13 maio, 2009

/uma fotografia, um nome\


Elsa Penalva, da série Retratos
© Elsa Penalva

Mesmo a sós, olhar uma fotografia é uma experiência partilhada; admitimos (e desejamos) que outros vejam o mesmo que nós e do mesmo modo, que tenhamos idêntica impressão. Tudo isto se torna muito claro se a imagem nos perturba e for difícil de classificar.

A imagem suscita um sentimento de pertença ou de exclusão, mas não é igual para todos, não há, de facto, comunidade de percepção da fotografia. E, por razões acrescidas, a interpretação do observador distingue-se habitualmente da do fotógrafo.

Desde as suas origens que associamos o retrato ao seu contexto, os adereços, o mobiliário, o tipo de fundo, a atitude e a própria expressão. Se a integração social num grupo deixou de nos ocupar, continuamos a tentar procurar o seu significado.

Mas o que se destaca no retrato é o olhar – esse olhar que dirigimos a um corpo ou um retrato é ainda um tocar. A repetida actualização da ruptura com o corpo da mãe, que a todos é imposta. Como o seio ou o falo, o olhar é um objecto de desejo parcial; parcial porque incompleto e desconhecido. E então, o olhar é um instrumento de assimilação psíquica do mundo, fabrica equivalentes psíquicos.

E é assim que domesticamos, com a fotografia, realidades temidas e perturbadoras.

Tudo cabe no fantasma depressivo provocado pelo corte com a mãe e que se revela em todas as separações. E é isso que vejo nesta perturbante imagem de rosto-máscara de Elsa Penalva. Como a raiz grega da palavra esta imagem traz-nos o ícone, qualquer coisa que está para lá da posse, mesmo se a tocamos. Como o ícone há uma construção mental que lhe subjaz, um desejo palpável de deixar rastro, de marcar o olhar do outro e de si mesma. E é isso a que a fotografia apela, a rastro, vestígio em nós. E não a morte como a palavra latina, imago. Mesmo no retrato, o fotógrafo quer deixar a sua presença, o seu domínio.

Tudo se adensa neste retrato com o papel da máscara; a imagem que é já retrato-cópia é aqui ela mesma e o seu duplo, a máscara que se ajeita à pele, continuando e, obviamente deformando o rosto. Há um contraste evidente entre a sensibilidade da mulher, o olhar firme e claro, apesar de imóvel, e os traços duros da máscara. Repetindo o olhar, absorvendo o conjunto, é a máscara que se impõe. E nela cabe ainda a evidência da vida da fotógrafa.

A unidade entre o que vive e o inorgânico é uma das habituações do nosso tempo; habitamos em próteses e elas habitam em nós. Há muito que as fronteiras se esbateram entre o que somos e a simbiose em que nos transformamos, seja pelos fármacos que absorvemos, seja pelas próteses que nos dão visão, audição ou capacidade de movimentos. Mas o medo da ligação entre o animal que somos e o mineral que não queremos ser continua para lá da repetição dos mitos. A máscara é esse instrumento de tornear o interdito e o horror. A máscara está ligada à morte, mas também a outra vida. Funciona plenamente como desejo, traz-nos outros lugares, outros cultos e outra personalidade. Na arqueologia dos mitos é e não é, fornece alteridade. Acho que é essa alteridade que esta fotografia nos oferece. Não apenas a velha duplicidade do homem, mas o não-ser apenas máscara, ser também humano. Mas na coisa fotografada, o que é humano é sempre decididamente humano, - alterável e perecível, mas proporcionando vida a qualquer máscara.

O vínculo entre a realidade e o corpo é precisamente o sentimento que temos da realidade. Para nós que observamos, conta a realidade e não a máscara; para a fotógrafa, que sublimou a sua pulsão de fuga de si, importará a máscara.

Porque é uma produção humana, a fotografia nunca se deixa verdadeiramente ler.

Maria do Carmo Serén

Elsa Penalva vive em Cascais e é investigadora.

1 comentário:

Giorgetti disse...

fantástica foto!!!

http://olyceu.blogspot.com/2009/02/fotoagrafar-emocoes-giovanni-giorgetti.html

 
free web page hit counter