25 setembro, 2008

Encontros adiados

Cheng Bao Cheng, Encontros da Imagem de Braga 2006

A edição deste ano dos Encontros da Imagem de Braga foi adiada por causa da falta de apoio financeiro do Ministério da Cultura. Previsto para arrancar no dia 27, o único festival de fotografia de âmbito nacional e internacional ainda em actividade em Portugal não conseguiu reunir as condições mínimas necessárias para concretizar a programação em torno do tema "Fronteiras do Género", que pretendia desencadear o debate sobre as práticas artísticas femininas.

Um comunicado divulgado ontem à noite pela organização dos Encontros afirma que a Tutela da Cultura alimentou durante "vários" meses "expectativas positivas" sobre o apoio que, em meados de Agosto, acabou por negar. Em declarações ao PÚBLICO, Rui Prata, um dos principais rostos do festival, classifica como "escandaloso" este volte-face e lamenta que "haja dinheiro para acontecimentos como a Experimenta (a bienal de design)" e não exista orçamento para os Encontros de Fotografia. "Sentimo-nos marginalizados. Olham para os Encontros como um acontecimento de província", protesta.

Com este adiamento "frustam-se expectativas dos artistas participantes, instituições envolvidas e, naturalmente, do público", reforça o comunicado.

Apesar deste desfecho, Rui Prata ainda pretende concretizar a programação que foi publicamente anunciada em Junho. A organização pediu uma audiência ao ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, para lhe entregar "um dossier com os artigos sobre os Encontros publicados ao longo de 20 anos em jornais nacionais e internacionais" e para tentar convencê-lo a repor o apoio financeiro ao festival. Se essa ajuda se concretizar, o objectivo é inaugurar os Encontros no dia 8 de Março de 2009, Dia Internacional da Mulher.

A intenção de continuar sem a verba do Ministério chegou a ser manifestada, mas o festival ficaria limitado às exposições produzidas por artistas portugueses, um cenário que agora significa "um desvirtuar profundo do espírito dos Encontros: a ausência de partilha internacional, de acções lúdicas, formativas e reflectivas". "Achámos por bem não fazer apenas pelo fazer e continuamos a acreditar que ainda é possível um retrocesso por parte do Ministério, confiantes que a programação desejada venha a acontecer mais tarde", refere o texto do comunicado. No sábado, dia previsto para a inauguração, será lançada uma petição online a favor do apoio aos Encontros de Braga que este ano cumpriam a sua 19ª edição. A programação deste ano previa exposições em nove espaços da cidade.

Sérgio B. Gomes
(Público Online, 24.09.2008)

7 comentários:

Anónimo disse...

... deve ter sido mais barato patrocinar o excelente PhotoEspanha2008. Afinal Madrid é mesmo aqui ao lado e as low costs até oferecem preços acessíveis. Alípio

Filipe disse...

Caro anonimo, o apoio que o MC deu 'a PhotoEspana deve ter sido mais logistico e em estreita colaboracao com os privados - Museu Coleccao Berardo e BES.
Estes sim, foram os verdadeiros responsaveis pela associacao de Portugal ao evento.

Quanto 'as competencias do MC.
No seu site e' explicito o que e' referido nos pontos j (Consolidar os apoios públicos à criação, produção e difusão das artes e à formação de novos públicos) e j (Qualificar as redes de equipamentos culturais, promovendo a correcção de assimetrias regionais).
Ora, julgo que esta medida de se quebrar uma regularidade de um programa cultural descentralizado (significa longe de Lisboa, Porto e agora tambem, Allgarve) vai contra as proprias atribuicoes do MC.
E' importante que se apoie iniciativas deste nivel, que tanto trabalho dao a criar e a dignificar.
Quando se fala de produtividade, sistemas de merito e tudo o mais devia-se exactamente olhar para estas iniciativas e dar-lhe o merito merecido.
Por outro lado, as organizacoes destes eventos tem de trabalhar com parceiros locais, para tambem nao estarem 100% dependentes do Estado.

Google disse...

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A miúda que percebe pouco disto disse...

Vocês são tão entendidos que até se tornam inacessíveis! Um tanto áridos, com tamanha sabedoria. Não consegui ler aquela parte dos links do Sr. Google.

Que pena, que os encontros foram adiados por causa da falta de apoio financeiro! O que será que poderíamos fazer para reverter a situação e dar neste país, uma maior expressão à fotografia, já que as coisas são assim como diz o Alípio?

Claro que isto está "mau", mas não haverá ideias e capacidade de fazer outras coisas a partir do que existe? Além de uma critica ao estado actual acompanhada de uma certa passividade que por vezes parece instalar-se, não haverá ideias criativas, viáveis, utilizando uns poucos que até percebem alguma coisa disto?

ALÍPIO disse...

Não tenho a certeza que tenha sido através do MC que o dinheiro público protuguês tenha chegado ao PHE.
Na verdade até acredito que essas verbas tenham saído das que são destinadas à promoção turística do país além fronteiras...
...terão sido extraídas do mesmo "cofre" que guardava as que serviram para pagar a Nick Knight que, como se sabe, foi o prestigiado fotógrafo autor das fotos que constavam, por exemplo da contracapa do catálogo do PHE sob letras azuis "PORTUGAL".
Em resumo: Portugal patrocina uma dos grandes eventos de fotografia do mundo, com fotografias de um fotógrafo inglês( salvo erro).

Por outro lado, não sei se alguma vez se tinha visto tanto nome português no dito evento (ainda bem), a começar por um dos directores que, por seu lado, havia, uns anos antes, tentado o LisboaPhoto que nem tempo de crescer teve (embora muito prometesse)... não sei se por falta de apoios estatais...

E porque não, apelar a essas doutas entidades que tanto apreço pela arte fotográfica (BES e FB) têm demonstrado, para apoiar os encontros de Braga?

Peço desculpa ao autor do Blogue por este desabafo que até se poderá afastar do propósito desta iniciativa, mas não deixa de ser um assunto relacionado com a fotografia portuguesa. obrigado. Alípio.

Filipe disse...

Os links do Sr.Google mostraram-se ate' bastante interessantes, afinal!
Destaco o 'link 5', por exemplo.
Diz que em 2006 o evento custou cerca de 80.000 euros (+- 188 salarios minimos nacionais).
Partindo do principio que a edicao deste ano seria pelo menos este valor, senao ate' mais cara (o petroleo aumentou, deu-se o crash em Wall Street, o valor do euro criou problemas 'as exportacoes portuguesa, etc...) seria de todo o interesse - e volto a sublinhar, que a organizacao do evento nao sobrecarregasse o erario publico completamente com a organizacao do evento.

Nao quero dizer com isto que os Encontros de Imagem de Braga nao sejam um evento importante e com um historial de 2 decadas; mas e' preciso tambem atender 'as evolucoes que se deram em Portugal desde os anos 90, em termos culturais.

Desde essa altura foram criadas diversas estruturas e construidos varios equipamentos culturais ao nivel dos Municipios e que potencialmente serao potenciais a fundos deste genero.

Se em Portugal existem cerca de 308 Municipios e todos eles tem iguais direitos em termos de acesso a fundos do Governo da Republica em exigir apoio aos seus eventos culturais - dentro de parametros de qualidade; e se para dar continuidade ao projecto cultural de cada um desses Municipios seja necessario que existam varios projectos a decorrer ao longo do ano (supondo um igual valor de 80.000 euros para outros projectos mais pequenos); entao o Estado teria de apoiar com 308x160.000 = 49.280.000 euros
Ainda que existam muitos projectos, tal como este, que merecem toda a consideracao, respeito e apoio, seria pedir de mais que as organizacoes ou entidades gestoras destes eventos pensassem um pouco noutras formas de financiar os seus eventos e estruturas sem ser a recorrerem ao estado em 100%?

Os eventos sao importantes. Nao ha' duvida! E tem variadas implicacoes nao so' a nivel local, como tambem nacional.
Mas nao seria de interesse local - ate' como forma de dinamizar o seu concelho em torno do seu evento; criar parcerias locais, tambem?

Eu vejo esta situacao por este prisma.
O apoio de privados pode fomentar o interesse pela Arte e criar mais coleccoes.
Numa altura em que se produzem muitos artistas, nao seria de todo o interesse que houvessem coleccoes com interesse em coleccionar o seu trabalho e criar assim condicoes e oportunidades para a practica artistica?

O evento nao pode ser so' um tiro no escuro. Seria bom perceber a sua importancia num contexto mais abrangente.

Filipe disse...

Hmmm "contas"... pois...

Esqueci-me de que 160.000 euros sao +- 27 ordenados minimos anuais.
Afinal nao posso considerar que o evento saia assim tao caro quanto isso... em todo o caso ( e nao desejando que alguem realmente ganhe o salario minimo nacional...) a verba hipotetica para os 308 Municipios seria equivalente a 8263 postos de trabalho.

Seria de todo interessante que a rentabilidade de todos os eventos desse para recuperar parte destes fundos e que se criassem com isso os tais 8263 postos de trabalho... Mas como fazer com que isso aconteca, se os eventos normalmente tem uma duracao curta e um numero de visitantes reduzido?

Continuo a achar que parte da solucao pode ser parcerias com entidades locais. Desta forma o evento "isolado" transforma-se num interesse de mais algumas pessoas e isso pode ser o inicio para um verdadeiro "sucesso cultural", ou pelo menos um evento cultural com alguma capacidade de sustentabilidade.

 
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