30 abril, 2008

/uma fotografia, um nome\

Da série Canada do Inferno, 2005
(© José Afonso Furtado)

Foi um deus menor que criou estes montes desabridos que se esboroam em lascas aguçadas, um deus menor que afundou o rio nas brechas das montanhas, que desenhou esta sequência mortífera de distâncias. A paisagem pode ser esta suspensão do sopro, este arrepio, o abespinhado das urzes secas, estas feridas paralelas de uma louca repetição fractal e desumana das rochas.

De um a outro lado do Douro, o homem construiu uma paisagem que dizem de sucesso, arredondou os montes e traçou simétricos socalcos de patamares de vinha. Há deles paisagens de apaziguamento, porque a mão do homem reconstrói-se também no que faz e aí, estabelece a ponte do domínio. Em José Afonso Furtado também houve tentativa de apropriação e a passagem de qualquer técnica branqueou a sua nudez com equipamentos que abandonou, tão inúteis agora como alheios ao território que infringem.

E por isso mesmo recuperamos teorias da paisagem fotográfica, evocamos a Land Art da American Land dos anos 70 e ecos dos New Topographics, (1975) e do Rephotografic Survey Project, (1977). Nomes como Lewis Baltz, Robert Adams, Mark Klett ou mesmo Misrach pousam naturalmente nesta paisagem sem limites e sem perspectiva, nesta inglória tentativa de afastar o sentimento do sublime que animava a fotografia dos pioneiros e refazer o olhar predador do homem que foi definindo o seu alarme ecológico.

Exemplarmente, Canada do Inferno desmistifica a paisagem mítica, essa exaltação da contingência que está presente no belo sublime de Kant. O que vemos, nesta e noutras imagens dessa série, é o desleixo contaminador da técnica, do construído no casco do planeta. Trata-se pois de uma fotografia conceptual, onde o pecado do mundo se manifesta pelas preocupações da Ecologia. Traz também os seus mitos, o contraste campo e cidade, a sublimação das culturas etnicamente relevantes no meio pastoril, a aceitação da salvaguarda do trilho do caçador. Porque afinal tudo se conluía, nesta saída dos anos da contracultura, em volta de um (re)negado regresso à Natureza.

Fica que desta selvajaria natural e humana, como num filme de quadros pioneiros acelerados ou uma fotografia estereoscópica, os fragmentos de xisto e os equipamentos desabados correm para nós e não para o rio Côa. É obviamente a paisagem que se impõe e sobrevive mal em alertadas imagens do já conhecido; sentimos o estalar da rocha sob os passos que não damos, esquecemos o sentido das ruínas de um progresso qualquer e é pelo trilho dos bichos que perseguimos os horizontes dos montes que se desdobram, apagando-se na distância.

Tal como acontece com esta imagem de José Afonso Furtado, os fotógrafos da Land Art não conseguiram erradicar o universo estético das suas produções. A Natureza continua para lá do fora de campo, bem o sabemos, e o enquadramento é, será sempre, um artifício do autor. Mas este sentimento da fragilidade e insolência da cultura humana, este pesar do mundo sobre as nossas precaridades nasce, é certo, mas está para lá do enquadramento. A teia de informação sobre o mundo e o homem é tecida com as teorias e as práticas, embrenhadas nessa luta desigual entre o consciente e o inconsciente. É com esta guerra que José Afonso Furtado nos lembra, numa imagem que não é politicamente correcta, mas desabridamente actual, que tropeçamos no mundo para nos lembrarmos o pouco que somos.

Maria do Carmo Serén

José Afonso Furtado é director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. É uma autoridade no campo da evolução do livro para o digital e um conhecido fotógrafo

2 comentários:

Anónimo disse...

Só um reparo, o nome trabalho é "Canada do Inferno" e não Canadá(!).

E para efeitos pedagógicos não estaria mal acrescentar que esta série do José Afonso Furtado é sobre o que ficou do projecto megalómano da central hidroeléctrica situada justamente na Canada do Inferno, e que iria cobrir as gravuras rupestres de Foz Côa.

Apiko

Sérgio B. Gomes disse...

Ops. O acento já voou. Obrigado pela correcção.

 
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