15 maio, 2008

O IF volta ao Soares dos Reis

(© António Drumond)

No dia de S. João, em 1976, um grupo de fotógrafos do Porto fundou o IF, (Ideia e Forma) com a intenção, tão eufórica como o dia, de abanar os convencionalismos da fotografia portuguesa. Programa-se uma campanha indefinidamente definida de trazer a público exposições e instruções que divulguem um olhar livre, diverso e reflexivo sobre o tempo e o lugar. O Porto está muito presente. A sigla acabará por definir-se, na divulgação das mostras colectivas dos oito e depois nove amigos, Luís Abrunhosa, Henrique Araújo, Manuel Magalhães, José Marafona, José Carlos Príncipe, João Sotto Mayor, Manuel de Sousa, Mário Vilhena e António Drumond, que não participa nas primeiras actividades.

IF são várias formas de imprimir em ideias
IF não quer dizer “se”
IF é um polígono de lados iguais
IF não entra em competição
IF forma vai tentar ser IF ideia.

Há um eco surrealista no IF, que se manterá e que todos atribuem ao espírito de Manuel Sousa, responsável por fotografias que provocam pela forma ou pela ideia: Esperar por D. Sebastião, quer venha ou não ou a O IF vê estupefacto o Museu da Associação Fotográfica do Porto, verdadeiro cartão de visita do grupo. Manuel Sousa adoece e acabará por morrer, mas o IF sempre guardou a sua memória de olhar desmistificador.

(© Henrique Araújo)

Em Outubro desse ano surge a primeira mostra, Tema livre, aureolada de muitas explicações , (na Bertrand, Lisboa) e, ainda nesse ano, Convívio (Guimarães) e Vilarinho das Furnas, (AFP, APAF, Lisboa e Santo Tirso). No ano seguinte, 1977, três projectos: Comboios d’ontem, imagens d’hoje, Ponte Maria Pia e Imagens do Quotidiano.

Fotografia Experimental e de Vanguarda, em 1978, na Associação Fotográfica do Porto (AFP), divulga a imagem provocatória do grupo O IF vê estupefacto… o Museu da instituição que os acolhe e que sempre frequentaram; Formas, com desdobrável de João Machado, tem na imagem e na palavra uma perspectiva conceptual, incluindo definições retiradas do dicionário. Ou Exercício, coleccionando experiências pessoais, mostrado na Galeria do JN e na Galeria de Arte Moderna, em Belém e no Funchal, já em 1979. Dois anos depois, (1981) é a Nona e em 1982, no Museu Nacional de Soares dos Reis a carismática Esquinas do Tempo, que iria também ser vista em Lisboa.

(© José Marafona)

Esquinas do Tempo faz parte da memória fotográfica do Porto, teve três edições da C.M.P- e criou um género clássico na história da fotografia portuguesa. Imagens onde se comparam velhas tomadas de vista da cidade com tomadas de vista do momento actual, sem indicação de autoria, como uma revisitação da cidade e do seu eventual progresso. Em 1984 há ainda O Porto visto de perto, na Casa do Infante, mas o grupo acabaria por se dispersar. Mas não esquecido: em 2001 surge incluído no Porto 60/70: Os artistas e a Cidade (Museu de Serralves e galeria do Palácio) e em + de 20, Grupos e episódios no Porto do Século XX, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

(© João Sotto Mayor)

É tudo isto que se recupera agora, a partir do dia dos Museus, no sábado, precisamente no Museu Soares dos Reis, no Porto, que pediu ao IF que ainda permanece que fizesse um levantamento do espaço do edifício de forma a representar a instituição na comemoração do dia 17. A mostra que aí se inaugura, Um dia no Museu, tem ainda o espírito do IF, Ideia e Forma e, acima de tudo, a representação do caminho pessoal dos seus autores, bem representado nas imagens que se mostram.

(© Manuel Magalhães)

É um projecto múltiplo de autor, onde tudo que é contemporâneo na fotografia se reencontra, a nova horizontalidade, a simulação, a encenação da imagem, o novo social, os dípticos, o geometrismo, o paradoxo, a cor, a citação. Mas ainda o preto e branco. E continua a existir uma totalidade de partes distintas e autónomas, um IF que é mais ideia que forma, mas que a respeita. São imagens de Henrique de Araújo, António Drumond, João Paulo Sotto Mayor, Manuel Magalhães e Marafona a descobrir e a inventar um museu cheio de sentido e de vida. E descobrir o sentido, desconstruindo, desmistificando, estabelecendo o sentido plástico de inesperados objectos fotográficos, argumentando com as formas submetidas a ideias, é, afinal, toda a história do IF. Que não se submete a um olhar único, mas se conjuga.

Maria do Carmo Serén

Um dia no Museu
Grupo IF: Henrique de Araújo, António Drumond, João Paulo Sotto Mayor, Manuel Magalhães, Marafona
Museu Nacional Soares dos Reis, Porto
Inauguração: 17 de Maio, às 22h00
Até 31 de Julho

 
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