09 julho, 2012

/uma fotografia, um nome\


Leonel de Castro, Cacau, São Tomé
© Leonel de Castro


Diz Régis Durand que a imagem fotográfica é, antes de mais, um pedaço de um discurso. Forma simples de nos dizer que cada um de nós, como elemento de uma comunidade, recebemos informação da imagem através de canais visuais e simbólicos.

Porque é decididamente simbólica esta fotografia de Leonel de Castro, omite-nos tempo e lugar, essa base de interpretação que sempre procuramos na imagem fotográfica, pois acreditamos que nos dá uma parcela do mundo. Mas há outras omissões e essas trazem-nos informações secundárias: o uso da cor, o corte dessa informação fundamental que é o rosto dos fotografados, o domínio pregnante do cacau sobre o pátio de cimento. Apesar do quase evidente trabalho infantil, sabemos que se trata do nosso tempo. 

O corte deliberado desloca o sujeito da imagem que, como o título afiança, é o cacau. Essa ausência dos rostos, reduzidos ao anonimato, explica em si mesmo a psicologia que herdamos dos diversos criticismos do século anterior e que, afinal, determinou esta ânsia de identificação que lhe corre paralela. A quebra das regras da composição clássica, já Robert Frank o fazia, mostrando-nos o papel do olhar do fotógrafo na recuperação (im)possível da realidade.

E assim a imagem fotográfica deixa de ser linear, deixa de contar uma história, mas instala-se na confluência de muitas narrativas que marcaram o operador e que ele sintetiza em múltiplas pequenas sensações.

Há obviamente um olhar social que alerta em nós a interpretação dos signos: o vestuário é reconhecido aqui e ali como comum ao nosso uso e a informalidade e mesmo o desleixo ético caracterizam-nos a qualidade etária do grupo que se alinha com rigor geométrico e lúdico. Mas a ressonância social é mais forte pela dominância do cacau que parece secar ao Sol.

Todas estas observações, que qualquer um pode fazer, são muito claras numa cultura fotográfica; olha-se primeiro a imagem e procura-se o seu significado social, mas em breves noções que perduraram desde a definição do objecto fotográfico modernista até a criação de uma filosofia do acto de fotografar e ler uma imagem que, desde meados do século XX acompanham de perto teorias pragmáticas ou da consciência, empiristas e sociológicas ou da linguagem e da comunicação… noções que se cruzam e se plasmam na própria imagem, que também não lhes é alheia.

Hoje, com a tecnologia digital, a diferença de uma imagem assenta prioritariamente nessa mistura tão humana de pré-noções e de afectos. Seduz-nos ou não nos seduz, lembramo-la ou esquecemo-la. Seduz-nos pela emoção da diferença e da identidade e guardamo-la porque julgamos quase compreendê-la. A diferença habita quase sempre o mistério. É um obstáculo a compreender e esquecer. Fazemos como eu fiz aqui: rodeamos as explicações, justificamos o prazer de olhar com a parafernália da informação e acabamos por aceitar que o olhar seduzido se envolve em perceptos e afectos. 

Maria do Carmo Serén

1 comentário:

Ju souza leao disse...

Ótimo blog! Te seguindo!

http://julianasouzaleao.blogspot.com.br/

 
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