07 maio, 2012

crónica #2


Da série Iraquianos
© António Pedrosa


Esconder
(revista 2, Público, 06.05.2012)

Temos uma atracção pelas fotografias que de forma inequívoca já não pertencem ao nosso tempo. Seja pela admiração da obsolescência dos processos, seja pela nostalgia dos lugares ou pela força enigmática dos olhares que viram um tempo que nunca vimos, sabe bem alojarmo-nos nesse passado que se vai inscrevendo na imagem fotográfica. Mas se há géneros e usos da fotografia em relação aos quais a patine pode ser um campo de virtude, outros há que definham e que deixam de cumprir a função com que foram criados se descansarem demasiado nos arquivos, se assentarem neles demasiada poeira ou se esbarrarem na decisão de quem tem o poder de os revelar. É o caso do fotojornalismo, talvez o género que mais depende do seu tempo (o tempo presente) para se realizar como testemunha, como ferramenta de denúncia e reflexão.


A fotografia que se ergue como documento jornalístico precisa de dar conta do seu tempo, mas, na verdade, só vive plenamente se conseguir chegar ao olhar dos outros.


Antes de chegar ao olhar do júri que em meados de Abril avaliou mais de 400 trabalhos enviados para o Prémio Fotojornalismo 2012 Estação Imagem|Mora, a reportagem com que António Pedrosa venceu o reconhecimento máximo da competição (Iraquianos) passou primeiro por outros olhares. Por sinal, olhares que decidiram não publicar um trabalho distinguido agora por um júri com gente mais do que experimentada, do fotojornalismo à edição fotográfica. Na justificação do prémio (atribuído por unanimidade) veio escrito que “era a melhor história, muito fácil de entender e contada com forte dramatismo”. Foi sublinhado o estilo “muito clássico”, onde o preto e branco foi trabalhado “de forma perfeita”, e o “profundo trabalho de aproximação” à comunidade cigana (“Iraquianos” retrata o quotidiano de um grupo que vive nos arredores de Carrazeda de Ansiães depois de ter sido arredado do centro da vila)


O trabalho de Pedrosa merece estes elogios e mais alguns – afecta-nos, denuncia e revela-nos um mundo que mal conhecemos. O certo é que o fotojornalismo tem um tempo limite para se mostrar com acutilância, caso contrário corre o risco de se transformar num bibelot, numa superfície para a qual se olhará apenas com interesse arqueológico. E se bem que não seja inédito, não deixa de causar apreensão que um trabalho com esta qualidade não tenha encontrado qualquer espaço para ser publicado. Não fosse este prémio, ficaria à mercê do tempo que, com outros, se encarregaria de o esconder.



Da série Iraquianos
© António Pedrosa

2 comentários:

Ruhollah disse...

Great ...

Tiago Couto disse...

Fotos lindas...

Tiago Couto

 
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