11 março, 2009

cut

João Pinto de Sousa, s/título, 2008
(© João Pinto de Sousa)


Cut, o título da exposição individual na Ordem dos Médicos, no Porto, foi escolhido porque o fotógrafo [João Pinto de Sousa] é também cirurgião. O corte é o fundamento da estética fotográfica como o é da invasão cirúrgica.

Sabemos, naturalmente, que os médicos reparam em detalhes e nessa persistência determinada que é a vida. O cut fotográfico suspende num “eternamente” necessariamente variável, o acontecer, o que é afinal uma catástrofe física que o devir da natureza fluida do mundo, de modo algum previa.

Mas a vida não é de facto o que as fotografias, sempre pretéritas e sempre de imagem fixa, nos mostram. É o que sabemos e o que sentimos ao olhá-las que nos devolve o seu significado. Para isso qualquer coisa, qualquer organização na imagem, nos aponta o caminho; só assim ela é entendida e nos cede o seu fascínio. Do fotógrafo exige-se que conheça o código da transferência.
Cut estende-se por duas salas, numa delas a cidade aparece-nos fraccionada, esclarecida pela publicidade, pelas sobreposições de imagens identificadas, pelas atitudes dos seus utentes.

Sobressai a sua face desestruturada, oferecendo-nos o labirinto que a transforma em cidade subterrânea ou, pelo contrário, a urbe acima dos olhos que esconde os seus fetiches da indiferença do nosso olhar citadino. Ocultamento é, naturalmente, uma das suas características que apenas a apropriação da fotografia torna destacável: as suas margens sociais, o seu vício do consumismo, a sublimação da sua violência, as infra-estruturas que a suportam, os mitos arqueológicos da sua austeridade. São imagens de brecha que, como num videoclip de cor, nos impõem aquele olhar que é nosso contemporâneo, breve, difuso, vagamente perceptivo e raras vezes normativo. É o olhar da acumulação, da saturação de imagens, de um quotidiano rodeado de imagens de sucedâneo.

E, no entanto, desafiam-nos com os seus argumentos, apelam á nossa experiência e à nossa aprendizagem cultural. Jogam com a nossa memória fotográfica. Tudo nelas recusa a censurada perspectiva triangular, tudo se move em “olhares de Deus” que o cinema nos trouxe ou na proximidade do motivo, construindo-se no paralelismo dos planos. Uma ironia suave conjuga-se na aparência distanciada dos lugares, no testemunho humano dos objectos, na indeterminação e no desfoque ou na organização da montagem mas não desloca o sentimento geral que este zapping urbano nos insinua, a solidão das pessoas e dos lugares, o irredutível cenário da nossa perigosa sobremodenidade.

Esta flutuação de vida torna-se tese na segunda sala; não se trata de um enclausuramento interior provocado pela difusão da imagem, pela cópia infinita do mundo onde florescem os não-lugares da nossa vagabundagem, que o fotógrafo flaneur nos oferece à associação compreensiva, actualizando ou não o conhecimento vago da tribo urbana. O que se debate aqui é a previsibilidade do horizonte que a obra aberta nos oferece; a previsibilidade do horizonte do olhar, quando esse horizonte, no visível, se esconde. Seja pela abordagem barroca da diluição da cor pelo negro, (a mostra começa aí com um hospital nocturno, definindo-se apenas pelas diversas refracções de cor nas janelas, imediatamente seguido duma estrutura de caixas de plástico que sugerem o amontoado urbano), seja pelas paisagens marítimas, (o mar, que sempre foi o símbolo mais fiel do horizonte) onde o horizonte se desvirtua: pela multidão da praia que o devora, seja porque o plano é uma transparência e o mar, um conceito; ou está destinado ao lugar do espectador, (como a imagem do homem no paredão). Um quase plongé na Ribeira do Porto esmiúça detalhes perceptíveis no longe e no perto, como um qualquer quadro famoso de Pieter Bruegel, que representava, como sabemos, o olhar nórdico que contrariava o olhar perspectivo. Aí, com paciência, podemos imaginar as histórias que queremos do quotidiano, o olhar nunca se perde no infinito; não há fim nem princípio.

O ponto de vista de um caminhar para um horizonte invisível, (e, portanto, imprevisível) representa-se em três fotografias. Só vemos o caminhar, é uma coisa muito bela e muito inquietante. O futuro, o progresso, o dinamismo da vida surgem-nos bloqueados, são análises que aqui neste mundo do presente expandido não funcionam. O que ressalta é a impossibilidade dos limites do ver e do prever. A sedução constrói-se do que falta, da ilusão, da procura de um sentido de infinito.

Maria do Carmo Serén
Março de 2009

Cut, de João Pinto de Sousa
Ordem dos Médicos, Porto
Até 26 de Março

3 comentários:

Bórax disse...

Mais uma vez, cheguei ao fim do texto cansadíssimo. As palavras de Maria do Carmo Serén atiram-me para fora dos textos, maçam-me, distraem-me, bloqueiam-me:
− O que é que isto quer dizer? Tenho de voltar ao princípio. Não percebi patavina.
Saber ouvir quem sabe (e é possível ouvir lendo) é muito importante na educação do olhar, mas é preciso contar com a capacidade pedagógica de quem escreve.

Anónimo disse...

Ler os textos de Maria do Carmo Serén "a posteriori", ou seja, depois de vermos ou participarmos nos eventos a que se referem, ainda os torna mais fascinantes.

Parabéns!

Maria disse...

Quando vejo que os textos levam a assinatura de Maria do Carmo Serén simplesmente... não os leio. Estou farta de verborréia intelectual portuguesa. Leiam os textos dos críticos/teóricos espanhóis e vão perceber a diferença, com certeza!

 
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