05 janeiro, 2013

Na caixa de sapatos



Na caixa de sapatos
(Revista 2Público, 30.12.2012)

Os estados febris mais próximos dos 40, as gripes e as constipações mais acirradas deixam-nos indispostos. Dão-nos tonturas e náuseas, mas também têm as suas virtudes. Obrigam-nos a estar no mesmo sítio e, dependendo da resistência do bicho que nos tomba, essa estadia pode demorar algum tempo.

Lá em casa, quando uma maleita batia à porta e nos atirava para a cama, havia um passatempo de eleição, daqueles demorados – ver fotografias. Pegávamos nos álbuns, nas caixas de sapatos de fotografias, nos envelopes e passávamos horas a vaguear pelas imagens. E no meio dos registos de família, das brincadeiras veraneantes nas levadas de água, dos lugares de sempre, reconhecíveis, lá apareciam aquelas paisagens com arvoredo estranho, queles homens fardados, capacetes com protecção no queixo, uma peça ou outra de artilharia pesada, helicópteros, letras e números desenhados no chão com munições, morteiros e granadas. Lá entravam pelo quarto adentro os aviões com a cruz de Cristo, os pára-quedas, as casernas ou a progressão de uma patrulha no mato, a travessia de um riacho.

E nós a tentar descortinar onde estava ele, o pai, que parecia ali, de camuflado, tão igual aos outros, tão invisível que até duvidávamos que estivesse lá, na fotografia. Quando o influenza atacava mais do que um (ou quando um influenciava os outros…) havia disputas para ver quem o descobria primeiro naquelas fotografias com as margens recortadas com ondinhas que lhes davam um ar de banalidade, um serpentear suave de quotidiano que estavam longe de possuir. Era uma procura obrigatória que servia para estabelecer uma ligação mínima com o que víamos, uma ligação que justificasse aquelas imagens naquele lugar - a guerra a partilhar espaço com o resto da nossa vida.

 Quando há dias me demorei naquele que é um dos raros fotolivros editados sobre a Guerra Colonial, Angola – 1961-1963 (fotografias de Dante Vacchi e legendas de Anne Gaüze) dei por mim a regressar aos estados febris. E a pensar que, apesar de ter encontrado ali meia dúzia de imagens fortes, a iconografia fotográfica ligada à guerra colonial é fraca e sem uma referência autoral óbvia, à excepção da obra conhecida de Augusto Cabrita (1923-1993) e de Fernando Farinha. Ou são imagens enviesadas pela propaganda do Estado Novo (como este Angola...), ou são imagens para “consumo caseiro”, que procuram um protagonista com o intuito de lhe vender a fotografia no final da acção. Fotografias de guerra para irem parar de mansinho à caixa de sapatos, mesmo ao lado dos bolos de aniversário, de casamentos e dos piqueniques à sombra de pinheiros mansos.




1 comentário:

miguel disse...

Bem interessante, e sabe que Dante Vacchi, um aventureiro aparentemente ex-legionário francês, foi um dos fundadores dos Comandos? Parece que depois vendeu fotos "impróprias" a revistas estrangeiras e foi expulso de Portugal.
Sobre esta guerra devem-se no entanto referir os arquivos oficiais (Arquivo Histórico Militar - Exército) os quais embora muito delapidados, foram alimentados pelos operadores de foto-cine nos teatros de operações. Note-se, por exemplo, o que agora está a ver a luz do dia sobre a 1.ª Guerra Mundial.
Mas, pior, no meu ponto de vista, é a pobreza actual, em relação às operações em que estamos envolvidos, e algumas são mesmo guerra. Agora, paradoxalmente, que estamos em democracia, sem censura e com imprensa livre, esta não investe nisto. Em duas décadas de operações há 3 ou 4 reportagens fotográficas "civis" e outras tantas dos serviços oficiais. Nada, mas mesmo nada que se compare com o que aconteceu em África. Muito menos.

 
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