30 dezembro, 2014

helena flores

© Helena Flores


(Público, 23.12.2014)

Helena Flores é a vencedora da edição 2014 do Prémio Novo Talento FNAC Fotografia com o portfólio "Luz Interior", um trabalho onde aborda a cegueira através da forma como uma invisual explorou as esculturas contemporâneas do Parque de Serralves, no Porto, e as transmitiu em desenhos, onde a escuridão dá lugar à luz.

O trabalho de Helena Flores, 35 anos, enfermeira de profissão e aluna do curso profissional de fotografia do IPF, foi escolhido entre os 174 que chegaram às mãos do júri formado por Margarida Medeiros, professora universitária e crítica de fotografia, Augusto Brázio, fotógrafo, Mário Teixeira da Silva, director da galeria Módulo-Centro Difusor de Arte, e Sérgio B. Gomes, jornalista do PÚBLICO e autor do blogue Arte Photographica.

"Luz Interior" é um misto de fotografias e desenhos feitos por Ana, invisual desde o nascimento, que transmite o que “vê” e sente com os outros sentidos em desenhos criados a linhas brancas em folhas de papel negro, “provando que a imagem e a memória dependem tanto destes como da visão”, como escreve Helena Flores na descrição do seu trabalho.

O júri distinguiu ainda com uma menção honrosa Rita Pinheiro Braga, por "A Água da Luz", um trabalho fotográfico que cruza histórias de vida dos moradores da nova Aldeia da Luz, e Márcia Nascimento, por "Viaggio in Lapponia", resultado de um projecto em torno da obra do artista Tapio Wirkkala e que teve como uma das suas principais componentes uma expedição à Lapónia.

O Prémio Novo Talento FNAC Fotografia é atribuído desde 2003 e procura “consagrar jovens fotógrafos que apresentem trabalhos inéditos, originais e com uma escrita fotográfica coerente”. Nas edições anteriores os vencedores foram Pedro Guimarães, Francisco Kessler, António Lucas Soares, Virgílio Ferreira, João Margalha, Nelson d'Aires, Inês d'Orey, Hugo Rodrigues Cunha, Miguel Godinho, Frederico Azevedo, Lara Jacinto, Nuno Tavares e Tânia Cadima.





10 dezembro, 2014

ouvir Guido

Carlo Scarpa's Tomba Brion 17134/17144, Looking Southwest, 2011
© Guido Guidi

E, de repente, duas exposições de Guido Guidi em Portugal (e de seguida). Depois da Galeria Pedro Alfacinha, Lisboa, o espaço Garagem Sul, no Centro Cultural de Belém, acolhe a exposição Guido Guidi/Carlo Scarpa, Tomba Brion, naquela que é uma das facetas mais conhecidas da obra do mestre italiano - a fotografia de arquitectura.
Depois da inauguração da mostra, o Atelier de Lisboa organiza uma conversa com Guido Guidi a propósito das fotografias de Marcello Galvani (1975), aluno de Guidi na Academia de Belas Artes de Ravenna e profundamente inspirado na sua maneira de estar na fotografia contemporânea.
Esta sessão, organizada pelo Atelier de Lisboa e por Paulo Catrica, faz parte dos Cursos de Projecto do Atelier. É aberta ao público e de entrada livre, no limite dos lugares disponíveis. O encontro está marcado para as 19h00, na Av. de Berna, 31 – 2.º Dto., Lisboa.

Este é o texto dos curadores sobre a exposição na Garagem Sul:

O tempo eterno da modernidade é o tempo das imagens. A imagem fotográfica é o centro imóvel do vórtice do novo, o mesmo novo que dessacralizou a vida eterna e engendrou a materialização física de lugares do nada para sempre, os cemitérios modernos. Projectar um cemitério encerra o absurdo funcionalista de projectar para a eternidade, para uma singular função mais perene que a sua materialização. São lugares outros da modernidade e da sua aparente superação, lugares que se descobrem nas imagens. Guido Guidi fotografou obsessivamente um destes campos de imagens eternas, o que Carlo Scarpa desenhou para a família Brion. 
As várias campanhas fotográficas que Guido Guidi tem conduzido desde 1996 no cemitério Brion desvendam a temporalidade cíclica deste campo sagrado, levando a pensar numa inversão de vectores, hipotizando que o projecto aprendeu das imagens. De facto, se a função dura mais que a arquitectura, são as imagens e não os usos que mudam a arquitectura. As imagens de Guidi revelam as modulações e os ciclos desta mutação: a assonância, a variação, a fuga, a lateralização, ou o salto entre narrativas. Nesta exposição, as imagens de Guidi são o modo de expor, de colocar em diálogo a arquitectura de Scarpa.

Joaquim Moreno e Paula Pinto, curadoria de Guido Guidi/Carlo Scarpa, Tomba Brion



© Marcello Galvani

09 dezembro, 2014

os melhores I

Sequester (Fw Books), Awoiska van der Molen

Os melhores fotolivros de 2014 para o crítico de fotografia Sean O'Hagan do The Guardian estão aqui

04 dezembro, 2014

Cecil Beaton

Cecil Beaton, Marilyn Monroe, Portraits & Profiles


Retratos com câmara e caneta
(Lucinda Canelas, Público, 03.12.2014)

A avaliar pela quantidade (e qualidade) das exposições e livros que lhe têm sido dedicados nos últimos anos, talvez não seja exagero dizer que o britânico Cecil Beaton (1904-1980) se tornou tão famoso como as estrelas que fotografou durante mais de 50 anos. Estrelas do cinema e da música, das artes plásticas e da literatura, como Marilyn Monroe, Greta Garbo, Grace Kelly, Mick Jagger, Colette, Francis Bacon, Aldous Huxley ou Lucian Freud passaram pela sua câmara e também pelas páginas do seu diário tantas vezes cínico e corrosivo, que manteve entre 1922 e 1980.

Cecil Beaton: Portraits & Profiles (edição Frances Lincoln, 2014), compilação organizada pelo seu biógrafo, Hugo Vickers, já tem uns meses nas prateleiras das livrarias mas merece bem um olhar mais atento e pode ser uma boa sugestão para as festas que se aproximam. Porquê? Porque é um volume que combina a fotografia sofisticada de Beaton, tantas vezes elogiosa para o modelo, com excertos dos seus textos cuidados e francos – é o mínimo que se pode dizer – que chegam a raiar o insulto quando se trata de falar, por exemplo, da designer de moda Coco Chanel ou da actriz Elizabeth Taylor. Comum aos dois registos - o da câmara e o da caneta, ambos reflexo de um autor talentoso – é o olhar incisivo do homem a quem se devem retratos icónicos do século XX e a quem, graças aos comentários verrinosos e cheio de duplos sentidos, o poeta francês Jean Cocteau chamava “Malice in Wonderland”.

 “Ele era um homem de grande inteligência visual”, escreve Hugo Vickers na introdução de Portraits & Profiles, um texto curto em que fala um pouco do seu método de trabalho quando fotografava em estúdio – foi também repórter de guerra (norte de África, Médio Oriente e Índia), escritor, figurinista, cenógrafo e decorador de interiores – e do seu hábito de registar em palavras os seus modelos, fosse em frases soltas, fosse em forma de pequenas biografias. “Cecil identificava as falhas de cada um e trabalhava para as eliminar”, explica, acrescentado que o britânico fotografava quem queria e que foram poucos os que lhe disseram “não” (a escritora Virginia Woolf está entre eles).

Com Audrey Hepburn, por exemplo, Beaton escolheu uma pose para lhe esconder o pescoço demasiado fino, o queixo pontiagudo e o nariz longo, escreve o biógrafo e organizador do volume. Com Marilyn Monroe decidiu persegui-la pelo seu quarto de hotel durante 45 minutos, disparando sem parar. Quando se sentou para escrever sobre ela, mal deu por terminada a sessão, fez notar a sua ingenuidade, falou de uma criança a brincar no mundo dos adultos e vaticinou-lhe um fim triste: “A sua voz tem a sensualidade da seda ou do veludo”, diz, e a “verdade desconcertante é que Miss Monroe é uma sereia de faz-de-conta, tão pouco sofisticada como uma criada do Reno, tão inocente como um sonâmbulo”.

Já com Liz Taylor, Cecil Beaton foi tudo menos complacente - “Ela é tudo o que eu não gosto”, escreveu. “Sempre abominei os Burton [Liz e o marido, o actor Richard Burton] pela sua vulgaridade”, admite, indo ainda mais longe: “Os seus seios, enormes e caídos, eram como os de uma camponesa a amamentar o filho no Peru”, “comparada com ela, qualquer pessoa é delicada”.

Mas nem só as actrizes passam pelos seus settings elaborados – para Beaton, pensar a fotografia é, antes de mais, pensar o cenário em que ela acontece - nem pelas páginas dos seus cadernos. O artista plástico Salvador Dalí tinha mau hálito, o pintor Lucian Freud revelou-se um “ser humano profundamente vibrante” e o amigo Francis Bacon era de um “charme tremendo”; Aldous Huxley, como acontece com muitos dos “altamente inteligentes” era “a simplicidade em pessoa”; e Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, tinha um talento “natural” para posar, com “uma figura, mãos e braços extremamente femininos” e, apesar de “sexy”, com um género impossível de definir: “Ele podia ser um eunuco”, concluiu.

As fotografias de Cecil Beaton e as suas pequenas biografias são crónicas de época escritas por um snob que não se importava nada de o ser. E ainda bem.

03 dezembro, 2014

Deutsche Börse 2015 - Os nomeados

Nikolai Bakharev, s/t #70, da série Relation, 1991-1993
© MAMM, Moscow/Nikolai Bakharev


Já são conhecidos os quatro finalistas do Deutsche Börse Photography Prize 2015: Zanele Muholi (África do Sul); Mikhael Subotzky (África do Sul); Viviane Sassen (Holanda); e Nikolay Bakharev (Rússia).
Resultado da importância dos fotolivros na cena fotográfica contemporânea, há dois artistas nomeados pela publicação de novas obras: Muholi, pela publicação de Faces and Phrases (retratos da comunidade LBGT sul-africana acompanhados por relatos de violência e discriminação), e Subotzky, pelo monumental Ponte City, trabalho hercúleo levado a cabo com o editor da revista Colors, Patrick Waterhouse, que se centra no quotidiano daquela que foi uma torre de habitação de elite em Joanesburgo, o edifício residencial mais alto do país, e que hoje está votada ao quase abandono. São mais dois trabalhos que lidam com o legado post-apartheid, um universo que tem ocupado muitos fotógrafos sul-africanos, como Pieter Hugo.
Viviane Sassen, uma das mais talentosas fotógrafas de moda da actualidade e criadora de ambiciosos fotolivros, foi nomeada pela exposição Umbra, que esteve no Nederlands Fotomuseum.
O antigo mecânico Nikolai Bakharev foi nomeado por uma exposição na Bienal de Veneza que mostra banhistas em praias russas. As imagens, com um pendor ambíguo entre o erotismo e os limites dos costumes, foram captadas nos anos 80, quando os nus eram proibidos e o quotidiano um tema pouco documentado.
Os trabalhos dos finalistas será mostrado na Photographers’ Gallery de 17 de Abril a 7 de Junho de 2015. O vencedor, que ganhará um prémio de 38 mil euros, será anunciado a 28 de Maio.
O júri é composto por Chris Boot (Aperture Foundation); Rineke Dijkstra (artista); Peter Gorschlüter (MMK Museum für Moderne Kunst); e Anne Marie Beckmann (curadora, Art Collection Deutsche Börse).
O Deutsche Börse Photography Prize (antes designado Citigroup Photography Prize) foi lançado em 1996 pela Photographers’ Gallery, de Londres. Desde 2005 que conta com a parceria do Deutsche Börse Group. O seu principal objectivo é reconhecer e recompensar o trabalho de um fotógrafo vivo, de qualquer nacionalidade, que tenha contribuído de forma significativa para a fotografia na Europa nos doze meses do ao anterior. É um dos mais prestigiados galardões do mundo e já atribuiu prémios a nomes reconhecidos da fotografia contemporânea como Paul Graham, Jüergen Teller, Rineke Dijkstra, Richard Billingham ou John Stezaker.





 
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