19 novembro, 2007

*À conversa com...

...Martin Parr

Supermercado Auchan, Calais, França, da série One Day Trip, 1988
(Martin Parr © Magnum Photos)

Eu sou parte do problema e você também

(P2, 20.11.2007)

De vez em quando, Martin Parr gosta de surpreender. De vez em quando o fotógrafo da Magnum gosta de saltar fora do slideshow rotineiro, da muito british camisa aos quadradinhos e deslizar para o puro entretenimento. Basta provocá-lo. Ainda este ano, nos Encontros de Fotografia de Arles, em França, Parr protagonizou um dos momentos do festival quando, depois da conferência, alguém lhe pediu para posar em tronco nu, tal qual o autoretrato digital em que aparece num corpo musculado que – nota-se logo – não é o seu. A pelica esbranquiçada ao léu provocou a gargalhada geral, o fotógrafo inglês incluído.
Durante a apresentação do seu trabalho na ArteLisboa, na semana passada, a convite da Fundação Carmona e Costa, Martin Parr, 55 anos, não foi assim tão espontâneo, mas surpreendeu uma sala meio vazia que muitas vezes não conteve o riso perante as imagens projectadas. E isso, na obra de Parr, pode ser um bom sinal. Porque é pelo humor, a par da sedução e do excesso, que nos mostra os rituais sociais de massa, a forma como vive o Ocidente e a forma como gostamos de nos mostrar aos outros.
Este inglês de ironia refinada não está interessado em denunciar o “lado pobre” e a miséria em que está atolada uma parte do mundo. Prefere fazer a crítica mordaz ao “lado rico”, ao “Ocidente saudável” e à “vida espampanante do século XXI”.
Encontrámo-nos num hotel do Parque das Nações, em Lisboa, às 8h em ponto. Martin queria aproveitar o resto da manhã para saber mais acerca dos livros de fotografia publicados durante a ditadura salazarista, um dos temas que tem movido a sua curiosidade ultimamente.

Por que é que decidiu incluir Lisboa, Cidade Triste e Alegre na sua história dos livros de fotografia? Como é que o livro lhe chegou às mãos?
Inclui-o porque é um livro maravilhoso. Chegou até mim pelo Rui Prata [organizador dos Encontros da Imagem de Braga], uma pessoa que conheço em Portugal há mais de 20 anos. O Rui falou-me deste livro, descobriu uma cópia e deu-ma. E claro, foi muito fácil inclui-lo.

Houve mais algum livro português na short-list?
Não, basicamente olhei para alguns livros de fotografia contemporânea mas nada me despertou a atenção, não houve nada de extraordinário. A fotografia portuguesa é interessante mas tem sido muito convencional. Nos últimos anos tem mudado, mas acho que tem sido dominada por uma maneira antiquada de fotografar. Mas uma coisa é ser um bom fotógrafo, outra é fazer um bom livro de fotografia.

Conhece o trabalho dos fotógrafos portugueses?
Não, não posso dizer que conheça muita coisa. Conheço o trabalho do [Paulo] Nozolino, que é mundialmente conhecido, mas também não sou muito bom a lembrar-me dos nomes. Ando por 50 países e vou tentando perceber alguma coisa da cultura fotográfica desses países. Portugal faz parte de uma cultura fotográfica europeia.
Não pretendo ser um perito em História da Fotografia, mas fico surpreendido com algumas coisas. Por exemplo, não conhecia, até muito recentemente, os livros [portugueses] de propaganda fascista dos anos 30 e 40. São livros muito, muito fortes.

Diz que os livros de fotografia são uma das suas grandes obsessões. Até que ponto prefere ter um livro de fotografia nas mãos do que ir ver essas imagens numa exposição?
Continuo a gostar de exposições, mas através dos livros conseguimos viajar e confirmar como as fotografias são fortes. É uma experiência total, uma forma de ver o trabalho no seu conjunto. É uma forma extraordinária de ver fotografia. Claro que gosto de ver exposições, mas se tivesse que escolher entre uma e outra coisa escolhia os livros.

Não resisto à tentação de lhe perguntar, como autor de uma história dos livros de fotografia: se tivesse que salvar um livro de fotografia de um cataclismo mundial qual salvaria?
Meu Deus! Quer dizer o melhor livro do mundo? Mas, refere-se aos meus livros ou aos de outros autores?

Aos de outros...
É difícil. Talvez um livro de Daido Moriyama [fotógrafo japonês] que tem obras fantásticas.

E um dos seus...
Não consigo responder.

Os suportes digitais da imagem, como os telemóveis, iPods e a Internet, podem matar o livro de fotografia ou transformá-lo num objecto de luxo?
Não, de todo. O que se está a passar é que cada vez mais pessoas estão a ver e a partilhar fotografia através de ferramentas como o Flickr, telemóveis, jornalismo participativo... A cada ano que passa a fotografia está a ficar maior, e isso significa que vai haver mais livros de fotografia.
Hoje há mais livros de fotografia a serem publicados do que alguma vez foram. Por causa da Internet, de ano para ano, a audiência da fotografia está a ficar cada vez maior. E isto são boas notícias para a edição de livros de fotografia.

Entraram recentemente mais três fotógrafos para a Magnum: Alessandra Sanguinetti, Jacob Aue Sobol e Mikhael Subotzky. Participou no processo de escolha? Que conselho daria a alguém que quer mandar um portfolio para a agência?
Estive envolvido nessa escolha. Já os conhecia antes. São todos grandes fotógrafos que precisamos ter a bordo para ajudar a Magnum a sobreviver.
Que conselho daria? Que nos enviem alguma coisa forte. Mas isso não é uma coisa fácil de fazer. A maioria dos fotógrafos copia o trabalho que os outros estão a fazer. E isto acontece em Portugal, na Inglaterra, na América, acontece em todo o mundo. Conseguimos perceber bem as influências nos trabalhos das pessoas. É muito difícil encontrar identidade no trabalho de um fotógrafo.

A Magnum é uma das poucas grandes agências que não pertence a um grande grupo de media. Continua a fazer sentido a lógica cooperativista em que assenta o seu funcionamento?
Muito, faz muito sentido. A ideia de ter um grupo de pessoas a gerir o seu próprio trabalho, a sua própria estrutura, é mais apelativa agora do que alguma vez foi. Com o domínio da Corbis [que pertence a Bill Gates] e da Getty [grupo que controla sete empresas da área], precisamos da voz única de indivíduos e de uma agência independente que não seja controlada por mais ninguém.

Qual foi a última fotografia que tirou?
Foi na semana passada em Tenerife durante uma campanha de publicidade... Não, não! Depois disso fiz outra coisa para um trabalho pessoal. Estava na América e durante um dia tive tempo para fotografar para mim. Foi o último trabalho que fiz.

(Martin Parr © Magnum Photos)

As imagens que procura estão normalmente associadas a rituais sociais de massa ligados ao consumismo. Usa a fotografia como uma crítica a essa voragem despesista?
Muitas vezes é uma crítica à sociedade, mas não é só isso, porque também me estou a criticar a mim. O mundo tem muito dinheiro a rodar e ultimamtente isso tem sido um grande problema. Eu sou parte do problema e você também. Você pode não pensar muito nisso, faz parte do Ocidente saudável. E todas as pessoas que vão ler isto também são parte do problema.
Está toda a gente a dizer que a culpa é dos outros, mas o que é certo é que a culpa é nossa. Mas ninguém vai abandonar o estilo de vida espampanante do século XXI. Estamos a caminho do fim, porque o mundo não consegue sustentar este tipo de crescimento. E já que vamos por aí abaixo, ao menos que o façamos de uma forma divertida. A gastar todo o dinheiro possível.
Este centro comercial que há aqui em frente [aponta para o Centro Comercial Vasco da Gama] é uma coisa de doidos. Ontem à noite fui lá e mal me podia mexer. É suposto Portugal ser um dos países mais pobres da Europa, mas olhamos à nossa volta e só vemos carros.

O uso que faz do flash faz pensar numa caneta de feltro fluorescente a sublinhar um texto. É mais complicado trabalhar assim, com um instrumento que sublinha a realidade?
Uso flash porque torna a fotografia mais forte, realça a cor. Não quero dar nenhum tipo de pôr-do-sol sentimentalista. Procuro apenas cores claras e objectivas.

É só um apoio técnico?
Sim, se lhe quiser chamar assim.

Ultimamente tem-se interessado pela realização cinematográfica. Sente-se mais entusiasmado hoje com a imagem em movimento?
Gostava de fazer mais filmes, mas é muito difícil encontrar tempo e todas as condições técnicas necessárias. Há sempre muitas coisas para fazer.

No seu site conta que foi um avô que lhe deu os primeiros empurrões para a fotografia. Que género de imagens fazia ele? O trabalho que faz hoje tem alguma relação com esse antepassado?
Não, não propriamente. O trabalho que ele fazia era muito pictoralista e eu não sou nada pictoralista. Sempre respeitei muito o facto de ter sido ele a iniciar-me na fotografia, mas apenas nesse sentido.

Tem também uma paixão por “postais chatos” de vários países. Comprou algum “postal chato” durante a estadia em Portugal?
Os que tenho de Portugal são postais com motivos religiosos que mostram casais e famílias. Comprei-os há uns 20 anos. Provavelmente já nem se fazem. Desta vez não comprei nada, não tive tempo.

O que é que o move na fotografia?
É o suporte com o qual me sinto mais confortável, com o qual consigo transmitir ideias. Através da fotografia, consigo exprimir-me.

Nota: um problema técnico impediu que o vídeo com a conferência de Martin Parr em Lisboa fosse disponibilizado hoje de manhã. Conto lançá-lo ao longo do dia de hoje.

5 comentários:

Lúcia Marques disse...

Olá Sérgio, obrigada por disponibilizar a entrevista feita ao Martin Parr no seu blog. Esta conferência foi pedida ao fotógrafo no âmbito da exposição "Outras Zonas de Contacto: imagens contemporâneas de uma colecção privada", onde se incluem imagens da autoria de Parr. Daí o convite feito através de uma parceria entre a Fundação Carmona e Costa (onde se mostra uma parte da exposição) e a Feira de Arte de Lisboa, juntamente com o Museu da Cidade (em cujo pavilhão preto se mostra a outra parte da exposição). Penso que esta ligação à exposição é útil para aqueles que se interessam pelo trabalho de Martin Parr uma vez que têm a hipótese de o poder ver ao vivo. Obrigada de qualquer modo pelo seu interesse. Lúcia Marques

Sérgio B. Gomes disse...

Agradeço à Lúcia a achega que deu em relação ao contexto em que Martin Parr "aterrou" em Portugal. Foi um pouco triste ver a sala do ArteLisboa meio às moscas e com tão pouca vontade de questionar no final da apresentação. É que são tão raras as conferências com grandes nomes da fotografia contemporânea no nosso país que não se compreende bem esta indiferença. É de louvar, claro está, a inicitiva das pessoas envolvidas na vinda do fotógrafo da Magnum a Lisboa.

SkinStorm disse...

Acredito que a sala estivesse meio às moscas. Este evento quase não foi divulgado. Não é indiferença é desconhecimento.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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