Num dia, Muitos dias..., Tomar, 1950-1960 é o nome da exposição sobre a obra que António Passaporte dedicou a Tomar. A mostra foi organizada em cinco núcleos e distribuída em três edifícios de Tomar: Centro de Arte e Imagem do IPT, Casa dos Cubos, e Casa Vieira Guimarães.
António Passaporte (aka Loty, Évora, 24 Fevereiro 1901 - Lisboa 18 de Fevereiro de 1983), começou a carreira de fotógrafo em Madrid, para onde se mudou em 1927 para trabalhar na Madrid-Films. Depois de várias viagens como vendedor de materiais fotográficos, faz uma exposição de fotografias de paisagem e monumentos que despertou o interesse do ministro da Cultura e Turismo de Espanha, general Primo de Rivera, que adquire imagens para fazer propaganda turística. A partir desta experiência, Passaporte começou um negócio dos postais ilustrados. Chegou a ser repórter fotográfico nas Brigadas Internacionais e no boletim Transmisiones, mas é na fotografia de publicidade e arquitectura que concentrou a maior parte do seu trabalho.
“My photography is a reflection, which comes to life in action and leads to meditation. Spontaneity - the suspended moment - intervenes during action, in the viewfinder.”
Silence, José Pedro Cortes, Pierre von Kleist Editions, 2005
A STET - livros & fotografias, projecto livreiro voltado para a fotografia e arte contemporânea de Filipa Valladares e Paulo Catrica, organizou uma conversa para hoje ao fim da tarde com uma provocação sugestiva: Será que existem livros de fotografia em Portugal? A iniciativa que marca o fim da residência temporária no espaço BES Arte e Finança, em Lisboa contará com a presença e intervenções de António Júlio Duarte, André Príncipe, Catarina Botelho, Filipe Casaca, José Luís Neto, Pedro Letria e Paulo Catrica.
#STET fora de portas 1 – Conversa e Booksigning Sexta-feira, 29, 18h30/20h30
#BES Arte e Finança Prç. Marquês do Pombal, 4 Lisboa
Guimarães, paisagem transgénica Sérgio C. Andrade, Ípsilon, Público (22.07.2011)
Já estamos a ver o fotógrafo flamengo Filip Dujardin (n. Bélgica, 1971) a compactar as muralhas do castelo de Guimarães com as ruínas das fábricas têxteis do Vale do Ave em construções futuristas inscritas no cenário dos verdes prados minhotos... Dujardin esteve no passado fim-de-semana nesta região a tomar um primeiro contacto com a arquitectura de Guimarães e com o que resta dela nas margens do rio Ave, até Vila do Conde. No final, e antes de regressar a casa para fazer as primeiras montagens com o material recolhido, Dujardin testemunhou ao Ípsilon as impressões fotográficas que guardou desse fim-de-semana minhoto: “Guimarães é muito pitoresco, é uma terra muito simpática, e muito bela para fotografar”, comentou, mostrando-se principalmente impressionado com a omnipresença da pedra, da rocha, do granito. Definindo-se como “um fotógrafo da arquitectura”, Dujardin diz que é sob essa perspectiva que vai “reconstruir” a paisagem que veio conhecer ao Norte de Portugal. É um dos quatro estrangeiros que foram convidados a participar no projecto Missão Fotográfica. Paisagem Transgénica, comissariado por Pedro Bandeira e Paulo Catrica e incluído no calendário de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. Os artistas que completam o grupo são o sueco J.H. Engström (que está também esta semana em Guimarães, a fazer o reconhecimento do terreno), o italiano Guido Guidi e a norte-americana Katalin Deér (estes dois viajarão até nós em Setembro, altura em que Dujardin vai também voltar para nova etapa da sua “missão”). Pedro Bandeira explicou ao Ípsilon que o projecto tem como objectivo pôr em diálogo “diferentes olhares e diferentes abordagens” de Guimarães e da paisagem industrial do Vale do Ave: “Não nos interessa captar a Guimarães patrimonial”. Antes olhá-la de uma forma diferente e distanciada, seja pela objectiva mais documental e realista de um Guido Guidi, com as suas fotografias de grande formato, seja pela aproximação mais formalista, ficcional e mesmo poética de um Filip Dujardin. O resultado desta “Missão Fotográfica” vai ser exposto em Março do próximo ano.
Durante o último ano lectivo tive o prazer de acompanhar a evolução do trabalho do primeiro grupo de alunos da pós-graduação Fotografia, Projecto e Arte Contemporânea, organizada pelo IPA - Instituto Superior Autónomo de Estudos Politécnicos. Das horas que passámos juntos fica a certeza de que houve dedicação e entusiasmo do lado de quem quis ensinar (transmitir experiências) e de quem quis aprender (apreender). Foi gratificante ver a diversidade de abordagens e muito entusiasmante encontrar clarividência de ideias e qualidade de muitos trabalhos. A exposição Quinze Ensaios - Fotografia, Projecto e Arte Contemporânea (patente até 30 de Julho na Plataforma Revólver, em Lisboa) mostra o resultado de um esforço colectivo e do esforço individual de Cátia Mingote, Cláudia Rita Oliveira, Diogo Bento, Diogo Simões, Francisco Kessler, Jorge Gonçalves, José Júpiter, Luís Monteiro, Maria Manuela Rodrigues, Marta Castelo, Miguel Godinho, Pedro Maçãs, Ricardo Spencer e Vitor Medeiros.
Entre as dezenas de imagens que me atraíram, escolhi este retrato captado por Diogo Simões. Faz parte de uma série que tenta caracterizar os territórios e os modos de vida das zonas que fazem parte do seu quotidiano. Maria do Carmo Serén aceitou o meu desafio para ensaiar sobre ela. Eis o que viu:
“Os significados que levantamos de um retrato, tal como acontece num texto literário, nunca são totalmente preenchidos pelo autor, mas, acima de tudo, pelos observadores e leitores que se sucedem no tempo. Tanto na literatura como na imagem fotográfica, o retrato tem significados móveis no interior do seu sistema de significações, mas é o significante que lhes dá sentido; e este é sempre mais forte, mais persistente, mesmo quando os paradigmas do olhar se alteram. Para nós, observadores, que recebemos a imagem como uma busca de sentido, é o significante que a estrutura, (ou nos estrutura o olhar) que procuramos. E é nesse paradoxo de caminhos que se cruzam, o nosso percurso inconsciente, os nossos afectos e percepções, os do autor da imagem e as realidades objectivamente encaminhadas para a câmara por um real que se suspendeu, que a complexidade do retrato mais se afirma.
Não era indispensável a informação de que esta inquietante jovem, fotografada por Diogo Simões para um seu projecto do IPA, remeteria para um levantamento geracional, - o ser e o estar desta geração muito jovem e muito desprotegida que, antes de ser o futuro da cultura que os mais velhos julgam transmitir-lhe, vai construindo a sua, para hoje e para si. Sistemas de interpretação, velhos e novos, interpenetram-se quando a olhamos: a jovem não nos olha, anulando propostas de poder; não há o olhar do outro sobre nós. Mas não tem o olhar que máquinas como as da Photomaton imprimiram à juventude dramática alemã dos anos oitenta. É muito jovem e muito inteligível como nossa contemporânea, na afirmação do vestuário, laboriosamente organizado para a contenção que apenas um elemento, o gorro de pele, tende a destruir. A horizontalidade da imagem, a proximidade e fecho do motivo, a desordem individualizada dos objectos amontoados, que contextualiza esta nossa contemporaneidade que traz o privado para o público situam-nos num reconhecimento fácil, mas não correspondem a qualquer expressão esperada no rosto da jovem: é nas mãos, caídas mas um pouco crispadas que se vê o seu constrangimento.
É também nas pequenas sensações, que desperta a imagem e que se lhe atribuem que vemos aqui o contemporâneo, o retrato impõe-nos uma relação participativa, uma interrogação em busca de sentido para o choque do olhar; a nossa perturbação advém precisamente do facto de que o olhar da jovem recusa a participação, fecha-se a nós, mas não se perde. Não é um olhar indefinido, não é um constrangimento, uma indiferença da geração do vazio dos anos oitenta e noventa; não há tristeza radical, ausência ou provocação juvenil. Para o observador é um enigma incómodo, onde a expressão, porque a há e não existe verdadeiro esvaziamento, não joga com a vaga rigidez imposta e a vaga crispação das mãos caídas que afastam o desânimo. Na fotografia contemporânea nem todo o enigma vem no nosso manual de instruções e os códigos de sentido apenas nos surgem como aqui, numa porta que parece abrir-se.”
O jornal i despediu a editora de fotografia Céu Guarda e dispensou os fotógrafos freelance, quase todos vindos do colectivo kameraphoto. É mais um passo atrás naquele que foi um dos melhores projectos editoriais de fotografia surgido em Portugal nos últimos anos. O trabalho de edição de Céu Guarda naquele diário mostrou sabedoria, ousadia e qualidade num tempo em que o suporte de jornal em papel se encontra numa encruzilhada sobre os modos de fazer e de acompanhar informação. O trabalho dos fotógrafos que com ela embarcaram neste desafio foi muitas vezes surpreendente e mostrou que não está morto o ensaio nos jornais diários. O jornalismo visual em Portugal fica mais pobre. Obrigado pelo que vi.
Linda McCartney Muito para além do brilho das estrelas Sérgio B. Gomes, Pública, Público (26.06.2011)
Antes de se chamar McCartney, Linda chamava-se Eastman. Antes de conhecer Paul McCartney, de se apaixonar por ele e de casar com ele (em 1969) já Linda Eastman fazia fotografias que, com mérito próprio, lhe valeram conquistas – entrou nos bastidores dos protagonistas da cena musical dos anos 60, conquistou a sua admiração e tornou-se na primeira mulher a assinar uma capa da revista Rolling Stone com um retrato de Eric Clapton.
Porque isto dos nomes e dos apelidos pode fazer toda a diferença, para o bem e para o mal, a primeira frase do texto de Paul McCartney que abre o livro de fotografia Linda McCartney: Life in Photograps (Taschen, 2011) esclarece logo: “Quando eu conheci a Linda pela primeira vez, ela já trabalhava como fotógrafa”. Que é como quem diz “ela não precisou da minha fama para nada, não precisou de mim para conseguir fazer aquilo que fazia, para ser admirada e ter sucesso”. A afirmação de McCartney tenta desfazer equívocos e combater um preconceito que tem barbas – o de que os que estão na órbitra dos famosos conseguem chegar a altos voos só por causa da sua condição estelar ou semi-estelar. O certo que antes de se unir a Paul, Linda já tinha feito imagens dos Rolling Stones, Janis Joplin, BB King, Jimi Hendrix, Pete Townshend, Jim Morrison e Neil Young, só para citar alguns dos muitos nomes famosos (ou que viriam a ser famosos) que aceitaram ficar na sua objectiva quando ela nada tinha de celebridade. E para sublinhar ainda mais esse talento antes do apelido McCartney, também Stella (uma das filhas do casal) avisa que antes de Paul, já Linda “enchia páginas [da Rolling Stone]”.
Num meio onde não era comum ver uma mulher a fotografar a órbitra rock’n’roll, Linda destacou-se pelo seu olhar sagaz e pela naturalidade com que se movia por entre quem queria registar – o historiar de arte e comissário Martin Harrison fala na “informalidade” e na forma “despreocupada” com que encarava o trabalho. No mesmo tom, num depoimento registado por ocasião da abertura da exposição com o mesmo nome do livro, em Londres, Paul McCartney descreve a maneira de fotografar de Linda como “uma conversa”. Uma conversa que, de vez em quando, incluía uma câmara e durante a qual se iam ouvindo alguns click. Para Paul, Linda tinha a perfeita noção do momento exacto do disparo: “Quando menos se esperava ela tinha a fotografia”. É essa estratégia de subtileza e “conversação fotográfica” que se revelam em muitas imagens que deixou, como a que mostra os The Jimi Hendrix Experience com Hendrix a bocejar, os The Mama's and the Papa's a comer e a ensaiar à volta de uma mesa cheia e confusa ou Janis Joplin de garrafa em riste. Quando esta ligação de química emotiva se transformava em imagem fotográfica, era sinal de que os sujeitos “não estavam a olhar para a fotógrafa. Estavam apaixonados pela mulher da câmara. Em galanteio. Enamorados”. Quem o diz é Annie Leibovitz, outra histórica que passou pela Rolling Stone e que escreveu um dos depoimentos do livro agora editado.
Antes de casar com Paul McCartney, Linda tinha acesso ao mundo dos famosos e dos aventureiros da música, do cinema e das artes – saía com eles, divertia-se com eles, de certa maneira já fazia parte da tribo movimentando-se com liberdade e despreocupação. Mas depois de dar o nó com o Beatle o seu quotidiano mudou radicalmente e as estratégias com trabalhava na fotografia também. Se por um lado passou para uma posição ainda mais privilegiada para realizar aquilo que sempre procurou na fotografia – fazer com que as imagens falassem por si, que provocassem emoções, reacções, que fizessem parar para ver e pensar – por outro viu-se mais condicionada no papel de figura pública. O fim do anonimato fez com que procurasse novas estratégias e novos ambientes para fotografar. A partir do universo íntimo do novo núcleo familiar (Linda e Paul criaram quatro filhos, Heather, Mary, Stella e James) construiu um longo diário visual que ombreia com a constelação de celebridades, incluindo os Beatles, que continuou a registar. Ao mesmo tempo que fazia “fotografias reais de pessoas que raramente conseguimos ver como realidade”, Linda McCartney, que morreu em 1998 depois de ter combatido um cancro da mama, começou a interessar-se pela natureza, pelos animais (e os seus direitos), pelas ruas, pela paisagem vista da janela de um carro e pelo quotidiano da sua família. E foi desta sequência temática que nasceu Life in Photographs, uma selecção “muito difícil” feita por Paul e os filhos do casal que tiverem que isolar algumas dezenas de fotografias entre um arquivo que chega às 200 mil imagens.
Esta vida em fotografias é atravessada por um sentido de unidade, de intimidade e de partilha, tudo salpicado com pequenas doses de surrealismo e humor. À medida que se sucedem as fotografias, o que vemos desfilar é uma procura pela força das imagens, independentemente da escala de celebridade, das ligações de amizade ou parentesco do seu sujeito. Trazem uma forma de olhar, um modo fazer particular que as transforma numa única família visual. E é por isso que convivem com naturalidade um retrato introspectivo a preto e branco de Nico, uma das divas dos anos 60, com uma janela de guilhotina vermelha entreaberta onde amadurece um melão, onde secam umas botinhas de borracha amarelas e onde o detergente Fairy espera para lavar a loiça. E Paul às vezes aparece a fazer gracinhas, como quando faz peitaça à frente de uns cartazes onde se anuncia um combate de luta livre. Já para não falar das crianças e da sua vida no campo.
Linda McCartney teve apenas duas aulas de técnica, antes de aceitar um convite extemporâneo para fotografar os Rolling Stones numa apresentação para a imprensa no rio Hudson, em Nova Iorque, para a revista Town & Country, em 1966. Divertiu-se a tirar fotografias e a aventura correu bem. A partir daí começou a fotografar mais e mais aprendendo com a prática, porque acreditava sobretudo no “instinto fotográfico”. Linda abraçou vários universos temáticos, experimentou muitos formatos e diferentes técnicas (gostava dos velhos métodos de impressão). A fotografia era uma extensão de si. Mas não a absorvia - nunca lamentava não ter uma câmara à mão quando lhe aparecia uma boa imagem. Segundo a filha Stella, nesses momentos dizia em voz alta: “Não há problema, podes sempre fotografar com a alma”.
* OArte Photographica inspira-se na ousadia empreendedora da revista A Arte Photographica (1884-1885), exemplo pioneiro da paixão pelos assuntos estéticos e técnicos da fotografia no Portugal de Oitocentos