11 junho, 2008

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Fotografia à la minuta, O Teu Amor é a Minha Vida, Santa Luzia, Viana do Castelo, 1971

Vale a pena ler a entrevista que Kathleen Gomes fez ao historiador de fotografia australiano Geoffrey Batchen. Autor de livros como Burning with Desire (1997) ou Each Wild Idea (2001), Batchen faz uma defesa acérrima da inclusão metódica da fotografia vernacular nas histórias de fotografia. Antes de partir para o PHotoEspaña, o historiador esteve em Lisboa para duas conferências, a convite do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens da Universidade Nova.

Para ler a entrevista a Geoffrey Batchen clique aqui.

Acho que chegou o momento de começar a escrever histórias da fotografia que sejam mais sintomáticas das especificidades locais, histórias de alcance global, que incluam África, Ásia ou a América Latina. E que lidem com os géneros que tradicionalmente têm sido excluídos desse modelo: fotografia comercial, industrial, instantâneos, objectos híbridos...

Geoffrey Batchen, Público, P2, 11.06.2008

3 comentários:

Bernardo Soares disse...

O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas numa distribuição primeiro definida, depois indefinida de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido já do acontecimento estático da fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros da praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que conheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidiano. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é_ o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza do homem_ afinal tão banais e, tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo _ são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro da praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro do Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira e, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço_ reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja _ tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papeleira.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou eu para ser assim? Contudo… E o insulto do conjunto?
_ «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hein?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que atirou para o lixo.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, fragmento 56).

Guzz disse...

Prezado,

Grato pelo excelente material do G. Batchen. Por favor, gostaria de saber onde a entrevista foi publicada originalmente.

Muito grato.
Cordialmente,
Gustavo Reis

Sérgio B. Gomes disse...

Olá Gustavo. A entrevista foi publicada no caderno P2 do Público. Encontra um link no post para um pdf do jornal. De qualquer maneira, pode copiar esta morada e vai lá parar: http://static.publico.clix.pt/blogs/artephotographica/geoffreybatchen.pdf

 
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