15 junho, 2009

Litorais

Danilo Pavone, Litorais
© Danilo Pavone


Antes de tudo Litorais diz-nos o que conhecemos: esses espaços que a distância transforma, que associamos a outras imagens e lugares, espaços que tocam o horizonte próximo, que mal vemos e que, na maior parte das vezes, se escondem do nosso percurso diário.

Estas imagens, neste litoral imenso que é Espinho, falam-nos, de distâncias, de interferências que a fotografia reduz. As distâncias são dadas pelo corpo e é pelo corpo que Danilo Pavone as insinua: o espaço sente-se mais do que se vê, é medido pela nosso lugar, pela intuição do movimento; é sentido pelos contrastes, pela descoberta de descontinuidades: as rochas que tocam o céu, as figuras que volteiam num bailado interrompido de formas num lugar que identificamos mas que é também um espaço imponderável, fora do tempo. Porque o tempo do olhar é fugidio, breve.

E aqui, inventamos caminhos, suspensões, aconteceres: a paisagem pode agitar-nos, suspender a análise, garantir-nos a irrealidade do mundo e das suas promessas. O espaço é também o porvir, o além.

E então a paisagem, mesmo um Sol que morre ao fim do dia ou uma tempestade que se anuncia deixa de ser o fundo de uma representação, o tema de uma imagem. Abre o confronto entre a falta e o que temos, entre o labirinto das sensações e a ordem do entendimento.

A paisagem é, sempre, a janela privada sobre o mundo.

E é bem provável que tudo isto exista, que o mundo possa ser enquadrado num detalhe e abrir um caminho de luz ao nosso sentimento de finitude.

Da realidade que conhecemos o fotógrafo escolhe apenas o que quer ver, o que abre e fecha com o seu estilo, o visível e o invisível.

E o mistério impossível que nos mostra é mais verdadeiro que o real.

Maria do Carmo Serén

1 comentário:

Anónimo disse...

Gostei da fotografia e do texto que a acompanha. Muitas vezes os textos de Maria do Carmo Serén, denunciam erudição e domínio das letras, mas tornam-se um pouco densos...Pessoalmente gostei assim: mais translúcido, com menos engrenagens complexas e até parece que ganhou elegância. Vai bem com a fotografia que também respira e quase parece escapar-se da sua natureza fixa.

Bem haja

 
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