou nos 2600.

Álbum de retratos (lote 44)
Foi a primeira grande surpresa. O álbum tem 88 retratos fotográficos de figuras portuguesas aplicados sobre caricaturas desenhadas. Começou nos 200 e acabou nos 1400.

Campo Pequeno (lote 59)
Outra disputa interessante para um conjunto de duas imagens do interior e exterior do Campo Pequno. Será que foi o efeito actualidade? Começou nos 100 euros e acabou nos 520.

Francesco Rocchini (lote 65)
É curioso que a imagem que é atribuída ao fotógrafo italiano (vista de Lisboa tomada do Castelo de S. Jorge) subiu mais do que a que tem a chancela com o seu nome (Praça do Município). O Tejo com grandes barcos à vela e ainda muito longe de ser atravessado por uma ponte parece ser um exclusivo deste nome: Rocchini. Começou nos 25 euros e acabou nos 260.

Retrato de Salazar (lote 129)
Havia alguma expectativa em relação a esta fotografia, assinada pelo autor (San Payo). É um dos primeiros retratos oficiais do ditador logo depois de ter chegado ao poder. Começou nos 100 euros e acabou nos 520.

Vinhedos do Douro (lote 157)
O fotógrafo Alvão e o Douro confundem-se. Olhar para o Douro que foi, é ver o que Alvão nos deixou - montanha esculpida, vinhedo e o céu a rebentar. Seria um dos lotes que António Barreto decidiu vender? Começou nos 25 euros e acabou nos 540.

"Azeite e Azeitonas" (lote 234)
Foi outra das grandes surpresas da noite. O lote era constituído por duas imagens com um lógica de construção publicitária. Começou nos 50 euros e acabou nos 460.

Arpad Szenes e Viera da Silva (lote 243)
Era uma das grandes apostas da leiloeira que acabou por se confirmar. O retrato de olhares cruzados dos dois pintores é de pequena dimensão, mas chegou para mostrar o génio criativo que morava dentro de cada um deles. Começou nos 800 euros e acabou nos 1300.

Lisboa, Cidade Triste e Alegre, de Costa Martins e Victor Palla (lote 285)
É o Santo Graal dos livros de fotografia do século XX português. Obra de ousadia e modernidade. De estética e olhar fotográfico, por fim. Começou nos 400 euros e acabou nos 1100. Houve palmas.


As desilusões:

Carlos Relvas (lote 64)
O photographo amador da Golegã ficaria constrangido com a importância relativa que deram à sua vista ribatejana. O desinteresse que este lote suscitou já vai revelando algum grau de exigência dos compradores. Começou nos 600 e acabou nos 620.

Rafael Bordalo Pinheiro (lote 68)
Pelo que significa para o espírito de libertinagem e liberdade criativa, merecia muito mais. Era uma prova em muito bom estado de uma face que nos habituámos a conhecer bem. Começou nos 50 euros e acabou nos 160.

Joshua Benoliel (lote 137)
Era uma prova fraquinha. Parece que a sala percebeu bem isso. O Benoliel fotográfico era a antítese do que está nesta fotografia. Era gente, movimento, reportagem. Foi retirada de praça.

D. Amélia (lote 141)
A representação fotográfica monárquica foi só um meio sucesso. Algumas imagens de reis e rainhas ficaram pelo caminho, como uma prova de tamanho avantajado de D. Amélia que não suscitou qualquer reacção. Foi retirada de praça.

Caixa S. Tomé (lote 254)
As imagens coloniais costumam despertar interesse. Estes diapositivos de grande formato tinham boa qualidade e alguns deles eram fotografias de eleição. O lote acabou por não cumprir o protagonismo que lhe era dado. Começou nos 1500 e acabou nos 1600.

Transferência…

Norbert Foersterling, EPA
…do privado para o PÚBLICO. A partir de hoje este blog estará também acessível aos leitores através do site do jornal. Boas vistas.

 
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