22 janeiro, 2014

telefones

A terceira edição da XXI Ter Opinião tem instagrams de 33 utilizadores de 9 países



Uma revista feita com telefones

A terceira edição da revista XXI Ter Opinião - editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos apresenta quase em exclusivo fotografias partilhadas no Instagram, a mais popular comunidade de troca de imagens nos telefones móveis. Uma das excepções à estética e ao formato quadrado do Instagram é a capa que, no entanto, também foi criada a partir de uma aplicação de desenho para smartphones, um dos principais instrumentos de trabalho do ilustrador Jorge Colombo. A selecção de imagens da maior parte dos temas do interior da revista esteve a cargo de Luís Mileu, designer, director de arte e instagramer apaixonado.

A opção por editar uma revista em papel com fotografias captadas ou criadas a partir de telefones móveis (experiência pioneira em Portugal) por autores anónimos (e sem créditos como fotógrafos profissionais) tenta dar conta da importância crescente de uma cultura da imagem ligada à instantaneidade, à partilha e à validação social. As características de uma rede como o Instagram, onde é fácil, barato e rápido partilhar fotografia, casaram em absoluto com um movimento de partilha que já se tinha manifestado com sucesso em redes sociais digitais semelhantes, mas cuja presença não passava de uma página web.

Quando o director da revista XXI Ter Opinião, José Manuel Fernandes, propôs a Luís Mileu o desafio de encontrar imagens para dezenas de artigos, a reacção imediata foi de receio. “Fiquei um bocado assustado”, confessa Mileu. Mas o director de arte percebeu depois que bastava olhar com atenção para a sua conta de Instagram para concluir que não precisaria de ir muito mais longe para encontrar fotografias que se adequassem aos temas. “Era preciso traduzir os artigos em imagem. Tive liberdade máxima e a selecção foi surgindo de uma forma muito natural”, explicou ao PÚBLICO. Mileu acabou por escolher apenas fotografias de utilizadores que segue na rede e optou por imagens “que não fossem literais”. Todos os fotógrafos contactados aceitaram publicar as suas imagens e “a maioria não quis receber qualquer retribuição” fazendo jus ao espírito de partilha que dá mote ao Instagram. “Eu não conheço a maior parte das pessoas de quem escolhi fotografias, mas a resposta foi muito boa e toda a gente permitiu a divulgação das imagens fora do Instagram”, disse Luís Mileu que tem mais de 2500 seguidores na sua conta, dinamizada há mais de dois anos. No total, foram publicadas instagrams de 33 utilizadores de 9 países.

As imagens escolhidas por Luís Mileu misturam abordagens a preto e branco e a cores e deixam um pouco de lado os filtros de estética vintage mais populares do Instagram. Apesar de os usar pontualmente, o director de arte prefere registos sem estes truques de pixéis. São também minimais no conteúdo e, quando associadas aos textos, conquistam novas leituras.

“Os caminhos da Europa” é o tema que dá corpo à terceira edição da revista, que tem uma periodicidade anual. Há, entre outros, ensaios sobre identidade, de D. Manuel Clemente, Jorge Calado, Maria Filomena Mónica e José Tavares, sobre o euro, de Vítor Bento e José Manuel Félix Ribeiro, sobre federalismo, de Fátima Bonifácio, e sobre o futuro da Europa, de Francisco Seixas da Costa e João Marques de Almeida. Jacinto Lucas Pires e João Pereira Coutinho assinam as crónicas.



Todas as fotografias da revista podem ser vistas aqui


Todos os fotógrafos contactados aceitaram publicar as suas imagens 

25 novembro, 2013

vendem-se livros


© Aperture


Está aí à porta mais uma edição da feira do livro de fotografia na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa. A venda decorre nos dias 29 e 30 de Novembro e 1 de Dezembro e acolherá também edições de autor.
Em paralelo à feira, decorrerão conversas, apresentações de livros e revistas. Segundo a organização, o primeiro dia vai centrar-se no fotojornalismo e nas questões da publicação como fontes de transmissão da informação; o segundo dia estará ligado à auto-edição/livro de autor; e o terceiro dia será dedicado à distribuição e às livrarias especializadas. A entrada é gratuita em todas as iniciativas.

Participantes:
Alexandria Livros, Almedina, Assíria & Alvim, A Pequena Galeria, B-Shop Museu Berardo, Edições 70, Estação Imagem, Ghost, Kameraphoto, Livraria Braço de Prata, Lomography, Reuters Pictures, Stet, The Portfolio Project, Pierre von Kleist, Photo Book Corner, XYZ Books Lisbon

24 novembro, 2013

os melhores fotolivros

Os finalistas



Já são conhecidos os vencedores do Paris Photo–Aperture Foundation PhotoBook Awards que são organizados em duas categorias: First PhotoBook e PhotoBook of the Year. Nesta última categoria foi reconhecido A01 [COD.19.1.1.43] — A27 [S | COD.23], de Rosângela Rennó (edição de autor). O prémio para melhor primeiro fotolivro foi atribuído a KARMA, de Óscar Monzón (RVB Books/Dalpine). na categoria PhotoBook of the Year o júri decidiu ainda atribuir uma menção especial ao livro War/Photography: Images of Armed Conflict and Its Aftermath, de vários autores e concebido por Anne Wilkes Tucker e Will Michels e Natalie Zelt.

Em 2012, os prémios foram para Concresco, de David Galjaard, edição de autor (First PhotoBook) e City Diary, de Anders Petersen, Steidl (PhotoBook of the Year went to).
O livro de Rosângela Rennó já tinha vencido um prémio nos Encontros de Fotografia de Arles deste ano.

Todos os livros finalistas serão alvo de crítica e análise no jornal PhotoBook Review, a publicação bianual da Aperture especializada em fotolivros.

Os dez finalistas para PhotoBook of the Year:

Holy Bible
Fotógrafos: Adam Broomberg and Oliver Chanarin
Editor: MACK, London / Archive of Modern Conflict, London

New York Arbor
Fotógrafo: Mitch Epstein
Editor: Steidl, Göttingen, Germany

Iris Garden
Fotógrafo: William Gedney
Text: John Cage
Editor: Little Brown Mushroom, Minneapolis

The Black Photo Album / Look at Me: 1890–1950
Fotógrafo: Santu Mofokeng
Editor: Steidl / The Walther Collection, Göttingen / New York

Surrendered Myself to the Chair of Life
Fotógrafo: Jin Ohashi
Text: Nobuyoshi Araki
Editor: AKAAKA, Tokyo

A01 [COD.19.1.1.43] — A27 [S | COD.23]
Fotógrafo: Rosângela Rennó
Editor: RR Edições, Rio de Janeiro

Rasen Kaigan
Fotógrafo: Lieko Shiga
Editor: AKAAKA, Tokyo

Birds of the West Indies
Fotógrafo: Taryn Simon
Editor: Hatje Cantz, Ostfildern, Germany

The PIGS
Fotógrafo: Carlos Spottorno
Editor: Phree and Editorial RM, Madrid

War/Photography: Images of Armed Conflict and Its Aftermath
Fotógrafos: Various
Autores: Anne Wilkes Tucker and Will Michels, with Natalie Zelt
Editor: Museum of Fine Arts Houston / Yale University Press, New Haven

Os vinte finalistas para First PhotoBook:

World of Details
Fotógrafo: Viktoria Binschtok
Editor: Distanz, Berlin

A Period of Juvenile Prosperity
Fotógrafo: Mike Brodie
Editor: Twin Palms Editors, Santa Fe

Encouble—Paraître
Fotógrafo: Delphine Burtin
Editor: Edição de autor

Speaking of Scars
Fotógrafo: Teresa Eng
Editor: If / Then Books, London

Pools
Fotógrafo: Craig Fineman
Editor: Stussy / Dashwood Books, New York

The Canaries
Fotógrafo: Thilde Jensen
Editor: LENA Publications, Truxton, New York

Nine Nameless Mountains
Fotógrafo: Maanantai Collective
Editor: Kehrer Verlag, Heidelberg, Germany

Top Secret: Images from the Stasi Archives
Fotógrafo: Simon Menner
Editor: Hatje Cantz, Ostfildern, Germany

KARMA
Fotógrafo: Óscar Monzón
Editor: Dalpine, Madrid / RVB Books, Paris

Karczeby
Fotógrafo: Adam Pańczuk
Editor: Edição de autor

The Fourth Wall
Fotógrafo: Max Pinckers
Editor: Edição de autor

History of the Visit
Fotógrafo: Daniel Reuter
Editor: Edição de autor

Silvermine
Fotógrafo: Thomas Sauvin
Editor: Archive of Modern Conflict, London

Beautiful Pig
Fotógrafo: Ben Schonberger
Editor: Edição de autor

Grays the Mountain Sends
Fotógrafo: Bryan Schutmaat
Editor: Silas Finch Foundation, New York

Down These Mean Streets
Fotógrafo: Will Steacy
Editor: b. frank books, Zürich

Return to Sender
Fotógrafo: Sipke Visser
Editor: Edição de autor

Ad Infinitum
Fotógrafo: Kris Vervaeke
Editor: Edição de autor

Dalston Anatomy
Fotógrafo: Lorenzo Vitturi
Editor: Jibijana Books em associação com SPBH Editions, London and Milan

La Montagne Dorée
Fotógrafo: Myriam Ziehli

Editor: Edição de autor


À esquerda, KARMA,de Óscar Monzón; à direita, A01 [COD.19.1.1.43] — A27 [S | COD.23], de Rosângela Rennó

19 novembro, 2013

Archivo



A Archivo está à admitir portfólios para a edição de Inverno de 2013. Só até ao dia 20 de Novembro. O tema é private.


18 novembro, 2013

os corpos de Helena

© Helena Almeida

Os gestos tantas vezes repetidos
Luísa Soares de Oliveira (ípsilon, Público, 15.11.2013)

De Helena Almeida, uma das grandes artistas portuguesas, pensaria o visitante mais atento já conhecer bem a sua obra. Imaginaria, antes de visitar esta exposição, fotografias ou um filme onde a artista declinaria um trabalho sobre o lugar do corpo (que é o seu) no espaço do atelier, o movimento e a resistência, a representação e a apresentação, e mesmo a possibilidade de estabelecer relações de proximidade conceptual com a pintura e a poesia, como tem sido constante na sua obra. Mas não; Helena Almeida surpreende-nos com este Andar, Abraçar, a sua mais importante individual desde a retrospectiva de 2004, no CCB.

As peças nas salas de entrada, um filme e uma série de fotografias, concretizam a surpresa. Há nelas dois corpos unidos, um feminino e outro masculino, ora por um abraço, no primeiro caso, ora pelas pernas atadas que percorrem com esforço o espaço do atelier. Pontualmente, no filme, a artista baixa-se para apertar os nós que juntam a sua perna à do companheiro, firmando assim uma ligação que perdura interminavelmente no ecrã. Sabemos que esse companheiro é Artur Rosa, marido de Helena Almeida e autor das fotografias que materializam o seu trabalho desde os seus inícios. Noutras imagens, a artista volta a surgir isolada no plano da imagem. Assim acontece na série Seduzir e nas Telas Habitadas da década de 70, onde se veste de branco para se deixar parcialmente tapar, ou perfurar, uma tela branca. Seduzir não é o único verbo utilizado nesta mostra. O próprio título, Andar, Abraçar, constitui, nas palavras do curador, Delfim Sardo, dois actos “fundadores de humanidade”. Recordamos, a este propósito, os trabalhos de Leroi-Gourhan, por exemplo, que demonstraram inequivocamente que, sem a postura erecta – sem o andar sobre dois pés unicamente -, nunca o ser humano teria sido capaz de linguagem, de arte. Do mesmo modo, a relação com outrem, e sobretudo com um outrem que não é o reflexo de si, mas diferente de si, é também exclusivo do humano: o Aberto de Giorgio Agamben, por exemplo, não é mais do que esta possibilidade de se abrir ao desconhecido, de querer conhecer, de não se limitar nem se ensimesmar na imagem de si. Mas as peças de Helena Almeida não nos mostram os corpos idealizados de uma humanidade no seu apogeu. Pelo contrário; são corpos cansados, envelhecidos, em que os pés se arrastam num espaço que, através da gravidade, da tensão, do próprio atar sempre recomeçado dos nós que os ligam, em tudo joga contra eles. Como se o tempo que a acção dura e as próprias condições físicas da artista e do seu par tudo fizessem para negar esse fundamento do humano que Sardo refere.

Contudo, na obra de Helena Almeida, esse andar e abraçar implicam necessariamente a existência de um outro que se confunde com a própria imagem. As pernas unidas por cabos, os abraços de dois torsos negros que não conseguimos desligar visualmente um do outro, trazem em si a marca do tempo em que os gestos se repetiram, ainda que doutra forma, vezes sem fim. A partir de agora, e em todas as peças da exposição, a figura de Artur Rosa estará implícita – não apenas em Seduzir, onde uma mão da artista se baixa até ao nível dos pés, como nas imagens onde, de sapatos de salto alto, a mesma dobra uma perna e se faz fotografar de costas.

A exposição completa-se com peças mais antigas que esclarecem o percurso da artista. Já referimos Tela Habitada, onde o rosto parece querer perfurar uma tela muito fina montada numa grade. Ou ainda Estudo para Dois Espaços, onde dois dedos funcionam como elo de união entre uma superfície branca e outra negra, como mais um abraço entre o que é semelhante mas diferente, agora estritamente no plano da cor. Tela Habitada, por outro lado, marca uma separação: a da pintura, que é afinal a sua área de formação, e essa imagem do corpo que Helena Almeida apenas transmite através da fotografia. O título, como tantas vezes sucede na sua obra, surge como paradoxal, o que é decerto o modo de nos abrir, ainda mais, novos sentidos de leitura.

04 novembro, 2013

alô!

Cooking fish, Cooking of Spain and Portugal
© Time-Life Books

Está aí alguém?
(Revista 2, 20.10.2013)

Agora sim. Depois de um ano de troca de argumentos, os especialistas da NASA confirmaram na revista Science que a estóica sonda Voyager 1 está mesmo num espaço muito distante. Atravessou a fronteira da heliopausa e chegou ao "abismo do espaço interestelar", ou seja, a uns 19 mil milhões de quilómetros do Sol. Levado pelo entusiasmo de saber que um objecto fabricado pelo homem alcançou pela primeira vez tão medonha distância, andei a vasculhar os arquivos online da NASA e, para além de coisas interessantes acerca das missões da Voyager, descobri muitos GIF animados e páginas de fundo preto com letras de verde fluorescente, isto é, uma viagem aos confins intergalácticos da Net.

A Voyager 1, lançada em 1977 com a missão de observar o sistema solar exterior, deu muitas alegrias à ciência, à astronomia e à fotografia. Para além de nos ter dado a primeira panorâmica do nosso sistema solar, transportou para o espaço uma espécie de bilhete de identidade da humanidade em imagens (fotográficas e não só) para extraterrestres verem (se é que vêem). A ideia foi de Carl Sagan, astrobiólogo, astrónomo, astrofísico, cosmólogo, escritor... Convicto da existência de vida noutros lugares, o autor de Contacto convenceu a NASA a incluir registos de imagens fotográficas e som. A ideia era que pudessem servir como amostras de uma atitude pacífica e que fizessem uma apresentação daquilo que somos, que fossem os Murmúrios da Terra (como lhe chamou Sagan num livro de 1978). Uma equipa liderada por Timothy Ferris (colaborador da revista Rolling Stone) concebeu um disco de ouro (o famoso The Golden Record), com registos de sons da Terra, excertos de músicas (Chuck Berry incluído) e 115 imagens (electronicamente gravadas). A NASA aprovou a ideia. A escolha do "melhor da Terra" demorou dez meses. Talvez por causa da instabilidade significante da fotografia (que é capaz de mudar de sentido por efeito da variação dos contextos) e algum moralismo à mistura. A agência vetou uma imagem que mostrava um homem e uma mulher grávida, nus, de mãos dadas e que até estavam numa pose "pouco erótica".

A equipa que escolheu as fotografias explicou que o critério não era estético. A preocupação principal era seleccionar imagens que fossem ricas em informação e capazes de a transmitir de forma clara. Não se sabe se este objectivo foi inteiramente alcançado, porque (ainda) não recebemos resposta dos destinatários. Mas, ao olharmos para o peixe grelhado (douradas?) da fotografia Cooking fish, Cooking of Spain and Portugal que viajou a bordo da Voyager 1, de uma coisa podemos ter a certeza: se decidirem aterrar na Península Ibérica, os alienígenas não ficarão mal servidos.

colecção Amieira - o arranque

Luíz Carvalho, Ao Correr do Tempo


Podia ser só para contrariar. Para tentar fazer o contraponto da letargia, da inépcia, do esquecimento... A colecção de livros de fotografia que o empresário e ex-jornalista Manuel Falcão acaba de lançar podia encontrar razão de ser apenas nesse exercício de remar contra a maré. E isso já seria um "grande desafio" perante a inexistência de uma tradição assertiva de edição de livros de fotografia e de fotolivros de que Portugal padece desde sempre. Falcão, que começou a trabalhar em jornais como repórter fotográfico (foi fundador do Blitz e de O Independente, trabalhou no Expresso, no Se7e e na Visão), quer abraçar esse desafio com a colecção Amieira. Mas quer um pouco mais. Quer "tornar acessíveis e fáceis de manusear" os livros de fotografia de qualidade, quer dar corpo a uma série "coerente graficamente". E, sobretudo, conquistar novos leitores para o suporte impresso, em livro, já que os jornais e as revistas portuguesas deixaram de privilegiar a grande reportagem ou o ensaio fotográfico.


O espectro de géneros que a colecção Amiera (localidade do Alto Alentejo, terra natal de Manuel Falcão) pretende abarcar é muito diversificado (moda, publicidade, ensaio...) e tanto pode incluir trabalhos inéditos como olhares sobre uma obra de décadas, como é o caso do livro de estreia, Ao Correr do Tempo, que percorre o trabalho de Luiz Carvalho, antigo fotojornalista do semanário Expresso. Ao longo de 64 páginas, revela-se o olhar de um repórter que insistiu "sempre" em conciliar "uma visão pessoal com a de jornalista". O objectivo da colecção (cada volume custará 17 euros) passa por publicar entre quatro a seis livros por ano. No final de 2014, será feito um balanço, momento em que Manuel Falcão decidirá se vale a pena continuar ou não. O próximo volume dará a ver um trabalho inédito que Clara Azevedo (outra antigo colaboradora do Expresso, entre várias outras publicações) tem desenvolvido em Cuba ao longo dos últimos anos. Mostrará fotografia de rua e terá um cunho ensaístico.



Luíz Carvalho, Ao Correr do Tempo

luísa cunha


© Luísa Cunha


Horizonte e Limite
(Nuno Crespo, ípsilon, 01.11.2013)

Estar na paisagem sempre foi uma experiência que pôs em movimento muitos processos criativos, não só por motivos estéticos, mas também pela "potência artística" da experiência de imersão numa qualquer geografia natural ou urbana. São conhecidos os passeios românticos, o Wandern, as deambulações modernas e o modo como foram para muitas gerações de artistas verdadeiros modelos de prática artística. As duas experiências partilham uma mesma característica, que é a da fusão com o objecto da visão: ser um todo com o que se observa, partilhar as suas perplexidades, ser indissociável do que se vê. Só que no caso dos românticos essa experiência dirige-se à transcendência e, por isso, à sua própria superação, e ao invisível expresso na paisagem visível mas para lá do visível, enquanto no caso dos modernos (pense-se no pintor moderno de Baudelaire ou no Malte Laudris Brigge de Rilke) é nas próprias coisas que se quer permanecer: bem no centro de cada coisa, na sua interioridade.

A nova série de fotografias de Luísa Cunha é um caso notável deste encontro. A artista junta os aspectos mais decisivos daquelas duas modalidades de perder-se no exterior e consegue construir uma obra em que a paisagem é mais uma suposição do que uma existência real. Já em obras anteriores tinha explorado a acção de andar pela cidade como forma de conhecer um território e de medir o tempo, mas também lidado com a paisagem natural. Aliás, está no centro do trabalho desta artista, conhecida por usar o som e a palavra dita ou escrita, um modo particular de perceber o espaço e de nele encontrar uma posição para o seu corpo.

Nesta nova série de fotografias não há propriamente cidade ou natureza, mas há um permanente deslocamento de toda a representação em direcção a uma espécie de abstracção do corpo que percorre a paisagem e a um apagamento dos elementos visuais que ocupam o horizonte. Por isso, nestes trabalhos, o confronto principal é com o cinzento e com a ausência de elementos pictóricos que possibilitem organizar a imagem e construir o horizonte. São fotografias que podem, com rigor, ser descritas como abstractas e monocromáticas, sem com isso anular as múltiplas tensões que as percorrem, sobretudo por a sua visualidade residir na relação imediata que estabelecem com a acção que lhes deu origem. Ou seja, são obras que apresentam e expressam o seu próprio processo. E este processo é o gesto de olhar em volta, voltando-se sobre si próprio com os olhos fixos no céu, na tentativa de desenhar o horizonte. Tarefa dificultada por se tratar de um conjunto de imagens feitas na ilha da Madeira e, por isso, onde o horizonte, de tão vasto, deixa de significar uma relação com a infinitude, a lonjura e o indeterminado, para passar a significar uma relação com o fechamento, a clausura, a claustrofobia. Sendo uma experiência física de confronto com o mar, o céu e o momento em que estes se fundem, não há aqui mais mar e céu, mas uma única coisa que se fecha sobre quem a vê e o encerra numa espécie de exílio terrestre. Um jogo entre a experiência do horizonte e a sua ausência, transformada em clausura, que as imagens da artista tomam como sendo a sua vocação. Trata-se de apontar a câmara para o horizonte e procurar o ponto ínfimo em que a terra, o mar e o céu se tocam e perceber fundamentalmente a ausência de elementos de orientação e de condução da atenção, experimentando com toda a intensidade a falência da visão e a dissipação da atenção: por mais que se olhe, não há onde pousar a visão.

Claramente, estes trabalhos fazem parte do vocabulário característico de Luísa Cunha, não só por a fotografia não ser uma ferramenta estranha a esse corpo de trabalho, mas porque, à semelhança de muitas das suas obras, a sua tentativa é a da descrição rigorosa, paciente, atenta do que a rodeia e do modo como o seu corpo mede a exterioridade, o espaço, as coisas. E, por isso, há uma espécie de cinematografia inerente à experiência destas obras e que é revelada não só pela circularidade das imagens, mas pela sua colocação na galeria à altura dos olhos, como que a construir um panorama ou, se se preferir, uma visão sinóptica da relação entre o limite e o ilimitado do horizonte.



Ongoing Landscapes, de Luísa Cunha
Galeria Miguel Nabinho. Lisboa. Rua Tenente Ferreira Durão, 18B.
Tel.: 213830834. 3ª a Sáb. das 14h às 20h.
Até 31/12


© Luísa Cunha

21 outubro, 2013

os álbuns

Da série The Family project
© 
Matías Costa



Os álbuns de família são agora um novo objecto de culto 
Sérgio C. Andrade (Público, 29.09.2013)

Quem, por estes dias, percorra as ruas de Braga, vai encontrar uma curiosa mistura de imagens para além daquelas com que habitualmente nos deparamos nos centros urbanos. Os cartazes e fotografias da campanha para as eleições autárquicas e vários painéis com exposições dos Encontros da Imagem são as novidades no espaço público bracarense. Na Avenida da Liberdade, encontramos três painéis com fotografias de grande formato: são as Tribos da espanhola Lucia Herrero, retratos de famílias captados nas praias da costa mediterrânica, e que são uma espécie de actualização antropológica dos velhos álbuns de família. 

Este é, de resto, um dos temas em destaque na 23.ª edição dos Encontros da Imagem, que tem como mote O Amor e a Família - mesmo se sob um título genérico pouco optimista, roubado a canção dos Joy Division: Love will tears us apart (O amor vai-nos separar).

O tema dos álbuns de família, que nos remete para um outro tempo e outros modos de usar a fotografia, está principalmente contemplado nas exposições The Family Project, do também espanhol Matías Costa (Casa dos Crivos), e Do que Nos Lembramos quando Nos Lembramos de Nós, de Duarte Amaral Netto (Museu Nogueira da Silva). E vai estar ainda - na extensão que os Encontros este ano fazem ao Porto (e também a Lisboa) - na nova exposição que Nelson D"Aires fará do seu projecto Álbum de Família, no Espaço Mira. 

Nesta era de sobrevalorização da imagem e da comunicação instantânea, estamos a afastar-nos cada vez mais desse mundo em que os álbuns de família eram sobretudo "o registo de um tempo feliz", diz Ângela Ferreira, a nova directora dos Encontros da Imagem de Braga. Em volumes de capa almofadada e letras douradas, laboriosamente compilados ao longo de décadas e gerações, documentavam as histórias da família: o nascimento, o baptizado e o casamento, mas também as partidas para a tropa e as viagens, as festas de aniversário e as férias...

"Porque o tempo acelerou, a constituição de um álbum de forma artesanal, que se tornava num tesouro no seio de uma família, foi desaparecendo. Há menos tempo para a sua composição, e ele é substituído por outras técnicas, pelos ficheiros digitais", acrescenta a fotógrafa e professora bracarense.

"Podemos dizer que, hoje, as redes sociais já sintetizam, numa cronologia que integra a própria imagem, os vários momentos da vida de cada um. Do género: "Eu estive aqui", ou "Eu casei neste dia", ou simplesmente "Fui jantar com alguém a este lugar..."", diz Ângela Ferreira.

Perdida a função simultaneamente documental e afectiva de outros tempos, "o velho álbum de fotografias foi-se tornando um objecto de culto, numa tentativa de recuperar as memórias ou, talvez, de se opor à tecnologia que hoje disponibiliza imagens para todos", comenta, para o PÚBLICO, Paula Figueiredo, coordenadora do Serviço Educativo do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.

Esta investigadora da história da fotografia faz uma curiosa analogia com o que se está a passar na música com o vinil, que "está novamente na moda, talvez por essa persistência em preservar, em guardar a memória".

Esta mudança do estatuto dos álbuns de família vem acompanhando, de resto, a própria mudança do conceito de família, "que se vai renovando, adaptando aos novos tempos e criando novas tipologias", nota Ângela Ferreira, chamando a atenção para o facto de o programa dos 23.º Encontros da Imagem de Braga permitirem, precisamente, um acompanhamento dessa realidade nova e multifacetada.

"A imagem continua a ter muito impacto nas pessoas, e tudo aquilo que cria uma analogia com os observadores, mais ainda. Por isso é que as fotografias de família continuam a ter interesse na produção fotográfica, apesar das grandes mutações sociais. A família ainda é uma estrutura forte na sociedade", diz Paula Figueiredo, que, com o fotógrafo Luís Pavão, está a preparar uma exposição sobre uma colecção de álbuns de fotografia de família, a apresentar em Outubro no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. 

Estatuto de arte

Na visita que guiou para o PÚBLICO às exposições dos Encontros da Imagem que abordam especificamente o tema do álbum de família, Ângela Ferreira destacou os trabalhos de Matías Costa e de Duarte Amaral Netto. "Estes trabalhos dão ao álbum de família um estatuto de arte, algo que nunca se imaginou que viessem a ter. Antes dizia-se que a fotografia de família não entrava nas galerias de arte", diz a directora.

Um bom exemplo desta entrada das velhas fotografias e álbuns de família nas galerias e museus é o trabalho do holandês Erik Kessels, que apresentou, na edição deste ano dos Encontros de Fotografia de Arles (França), a instalação Album Beauty. Coleccionando, desde há anos, esses volumes e velhas imagens em feiras de rua e leilões em vários países, Kessels faz com eles inventivas montagens propondo uma nova "antropologia visual" desses objectos tornados anacrónicos pelas técnicas digitais.

Ângela Ferreira diz que a instalação do artista holandês chegou a integrar o projecto dos Encontros de Braga deste ano, mas que a ideia foi abandonada porque a instalação tinha "custos incomportáveis" para a organização.

A exposição de Duarte Amaral Netto - que já foi apresentada em Lisboa, na Galeria Baginski, em 2010 - ocupa também em Braga uma galeria normalmente vocacionada para as artes plásticas. No Museu Nogueira da Silva, o fotógrafo procede à diluição da ideia de álbum com uma intervenção estética sobre velhas fotografias do quotidiano: uma família na praia, no jardim ou na piscina; uma criança a brincar com o pai, uma adolescente a subir a uma árvore... "É um trabalho muito plástico sobre a imagem, que quase deixa de ser fotografia para passar a ser pintura", nota Ângela Ferreira.

No centro da galeria, Duarte Amaral Netto expõe em mesas-vitrinas uma colecção de cadernos Moleskines em cujas páginas imprimiu fotografias, quase como num livro de artista. "No digital, as imagens ficam numa espécie de poço sem fundo. Como arquivá-las?", pergunta-se a directora dos Encontros, vendo uma interessante resposta para essa questão neste dispositivo do artista nascido em Lisboa.

No caso de Matías Costa, o jornalista e fotógrafo madrileno trabalha sobre a sua própria memória familiar, alternando imagens dos seus avós com as memórias dos grandes acontecimentos do século XX, desde a migração europeia para a América e das duas Guerras Mundiais até às ditaduras na Alemanha, Rússia e América Latina.

"É uma missão pessoal à qual decidi dar a forma de projecto criativo para lhe garantir a distância necessária e posteriormente partilhá-lo com outros que podem não estar propriamente interessados na história da minha família, mas sim na forma de a contar", escreve Matías Costa sobre o seu Family Project.

O autor "baralha o jogo do tempo e do espaço para lhe dar um tom de autoria", diz Ângela Ferreira, sobre esta montagem em que Matías Costa acrescenta, e mistura, as fotografias históricas com novas imagens sem tempo e sem espaço, como uma escada, uma porta, uma árvore rarefazendo a luz do sol... Toda uma nova narrativa sobre o espaço da intimidade a que a Casa dos Crivos dá o cenário certo com as suas janelas crivadas, que permitem ver para fora sem se ser visto...

RYSA and other stories, do polaco Jakub Karwoski, sobre a sua mulher e o seu filho; Picturing Family, da finlandesa Elina Brotherus, retrato sociológico da família moderna no seu país; e Shvilishvili, da russa Jana Romanova, também uma viagem ao tempo dos seus antepassados, entre a Rússia e a Geórgia, através do expediente do livro-objecto e também do vídeo, são três outras exposições (todas no espaço GNRation) que permitem ao visitante uma aproximação aos novos formatos e significados dos álbuns de família.

Para ver até 27 de Outubro.




Da série Do que nos lembramos quando nos lembramos de nós
© 
Duarte Amaral Netto

13 outubro, 2013

O reencontro

Da série The Julie Project, Julie, 2010
© Darcy Padilla

O reencontro
(Revista 2Público, 2.06.2013)

Eu ia em direcção às abstracções frias de Hiroshi Sugimoto e ela regressava ao calor de Arles. Preparava-me para ver como eram esses mares nocturnos de horizontes verticais numa das exposições dos Encontros de Fotografia que tenta convencer-nos de que o preto e branco não está morto. E que há quem queira continuar a criar com ele. A camisa colava-se às costas e eu já suplicava por um ar condicionado quando ela me disse que não valia a pena continuar a andar. A tarde tinha começado. Era o período em que Arles, Sul de França, entra num estado de sonolência, fotografia incluída - uma pausa para fugir do calor, para deixar de ver e de pensar. Olhei para a entrada desiludido por ter batido com o nariz na porta. E ela, num gesto de reconforto, disse que valia a pena regressar mais tarde à penumbra das fotografias de Sugimoto. Dei meia volta e rumamos à inclemência do Sol.
Enquanto atravessávamos um pequeno jardim que deslumbrou Vincent van Gogh, trocámos meia dúzia de frases de circunstância e revelámos ao que vínhamos a Arles. Disse-me que era fotógrafa e que orientava um workshop. E eu, por uma razão parva qualquer, não lhe perguntei logo o nome. Só nos apresentámos quando chegou o momento de caminharmos em direcções opostas. "Darcy Padilla, prazer em conhecer-te". E fomos embora. Fiquei com aquele nome a dançar na cabeça. Sabia que já me tinha cruzado com ele. Pedi ajuda ao Google e descobri que, afinal, Darcy já tinha estado comigo... através das suas fotografias.
Há uns meses descobri o enorme talento que vive dentro de si e que aplicou no extraordinário ensaio The Julie Project, um trabalho que começou em 1993 com a vontade de mostrar como é que uma mulher pobre convivia e lutava com a sida nos EUA. Um trabalho que durou 18 anos e que terminou em Setembro de 2010, com a morte de Julie. Com ele, Darcy quis mostrar as falácias dos discursos acerca dos sistemas de saúde, da pobreza, da sida, dos abusos sexuais, drogas e álcool. The Julie Project mostra como se podem tornar tortuosos os caminhos da vida. Mostra como se pode morrer despojado de quase tudo menos da amizade.
Antes de nos termos despedido, gostava de ter dito a Darcy como admiro a perseverança, a lucidez, a honestidade e a coragem da caminhada que decidiu levar a cabo com Julie. Gostava de lhe ter dito como é importante que as suas fotografias existam. Gostava de lhe ter dito como me emocionaram. Gostava de lhe ter dito que apesar de não ter conseguido relacionar de imediato o seu nome com as suas fotografias, as suas fotografias nunca as esquecerei.

Da série The Julie Project, Julie, 2010
© Darcy Padilla

25 setembro, 2013

o silêncio


Açores, 2000
© 
Valter Vinagre

O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência na presença plena.
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.

António Ramos Rosa, Le Domaine Enchanté


Krakatindur, da série Islândia 
© 
Manel Armengol

16 setembro, 2013

Encontros de Braga 2013

© Matías Costa


O mote para os Encontros da Imagem de Braga 2013 é dado pelo título de uma canção icónica dos britânicos Joy Division – Love will tear us apart (“O amor vai-nos separar”) -, banda que criou um universo sonoro depressivo em torno das relações que acabam em desilusão e da banalidade do quotidiano. Desta ideia de que até o arrebatamento causado pelo amor nos pode levar à ruptura, ao desassossego, à deriva e à agitação surgiu um conjunto de exposições que problematiza as (novas) tensões dentro da família.

Uma realidade sócio-económica adversa como a que hoje se vive em muitos países da Europa potencia obstáculos e molda novas formas de organização familiar que, por sua vez, fazem vir à tona novos tipos de relações humanas, hoje “mais urgentes”, como assinala o comunicado distribuído pela organização dos Encontros. Foi a partir desta “urgência” e de “um tempo acelerado” em torno do paradigma de família que se ergueu a programação da edição deste ano, liderada por Ângela Ferreira, que substituiu Rui Prata no cargo.

Sem nomes sonantes na programação, os Encontros da Imagem (que cumprem este ano a 23ª edição e começam esta sexta-feira em Braga), apostam sobretudo em projectos de jovens fotógrafos já com algum trajecto e trabalho concretizado.

Entre as dezenas de exposições previstas, há trabalhos que se destacam. No espaço cultural Pedro Remy, a italiana Myriam Meloni mostra Important things are said soflty, ensaio sobre uma mãe e dois filhos que aborda a teia de relações e de cumplicidades que se estabelecem numa família monoparental.

O espanhol Matías Costa optou por rebuscar os arquivos fotográficos da família para construir uma narrativa visual vernacular que toca em alguns dos acontecimentos históricos mais importantes do século XX, como a emigração europeia para América, a I Grande Guerra ou a perseguição aos judeus na Rússia dos czares e na Alemanha nazi. Com um lastro de tempo tão alargado, The Family project (Casa dos Crivos) acaba por fazer também um exercício arqueológico em relação aos formatos e técnicas fotográficas, que vão desde o preto e branco com lados recortados às cores saturadas dos anos 80.

Num registo totalmente diferente das duas propostas anteriores, o luso-francês Georges Pacheco propõe retratos de pose intimista do momento em que as mães aleitam os seus filhos, um acto universal que inspirou inúmeras obras da pintura renascentista italiana e holandesa, obras em que o fotógrafo se inspirou. Para além desta “homenagem fotográfica” ao aleitamento, Pacheco quis sublinhar a sensualidade que o envolve e revelar a profunda ligação entre dois seres humanos que este momento pressupõe. Em todos os retratos, foram evitados os sinais de contemporaneidade para a construção de uma imagética intemporal e focada na relação mãe/filho. A exposição Amalthée (a cabra que, na mitologia grega, amamentou Zeus em criança) pode ser vista no Largo Carlos Amarante.

Ainda na lógica dos álbuns de família, o polaco Jakub Karwowski construiu um conjunto de imagens onde a mulher (Ajka) e o filho (Fryderyk) são protagonistas num exercício ficcional profundamente estetizado, numa provocação ao desacerto e ao erro característicos das fotografias onde a intimidade do quotidiano é registada.

Por fim, naquela que é uma das mais singulares mostras destes Encontros, Casamento/Divórcio/Diversos, Jorge Miguel Gonçalves propõe um olhar sobre diferentes salas de actos nas conservatórias de registo civil, espaços institucionais onde se celebram (e registam) acontecimentos em torno da família com cargas emocionais muito distintas, como casamentos, divórcios, certidões de óbito, certidões de nascimento... Apesar da diversidade de estados de alma que cada um destes actos necessariamente provoca, os espaços são impessoais e artificiais, não se moldam ao acontecimento a que estão a dar abrigo. O universo peculiar (e tantas vezes caricato) destes lugares quase assépticos é revelado com imagens que aparentam uma grande serenidade, mas que na verdade escondem um turbilhão de sentimentos contraditórios.

Uma das novidades dos Encontros deste ano é a sua extensão a espaços das cidades do Porto e de Lisboa. No Porto, a partir de 2 de Outubro, o Espaço Mira acolherá Álbum de Família, o trabalho que Nelson D´Aires construiu em torno do espólio do fotógrafo ambulante de Mora, António Gonçalves Pedro. Em Lisboa, estão no programa as exposições de Jaime Vasconcelos (Revoluções, Galeria das Salgadeiras), Pauliana Valente Pimentel (Jovens de Atenas, Galeria Boavista) e Mel O´Callaghan (Ensemble, Galeria Belo-Galsterer). Na capital, as mostras inauguram-se a 9 de Outubro.

As exposições em Braga encerram no dia 27 de Outubro.




© Georges Pacheco



©  Jakub Karwowski


© Jorge Miguel Gonçalves

13 setembro, 2013

sandra e pedro

Sandra Rocha, da série Anticiclone
© Sandra Rocha

A [kameraphoto] vai deixar de poder contar com o trabalho de Sandra Rocha e Pedro Letria, que há vários anos integravam o colectivo lisboeta.
A mestria de ambos continua por aqui: Sandra Rocha; Pedro Letria.


Pedro Letria, da série MármoreGreyhound Trust Kennel, Hersham, Inglaterra, 2006
© 
Pedro Letria

cursar



A Photographer´s Gallery de Londres diz que por 750 libras conseguimos tornar-nos coleccionadores de fotografia informados, organizados e cautelosos com a conservação das preciosidades que viermos a adquirir. Eu admiro quem pensa que se pode coleccionar fotografia. Mas admiro ainda mais quem faz dinheiro com os que pensam que alguma vez se pode coleccionar fotografia. A fotografia é incoleccionável por natureza e os ajuntamentos que se fazem dela são apenas derivas de gosto e maluqueiras fetichistas, o que já não é mau de todo.
Bom, mas diz a PG que este cursinho de cinco semanas habilita gente interessada em comprar tudo o que é contemporâneo e vintage, dando lamirés sobre história da fotografia, construção e manutenção de uma colecção, mercado, aspectos práticos de coleccionismo, processos fotográficos... e muito, muito mais, inclusive uma viagem ao Paris Photo para ver de perto o mercado a funcionar.
Quem lidera o curso é Jocelyn Phillips, curadora e perita de fotografia da Sotheby’s e da Bonhams.

06 setembro, 2013

saldos

Sergio Larrain
A editora Aperture decidiu esticar uma semana o prazo dos seus saldos de Verão. Os descontos nos livros podem chegar aos 25% e nas edições limitadas de fotografia podem ir até aos 30%. Há dois livros que recomento muito: Sergio Larrain e Emmet Gowin.
Acaba no dia 12 de Setembro. por aqui

15 agosto, 2013

(...)

© Pierre Jamet

(até já)

para Arles

Pieter Hugo, da série There´s a Place in Hell for Me and My Friends, cortesia Galeria Michael Stevenson


O que é que andamos a fazer com o preto e branco?
(Sérgio B. Gomes, em Arles, ípsilon, 9.08.2013)

Um festival de fotografia que em 2013 anuncia a celebração do preto e branco corre o risco de ser logo confundido com a brigada do reumático dos processos analógicos. Um cartaz que diz “Arles in Black” - que serve de cartão-de-visita à edição deste ano dos Encontros de Fotografia  de Arles, França - pode ser meio caminho andado para uma leitura imediatista que pode ligar aquele que é um dos mais importantes conclaves da fotografia no mundo à resistência à mudança ou à perpetuação dos exercícios saudosistas, a chorar banha e ranho pelo que foi e não volta a ser. Ao ancorar hoje o grosso da programação numa estética que marcou (e ainda marca?) de forma tão profunda o labor fotográfico, Arles não quis fazer apenas uma provocação – quis dar-nos um estado da arte deste universo para, através dele, mostrar como ainda se podem fazer descobertas e revelações. E, sobretudo, tentar provar como ainda fervilha a centelha criativa dos que escolhem exprimir-se através das gradações de cinzentos.
A velocidade alucinante a que tem caminhado tudo o que diz respeito à fotografia nos últimos anos tende a fazer-nos esquecer boa parte do que existia antes. Ou a deixar cada vez menos espaço para o entendimento do percurso e da história das múltiplas formas de expressão da imagem fotográfica. Mas se pensarmos bem, não estão assim tão distantes as décadas em que o preto e branco analógico dominava a fotografia como os dinossauros reinavam sobre a Terra, sem criaturas que lhe pudessem fazer frente. Até que surgiu um primeiro tremor de terra chamado cor. E depois outro chamado digital. Ora, sempre que abalos com esta dimensão se fazem sentir importa ir percebendo pontualmente que brechas foram abertas e que consequências deixaram.
Este festival (com mais de 50 exposições abertas até 22 de Setembro) pode servir para perceber se o preto e branco (analógico ou não) é um dinossauro em perigo de extinção, se é uma prática que entrou em estado de obsolescência, se deixou de nos surpreender, de nos seduzir e abalar. Será também um momento oportuno para tentar encontrar respostas não só para as perguntas lançadas pelos Encontros (“Que lugar ocupa hoje o preto e branco?”; “Realismo ou ficção, poesia, abstracção ou pura nostalgia?”) como para outras questões que podem ser colocadas: será produtivo (possível) discutir a este nível qualquer estética ou expressão fotográfica?; o preto e branco foi “a” fotografia durante muitas décadas, resistiu a inúmeros embates – fará sentido falar no seu desaparecimento puro e simples?
O actual director do festival François Hébel é um protagonista privilegiado para nos conduzir por estas reflexões. Com uma ligação à fotografia que remonta a 1979, quando começou a escrever para a revista Contact, publicada pela cadeia de lojas FNAC, foi ele que organizou as primeiras exposições de fotografia a cores de grande formato no Festival de Arles, em 1986, provocando um sentimento de rejeição no seio do núcleo duro (muito conservador) dos encontros que acontecem todos os anos desde 1970. Depois de mais de uma década como responsável máximo pela cooperativa Magnum em Paris (um dos templos do preto e branco), em 2002 assumiu de novo a liderança do festival, cargo que ocupa até hoje.
Agora, numa nova tentativa de fazer mexer as águas (mas agora ao contrário), Hébel assume algum “radicalismo” (é a palavra mais repetida do seu curto texto de apresentação dos Encontros) ao escolher um olhar sobre o preto e branco, programa que pode ser entendido como “paradoxal” já que assenta num “espírito de descoberta”. Descoberta? Sim, como se o preto e branco já fosse coisa de um passado muito longínquo. E assim encontrar (reencontrar) “verdadeiras pérolas”: como a retrospectiva (em estreia mundial) de um fotógrafo tão secreto quanto genial como o chileno Sergio Larrain (1931-2012); alguns dos primeiros trabalhos nunca mostrados em público do francês Guy Bourdin (1928-1991), descobertos numa caixa de cartão e meticulosamente separados em envelopes pardos; ou o olhar cirúrgico do britânico John Stezaker que com um laborioso corta e cola sobre fotografias encontradas e objectos gráficos nos oferece novas possibilidades para a leitura de todo o tipo de imagens.
Descoberta? Sim, ao revelar “criações inéditas de artistas consagrados”: como as paisagens marítimas nocturnas (a roçar a abstracção) do japonês Hiroshi Sugimoto (1948); ou um raro olhar a negro dos campos de lavanda da Provença e das artes que lhes estão associadas pela lente do português Paulo Nozolino (1955).
Descoberta? Sim, ao recuperar “tesouros do passado”: como as fotografias captadas com o intuito de integrar álbuns de família como as que Jacques Henri Lartigue (1894-1986) tirou à sua primeira mulher, a mais do que amada “Bibi”; ou as que Pierre Jamet (1910-2000) foi tirando no decorrer de grandes caminhadas no momento em que as pousadas de juventude conheceram em França uma grande dinâmica. Ainda no campo dos“tesouros”, daqueles que existem lá em casa, há aquela que é uma das melhores exposições da edição deste ano, Album Beauty, pensada pelo holandês Erik Kessels a partir da sua colecção, que nos transporta para dentro dos álbuns de família vernaculares, numa reflexão perspicaz sobre a morte acelerada deste universo fotográfico.

Maiorias, minorias
As excepções à “regra do preto e branco” dos Encontros de 2013 são mais do que muitas e se por um lado servem para fazer um simples contraponto visual à profusão de negros (como se as cores da Provença não fossem suficientes…) por outro revelam-se uma opção acertada quando é preciso recentrar o olhar no que é produção contemporânea dominante de modo a poder estabelecer relações (mais ou menos próximas) ou distâncias (mais ou menos inultrapassáveis). No caso das polaróides com estudos de cor (que também serviram para fazer caríssimos e exclusivos lenços Hermès) das alvoradas de Tóquio captadas por Sugimoto é possível perceber como o fotógrafo japonês explora o mesmo tema (a luz e as suas variações no tempo) independentemente do formato, da forma ou do suporte fotográfico utilizados. Ainda do lado das relações é interessante comparar os primeiros passos na fotografia de moda de Guy Bourdin (ainda a preto e branco, que a exposição Untouched também mostra) com as actuais criações da holandesa Viviane Sassen (colaboradora habitual de revistas alternativas como a Numero, Roxane ou Pop). Os dois revelam uma queda para as imagens desconcertantes a tocar o surrealismo. Já o Novo Mundo, a exposição apresentado por Wolfgang Tillmans (1968), desperta-nos para a anarquia e para a embriaguez de imagens saturadas de marcas e cores que estão muito longe do “romantismo” com que tendemos a olhar para as fotografias a preto e branco. É uma exposição que funciona como uma picadela de agulha, capaz de nos acordar do encantamento do canto das cigarras que por esta época enxameiam Arles. E que provoca um estremecimento depois do doce embalar dos matizes cinza que povoam a maioria das exposições do Parc des Ateliers, um enorme conjunto industrial ferroviário para onde está projectada uma obra de Frank Gehry dedicada ao estudo e à promoção da fotografia.
Fora do programa oficial mas mais do que dentro do espírito “a preto e branco” que pauta estes Encontros importa destacar mais duas exposições consagradas a dois mestres: Gordon Parks (1912-2006) e Daido Moriyama (1938). A longa carreira dedicada à fotografia do primeiro (que entre outros afazeres foi realizador de cinema, músico e escritor) é objecto de uma síntese que percorre os vários géneros de uma obra pioneira e a vários títulos excepcional. Parks foi o primeiro de muitas coisas na fotografia, no jornalismo e no cinema, mas o que marca a sua obra (frontalmente engajada com a luta contra todas as formas de discriminação a começar pelo racismo) é uma extraordinária sensibilidade para captar momentos intensos, quer se trate do retrato de uma empregada de limpeza (Ella Watson, na célebre American Gothic, 1942) ou de uma estrela de cinema (Ingrid Bergman na ilha de Stromboli, 1949). A exposição Une Histoire Américaine (a primeira consagrada ao fotógrafo em França) traça um percurso cronológico pela obra fotográfica do realizador de Shaft (1971), onde assumem especial protagonismo as imagens dos líderes que lutaram pelos direitos da comunidade afro-americana no pós-guerra, entre os quais Malcolm X e Martin Luther King. As fotografias de moda, outra das grandes paixões de Parks que trabalhou para a Vogue vários anos, são outro dos pontos altos de uma mostra que brilha também pelas soluções de montagem meticulosas e criativas na escuridão de uma das naves do Parc des Ateliers.
Mesmo ali ao lado, numa nave paralela, a mesma bitola de qualidade expositiva agora aplicada a Labyrinth + Monochrome, de Daido Moriyama. Coincidência, ou talvez não, as duas mostras que melhor souberam tirar partidos da arquitectura de montagem foram organizadas pela Association du Méjan, responsável pela editora Actes Sud, com sede em Arles, chancela de muitos fotolivros que todos os anos saem dos Encontros de fotografia.
A instalação fotográfica de Moriyama é um amplo abraço a quem nela entra. E um mergulho caleidoscópico pelo trabalho de um dos mais importantes fotógrafos vivos, responsável pela formação de uma atitude vanguardista no Japão do pós-guerra que influenciaria gerações de fotógrafos por todo mundo. Um longo muro circular coberto de imagens iguais (parecidas? diferentes?) de pernas entrelaçadas com meias rendadas suporta grandes painéis com folhas de contacto de duas séries distintas. Em Monochrome viajamos para as ruas de Tóquio, num fluxo de imagens taciturno e denso, a marca de água da obra de Daido Moriyama. Em Labyrinth, o mestre japonês joga com a disposição de fotogramas de todo o tipo e de diferentes épocas do seu percurso, inventando sequências e falsas narrativas num desafio à percepção e à capacidade de distinção entre o verdadeiro e o falso. O objectivo é também fazer estremecer o cânone fotográfico segundo o qual as obras-primas estão confinadas a uma única imagem.
Quem não está confinado a uma única imagem são as centenas de fotolivros que todos os anos chegam aos encontros na expectativa de levar o título de livro de fotografia do ano. Entre as obras que chegaram às mesas do Atelier de la Chaudronnerie, ainda no meio do calor abafado das imensas naves do Parc des Ateliers, havia pelo menos seis  títulos editados em Portugal: Rien (Pierre von Kleist), de André Cepeda, Blue Mud Swamp (ed. Pente 10 Gallery & Filipe Casaca), de Filipe Casaca, Lapa do Lobo (Fundação Lapa do Lobo), vários autores, The Time Machine (ed. The Moth House), de Edgar Martins, Couve e Coragem (ed. autor), de Lioba Keuck, e Bad Liver and Broken Heart (ed. Ghost), de São Trindade. O prémio Livro de Autor do Ano foi atribuído a Anticorps (ed. Editions Xavier Barral), do francês Antoine d`Agata, e o Prémio do Livro Histórico a AOI [COD. 19.I.I.43] – AZ7 [S/COD.23] (ed. autor), da brasileira Rosângela Rennó. O primeiro reúne parte de uma obra autobiográfica singular em torno das errâncias de um corpo que se move nos excessos, na noite e na vertigem da alienação total. O segundo recupera o que resta de um conjunto de álbuns fotográficos depositados num arquivo do Rio de Janeiro. E revela páginas desses álbuns sem nada, com o vazio que foi deixado pelos larápios que ao longo de anos foram cortando páginas e surripiando imagens de paisagens do Brasil.
Depois de uma passagem por todas as mesas onde pousam centenas de fotolivros, é possível arriscar que, pelo menos na produção gráfica, a cor domina (com uma margem confortável) o que não é propriamente uma novidade nos dias que correm. Mas também é possível dizer que a minoria ligada ao preto e branco (sem contar com os livros de história da fotografia) não está propriamente sentada em cima de uma vaca sagrada, o que significa que tem encontrado novos limites, novas formas de explorar o potencial gráfico e imagético de uma estética que perdura.

E essa dinâmica na produção fotográfica contemporânea - que já deixou de ser uma resistência contra o que quer que seja – também vai fazendo o seu caminho. O que quer dizer que o cisne do cartaz dos Encontros da edição deste ano, da autoria de Michel Bouvet, ainda não apareceu para entoar o seu canto fúnebre. Pelo menos desta vez.


Sergio Larraín, rua principal de Corleone, Sicília, Itália, 1959, Magnum Photos

14 agosto, 2013

Allan Sekula (1951-2013)

Allan Sekula, auto-retrato, (Lendo, 12/22/02), 2002-03, cibachrome

Morreu o fotógrafo, escritor, crítico e realizador norte-americano Allan Sekula, autor que se notabilizou a partir do início dos anos 70 pela desconstrução da suposta neutralidade das imagens fotográficas bem como pela aproximação da arte conceptual das práticas documentais. O crítico de artes plásticas do Público José Marmeleira escreveu um obituário que pode ser lido aqui.
A galeria Michel Rein representa o trabalho de Sekula em Paris que pode ser visto aqui.

10 agosto, 2013

da Terra

Sebastião Salgado, Génesis
© Sebastião Salgado/Amazonas images

Sebastião Salgado
Viagem aos lugares velhos da Terra
(Revista 2, 21.07.2013)

O difícil na fotografia de Sebastião Salgado é não ficar impressionado. Há muito que a estratégia visual de um dos mais reputados fotógrafos vivos joga com a escala. E essa dimensão agigantada (vasta, de cortar a respiração...) não está apenas naquilo que se passa dentro das suas imagens (acusam-nas de uma visualidade demasiado cinematográfica, grandiloquente...), mas sobretudo na atitude com que pratica o ofício, no tempo que lhe dedica, na ambição de ir longe, aonde poucos ou nenhuns foram, a lugares onde não há asfalto, mas onde há caminhos de terra batida por humanos ao longo de milhares de anos de história.

Desta vez, que é como quem diz ao longo de oito anos (2004-2011), Salgado quis dar imagem fotográfica ao começo de tudo, aos "lugares prístinos [anteriores, antigos, velhos] da Terra", na tentativa de demonstrar que ainda existe "um planeta puro, grande e majestoso". Percorreu montanhas, desertos e oceanos a bordo de tudo o que mexe nos quatro cantos do mundo. Aproximou-se de animais e embrenhou-se em paisagens que ficaram, até agora, à margem do desenvolvimento das sociedades modernas.

A viagem a esses lugares (32 grandes ensaios em outros tantos países) não exclui o Homem - pelo contrário, procura-o, mas apenas quando vive em comunhão com a natureza ou numa relação de equilíbrio com o meio que o rodeia. Para o fotógrafo, o resultado desta jornada é uma longa "carta de amor ao planeta", uma portentosa e exigente empreitada fotográfica que dificilmente poderia ter outro nome que não Génesis (da raiz grega "nascimento", "origem", o primeiro livro da Escritura, aquele em que se narra a criação do mundo).

A concretização deste projecto inscreve no extenso currículo de Sebastião Salgado (Aimorés, 1944) mais um ensaio com características épicas, depois do reconhecimento global obtido com Trabalhadores (1993), que documentou em todo o mundo os sinais do desaparecimento de um modo de vida baseado na manufactura, e Migrações (2000), registo das deslocações em massa de pessoas, forçadas pela fome, desastres naturais, condições ambientais degradadas ou pressão demográfica.

Para quem, como Salgado, se foi habituando a jornadas fotográficas de grande arcaboiço, o tempo vai deixando de contar ou, pelo menos, vai encontrando outras formas de ser contado. "Oito anos passam tão depressa! Mas tive o privilégio de ver os mais incríveis lugares do planeta e descobrir que dois terços da Terra são prístinos, estão como no Génesis." Este deslumbramento de Sebastião Salgado para com lugares que ainda permanecem intocáveis transparece de maneira óbvia nas fotografias seleccionadas para Génesis. Mas há também um fotógrafo renascido e duplamente entusiasmado com o culminar de um trabalho que talvez fique como a sua epopeia. Depois de Migrações, Salgado ponderou abandonar a fotografia, chocado com as condições de vida de muitos povos e com o número de mortes que viu à sua frente, especialmente no Ruanda. Nessa altura, ficou zangado não só com o mundo, mas também com a fotografia. De volta ao Brasil no início do novo milénio para se recompor física e psicologicamente, decidiu, por sugestão da sua mulher Lélia, recuperar a fazenda da família no vale do Rio Doce, Minas Gerais, começando por replantar árvores da floresta tropical que quase tinham desaparecido em seu redor. À medida que o projecto de preservação e recuperação ambiental foi crescendo (até hoje já foram plantadas mais de 2 milhões de árvores pelo Instituto Terra, gerido por Sebastião e Lélia), a vontade de fotografar regressou. Foi então que surgiu a ideia de Génesis, uma tentativa de viajar no tempo e uma carta visual a gerações vindouras, onde entre outros alertas está a certeza de que a natureza e a humanidade jamais se poderão separar.

"Com a veloz urbanização dos últimos cem anos, perdemos o contacto com o indómito, a fauna e a flora que representam a essência da vida na Terra", escreve Salgado no texto de apresentação do seu novo livro, confessando que, no início do projecto, havia mais vontade de concretizar fotografias que fizessem denúncias pela forma como estamos a abusar do planeta. No entanto, a renovação da natureza a que foi assistindo na Fazenda Bulcão fizeram-no alterar a trajectória rumo a uma abordagem mais "romântica", longe de qualquer cunho jornalístico, científico ou antropológico.

"Chamamos Génesis ao nosso projecto porque sonhamos atrasar o relógio até às erupções vulcânicas e aos sismos que deram forma à Terra. (...) Queria estudar a forma como a Humanidade e a natureza coexistiram durante tanto tempo naquilo a que hoje chamamos "equilíbrio ecológico"." A par do entusiasmo com o poder que as suas imagens podem ter na alteração de atitudes e consciências, com Génesis, Sebastião Salgado voltou a ter prazer no acto fotográfico. E a praticá-lo na sua máxima intensidade. "Fotografar é um prazer enorme (...) Andei em caminhos que foram sulcados há 3000 ou há 5000 mil anos. Quando se anda nestes lugares, recebe-se muita energia do passado."

Convidado para uma apresentação nas populares TED Talks (conferências curtas gravadas em vídeo), no início de Junho, o fotógrafo brasileiro deixou vários recados ambientalistas a partir das suas imagens mais recentes e afirmou que com Génesis quer potenciar "uma discussão sobre o que é que queremos fazer com o planeta". "Quero que estas imagens se tornem um sistema de informação, que possam ser uma nova apresentação da Terra", pediu emocionado.

Quando o patrão da Taschen, Benedickt foi ter com Salgado para lhe propor um livro que fizesse a retrospectiva de quatro décadas de trabalho (que se cumprem este ano), o fotógrafo brasileiro vacilou e acabou por negar o desafio. Justificou-se afirmando que os rostos que fotografou no passado tinham o seu lugar e o seu contexto e que deviam ficar como estão - não queria que figurassem num "livro de arte".

Em contrapartida, propôs-lhe o resultado de Génesis (que terminou no Pantanal, no final de 2011). Benedickt aceitou e pôs mãos à obra com a ambição de fazer um livro que "será não apenas uma referência na fotografia, como também na edição de fotolivros".

Para já - e para não destoar da escala do fotógrafo -, as escalas escolhidas pelo editor de Colónia impressionam: uma edição especial de 2500 cópias (46,8x70cm) assinadas por Salgado, com mais de 700 páginas (divididas por dois volumes), com um expositor em madeira de cerejeira concebido pelo consagrado arquitecto japonês Tadao Ando (3000 euros); uma edição de arte de 500 cópias (46,8x70 cm), com tudo da edição especial, mais uma fotografia original (8500 euros); e por fim uma edição com mais de 500 páginas (24,3x35,5) a um preço (muito) mais acessível (49,99 euros), que já está disponível em português.

Todos os livros foram concebidos e desenhados por Lélia Wanick Salgado, inseparável companheira de vida e de trabalho de Sebastião. E todos estão divididos em cinco partes: Os confins do Sul; Santuários; África; As terras do Norte; A Amazónia e o Pantanal.

Para Sebastião Salgado, a grande proeza de Lélia foi ter conseguido conceber os livros "como uma árvore", onde muitos ramos incluem fotografias impressas em páginas duplas, "de maneira a que se possa conviver com cada imagem um dia inteiro".

Para além das edições em livro, o projecto de Génesis inclui várias exposições em todo o mundo (para já, não está prevista nenhuma data para Portugal). A inauguração aconteceu no Museu de História Natural, em Londres (até 8 de Setembro), mas pode ser vista em simultâneo noutras cidades, como Ontário, Roma e Rio de Janeiro. Com data prevista de lançamento para Setembro, o documentário Sombra e Luz revelará mais detalhes do projecto. A longa-metragem terá a assinatura de Wim Wenders e de Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado que acompanhou o pai em muitas das suas viagens pelo mundo inteiro.

Quando alguém concretiza um projecto com esta dimensão, corre o risco de olhar para lá dele e não ser capaz de ver mais nada. Numa passagem por Lisboa, há quatro anos, perguntámos a Sebastião Salgado:

- E depois de Génesis?

- Não sei. Se ainda estiver vivo, vou pensar em outra coisa.




Sebastião Salgado, Génesis
© Sebastião Salgado/Amazonas images

14 julho, 2013

STET na Sá da Costa



A STET está outra vez fora de portas, agora em residência temporária na Livraria Sá da Costa, Lisboa, de 12 a 20 de Julho, das 15h as 21h, entrada pelo 19 da Rua Serpa Pinto ou 100 da Rua Garret (1 andar).

García-Alix em Lisboa




Quem for atrás do título Patria Querida para ver alguma coisa que tenha a ver com história, geografia ou com exaltações de nacionalidade desengane-se. A primeira grande exposição de fotografia de Alberto García-Alix em Portugal (Museu da Electricidade, Lisboa, até 18 de Agosto) tem um território definido, as Astúrias, Norte de Espanha, mas só isso – porque tudo resto é deriva, mundanidade, ambientes intemporais e estados de alma. Tudo coisas mais ou menos incontroláveis e imprevisíveis, muito à imagem da personalidade de García-Alix que confessa ter escolhido o nome do seu último grande trabalho a partir de um dos maiores clichés que se cola à região. É que, garante o fotógrafo de Leão, quando se juntam à mesma mesa cinco espanhóis com uns copos a mais e vem à baila a província nortenha, há sempre um deles que começa a cantar “Asturias! Paaatriaaa queriiiida, Auturias de mis amooores…”.
A ressonância desta Patria Querida é tão imediata, tão carnal, que García-Alix optou por não lutar contra ela. Pelo contrário, aproveitou a boleia de algumas das imagens feitas das Astúrias para nos dar um olhar poético, errante e livre capaz de produzir fotografias que embora estejam presas a um lugar, conseguem viver sem ele. Um mérito que talvez tenha alguma relação com a ausência de um guião, de uma encomenda (no sentido capitalista do termo), e o absoluto respeito pela liberdade criativa que a Fundación María Cristina Masaveu Peterson revelaram em relação ao ensaio pedido a Alberto García-Alix.
Mas afinal, qual era o desafio? No dia da inauguração da exposição, de palito ao canto da boca e voz muito rouca, a resposta de García-Alix veio pausada: “O desafio era fotografar um espaço, uma terra. Mas o maior desafio era fazê-lo bem. Era olhar, olhar, olhar…”. Olhar, não com o intuito de descobrir alguma coisa (“Não descobri nada nas Austúrias”), mas com o fito de transformar uma experiência e uma expectativa pessoais num trabalho criativo capaz de criar emoção e apego, de criar a experiência de um lugar.
A fundação asturiana (que inaugura com este trabalho uma série pensada a longo prazo que envolverá outros ex-premiados do festival PHotoEspaña) deu liberdade a García-Alix, e ele aproveitou-a ao máximo captando imagens muito diversificadas na forma mas que nunca abandonam um estilo muito particular, uma maneira de estar um pouco “à deriva”. “A fotografia para mim é um espaço onde se podem inventar coisas. É um espaço onde me invento a mim próprio. Essa liberdade inventiva é o que mais me fascina nisto que faço”. Fruto dessa errância (e de alguma despreocupação em provar o que quer que seja), estão lá paisagens longínquas de nevoeiros a entrelaçar montanhas, as paisagens minimais a imitar notas de música (muitas vezes parecem abstracções puras). Estão lá os retratos, um dos expoentes da arte fotográfica de Alberto García-Alix, e os ambientes em combustão (“Sempre gostei mais da decadência, da porosidade. Olho mais para aquilo que é retrocido, do que para aquilo que é imediato. Gosto da decadência dos espaços condenados a desaparecer”).
E como é que um fotógrafo colado à metrópole, às tribos urbanas da movida madrilena dos anos 80 se viu a captar a amplitude da paisagem asturiana, com montes que ameaçam rasgar o céu? “É a mesma coisa”, respondeu sem vacilar um segundo. “Para mim a fotografia é toda retrato. Retratar é uma postura. É enfrentar o que olho. Posiciono-me para com a paisagem como me posiciono para com os seres humanos – tento encontrar uma personalidade”.

Talvez personalidade seja a palavra-chave de Patria Querida. Durante a visita (mais às guinadas do que guiada) que fez com o PÚBLICO no Museu da Electricidade, García-Alix repetiu muitas vezes uma convicção: “Isto sim, isto são as Astúrias”. E apontou para uma estrada lúgubre com maquinaria de extracção de carvão a cercá-la. Para um imenso cartaz da Models, famosa casa de prostitutas da região. Ou para a fumaça deixada pelas bombas dos foguetes durante uma romaria. Pum! Pum! “Já tenho a festa popular! Isto sim, são as Austúrias!”.






 
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