23 setembro, 2012

Rui

Sebastian Liste, Salvador da Bahia, Brasil, 2009


Rui Prata abandona direcção dos Encontro da Imagem de Braga

O Prémio Internacional de Fotografia “Emergentes DST” 2012 foi atribuído sábado à noite, em Braga, ao espanhol Sebastian Liste que se destacou com um trabalho onde se conjugam “uma componente forte e dramática da condição humana, com intensos retratos a preto-e-branco”. Durante a cerimónia, Rui Prata anunciou o abandono do cargo de director dos Encontros da Imagem de Braga, festival que lançou em 1987. A fotógrafa Ângela Ferreira, que actualmente é co-directora dos Encontros, será a sucessora de Prata.

Rui Prata justificou a saída com a necessidade de "dar lugar aos mais novos” e defendeu o nome de Ângela Ferreira lembrando que está ligada ao festival desde 1996.

O prémio “Emergentes DST”, que já vai na terceira edição, tem um valor pecuniário de 7500 euros e foi entregue numa cerimónia no Theatro Circo, por ocasião dos Encontros da Imagem de Braga que decorrem até 28 de Outubro.

Na mesma cerimónia foram ainda reconhecidos com menções honrosas os portefólios da russa Alena Zhanderova, pelo seu “colorido e vibrante portfólio”, e do espanhol Mariano Icaza, pela “sua auto-representação dos grandes clássicos da arte contemporânea”.

Do júri de selecção dos trabalhos faziam parte Alejandro Castellhote, Laura Serani e Lars Borering, que tinham como principal objectivo seleccionar portfólios que se destacassem “por um corpo coerente de trabalho, com uma linguagem fresca e arrojada”, conforme se lê num comunicado divulgado pela organização.

No total, foram recebidos mais de 400 portfólios de autores nacionais e internacionais, um número que significou um aumento de 25% em relação à edição anterior do prémio. De acordo com a organização daquele que se intitula como “o mais antigo festival de fotografia da Península Ibérica” o galardão deste ano ficou marcado um elevado número de candidaturas internacionais (70% do total). Para além de países europeus como França, Itália, Grécia, Letónia, Islândia, Polónia e Turquia chegaram também portfólios do México e do Brasil.

Os 20 trabalhos finalistas serão expostos na Galeria Emergentes DST, na Rua do Raio, até 28 de Outubro.

21 setembro, 2012

descobrir



 
Descobrir
(revista 2, Público, 09.09.2012)


É sempre bom descobrir aquilo de que não se está à procura. Melhor ainda é descobrir quando nada faz prever a descoberta. Afinal, estávamos longe, a chinelar pelas ruas no pico da sonolência, a fazer horas para a hora que o sol aceita esmorecer. Descobrir, quando íamos equipados para enfrentar o areal, as brincadeiras com castelos, pás e moldes a imitar bonecada e pudins flan.


Nada o fazia prever. A descoberta. Juro que não estava à procura de nada. Quer dizer, há caminhos tortuosos que se percorrem por opção com o fito de se chegar a um lugar específico, mesmo que não se tenha garantido à partida que se chegará a lado algum, a alguém, a coisa alguma.


Juro outra vez que só perguntei à senhora que atendia na livraria sofisticada do Museu de Arte Contemporânea de Vigo (MARCO) onde se vendiam outros livros, daqueles de capas gastas e com ADN de várias gerações. E ela, mulher simpática de bâton muito vermelho, tentou explicar-me os caminhos para lá chegar num galego com chispa que parecia a fala da mais velha das minhas avós quando se esbaforia com tanta canalha lá em casa. Estávamos perto e eu percebi tudo, mas ela preferiu fazer-me um desenho num quarto de folha A4.


Mas mesmo com os rabiscos, ao chegar ao casario perdemo-nos e por isso calhou-nos aturar um de Chaves que à força nos queria espetar numa mesa a comer mariscada e a beber alvarinho. Prometemos pensar no marisco, demos meia volta e metemos, cheios de fome, por uma quelha muito a subir.


No Fai Bistes vingámo-nos num revuelto de chorar por mais e num branco do Ribeiro. Lá nos concentramos no desenho e eis que fomos direitinhos aos livros velhos. E eu, juro milhões de vezes, não procurava nada de especial até que pedi muito a modinho ao dono daquele corredor de bricabraque, “um vinagre”, indicações até ao sítio da fotografia. Sentado, falou entredentes um galego que nenhuma das minhas avós apanharia quanto mais eu. Viu-me desorientado e decidiu, a custo, meter-me o indicador à frente dos olhos. Respondia com enfado. Dedilhei as lombadas e puxei uma fininha que se revelou a primeira de uma resma de números do raro Boletim Photographico (1900 – 1913), talvez o projecto editorial ligado à fotografia que mais impacto teve em Portugal, graças ao talento de Arnaldo Fonseca ao dinheiro e visão de Júlio Worm. Paguei uma ninharia e saí contente da vida.


Voltámos ao MARCO para uma compra que tinha escapado à primeira e lá descrevemos a aventura na loja do estrunfe zangado. A mulher do bâton vermelho emudeceu, foi desencantar uns catálogos de uma galeria no Porto e disse “Toma, dou-tos”, como quem tenta pôr um penso rápido num arranhão.


Descobrimos nesse lugar a galega mais extraordinária da cidade.

a Europa


João Grama, Ropes
© João Grama



A Europa deles que é também a nossa Europa  

Cláudia Carvalho
(Público, 17.09.2012)

Durante estes dias, o primeiro piso da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, é uma porta para a Europa dos nossos dias. Uma Europa que nos faz reflectir e questionar e que não é indiferente. Uma Europa que é tudo ao mesmo tempo. Bela e inquietante com todos os problemas que a atingem, da crise económica à crise social. Pode ser cá como pode ser lá, assim mostram os 12 fotógrafos, entre eles três portugueses, que foram desafiados a interpretarem o tema das Identidades Europeias a partir das lentes das suas câmaras.

"Não estamos interessados nem em descrever nem em assinalar uma espécie de singularidade europeia", diz ao PÚBLICO o curador Sérgio Mah, explicando que "a Europa é este óptimo conjunto de diferentes raízes históricas, geográficas, espirituais, simbólicas".

Não é de estranhar por isso que ao percorrer as 12 séries fotográficas, o público seja confrontado com temas, que podem ser do foro privado ou do domínio público. Há, por exemplo, imagens sobre a condição da mulher pela experiência da maternidade, assinadas por Marie Sjøvold, ou a representação de Gabriele Croppi de vários cenários urbanos. "A exposição tentou ser um espaço democrático e livre para estes cruzamentos", acrescenta o curador português.

A primeira edição da EPEA é uma iniciativa de quatro fundações europeias (a Fundação Calouste Gulbenkian, a italiana Fondazione Banca del Monte di Lucca, a alemã Krber-Stiftung e a norueguesa Institusjonen Fritt Ord), que ficaram encarregues de nomear um curador, que por sua vez escolheu três fotográfos. Sérgio Mah foi o escolhido da Gulbenkian e, por sua vez, escolheu Catarina Botelho, José Pedro Cortes e João Grama, segunda explica, por serem "sensíveis à temática das identidades europeias". Pietro Masturzo, Monica Larsen, Hannah Modigh, Frederic Lezmi, Linn Schröder, Davide Monteleone e Isabelle Wenzel compõem o restante painel de artistas.

"Queríamos fotógrafos emergentes. Não podia ser alguém que já estivesse muito estabelecido no mundo da fotografia", diz Mah, acrescentando que a ideia do projecto, além de desenvolver a relação entre as quatro instituições, é promover artistas que estão em processo de consolidação de carreira. "Ao mesmo tempo acaba por ser um projecto sobre uma certa geração", afirma Mah, explicando que os fotógrafos têm entre os 29 e os 37 anos. "Isto traz sempre uma coisa boa que é a frescura de alguém que está aberto e disponível para todo o tipo de abordagens."

De Istambul à Caparica
Catarina Botelho desenvolveu a sua série em Istambul, "um extremo da Europa tal como Lisboa". E conta que se não fosse o EPEA não teria a possibilidade de explorar os hammans, tema que há muito queria desenvolver. Nesta exposição, a fotógrafa apresenta sete fotografias sobre os espaços onde são feitos os banhos turcos, assim como os objectos usados no ritual. "Interessa-me porque é um espaço que é privado mas ao mesmo tempo colectivo e por isso um espaço social", diz, explicando que quando lá chegou acabou por se interessar mais pelos objectos usados. "Esse contraste entre o antigo que é o espaço e o novo que são os objectos plásticos, e que ao mesmo tempo não assim tão novos porque os usamos há milhares de anos, acabou por me interessar mais."

Mas se Catarina Botelho viajou para a Turquia, José Pedro Cortes ficou por cá e fotografou a Costa da Caparica. "Quando nos puseram este desafio da identidade europeia, sempre achei que seria melhor fazer algo próximo de casa. Esta ideia da Costa já me tinha ocorrido várias vezes e aquilo que me interessava era aquele local desequilibrado, por um lado um local com uma emigração forte, por outro um sítio tradicional de pesca, meio urbanizado, e ao mesmo tempo procurado pelas pessoas de Lisboa", diz o fotógrafo, que acredita que "podemos ter as identidades europeias que quisermos".

Foi também perto do mar que João Grama procurou a sua identidade europeia. Com um trabalho mais paisagístico, o fotógrafo dedicou-se à comunidade piscatória de percebes entre Vila do Bispo e Sines, focando-se nos instrumentos de trabalho, que são as longas cordas penduradas nas rochas quase engolidas pela água.

"É um trabalho sobre muitas coisas, mas sobretudo sobre aquela comunidade de pescadores de percebes, que é provavelmente a mais importante e reconhecida", diz João Grama, explicando que as cordas, que dão o nome à sua série, são "um instrumento que começa a perder-se porque as pessoas mais jovens já usam outras coisas". A exposição, que inaugurou em Hamburgo, viajará depois de Paris para Lucca e, por fim, para Olso - as cidades das fundações. Em preparação está já a segunda edição, com outros artistas. "Não é certo que a Fundação Gulbenkian escolha três portugueses", avança Sérgio Mah, explicando que "a ideia é que as fundações promovam a sua vocação internacional". E conclui: "Esta é uma forma de celebridade e encontro entre nacionalidades internacionais."

15 setembro, 2012

iludir




Iludir


(revista 2, Público, 26.08.2012)

Mal acabei de ler o texto “Os mistérios de Chris Marker em Portugal” (PÚBLICO, 6.8.12), lancei-me logo na Amazon à procura de Portugal (1957), o livrinho número 16 da colecção Petite Planète que o notável realizador, fotógrafo e escritor orientou para a Seuil. Nesse ensaio, publicado na sequência da morte de Marker, em Julho, Susana S. Martins fez-nos um brilhante resumo daquilo que foi a ligação do artista a Portugal através de uma obra que está a léguas da carneirada dos livros de fotografia e viagens de então. Portugal chegou-me de França rápido, bem embrulhado e ainda com uma sobrecapa daquelas de papel transparente para precaver riscadelas na capa imaculada, como imaculada parece a figura que mora nela. 

 Marker, homem dos sete ofícios, lançou-se na empreitada de editar livros sobre lugares porque os “guias” da época lhe pareciam estafados, seguidistas e desorientadores. Para ele, o mundo do pós-guerra tinha ficado mais acessível do que nunca, mas a experiência da viagem era “ilusória”: “Vemos o mundo escapar-nos, ao mesmo tempo que nos tornamos mais conscientes das nossas ligações com ele”. Em ruptura com o que se fazia, propôs uma série que fosse “uma conversa com pessoas inteligentes e cultas”, pessoas que “estivessem bem-informadas sobre os países em questão”. No volume sobre Portugal, Franz Villier, autor do texto, põe de lado os rodriguinhos e esmera-se por não deixar nenhuma alfinetada ao acaso com críticas ao ultramontanismo, ao colonialismo e ao ditador celibatário. Isto, claro, sem nunca esquecer os pormenores (descrição dos hotéis: “Três categorias, como as prisões”). 

O extraordinário arranjo gráfico de Portugal é de Marker assim como boa parte das fotografias que desafiaram o cânone do Estado Novo (os Jerónimos surgem com um matagal à frente, a Torre de Belém com um pardieiro lamacento). Está bom de ver que a censura proibiu o livro. E nem a encantadora mulher envolta em trajes típicos na capa desviou o controlo pidesco do conteúdo. O que prova que, neste caso, eles leram e viram alguma coisa do que lá vinha estampado, não se ficaram pelo retrato de Jean Dieuzaide, que assinava com o pseudónimo de Yan, assíduo de salões em Portugal e colaborador do SNI (António Sena). 

As mulheres eram regra nas capas da série. Ao escolhê-las, Marker aposta na sua força simbólica e sedutora. Mas no caso de Portugal, esta candura até soa um bocadinho a provocação (também pelo autor escolhido). Enquanto dá uma imagem plácida e de antanho do país na capa, no miolo a pena e as objectivas são gumes afiadíssimos para tudo e todos. É caso para dizer que se se ficasse pela capa, a censura seria romanticamente ofuscada. Como eu fui quando encontrei este In Portugal (Prestel, 1961), em alemão, que traz um olhar de que não se consegue escapar.

 
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