12 fevereiro, 2011

Gérard Castello-Lopes, 1925-2011

Gérard Castello-Lopes, 2004
© David Clifford/Público



Morreu o amador tímido
Sérgio C. Andrade e Sérgio B. Gomes
Público (13.02.2011)

Gérard Castello-Lopes, o fotógrafo que sempre se reclamou como um discípulo apaixonado pela obra humanista de Henri Cartier-Bresson e teve uma vida dividida entre o cinema e a fotografia, e entre Lisboa e Paris, morreu este sábado, aos 85 anos, na capital francesa. Estava retirado da vida activa há muito tempo, padecendo da doença de Alzheimer.

“Desapareceu uma figura incontornável da fotografia portuguesa”, lamenta a historiadora de fotografia Tereza Siza, fazendo notar que, apesar desse seu “sentido de discípulo de Bresson”, Castello-Lopes “tem uma obra com algo mais, uma pureza de linhas e um sentido gráfico muito pessoais”.

A mesma opinião tem o fotógrafo José Manuel Rodrigues, que com ele cultivou uma intensa amizade – “passávamos horas e horas a discutir fotografia” –, desde que o conheceu em 1995, na Gulbenkian, em Paris.

No prefácio do catálogo Lisboa de outras eras, António Barreto, que acompanhou de perto o labor fotográfico de Gérard, descreve-o como “‘um grande tímido’, daqueles que escondem a insegurança na erudição”. Estranhamente, escreve Barreto, Gérard “fala mais do que fotografa”, era um “falador impenitente” e detestava o adágio segundo o qual “uma imagem vale por mil palavras”.

O fotojornalista António Pedro Ferreira, cujo trabalho Gérard admirava, lamenta que não se tenha dedicado mais à fotografia. “Tinha o talento todo para construir uma obra extraordinária. Sabia que era bom, mas não teve coragem de afrontar o que a sociedade elegia para construir uma obra mais vasta”, disse ao PÚBLICO. Ferreira lembra o tom crítico com que muitas vezes Gérard se referia à opção, em Portugal, por imagens demasiado escuras. Inventou até uma expressão: “A fotografia portuguesa é como a imagem de um negro, no túnel do Rossio a cantar o Black is black”. O fotojornalista lembra ainda a relação aparentemente desligada que Gérard mantinha com a fotografia. “Considerou-se sempre um amador de fotografia, no sentido francês do termo.”

Gérard Castello-Lopes, 2004
© David Clifford/Público


Ligação ao Cinema Novo
Gérard Castello-Lopes
, nascido na cidade francesa de Vichy, em 1925, teve como actividade profissional dominante a distribuição de cinema, uma herança do pai, que fundara a Filmes Castello-Lopes, uma das mais antigas empresas de distribuição em Portugal e na Europa. Nesse domínio, Gérard integrou também a geração do Cinema Novo, tendo trabalhado como assistente de realização de Artur Ramos em Pássaros de Asas Cortadas (1963) e de Fernando Lopes e Nuno Bragança na curta-metragem Nacionalidade: Português (1972). Em declaração à Lusa, Fernando Lopes disse que se inspirou também no estilo da sua fotografia para realizar o documentário Belarmino (1964), sobre o pugilista Berlarmino Fragoso. No final dos anos 60, foi também um dos fundadores do Centro Português de Cinema, cooperativa que, com o apoio da Fundação Gulbenkian, haveria de mudar o rumo do cinema em Portugal.

Apesar de ter cultivado desde meados da década de 50 a actividade como fotógrafo, o seu trabalho só viria a chegar ao conhecimento, e reconhecimento, do público no início da década de 80, por via da primeira exposição individual e retrospectiva que a Galeria Ether (dinamizada pelo investigador António Sena) promoveu em Lisboa, intitulada Fotografias de 1956 a 1982. Tereza Siza frisa a importância que esta exposição e o posterior trabalho da Fundação Gulbenkian de divulgação da obra do artista tiveram na sensibilização de novas gerações. Além disso, Gérard “era uma figura exuberante, elegante, sedutora, que falava da sua arte com graça e grande clareza”, acrescenta a ex-directora do Centro Português de Fotografia.

Entre a citada exposição na Ether e a segunda a última retrospectiva realizada no Centro Cultural de Belém (CCB) em 2004, sob o título Oui/Non, Castello-Lopes desenvolveu um vasto calendário de exposições individuais e colectivas, mas também de escrita de ensaios para catálogos e intervenções em diferentes suportes. Mas nunca levou muito a sério a fotografia como actividade ou profissão artística. “Nunca achei que era excepcional ou muito bom fotógrafo”, disse em entrevista ao PÚBLICO (16 de Janeiro de 2004) aquando da exposição no CCB, demarcando-se dos seus nomes de cabeceira: Cartier-Bresson, claro, mas também Ansel Adams, W. Eugene Smith e Sebastião Salgado. Considerava o fotojornalista d`O Século Joshua Benoliel (1878-1932) “o único génio da fotografia portuguesa”.

Nessa altura, Castello-Lopes falava da exposição em Lisboa como “uma espécie de adeus”. “Não sei se por via da idade e de um desfalecimento natural (...). Faltam-me a paciência, as costas, as cruzes, falta-me até o entusiasmo e a curiosidade”, disse, acrescentando: “Estou a deixar as fotografias virem ter comigo”. As fotografias começaram a ir ter com o fotógrafo cada vez menos, até que foram mesmo substituídas pela doença, irremediável.

Ontem, ainda não era conhecida a decisão da família sobre se o corpo de Castello-Lopes será sepultado em França ou em Portugal.

Estou a deixar as fotografias virem ter comigo
(
Entrevista com Gérard Castello-Lopes, Público, 16.01.2004)

Depoimentos



É seguramente o mais interessante fotógrafo português do século XX. Um dos mais, pelo menos. Pela linguagem e pelo estilo próprios. Pela doçura do olhar. Pela ironia da expressão. Pela qualidade estética. Pela beleza das imagens. Pelo rigor formal. Pela humanidade dos seus temas. Pela independência de espírito. Pela cultura sólida. Deixa-nos uma obra de reduzidas dimensões, várias vezes interrompida no tempo, mas de excepcional valor de testemunho de uma sociedade. A sua Lisboa dos anos cinquenta, retratada com sentido ao mesmo tempo poético e realista, adquiriu valor patrimonial. As pessoas que então fotografou figuram para sempre numa galeria histórica de personagens. Mais tarde, já nos anos oitenta e noventa, teve nova vida, sentiu-se atraído por novos temas e foi capaz de adaptar a sua linguagem, sem nunca perder o seu traço. Com vagar, sem voracidade, Gérard não metralhava, compunha. Assim tratou a fotografia como uma grande arte.
António Barreto, sociólogo


Desaparece uma figura muito importante da cultura portuguesa e da história da fotografia portuguesa. Marcou com a sua sensibilidade a fotografia dos anos 1950 e a fotografia documental da segunda metade do século XX, apesar da produção irregular. Lembro-o como um homem alto, muito enérgico, muito educado, uma figura muito simpática. Percebeu e incorporou as tendências da fotografia que se iam fazendo lá fora, nomeadamente em Paris e por influência do trabalho de Cartier-Bresson.
Sérgio Mah, professor universitário e comissário da participação portuguesa na Bienal de Veneza


Perde-se uma figura marcante da cultura e da fotografia portuguesa. Teve um papel relevante na nossa fotografia, nas décadas de 1950 e 1960, regressando depois em força após o 25 de Abril pela mão de António Sena e da galeria Ether. Como pessoa, lembro-o como um bom conversador.
Rui Prata, comissário dos Encontros da Imagem de Braga

É uma pena que Gérard Castello-Lopes não se tenha dedicado mais à fotografia. Tinha o talento todo para construir uma obra extraordinária. Sabia que era bom, mas não teve coragem de afrontar o que a sociedade elegia para construir uma obra mais vasta. Henri Cartier-Bresson era o seu grande inspirador. Tentou imitá-lo em tudo, até nas máquinas que usava. Mas saiu da sombra do Cartier-Bresson. Quando voltou a fotografar nos anos 80 renasceu. A sua fotografia ganhou uma nova liberdade e experimentou linguagens novas. Mas creio que já foi demasiado tarde, apesar de ter contactado com o trabalho de outros fotógrafos e de estar atento ao que se fazia na altura. Ele tinha uma visão muito crítica em relação ao que se fazia na fotografia portuguesa. E costumava usar uma expressão para falar das imagens demasiado escuras que então se faziam: ‘A fotografia portuguesa é como fotografar um negro, no túnel do Rossio a cantar o Black is Black’. Gérard Castello-Lopes era um grande fotógrafo. Descobria a beleza na espuma de um cacilheiro. E mais do que isso, conseguia transmitir pela fotografia essa beleza. Considerou-se sempre um amador de fotografia, no sentido francês do termo. Ou seja, tinha uma relação despreocupada com a fotografia. Nunca quis, nem nunca precisou de viver dela. Há fotografias de Gérard que ficarão na história do olhar português. São grandes obras.
António Pedro Ferreira, fotojornalista

Teve uma grande importância para mim como fotógrafo, mas sobretudo era um grande amigo. Eu tinha-o visto há um ano e meio, mas ele já não reconhecia ninguém. É um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX, sem dúvida. E mesmo internacionalmente. A obra dele, felizmente, está nos museus de fotografia.
Fernando Lopes, cineasta

É evidentemente uma figura incontornável da história da fotografia em Portugal. É um expoente da geração – com Carlos Afonso Dias, Carlos Calvet e Sena da Silva, por exemplo – que trabalhou sem nenhuma visibilidade nos anos 50 e 60, por causa do regime de Salazar. E só viria a ser revelado na década de 80, a partir da exposição promovida pela Galeria Ether. Tinha uma grande paixão por Cartier-Bresson, mas a sua obra tem também algo mais, tem uma pureza de linhas e um sentido gráfico muito pessoais. Como pessoa, era uma figura exuberante, elegante, sedutora, que falava da sua arte com graça e grande clareza.
Tereza Siza, historiadora e crítica de fotografia

Desaparece um meu amigo íntimo, um colega com quem eu falava verdadeiramente de fotografia. Conheci-o numa exposição no Centro Cultural Gulbenkian, em Paris, em 1995. Ele exagerava sempre essa dívida relativamente a Bresson. A sua fotografia tem um carácter bem original, mesmo do ponto de vista conceptual. Ele teve várias vidas e várias actividades, mas a mais importante é como fotógrafo. Era uma pessoa com uma grande curiosidade e uma grande vontade de aprender. Passávamos horas e horas a discutir fotografia.
José Manuel Rodrigues, fotógrafo

1 comentário:

Mario Pires disse...

Boa noite, escrevi um texto inspirado numa passagem desta entrada.

http://retorta.net/retortablog/2011/02/16/a-fotografia-em-portugal-e-um-cafe-de-bairro/

(tentei mandar pelo formulário de mail, mas deu erro das duas vezes)

 
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