17 janeiro, 2008

Maria do Carmo Serén - aqui

O Arte Photographica abre hoje o seu espaço à pena de Maria do Carmo Serén, historiadora, investigadora e teórica da imagem fotográfica como não há muitas em Portugal.

Maria do Carmo esteve desde a primeira hora ligada a quase tudo o que se escreveu no Centro Português de Fotografia. Foi coordenadora do Departamento de Comunicação e Informação da mesma casa, onde dirigiu também a revista Ersatz, entretanto extinta. Escreveu vários livros de história da fotografia, especialmente relacionados com o Porto, mas tem também obra publicada na área da fotografia contemporânea. E, claro, são dela todos os textos de apresentação das exposições que vemos no CPF.

Maria do Carmo Serén orientou o meu trabalho de licenciatura na Escola Superior de Jornalismo do Porto sobre a Exposição Internacional de Fotografia, organizada no antigo Palácio de Cristal do Porto, em 1886. Lembro-me bem do dia em que foi discutida essa monografia de fim de curso. E da sua imensa descontracção. Passei com boa nota. Fomos comer uma francesinha à Foz e depois corei de vergonha, porque me ofereci para pagar o almoço e tinha o dinheiro mesmo à continha.

Foi sempre inspirador reencontrá-la na prosa apaixonada que foi deixando no papel. Agora, é um prazer reencontrá-la aqui. Uma fotografia, um nome é a rubrica que decidiu oferecer-nos. Terá um regularidade quinzenal, mais coisa menos coisa, e estes textos não impedirão que nos faça outras visitas com comentários sobre exposições ou outras reflexões afins.
Bem-vinda!


(© Mariano Piçarra)


/uma fotografia, um nome\

Porto:Mariano Piçarra

Eu gosto destas cidades-mistério, que se desagregam sob os nossos olhos distraídos, espaços-desastre como este, ferido e tão fraccionado como a Fotografia nos ensinou a ver. As brechas e os rasgões, o corte e as sombras alheias são o desiquilíbrio e a fragilidade do papel ou do píxel, da imagem e do seu inconsolável demiurgo que nos oferece, antes de tudo uma ausência, repautando o pecado capital da análise psiquiátrica.
A composição assegura-nos o fotógrafo vagabundo, flanando pelo labirinto que a cidade ocidental nunca deixou de ser. E acreditando, acreditando ainda, que esse corpo urbano sempre em transformação, pode revelar as pulsões que sublima e não sublima, os seus segredos.
E, porque é a imagem da cidade, também mostra a erosão que a corrói, o desleixo que a mutila, a memória da falta e do absoluto – esse apontamento estético e perturbador de um marketing qualquer.
E, é evidente, a opacidade.
Porque o céu é uma esquadria geométrica, o horizonte, uma sucessão e volumes úteis, porque o ar serpenteia entre micro-climas urbanos; porque a câmara também espartilha e determina o enquadramento do que vemos. Não há leitura transparente, cada esquina é uma desconstrucção que recusa a síntese.
A cidade transporta consigo, como a imagem fotográfica, a perversidade de simular o mundo. Por isso a estranheza, a insegurança, o conviver do puro-impuro, do bem e do mal, o labirinto que recria, o mal de vivre. Um olhar light, muito contemporâneo, vê nela a infracção de todos os conceitos da novíssima Ecologia. Mariano Piçarra junta aí a sabedoria da Natureza como mestra, que contraria a Gnose moderna da impureza do Mundo. O cartaz, que habita a composição como senhor-da-casa, num preto e branco da memória fraca mas lúcida, transfigura o cenário de fim dos tempos. Reconhecemos a pose de sedução que o jovem copia de um manual de fotografia de moda, mas o erotismo perde-se na direcção do olhar; não nos olha, apenas nos seduz em segunda-mão.
É um faz-de-conta eficaz, como os contos de fadas, de aliens e das imagens fotográficas. E assim seguimos a simulação errática dos diversos planos que o afastamento do cartaz do muro que o sustenta, nos define: as sombras que se refractam na ondulação do pano e seguem constituindo veredas e caminhos na cartografia da parede, que se desloca para uma versão de perspectiva triangular.
Mariano Piçarra, com a câmara e o imaginário, reconstrói a aparência das coisas, dá-nos a inquietação de um reconhecimento nas formas que apenas se inscrevem, muito nítidas, sem jogos de luz e sombra, porque tudo se concentra num olhar desviado.
Já conhecíamos isto tudo em fotografias suas: as texturas que recriam mundos, volumes que fabricam teoremas, disposições que falam de ensaios-e-erros do nosso modo de ver, do nosso modo de sentir.
O muito que cabe numa imagem fotográfica.

Maria do Carmo Serén

Mariano Piçarra (1960-)
Designer da Fundação Calouste Gulbenkian,
professor de design na Fac. Belas Artes de Lisboa,
Professor de Museografia, fotógrafo
Expõe individualmente desde 1983

4 comentários:

miguel coelho disse...

Sérgio,

obrigado por nos presentear a todos com a presença da Maria do Carmo Serém que é, para mim, das poucas pessoas que escrevem (muito) bem sobre fotografia em portugal.

alentejodive disse...

Há muito que visito este excelente "Arte Photografica". E continuarei a fazê-lo. Deve ser por também partilhar este gosto pela fotografia.

É também por isso que este blogue continua, com muito gosto da nossa parte, a constar das "Ligações" na barra lateral do nosso blogue colectivo.

Um óptimo fim-de-semana para todos.

http://atribulacoeslocais2.blogspot.com/

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wheelchair ramps disse...
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