14 outubro, 2007

Inês d`Orey

Inês d`Orey
(© Adriano Miranda/Público)

um olhar fotográfico
moldado pela arquitectura

Nas Finanças Inês d`Orey está inscrita em duas profissões: “actividades fotográficas” e “outros artistas”. É uma separação que a máquina de cobranças do Estado julga necessária existir entre o trabalho conceptual e o trabalho comercial de alguém que simplesmente quer fazer da fotografia... um trabalho.

Lá na repartição onde a fotógrafa do Porto entrega as declarações de rendimentos, as senhoras atrás do balcão, conta, também demoraram a encaixar este golpe burocrático entre duas abordagens da imagem vindas do mesmo obturador, mas no final sempre se chegou a uma conclusão.

Hoje, a distinção entre “uma” e “outra” fotografia existe de facto na papelada. Mas na cabeça de Inês nem por isso. Prefere misturá-las. E dizer que se complementam. Ou melhor: que sem “uma” (a comercial) se calhar não estaria a fazer a “outra” (a conceptual). E que sem as duas, bem juntas, não teria chegado ao Porto Interior, o projecto com que ganhou o prémio Novos Talentos FNAC Fotografia 2007.

Foi com este trabalho que saiu à procura de um certo tipo de espaços na cidade onde nasceu e cresceu. Saiu à rua. E entrou. Meteu-se em lugares urbanos talhados para o uso e usofruto, espaços públicos ou semi-públicos, habitualmente com gente dentro, mas que Inês preferiu registar sem vivalma. Lugares de um Porto intramuros pelos quais tenta encontrar explicações para sentimentos como a “solidão”, o “abandono” e a “nostalgia”.

Nessa busca - às vezes um reencontro com cenários que lhe eram “familiares”, às vezes uma descoberta de cenários que lhe eram “estranhos” — serviu-se da ferramenta mais importante para os fotógrafos para além da luz — o olhar.

O olhar com que viu este “Porto Interior” Inês afirma tê-lo encontrado há pouco tempo. E não foi em cursos, especializações, conferências, “workshops” ou seminários. Foi no trabalho dito “comercial” que esteve a fazer para um estúdio de fotografia de arquitectura durante ano e meio.

A partir daí começou a encontrar “interesse e beleza” em espaços que antes lhe passavam ao lado. Esta atenção especial para com as formas, os volumes e as linhas da arquitectura funcionou como uma verdadeira “formação” e moldou o tipo de fotografia que quer fazer nos próximos tempos.

O género de fotografia “vazia” que agora mais lhe interessa no campo conceptual, o gozo pela “sensação da ausência de pessoas”, parece muito distante das imagens de teatro, com muitas personagens, rostos e expressões, que formaram o seu primeiro interesse pela imagem fotográfica.

Quando entrou para Relações Internacionais, Culturais e Políticas da Universidade do Minho, em Braga, Inês imaginou-se, no final do curso, a trabalhar “numa organização internacional qualquer”, mas nunca pensou que estaria de malas feitas para Inglaterra rumo a um bacharelato em fotografia no London College of Printing.

A “revelação” para a fotografia começou de uma maneira clássica — com a revelação de
fotografias dentro de uma sala escura. As primeiras imagens que lhe foram surgindo no
papel sensibilizado causaram “entusiasmo” e uma “emoção enorme”. Começou então a seguir o trabalho do Teatro Universitário do Minho, e depois as peças de outras companhias que faziam espectáculos em Braga. Foram estas imagens que lhe deram a primeira exposição em Portugal, uma colectiva integrada nos Encontros da Imagem de Braga, em 1999.

Inês gosta do cénico e do encenado. Não se sente próxima da espontaneidade do acto fotográfico. Diz que prefere amadurecer as ideias, “pensar bem” naquilo que vai fazer a seguir. “Não gosto de apanhar o momento. Não é isso que me interessa. Nas, férias, por exemplo, não tiro fotografias”.

As imagens que concretizou na capital inglesa foram sobretudo projectos de longo prazo pedidos pela escola. Confessa-se “pouco produtiva”, mas garante que é rápida a executar uma imagem depois de reflectir sobre ela e de a ter isolada em abstracto na cabeça.

No fim do curso em Londres pediu a 12 mulheres portuguesas que escolhessem um objecto e que escrevessem um texto sobre ele. Fez um retrato de cada uma e juntou os três elementos num tríptico. Daqui nasceu a primeira exposição individual em Portugal, no Artes em Partes do Porto, em 2002.

Depois da experiência londrina, tentou assentar em Lisboa. O problema é que durante a meia dúzia de meses que viveu ao lado do Tejo “não se passou nada”. “Fiquei sem inspiração. Não aconteceu nada”, lembra com uma ponta de mágoa.

De regresso ao Norte, surgiu a oportunidade de trabalhar em fotografia de arquitectura. Agarrou o desafio e transformou-o no principal motor das duas abordagens com que leva a cabo o seu trabalho, agora já por conta própria.

Se houve anos marcantes para Inês d`Orey, 2007 foi um deles. E não foi só o prémio FNAC: nos primeiros meses do ano, um dos seus portfolios, Ditados Velhos São Evangelhos, ficou entre os 60 seleccionados para a fase final do prémio Descubrimientos do PhotoEspaña 2007, um galardão ao qual concorreram mais de 600 propostas. Na sequência da visibilidade que ganhou aí, já levou outros trabalhos, também este ano, para a Alemanha (Reality Crossings) e para a Lituânia (Segredos, Mistérios e Ilusões).

Para ano, vai dizendo a medo, pode haver uma surpresa num grande festival de fotografia em França. Aguardemos.

(Perfis do Futuro, in Pública, 14-10-2007)

Para ler a conversa completa com Inês d`Orey clique aqui.

Inês d`Orey
(© Adriano Miranda/Público)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

 
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