13 novembro, 2009

Frank



A arte de Robert Frank começou na fotografia mas não acabou na fotografia
(P2, 12.11.2009)

Quando o nome do fotógrafo suíço-americano Robert Frank vem a terreiro, a arte que se lhe cola logo é a fotografia e o livro tornado obra endeusada pelo virtuosismo de articular narrativas visuais pela imagem fotográfica - The Americans (1958), ou a poderosa sequência táctil de uma das road trips pela América profunda que mais influência criativa e ondas de choque provocaram no pós-guerra. E o que é que vemos afinal de Robert Frank para lá desse eterno "poema triste" (Jack Kerouac) que se move como uma sombra fatalmente agrilhoada ao seu autor? Ainda no ano passado, em Nova Iorque, numa rara aparição pública, o próprio Frank, hoje com 85 anos, hesitou muito na resposta, mas acabou por admitir a sua felicidade por fazer perdurar esta ligação umbilical com o livro de fotografia que - ninguém tem dúvidas - o eternizará.

O que aparece em The Americans é Frank no seu registo mais forte e genuíno. Mas a sua grandeza criativa está longe de se esgotar nessas 80 fotografias que foram outras tantas alfinetadas na maneira instituída (e instalada) de representar a América. Há muitos mais livros de fotografia que resultam do seu génio. E há também uma vasta obra cinematográfica e videográfica (mais de 25 títulos) que, até há pouco tempo e para além das polémicas imagens que rodou de uma digressão dos Rolling Stones (Cocksucker Blues, 1972), permanecia relativamente misteriosa e ao alcance de poucos.

As portas de Robert Frank realizador abriram-se um pouco mais no ano passado quando a casa editora alemã Steidl começou a editar a sua obra completa em DVD. À boleia da reedição de The Americans (em 2008 a primeira edição, impressa em França pela mão de Robert Delpire, fez 50 anos) e de muitos outros livros da sua vasta obra, a editora alemã decidiu tirar do baú de Frank todos os seus projectos que incluíram imagens em movimento, desde o filme inaugural Pull My Daisy (1959), escrito e narrado pelo compagnon de route Jack Kerouac e protagonizado por Alan Ginsberg e por outros artistas da beat generation, tido como uma das sementes do Novo Cinema Americano, passando por videoclips para os New Order (1989) ou para Patti Smith (1996), até aos mais recentes registos autobiográficos, como True Story (2004), que mistura o seu legado artístico com o da mulher, June Leaf, e remexe em acontecimentos de família e dramas pessoais.

Foi a partir desta exemplar recolha da Steidl que a edição deste ano do Estoril Film Festival (a decorrer até domingo) programou vários filmes e vídeos de Robert Frank, uma filmografia que inclui géneros tão variados como o experimentalismo, o documentário e a ficção.

Para amanhã, as Robert Frank Sessions têm agendadas as duas últimas obras do realizador no festival: C`est Vrai (1990) e Paper Route (2002). No primeiro, Frank caminha por Nova Iorque durante uma hora exacta, sem qualquer edição da narrativa, numa justaposição de cenas estudadas e improvisação onde entram novamente velhos conhecidos do "círculo beat", como o poeta Peter Orlovsky. No segundo, o artista decide acompanhar o distribuidor de jornais Robert MacMillian numa manhã invernosa no seu percurso rotineiro pelas zonas rurais da região canadiana da Nova Escócia, refúgio do artista desde os anos 60. À medida que a viagem avança, Frank vai procurando a paisagem e as histórias de vida de MacMillian.

São dois exemplos de um registo que tenta aproximar-se das angústias, das alegrias ou da simples existência das pessoas da "vida real", um universo que Frank sempre procurou, quer como realizador, quer como fotógrafo. Tentou compreender os outros, mas também procurou explicações sobre si, como em About Me - A Musical (1971), quando, logo nos primeiros minutos, decide abandonar a ideia de um filme sobre música (primeiro indiana e depois americana) e concentrar-se numa análise introspectiva: "Que se foda a música! Decidi fazer um filme sobre mim." E quem disse que as melhores histórias estão assim tão longe?

Pull My Daisy

1 comentário:

Clara disse...

Muitos parabéns pelo Excelente blogue.

Quando a Frank, só digo que é um dos mestres que mais aprecio.

Abraço

 
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