28 fevereiro, 2011


© Nadim Asfar

A revista holandesa Foam está a comemorar o seu 10º aniversário. E aproveita esta ocasião para olhar para o futuro (para as transformações, os novos suportes, as novas plataformas de distribuição...) perguntando a várias pessoas ligadas ao mundo da imagem fotográfica simplesmente isto: O que se segue?. E baseados nesta interrogação os responsáveis da Foam pretendem desenvolver uma série de iniciativas para tentar chegar não a uma, mas a várias respostas sobre o futuro da linguagem e dos suportes fotográficos, bem como as suas formas de distribuição.


As respostas, nas quais podemos participar, podem ser lidas e dadas aqui

O grupo de pensadores convidados inclui:
~Erik Kessels
~Thomas Ruff
~Fred Ritchin
~Nicholas Mirzoeff
~Alec Soth
~Timo Klos
~Melinda Gibson
~Nadim Asfar
~Constant Dullaart
~Benjamin Lowy
~Moira Ricci

19 fevereiro, 2011

museu #2





~museu #1

entre aspas


Burt Glinn, Members of the Seattle Tubing Society in full float, Seattle, Washington, 1953
© Burt Glinn/Magnum Photos

I think that what you've got to do is discover the essential truth of the situation, and have a point of view about it.

Burt Glinn, in Magnum Photos Featured Photographer

16 fevereiro, 2011

/uma fotografia, um nome\

The River, Foz do Tedo
© João Paulo Sotto Mayor



Escolhi esta imagem entre as 21 da colecção de postais 7Douros, que o João Paulo editou não há muito tempo. É a única num quase preto e branco, entre vinte, naquelas cores vibrantes ou desmaiadas a que o digital nos habituou.

João Paulo Sotto Mayor é um daqueles radicais apaixonados pelo Douro; tem-no mostrado nas cores de Outono, nas cores do Verão maduro, no Inverno desolado mas enobrecido pelos montes, nos incidentes e nas gentes que o sulcam sem o marcar.

Mas esta imagem mostra ainda aquele Douro, (e esta colecção transporta o nome mágico de 7Douros) que está na base do olhar do fotógrafo, dessa magia que se desprende desta terra assombrada, mas não dominada, pelo Douro mítico de muitas tradições e muitas estórias.

O Tedo, afluente do Douro, na outra margem, guarda toda a memória dos caminhos pretéritos que, desde a coloração celta do Norte, se dirigiam para os metais e os santuários que os deuses dos montes resguardavam, fazendo peregrinos dos viajantes.
Esta fotografia conserva a inquietante fixidez do movimento que o barco de transporte traça nas águas espelhadas. A ondulação geométrica desenha na água do rio um caminho efémero de transformação, tão cadenciado como o fazer repetitivo, tão sólido como só a fotografia o pode garantir. O ondular na cauda do navio muda-se em tapete de tiras, que cobre até nós a placidez, aqui bem afirmada, do rio.

A indeterminação da luz no preto e branco abre lagoas e riachos que acompanham a sugestão de mistério telúricos da imagem. Sentimos, mais do que vemos, um incêndio de nevoeiro que cresce ao longe num último plano. Tudo se combina para inventarmos o sortilégio de uma paisagem, onde há sugestões que não dominamos e não esclarecemos.

Trata-se, bem o sabemos, da cultura com que cada um fabrica o seu olhar. O fotógrafo, (e ainda lembramos o conceptualismo pictórico das suas imagens dos anos oitenta, que as pessoas de dinheiro escolhiam para contrariar o preto e branco da decoração em voga) cede sempre aos arquétipos do Douro, procura aí os seus deuses velhos e escondidos, a transmutação dos lugares, a Natureza que os representa e lhes dá realidade. O Douro pode ser, então, não apenas o Douro dos trabalhos de Torga, o Douro histórico do Vinho do Porto, mas os caminhos velhos do receio e pacificação das forças que, ao que dizem, continuam a dirigir o mundo físico e dos homens.

O que a fotografia tem de sui-generis é esta capacidade de ser, além do espaço físico que preenche no papel e no ecrã, a memória das muitas explicações e muitas adivinhações que faz despertar no trânsito de um olhar produtor, para um olhar de recepção. São coisas como estas que fazem um estilo.

Maria do Carmo Serén

conversar

Louis Pierson, Countess Castiglione and her son, circa 1864

A próxima sessão do Quintas ao fim da tarde no Museu do Chiado, em Lisboa, tem um tema muito sugestivo: Este nariz não é meu! O retrato fotográfico no século XIX. A conversa será guiada pela investigadora Emília Tavares e está agendada para as 18h30.

15 fevereiro, 2011

encaminhar

Anastasia Taylor-Lind, Cossack
© Anastasia Taylor-Lind

Durante o último festival de fotojornalismo Visa Pour l’Image-Perpignan a FNAC lançou um programa de bolsas para projectos originais de fotojornalismo. As três primeiras bolsas, no valor de 8 mil euros cada, foram agora anunciadas e destinam-se a apoiar trabalhos em curso ou ainda por começar. No ano passado, a FNAC convidou mais de uma dezena de editores de fotografia a proporem nomes de candidatos. No total, foram enviadas 46 candidaturas, das quais foram escolhidas três. Para além da bolsa, estes fotógrafos vão ter a oportunidade de exporem o seu trabalho no próximo Visa Pour l’Image-Perpignan, que decorre entre 27 de Agosto e 11 de Setembro.

Os trabalhos escolhidos:

#Jan Banning vai comparar oito sistemas legais diferentes. Começou no Uganda.

#Cedric Gerbehaye presenciou todo o drama vivido nos últimos tempos no Sudão. O seu trabalho aborda o movimento de populações e os esforços de resconstrução.

#Anastasia Taylor-Lind retrata a actividade das mulheres que fazem parte das Forças Armadas na Rússia e na Crimeia. Taylor-Lind quer agora captar a vida de outros grupos de mulheres em comunidades isoladas.

+ tempo


Shilpa Gupta, 2006
© Shilpa Gupta

Foi alargado até ao dia 20 de Fevereiro o prazo para entrega de portfólios candidatos ao prémio Descubrimientos PHE do festival PHotoEspaña.

As inscrições podem ser feitas aqui

12 fevereiro, 2011

Gérard Castello-Lopes, 1925-2011

Gérard Castello-Lopes, 2004
© David Clifford/Público



Morreu o amador tímido
Sérgio C. Andrade e Sérgio B. Gomes
Público (13.02.2011)

Gérard Castello-Lopes, o fotógrafo que sempre se reclamou como um discípulo apaixonado pela obra humanista de Henri Cartier-Bresson e teve uma vida dividida entre o cinema e a fotografia, e entre Lisboa e Paris, morreu este sábado, aos 85 anos, na capital francesa. Estava retirado da vida activa há muito tempo, padecendo da doença de Alzheimer.

“Desapareceu uma figura incontornável da fotografia portuguesa”, lamenta a historiadora de fotografia Tereza Siza, fazendo notar que, apesar desse seu “sentido de discípulo de Bresson”, Castello-Lopes “tem uma obra com algo mais, uma pureza de linhas e um sentido gráfico muito pessoais”.

A mesma opinião tem o fotógrafo José Manuel Rodrigues, que com ele cultivou uma intensa amizade – “passávamos horas e horas a discutir fotografia” –, desde que o conheceu em 1995, na Gulbenkian, em Paris.

No prefácio do catálogo Lisboa de outras eras, António Barreto, que acompanhou de perto o labor fotográfico de Gérard, descreve-o como “‘um grande tímido’, daqueles que escondem a insegurança na erudição”. Estranhamente, escreve Barreto, Gérard “fala mais do que fotografa”, era um “falador impenitente” e detestava o adágio segundo o qual “uma imagem vale por mil palavras”.

O fotojornalista António Pedro Ferreira, cujo trabalho Gérard admirava, lamenta que não se tenha dedicado mais à fotografia. “Tinha o talento todo para construir uma obra extraordinária. Sabia que era bom, mas não teve coragem de afrontar o que a sociedade elegia para construir uma obra mais vasta”, disse ao PÚBLICO. Ferreira lembra o tom crítico com que muitas vezes Gérard se referia à opção, em Portugal, por imagens demasiado escuras. Inventou até uma expressão: “A fotografia portuguesa é como a imagem de um negro, no túnel do Rossio a cantar o Black is black”. O fotojornalista lembra ainda a relação aparentemente desligada que Gérard mantinha com a fotografia. “Considerou-se sempre um amador de fotografia, no sentido francês do termo.”

Gérard Castello-Lopes, 2004
© David Clifford/Público


Ligação ao Cinema Novo
Gérard Castello-Lopes
, nascido na cidade francesa de Vichy, em 1925, teve como actividade profissional dominante a distribuição de cinema, uma herança do pai, que fundara a Filmes Castello-Lopes, uma das mais antigas empresas de distribuição em Portugal e na Europa. Nesse domínio, Gérard integrou também a geração do Cinema Novo, tendo trabalhado como assistente de realização de Artur Ramos em Pássaros de Asas Cortadas (1963) e de Fernando Lopes e Nuno Bragança na curta-metragem Nacionalidade: Português (1972). Em declaração à Lusa, Fernando Lopes disse que se inspirou também no estilo da sua fotografia para realizar o documentário Belarmino (1964), sobre o pugilista Berlarmino Fragoso. No final dos anos 60, foi também um dos fundadores do Centro Português de Cinema, cooperativa que, com o apoio da Fundação Gulbenkian, haveria de mudar o rumo do cinema em Portugal.

Apesar de ter cultivado desde meados da década de 50 a actividade como fotógrafo, o seu trabalho só viria a chegar ao conhecimento, e reconhecimento, do público no início da década de 80, por via da primeira exposição individual e retrospectiva que a Galeria Ether (dinamizada pelo investigador António Sena) promoveu em Lisboa, intitulada Fotografias de 1956 a 1982. Tereza Siza frisa a importância que esta exposição e o posterior trabalho da Fundação Gulbenkian de divulgação da obra do artista tiveram na sensibilização de novas gerações. Além disso, Gérard “era uma figura exuberante, elegante, sedutora, que falava da sua arte com graça e grande clareza”, acrescenta a ex-directora do Centro Português de Fotografia.

Entre a citada exposição na Ether e a segunda a última retrospectiva realizada no Centro Cultural de Belém (CCB) em 2004, sob o título Oui/Non, Castello-Lopes desenvolveu um vasto calendário de exposições individuais e colectivas, mas também de escrita de ensaios para catálogos e intervenções em diferentes suportes. Mas nunca levou muito a sério a fotografia como actividade ou profissão artística. “Nunca achei que era excepcional ou muito bom fotógrafo”, disse em entrevista ao PÚBLICO (16 de Janeiro de 2004) aquando da exposição no CCB, demarcando-se dos seus nomes de cabeceira: Cartier-Bresson, claro, mas também Ansel Adams, W. Eugene Smith e Sebastião Salgado. Considerava o fotojornalista d`O Século Joshua Benoliel (1878-1932) “o único génio da fotografia portuguesa”.

Nessa altura, Castello-Lopes falava da exposição em Lisboa como “uma espécie de adeus”. “Não sei se por via da idade e de um desfalecimento natural (...). Faltam-me a paciência, as costas, as cruzes, falta-me até o entusiasmo e a curiosidade”, disse, acrescentando: “Estou a deixar as fotografias virem ter comigo”. As fotografias começaram a ir ter com o fotógrafo cada vez menos, até que foram mesmo substituídas pela doença, irremediável.

Ontem, ainda não era conhecida a decisão da família sobre se o corpo de Castello-Lopes será sepultado em França ou em Portugal.

Estou a deixar as fotografias virem ter comigo
(
Entrevista com Gérard Castello-Lopes, Público, 16.01.2004)

Depoimentos



É seguramente o mais interessante fotógrafo português do século XX. Um dos mais, pelo menos. Pela linguagem e pelo estilo próprios. Pela doçura do olhar. Pela ironia da expressão. Pela qualidade estética. Pela beleza das imagens. Pelo rigor formal. Pela humanidade dos seus temas. Pela independência de espírito. Pela cultura sólida. Deixa-nos uma obra de reduzidas dimensões, várias vezes interrompida no tempo, mas de excepcional valor de testemunho de uma sociedade. A sua Lisboa dos anos cinquenta, retratada com sentido ao mesmo tempo poético e realista, adquiriu valor patrimonial. As pessoas que então fotografou figuram para sempre numa galeria histórica de personagens. Mais tarde, já nos anos oitenta e noventa, teve nova vida, sentiu-se atraído por novos temas e foi capaz de adaptar a sua linguagem, sem nunca perder o seu traço. Com vagar, sem voracidade, Gérard não metralhava, compunha. Assim tratou a fotografia como uma grande arte.
António Barreto, sociólogo


Desaparece uma figura muito importante da cultura portuguesa e da história da fotografia portuguesa. Marcou com a sua sensibilidade a fotografia dos anos 1950 e a fotografia documental da segunda metade do século XX, apesar da produção irregular. Lembro-o como um homem alto, muito enérgico, muito educado, uma figura muito simpática. Percebeu e incorporou as tendências da fotografia que se iam fazendo lá fora, nomeadamente em Paris e por influência do trabalho de Cartier-Bresson.
Sérgio Mah, professor universitário e comissário da participação portuguesa na Bienal de Veneza


Perde-se uma figura marcante da cultura e da fotografia portuguesa. Teve um papel relevante na nossa fotografia, nas décadas de 1950 e 1960, regressando depois em força após o 25 de Abril pela mão de António Sena e da galeria Ether. Como pessoa, lembro-o como um bom conversador.
Rui Prata, comissário dos Encontros da Imagem de Braga

É uma pena que Gérard Castello-Lopes não se tenha dedicado mais à fotografia. Tinha o talento todo para construir uma obra extraordinária. Sabia que era bom, mas não teve coragem de afrontar o que a sociedade elegia para construir uma obra mais vasta. Henri Cartier-Bresson era o seu grande inspirador. Tentou imitá-lo em tudo, até nas máquinas que usava. Mas saiu da sombra do Cartier-Bresson. Quando voltou a fotografar nos anos 80 renasceu. A sua fotografia ganhou uma nova liberdade e experimentou linguagens novas. Mas creio que já foi demasiado tarde, apesar de ter contactado com o trabalho de outros fotógrafos e de estar atento ao que se fazia na altura. Ele tinha uma visão muito crítica em relação ao que se fazia na fotografia portuguesa. E costumava usar uma expressão para falar das imagens demasiado escuras que então se faziam: ‘A fotografia portuguesa é como fotografar um negro, no túnel do Rossio a cantar o Black is Black’. Gérard Castello-Lopes era um grande fotógrafo. Descobria a beleza na espuma de um cacilheiro. E mais do que isso, conseguia transmitir pela fotografia essa beleza. Considerou-se sempre um amador de fotografia, no sentido francês do termo. Ou seja, tinha uma relação despreocupada com a fotografia. Nunca quis, nem nunca precisou de viver dela. Há fotografias de Gérard que ficarão na história do olhar português. São grandes obras.
António Pedro Ferreira, fotojornalista

Teve uma grande importância para mim como fotógrafo, mas sobretudo era um grande amigo. Eu tinha-o visto há um ano e meio, mas ele já não reconhecia ninguém. É um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, sem dúvida. E mesmo internacionalmente. A obra dele, felizmente, está nos museus de fotografia.
Fernando Lopes, cineasta

É evidentemente uma figura incontornável da história da fotografia em Portugal. É um expoente da geração – com Carlos Afonso Dias, Carlos Calvet e Sena da Silva, por exemplo – que trabalhou sem nenhuma visibilidade nos anos 50 e 60, por causa do regime de Salazar. E só viria a ser revelado na década de 80, a partir da exposição promovida pela Galeria Ether. Tinha uma grande paixão por Cartier-Bresson, mas a sua obra tem também algo mais, tem uma pureza de linhas e um sentido gráfico muito pessoais. Como pessoa, era uma figura exuberante, elegante, sedutora, que falava da sua arte com graça e grande clareza.
Tereza Siza, historiadora e crítica de fotografia

Desaparece um meu amigo íntimo, um colega com quem eu falava verdadeiramente de fotografia. Conheci-o numa exposição no Centro Cultural Gulbenkian, em Paris, em 1995. Ele exagerava sempre essa dívida relativamente a Bresson. A sua fotografia tem um carácter bem original, mesmo do ponto de vista conceptual. Ele teve várias vidas e várias actividades, mas a mais importante é como fotógrafo. Era uma pessoa com uma grande curiosidade e uma grande vontade de aprender. Passávamos horas e horas a discutir fotografia.
José Manuel Rodrigues, fotógrafo

 
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