30 setembro, 2008
mulheres
Nasceu um novo espaço na internet para se mostrar fotografia contemporânea feita por mulheres: Women in Photography. O projecto, apoiado pela britânica Humble Arts Foundation e liderado por Amy Elkins e Cara Phillips, pretende ser uma montra alargada para fotógrafos, editores, curadores e galeristas que pretendam seguir a recente criação fotográfica feita por mulheres. Haverá trabalhos de artistas emergentes e consagradas cada terça-feira de cada mês. É possível enviar um máximo de 5 trabalhos através do site para apreciação das curadoras.
O último portfolio disponível mostra imagens de Robin Schwartz que retrata o relacionamento burlesco-encantatório de Amelia, a filha da artista, com animais exóticos.
O site da Women in Photography está aqui
A Humble Arts Foundation aqui
29 setembro, 2008
da violência
A Finlândia não tinha uma imagem da violência
Há quem pense que falar e mostrar violência leva a mais violência. E há quem pense que falar e mostrar violência ajuda a perceber e a reduzir os episódios de violência.
Em Novembro do ano passado, um aluno matou oito pessoas numa escola de Tuusula e a Finlândia ficou estarrecida. O país deitou-se no divã para tentar descobrir onde é que falhou e para tentar perceber o que é que levou Pekka-Eric, de 18 anos, a abrir fogo sobre outros alunos e professores e sobre si naquele dia. Os media finlandeses já eram muito selectivos no noticiário sobre criminalidade, mas depois do massacre de Tuusula, que até foi muito dissecado, reduziram ao essencial os factos sobre violência com receio de um efeito mimético. Uma precaução que surtiu efeito apenas até anteontem, porque o ex-aluno Matti Saari protagonizou um massacre em tudo parecido com o de Pekka-Eric. Morreram dez pessoas, mas os factos tiveram uma cobertura minimal.
Os media finlandeses estão cheios de pudor em mostrar o fenómeno da violência, mas Harri Pälviranta não. O fotógrafo sentiu que o debate social acerca do problema estava ligeiramente coxo. Porque lhe faltava imagem, um testemunho gráfico que mostrasse frontalmente as querelas físicas que se vão multiplicando nos fins-de-semana muito regados com drogas e álcool. A Finlândia tem dos mais baixos índices de criminalidade do mundo e o país não estava habituado a ver violência real intramuros. O certo é que a violência existe, até na Finlândia. Pälviranta quis dar-lhe um corpo gráfico seguindo uma abordagem muito própria que não deve ser confundida com as normas por que se rege o fotojornalismo. Apesar de o resultado estar muito próximo das imagens repentistas do mítico fotojornalista americano Weegee – conhecido por registar topo o tipo de crimes e acidentes em Nova Iorque pouco tempo depois de terem acontecido –, este trabalho de Pälviranta (Battered, especificamente sobre cenas de pugilato) procura uma postura mais metafórica e artística que ajude a perceber as razões desta tensão que leva os finlandeses a espancarem-se uns aos outros. É uma imagem da Finlândia que não conhecíamos e que os finlandeses, se calhar preferiam não conhecer.
A originalidade deste projecto valeu a Harri Pälviranta o prémio Descubrimientos do PHotoEspaña 2007. Não foi a primeira vez que o fotógrafo finlandês tratou o tema. Entre 1999 e 2001 concretizou On Violence, que mostra a interacção humana com as armas (a Finlândia é um dos países com mais armas entre a população), e Badscapes que capta paisagens bucólicas onde outrora se travaram violentas batalhas. Prepara actualmente um trabalho sobre a quantidade colossal de armas registadas na Finlândia em relação ao reduzido número de habitantes do país.
Sérgio B. Gomes
(P2, 25.09.2008)
28 setembro, 2008
leilão 2
A Potássio 4 agendou para o dia 23 de Outubro, em Lisboa, um leilão de fotografias da autoria de João Cutileiro. As imagens que vão à praça foram captadas pelo escultor entre finais dos anos 50 e meados dos anos 70. O lucro da venda reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas afectadas pelo VIH/Sida.
26 setembro, 2008
/uma fotografia, um nome\
“Habitualmente realço em José Manuel Rodrigues a especificidade simbólica e alegórica das suas fotografias: aquele iniciático enredamento do feminino-masculino, os signos dos quatro elementos, a imponderabilidade temporal das suas imagens sempre marcadas pela transfiguração.
Esta imagem é relativamente recente e vejo nela uma síntese do que a fotografia representa hoje e das polémicas que tem suscitado. Porque afinal o fotógrafo, que foi fundador e determinante na Perspectief holandesa, sempre se mostrou como um experimentador fotográfico, precisamente naquela linha que Jeff Wall determinava para a fotografia actual, como reveladora da consciência histórica do meio técnico e, naturalmente, do autor.
Nesta produção, as máscaras são o motivo. O que revela logo o nó górdio que é a aparência fotográfica. Diz quem sabe que imago é o duplo do vivente, mas a sua máscara funerária de cera, obtida post-mortem é, e já não é. Só representa. Em todo o caso, como duplo é também a figura tutelar, suficientemente apaziguadora quando, ao que diz a religião romana, se tornar um terrível espírito severo e infernal.
A imagem fotográfica, nomeadamente o retrato, ganhou essa capacidade de apropriação, guardamo-la com a posse que não conseguimos obter de quem a representa. Aqui, nesta imagem, o fotógrafo, fiel ao seu estilo, resguarda a geometria da sua concepção do real, utilizando o plano que o divide equatorialmente; consegue assim dar dessa realidade a confluência do ser e do não ser, do equilíbrio e do caos, do uno e do múltiplo, aquilo a que chamamos harmonia.
Mas no primeiro plano vemos um guiador de bicicleta que se enleia com o seu reflexo, entrosando-se com o que parece uma cadeira de jardim e uma das duas figuras reflectidas no vidro do que parece ser uma montra. Num plano atrás de nós, uma fila de bicicletas estacionam no passeio que antecede a série de casas truncadas. Tudo cria uma sucessão de planos impossíveis do dentro e do fora. Nós estamos no lugar da câmara, talvez se vejam detalhes do saco do fotógrafo, no passeio, um outro passeio que não vemos; estamos provavelmente bem perto da bicicleta que reflecte o seu guiador no vidro. É um dos efeitos da reflexão teórica que Wall introduziu com a sua imagem Retrato para Mulheres, onde produz a versão fotográfica e, por isso, contemporânea, remake de Bar nas Folies-Bergère, de Manet.
Temos aqui o vidro que permite esta concepção de herança e actualização da perspectiva pictórica, que as câmaras reproduzem. A transparência da fotografia, porque dizem os realistas, a imagem se cola ao real, desaparece: olhamos, no vidro, o que está por trás de nós e é com esforço que entendemos o que se passa e com esforço que compreendemos que ficou anulado o plano pictórico binocular que o meio, (a câmara) foi industriado para nos dar, bem ao modo da perspectiva do Renascimento, onde caminhamos pelo seu interior.
Aqui reflecte-se o exterior, sobrepondo-se ao interior, sabendo que tudo se passa por trás de nós, estamos fora. A materialidade mais realista, as máscaras, são máscaras, aparência. A imagem fotográfica poderia ser transparente, mas as convenções da prática fotográfica e a utilização da câmara, tornam-na opaca. O que aqui se desmonta é a convenção da foto como janela aberta sobre o mundo, o desengano sobre a transparência da fotografia.
Mas um olhar estético deixa-se cativar pelo plano pictórico. Deixamo-nos seduzir pelo que na imagem é convocado. A sedução da imagem, interrompendo-nos, faz-nos debruçar sobre as contradições da transparência da fotografia, poderia ser um bordão pedagógico. Os brancos luminosos dão-lhe a força da caixa de luz, a linha horizontal impede a anomia, o desequilíbrio; mas passamos logo à inquirição, ao problema da sua transparência. Sabemos, hoje, que a imagem artística é válida, quando revela a consciência histórica do meio utilizado. O olhar estético não é fruidor de forma passiva.
Mas o que fica desta imagem, quando a esquecemos, são as máscaras, iguais e diferentes, aterradoras se as vemos e intuímos a força desestabilizadora da sua presença sequencial.
São elas que ficam, que voltam, que prometem. As convenções da prática fotográfica fazem a opacidade da fotografia, os conceitos de arte e de belo tornaram-se, ao que se diz, uma convenção. Mas guardo na memória esta imagem pela evocação das máscaras, chamei-a por pulsão. A desmistificação do nosso modo de olhar é, naturalmente, um corolário perceptivo, um prazer menor.”
Maria do Carmo Serén
25 setembro, 2008
Encontros adiados
A edição deste ano dos Encontros da Imagem de Braga foi adiada por causa da falta de apoio financeiro do Ministério da Cultura. Previsto para arrancar no dia 27, o único festival de fotografia de âmbito nacional e internacional ainda em actividade em Portugal não conseguiu reunir as condições mínimas necessárias para concretizar a programação em torno do tema "Fronteiras do Género", que pretendia desencadear o debate sobre as práticas artísticas femininas.
Um comunicado divulgado ontem à noite pela organização dos Encontros afirma que a Tutela da Cultura alimentou durante "vários" meses "expectativas positivas" sobre o apoio que, em meados de Agosto, acabou por negar. Em declarações ao PÚBLICO, Rui Prata, um dos principais rostos do festival, classifica como "escandaloso" este volte-face e lamenta que "haja dinheiro para acontecimentos como a Experimenta (a bienal de design)" e não exista orçamento para os Encontros de Fotografia. "Sentimo-nos marginalizados. Olham para os Encontros como um acontecimento de província", protesta.
Com este adiamento "frustam-se expectativas dos artistas participantes, instituições envolvidas e, naturalmente, do público", reforça o comunicado.
Apesar deste desfecho, Rui Prata ainda pretende concretizar a programação que foi publicamente anunciada em Junho. A organização pediu uma audiência ao ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, para lhe entregar "um dossier com os artigos sobre os Encontros publicados ao longo de 20 anos em jornais nacionais e internacionais" e para tentar convencê-lo a repor o apoio financeiro ao festival. Se essa ajuda se concretizar, o objectivo é inaugurar os Encontros no dia 8 de Março de 2009, Dia Internacional da Mulher.
A intenção de continuar sem a verba do Ministério chegou a ser manifestada, mas o festival ficaria limitado às exposições produzidas por artistas portugueses, um cenário que agora significa "um desvirtuar profundo do espírito dos Encontros: a ausência de partilha internacional, de acções lúdicas, formativas e reflectivas". "Achámos por bem não fazer apenas pelo fazer e continuamos a acreditar que ainda é possível um retrocesso por parte do Ministério, confiantes que a programação desejada venha a acontecer mais tarde", refere o texto do comunicado. No sábado, dia previsto para a inauguração, será lançada uma petição online a favor do apoio aos Encontros de Braga que este ano cumpriam a sua 19ª edição. A programação deste ano previa exposições em nove espaços da cidade.
Sérgio B. Gomes
(Público Online, 24.09.2008)
23 setembro, 2008
GomesMartinsPalma
Foram hoje divulgados os artistas seleccionados para a fase final do prémio BES Photo. André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma vão disputar o maior galardão de fotografia (25 mil euros) atribuído em Portugal. O júri de selecção foi composto pelos críticos de arte Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo que decidiram por unanimidade escolher estes três artistas por exposições apresentadas em 2007.
André Gomes foi escolhido pela exposição Macha, no Teatro Municipal de Almada (5 a 27 de Maio de 2007) e no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro de 2007), Edgar Martins pela exposição Topologies, no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro - 28 de Fevereiro de 2007) e Luís Palma pela exposição Territorialidade, Galeria Presença, Porto (7 de Janeiro a 23 de Fevereiro 2008).
O júri justificou as suas escolhas assim:
André Gomes pela "consistência de um longo percurso no qual a qualidade narrativa, a relação com a literatura e a teatralidade, bem como um raro sentido de relação com a transcendência, conferem uma marcante originalidade ao conjunto da obra";
Edgar Martins pelo "rigor da sua obra e o entendimento da fotografia como um meio artístico complexo que o artista tem vinculado a uma compreensão da paisagem nas suas mais diversas acepções";
Luís Palma pela "solidez do seu entendimento da relação entre fotografia e arquitectura, bem como a forma como a paisagem urbana tem vindo a encontrar no seu trabalho um mapeamento exemplar".
A exposição BES Photo será apresentada em Março de 2009 no Museu Colecção Berardo, que, desde o ano passado, organiza o prémio com o Banco Espírito Santo. O júri que escolherá o vencedor terá uma composição de âmbito internacional que ainda não foi divulgada.
Os vencedores das edições anteriores foram:
Helena Almeida (2004)
José Luís Neto (2005)
Daniel Blaufuks (2006)
Miguel Soares (2007)
sem máquina
O fotógrafo Mário Pires organizou em Lisboa um workshop sobre estética fotográfica onde se pretende "fomentar a criação de hábitos de reflexão e crítica, e o enriquecimento das perspectivas criativas" de quem se dedica ao labor fotográfico numa fase inicial ("fotógrafos amadores, estudantes e todos os adultos com interesse na expressão fotográfica"). Para participar, não é preciso ter máquina. As inscrições podem ser feitas até ao dia 3 de Outubro.
As informações práticas, programa e módulos estão aqui.
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