17 outubro, 2010

as mãos


Entrega da proposta do OE 2011
João Henriques/Público

Na sexta-feira, último dia do prazo para a entrega da proposta para o Orçamento de Estado para 2011, enquanto planeávamos na redacção os últimos acertos do destaque a dar ao assunto na homepage do Público Online disse várias vezes que as fotografias deste momento eram normalmente desinteressantes, sensaboronas, burocráticas. O assunto e o cenário do ritual da entrega do OE no Parlamento não costumam permitir fotografias com fulgor e rasgo.
Passava pouco da meia-noite (o OE 2011 incompleto foi entregue quase a tocar o gongo) quando João Henriques, ainda a limpar o suor da testa, nos trouxe esta imagem que demoliu todos os preconceitos que tinha verbalizado durante a jornada de trabalho.
No meio da balbúrdia em que se transformou o momento exacto da entrega da pen com o documento, João escolheu bem. Para lá da solenidade dos corpos engravatados, da pompa da sala, orientou o olhar para a mão que dá (a de Teixeira dos Santos) e para a mão que recebe (a de Jaime Gama), dando àquele gesto um significado visual rico e contraditório, ao mesmo tempo o mais insignificante e o mais definitivo, como o que foi pintado por Miguel Angelo no tecto da capela Sistina, quando Deus toca a mão de Adão no momento da criação.
Teixeira dos Santos é capaz de ter cometido não um mas vários pecados com este Orçamento. E Jaime Gama está longe de ser um Deus miraculoso e criador. Seja como for, este pode ser o momento que marcará o nosso renascimento ou nosso afundamento económico. Será que este Orçamento nos vai salvar do FMI? Ou será que o FMI vai ser a nossa salvação?

4 comentários:

António Correia disse...

Não acha o Sérgio que a imagem tem pouca informação e por causa disso carece de texto complementar que aliás fez o favor de escrever para nos elucidar?
Não será que uma imagem deve valer por si só informando o momento, o espaço, a ocasião ?
A mim parece-me uma belíssima imagem de jornalismo, de grande oportunidade.
:)

Sérgio B. Gomes disse...

Tem razão António: a imagem tem pouca informação. Sozinha, sem o contexto (e o texto) do destaque em que foi incluída, não nos informaria por aí além, quase só nos deliciaria. E ainda bem.
O cumprimento da sua principal função (testemunhar), não impede que o jornalismo visual se liberte da agenda, do expectável, do imposto e do repetido. De certo modo, esta fotografia consegue desviar-se do ritual sem desvirtuar nem esquecer o essencial. E por mais minimalista que seja, creio que carrega uma narrativa própria que vale por si.

António Correia disse...

Concordo consigo Sérgio.
Obrigado.
:)

Zhu Di disse...

o fotógrafo arriscou, muito, e ganhou. parabéns.


só uma adenda: na Capela Sistina, Deus não chega a tocar na mão de Adão. so dois dedos ficam em suspenso, a poucos centímetros um do outro.

 
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