27 fevereiro, 2012

aperture Primavera




 A edição Primavera/2012 da revista Aperture já está disponível aqui.
Os principais temas deste número são:

> Tema de capa: Viviane Sassen, Ivy, 2010.

> Lieko Shiga: Out of a Crevasse, The Days After the Tsunami, por Mariko Takeuchi

> Arthur Ou: Framework, por Walter Benn Michaels

> The Beat Generation: Writers for the Mambo Age, por Robert Farris Thompson

> Gus the Bear, por Sylvia Plachy

> Precedented Photography, por David Campany

> Paula Luttringer: Archaeology of a Tragedy, por Victoria Verlichak

> Viviane Sassen: Parasomnia, por Aaron Schuman

> Eugène Atget: Mute Witness, por Geoff Dyer

25 fevereiro, 2012

desafiar

© Paulo Pimenta



 Na vertigem do olhar do olhar dos outros
(Sérgio B. Gomes, P2, Público, 25.02.2012)

É um exercício arriscado fotografar uma exposição de fotografia. Ainda mais arriscado é fotografar uma exposição de fotografia onde, para além da imagem fotográfica, aparecem outras imagens — no caso, imagens pintadas que moram em muitas das fotografias da exposição de Thomas Struth no Museu de Serralves, no Porto, em relação às quais o repórter Paulo Pimenta decidiu estabelecer um diálogo ora irónico, ora provocador, um pouco como quem entra sem ser convidado, mas que, mesmo assim, decide dar um passo em frente para ver o que acontece a seguir.

É um risco porque o acto fotográfico pressupõe (na mais pura das funções, na mais romântica acepção) o encerramento de território visual, a conquista de qualquer coisa, como quem espeta uma bandeira em terra virgem. Significa isto que fotografar o fotografado é, de alguma maneira, meter a foice em seara alheia, roubar o já visto, registar o registado. Dizíamos, ainda mais risco porque a fotografia de imagens pictóricas tão icónicas como o auto-retrato de Albrecht Dürer ou a caminhada à chuva nas ruas de Paris de Gustave Caillebotte (tão inspirada na fotografia…) podem facilmente apagar a superfície que está à frente dos nossos olhos (a fotografia) para nos fixar de modo encantatório apenas na tela pintada.

Donde, o desafio e a virtude de um trabalho no fio da navalha como é este de Paulo Pimenta
está na capacidade de conquistar território numa nesga de espaço que já pertencia a outrem, na procura de faíscas que façam com que o diálogo se estabeleça entre universos muito parecidos, num jogo de meta-imagem que entrelaça (e sobrepõe) distintas camadas de leitura. E, na procura desse objectivo, não há melhor aliado do que a vertigem dos que olham o olhar dos outros. É na sua postura (em alguns casos ligada à expressão do olhar) que residem, porventura, as melhores oportunidades para conceber trabalho acerca do uso do espaço museológico e das emoções que se manifestam na experiência estética. É aí, também, que reside a oportunidade para revelar a multiplicidade coreográfica provocada pelo que se vê (e em que condições se vê), para nos vermos ao espelho enquanto massa humana ou simplesmente para pôr em causa (dessacralizar) as obras retratadas (as fotográficas e as outras).

O exercício de paciência e de oportunidade de Paulo Pimenta pode dar-nos isto tudo. Mas há uma característica que transborda deste trabalho: a procura do simples gozo de confundir quem vê. De brincar ao jogo do gato e do rato. Que é para isso que imagem fotográfica também serve.



 fotografiafalada


© José Maçãs de Carvalho

(José Maçãs de Carvalho) 


Parti para este trabalho com a ideia de oposição. Os painéis são um ícone e formam uma ideia de sociedade portuguesa que pretende incluir toda a gente. Mas eu quis falar dos espoliados,
dos que ficam de fora, nos nomes que já existiram em Portugal e que foram proibidos pelo registo civil português. Creio que é uma medida que contribui para a perda de identidade. Para além da ausência (das caixas identificadas com nomes, mas vazias), quis mostrar também algo que significasse conteúdo, e daí as barras de ouro que preenchem de forma fantasiosa uma ideia de totalidade e de garante de viabilidade de um Estado.

© José Maçãs de Carvalho


Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril

19 fevereiro, 2012

os objectos





As palavras e as imagens raramente têm encontros felizes. Não é o caso de Os Rumores dos Objectos (Atlântida, 2005), extraordinário fotolivro de Jorge Manuel de Oliveira sobre a alma e os adereços  de Al Berto e com versos soltos do poeta de Sines. Ainda não tinha dado por ele, mas foi o único a conquistar-me numa livraria prestes a levar a estocada final e onde só se viam montanhas de livros sobre windows 98. Apetece chamar por uma frase feita: quem procura sempre encontra.




18 fevereiro, 2012

 fotografiafalada


Fátima Mendoza
© Carmela García







(Carmela García)

Os Painéis de São Vicente levantam grandes incógnitas, deixam muitas coisas por explicar. Esse lado secretista foi um dos aspectos que mais me inspiraram para fazer estes retratos de mulheres. A questão do género é um tema que tem acompanhado sempre o meu trabalho. E quis voltar a ele mais uma vez, mas aqui sobretudo como uma desculpa para conhecer (e dar a conhecer) melhor estas pintoras. Num certo sentido, esta representação de mulheres surge em oposição aos painéis, mas não queria que estes retratos se esgotassem nessa premissa nem tão-pouco na da imitação.

Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril

16 fevereiro, 2012

Deambulações

Orlando Ribeiro, s/data
© Colecção do Centro de estudos Geográficos

Esta fotografia é como um mapa do território
 
Lucinda Canelas
(P2, Público, 03.02.2012)

Foi a primeira coisa que comprou ao chegar à universidade como professor. Quando Orlando Ribeiro saía para o campo, a Leica era tão importante como as botas ou os óculos. "Ele não via nada sem eles e, sem as fotografias, nós veríamos muito menos de tudo o que ele viu", diz Suzanne Daveau, sua mulher e companheira de muitas viagens. "Quando começava a preparar mais um trabalho numa serra qualquer, o Orlando ia logo buscar a Leica. Ele sabia que a fotografia é um documento que perdura, que amplia a paisagem, que nos permite voltar a olhar com outro tempo, a partir da sala da nossa casa."

Paralelos à escrita, Orlando Ribeiro (1911-1997) manteve sempre outros dois registos para os quais não tinha qualquer formação específica - o do desenho e o da fotografia. Folhear os seus cadernos de campo, cheios de anotações numa letra miudinha, é testemunhar um esforço de organização que, segundo Daveau, contrariava a sua natureza e que, por isso, pode explicar o facto de muitas das imagens dos seus 50 anos de carreira académica (fez cerca de 11 mil, entre fotografia e diapositivos) terem ficado por legendar. "A cartografia dos seus cadernos não é fácil. Às vezes não anota sequer a data e o local de um apontamento ou de um desenho", reconhece Daveau ao P2. Tudo em campo era muito rápido e a fotografia dava ao académico a possibilidade de registar o que via com toda a impaciência que lhe era habitual. "Aprender a trabalhar com a Leica foi uma estreia para o Orlando. Foi a única máquina que aceitou sem reservas. Ele que nunca aprendeu a dactilografar..."

Referência da geografia portuguesa do século XX, autor de livros fundamentais como Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945) e Mediterrâneo. Ambiente e Tradição (1968), Orlando Ribeiro era também fotógrafo. Por necessidade. É esta faceta que Deambulações: Diálogos Fotográficos com Orlando Ribeiro, a exposição que abre hoje na Reitoria da Universidade de Lisboa, explora através de 70 trabalhos de 30 fotógrafos e artistas, cedidos pelos próprios ou saídos do acervo do Centro de Estudos Geográficos (CEG), da colecção da Fundação PLMJ e das galerias Luís Serpa e Carlos Carvalho.

José Manuel Simões e Mário Neves, geógrafos e fotógrafos, são os comissários desta exposição organizada pelo núcleo de investigação que Orlando Ribeiro fundou (o CEG). Com ela quiseram tirá-lo da esfera da academia e mostrar, entre pares, até que ponto podem ser fortes e eficazes as suas imagens documentais. "Conta-se que, na primeira aula do ano, com turmas novas, o professor falava sempre da importância da observação, de como o principal instrumento do geógrafo é o olho", diz Simões, que ainda assistiu a um ou dois dos seus seminários quando chegou à faculdade, em 1974.

Vinte e cinco das suas fotografias documentais foram propositadamente ampliadas para Deambulações e vê-las ao lado de outras mais familiares ao universo artístico - João Pedro Vale, Nuno Cera e Ana Janeiro - é, por si só, uma experiência. Simões e Neves não procuraram o confronto, mas ele às vezes acontece: "Gérard Castello-Lopes é contemporâneo de Orlando Ribeiro; Augusto Cabrita e Eduardo Gageiro gostam de fotografar o trabalho e os trabalhadores; o Duarte Belo entra em diálogo com o território quase nos mesmos moldes. Tudo isto é importante para estabelecer diálogos e contrastes. E os contrastes são bons", defende Mário Neves, frente a uma fotografia que Orlando Ribeiro tirou em plena erupção do vulcão dos Capelinhos, no Faial, em 1957, numa expedição em que também filmou, com a sua assistente, Raquel Soeiro de Brito. "Falta-me ver um vulcão em erupção e uma aurora boreal", diz este geógrafo que já fez trabalho de campo na Antárctida. "O Orlando Ribeiro viu muita coisa."

Sem distinções
Separar o documental do artístico quando se trata de relacionar a fotografia de Orlando Ribeiro com a de Paulo Catrica e de Isabel Brison faz sentido do ponto de vista formal, mas Daveau garante que compartimentar a realidade não era coisa que agradasse ao geógrafo que conheceu num congresso na Suécia em 1960 e com quem viria a casar cinco anos, uma quantas cartas e outros tantos encontros depois. "Mostrei-lhe os Alpes, ele mostrou-me a serra da Estrela. Mostrei-lhe a Bretanha, ele mostrou-me o Alentejo", exemplifica, "mas em nenhuma das nossas viagens ou em momento alguma da nossa vida, o Orlando dividiu a realidade em pedacinhos ou especialidades. A geografia era, é, uma maneira de ver o mundo. Nunca fez qualquer distinção entre ciência e arte, gostava de Vivaldi e Bruckner, como gostava de Goethe e geologia."

Muitas das fotografias de Orlando Ribeiro foram feitas com Daveau, hoje com 86 anos, por perto. E ela também fotografa. Mas num dos registos mais antigos da exposição a geógrafa francesa estava ainda a quase 30 anos de distância. É uma vista do Vale do Zêzere, em 1938, em que é possível ver os pequenos caminhos de pé posto que cortam as encostas e o rio ao fundo, como se fosse apenas um fio de água ali à porta da nascente, no Covão da Ametade.

Duarte Belo conhece bem esta serra, verdadeiro laboratório da geografia portuguesa. Tem sete fotografias expostas em Deambulações, seis delas com rochas, neve e pequenas lagoas da Estrela. As semelhanças entre a sua fotografia e a de Orlando Ribeiro explicam-se pelo "carácter documental" de ambas e pelo facto de ter herdado do geógrafo, que descobriu aos 18 anos nas estantes da livraria Leitura, no Porto, o desejo de conhecer melhor o país. "O Orlando Ribeiro desenha, com uma escrita brilhante e as suas fotografias, um mapa do território português que sempre me interessou muito", diz. "Lê-lo é como ler Camilo ou Aquilino, mas a sua fotografia não quer ser nada além do que é - puramente documental. A sua objectividade é muito tocante. Ele não está nada interessado em criar uma nova linguagem a partir da fotografia, só quer registar o que vê para fixar a memória dos lugares."

O fotógrafo já percorreu os mesmos caminhos do geógrafo mais do que uma vez. Primeiro num projecto para a Expo "98 e o Círculo de Leitores (Portugal - O Sabor da Terra, 1996-98) e depois para a Assírio & Alvim (Orlando Ribeiro - Seguido de uma viagem breve à serra da Estrela, 1999). Agora prepara-se para lançar Portugal, Luz e Sombra - O País depois de Orlando Ribeiro (no próximo dia 23, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, numa edição Temas e Debates/Círculo de Leitores). "Foi com ele que aprendi a olhar para a paisagem. Neste último projecto fui, durante duas semanas, a muitos dos lugares que ele fotografou ao longo de 50 anos. O país de Orlando Ribeiro não era atravessado por auto-estradas."

Mas Daveau lembra-se bem de o percorrer ao volante da 4L. Orlando Ribeiro não costumava guiar. "Perdemo-nos na serra da Lousã, na do Açor... Sempre que tínhamos dois ou três dias para viajar, saíamos. Portugal era o assunto que mais lhe interessava." Era no campo, diz José Manuel Simões, que se sentia bem e as suas fotografias mostram-no: "É no mundo rural que se torna mais evidente o equilíbrio entre o homem e o meio, essa simbiose que Orlando Ribeiro gostava tanto de sublinhar, com um olhar profundamente humanizado."

Deambulações – diálogos fotográficos com Orlando Ribeiro 
Átrio da Reitoria da Universidade de Lisboa
Dias úteis, entre as 9h e as 18h
Até 9 de Março

15 fevereiro, 2012

cindy


© Stefan Ruiz



Será esta a verdadeira Cindy?
Nunca saberemos. Aliás, isso pouco importa - temos sempre todas as outras. E a partir do dia 26 de Fevereiro o MoMA de Nova Iorque vai mostrar um resumo de todo o filme Cindy Sherman e de todas as personagens que nele desempenham o papel principal - Cindy Sherman.
Antes da inauguração, Simon Schama, do Financial Times, foi falar com Cindy ao estúdio onde trabalha, em Nova Iorque. Que Cindy terá dado a entrevista? (aqui

14 fevereiro, 2012


Entre aspas

Robert Mapplethorpe, Forty-second Street, 1970
©Patti Smith
Ele apanhava a linha F até à Times Square, e misturava-se com os cadastrados, os chulos e as prostitutas naquilo a que chamava 'o Jardim da Perversão'. Fez para mim uma fotografia numa cabina telefónica, vestido com o jaquetão de marinheiro que eu lhe oferecera e a espreitar por baixo de um velho boné da marinha francesa; sempre foi a minha fotografia favorita dele.

Patti Smith, Apenas Miúdos, ed. Quetzal

13 fevereiro, 2012

 fotografiafalada


© Pedro Cabral Santo


(Pedro Cabral Santo)


Fui à caixa dos brinquedos buscar os meus bonecos da Playmobil, dos anos 70, juntei-os a figuras saídas das TV Guia da mesma época e criei personagens-tipo. Fiz 26 retratos dos bonecos com que a minha filha costuma brincar, tendo por base pratos da McDonald’s, muito parecidos com as vigias dos navios. Quis expor a falta de diversidade da sociedade portuguesa, por oposição à que aparece retratada nos painéis. No século XV, não estávamos, como agora, a caminho de um rosto comum.



Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril


© Pedro Cabral Santo

06 fevereiro, 2012

/uma fotografia, um nome\


 


© António Drumond, s/t, 2000

Depois de circular pela vasta experiência do mundo contemporâneo que impressiona Thomas Struth, de acumular a magnificência das estruturas, que se dizem transparentes, das suas instituições, de manifestar, enfim, a congratulação e o consolo que estas catedrais abertas do nosso tempo, esmagando o contexto construído e humano, nos impõem, sabe bem reencontrar o mundo interior de António Drumond, no recém-criado bar e loja da Avepod, em frente ao Douro, no Muro dos Bacalhoeiros.

É bem natural que a Fotografia reflicta estas duas atitudes que coincidem em nós neste malogrado século XXI: o turismo de massas entrosou o gosto inteligente do progresso técnico com o revivalismo esporádico de um pretérito que também nos pertence. A velocidade de circulação, a fusão da imagem com a realidade, estabelecem em nós esta profusão de gavetas de um real que se vai desfrutando em momentos sempre actuais, de que é modelo o recurso à memória informática.
No contexto do bar, onde um veleiro de dois mastros, atracado no rio reanima o tempo passado, as provas de vinho fazem-se entre o chão de pedra e as fotografias de António Drumond, de dimensão razoável, alinhadas ou reencontradas na volta de um canto ou à altura de um primeiro andar; a preto e branco ou a cor, identificáveis ou desafiadoras, ajudam a reconstituir, à moda do nosso tempo, um passado que nunca existiu e um presente invadido por esse passado contaminado por um novo olhar. Pois este fotógrafo semi-amador, (categoria muito comum nesta cidade), que sempre adivinhou as mudanças do olhar e as trabalhou com uma técnica que tende a desaparecer, mantém aqui, nesta mostra quase intimista de fotografias maioritariamente construídas, não uma volta ao mundo do exterior, mas um percurso levemente crispado pelo seu e nosso mundo interior.

Esta imagem de 2000, a preto e branco, que conserva por isso mesmo as mínimas diferenças do detalhe, representa um dos temas mais caros ao seu autor: o momento em que o corpo, no tempo suspenso da imagem, condensa uma decisão, uma atitude. Aqui é a própria resistência ao caminhar, o enfrentar o vento com a força da verticalidade, que desenha na roupa o turbilhão de pequenas forças que a resistência acarreta. E, como é habitual nestas suas imagens de partida, onde não vemos os rostos dos personagens, é para um lugar indefinível, quase onírico, de confrontação ou mistério, que nós, com o personagem caminhamos.

Há um limiar de ausência nesta presença, um limiar que conduz à aventura e ao desafio. Nas suas imagens de retirada do sujeito, (habituamo-nos a confrontar o olhar do fotografado, entendendo-o) é o contexto que cria o enigma, abastecendo-nos de metáforas reconhecíveis, seja a água que corre, mudando a sua imutabilidade, seja o lugar dos mortos ou o da distância, seja mesmo o de uma acção qualquer que nos esconde. E assim o que é retratado é uma situação, mas a história é excessivamente aberta, é excessivamente universalizante.

Estou em crer que a repetição dos seus vultos que nos recusam o olhar, que partem decisivos ou indecisos e que parecem interromper-se porque se sentem olhados, tem precisamente essa intenção de se tornaram universais. Sem rosto, um vulto é um vulto, pode ser qualquer um, não o identificamos, não o classificamos, não o catalogamos nas nossas metáforas do esquecimento. A arte, mesmo a naturalista ou realista, parte da pulsão para a sublimação. O impulso é mais desestabilizador do que a acção, porque nesta se introduzem conceitos e memórias da aprendizagem. No impulso, embora obscuramente, através de signos, é o real que fala, na sua infindável pesquisa do Todo, esse desejo de ser, de ser totalmente, de ser pertença, ainda, de um mundo, alheio às aparências de ser que a cultura vai impondo. Por isso aqui, nesta pessoa que se afastava e interrompeu a luta contra o vento e a intempérie, (e uso uma metáfora comum), vemos apenas alguém, vemos o universal, o Homem, não particularizado pelo rosto. Essa condição da Fotografia, o ser uma evocação do real fragmentado, exige sempre de nós reconstituição do ausente, do fora de campo, ou do que imaginamos ser o fora de campo. Mais do que a pintura, fotografia é sempre reflexão, invoca-nos tempo e lugar, contradição e mediação. E, recorra ou não a um aprendizado estético, à estranheza ou a uma fácil decifração, impõe-nos repetidamente uma viagem, pelo conhecido ou pelo desconhecido. Qualquer imagem fotográfica contém um código que existe em nós; algumas delas, como esta, rodeiam-se de signos onde, como o autor, navegamos de conceito em conceito, sem podermos e sem querermos sair da indeterminação do mistério para o qual toda a metáfora é insuficiente. Universalizamos a representação porque ela nos faz acudir qualquer pulsão, e a pulsão, como sabemos, identifica-se com o seu objecto de desejo, (ama-se no outro a satisfação que nos dá). Não há memória na imagem indeterminada mesmo se construída. É uma imagem de desejo, mas de desejo sem objecto.

Maria do Carmo Serén

05 fevereiro, 2012

da viagem


© Jorge Lima Alves

Fotografia e viagem
Jorge Lima Alves

Viajar e fotografar são, para mim, prazeres inseparáveis. Mesmo em Lisboa, quando saio para a rua com uma máquina fotográfica na mão, transformo-me instantaneamente num turista. Turista sim, não temo a palavra. Faz-me rir a conotação negativa que ela ganhou e a presunção com que algumas pessoas reivindicam: "Eu não sou turista, sou um viajante". Esquecem que nem todos os turistas andam atrás de postais ilustrados, e que nem todos os viajantes estão animados das melhores intenções. Adiante.

Quando acabamos a viagem, a única coisa que fica são as coisas que compramos e as fotografias. Tudo o resto (as paisagens magníficas, os templos espectaculares, a gastronomia) acaba por parecer um sonho, pois se escapa por entre os dedos, como água ou areia. Não fomos feitos para possuir nada: tudo o que podemos fazer é esquecer e sonhar.

Louco como sou, gostaria de fotografar até o que já não existe. Ou o que ainda não existe. Como seria interessante, por exemplo, poder tirar fotos da Antiguidade, da Idade Média e, já agora, do Futuro. Viajar no tempo... isso sim, seria viajar.

Não sou muito original: gostaria de ver o mundo todo. Adoraria dar a volta à prisão, como dizia Marguerite Yourcenar. Com toda a razão: aprisionados neste mundo, condenados à morte, esperamos a nossa hora de desaparecer, sem saber o que nos espera. Mas supondo que há vida depois da morte, uau... que viagem!

 fotografiafalada


© José Luís Neto

(José Luís Neto)

Uma das características do trabalho fotográfico que tenho vindo a desenvolver desde 1993 foca-se na reflexão do próprio meio e em imagens de arquivo. A série Inutilizado? é desenvolvida a partir de um negativo de gelatina e prata em suporte de vidro, no formato 13x18cm, do Museu Nacional de Arte Antiga, cuja imagem é uma reprodução fotográfica de um dos Painéis de São Vicente (Painel do Arcebispo), que se encontra muito desvanecida, quase transparente. Ainda preserva em algumas partes do negativo a representação figurativa inicial, dificilmente decifrável na sua superfície bidimensional, e noutras a “passagem do tempo” deu lugar a formas completamente abstractas. Neste trabalho, procuro mostrar a temporalidade, baseada na leitura do detalhe de uma imagem com cerca de 75 anos, respeitando todas as marcas visíveis sofridas pela matriz na emulsão fotográfica e no seu suporte de vidro (manchas, pó, riscos...) desde a sua exposição até aos nossos dias. As fotografias dos pormenores da imagem reflectem uma tentativa de revelar e acrescentar algo que não se vê quando se olha para a imagem.



Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril

02 fevereiro, 2012

Carlos, Albertina e Manuel





A campanha Carlos, Albertina e Manuel (Fuel/ Euro RSCG Lisboa) feita no ano passado para assinalar o 30º aniversário da Amnistia Internacional Portugal foi distinguida na categoria print pelo Mobius Awards, um dos mais antigos concursos de publicidade do mundo. Os cartazes foram concebidos a partir de fotografias dos arquivos da PIDE e de imagens actuais captadas por João Pina para o livro Por Teu Livre Pensamento, feito em parceria com o jornalista Rui Daniel Galiza. Em 2011, a mesma campanha já tinha sido distinguida com um Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes na categoria outdoor.




tentar




Faltam quinze dias para o fim do prazo de entrega de portfólios do Descubrimientos PHoto España, lugar privilegiado para os fotógrafos de qualquer nacionalidade ou idade revelarem os seus projectos a sete especialistas da área.
Entre todos os trabalhos recebidos, um júri seleccionará 70 portfólios que serão convidados a participar nos visionamentos críticos.
Alguns dos 21 especialistas para a edição deste ano do Descubrimientos são:

>Martin Barnes (Victoria and Albert Museum, Londres)
>Barnabas Bencsik (Ludwig Múzeum, Budapeste)
>Vladimir Birgus (Institute of Creative Photography, República Checa)
>Jesús Carrillo (Centro de Arte Museo Reina Sofía, Madrid)
>Nili Goren (Tel Aviv Museum of Art, Israel)
>Chiara Nilla Mariani (Il Corriere della Sera Magazine, Sette, Itália)
>Baudoin Lebon (Galería Baudoin Lebon, Paris)
>Mónica Portillo (comissária e crítica independiente, Espanha)
>Gabriele Schor (Verbund collection, Viena)
>Ingo Taubhorn (Haus der Photographie - Aktuelle Kunst, Hamburgo)
>Marianne Thery (Les editions Textuel, França)

Mais informações aqui

 
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