29 fevereiro, 2008

3 nomes mais 1

(© Bruno Castanheira/Público)

Foram hoje revelados os nomes de três membros do júri do Prémio de Fotojornalismo Visão/BES: Philip Blenkinsop fotógrafo freelancer, Jean-François Leroy, presidente do festival de Perpignan, e Susan Smith, directora-adjunta de fotografia da National Geographic.

O texto de apresentação do júri, da responsabilidade da direcção da revista, comete a indelicadeza de citar um trabalho de João Carvalho Pina como um "exemplo" para concorrer à nova categoria desta edição, Reportagem Quotidiana. Esta estranha inclinação a priori por um eventual participante não é só injusta para com os outros concorrentes. É, em primeiro lugar, injusta para com o próprio. Imagine-se que João Carvalho Pina até ganha um prémio. E imagine-se que até ganha um prémio naquela categoria...

28 fevereiro, 2008


entre aspas

Alfred Stieglitz, Barn, Lake George, 1920
(©George Eastman House, Rochester, Nova Iorque)

O telefone despertou-me numa fria manhã de Junho. Sentei-me na cama. A luz, lá fora, inerte e alheia, morria numa lenta gradação de cinzentos. Era triste como uma fotografia antiga.

José Eduardo Agualusa, Pública

21 fevereiro, 2008

O Arquivo

Daniel Blaufuks lança o livro inspirado na exposição O Arquivo no dia 23 de Fevereiro, último dia da mostra, na Galeria Vera Cortês, em Lisboa.

"Este livro recolhe alguns textos espalhados, aos quais decidi dar a importância que merecem. Outros são textos pedidos propositadamente a autores, com os quais sinto afinidades e partilho alguns universos. Também decidi incluir palavras mais antigas, que não perderam o seu interesse e que se relacionam, de certa forma, com o contexto em que insiro meu trabalho. Ainda um ou outro texto da minha autoria, que acompanham as imagens aqui publicadas. Claro que, como todos os outros, também este é um arquivo incompleto.
Daniel Blaufuks

A próposito de livros, o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa agendou para o dia 28 de Fevereiro, às 17 horas, uma conversa entre o crítico Nuno Crespo e o autor.

20 fevereiro, 2008

*Três perguntas a...


Miguel Barreira
(Pedro Cunha-Público)

Miguel Barreira, 33 anos, fotógrafo do diário desportivo Record, vencedor da 3º prémio da categoria Desporto do World Press Photo 2008.

¿O que te levou a submeter esta fotografia a concurso?
Pelo ângulo invulgar esta fotografia torna-se especial. Foi por causa disso que a mandei para o World Press Photo. Foi tirada de uma fortaleza com vista para a Praia do Norte, na Nazaré. Deu-me uma perspectiva de pássaro desta tentativa de sair da onda. No momento do caos ele [Jaime Jesus], quer sair dali mas não pode. Na areia, onde se costuma fotografar, era impossível consegui-la.

¿Pensaste que poderias ter alguma hipótese com esta fotografia no concurso deste ano?
Achei que era especial. Mas comecei a acreditar mais quando o director da melhor revista de "bodyboard" do mundo, a Movement, da Austrália, para onde também a mandei, me respondeu a dizer que tinha gostado muito e que a considerava “a trippy shot”, uma foto louca. Se consegui que o director desta revista e de um país de grandes ondas achasse isto.... Ele perguntou-me se a tinha conseguido a partir de um helicóptero e eu ri.

¿O que achas da fotografia vencedora do World Press Photo deste ano, o soldado “no fim da linha” do britânico Tim Hetherington, tirada nas trincheiras do Afeganistão?
É mais uma foto de guerra, mas num ano que não foi um ano de guerra. O ano de 2007 não foi o ano da guerra no Iraque, nem da guerra no Afeganistão.

(Depoimento recolhido por Ana Machado)

Para ler a crónica de Eduardo Cintra Torres sobre duas das fotografias vencedoras na categoria Desporto clique aqui.

Para ver uma fotogaleria com algumas fotografias premiadas clique aqui.

Miguel Barreira, 3º prémio da categoria Desporto


entre aspas


John Baldessari
Noses & Ears, Etc. (Part Four): One Altered Person with Two Paintings, 2007

Uma fotografia e uma pintura são a mesma coisa: informação visual. O que se pode ver nas minhas obras não é nem fotografia nem pintura, mas sim um híbrido.

John Baldessari, El País, 4.02.2008

John Baldessari

18 fevereiro, 2008

/uma fotografia, um nome\

Corpo Grego
(© Danilo Pavone)


Fotograficamente, aqui celebra-se o corte e a distorção. Mas, antes, no olhar total, celebra-se o corpo. Danilo Pavone, que se licenciou em Belas Artes em Bolonha, chama ao conjunto onde se insere esta imagem, “Corpo Grego”, lembrando talvez aquelas figurinhas de terracota que já encantaram Eça de Queirós, - couros e core que nos ensinaram mais sobre harmonia do que os módulos humanos da escultura grega clássica.

E então o fotógrafo distorceu a harmonia do corpo, cindiu-a em pedaços e, em segunda instância, dividiu o corpo horizontalmente. Porque se trata de uma opção fotográfica, que em si mesma encerra já esse momento fundamental, o “cut”. Porque é essa a lei da fotografia, que nos habituou a ver o mundo não em síntese, mas em fragmentos, com fora de campo inteligíveis, porque um dos papéis da arte é precisamente ser uma metáfora do entendimento.

O gesto do corte é uma forma de violência contra o espaço e o tempo que parecem constituir a nossa forma de estar no mundo. A imagem fotográfica instaura uma catástrofe no devir inevitável do tempo, interrompe, suspende o tempo e fracciona, isola, uma pequeníssima parte da extensão. O fotógrafo, insiste Philippe Dubois, trabalha sempre com a faca. Aqui, nesta imagem de Danilo Pavone, o tempo não tem qualquer arrimo, pois o fundo neutro não nos dá um só elemento simbólico que nos permita situá-la no tempo. E o tempo da tomada de vista morreu em si mesmo, escapou-se para lá dela um outro tempo de um fluir contínuo; a fotografia é sempre uma imagem singular.

Mas é uma fotografia refeita, performativa. Deixa-nos uma série de pistas: esta insistência no fraccionamento do homem que vivemos desde o “homem demolido”, dos anos sessenta, e se agrava comos novos fantasmas do virtual. E, também por isso mesmo, a força agónica da separação, da perda, onde, a mal, se recupera o corpo depois da falta. Há um traço demoníaco na diluição da orelha de fauno, no estreitamento do braço, no seio quase clonado no feminino, na reconstituição de mau laboratório. E nesse uso da faca digital que arrisca destruir a beleza clássica, transparente na codificação negada, impõe-se uma outra estética que se insinua na descodificação do belo como excesso de composição, abrindo o abismo da perversidade. A teoria fotográfica contemporânea inventou o jogo da clarificação: a fotografia é índice de qualquer coisa, não é a coisa; é presente eterno, é sempre pretérito, é a cinza que ficou de um teletransporte granulado. A fotografia é a brecha, bem o sabemos. Do pensar e do sentir.
E é, naturalmente, um olhar. Um olhar informado, que argumenta, que descarrega no corte do mundo, todo o invisível que a formação do fotógrafo assim revela. Clandestinas, seguem as contradições da alma que criam a diferença, nesta dobra mal sustentada que é a nossa vida: a fotografia é sempre um corte, a faca inteligível no abismo, acorda em nós a certeza de que todas as nossas convicções caminham no fio do arame.

Maria do Carmo Serén

Danilo Pavone (Catânia, 1971),
Foi fotógrafo militar do Exército italiano,
fez levantamentos fotográficos de Arqueologia,
é habilitado em conservação e restauro fotográfico.
Com fotografia de autor esteve na Arte Lisboa 2005 e 2006, no Centro Português
de Fotografia, em 2007, nas Bienais de V. N. de Cerveira e V. F. de Xira (1º Prémio em 2003).
Trabalha em Condeixa.

17 fevereiro, 2008

olhar de Johnny


Johnny Deep é um dos actores vivos que melhor sabe olhar para as câmaras. Este mês com a estreia de Sweeney Todd, o seu quinto filme com Tim Burton, inundou as capas das revistas de todo mundo. Esta fotografia que fez a primeira página da Esquire, versão espanhola, foi das que mais me impressionou.

15 fevereiro, 2008


entre aspas

(© Daniel Blaufuks)

445. Uma fotografia não necessita de ser um documento, pode ser uma canção. Não necessita de ser matéria, pode aspirar a ser orgânica.

Daniel Blaufuks, Setembro

13 fevereiro, 2008

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Robert Capa
(© Cornell Capa/Magnum Photos)

David Clifford chama-nos a atenção para esta história que já tem uns dias, mas é de ler e chorar por mais. Encontraram um dos Santos Graais da fotografia: a "mala mexicana" de Robert Capa com milhares de fotografias captadas durante a Guerra Civil de Espanha.

Está tudo contado no New York Times aqui.

Robert Capa
(© Cornell Capa/Magnum Photos)

11 fevereiro, 2008

+WPP

Platon para a Time, Vladimir Putin, Rússia
(1º Prémio na Categoria Retrato)

Não é de invejar nem um bocadinho a tarefa dos membros do júri que todos os anos elegem a fotografia vencedora do concurso World Press Photo. Deve ser angustiante. Escolher uma fotografia. A melhor. A que condensa numa superfície o máximo de emotividade, expressividade, dramatismo, rigor técnico, criatividade ou a mais simples feição de desespero, cansaço, aflição. Isolar uma fotografia. Torná-la só no meio da orgia das imagens. Tão-só como o soldado que ficou na objectiva do britânico Tim Hetherington, o grande vencedor da edição deste ano de um dos mais conceituados galardões de fotojornalismo do mundo.
Na verdade, este militar só não ficou para sempre sozinho nesta fotografia de Hetherington porque há um olhar fugaz que o liga a quem o vê. É pouco definida essa ligação, como pouco definida é a textura que chegou até nós. Mas é suficiente para o acompanharmos na sua solidão, para partilharmos o seu drama no atoleiro em que os Estados Unidos se meteram no Afeganistão. O soldado do 2º Batalhão Aerotransportado do Exército americano está sozinho e não está. Nós estamos com ele e a fotografia que o fixou está acompanhada por outras do mesmo autor que ganharam o 2º prémio na categoria de Notícias.

Tim Hetherington para a Vanity Fair
Não deixa de ser surpreendente que a imagem vencedora venha do Afeganistão que, a par do Iraque, foi um dos cenários mais recalcados visualmente dos últimos anos. Era difícil trazer dali um momento que contasse uma história diferente da que todos os dias nos entram pelos olhos dentro. Para o júri deste ano, Hetherington conseguiu-o. Não só com uma, mas várias fotografias feitas para um trabalho encomendado pela revista Vanity Fair.
Numa apreciação imediata nota-se uma presença assinalável do preto e branco na edição deste ano do concurso. E há alguns prémios para fotografias neste suporte em categorias onde não é tradicional o seu uso, como o Desporto (o caso da fotografia do português Miguel Barreira).
Na galeria de premiados salta também à vista o retrato de Vladimir Putin feito pela agência britânica Platon e que foi capa da revista Time na tradicional votação para a personalidade do ano. Putin tem um olhar gélido, implacável. Não é um simples retrato, claro. Revela bem a frieza com que nos habituámos a olhar para o Presidente russo. É um retrato psicológico, que tem de ser lido para lá da pele de Putin.
Os olhos e o olhar são muitas vezes importantes na fotografia. Dão-nos o contacto. Dão-nos a "química". Outras nem por isso. É preferível imaginá-los. Como quis que fizéssemos Ariana Lindquist com esta figura esbranquiçada de cara cortada, sem olhar, mas com glamour e muito mistério.

(P2, 09.02.2008)

Ariana Lindquist, rapariga mascarada de boneco animado, Xangai
(1º Prémio na Categoria Arte e Entertenimento)

10 fevereiro, 2008

dupla pose

Amélia Rey Colaço (1898-1990), s/d, Photographia Londres, Lisboa

Há dias alguém deixou em cima da minha mesa de trabalho um álbum de fotografias de antigas glórias do teatro português editado no final do ano passado. Parei mais tempo nestes dois retratos de dupla pose, de dupla actuação.

Rostos e poses
Museu Nacional do Teatro

Dezembro, 2007

Esther Leão (1897-1971), s/a, s/d

08 fevereiro, 2008

Miguel Barreira

Miguel Barreira, 3º prémio da categoria Desporto

Há 34 anos que um fotógrafo a trabalhar em Portugal não recebia um prémio do World Press Photo. Miguel Barreira, fotógrafo do jornal Record, quebrou o enguiço e conquistou um terceiro lugar na categoria de Desporto. O primeiro português a conseguir um reconhecimento semelhante foi Eduardo Gageiro, em 1974, com uma fotografia do general Spínola.
A jornalista do Público Online Ana Machado falou hoje com Miguel Barreira e o resultado dessa troca de impressões está aqui.
Para ver uma galeria com todas as imagens vencedoras clique aqui.

vencedora

Tim Hetherington para a Vanity Fair

Esta foi a fotografia que o júri do World Press Photo considerou a World Press Photo of the Year 2007. Foi captada pelo britânico Tim Hetherington no Afeganistão.

07 fevereiro, 2008

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Tragédia de Bhopal III, Bhopal, 1984
(© Raghu Rai)
»»Susana Ribeiro, de Coimbra, diz-nos que convém não perder as exposições de Raghu Rai (Retratos da Índia), em Madrid e em Barcelona. As mostras antológicas traçam o percurso do fotógrafo entre 1964 e 2007. Madrid ficou com as imagens a preto e branco e Barcelona com o fotografias a cores.
Em 1971, Henri Cartier-Bresson viu uma exposição de Ranghu Rai em Paris. Essas imagens ficaram-lhe na memória e em 1977 convidou Rai para se juntar à agência Magnum.

O jornal El Mundo dá-nos uma amostra do que podemos encontrar em Madrid e Barcelona aqui.

Nova Deli, 1988
(© Raghu Rai)

01 fevereiro, 2008

/uma fotografia, um nome\

The Diminishing Present
(© Edgar Martins)

Esta cultura que vivemos, onde se juntam a sociedade de massas e da multimédia a pecados velhos, despertou medos arquétipos e fez deles as banalidades que desfrutamos com comunitária ligeireza em filmes de Carpenter, Tim Burton, Cronenberg, Ridley Scott ou Wes Craven; permite-nos ainda aclimatarmo-nos a figuras de reconhecimento como qualquer Alien, a Matrix de Morpheus e Neo ou Constantine ou a renovados vampiros e mortos-vivos. Este tema de abominação paredes meias com o de contaminação é comum na Fotografia e em qualquer outra arte contemporânea, mas amalgama-se, como efeito perverso, com a inquietação solitária e o desespero miudinho que nos atravessam em lugares de estranheza.

A própria civilização mediática e electrónica vai criando os seus sítios estranhos, como os não-lugares da sobremodernidade de Marc Augé, que é tudo o que nos rodeia para nos fazer livres e felizes: as temíveis estações de metro fora de horas, os aparcamentos vazios com a sua aparelhagem expectante, as arriscadas caixas de multibanco, as indicações, a sinalética, os cartazes que nos dizem como conversar com os nossos fantasmas.

Outro efeito da ordenação da cultura mediática é o desprazer que nos causam as periferias. Temática de reflexão social e montra de desregulamento cívico, a periferia tem deficit de equipamentos básicos, desertifica-se nas horas de trabalho, é marcada pela incompletitude. É o sítio bárbaro por excelência, porque muito próximo e tentacular: não é já o arrabalde simpático e de lazer, mas um caos sorrateiro que cresce de fora contra a cidade.

Tornou-se, naturalmente, um tema fotográfico, mais, um tema da arte do visual, seja no conceptualismo, seja nos humanistas. A ideia de periferia mexe-se no espaço ético e a sobremodernidade.

Edgar Martins, que desenvolveu o seu mérito académico na Grã-Bretanha, assumiu este tema conceptualmente e acabou por desenvolver um tipo de olhar que nos remete tanto às concepções de Axel Hütte, como aos justos devaneios ecológicos e etnológico dos americanos New Topographics, nomeadamente na sua série Buracos Negros e Outras Inconsistências.

Esta fotografia pertence à série seguinte, The Diminishing Present, o que já diz tudo sobre a evolução do seu imaginário. Porque, afinal, esta paisagem molhada pelo nevoeiro, cabe no nosso museu imaginário fotográfico; estamos habituados a estes caminhos de bichos traçados no terreno, a um qualquer renque de árvores indecisas num horizonte qualquer, apesar da dimensão e da cor digitalizada, apesar do céu vazio que apontam a pós-modernidade. Mas aqui há qualquer coisa de novo e perturbador: pela geometria ajardinada das árvores? Pela opacidade do ar? Pela luz espectral?

A tentação é não relevar a imagem do referente natural que traz consigo, mas associá-la a outros lugares que conhecemos de filmes ou de vídeo-clips, já que se trata de um esvaziamento e de um não-tema. A informação que presta é obviamente conceptual, mas o todo, olhando-nos, afirma o que bem reconhecemos, a solidão, o incómodo da névoa, a humidade do chão, o corte com a transparência do futuro: o que está para lá no espaço e, necessariamente no tempo, e não vemos, não adivinhamos. E que a opacidade brumosa nos esconde. Edgar Martins não nos oferece uma paisagem, mas o padrão processual para a sintetizar. Tudo o que se mostra e o que se oculta, o que sabemos e o que sentimos perverte a informação. E inquieta, desestabiliza.

Maria do Carmo Serén

Edgar Martins (1977-), vive e trabalha, como fotógrafo e editor (The Moth House) na Grã-Bretanha, onde foi premiado (2003, 2005) e considerado “um dos mais influentes jovens artistas que usam o medium fotográfico”. Expõe habitualmente na China, Inglaterra e Portugal

 
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