14 janeiro, 2011

a cidade das cidades

Esther Bubley, Plataforma ferroviária elevada na 3ª Avenida

Nova Iorque
Descobrir a cidade das cidades
(P2, Público, 14.01.2011)

A visão repetida de imagens de um certo tema torna-nos mais ou menos indiferentes ao seu conteúdo. E o olhar tende a ficar domesticado com o já visto, com o familiar. Podem ser imagens datadas ou mais próximas do nosso tempo. Podem ser rostos, objectos, desastres naturais ou paisagens bucólicas. Mas é com as imagens das cidades que esse sentimento de lugar-comum mais acontece. Cidades como Nova Iorque, que parece estar desde sempre plantada no nosso imaginário – à força de a vermos representada em todas as artes visuais, temos a doce ilusão de a conhecermos bem, de já lá termos estado.

Para quem vive do negócio das imagens fotográficas, o cliché pode ser um obstáculo. Ou então pode ser um desafio. A casa livreira Taschen é mais conhecida por escolher os desafios em vez de ficar presa aos obstáculos. A empreitada que recentemente decidiu levar a cabo, ao organizar livros de fotografia sobre grandes cidades, mostra que não se intimida com o já visto, com o já feito. E mostra como pode ser limitada e ultrafragmentada a imagem global dos lugares que julgávamos visualmente adquiridos.

Primeiro com Los Angeles, depois com Berlim e agora com Nova Iorque (Retrato de uma Cidade está traduzido em português), a Taschen demonstra que o filão de imagens das grandes cidades está longe de se ter esgotado. E que ainda é possível surpreender.


Anónimo, Mulberry Street, 1900
Library of Congress, Prints & Photographs Division, Detroit Publishing Company Collection


Ao longo de quase 600 páginas, a história de Nova Iorque, a que já chamaram capital do mundo, conta-se desde meados do século XIX, altura em que apareceu a fotografia, até aos nossos dias. A obra está dividida em cinco partes: A cidade da reinvenção; Alcançar o céu; A capital do mundo; Ruas ameaçadoras; Da tragédia ao triunfo. O puzzle urbanístico e social representado vai desde as terraplenagens da formação da metrópole e do desafio da construção dos edifícios em altura até às noites loucas dos clubes de jazz e à devastação causada pelos atentados de 11 de Setembro.


A ordem escolhida pelo autor, Reuel Golden, antigo editor do British Journal of Photography, é cronológica. À medida que os anos avançam ao longo da obra, vão-se misturando cada vez em maior número imagens icónicas com outras inéditas e mais inesperadas. Ao todo, foram escolhidas imagens de dezenas de arquivos e colecções pessoais de mais de 150 autores, entre os quais alguns dos mais cotados fotógrafos do século XX, como Alfred Stieglitz, Paul Strand, Walker Evans, Weegee, Bruce Davidson, Helen Levitt e James Nachtwey. Ao mesmo tempo que nos serve o “conforto” das imagens reconhecíveis, este “retrato de uma cidade” é condimentado com a surpresa e a revelação das fotografias nunca vistas, de pessoas anónimas, do quotidiano, da vibração e do caos urbano, aquelas que tornam possível a viagem. Sem deslocação física.




Steve Schapiro, fotograma de Taxi Driver, de Martin Scorsese, com Robert De Niro, 1976

1 comentário:

H A R R Y G O A Z disse...

Amazing photographs.

 
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