29 setembro, 2007

aumentar

(© Andrees Latif/ Reuters)

Não é claro, nem nas fotografias nem no vídeo divulgados pelas agências internacionais, se foi o soldado birmanês mais próximo do jornalista Kenji Nagai a fazer o disparo que lhe tirou a vida quando trabalhava a cobrir as manifestações pro-democracia em Rangum. Acontece que a fotografia da Reuters que mostra o repórter nipónico estendido no chão com um militar de metralhadora em punho era demasiado apetecível para não se fazerem todo o tipo de adornos à sua volta.
Em todas as guerras, em todos os conflitos e em todas as revoluções os media esfalfam-se para encontrar uma imagem que condense o turbilhão de acontecimentos, uma imagem que fique como ícone desse lapso na marcha do tempo. Essa busca é de tal maneira voraz que muitas vezes se cometem todo o tipo de atropelos, principalmente o da falta à verdade. E não é só a dúvida em relação ao autor do disparo mortal que muitos atribuíram ao militar que corre de chinelos mesmo ali ao lado. Títulos bem respeitados (El País, Corriere della Sera) não hesitaram em escrever que Kenji Nagai mesmo no chão, em agonia, não parou de tirar fotografias ou filmar o que se passava à sua volta. Pelo que se consegue perceber do vídeo, o impacto do disparo fez com que Nagai tombasse de costas. O jornalista esbraceja depois instintivamente como quem pede ajuda. Daí a dizer que estava a tirar fotografias milésimos de segundo antes de morrer vai uma enorme distância.

27 setembro, 2007


entre aspas

Casamento de Frida e Diego, 1929
(Victor Reyes © Throckmorton Fine Art, Nova Iorque)

É impressionante o contraste entre as duas personagens. Frida, ao lado de Diego, tem um rosto quase infantil, com aquele olhar directo, impudente, que fixará sempre as objectivas dos fotógrafos sem pestanejar, tal como fixará os espectadores dos seus quadros. Diego, ao lado de Frida, parece ainda mais velho do que é, as feições pesadas, marcadas. Matilde tinha razão: uma pomba e um elefante.

Rauda Jamis, Frida Khalo, Quetzal

para a Galiza

Alberto García-Alix, El portero del cielo, 2001
(Alberto García-Alix © VEGAP)

As últimas exposições do PhotoEspaña já fecharam as portas em Madrid. Mas a organização encontrou uma forma de as abrir noutras paragens - na Galiza. Pontevedra, A Coruña, Lugo, Ourense e Santiago de Compostela recebem uma selecção de mostras do grande festival madrileno, numa louvável iniciativa descentralizadora. Cada cidade tem uma exposição individual que passou pelo PHE07 e todas acolhem um conjunto de projecções de fotografia organizadas em dois núcleos principais: Nuevas Propuestas (jovens artistas) e Nombres Proprios (nomes reconhecidos da fotografia espanhola e internacional).

»» Alberto García-Alix
Tres vídeos tristes
Sede da Fundación Caixa Galicia - Pontevedra
Até 2 de Dezembro

»» Sylvia Plachy
De reojo
Sede da Fundación Caixa Galicia - Lugo
Até 6 de Janeiro

»» Sebastião Salgado
África
Sede da Fundación Caixa Galicia - Santiago de Compostela
Até 2 de Dezembro

»» Man Ray
Despreocupado pero no indiferente
Sede da Fundación Caixa Galicia - A Coruña
Até 6 de Janeiro

»» Manuel Vázquez
Inverso urbán
Centro Cultural da Deputación de Ourense - Ourense
Até 2 de Dezembro

01 setembro, 2007

Gandy, a sereia - (férias)



Este homem em pose de lânguido veraneio a navegar sob as águas "azul-luz" da ilha de Capri marcou o ano do sempre irrequieto mundo da produção publicitária.

Por mais que nos pareça banal, nada nesta imagem foi deixado ao acaso. Salta à vista a pele bronzeada de um “macho latino” e com ele todos os estereótipos que lhe estão associados. Mas há também em toda envolvência desta figura apolínea uma carga de símbolos que fazem transbordar os campos da sedução, do erotismo e da luxúria.
O principal, que não é explícito, passa pelo cenário escolhido para a fotografia, a ilha de Capri. O local onde, de acordo com a mitologia greco-romana, viviam belas e ardilosas sereias, sempre à espera de marinheiros menos avisados para os seus dotes de encantamento fatal. E eram muitas estas filhas de Aquelos e da Musa Caliope. Algumas tinham dotes excepcionais, como Partenope, Leocósia e Lígia, nomenclatura grega que aponta para “candura”, “brancura” e “harmonia”. Foram atributos como estes que hipnotizaram muitos navegantes. E é talvez por causa deles, e de muitos outros associados ao prazer, ou à miragem do prazer, que Capri ficou conhecida como a ilha do amor.
A DOLCE & GABBANA quer vender-nos um perfume, o light-blue, e com ele um ideário associado à capacidade de conquistar e seduzir, de encantar até à cegueira como cega o azul deste mar. Parece que nos querem dizer que com este aroma no corpo se ganha a benção do deslumbramento e do amor a que dificilmente alguém resiste. A menos que se tomem medidas drásticas como fez Ulisses quando regressava da guerra de Tróia que, com medo de sucumbir à tentação do canto das sereias, mandou que o prendessem ao mastro do navio.

Não se sabe bem se este homem de tanga branca se deixou seduzir em Capri pelo canto de alguma sereia. Pelo que vemos, parece que não houve necessidade de se amarrar a nenhum mastro. E pelo frisson que causou, David Gandy, o modelo da fotografia, conseguiu ser mais sedutor do que seduzido.

Mal o anúncio saltou para as páginas dos jornais e para os outdoors, não faltaram perfis aprofundados sobre este “macho latino”, que afinal é um inglês do Essex. O jornal italiano La Repubblica classificou-o como o “mais desejado do Verão”. Uma das coisas que se diz é que o corpo de Gandy - musculado, bronzeado e com pêlos q.b. - marca uma nova viragem na maneira de mostrar o homem na moda, que até aqui andava mais colada ao dandy escanzelado, de olheiras marcadas e tuberculosa palidez.
Músculos ou falta deles à parte, a perspectiva e o enquadramento escolhidos para a fotografia deste anúncio são muito eficazes. A ideia, que já tem barbas e continua a funcionar não só na publicidade mas em outras áreas da fotografia, é fazer com que nos sintamos dentro da imagem. Neste caso, querem que nos sintamos dentro daquele barco e, de preferência, a tirar esta fotografia a David Gandy. Os cortes do braço, mão e pernas dão um ar de atabalhoamento amador e revelam a dificuldade do enquadramento, muito por culpa da falta equilíbrio que o comum dos mortais teria naquele insuflável no momento de carregar no botão.
E quanto mais olhamos, mais temos a sensação de que somos nós que estamos de pé, de máquina em punho. É uma típica fotografia de férias. É uma grande fotografia de Verão. Meio mundo gostava de a ter tirado. Parece que toda a gente a podia ter tirado. Mas não.

Quem não vai tirar fotografias para a ilha de Capri sou eu. De férias vou. Regresso lá para o fim de Setembro. Até logo.

 
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