21 agosto, 2009

au féminin

Dora Maar, Portrait d`une femme, Paris, c. 1935

Mulheres a olhar para mulheres
(P2, 21.08.2008)

Bem vistas as coisas, discutir o sexo da fotografia é mais ou menos como discutir o sexo dos anjos. De exclusivamente feminino só mesmo o género da palavra, porque, enquanto processo
técnico, o suporte fotográfico é insensível ao sexo de quem regista ou de quem cria. À partida, a
fotografi a apresenta-se como campo neutro, pronta para ser manipulada, disponível para ser
consequência de variáveis como o gosto, a sensibilidade, a formação e também… o género.

Para abrir o ensaio do catálogo que acompanha a exposição Au féminin, Women Photographing
Women 1849-2009
(Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Paris, até29 de Setembro), o comissário Jorge Calado escolheu uma citação da fotógrafa americana Imogen Cunningham (1883-1976) que clarifica, à partida, a fronteira entre estes dois momentos: “A fotografia
não tem sexo”, no sentido em que, na sua génese, ela está apenas ao serviço da luz, como uma
folha em branco. Apesar da sua neutralidade de género, a fotografia (ou produção fotográfica que se tornou mais visível) esteve durante muito tempo nas mãos de homens. Não que as mulheres estivessem ausentes do universo da fotografia. Muito pelo contrário, elas sempre fizeram parte dela, não só como tema e sujeito, mas também como criadoras, comissárias e teóricas (como Susan Sontag e Gisèle Freund, que assinaram alguns dos mais importantes ensaios do século passado).

O certo é que a sociedade machista em que se moveu a imagem fotográfica ao longo dos últimos dois séculos fez com que apenas nas últimas duas ou três décadas se considerasse criticamente o contributo das mulheres para a fotografia. Com Au fémininJorge Calado pretende contribuir para o “equilíbrio de géneros, numa arte geralmente limitada ao masculino”.

Nas palavras do comissário, é a primeira vez que se concebe uma exposição em que a mulher é ao mesmo tempo objecto e sujeito, autor e tema em sentido lato (não confinada à nudez ou ao retrato). Através de um total de 140 imagens de mais de 100 autoras, Calado tenta mostrar “a diversidade da condição feminina em toda a sua riqueza e subtileza”.

Há imagens de várias fotógrafas portuguesas, entre trabalhos que vão desde 1849 até aos nossos dias. Julia Margaret Cameron, Lee Miller, Dorothea Lange, Diane Arbus e Sarah Moon são só alguns exemplos da constelação de autoras fundamentais. Uma amostra do trabalho fotográfico sobre a condição feminina no Portugal dos anos 40 de Maria Lamas (1893-1983) é uma das escolhas mais notadas e surpreendentes, já que é a primeira vez que se apresenta este lado da sua obra contextualizado numa grande exposição.

1 comentário:

Lia Wedgwood disse...

Olá, Sérgio. Perdoa-me adentrar sem longos avisos. Adorei, simplesmente, o post. É interessante observar o crescimento feminino em diversos âmbitos do cotidiano, especialmente na arte de fotografar. Explicaste muitíssimo bem um assunto bastante interessante. Adorei o blog!

 
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