21 outubro, 2013

os álbuns

Da série The Family project
© 
Matías Costa



Os álbuns de família são agora um novo objecto de culto 
Sérgio C. Andrade (Público, 29.09.2013)

Quem, por estes dias, percorra as ruas de Braga, vai encontrar uma curiosa mistura de imagens para além daquelas com que habitualmente nos deparamos nos centros urbanos. Os cartazes e fotografias da campanha para as eleições autárquicas e vários painéis com exposições dos Encontros da Imagem são as novidades no espaço público bracarense. Na Avenida da Liberdade, encontramos três painéis com fotografias de grande formato: são as Tribos da espanhola Lucia Herrero, retratos de famílias captados nas praias da costa mediterrânica, e que são uma espécie de actualização antropológica dos velhos álbuns de família. 

Este é, de resto, um dos temas em destaque na 23.ª edição dos Encontros da Imagem, que tem como mote O Amor e a Família - mesmo se sob um título genérico pouco optimista, roubado a canção dos Joy Division: Love will tears us apart (O amor vai-nos separar).

O tema dos álbuns de família, que nos remete para um outro tempo e outros modos de usar a fotografia, está principalmente contemplado nas exposições The Family Project, do também espanhol Matías Costa (Casa dos Crivos), e Do que Nos Lembramos quando Nos Lembramos de Nós, de Duarte Amaral Netto (Museu Nogueira da Silva). E vai estar ainda - na extensão que os Encontros este ano fazem ao Porto (e também a Lisboa) - na nova exposição que Nelson D"Aires fará do seu projecto Álbum de Família, no Espaço Mira. 

Nesta era de sobrevalorização da imagem e da comunicação instantânea, estamos a afastar-nos cada vez mais desse mundo em que os álbuns de família eram sobretudo "o registo de um tempo feliz", diz Ângela Ferreira, a nova directora dos Encontros da Imagem de Braga. Em volumes de capa almofadada e letras douradas, laboriosamente compilados ao longo de décadas e gerações, documentavam as histórias da família: o nascimento, o baptizado e o casamento, mas também as partidas para a tropa e as viagens, as festas de aniversário e as férias...

"Porque o tempo acelerou, a constituição de um álbum de forma artesanal, que se tornava num tesouro no seio de uma família, foi desaparecendo. Há menos tempo para a sua composição, e ele é substituído por outras técnicas, pelos ficheiros digitais", acrescenta a fotógrafa e professora bracarense.

"Podemos dizer que, hoje, as redes sociais já sintetizam, numa cronologia que integra a própria imagem, os vários momentos da vida de cada um. Do género: "Eu estive aqui", ou "Eu casei neste dia", ou simplesmente "Fui jantar com alguém a este lugar..."", diz Ângela Ferreira.

Perdida a função simultaneamente documental e afectiva de outros tempos, "o velho álbum de fotografias foi-se tornando um objecto de culto, numa tentativa de recuperar as memórias ou, talvez, de se opor à tecnologia que hoje disponibiliza imagens para todos", comenta, para o PÚBLICO, Paula Figueiredo, coordenadora do Serviço Educativo do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.

Esta investigadora da história da fotografia faz uma curiosa analogia com o que se está a passar na música com o vinil, que "está novamente na moda, talvez por essa persistência em preservar, em guardar a memória".

Esta mudança do estatuto dos álbuns de família vem acompanhando, de resto, a própria mudança do conceito de família, "que se vai renovando, adaptando aos novos tempos e criando novas tipologias", nota Ângela Ferreira, chamando a atenção para o facto de o programa dos 23.º Encontros da Imagem de Braga permitirem, precisamente, um acompanhamento dessa realidade nova e multifacetada.

"A imagem continua a ter muito impacto nas pessoas, e tudo aquilo que cria uma analogia com os observadores, mais ainda. Por isso é que as fotografias de família continuam a ter interesse na produção fotográfica, apesar das grandes mutações sociais. A família ainda é uma estrutura forte na sociedade", diz Paula Figueiredo, que, com o fotógrafo Luís Pavão, está a preparar uma exposição sobre uma colecção de álbuns de fotografia de família, a apresentar em Outubro no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. 

Estatuto de arte

Na visita que guiou para o PÚBLICO às exposições dos Encontros da Imagem que abordam especificamente o tema do álbum de família, Ângela Ferreira destacou os trabalhos de Matías Costa e de Duarte Amaral Netto. "Estes trabalhos dão ao álbum de família um estatuto de arte, algo que nunca se imaginou que viessem a ter. Antes dizia-se que a fotografia de família não entrava nas galerias de arte", diz a directora.

Um bom exemplo desta entrada das velhas fotografias e álbuns de família nas galerias e museus é o trabalho do holandês Erik Kessels, que apresentou, na edição deste ano dos Encontros de Fotografia de Arles (França), a instalação Album Beauty. Coleccionando, desde há anos, esses volumes e velhas imagens em feiras de rua e leilões em vários países, Kessels faz com eles inventivas montagens propondo uma nova "antropologia visual" desses objectos tornados anacrónicos pelas técnicas digitais.

Ângela Ferreira diz que a instalação do artista holandês chegou a integrar o projecto dos Encontros de Braga deste ano, mas que a ideia foi abandonada porque a instalação tinha "custos incomportáveis" para a organização.

A exposição de Duarte Amaral Netto - que já foi apresentada em Lisboa, na Galeria Baginski, em 2010 - ocupa também em Braga uma galeria normalmente vocacionada para as artes plásticas. No Museu Nogueira da Silva, o fotógrafo procede à diluição da ideia de álbum com uma intervenção estética sobre velhas fotografias do quotidiano: uma família na praia, no jardim ou na piscina; uma criança a brincar com o pai, uma adolescente a subir a uma árvore... "É um trabalho muito plástico sobre a imagem, que quase deixa de ser fotografia para passar a ser pintura", nota Ângela Ferreira.

No centro da galeria, Duarte Amaral Netto expõe em mesas-vitrinas uma colecção de cadernos Moleskines em cujas páginas imprimiu fotografias, quase como num livro de artista. "No digital, as imagens ficam numa espécie de poço sem fundo. Como arquivá-las?", pergunta-se a directora dos Encontros, vendo uma interessante resposta para essa questão neste dispositivo do artista nascido em Lisboa.

No caso de Matías Costa, o jornalista e fotógrafo madrileno trabalha sobre a sua própria memória familiar, alternando imagens dos seus avós com as memórias dos grandes acontecimentos do século XX, desde a migração europeia para a América e das duas Guerras Mundiais até às ditaduras na Alemanha, Rússia e América Latina.

"É uma missão pessoal à qual decidi dar a forma de projecto criativo para lhe garantir a distância necessária e posteriormente partilhá-lo com outros que podem não estar propriamente interessados na história da minha família, mas sim na forma de a contar", escreve Matías Costa sobre o seu Family Project.

O autor "baralha o jogo do tempo e do espaço para lhe dar um tom de autoria", diz Ângela Ferreira, sobre esta montagem em que Matías Costa acrescenta, e mistura, as fotografias históricas com novas imagens sem tempo e sem espaço, como uma escada, uma porta, uma árvore rarefazendo a luz do sol... Toda uma nova narrativa sobre o espaço da intimidade a que a Casa dos Crivos dá o cenário certo com as suas janelas crivadas, que permitem ver para fora sem se ser visto...

RYSA and other stories, do polaco Jakub Karwoski, sobre a sua mulher e o seu filho; Picturing Family, da finlandesa Elina Brotherus, retrato sociológico da família moderna no seu país; e Shvilishvili, da russa Jana Romanova, também uma viagem ao tempo dos seus antepassados, entre a Rússia e a Geórgia, através do expediente do livro-objecto e também do vídeo, são três outras exposições (todas no espaço GNRation) que permitem ao visitante uma aproximação aos novos formatos e significados dos álbuns de família.

Para ver até 27 de Outubro.




Da série Do que nos lembramos quando nos lembramos de nós
© 
Duarte Amaral Netto

13 outubro, 2013

O reencontro

Da série The Julie Project, Julie, 2010
© Darcy Padilla

O reencontro
(Revista 2Público, 2.06.2013)

Eu ia em direcção às abstracções frias de Hiroshi Sugimoto e ela regressava ao calor de Arles. Preparava-me para ver como eram esses mares nocturnos de horizontes verticais numa das exposições dos Encontros de Fotografia que tenta convencer-nos de que o preto e branco não está morto. E que há quem queira continuar a criar com ele. A camisa colava-se às costas e eu já suplicava por um ar condicionado quando ela me disse que não valia a pena continuar a andar. A tarde tinha começado. Era o período em que Arles, Sul de França, entra num estado de sonolência, fotografia incluída - uma pausa para fugir do calor, para deixar de ver e de pensar. Olhei para a entrada desiludido por ter batido com o nariz na porta. E ela, num gesto de reconforto, disse que valia a pena regressar mais tarde à penumbra das fotografias de Sugimoto. Dei meia volta e rumamos à inclemência do Sol.
Enquanto atravessávamos um pequeno jardim que deslumbrou Vincent van Gogh, trocámos meia dúzia de frases de circunstância e revelámos ao que vínhamos a Arles. Disse-me que era fotógrafa e que orientava um workshop. E eu, por uma razão parva qualquer, não lhe perguntei logo o nome. Só nos apresentámos quando chegou o momento de caminharmos em direcções opostas. "Darcy Padilla, prazer em conhecer-te". E fomos embora. Fiquei com aquele nome a dançar na cabeça. Sabia que já me tinha cruzado com ele. Pedi ajuda ao Google e descobri que, afinal, Darcy já tinha estado comigo... através das suas fotografias.
Há uns meses descobri o enorme talento que vive dentro de si e que aplicou no extraordinário ensaio The Julie Project, um trabalho que começou em 1993 com a vontade de mostrar como é que uma mulher pobre convivia e lutava com a sida nos EUA. Um trabalho que durou 18 anos e que terminou em Setembro de 2010, com a morte de Julie. Com ele, Darcy quis mostrar as falácias dos discursos acerca dos sistemas de saúde, da pobreza, da sida, dos abusos sexuais, drogas e álcool. The Julie Project mostra como se podem tornar tortuosos os caminhos da vida. Mostra como se pode morrer despojado de quase tudo menos da amizade.
Antes de nos termos despedido, gostava de ter dito a Darcy como admiro a perseverança, a lucidez, a honestidade e a coragem da caminhada que decidiu levar a cabo com Julie. Gostava de lhe ter dito como é importante que as suas fotografias existam. Gostava de lhe ter dito como me emocionaram. Gostava de lhe ter dito que apesar de não ter conseguido relacionar de imediato o seu nome com as suas fotografias, as suas fotografias nunca as esquecerei.

Da série The Julie Project, Julie, 2010
© Darcy Padilla

25 setembro, 2013

o silêncio


Açores, 2000
© 
Valter Vinagre

O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
Uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
Ou o silêncio do sentido que respira e transparece.
Ausência na presença plena.
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim.
Um olhar vazio de tudo – que vê e não vê
E só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.

António Ramos Rosa, Le Domaine Enchanté


Krakatindur, da série Islândia 
© 
Manel Armengol

16 setembro, 2013

Encontros de Braga 2013

© Matías Costa


O mote para os Encontros da Imagem de Braga 2013 é dado pelo título de uma canção icónica dos britânicos Joy Division – Love will tear us apart (“O amor vai-nos separar”) -, banda que criou um universo sonoro depressivo em torno das relações que acabam em desilusão e da banalidade do quotidiano. Desta ideia de que até o arrebatamento causado pelo amor nos pode levar à ruptura, ao desassossego, à deriva e à agitação surgiu um conjunto de exposições que problematiza as (novas) tensões dentro da família.

Uma realidade sócio-económica adversa como a que hoje se vive em muitos países da Europa potencia obstáculos e molda novas formas de organização familiar que, por sua vez, fazem vir à tona novos tipos de relações humanas, hoje “mais urgentes”, como assinala o comunicado distribuído pela organização dos Encontros. Foi a partir desta “urgência” e de “um tempo acelerado” em torno do paradigma de família que se ergueu a programação da edição deste ano, liderada por Ângela Ferreira, que substituiu Rui Prata no cargo.

Sem nomes sonantes na programação, os Encontros da Imagem (que cumprem este ano a 23ª edição e começam esta sexta-feira em Braga), apostam sobretudo em projectos de jovens fotógrafos já com algum trajecto e trabalho concretizado.

Entre as dezenas de exposições previstas, há trabalhos que se destacam. No espaço cultural Pedro Remy, a italiana Myriam Meloni mostra Important things are said soflty, ensaio sobre uma mãe e dois filhos que aborda a teia de relações e de cumplicidades que se estabelecem numa família monoparental.

O espanhol Matías Costa optou por rebuscar os arquivos fotográficos da família para construir uma narrativa visual vernacular que toca em alguns dos acontecimentos históricos mais importantes do século XX, como a emigração europeia para América, a I Grande Guerra ou a perseguição aos judeus na Rússia dos czares e na Alemanha nazi. Com um lastro de tempo tão alargado, The Family project (Casa dos Crivos) acaba por fazer também um exercício arqueológico em relação aos formatos e técnicas fotográficas, que vão desde o preto e branco com lados recortados às cores saturadas dos anos 80.

Num registo totalmente diferente das duas propostas anteriores, o luso-francês Georges Pacheco propõe retratos de pose intimista do momento em que as mães aleitam os seus filhos, um acto universal que inspirou inúmeras obras da pintura renascentista italiana e holandesa, obras em que o fotógrafo se inspirou. Para além desta “homenagem fotográfica” ao aleitamento, Pacheco quis sublinhar a sensualidade que o envolve e revelar a profunda ligação entre dois seres humanos que este momento pressupõe. Em todos os retratos, foram evitados os sinais de contemporaneidade para a construção de uma imagética intemporal e focada na relação mãe/filho. A exposição Amalthée (a cabra que, na mitologia grega, amamentou Zeus em criança) pode ser vista no Largo Carlos Amarante.

Ainda na lógica dos álbuns de família, o polaco Jakub Karwowski construiu um conjunto de imagens onde a mulher (Ajka) e o filho (Fryderyk) são protagonistas num exercício ficcional profundamente estetizado, numa provocação ao desacerto e ao erro característicos das fotografias onde a intimidade do quotidiano é registada.

Por fim, naquela que é uma das mais singulares mostras destes Encontros, Casamento/Divórcio/Diversos, Jorge Miguel Gonçalves propõe um olhar sobre diferentes salas de actos nas conservatórias de registo civil, espaços institucionais onde se celebram (e registam) acontecimentos em torno da família com cargas emocionais muito distintas, como casamentos, divórcios, certidões de óbito, certidões de nascimento... Apesar da diversidade de estados de alma que cada um destes actos necessariamente provoca, os espaços são impessoais e artificiais, não se moldam ao acontecimento a que estão a dar abrigo. O universo peculiar (e tantas vezes caricato) destes lugares quase assépticos é revelado com imagens que aparentam uma grande serenidade, mas que na verdade escondem um turbilhão de sentimentos contraditórios.

Uma das novidades dos Encontros deste ano é a sua extensão a espaços das cidades do Porto e de Lisboa. No Porto, a partir de 2 de Outubro, o Espaço Mira acolherá Álbum de Família, o trabalho que Nelson D´Aires construiu em torno do espólio do fotógrafo ambulante de Mora, António Gonçalves Pedro. Em Lisboa, estão no programa as exposições de Jaime Vasconcelos (Revoluções, Galeria das Salgadeiras), Pauliana Valente Pimentel (Jovens de Atenas, Galeria Boavista) e Mel O´Callaghan (Ensemble, Galeria Belo-Galsterer). Na capital, as mostras inauguram-se a 9 de Outubro.

As exposições em Braga encerram no dia 27 de Outubro.




© Georges Pacheco



©  Jakub Karwowski


© Jorge Miguel Gonçalves

13 setembro, 2013

sandra e pedro

Sandra Rocha, da série Anticiclone
© Sandra Rocha

A [kameraphoto] vai deixar de poder contar com o trabalho de Sandra Rocha e Pedro Letria, que há vários anos integravam o colectivo lisboeta.
A mestria de ambos continua por aqui: Sandra Rocha; Pedro Letria.


Pedro Letria, da série MármoreGreyhound Trust Kennel, Hersham, Inglaterra, 2006
© 
Pedro Letria

cursar



A Photographer´s Gallery de Londres diz que por 750 libras conseguimos tornar-nos coleccionadores de fotografia informados, organizados e cautelosos com a conservação das preciosidades que viermos a adquirir. Eu admiro quem pensa que se pode coleccionar fotografia. Mas admiro ainda mais quem faz dinheiro com os que pensam que alguma vez se pode coleccionar fotografia. A fotografia é incoleccionável por natureza e os ajuntamentos que se fazem dela são apenas derivas de gosto e maluqueiras fetichistas, o que já não é mau de todo.
Bom, mas diz a PG que este cursinho de cinco semanas habilita gente interessada em comprar tudo o que é contemporâneo e vintage, dando lamirés sobre história da fotografia, construção e manutenção de uma colecção, mercado, aspectos práticos de coleccionismo, processos fotográficos... e muito, muito mais, inclusive uma viagem ao Paris Photo para ver de perto o mercado a funcionar.
Quem lidera o curso é Jocelyn Phillips, curadora e perita de fotografia da Sotheby’s e da Bonhams.

06 setembro, 2013

saldos

Sergio Larrain
A editora Aperture decidiu esticar uma semana o prazo dos seus saldos de Verão. Os descontos nos livros podem chegar aos 25% e nas edições limitadas de fotografia podem ir até aos 30%. Há dois livros que recomento muito: Sergio Larrain e Emmet Gowin.
Acaba no dia 12 de Setembro. por aqui

15 agosto, 2013

(...)

© Pierre Jamet

(até já)

para Arles

Pieter Hugo, da série There´s a Place in Hell for Me and My Friends, cortesia Galeria Michael Stevenson


O que é que andamos a fazer com o preto e branco?
(Sérgio B. Gomes, em Arles, ípsilon, 9.08.2013)

Um festival de fotografia que em 2013 anuncia a celebração do preto e branco corre o risco de ser logo confundido com a brigada do reumático dos processos analógicos. Um cartaz que diz “Arles in Black” - que serve de cartão-de-visita à edição deste ano dos Encontros de Fotografia  de Arles, França - pode ser meio caminho andado para uma leitura imediatista que pode ligar aquele que é um dos mais importantes conclaves da fotografia no mundo à resistência à mudança ou à perpetuação dos exercícios saudosistas, a chorar banha e ranho pelo que foi e não volta a ser. Ao ancorar hoje o grosso da programação numa estética que marcou (e ainda marca?) de forma tão profunda o labor fotográfico, Arles não quis fazer apenas uma provocação – quis dar-nos um estado da arte deste universo para, através dele, mostrar como ainda se podem fazer descobertas e revelações. E, sobretudo, tentar provar como ainda fervilha a centelha criativa dos que escolhem exprimir-se através das gradações de cinzentos.
A velocidade alucinante a que tem caminhado tudo o que diz respeito à fotografia nos últimos anos tende a fazer-nos esquecer boa parte do que existia antes. Ou a deixar cada vez menos espaço para o entendimento do percurso e da história das múltiplas formas de expressão da imagem fotográfica. Mas se pensarmos bem, não estão assim tão distantes as décadas em que o preto e branco analógico dominava a fotografia como os dinossauros reinavam sobre a Terra, sem criaturas que lhe pudessem fazer frente. Até que surgiu um primeiro tremor de terra chamado cor. E depois outro chamado digital. Ora, sempre que abalos com esta dimensão se fazem sentir importa ir percebendo pontualmente que brechas foram abertas e que consequências deixaram.
Este festival (com mais de 50 exposições abertas até 22 de Setembro) pode servir para perceber se o preto e branco (analógico ou não) é um dinossauro em perigo de extinção, se é uma prática que entrou em estado de obsolescência, se deixou de nos surpreender, de nos seduzir e abalar. Será também um momento oportuno para tentar encontrar respostas não só para as perguntas lançadas pelos Encontros (“Que lugar ocupa hoje o preto e branco?”; “Realismo ou ficção, poesia, abstracção ou pura nostalgia?”) como para outras questões que podem ser colocadas: será produtivo (possível) discutir a este nível qualquer estética ou expressão fotográfica?; o preto e branco foi “a” fotografia durante muitas décadas, resistiu a inúmeros embates – fará sentido falar no seu desaparecimento puro e simples?
O actual director do festival François Hébel é um protagonista privilegiado para nos conduzir por estas reflexões. Com uma ligação à fotografia que remonta a 1979, quando começou a escrever para a revista Contact, publicada pela cadeia de lojas FNAC, foi ele que organizou as primeiras exposições de fotografia a cores de grande formato no Festival de Arles, em 1986, provocando um sentimento de rejeição no seio do núcleo duro (muito conservador) dos encontros que acontecem todos os anos desde 1970. Depois de mais de uma década como responsável máximo pela cooperativa Magnum em Paris (um dos templos do preto e branco), em 2002 assumiu de novo a liderança do festival, cargo que ocupa até hoje.
Agora, numa nova tentativa de fazer mexer as águas (mas agora ao contrário), Hébel assume algum “radicalismo” (é a palavra mais repetida do seu curto texto de apresentação dos Encontros) ao escolher um olhar sobre o preto e branco, programa que pode ser entendido como “paradoxal” já que assenta num “espírito de descoberta”. Descoberta? Sim, como se o preto e branco já fosse coisa de um passado muito longínquo. E assim encontrar (reencontrar) “verdadeiras pérolas”: como a retrospectiva (em estreia mundial) de um fotógrafo tão secreto quanto genial como o chileno Sergio Larrain (1931-2012); alguns dos primeiros trabalhos nunca mostrados em público do francês Guy Bourdin (1928-1991), descobertos numa caixa de cartão e meticulosamente separados em envelopes pardos; ou o olhar cirúrgico do britânico John Stezaker que com um laborioso corta e cola sobre fotografias encontradas e objectos gráficos nos oferece novas possibilidades para a leitura de todo o tipo de imagens.
Descoberta? Sim, ao revelar “criações inéditas de artistas consagrados”: como as paisagens marítimas nocturnas (a roçar a abstracção) do japonês Hiroshi Sugimoto (1948); ou um raro olhar a negro dos campos de lavanda da Provença e das artes que lhes estão associadas pela lente do português Paulo Nozolino (1955).
Descoberta? Sim, ao recuperar “tesouros do passado”: como as fotografias captadas com o intuito de integrar álbuns de família como as que Jacques Henri Lartigue (1894-1986) tirou à sua primeira mulher, a mais do que amada “Bibi”; ou as que Pierre Jamet (1910-2000) foi tirando no decorrer de grandes caminhadas no momento em que as pousadas de juventude conheceram em França uma grande dinâmica. Ainda no campo dos“tesouros”, daqueles que existem lá em casa, há aquela que é uma das melhores exposições da edição deste ano, Album Beauty, pensada pelo holandês Erik Kessels a partir da sua colecção, que nos transporta para dentro dos álbuns de família vernaculares, numa reflexão perspicaz sobre a morte acelerada deste universo fotográfico.

Maiorias, minorias
As excepções à “regra do preto e branco” dos Encontros de 2013 são mais do que muitas e se por um lado servem para fazer um simples contraponto visual à profusão de negros (como se as cores da Provença não fossem suficientes…) por outro revelam-se uma opção acertada quando é preciso recentrar o olhar no que é produção contemporânea dominante de modo a poder estabelecer relações (mais ou menos próximas) ou distâncias (mais ou menos inultrapassáveis). No caso das polaróides com estudos de cor (que também serviram para fazer caríssimos e exclusivos lenços Hermès) das alvoradas de Tóquio captadas por Sugimoto é possível perceber como o fotógrafo japonês explora o mesmo tema (a luz e as suas variações no tempo) independentemente do formato, da forma ou do suporte fotográfico utilizados. Ainda do lado das relações é interessante comparar os primeiros passos na fotografia de moda de Guy Bourdin (ainda a preto e branco, que a exposição Untouched também mostra) com as actuais criações da holandesa Viviane Sassen (colaboradora habitual de revistas alternativas como a Numero, Roxane ou Pop). Os dois revelam uma queda para as imagens desconcertantes a tocar o surrealismo. Já o Novo Mundo, a exposição apresentado por Wolfgang Tillmans (1968), desperta-nos para a anarquia e para a embriaguez de imagens saturadas de marcas e cores que estão muito longe do “romantismo” com que tendemos a olhar para as fotografias a preto e branco. É uma exposição que funciona como uma picadela de agulha, capaz de nos acordar do encantamento do canto das cigarras que por esta época enxameiam Arles. E que provoca um estremecimento depois do doce embalar dos matizes cinza que povoam a maioria das exposições do Parc des Ateliers, um enorme conjunto industrial ferroviário para onde está projectada uma obra de Frank Gehry dedicada ao estudo e à promoção da fotografia.
Fora do programa oficial mas mais do que dentro do espírito “a preto e branco” que pauta estes Encontros importa destacar mais duas exposições consagradas a dois mestres: Gordon Parks (1912-2006) e Daido Moriyama (1938). A longa carreira dedicada à fotografia do primeiro (que entre outros afazeres foi realizador de cinema, músico e escritor) é objecto de uma síntese que percorre os vários géneros de uma obra pioneira e a vários títulos excepcional. Parks foi o primeiro de muitas coisas na fotografia, no jornalismo e no cinema, mas o que marca a sua obra (frontalmente engajada com a luta contra todas as formas de discriminação a começar pelo racismo) é uma extraordinária sensibilidade para captar momentos intensos, quer se trate do retrato de uma empregada de limpeza (Ella Watson, na célebre American Gothic, 1942) ou de uma estrela de cinema (Ingrid Bergman na ilha de Stromboli, 1949). A exposição Une Histoire Américaine (a primeira consagrada ao fotógrafo em França) traça um percurso cronológico pela obra fotográfica do realizador de Shaft (1971), onde assumem especial protagonismo as imagens dos líderes que lutaram pelos direitos da comunidade afro-americana no pós-guerra, entre os quais Malcolm X e Martin Luther King. As fotografias de moda, outra das grandes paixões de Parks que trabalhou para a Vogue vários anos, são outro dos pontos altos de uma mostra que brilha também pelas soluções de montagem meticulosas e criativas na escuridão de uma das naves do Parc des Ateliers.
Mesmo ali ao lado, numa nave paralela, a mesma bitola de qualidade expositiva agora aplicada a Labyrinth + Monochrome, de Daido Moriyama. Coincidência, ou talvez não, as duas mostras que melhor souberam tirar partidos da arquitectura de montagem foram organizadas pela Association du Méjan, responsável pela editora Actes Sud, com sede em Arles, chancela de muitos fotolivros que todos os anos saem dos Encontros de fotografia.
A instalação fotográfica de Moriyama é um amplo abraço a quem nela entra. E um mergulho caleidoscópico pelo trabalho de um dos mais importantes fotógrafos vivos, responsável pela formação de uma atitude vanguardista no Japão do pós-guerra que influenciaria gerações de fotógrafos por todo mundo. Um longo muro circular coberto de imagens iguais (parecidas? diferentes?) de pernas entrelaçadas com meias rendadas suporta grandes painéis com folhas de contacto de duas séries distintas. Em Monochrome viajamos para as ruas de Tóquio, num fluxo de imagens taciturno e denso, a marca de água da obra de Daido Moriyama. Em Labyrinth, o mestre japonês joga com a disposição de fotogramas de todo o tipo e de diferentes épocas do seu percurso, inventando sequências e falsas narrativas num desafio à percepção e à capacidade de distinção entre o verdadeiro e o falso. O objectivo é também fazer estremecer o cânone fotográfico segundo o qual as obras-primas estão confinadas a uma única imagem.
Quem não está confinado a uma única imagem são as centenas de fotolivros que todos os anos chegam aos encontros na expectativa de levar o título de livro de fotografia do ano. Entre as obras que chegaram às mesas do Atelier de la Chaudronnerie, ainda no meio do calor abafado das imensas naves do Parc des Ateliers, havia pelo menos seis  títulos editados em Portugal: Rien (Pierre von Kleist), de André Cepeda, Blue Mud Swamp (ed. Pente 10 Gallery & Filipe Casaca), de Filipe Casaca, Lapa do Lobo (Fundação Lapa do Lobo), vários autores, The Time Machine (ed. The Moth House), de Edgar Martins, Couve e Coragem (ed. autor), de Lioba Keuck, e Bad Liver and Broken Heart (ed. Ghost), de São Trindade. O prémio Livro de Autor do Ano foi atribuído a Anticorps (ed. Editions Xavier Barral), do francês Antoine d`Agata, e o Prémio do Livro Histórico a AOI [COD. 19.I.I.43] – AZ7 [S/COD.23] (ed. autor), da brasileira Rosângela Rennó. O primeiro reúne parte de uma obra autobiográfica singular em torno das errâncias de um corpo que se move nos excessos, na noite e na vertigem da alienação total. O segundo recupera o que resta de um conjunto de álbuns fotográficos depositados num arquivo do Rio de Janeiro. E revela páginas desses álbuns sem nada, com o vazio que foi deixado pelos larápios que ao longo de anos foram cortando páginas e surripiando imagens de paisagens do Brasil.
Depois de uma passagem por todas as mesas onde pousam centenas de fotolivros, é possível arriscar que, pelo menos na produção gráfica, a cor domina (com uma margem confortável) o que não é propriamente uma novidade nos dias que correm. Mas também é possível dizer que a minoria ligada ao preto e branco (sem contar com os livros de história da fotografia) não está propriamente sentada em cima de uma vaca sagrada, o que significa que tem encontrado novos limites, novas formas de explorar o potencial gráfico e imagético de uma estética que perdura.

E essa dinâmica na produção fotográfica contemporânea - que já deixou de ser uma resistência contra o que quer que seja – também vai fazendo o seu caminho. O que quer dizer que o cisne do cartaz dos Encontros da edição deste ano, da autoria de Michel Bouvet, ainda não apareceu para entoar o seu canto fúnebre. Pelo menos desta vez.


Sergio Larraín, rua principal de Corleone, Sicília, Itália, 1959, Magnum Photos

14 agosto, 2013

Allan Sekula (1951-2013)

Allan Sekula, auto-retrato, (Lendo, 12/22/02), 2002-03, cibachrome

Morreu o fotógrafo, escritor, crítico e realizador norte-americano Allan Sekula, autor que se notabilizou a partir do início dos anos 70 pela desconstrução da suposta neutralidade das imagens fotográficas bem como pela aproximação da arte conceptual das práticas documentais. O crítico de artes plásticas do Público José Marmeleira escreveu um obituário que pode ser lido aqui.
A galeria Michel Rein representa o trabalho de Sekula em Paris que pode ser visto aqui.

10 agosto, 2013

da Terra

Sebastião Salgado, Génesis
© Sebastião Salgado/Amazonas images

Sebastião Salgado
Viagem aos lugares velhos da Terra
(Revista 2, 21.07.2013)

O difícil na fotografia de Sebastião Salgado é não ficar impressionado. Há muito que a estratégia visual de um dos mais reputados fotógrafos vivos joga com a escala. E essa dimensão agigantada (vasta, de cortar a respiração...) não está apenas naquilo que se passa dentro das suas imagens (acusam-nas de uma visualidade demasiado cinematográfica, grandiloquente...), mas sobretudo na atitude com que pratica o ofício, no tempo que lhe dedica, na ambição de ir longe, aonde poucos ou nenhuns foram, a lugares onde não há asfalto, mas onde há caminhos de terra batida por humanos ao longo de milhares de anos de história.

Desta vez, que é como quem diz ao longo de oito anos (2004-2011), Salgado quis dar imagem fotográfica ao começo de tudo, aos "lugares prístinos [anteriores, antigos, velhos] da Terra", na tentativa de demonstrar que ainda existe "um planeta puro, grande e majestoso". Percorreu montanhas, desertos e oceanos a bordo de tudo o que mexe nos quatro cantos do mundo. Aproximou-se de animais e embrenhou-se em paisagens que ficaram, até agora, à margem do desenvolvimento das sociedades modernas.

A viagem a esses lugares (32 grandes ensaios em outros tantos países) não exclui o Homem - pelo contrário, procura-o, mas apenas quando vive em comunhão com a natureza ou numa relação de equilíbrio com o meio que o rodeia. Para o fotógrafo, o resultado desta jornada é uma longa "carta de amor ao planeta", uma portentosa e exigente empreitada fotográfica que dificilmente poderia ter outro nome que não Génesis (da raiz grega "nascimento", "origem", o primeiro livro da Escritura, aquele em que se narra a criação do mundo).

A concretização deste projecto inscreve no extenso currículo de Sebastião Salgado (Aimorés, 1944) mais um ensaio com características épicas, depois do reconhecimento global obtido com Trabalhadores (1993), que documentou em todo o mundo os sinais do desaparecimento de um modo de vida baseado na manufactura, e Migrações (2000), registo das deslocações em massa de pessoas, forçadas pela fome, desastres naturais, condições ambientais degradadas ou pressão demográfica.

Para quem, como Salgado, se foi habituando a jornadas fotográficas de grande arcaboiço, o tempo vai deixando de contar ou, pelo menos, vai encontrando outras formas de ser contado. "Oito anos passam tão depressa! Mas tive o privilégio de ver os mais incríveis lugares do planeta e descobrir que dois terços da Terra são prístinos, estão como no Génesis." Este deslumbramento de Sebastião Salgado para com lugares que ainda permanecem intocáveis transparece de maneira óbvia nas fotografias seleccionadas para Génesis. Mas há também um fotógrafo renascido e duplamente entusiasmado com o culminar de um trabalho que talvez fique como a sua epopeia. Depois de Migrações, Salgado ponderou abandonar a fotografia, chocado com as condições de vida de muitos povos e com o número de mortes que viu à sua frente, especialmente no Ruanda. Nessa altura, ficou zangado não só com o mundo, mas também com a fotografia. De volta ao Brasil no início do novo milénio para se recompor física e psicologicamente, decidiu, por sugestão da sua mulher Lélia, recuperar a fazenda da família no vale do Rio Doce, Minas Gerais, começando por replantar árvores da floresta tropical que quase tinham desaparecido em seu redor. À medida que o projecto de preservação e recuperação ambiental foi crescendo (até hoje já foram plantadas mais de 2 milhões de árvores pelo Instituto Terra, gerido por Sebastião e Lélia), a vontade de fotografar regressou. Foi então que surgiu a ideia de Génesis, uma tentativa de viajar no tempo e uma carta visual a gerações vindouras, onde entre outros alertas está a certeza de que a natureza e a humanidade jamais se poderão separar.

"Com a veloz urbanização dos últimos cem anos, perdemos o contacto com o indómito, a fauna e a flora que representam a essência da vida na Terra", escreve Salgado no texto de apresentação do seu novo livro, confessando que, no início do projecto, havia mais vontade de concretizar fotografias que fizessem denúncias pela forma como estamos a abusar do planeta. No entanto, a renovação da natureza a que foi assistindo na Fazenda Bulcão fizeram-no alterar a trajectória rumo a uma abordagem mais "romântica", longe de qualquer cunho jornalístico, científico ou antropológico.

"Chamamos Génesis ao nosso projecto porque sonhamos atrasar o relógio até às erupções vulcânicas e aos sismos que deram forma à Terra. (...) Queria estudar a forma como a Humanidade e a natureza coexistiram durante tanto tempo naquilo a que hoje chamamos "equilíbrio ecológico"." A par do entusiasmo com o poder que as suas imagens podem ter na alteração de atitudes e consciências, com Génesis, Sebastião Salgado voltou a ter prazer no acto fotográfico. E a praticá-lo na sua máxima intensidade. "Fotografar é um prazer enorme (...) Andei em caminhos que foram sulcados há 3000 ou há 5000 mil anos. Quando se anda nestes lugares, recebe-se muita energia do passado."

Convidado para uma apresentação nas populares TED Talks (conferências curtas gravadas em vídeo), no início de Junho, o fotógrafo brasileiro deixou vários recados ambientalistas a partir das suas imagens mais recentes e afirmou que com Génesis quer potenciar "uma discussão sobre o que é que queremos fazer com o planeta". "Quero que estas imagens se tornem um sistema de informação, que possam ser uma nova apresentação da Terra", pediu emocionado.

Quando o patrão da Taschen, Benedickt foi ter com Salgado para lhe propor um livro que fizesse a retrospectiva de quatro décadas de trabalho (que se cumprem este ano), o fotógrafo brasileiro vacilou e acabou por negar o desafio. Justificou-se afirmando que os rostos que fotografou no passado tinham o seu lugar e o seu contexto e que deviam ficar como estão - não queria que figurassem num "livro de arte".

Em contrapartida, propôs-lhe o resultado de Génesis (que terminou no Pantanal, no final de 2011). Benedickt aceitou e pôs mãos à obra com a ambição de fazer um livro que "será não apenas uma referência na fotografia, como também na edição de fotolivros".

Para já - e para não destoar da escala do fotógrafo -, as escalas escolhidas pelo editor de Colónia impressionam: uma edição especial de 2500 cópias (46,8x70cm) assinadas por Salgado, com mais de 700 páginas (divididas por dois volumes), com um expositor em madeira de cerejeira concebido pelo consagrado arquitecto japonês Tadao Ando (3000 euros); uma edição de arte de 500 cópias (46,8x70 cm), com tudo da edição especial, mais uma fotografia original (8500 euros); e por fim uma edição com mais de 500 páginas (24,3x35,5) a um preço (muito) mais acessível (49,99 euros), que já está disponível em português.

Todos os livros foram concebidos e desenhados por Lélia Wanick Salgado, inseparável companheira de vida e de trabalho de Sebastião. E todos estão divididos em cinco partes: Os confins do Sul; Santuários; África; As terras do Norte; A Amazónia e o Pantanal.

Para Sebastião Salgado, a grande proeza de Lélia foi ter conseguido conceber os livros "como uma árvore", onde muitos ramos incluem fotografias impressas em páginas duplas, "de maneira a que se possa conviver com cada imagem um dia inteiro".

Para além das edições em livro, o projecto de Génesis inclui várias exposições em todo o mundo (para já, não está prevista nenhuma data para Portugal). A inauguração aconteceu no Museu de História Natural, em Londres (até 8 de Setembro), mas pode ser vista em simultâneo noutras cidades, como Ontário, Roma e Rio de Janeiro. Com data prevista de lançamento para Setembro, o documentário Sombra e Luz revelará mais detalhes do projecto. A longa-metragem terá a assinatura de Wim Wenders e de Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado que acompanhou o pai em muitas das suas viagens pelo mundo inteiro.

Quando alguém concretiza um projecto com esta dimensão, corre o risco de olhar para lá dele e não ser capaz de ver mais nada. Numa passagem por Lisboa, há quatro anos, perguntámos a Sebastião Salgado:

- E depois de Génesis?

- Não sei. Se ainda estiver vivo, vou pensar em outra coisa.




Sebastião Salgado, Génesis
© Sebastião Salgado/Amazonas images

14 julho, 2013

STET na Sá da Costa



A STET está outra vez fora de portas, agora em residência temporária na Livraria Sá da Costa, Lisboa, de 12 a 20 de Julho, das 15h as 21h, entrada pelo 19 da Rua Serpa Pinto ou 100 da Rua Garret (1 andar).

García-Alix em Lisboa




Quem for atrás do título Patria Querida para ver alguma coisa que tenha a ver com história, geografia ou com exaltações de nacionalidade desengane-se. A primeira grande exposição de fotografia de Alberto García-Alix em Portugal (Museu da Electricidade, Lisboa, até 18 de Agosto) tem um território definido, as Astúrias, Norte de Espanha, mas só isso – porque tudo resto é deriva, mundanidade, ambientes intemporais e estados de alma. Tudo coisas mais ou menos incontroláveis e imprevisíveis, muito à imagem da personalidade de García-Alix que confessa ter escolhido o nome do seu último grande trabalho a partir de um dos maiores clichés que se cola à região. É que, garante o fotógrafo de Leão, quando se juntam à mesma mesa cinco espanhóis com uns copos a mais e vem à baila a província nortenha, há sempre um deles que começa a cantar “Asturias! Paaatriaaa queriiiida, Auturias de mis amooores…”.
A ressonância desta Patria Querida é tão imediata, tão carnal, que García-Alix optou por não lutar contra ela. Pelo contrário, aproveitou a boleia de algumas das imagens feitas das Astúrias para nos dar um olhar poético, errante e livre capaz de produzir fotografias que embora estejam presas a um lugar, conseguem viver sem ele. Um mérito que talvez tenha alguma relação com a ausência de um guião, de uma encomenda (no sentido capitalista do termo), e o absoluto respeito pela liberdade criativa que a Fundación María Cristina Masaveu Peterson revelaram em relação ao ensaio pedido a Alberto García-Alix.
Mas afinal, qual era o desafio? No dia da inauguração da exposição, de palito ao canto da boca e voz muito rouca, a resposta de García-Alix veio pausada: “O desafio era fotografar um espaço, uma terra. Mas o maior desafio era fazê-lo bem. Era olhar, olhar, olhar…”. Olhar, não com o intuito de descobrir alguma coisa (“Não descobri nada nas Austúrias”), mas com o fito de transformar uma experiência e uma expectativa pessoais num trabalho criativo capaz de criar emoção e apego, de criar a experiência de um lugar.
A fundação asturiana (que inaugura com este trabalho uma série pensada a longo prazo que envolverá outros ex-premiados do festival PHotoEspaña) deu liberdade a García-Alix, e ele aproveitou-a ao máximo captando imagens muito diversificadas na forma mas que nunca abandonam um estilo muito particular, uma maneira de estar um pouco “à deriva”. “A fotografia para mim é um espaço onde se podem inventar coisas. É um espaço onde me invento a mim próprio. Essa liberdade inventiva é o que mais me fascina nisto que faço”. Fruto dessa errância (e de alguma despreocupação em provar o que quer que seja), estão lá paisagens longínquas de nevoeiros a entrelaçar montanhas, as paisagens minimais a imitar notas de música (muitas vezes parecem abstracções puras). Estão lá os retratos, um dos expoentes da arte fotográfica de Alberto García-Alix, e os ambientes em combustão (“Sempre gostei mais da decadência, da porosidade. Olho mais para aquilo que é retrocido, do que para aquilo que é imediato. Gosto da decadência dos espaços condenados a desaparecer”).
E como é que um fotógrafo colado à metrópole, às tribos urbanas da movida madrilena dos anos 80 se viu a captar a amplitude da paisagem asturiana, com montes que ameaçam rasgar o céu? “É a mesma coisa”, respondeu sem vacilar um segundo. “Para mim a fotografia é toda retrato. Retratar é uma postura. É enfrentar o que olho. Posiciono-me para com a paisagem como me posiciono para com os seres humanos – tento encontrar uma personalidade”.

Talvez personalidade seja a palavra-chave de Patria Querida. Durante a visita (mais às guinadas do que guiada) que fez com o PÚBLICO no Museu da Electricidade, García-Alix repetiu muitas vezes uma convicção: “Isto sim, isto são as Astúrias”. E apontou para uma estrada lúgubre com maquinaria de extracção de carvão a cercá-la. Para um imenso cartaz da Models, famosa casa de prostitutas da região. Ou para a fumaça deixada pelas bombas dos foguetes durante uma romaria. Pum! Pum! “Já tenho a festa popular! Isto sim, são as Austúrias!”.






16 junho, 2013

sem flash

Ricardo Rangel, da sériPão nosso de cada noite (Our Nightly Bread, 1959–1975) 



O ciclo de cinema do festival Futuro Próximo, na Gulbenkian, em Lisboa, programou para o dia 25 de Junho, às 22h, o filme Sem Flash - Homenagem a Ricardo Rangel (1924-2009), de Bruno Z'Graggen e Angelo Sansone. A moderação de um debate estará a cargo de Luís Carlos Patraquim.



Homenagem a Ricardo Rangel (1924–2009), o retrato cinematográfico sob a forma de documentário realizado pelo curador de exposições Bruno Z‘Graggen, com direção de fotografia do produtor de vídeo Angelo Sansone (ambos de Zurique), assume-se como um condigno ensaio sobre a obra do grande fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel.

Ricardo Rangel é considerado o decano da fotografia moçambicana e um dos mais destacados fotojornalistas africanos da segunda metade do século XX. As suas afinidades situam-se numa fotografia de documentário, na tradição dos fotógrafos da Magnum. Assumiu uma atitude crítica perante o regime colonial português, o que lhe trouxe conflitos com a censura e penas de prisão. Após a independência (1975), a sua contribuição foi importante na construção do novo estado socialista, sem que tenha perdido a distância face ao poder. Através da sua actuação orientadora como jornalista e como professor no Centro de Formação Fotográfica (CFF), Rangel marcou a seguinte geração de jovens fotógrafos e lançou de forma determinante os fundamentos para uma tradição de fotografia em Moçambique.

É extraordinário o legado de Ricardo Rangel. A sua obra como fotojornalista, fotógrafo independente e director do CFF abrange um período de criação de mais de 50 anos. A sua acção ajudou a moldar profundamente a imprensa em Moçambique como fotógrafo, editor de fotografia e cofundador de novos jornais ou revistas, empenhando-se em promover a fotografia. A sua obra-prima Pão nosso de cada noite (Our Nightly Bread, 1959–1975) trouxe-lhe o reconhecimento internacional a partir de meados dos anos 90, graças ao seu aparecimento em exposições e publicações. É uma obra que retrata de forma impressionante a intensa vida noturna de Lourenço Marques (Maputo). No início dos anos 80, tinha criado o CFF, assumindo as suas rédeas de 1983 até à sua morte. Este centro – com escola, serviço de documentação, estúdio e laboratório – é único no continente africano e o seu arquivo constitui uma memória visual de grande importância no país.

O filme mostra imagens de Ricardo Rangel em 2003, captadas em Maputo por ocasião da inauguração da exposição Iluminando Vidas. Ricardo Rangel & the Next Generation (cujos curadores foram Bruno Z‘Graggen e Grant Lee Neuenburg). Rangel fala energicamente das suas origens, das suas experiências como fotojornalista no período colonial, do seu amor pelo jazz e recorda cenários de Pão nosso de cada noite daquela época. Além disso, conduz o realizador por dentro do CFF e permite obter uma esclarecedora perspectiva das diversas áreas de actuação do centro de fotografia. Vê-se também as suas fotografias e ouve-se música de jazz.

Estas imagens são intercaladas com passagens mais longas de entrevistas com Alexandre Pomar (1947, Lisboa) e Sérgio Santimano (1956, Lourenço Marques/Maputo), realizadas em 2011. Pomar é um crítico de arte e jornalista português de grande renome e vive em Lisboa. Santimano, "aluno" de Rangel, é actualmente o fotógrafo moçambicano mais bem-sucedido internacionalmente e reside em Uppsala, na Suécia. Ambos recordam intensamente encontros pessoais com Ricardo Rangel e, do respectivo ponto de vista, explicam a importância do trabalho e da influência de Rangel, a receção da sua obra, abordando também a pessoa. Em complemento, ouvimos igualmente as palavras de Kok Nam (1939, Lourenço Marques/Maputo - 2012) - a par de Rangel, o mais importante fotógrafo do país e seu companheiro de viagem - e de Luís Carlos Patraquim (1953, Lourenço Marques/Maputo), poeta e jornalista.

O resultado é um denso retrato cinematográfico que nos aproxima de um fotógrafo fora do comum e de uma personalidade carismática: um homem absolutamente apaixonado pela fotografia e pelo jazz, com alegria de viver e sentido de humor, voluntarioso e incorruptível, com uma enorme capacidade criadora e um olhar sensível sobre os seres humanos em situações de vida difíceis.

Texto: Espaço Gesto




Ricardo Rangel 
© David Clifford/Público

Daca e Pompeia

Giorgio Sommer


Daca e Pompeia
(Revista 2, Público, 2.06.2013)

A magnitude dos escombros dobrou-lhes os corpos mas não foi capaz de lhes impedir o abraço. Os ferros que os rodeiam mais parecem ninhos de cobras que se preparam para cravar as suas mandíbulas. E esse abraço parece agora um escudo impenetrável que nenhum veneno há-de tombar. Um escudo formado a dois para atenuar o embate, para melhor responder ao medo e ao desespero de quem se encontra no lapso de tempo em que se agiganta a certeza de que a vida vai acabar.

Podemos olhar para a fotografia de Taslima Akhter assim, de maneira heróica. Ou podemos ir por outros caminhos.

Para além de todo o drama colectivo que simbolicamente carrega, o que desconcerta na imagem de Akhter (que correu mundo há alguns dias) é o registo daquilo que foi um terno e desesperado gesto de vida, agora condenado à clausura na fotografia como representação trágica da morte. E mais do que a representação de dois corpos sem vida (um tabu há muito ultrapassado) o que nos fere sobretudo é a exposição plena de um gesto que resulta do último momento de discernimento de duas pessoas fatalmente encurraladas. Um momento que é capaz de estar mais próximo de reivindicar intimidade e ausência de imagem do que ser transformado em estandarte visual da luta contra a exploração do trabalho em Daca, Bangladesh. Foi nesta cidade que ocorreu a tragédia que, em Abril, causou mais de mil mortos, quando um prédio com fábricas têxteis ruiu. Compreende-se o "desconforto" que Akhter já confessou de cada vez que olha para a sua fotografia. É que nela não se vê só a morte. Vê-se com despudor alguém (sempre) "a morrer".

Quando descobri este momento dupla e tragicamente congelado, lembrei-me das fotografias de Pompeia que mostram cadáveres apanhados pela lava da erupção do Vesúvio (79 d.C). Na verdade, muitas destas imagens do século XIX não mostram cadáveres, mas o seu duplo feito em gesso. A maior parte das albuminas sobre este tema captadas por Giorgio Sommer (1834-1914) revelam corpos que foram moldados a partir do espaço em vácuo onde acabaram por perecer. O que quer dizer que a lava que escorreu pelas encostas do vulcão se transformou num imenso negativo de morte que nos dá acesso a um tempo muito longínquo, uma ligação ao passado que, apesar da tragédia, nos fascina. Na fotografia de Taslima Akhter é o reboliço dos materiais do edifício que funciona como molde da expressão da morte, que nos confronta com a fatalidade destas duas pessoas. E que nos dá acesso a um tempo que desejaríamos não voltar a ver.




© Taslima Akhter


14 junho, 2013

PHE13

Fernando Brito, da série Tus pasos se perdieron con el paisaje
© Fernando Brito


PHotoEspaña sem medo do corpo como um campo de batalha
Sérgio B. Gomes, em Madrid
(Público, 7.06.2013)



Subverter estereótipos, contrariar clichés. A ambição do comissário-geral do PHotoEspaña 2013, que arrancou em Madrid esta semana com dezenas de inaugurações por toda a cidade, é a de derrubar muitas das ideias feitas quando se trata de associar a palavra corpo à palavra fotografia.

O cubano Gerardo Mosquera, que cumpre este ano o seu último comissariado-geral do festival, está consciente do terreno escorregadio que decidiu trilhar ao escolher para eixo temático o corpo humano sintetizado no título Corpo. Eros y Políticas. Tudo porque, desde que existe, a fotografia sempre esteve associada à nudez, e com ela a toda uma história de representação de cariz puramente sexual que deixa pouco espaço de manobra para outras formas de expressão criativa ligadas ao corpo humano. Mas, mesmo sabendo desta carga simbólica (e correndo mais riscos), Mosquera não quis deixar de lado no festival o erotismo na fotografia, um erotismo que em alguns casos não precisa de corpos. E, para baralhar ainda mais, há também expressão fotográfica sem uma intenção erótica de raiz cujo protagonista é o corpo despido.

Confuso? Então para que o caldo fotográfico da XVI edição do festival ficasse ainda mais condimentado, o comissário-geral juntou ao reino do Eros o papel da imagem fotográfica nas lutas pela libertação e afirmação do género, na afirmação da orientação sexual e na luta contra a discriminação, entre outras dimensões relacionadas com o corpo que transitaram de um campo pessoal ou íntimo para a esfera pública. O mesmo é dizer que também foram convocados trabalhos que tecem discursos críticos e que abordam criativamente o corpo enquanto território político.

No meio do caos organizado das inaugurações do festival que se sucedem a um ritmo alucinante, Gerardo Mosquera explicou ao PÚBLICO a intenção de fechar um ciclo iniciado no seu primeiro ano de comissariado com um tema central dedicado ao rosto: "Quis problematizar ainda mais o tema da representação humana e pensei fechar a minha participação no PHotoEspaña com o corpo, aqui entendido um pouco como contraponto ao rosto - o rosto como expressão da alma, e o corpo como expressão do terreno, do orgânico e da natureza. Trata-se de confrontar estes e outros clichés." O principal responsável pela secção oficial do festival de fotografia e artes visuais (que agrupa mais de 20 exposições) quis fugir o mais possível à simplificação com que se olha para o tema do corpo na fotografia. E para isso procurou exposições que mostrassem o corpo em toda a sua complexidade nas suas múltiplas implicações, entre as quais se contam o corpo coberto (Laura Torrado), o corpo oculto (Shirin Neshat), o corpo como afirmação e suporte de uma expressão cultural (Mujer. La vanguardia Feminista de los años 70) ou o corpo agredido (Fernando Brito).


Hannah Wilke, da série S. O. S. (Starification object series). 1975 
© VBK, Vienna, 2012/Courtesy of Ronald Feldman Fine Arts, New York/SAMMLUNG VERBUND, Vienna


"Não sou um artista"
Ainda que se multipliquem os espaços por onde se podem ver exposições relacionadas com o tema central do festival, o Círculo de Belas-Artes tem a virtude de acolher as propostas que melhor o sintetizam. Él, Ella, Ello. Diálogos entre Edward Weston y Harry Callahan estabelece cumplicidades criativas entre dois mestres da fotografia norte-americana através de imagens em que os corpos das mulheres amadas assumem lugares de afecto (imagens que são resultado do desejo e não veículo de desejo). Mosquera tinha pedido à comissária Laura González Flores uma exposição de Edward Weston (1886-1958), mas ela fez uma contraproposta juntando o trabalhos de Harry Callahan (1912-1999), transformando o universo dos dois fotógrafos num jogo visual pleno de sensualidade.

É o corpo erótico numa acepção poética.

Dois lanços de escadas acima, a enérgica e bem-disposta comissária austríaca Gabriele Schor apresentou parte da colecção Sammlung Verbund (pertencente à companhia eléctrica líder na Áustria) que desde 2004 se concentra na arte feminista dos anos 70. Para Schor, este filão representa uma vanguarda artística e coloca pela primeira vez na história da arte as mulheres a trabalharem visualmente o seu próprio corpo ou o corpo feminino. As séries Desenho Habitado (1978) e Estudo para Dois Espaços (1977) da portuguesa Helena Almeida estão representadas na exposição que relaciona o trabalho de 21 artistas e que através do corpo contribuíram para a construção de uma nova identidade imagética da mulher e em que a provocação joga um papel determinante.

É o corpo político numa acepção militante e disruptiva.

Numa nova sala de exposições do Círculo, revela-se o enigmático trabalho do fotógrafo polaco Zbigniew Dlubak (1921-2005), que trabalhou obsessivamente com a nudez, mas que nunca se considerou um especialista no género. Segundo explicou a comissária Karolina Lewandowska, Dlubak, um dos mais destacados fotógrafos da vanguarda polaca do pós-guerra, estava mais interessando em explorar as singularidades dos meios de representação e a experiência de movimento que ensaiava em séries de oito ou 12 imagens.

É o corpo como campo ínfimo de criação artística numa acepção geométrica e gráfica.

Abaixo do piso térreo, o mexicano Fernando Brito (editor de fotografia do jornal diário El Debate de Culiacán, do estado de Sinaloa) apresenta um dos trabalhos mais perturbantes do festival - cadáveres humanos prostrados na natureza depois de assassínios de grande violência. Este género de fotografia Brito não publica no jornal (a política editorial manda não mostrar corpos assassinados). Ele próprio demonstrou dificuldade em classificar as fotografias que produz após informadores da polícia e de outros grupos lhe darem indicações precisas sobre a localização dos cadáveres logo depois de descobertos.

Depois de várias perguntas, ficou a meio caminho entre o fotojornalismo e um tipo de imagem que ultrapassa o documento puro, rumo a uma conceptualização visual que envolve a paisagem bucólica (há corpos esventrados com pôr do sol) e a brutalidade humana. O certo é que, qualquer que seja o género de fotografia da série Os Teus Passo Perdem-se com a Paisagem, Brito (Prémio Descubrimientos PHE 2011 com este portfólio que continua a ser concretizado) confessa que, enquanto cidadão, não conseguiu ficar de braços cruzados perante um quotidiano de violência extrema em que já é "muito difícil de distinguir os bons e os maus". "Vivo nesta cidade [Culiacán]. A minha família vive nesta cidade. Quero uma cidade pacífica. E por isso faço este trabalho como uma denúncia", disse na apresentação desta fotografias que já foram também reconhecidas com um terceiro lugar no World Press Photo.

Brito explicou que, quando alguém é assassinado com muita violência, a sociedade tende a achar que a vítima era alguém com algum tipo de culpa confirmada pelos seus executores. Foi para tentar fugir a este quotidiano macabro e de impunidade que pôs em marcha este trabalho tentando manter "o máximo respeito pelos mortos e pelas suas famílias". Questionado pelo PÚBLICO sobre os perigos da estetização de um tema tão sensível quanto este, o fotógrafo respondeu: "Não sou um artista. Sou um cidadão com um problema."

Mas não deixa de ser o corpo agredido na acepção fotográfica do termo.




Zbigniew Dlubak, 1970-1978
© Archeology of Photography Foundation/A. Dlubak

05 junho, 2013

PHE13 #1

Laura Torrado, Transhumance II, 1993
© Laura Torrado, VEGAP, 2013


» Já desconfiava, mas agora tive a certeza de que o metro de Madrid simplesmente não passa facturas. Para ter um comprovativo do que se pagou é preciso ir à página do metro na net e pedir uma factura em PDF, garantiu-me a senhora do outro lado guichet. Nao sei muito bem como é que uma coisa destas pode funcionar (como raio sabem eles o que comprei!), mas cheira-me a economia paralela...

» A impressão geral com que se fica de um lugar também pode ser medida a partir das primeiras trocas depalavras com alguém. Se não conhece-se Madrid e julgasse a cidade pelo grunhido que um empregado de mesa me lançou depois de uma preguntita, diria que a cidade vive na pré-história.


» O modelo da exposição Taxonomía del caos aposta na surpresa e na estranheza e tem tudo para ser uma exposições mais originais e extraordinárias da secção oficial. O comissário e coleccionador Rafael Doctor sente-se como peixe na água no meio das suas imagens e do caos organizado em que as transformou. E promete viver no meio delas (e falar delas com que as vê) enquanto durar a exposição.

» No Canal Isabel II Laura Torrado brinca às escondidas com o corpo enquanto dá umas alfinetadas aosestereótipos de género. A instalação respiratória com que fecha a exposição é belo exercício criativo que nos aviva a percepção do nosso corpo.


» Antes de entrarmos no centro cultural de Alcobendas, houve tempo para conversa à mesa de um café que passava um duríssimo western spaghetti, quando seriam aí umas 18h.

» Mas na periferia de Madrid a fotografia também mexe - o município de Alcobendas quer transformar-se num lugar de referência para a fotografia em Espanha utilizando a sua colecção de fotografia (que tem 20 anos) e dando vida uma nova escola de fotografia em conjunto com a La Fabrica, que organiza o PHE.


» Madrid tem agora a feira do livro e está cheia de manifestações. Um grupo protestava contra o Bankia (banco tóxico) perto do Círculo de Belas Artes, outro instalou-se em frente a uma representação do PP a fazer uma cornetada. 

»Fomos comer um bocadillo de calamares ao Casco Viejo, mas não há nada que chegue aos calcanhares do Brillante, em Atocha.




28 maio, 2013

mostrar trabalho

Diogo Simões venceu a Leitura de portfólios em 2012


O Laboratório de Fotografia | Carpe Diem Arte e Pesquisa está a promover uma coisa rara em Portugal: leitura crítica de portefólios. Esta segunda edição está agendada para os dias 22 e 23 de Junho, dias em que 10 críticos irão discutir trabalhos de 30 artistas seleccionados previamente. Cada participante poderá escolher 6 críticos para apresentar o seu portefólio em sessões individuais de 25 minutos. Podem candidatar-se até ao dia 3 de Junho fotógrafos portugueses ou estrangeiros com mais de 18 anos. No final, os críticos escolherão um artista vencedor que ganhará uma residência artística no Carpe Diem Arte e Pesquisa (dez meses, com atelier privado no palácio da associação em Lisboa) e terá uma exposição integrada na programação 2015 do CDAP.


Críticos

>Eduardo Brito, fotógrafo, curador do CAAA, Guimarães
>Filipa Oliveira, curadora independente
>Vera Cortês, Vera Cortês Art Agency
>Rémi Coignet, crítico, curador, autor do blogue Des livres et des photos
>Liliana Coutinho, curadora independente
>Nuno Crespo, curador, crítico do jornal Público
>António Júlio Duarte, fotógrafo
>José Luís Neto, fotógrafo
>Jo Ractliffe, fotógrafa
>Daniel Blaufuks, fotógrafo

Mais informações e candidaturas aqui

21 maio, 2013

Pellegrin

© Paolo Pellegrin / Magnum Photos / Postcards from América/ AIC



No dia 12 de Maio de 2011, cinco fotógrafos da cooperativa de fotografia Magnum (Paolo Pellegrin, Jim Goldberg, Susan Meiselas, Alec Soth, Mikhael Subotzky) meteram pés ao caminho para a primeira viagem de uma longa jornada em conjunto a que chamaram Postcards from America. A ideia é simples: percorrer os Estados Unidos de uma forma errática, sem qualquer compromisso, ao sabor do que fosse surgindo à frente da câmara. A esta liberdade de acção, Paolo Pellegrin chamou "jornalismo activo", aquele que "deambula pelo mundo, que tenta retratar temas sociais e que tem uma relação com a história". Como condimento extra, os cinco fotógrafos entenderam contrariar o velho cliché do fotógrafo enquanto caçador solitário e organizaram as viagens de maneira a que todos pudessem dar a sua visão da realidade a partir dos mesmos locais. Meteram-se dentro de uma caravana acompanhados pela escritora Ginger Strand e imaginaram-se uma banda on the road à procura de "uma espécie de som polifónico visual". Até agora foram concretizadas quatro grandes deslocações, a última das quais em torno da região da Florida, durante as últimas eleições presidenciais, em 2012.

Enquanto estão no terreno, todos os envolvidos publicam imagens e textos na página postcardsfromamerica.tumblr.com, naquele que é o espelho mais imediato do projecto. Em alguns casos, coexistem também projectos editoriais com uma edição mais profunda e reflexiva, às vezes com todos os autores envolvidos, às vezes com um. Como é o caso do último fotolivro da organização Repórteres Sem Fronteiras, que desafiou Paolo Pellegrin a seleccionar cem fotografias de entre as milhares que captou durante as quatro viagens já realizadas. O resultado dessa escolha está em 100 Photos of Paolo Pellegrin for Press Freedom, apresentado no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que se assinalou a 3 de Maio. As imagens do multipremiado fotógrafo italiano, na Magnum desde 2005, abordam sobretudo o outro lado do sonho americano, desde as duras condições de vida em Miami (longe da miríade do sol e praia) até às zonas de fronteira com o México, onde a proximidade geográfica não consegue esconder enormes diferenças culturais. "Comecei a ser capaz de analisar o que para mim foi um chocante estado de coisas: uma cultura de vigilância enraizada; uma proliferação de armas; uma tensão racial; e uma profunda marginalização." Os vários ensaios de Pellegrin presentes nesta obra mostram-nos uma América na encruzilhada, suspensa "entre esperança e realidade", onde a decadência e o desânimo são palavras que ganham poder. Os lucros da venda do livro revertem para a organização dos Repórteres Sem Fronteiras.


© Paolo Pellegrin / Magnum Photos / Postcards from América/ AIC

 
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