15 agosto, 2013

(...)

© Pierre Jamet

(até já)

para Arles

Pieter Hugo, da série There´s a Place in Hell for Me and My Friends, cortesia Galeria Michael Stevenson


O que é que andamos a fazer com o preto e branco?
(Sérgio B. Gomes, em Arles, ípsilon, 9.08.2013)

Um festival de fotografia que em 2013 anuncia a celebração do preto e branco corre o risco de ser logo confundido com a brigada do reumático dos processos analógicos. Um cartaz que diz “Arles in Black” - que serve de cartão-de-visita à edição deste ano dos Encontros de Fotografia  de Arles, França - pode ser meio caminho andado para uma leitura imediatista que pode ligar aquele que é um dos mais importantes conclaves da fotografia no mundo à resistência à mudança ou à perpetuação dos exercícios saudosistas, a chorar banha e ranho pelo que foi e não volta a ser. Ao ancorar hoje o grosso da programação numa estética que marcou (e ainda marca?) de forma tão profunda o labor fotográfico, Arles não quis fazer apenas uma provocação – quis dar-nos um estado da arte deste universo para, através dele, mostrar como ainda se podem fazer descobertas e revelações. E, sobretudo, tentar provar como ainda fervilha a centelha criativa dos que escolhem exprimir-se através das gradações de cinzentos.
A velocidade alucinante a que tem caminhado tudo o que diz respeito à fotografia nos últimos anos tende a fazer-nos esquecer boa parte do que existia antes. Ou a deixar cada vez menos espaço para o entendimento do percurso e da história das múltiplas formas de expressão da imagem fotográfica. Mas se pensarmos bem, não estão assim tão distantes as décadas em que o preto e branco analógico dominava a fotografia como os dinossauros reinavam sobre a Terra, sem criaturas que lhe pudessem fazer frente. Até que surgiu um primeiro tremor de terra chamado cor. E depois outro chamado digital. Ora, sempre que abalos com esta dimensão se fazem sentir importa ir percebendo pontualmente que brechas foram abertas e que consequências deixaram.
Este festival (com mais de 50 exposições abertas até 22 de Setembro) pode servir para perceber se o preto e branco (analógico ou não) é um dinossauro em perigo de extinção, se é uma prática que entrou em estado de obsolescência, se deixou de nos surpreender, de nos seduzir e abalar. Será também um momento oportuno para tentar encontrar respostas não só para as perguntas lançadas pelos Encontros (“Que lugar ocupa hoje o preto e branco?”; “Realismo ou ficção, poesia, abstracção ou pura nostalgia?”) como para outras questões que podem ser colocadas: será produtivo (possível) discutir a este nível qualquer estética ou expressão fotográfica?; o preto e branco foi “a” fotografia durante muitas décadas, resistiu a inúmeros embates – fará sentido falar no seu desaparecimento puro e simples?
O actual director do festival François Hébel é um protagonista privilegiado para nos conduzir por estas reflexões. Com uma ligação à fotografia que remonta a 1979, quando começou a escrever para a revista Contact, publicada pela cadeia de lojas FNAC, foi ele que organizou as primeiras exposições de fotografia a cores de grande formato no Festival de Arles, em 1986, provocando um sentimento de rejeição no seio do núcleo duro (muito conservador) dos encontros que acontecem todos os anos desde 1970. Depois de mais de uma década como responsável máximo pela cooperativa Magnum em Paris (um dos templos do preto e branco), em 2002 assumiu de novo a liderança do festival, cargo que ocupa até hoje.
Agora, numa nova tentativa de fazer mexer as águas (mas agora ao contrário), Hébel assume algum “radicalismo” (é a palavra mais repetida do seu curto texto de apresentação dos Encontros) ao escolher um olhar sobre o preto e branco, programa que pode ser entendido como “paradoxal” já que assenta num “espírito de descoberta”. Descoberta? Sim, como se o preto e branco já fosse coisa de um passado muito longínquo. E assim encontrar (reencontrar) “verdadeiras pérolas”: como a retrospectiva (em estreia mundial) de um fotógrafo tão secreto quanto genial como o chileno Sergio Larrain (1931-2012); alguns dos primeiros trabalhos nunca mostrados em público do francês Guy Bourdin (1928-1991), descobertos numa caixa de cartão e meticulosamente separados em envelopes pardos; ou o olhar cirúrgico do britânico John Stezaker que com um laborioso corta e cola sobre fotografias encontradas e objectos gráficos nos oferece novas possibilidades para a leitura de todo o tipo de imagens.
Descoberta? Sim, ao revelar “criações inéditas de artistas consagrados”: como as paisagens marítimas nocturnas (a roçar a abstracção) do japonês Hiroshi Sugimoto (1948); ou um raro olhar a negro dos campos de lavanda da Provença e das artes que lhes estão associadas pela lente do português Paulo Nozolino (1955).
Descoberta? Sim, ao recuperar “tesouros do passado”: como as fotografias captadas com o intuito de integrar álbuns de família como as que Jacques Henri Lartigue (1894-1986) tirou à sua primeira mulher, a mais do que amada “Bibi”; ou as que Pierre Jamet (1910-2000) foi tirando no decorrer de grandes caminhadas no momento em que as pousadas de juventude conheceram em França uma grande dinâmica. Ainda no campo dos“tesouros”, daqueles que existem lá em casa, há aquela que é uma das melhores exposições da edição deste ano, Album Beauty, pensada pelo holandês Erik Kessels a partir da sua colecção, que nos transporta para dentro dos álbuns de família vernaculares, numa reflexão perspicaz sobre a morte acelerada deste universo fotográfico.

Maiorias, minorias
As excepções à “regra do preto e branco” dos Encontros de 2013 são mais do que muitas e se por um lado servem para fazer um simples contraponto visual à profusão de negros (como se as cores da Provença não fossem suficientes…) por outro revelam-se uma opção acertada quando é preciso recentrar o olhar no que é produção contemporânea dominante de modo a poder estabelecer relações (mais ou menos próximas) ou distâncias (mais ou menos inultrapassáveis). No caso das polaróides com estudos de cor (que também serviram para fazer caríssimos e exclusivos lenços Hermès) das alvoradas de Tóquio captadas por Sugimoto é possível perceber como o fotógrafo japonês explora o mesmo tema (a luz e as suas variações no tempo) independentemente do formato, da forma ou do suporte fotográfico utilizados. Ainda do lado das relações é interessante comparar os primeiros passos na fotografia de moda de Guy Bourdin (ainda a preto e branco, que a exposição Untouched também mostra) com as actuais criações da holandesa Viviane Sassen (colaboradora habitual de revistas alternativas como a Numero, Roxane ou Pop). Os dois revelam uma queda para as imagens desconcertantes a tocar o surrealismo. Já o Novo Mundo, a exposição apresentado por Wolfgang Tillmans (1968), desperta-nos para a anarquia e para a embriaguez de imagens saturadas de marcas e cores que estão muito longe do “romantismo” com que tendemos a olhar para as fotografias a preto e branco. É uma exposição que funciona como uma picadela de agulha, capaz de nos acordar do encantamento do canto das cigarras que por esta época enxameiam Arles. E que provoca um estremecimento depois do doce embalar dos matizes cinza que povoam a maioria das exposições do Parc des Ateliers, um enorme conjunto industrial ferroviário para onde está projectada uma obra de Frank Gehry dedicada ao estudo e à promoção da fotografia.
Fora do programa oficial mas mais do que dentro do espírito “a preto e branco” que pauta estes Encontros importa destacar mais duas exposições consagradas a dois mestres: Gordon Parks (1912-2006) e Daido Moriyama (1938). A longa carreira dedicada à fotografia do primeiro (que entre outros afazeres foi realizador de cinema, músico e escritor) é objecto de uma síntese que percorre os vários géneros de uma obra pioneira e a vários títulos excepcional. Parks foi o primeiro de muitas coisas na fotografia, no jornalismo e no cinema, mas o que marca a sua obra (frontalmente engajada com a luta contra todas as formas de discriminação a começar pelo racismo) é uma extraordinária sensibilidade para captar momentos intensos, quer se trate do retrato de uma empregada de limpeza (Ella Watson, na célebre American Gothic, 1942) ou de uma estrela de cinema (Ingrid Bergman na ilha de Stromboli, 1949). A exposição Une Histoire Américaine (a primeira consagrada ao fotógrafo em França) traça um percurso cronológico pela obra fotográfica do realizador de Shaft (1971), onde assumem especial protagonismo as imagens dos líderes que lutaram pelos direitos da comunidade afro-americana no pós-guerra, entre os quais Malcolm X e Martin Luther King. As fotografias de moda, outra das grandes paixões de Parks que trabalhou para a Vogue vários anos, são outro dos pontos altos de uma mostra que brilha também pelas soluções de montagem meticulosas e criativas na escuridão de uma das naves do Parc des Ateliers.
Mesmo ali ao lado, numa nave paralela, a mesma bitola de qualidade expositiva agora aplicada a Labyrinth + Monochrome, de Daido Moriyama. Coincidência, ou talvez não, as duas mostras que melhor souberam tirar partidos da arquitectura de montagem foram organizadas pela Association du Méjan, responsável pela editora Actes Sud, com sede em Arles, chancela de muitos fotolivros que todos os anos saem dos Encontros de fotografia.
A instalação fotográfica de Moriyama é um amplo abraço a quem nela entra. E um mergulho caleidoscópico pelo trabalho de um dos mais importantes fotógrafos vivos, responsável pela formação de uma atitude vanguardista no Japão do pós-guerra que influenciaria gerações de fotógrafos por todo mundo. Um longo muro circular coberto de imagens iguais (parecidas? diferentes?) de pernas entrelaçadas com meias rendadas suporta grandes painéis com folhas de contacto de duas séries distintas. Em Monochrome viajamos para as ruas de Tóquio, num fluxo de imagens taciturno e denso, a marca de água da obra de Daido Moriyama. Em Labyrinth, o mestre japonês joga com a disposição de fotogramas de todo o tipo e de diferentes épocas do seu percurso, inventando sequências e falsas narrativas num desafio à percepção e à capacidade de distinção entre o verdadeiro e o falso. O objectivo é também fazer estremecer o cânone fotográfico segundo o qual as obras-primas estão confinadas a uma única imagem.
Quem não está confinado a uma única imagem são as centenas de fotolivros que todos os anos chegam aos encontros na expectativa de levar o título de livro de fotografia do ano. Entre as obras que chegaram às mesas do Atelier de la Chaudronnerie, ainda no meio do calor abafado das imensas naves do Parc des Ateliers, havia pelo menos seis  títulos editados em Portugal: Rien (Pierre von Kleist), de André Cepeda, Blue Mud Swamp (ed. Pente 10 Gallery & Filipe Casaca), de Filipe Casaca, Lapa do Lobo (Fundação Lapa do Lobo), vários autores, The Time Machine (ed. The Moth House), de Edgar Martins, Couve e Coragem (ed. autor), de Lioba Keuck, e Bad Liver and Broken Heart (ed. Ghost), de São Trindade. O prémio Livro de Autor do Ano foi atribuído a Anticorps (ed. Editions Xavier Barral), do francês Antoine d`Agata, e o Prémio do Livro Histórico a AOI [COD. 19.I.I.43] – AZ7 [S/COD.23] (ed. autor), da brasileira Rosângela Rennó. O primeiro reúne parte de uma obra autobiográfica singular em torno das errâncias de um corpo que se move nos excessos, na noite e na vertigem da alienação total. O segundo recupera o que resta de um conjunto de álbuns fotográficos depositados num arquivo do Rio de Janeiro. E revela páginas desses álbuns sem nada, com o vazio que foi deixado pelos larápios que ao longo de anos foram cortando páginas e surripiando imagens de paisagens do Brasil.
Depois de uma passagem por todas as mesas onde pousam centenas de fotolivros, é possível arriscar que, pelo menos na produção gráfica, a cor domina (com uma margem confortável) o que não é propriamente uma novidade nos dias que correm. Mas também é possível dizer que a minoria ligada ao preto e branco (sem contar com os livros de história da fotografia) não está propriamente sentada em cima de uma vaca sagrada, o que significa que tem encontrado novos limites, novas formas de explorar o potencial gráfico e imagético de uma estética que perdura.

E essa dinâmica na produção fotográfica contemporânea - que já deixou de ser uma resistência contra o que quer que seja – também vai fazendo o seu caminho. O que quer dizer que o cisne do cartaz dos Encontros da edição deste ano, da autoria de Michel Bouvet, ainda não apareceu para entoar o seu canto fúnebre. Pelo menos desta vez.


Sergio Larraín, rua principal de Corleone, Sicília, Itália, 1959, Magnum Photos

14 agosto, 2013

Allan Sekula (1951-2013)

Allan Sekula, auto-retrato, (Lendo, 12/22/02), 2002-03, cibachrome

Morreu o fotógrafo, escritor, crítico e realizador norte-americano Allan Sekula, autor que se notabilizou a partir do início dos anos 70 pela desconstrução da suposta neutralidade das imagens fotográficas bem como pela aproximação da arte conceptual das práticas documentais. O crítico de artes plásticas do Público José Marmeleira escreveu um obituário que pode ser lido aqui.
A galeria Michel Rein representa o trabalho de Sekula em Paris que pode ser visto aqui.

10 agosto, 2013

da Terra

Sebastião Salgado, Génesis
© Sebastião Salgado/Amazonas images

Sebastião Salgado
Viagem aos lugares velhos da Terra
(Revista 2, 21.07.2013)

O difícil na fotografia de Sebastião Salgado é não ficar impressionado. Há muito que a estratégia visual de um dos mais reputados fotógrafos vivos joga com a escala. E essa dimensão agigantada (vasta, de cortar a respiração...) não está apenas naquilo que se passa dentro das suas imagens (acusam-nas de uma visualidade demasiado cinematográfica, grandiloquente...), mas sobretudo na atitude com que pratica o ofício, no tempo que lhe dedica, na ambição de ir longe, aonde poucos ou nenhuns foram, a lugares onde não há asfalto, mas onde há caminhos de terra batida por humanos ao longo de milhares de anos de história.

Desta vez, que é como quem diz ao longo de oito anos (2004-2011), Salgado quis dar imagem fotográfica ao começo de tudo, aos "lugares prístinos [anteriores, antigos, velhos] da Terra", na tentativa de demonstrar que ainda existe "um planeta puro, grande e majestoso". Percorreu montanhas, desertos e oceanos a bordo de tudo o que mexe nos quatro cantos do mundo. Aproximou-se de animais e embrenhou-se em paisagens que ficaram, até agora, à margem do desenvolvimento das sociedades modernas.

A viagem a esses lugares (32 grandes ensaios em outros tantos países) não exclui o Homem - pelo contrário, procura-o, mas apenas quando vive em comunhão com a natureza ou numa relação de equilíbrio com o meio que o rodeia. Para o fotógrafo, o resultado desta jornada é uma longa "carta de amor ao planeta", uma portentosa e exigente empreitada fotográfica que dificilmente poderia ter outro nome que não Génesis (da raiz grega "nascimento", "origem", o primeiro livro da Escritura, aquele em que se narra a criação do mundo).

A concretização deste projecto inscreve no extenso currículo de Sebastião Salgado (Aimorés, 1944) mais um ensaio com características épicas, depois do reconhecimento global obtido com Trabalhadores (1993), que documentou em todo o mundo os sinais do desaparecimento de um modo de vida baseado na manufactura, e Migrações (2000), registo das deslocações em massa de pessoas, forçadas pela fome, desastres naturais, condições ambientais degradadas ou pressão demográfica.

Para quem, como Salgado, se foi habituando a jornadas fotográficas de grande arcaboiço, o tempo vai deixando de contar ou, pelo menos, vai encontrando outras formas de ser contado. "Oito anos passam tão depressa! Mas tive o privilégio de ver os mais incríveis lugares do planeta e descobrir que dois terços da Terra são prístinos, estão como no Génesis." Este deslumbramento de Sebastião Salgado para com lugares que ainda permanecem intocáveis transparece de maneira óbvia nas fotografias seleccionadas para Génesis. Mas há também um fotógrafo renascido e duplamente entusiasmado com o culminar de um trabalho que talvez fique como a sua epopeia. Depois de Migrações, Salgado ponderou abandonar a fotografia, chocado com as condições de vida de muitos povos e com o número de mortes que viu à sua frente, especialmente no Ruanda. Nessa altura, ficou zangado não só com o mundo, mas também com a fotografia. De volta ao Brasil no início do novo milénio para se recompor física e psicologicamente, decidiu, por sugestão da sua mulher Lélia, recuperar a fazenda da família no vale do Rio Doce, Minas Gerais, começando por replantar árvores da floresta tropical que quase tinham desaparecido em seu redor. À medida que o projecto de preservação e recuperação ambiental foi crescendo (até hoje já foram plantadas mais de 2 milhões de árvores pelo Instituto Terra, gerido por Sebastião e Lélia), a vontade de fotografar regressou. Foi então que surgiu a ideia de Génesis, uma tentativa de viajar no tempo e uma carta visual a gerações vindouras, onde entre outros alertas está a certeza de que a natureza e a humanidade jamais se poderão separar.

"Com a veloz urbanização dos últimos cem anos, perdemos o contacto com o indómito, a fauna e a flora que representam a essência da vida na Terra", escreve Salgado no texto de apresentação do seu novo livro, confessando que, no início do projecto, havia mais vontade de concretizar fotografias que fizessem denúncias pela forma como estamos a abusar do planeta. No entanto, a renovação da natureza a que foi assistindo na Fazenda Bulcão fizeram-no alterar a trajectória rumo a uma abordagem mais "romântica", longe de qualquer cunho jornalístico, científico ou antropológico.

"Chamamos Génesis ao nosso projecto porque sonhamos atrasar o relógio até às erupções vulcânicas e aos sismos que deram forma à Terra. (...) Queria estudar a forma como a Humanidade e a natureza coexistiram durante tanto tempo naquilo a que hoje chamamos "equilíbrio ecológico"." A par do entusiasmo com o poder que as suas imagens podem ter na alteração de atitudes e consciências, com Génesis, Sebastião Salgado voltou a ter prazer no acto fotográfico. E a praticá-lo na sua máxima intensidade. "Fotografar é um prazer enorme (...) Andei em caminhos que foram sulcados há 3000 ou há 5000 mil anos. Quando se anda nestes lugares, recebe-se muita energia do passado."

Convidado para uma apresentação nas populares TED Talks (conferências curtas gravadas em vídeo), no início de Junho, o fotógrafo brasileiro deixou vários recados ambientalistas a partir das suas imagens mais recentes e afirmou que com Génesis quer potenciar "uma discussão sobre o que é que queremos fazer com o planeta". "Quero que estas imagens se tornem um sistema de informação, que possam ser uma nova apresentação da Terra", pediu emocionado.

Quando o patrão da Taschen, Benedickt foi ter com Salgado para lhe propor um livro que fizesse a retrospectiva de quatro décadas de trabalho (que se cumprem este ano), o fotógrafo brasileiro vacilou e acabou por negar o desafio. Justificou-se afirmando que os rostos que fotografou no passado tinham o seu lugar e o seu contexto e que deviam ficar como estão - não queria que figurassem num "livro de arte".

Em contrapartida, propôs-lhe o resultado de Génesis (que terminou no Pantanal, no final de 2011). Benedickt aceitou e pôs mãos à obra com a ambição de fazer um livro que "será não apenas uma referência na fotografia, como também na edição de fotolivros".

Para já - e para não destoar da escala do fotógrafo -, as escalas escolhidas pelo editor de Colónia impressionam: uma edição especial de 2500 cópias (46,8x70cm) assinadas por Salgado, com mais de 700 páginas (divididas por dois volumes), com um expositor em madeira de cerejeira concebido pelo consagrado arquitecto japonês Tadao Ando (3000 euros); uma edição de arte de 500 cópias (46,8x70 cm), com tudo da edição especial, mais uma fotografia original (8500 euros); e por fim uma edição com mais de 500 páginas (24,3x35,5) a um preço (muito) mais acessível (49,99 euros), que já está disponível em português.

Todos os livros foram concebidos e desenhados por Lélia Wanick Salgado, inseparável companheira de vida e de trabalho de Sebastião. E todos estão divididos em cinco partes: Os confins do Sul; Santuários; África; As terras do Norte; A Amazónia e o Pantanal.

Para Sebastião Salgado, a grande proeza de Lélia foi ter conseguido conceber os livros "como uma árvore", onde muitos ramos incluem fotografias impressas em páginas duplas, "de maneira a que se possa conviver com cada imagem um dia inteiro".

Para além das edições em livro, o projecto de Génesis inclui várias exposições em todo o mundo (para já, não está prevista nenhuma data para Portugal). A inauguração aconteceu no Museu de História Natural, em Londres (até 8 de Setembro), mas pode ser vista em simultâneo noutras cidades, como Ontário, Roma e Rio de Janeiro. Com data prevista de lançamento para Setembro, o documentário Sombra e Luz revelará mais detalhes do projecto. A longa-metragem terá a assinatura de Wim Wenders e de Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado que acompanhou o pai em muitas das suas viagens pelo mundo inteiro.

Quando alguém concretiza um projecto com esta dimensão, corre o risco de olhar para lá dele e não ser capaz de ver mais nada. Numa passagem por Lisboa, há quatro anos, perguntámos a Sebastião Salgado:

- E depois de Génesis?

- Não sei. Se ainda estiver vivo, vou pensar em outra coisa.




Sebastião Salgado, Génesis
© Sebastião Salgado/Amazonas images

14 julho, 2013

STET na Sá da Costa



A STET está outra vez fora de portas, agora em residência temporária na Livraria Sá da Costa, Lisboa, de 12 a 20 de Julho, das 15h as 21h, entrada pelo 19 da Rua Serpa Pinto ou 100 da Rua Garret (1 andar).

García-Alix em Lisboa




Quem for atrás do título Patria Querida para ver alguma coisa que tenha a ver com história, geografia ou com exaltações de nacionalidade desengane-se. A primeira grande exposição de fotografia de Alberto García-Alix em Portugal (Museu da Electricidade, Lisboa, até 18 de Agosto) tem um território definido, as Astúrias, Norte de Espanha, mas só isso – porque tudo resto é deriva, mundanidade, ambientes intemporais e estados de alma. Tudo coisas mais ou menos incontroláveis e imprevisíveis, muito à imagem da personalidade de García-Alix que confessa ter escolhido o nome do seu último grande trabalho a partir de um dos maiores clichés que se cola à região. É que, garante o fotógrafo de Leão, quando se juntam à mesma mesa cinco espanhóis com uns copos a mais e vem à baila a província nortenha, há sempre um deles que começa a cantar “Asturias! Paaatriaaa queriiiida, Auturias de mis amooores…”.
A ressonância desta Patria Querida é tão imediata, tão carnal, que García-Alix optou por não lutar contra ela. Pelo contrário, aproveitou a boleia de algumas das imagens feitas das Astúrias para nos dar um olhar poético, errante e livre capaz de produzir fotografias que embora estejam presas a um lugar, conseguem viver sem ele. Um mérito que talvez tenha alguma relação com a ausência de um guião, de uma encomenda (no sentido capitalista do termo), e o absoluto respeito pela liberdade criativa que a Fundación María Cristina Masaveu Peterson revelaram em relação ao ensaio pedido a Alberto García-Alix.
Mas afinal, qual era o desafio? No dia da inauguração da exposição, de palito ao canto da boca e voz muito rouca, a resposta de García-Alix veio pausada: “O desafio era fotografar um espaço, uma terra. Mas o maior desafio era fazê-lo bem. Era olhar, olhar, olhar…”. Olhar, não com o intuito de descobrir alguma coisa (“Não descobri nada nas Austúrias”), mas com o fito de transformar uma experiência e uma expectativa pessoais num trabalho criativo capaz de criar emoção e apego, de criar a experiência de um lugar.
A fundação asturiana (que inaugura com este trabalho uma série pensada a longo prazo que envolverá outros ex-premiados do festival PHotoEspaña) deu liberdade a García-Alix, e ele aproveitou-a ao máximo captando imagens muito diversificadas na forma mas que nunca abandonam um estilo muito particular, uma maneira de estar um pouco “à deriva”. “A fotografia para mim é um espaço onde se podem inventar coisas. É um espaço onde me invento a mim próprio. Essa liberdade inventiva é o que mais me fascina nisto que faço”. Fruto dessa errância (e de alguma despreocupação em provar o que quer que seja), estão lá paisagens longínquas de nevoeiros a entrelaçar montanhas, as paisagens minimais a imitar notas de música (muitas vezes parecem abstracções puras). Estão lá os retratos, um dos expoentes da arte fotográfica de Alberto García-Alix, e os ambientes em combustão (“Sempre gostei mais da decadência, da porosidade. Olho mais para aquilo que é retrocido, do que para aquilo que é imediato. Gosto da decadência dos espaços condenados a desaparecer”).
E como é que um fotógrafo colado à metrópole, às tribos urbanas da movida madrilena dos anos 80 se viu a captar a amplitude da paisagem asturiana, com montes que ameaçam rasgar o céu? “É a mesma coisa”, respondeu sem vacilar um segundo. “Para mim a fotografia é toda retrato. Retratar é uma postura. É enfrentar o que olho. Posiciono-me para com a paisagem como me posiciono para com os seres humanos – tento encontrar uma personalidade”.

Talvez personalidade seja a palavra-chave de Patria Querida. Durante a visita (mais às guinadas do que guiada) que fez com o PÚBLICO no Museu da Electricidade, García-Alix repetiu muitas vezes uma convicção: “Isto sim, isto são as Astúrias”. E apontou para uma estrada lúgubre com maquinaria de extracção de carvão a cercá-la. Para um imenso cartaz da Models, famosa casa de prostitutas da região. Ou para a fumaça deixada pelas bombas dos foguetes durante uma romaria. Pum! Pum! “Já tenho a festa popular! Isto sim, são as Austúrias!”.






16 junho, 2013

sem flash

Ricardo Rangel, da sériPão nosso de cada noite (Our Nightly Bread, 1959–1975) 



O ciclo de cinema do festival Futuro Próximo, na Gulbenkian, em Lisboa, programou para o dia 25 de Junho, às 22h, o filme Sem Flash - Homenagem a Ricardo Rangel (1924-2009), de Bruno Z'Graggen e Angelo Sansone. A moderação de um debate estará a cargo de Luís Carlos Patraquim.



Homenagem a Ricardo Rangel (1924–2009), o retrato cinematográfico sob a forma de documentário realizado pelo curador de exposições Bruno Z‘Graggen, com direção de fotografia do produtor de vídeo Angelo Sansone (ambos de Zurique), assume-se como um condigno ensaio sobre a obra do grande fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel.

Ricardo Rangel é considerado o decano da fotografia moçambicana e um dos mais destacados fotojornalistas africanos da segunda metade do século XX. As suas afinidades situam-se numa fotografia de documentário, na tradição dos fotógrafos da Magnum. Assumiu uma atitude crítica perante o regime colonial português, o que lhe trouxe conflitos com a censura e penas de prisão. Após a independência (1975), a sua contribuição foi importante na construção do novo estado socialista, sem que tenha perdido a distância face ao poder. Através da sua actuação orientadora como jornalista e como professor no Centro de Formação Fotográfica (CFF), Rangel marcou a seguinte geração de jovens fotógrafos e lançou de forma determinante os fundamentos para uma tradição de fotografia em Moçambique.

É extraordinário o legado de Ricardo Rangel. A sua obra como fotojornalista, fotógrafo independente e director do CFF abrange um período de criação de mais de 50 anos. A sua acção ajudou a moldar profundamente a imprensa em Moçambique como fotógrafo, editor de fotografia e cofundador de novos jornais ou revistas, empenhando-se em promover a fotografia. A sua obra-prima Pão nosso de cada noite (Our Nightly Bread, 1959–1975) trouxe-lhe o reconhecimento internacional a partir de meados dos anos 90, graças ao seu aparecimento em exposições e publicações. É uma obra que retrata de forma impressionante a intensa vida noturna de Lourenço Marques (Maputo). No início dos anos 80, tinha criado o CFF, assumindo as suas rédeas de 1983 até à sua morte. Este centro – com escola, serviço de documentação, estúdio e laboratório – é único no continente africano e o seu arquivo constitui uma memória visual de grande importância no país.

O filme mostra imagens de Ricardo Rangel em 2003, captadas em Maputo por ocasião da inauguração da exposição Iluminando Vidas. Ricardo Rangel & the Next Generation (cujos curadores foram Bruno Z‘Graggen e Grant Lee Neuenburg). Rangel fala energicamente das suas origens, das suas experiências como fotojornalista no período colonial, do seu amor pelo jazz e recorda cenários de Pão nosso de cada noite daquela época. Além disso, conduz o realizador por dentro do CFF e permite obter uma esclarecedora perspectiva das diversas áreas de actuação do centro de fotografia. Vê-se também as suas fotografias e ouve-se música de jazz.

Estas imagens são intercaladas com passagens mais longas de entrevistas com Alexandre Pomar (1947, Lisboa) e Sérgio Santimano (1956, Lourenço Marques/Maputo), realizadas em 2011. Pomar é um crítico de arte e jornalista português de grande renome e vive em Lisboa. Santimano, "aluno" de Rangel, é actualmente o fotógrafo moçambicano mais bem-sucedido internacionalmente e reside em Uppsala, na Suécia. Ambos recordam intensamente encontros pessoais com Ricardo Rangel e, do respectivo ponto de vista, explicam a importância do trabalho e da influência de Rangel, a receção da sua obra, abordando também a pessoa. Em complemento, ouvimos igualmente as palavras de Kok Nam (1939, Lourenço Marques/Maputo - 2012) - a par de Rangel, o mais importante fotógrafo do país e seu companheiro de viagem - e de Luís Carlos Patraquim (1953, Lourenço Marques/Maputo), poeta e jornalista.

O resultado é um denso retrato cinematográfico que nos aproxima de um fotógrafo fora do comum e de uma personalidade carismática: um homem absolutamente apaixonado pela fotografia e pelo jazz, com alegria de viver e sentido de humor, voluntarioso e incorruptível, com uma enorme capacidade criadora e um olhar sensível sobre os seres humanos em situações de vida difíceis.

Texto: Espaço Gesto




Ricardo Rangel 
© David Clifford/Público

Daca e Pompeia

Giorgio Sommer


Daca e Pompeia
(Revista 2, Público, 2.06.2013)

A magnitude dos escombros dobrou-lhes os corpos mas não foi capaz de lhes impedir o abraço. Os ferros que os rodeiam mais parecem ninhos de cobras que se preparam para cravar as suas mandíbulas. E esse abraço parece agora um escudo impenetrável que nenhum veneno há-de tombar. Um escudo formado a dois para atenuar o embate, para melhor responder ao medo e ao desespero de quem se encontra no lapso de tempo em que se agiganta a certeza de que a vida vai acabar.

Podemos olhar para a fotografia de Taslima Akhter assim, de maneira heróica. Ou podemos ir por outros caminhos.

Para além de todo o drama colectivo que simbolicamente carrega, o que desconcerta na imagem de Akhter (que correu mundo há alguns dias) é o registo daquilo que foi um terno e desesperado gesto de vida, agora condenado à clausura na fotografia como representação trágica da morte. E mais do que a representação de dois corpos sem vida (um tabu há muito ultrapassado) o que nos fere sobretudo é a exposição plena de um gesto que resulta do último momento de discernimento de duas pessoas fatalmente encurraladas. Um momento que é capaz de estar mais próximo de reivindicar intimidade e ausência de imagem do que ser transformado em estandarte visual da luta contra a exploração do trabalho em Daca, Bangladesh. Foi nesta cidade que ocorreu a tragédia que, em Abril, causou mais de mil mortos, quando um prédio com fábricas têxteis ruiu. Compreende-se o "desconforto" que Akhter já confessou de cada vez que olha para a sua fotografia. É que nela não se vê só a morte. Vê-se com despudor alguém (sempre) "a morrer".

Quando descobri este momento dupla e tragicamente congelado, lembrei-me das fotografias de Pompeia que mostram cadáveres apanhados pela lava da erupção do Vesúvio (79 d.C). Na verdade, muitas destas imagens do século XIX não mostram cadáveres, mas o seu duplo feito em gesso. A maior parte das albuminas sobre este tema captadas por Giorgio Sommer (1834-1914) revelam corpos que foram moldados a partir do espaço em vácuo onde acabaram por perecer. O que quer dizer que a lava que escorreu pelas encostas do vulcão se transformou num imenso negativo de morte que nos dá acesso a um tempo muito longínquo, uma ligação ao passado que, apesar da tragédia, nos fascina. Na fotografia de Taslima Akhter é o reboliço dos materiais do edifício que funciona como molde da expressão da morte, que nos confronta com a fatalidade destas duas pessoas. E que nos dá acesso a um tempo que desejaríamos não voltar a ver.




© Taslima Akhter


14 junho, 2013

PHE13

Fernando Brito, da série Tus pasos se perdieron con el paisaje
© Fernando Brito


PHotoEspaña sem medo do corpo como um campo de batalha
Sérgio B. Gomes, em Madrid
(Público, 7.06.2013)



Subverter estereótipos, contrariar clichés. A ambição do comissário-geral do PHotoEspaña 2013, que arrancou em Madrid esta semana com dezenas de inaugurações por toda a cidade, é a de derrubar muitas das ideias feitas quando se trata de associar a palavra corpo à palavra fotografia.

O cubano Gerardo Mosquera, que cumpre este ano o seu último comissariado-geral do festival, está consciente do terreno escorregadio que decidiu trilhar ao escolher para eixo temático o corpo humano sintetizado no título Corpo. Eros y Políticas. Tudo porque, desde que existe, a fotografia sempre esteve associada à nudez, e com ela a toda uma história de representação de cariz puramente sexual que deixa pouco espaço de manobra para outras formas de expressão criativa ligadas ao corpo humano. Mas, mesmo sabendo desta carga simbólica (e correndo mais riscos), Mosquera não quis deixar de lado no festival o erotismo na fotografia, um erotismo que em alguns casos não precisa de corpos. E, para baralhar ainda mais, há também expressão fotográfica sem uma intenção erótica de raiz cujo protagonista é o corpo despido.

Confuso? Então para que o caldo fotográfico da XVI edição do festival ficasse ainda mais condimentado, o comissário-geral juntou ao reino do Eros o papel da imagem fotográfica nas lutas pela libertação e afirmação do género, na afirmação da orientação sexual e na luta contra a discriminação, entre outras dimensões relacionadas com o corpo que transitaram de um campo pessoal ou íntimo para a esfera pública. O mesmo é dizer que também foram convocados trabalhos que tecem discursos críticos e que abordam criativamente o corpo enquanto território político.

No meio do caos organizado das inaugurações do festival que se sucedem a um ritmo alucinante, Gerardo Mosquera explicou ao PÚBLICO a intenção de fechar um ciclo iniciado no seu primeiro ano de comissariado com um tema central dedicado ao rosto: "Quis problematizar ainda mais o tema da representação humana e pensei fechar a minha participação no PHotoEspaña com o corpo, aqui entendido um pouco como contraponto ao rosto - o rosto como expressão da alma, e o corpo como expressão do terreno, do orgânico e da natureza. Trata-se de confrontar estes e outros clichés." O principal responsável pela secção oficial do festival de fotografia e artes visuais (que agrupa mais de 20 exposições) quis fugir o mais possível à simplificação com que se olha para o tema do corpo na fotografia. E para isso procurou exposições que mostrassem o corpo em toda a sua complexidade nas suas múltiplas implicações, entre as quais se contam o corpo coberto (Laura Torrado), o corpo oculto (Shirin Neshat), o corpo como afirmação e suporte de uma expressão cultural (Mujer. La vanguardia Feminista de los años 70) ou o corpo agredido (Fernando Brito).


Hannah Wilke, da série S. O. S. (Starification object series). 1975 
© VBK, Vienna, 2012/Courtesy of Ronald Feldman Fine Arts, New York/SAMMLUNG VERBUND, Vienna


"Não sou um artista"
Ainda que se multipliquem os espaços por onde se podem ver exposições relacionadas com o tema central do festival, o Círculo de Belas-Artes tem a virtude de acolher as propostas que melhor o sintetizam. Él, Ella, Ello. Diálogos entre Edward Weston y Harry Callahan estabelece cumplicidades criativas entre dois mestres da fotografia norte-americana através de imagens em que os corpos das mulheres amadas assumem lugares de afecto (imagens que são resultado do desejo e não veículo de desejo). Mosquera tinha pedido à comissária Laura González Flores uma exposição de Edward Weston (1886-1958), mas ela fez uma contraproposta juntando o trabalhos de Harry Callahan (1912-1999), transformando o universo dos dois fotógrafos num jogo visual pleno de sensualidade.

É o corpo erótico numa acepção poética.

Dois lanços de escadas acima, a enérgica e bem-disposta comissária austríaca Gabriele Schor apresentou parte da colecção Sammlung Verbund (pertencente à companhia eléctrica líder na Áustria) que desde 2004 se concentra na arte feminista dos anos 70. Para Schor, este filão representa uma vanguarda artística e coloca pela primeira vez na história da arte as mulheres a trabalharem visualmente o seu próprio corpo ou o corpo feminino. As séries Desenho Habitado (1978) e Estudo para Dois Espaços (1977) da portuguesa Helena Almeida estão representadas na exposição que relaciona o trabalho de 21 artistas e que através do corpo contribuíram para a construção de uma nova identidade imagética da mulher e em que a provocação joga um papel determinante.

É o corpo político numa acepção militante e disruptiva.

Numa nova sala de exposições do Círculo, revela-se o enigmático trabalho do fotógrafo polaco Zbigniew Dlubak (1921-2005), que trabalhou obsessivamente com a nudez, mas que nunca se considerou um especialista no género. Segundo explicou a comissária Karolina Lewandowska, Dlubak, um dos mais destacados fotógrafos da vanguarda polaca do pós-guerra, estava mais interessando em explorar as singularidades dos meios de representação e a experiência de movimento que ensaiava em séries de oito ou 12 imagens.

É o corpo como campo ínfimo de criação artística numa acepção geométrica e gráfica.

Abaixo do piso térreo, o mexicano Fernando Brito (editor de fotografia do jornal diário El Debate de Culiacán, do estado de Sinaloa) apresenta um dos trabalhos mais perturbantes do festival - cadáveres humanos prostrados na natureza depois de assassínios de grande violência. Este género de fotografia Brito não publica no jornal (a política editorial manda não mostrar corpos assassinados). Ele próprio demonstrou dificuldade em classificar as fotografias que produz após informadores da polícia e de outros grupos lhe darem indicações precisas sobre a localização dos cadáveres logo depois de descobertos.

Depois de várias perguntas, ficou a meio caminho entre o fotojornalismo e um tipo de imagem que ultrapassa o documento puro, rumo a uma conceptualização visual que envolve a paisagem bucólica (há corpos esventrados com pôr do sol) e a brutalidade humana. O certo é que, qualquer que seja o género de fotografia da série Os Teus Passo Perdem-se com a Paisagem, Brito (Prémio Descubrimientos PHE 2011 com este portfólio que continua a ser concretizado) confessa que, enquanto cidadão, não conseguiu ficar de braços cruzados perante um quotidiano de violência extrema em que já é "muito difícil de distinguir os bons e os maus". "Vivo nesta cidade [Culiacán]. A minha família vive nesta cidade. Quero uma cidade pacífica. E por isso faço este trabalho como uma denúncia", disse na apresentação desta fotografias que já foram também reconhecidas com um terceiro lugar no World Press Photo.

Brito explicou que, quando alguém é assassinado com muita violência, a sociedade tende a achar que a vítima era alguém com algum tipo de culpa confirmada pelos seus executores. Foi para tentar fugir a este quotidiano macabro e de impunidade que pôs em marcha este trabalho tentando manter "o máximo respeito pelos mortos e pelas suas famílias". Questionado pelo PÚBLICO sobre os perigos da estetização de um tema tão sensível quanto este, o fotógrafo respondeu: "Não sou um artista. Sou um cidadão com um problema."

Mas não deixa de ser o corpo agredido na acepção fotográfica do termo.




Zbigniew Dlubak, 1970-1978
© Archeology of Photography Foundation/A. Dlubak

05 junho, 2013

PHE13 #1

Laura Torrado, Transhumance II, 1993
© Laura Torrado, VEGAP, 2013


» Já desconfiava, mas agora tive a certeza de que o metro de Madrid simplesmente não passa facturas. Para ter um comprovativo do que se pagou é preciso ir à página do metro na net e pedir uma factura em PDF, garantiu-me a senhora do outro lado guichet. Nao sei muito bem como é que uma coisa destas pode funcionar (como raio sabem eles o que comprei!), mas cheira-me a economia paralela...

» A impressão geral com que se fica de um lugar também pode ser medida a partir das primeiras trocas depalavras com alguém. Se não conhece-se Madrid e julgasse a cidade pelo grunhido que um empregado de mesa me lançou depois de uma preguntita, diria que a cidade vive na pré-história.


» O modelo da exposição Taxonomía del caos aposta na surpresa e na estranheza e tem tudo para ser uma exposições mais originais e extraordinárias da secção oficial. O comissário e coleccionador Rafael Doctor sente-se como peixe na água no meio das suas imagens e do caos organizado em que as transformou. E promete viver no meio delas (e falar delas com que as vê) enquanto durar a exposição.

» No Canal Isabel II Laura Torrado brinca às escondidas com o corpo enquanto dá umas alfinetadas aosestereótipos de género. A instalação respiratória com que fecha a exposição é belo exercício criativo que nos aviva a percepção do nosso corpo.


» Antes de entrarmos no centro cultural de Alcobendas, houve tempo para conversa à mesa de um café que passava um duríssimo western spaghetti, quando seriam aí umas 18h.

» Mas na periferia de Madrid a fotografia também mexe - o município de Alcobendas quer transformar-se num lugar de referência para a fotografia em Espanha utilizando a sua colecção de fotografia (que tem 20 anos) e dando vida uma nova escola de fotografia em conjunto com a La Fabrica, que organiza o PHE.


» Madrid tem agora a feira do livro e está cheia de manifestações. Um grupo protestava contra o Bankia (banco tóxico) perto do Círculo de Belas Artes, outro instalou-se em frente a uma representação do PP a fazer uma cornetada. 

»Fomos comer um bocadillo de calamares ao Casco Viejo, mas não há nada que chegue aos calcanhares do Brillante, em Atocha.




28 maio, 2013

mostrar trabalho

Diogo Simões venceu a Leitura de portfólios em 2012


O Laboratório de Fotografia | Carpe Diem Arte e Pesquisa está a promover uma coisa rara em Portugal: leitura crítica de portefólios. Esta segunda edição está agendada para os dias 22 e 23 de Junho, dias em que 10 críticos irão discutir trabalhos de 30 artistas seleccionados previamente. Cada participante poderá escolher 6 críticos para apresentar o seu portefólio em sessões individuais de 25 minutos. Podem candidatar-se até ao dia 3 de Junho fotógrafos portugueses ou estrangeiros com mais de 18 anos. No final, os críticos escolherão um artista vencedor que ganhará uma residência artística no Carpe Diem Arte e Pesquisa (dez meses, com atelier privado no palácio da associação em Lisboa) e terá uma exposição integrada na programação 2015 do CDAP.


Críticos

>Eduardo Brito, fotógrafo, curador do CAAA, Guimarães
>Filipa Oliveira, curadora independente
>Vera Cortês, Vera Cortês Art Agency
>Rémi Coignet, crítico, curador, autor do blogue Des livres et des photos
>Liliana Coutinho, curadora independente
>Nuno Crespo, curador, crítico do jornal Público
>António Júlio Duarte, fotógrafo
>José Luís Neto, fotógrafo
>Jo Ractliffe, fotógrafa
>Daniel Blaufuks, fotógrafo

Mais informações e candidaturas aqui

21 maio, 2013

Pellegrin

© Paolo Pellegrin / Magnum Photos / Postcards from América/ AIC



No dia 12 de Maio de 2011, cinco fotógrafos da cooperativa de fotografia Magnum (Paolo Pellegrin, Jim Goldberg, Susan Meiselas, Alec Soth, Mikhael Subotzky) meteram pés ao caminho para a primeira viagem de uma longa jornada em conjunto a que chamaram Postcards from America. A ideia é simples: percorrer os Estados Unidos de uma forma errática, sem qualquer compromisso, ao sabor do que fosse surgindo à frente da câmara. A esta liberdade de acção, Paolo Pellegrin chamou "jornalismo activo", aquele que "deambula pelo mundo, que tenta retratar temas sociais e que tem uma relação com a história". Como condimento extra, os cinco fotógrafos entenderam contrariar o velho cliché do fotógrafo enquanto caçador solitário e organizaram as viagens de maneira a que todos pudessem dar a sua visão da realidade a partir dos mesmos locais. Meteram-se dentro de uma caravana acompanhados pela escritora Ginger Strand e imaginaram-se uma banda on the road à procura de "uma espécie de som polifónico visual". Até agora foram concretizadas quatro grandes deslocações, a última das quais em torno da região da Florida, durante as últimas eleições presidenciais, em 2012.

Enquanto estão no terreno, todos os envolvidos publicam imagens e textos na página postcardsfromamerica.tumblr.com, naquele que é o espelho mais imediato do projecto. Em alguns casos, coexistem também projectos editoriais com uma edição mais profunda e reflexiva, às vezes com todos os autores envolvidos, às vezes com um. Como é o caso do último fotolivro da organização Repórteres Sem Fronteiras, que desafiou Paolo Pellegrin a seleccionar cem fotografias de entre as milhares que captou durante as quatro viagens já realizadas. O resultado dessa escolha está em 100 Photos of Paolo Pellegrin for Press Freedom, apresentado no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que se assinalou a 3 de Maio. As imagens do multipremiado fotógrafo italiano, na Magnum desde 2005, abordam sobretudo o outro lado do sonho americano, desde as duras condições de vida em Miami (longe da miríade do sol e praia) até às zonas de fronteira com o México, onde a proximidade geográfica não consegue esconder enormes diferenças culturais. "Comecei a ser capaz de analisar o que para mim foi um chocante estado de coisas: uma cultura de vigilância enraizada; uma proliferação de armas; uma tensão racial; e uma profunda marginalização." Os vários ensaios de Pellegrin presentes nesta obra mostram-nos uma América na encruzilhada, suspensa "entre esperança e realidade", onde a decadência e o desânimo são palavras que ganham poder. Os lucros da venda do livro revertem para a organização dos Repórteres Sem Fronteiras.


© Paolo Pellegrin / Magnum Photos / Postcards from América/ AIC

15 maio, 2013

éden




As portas estão abertas para o ÉDEN (só até ao dia 14 de Junho), a segunda exposição/fanzine da série “DR - Um Diário da República” na Kgaleria, em Lisboa, que desta vez foi comissariada pela dupla Pauliana Valente Pimentel (kameraphoto)/José Pedro Cortes (Pierre von Kleist). As 39 imagens seleccionadas não têm qualquer título ou legenda numa tentativa de dar a maior amplitude possível à apreensão e contextualização das imagens. Iniciado em 2010, ano em que Portugal celebrou o centenário da proclamação da República, o DR pretende contribuir para a construção de uma memória colectiva sobre o período 2010-2020 em Portugal.

 



phe13


Harry Callahan, Eleanor, Chicago, 1947 Cortesía Pace/MacGill Gallery, New York © The Estate of Harry Callahan

Contagem decrescente para o arranque da próxima edição do PHotoEspaña que o comissário geral Gerardo Mosquera quis dedicar ao tema Cuerpo. Eros y políticas. Entre as mais de 70 exposições, a organização destaca as mostras de Edward Weston, Harry Callahan, Shirin Neshat, Laura Torrado e Mark Shaw bem como colectivas onde se destacam os nomes de Ana Mendieta, Robert Doisneau, Cindy Sherman e Marina Abramovic. Este é o último ano de comissariado de Mosquera que liderou o festival nos últimos dois anos. Para além de Madrid, o PHE estende-se agora Saragoça e a Lanzarote para além de itinerâncias que passarão por Praga, Berlim e Paris. O festival decorre entre o dia 5 de Junho e o dia 28 de Julho, ainda que muitas exposições permaneçam abertas em Agosto e Setembro. Mais informações aqui

“assustadoramente belo”

© Taslima Akhter



Um abraço de morte “assustadoramente belo”
(Público, 09.05.2013)

Taslima Akhter não sabe quem são nem que tipo de relação mantinham. Tentou “desesperadamente” encontrar respostas para muitas perguntas que surgiram a jorros depois de horas e horas a fotografar corpos aprisionados nos escombros do edifício Rana Plaza, Daca, Bangladesh. Tentou “alguma pista” que fosse, mas nada. Para já, o homem e a mulher que se abraçam no momento fatal do colapso de há duas semanas que causou mais de 1000 mortos continuam anónimos. E perseguem o pensamento da fotógrafa que captou esta imagem que agora se afirma como uma das mais simbólicas da tragédia.

Os acidentes ligados às condições precárias de trabalho e exploração humana não são novidade para Taslima Akhter (Daca, 1974). Em Novembro do ano passado, fotografou um incêndio numa fábrica de confecções que causou mais de 100 mortos, trabalho que chamou a atenção do Lens, o blogue do jornal New York Times dedicado à fotografia e ao jornalismo visual. Nessa altura, a fotojornalista declarava-se “emocionada” e “esmagada” pelo que tinha acontecido, mas não se mostrou surpreendida - antes desta tragédia já tinha fotografado outras quatro no Bangladesh em tudo semelhantes. “A história é sempre a mesma”, dizia em declarações ao Lens. E no dia 24 de Abril a história voltou a repetir-se, agora com uma escala ainda mais dantesca.

Akhter, que trabalha sobretudo em temas ligados à denúncia da exploração laboral, fotografou intensamente o desenrolar dos acontecimentos logo depois da notícia do colapso do edifício. Passou o dia entre destroços, equipas de resgate e salvamento e olhares de famílias desesperadas que procuravam entes queridos. Esses olhares marcaram-na, eram olhares “assustados”. Akhter fotografou, fotografou, fotografou até ficar exausta física e psicologicamente. Ao início da tarde (o complexo ruiu por volta das 9h locais), deparou com um casal abraçado, rodeado de ferros retorcidos e semicoberto por destroços. A reacção da fotógrafa foi de espanto. Sentiu depois proximidade, familiaridade. “Não queria acreditar. Senti que os conhecia – senti-os muito próximos de mim. Vi quem eles eram no último momento em que estiveram juntos e em que tentaram salvar-se”, disse a fotógrafa num depoimento escrito que enviou ao LightBox, o espaço online dedicado à fotografia da revista Time.

Apesar desta ligação imediata (e íntima) em relação àquela cena e àqueles dois seres humanos, Taslima Akhter confessa “desconforto” de cada vez que olha para a sua fotografia. Sente-se “estremecida" não tanto pelo momento extraordinário que captou, mas sobretudo pelo seu poder inquisitivo e comovente: “É como se me estivessem a dizer ‘Não somos números – não somos só mão-de-obra barata com vidas baratas. Somos seres humanos como tu. A nossa vida é tão preciosa como a tua e os nossos sonhos também são preciosos’”.

Uma das ambições de Akhter, que já foi bolseira da Magnum Foundation para estudar fotografia e direitos humanos, é que esta imagem contribua para que os trabalhadores no sector têxtil do Bangladesh “sejam tratados como seres humanos e não apenas como números”. E que os responsáveis pelo que aconteceu sejam punidos com as penas máximas previstas na lei. Contudo, aconteça o que acontecer aos que forem considerados culpados, a fotógrafa confessa que “não haverá alívio” dos “sentimentos horríveis” que lhe provocaram as últimas duas semanas em que esteve rodeada de cadáveres. “Como testemunha desta crueldade, sinto que é urgente partilhar esta dor com toda a gente. É por causa disto que esta imagem tem de vista”.

Também citado pelo LightBox, Shahidul Alam, escritor, fotógrafo e fundador da escola de fotografia Pathshala (onde Taslima Akhter estudou fotojornalismo), afirmou que esta imagem é ao mesmo tempo “altamente perturbante” e “assustadoramente bela”. Para Alam, a ternura que emana deste abraço “eleva-se acima dos destroços para nos tocar onde somos mais vulneráveis”. Ao dar-nos este momento tão pessoal, esta fotografia “recusa passar despercebida”. “É o tipo de imagem que nos atormentará os sonhos. Sem grande alarido, comunica. Nunca mais.”

A fotografia como acto político
Para Akhter, o exercício da fotografia é um acto político. Por isso está envolvida em organizações de mulheres e de trabalhadores e utiliza as câmaras para denunciar atropelos à dignidade e exploração humanas no seu país. O Bangladesh é o segundo maior exportador de têxteis, depois da China, com mais três milhões de trabalhadores no sector.

Na quarta-feira, as autoridades anunciaram o encerramento, numa primeira fase, de 18 fábricas têxteis por razões de segurança. O último balanço da tragédia de 24 de Abril dá conta de mais de 1100 mortos e desconhece-se o número exacto de pessoas que estavam no edifício quando as suas estruturas cederam.


No Rana Plaza, situado a cerca de 30 quilómetros da capital, os trabalhadores já tinham denunciado a existência de fendas no edifício. No interior estariam mais de cinco mil pessoas, mas esta é apenas uma estimativa. Entre nove andares, funcionavam cinco fábricas, duas delas a trabalhar para marcas de roupa como a britânica Primark e a espanhola Mango. Até agora, 12 pessoas foram detidas no âmbito da investigação à derrocada do prédio, entre elas o proprietário, Mohammed Sohel Rana, que tentou a fuga para a Índia.

Depois de mais um acidente de grandes dimensões, o Governo do Bangladesh anunciou um reforço das medidas de segurança no trabalho e das regras de construção. Foi ainda anunciada a criação de uma nova comissão para coordenar vistorias a perto de 4500 fábricas têxteis. A promessa de mais inspecções  já tinha sido feita em Novembro de 2012, depois de um incêndio numa fábrica ter causado 111 mortos. Nos meses que se seguiram, esse trabalho revelou ter dado poucos resultados quanto ao reforço das medidas de segurança.

“A história é sempre a mesma” dizia Taslima Akhter. E foi.

09 maio, 2013

aprender

© António Júlio Duarte



Estão prestes a começar dois cursos no Atelier de Lisboa: Construção de um Livro de Fotografia (16 de Maio) com José Pedro Cortes (Pierre von Kleist) e Oficina de Projecto (18 de Maio), com António Júlio Duarte.

Informaçãos e inscrições aqui

08 maio, 2013

grupo d´évora


Gérard Castello Lopes, 1962, Praia da Salema - Algarve
© João Cutileiro


Viana do Alentejo, 2-17-2012, 1h31
© José M. Rodrigues

A Pequena Galeria juntou o Grupo d"Évora, fotógrafos que estavam juntos sem o saber

Damos o primeiro passo e, sem aviso prévio, encontramos logo o riso e a chalaça visual (António Carrapato). Damos outro passo e somos invadidos pelo cheiro a sacristia, cercam-nos os santos, bamboleiam os altares a cair de podre (Pedro Lobo). Um passo para a direita e vemo-nos ao espelho através de um patchwork de retratos pouco vistos no álbum de família da cultura portuguesa (João Cutileiro). Outro passo mais para a esquerda e somos armadilhados pelo jogo sedutor das imagens duplas (José M. Rodrigues). Já no fim, ao quinto passo, voltamos ao início, à fotografia alegre e divertida (Carrapato) e também aos tons de roxo, ao odor a cera e... ao Senhor dos Passos (Lobo).

Mas isto é um grupo? É - o Grupo d"Évora que, sem saber, já existia. Quem os juntou foi Alexandre Pomar para a terceira exposição na Pequena Galeria, em Lisboa, que pretende tão simplesmente reunir fotógrafos que gravitam em torno daquela cidade alentejana mas que têm um olhar muito para lá da geografia. "A ideia foi dar a conhecer um núcleo de fotógrafos de carreira excepcional que não tinha uma dinâmica de grupo. Acontece que Évora já teve uma grande dinâmica de grupos de artistas e por isso achei interessante juntá-los pegando num título que já vem de trás", explica Pomar.

A mescla de estilos, formatos e famílias fotográficas de Grupo d"Évora (até 11 de Maio) é grande, diversidade que o comissário transformou num desafio de montagem nas paredes altas da Pequena Galeria que tem um espaço expositivo que se percorre em breves cinco passos (mais coisa menos coisa). Alexandre Pomar vê esta limitação como uma mais-valia, já que implica mostras com trabalhos de dimensões reduzidas, o que, em regra, também faz baixar os preços (aqui começam nos 100 euros). Pedro Lobo costuma expor o seu trabalho em grandes formatos, mas para esta exposição foi obrigado a repensar as imagens da série In Nomine Fidei, trabalho sobre a decrepitude de espaços e objectos religiosos que o levou a procurar molduras antigas que ditaram novos reenquadramentos (cada trabalho é por isso um objecto único).

Tentando contrariar uma tendência de "usa e deita fora" de muitas galerias que trabalham na área da fotografia de novos autores, Pomar sublinha a importância de mostrar o trabalho menos conhecido de nomes já firmados. Como o de João Cutileiro, dono de um acervo de retratos da cena cultural portuguesa pouco vistos em público. Cutileiro (que nem quer ouvir falar em séries numeradas) optou por mostrar impressões a jacto de tinta feitas na sua impressora caseira. José Manuel Rodrigues, por seu lado, revela uma série de fotografias inédita (água, paisagem e auto-retrato), instaladas com papel vegetal por cima, também ele impresso com imagens da sua autoria. De António Carrapato (colaborador do PÚBLICO) mostra-se uma faceta autoral rara em Portugal: a do humor, da fantasia e do divertimento. Porque rir nunca foi tão preciso.



Da série In Nomine Fidei
© Pedro Lobo


Évora, 2010
© António Carrapato

07 maio, 2013

BES Photo 2013: Motta



© Pedro Motta

O fotógrafo brasileiro Pedro Motta (Belo Horizonte, 1977) é o vencedor da 9ª edição do Prémio BES Photo, galardão que reconhece o trabalho de artistas lusófonos e que se apresenta como "o principal prémio de arte contemporânea em Portugal de estatuto internacional", com um valor pecuniário de 40 mil euros.
O júri que escolheu o trabalho de Motta era composto pelo escritor Geoff Dyer (Londres), o professor Luc Sante (Nova Iorque), e a crítica de arte Rosa Olivares (Madrid). Para o júri, o prémio resulta “da forma como Pedro Motta, através da série 'Natureza das Coisas', estabelece um diálogo entre diferentes expressões artísticas, pela aproximação destas a uma linguagem fotográfica autónoma". E sublinha "a forma como o artista desenvolve a percepção do real e do falso através da adivinha, da sugestão e do imprevisto, na utilização da paisagem enquanto género tradicional da história da arte”.
Os trabalhos dos artistas finalistas do prémio estão expostos no Museu Colecção Berardo até 2 de Junho, mostra que viaja depois para o Brasil para o Instituto Tomie Ohtake, novo parceiro do galardão.

© Pedro Motta

03 maio, 2013

dude, o fotógrafo



Os Infinity Awards do International Center of Photography (Nova Iorque) foram entregues no dia 1 de Maio.
 Estes foram os nomes distinguidos:

>Cornell Capa Lifetime Achievement: David Goldblatt
>ICP Trustees Award: Pat Schoenfeld
>Young Photographer: Kitra Cahana
>Art: Mishka Henner
>Publication: Cristina de Middel, The Afronauts 
>Photojournalism: David Guttenfelder
>Applied/Fashion/Advertising: Erik Madigan Heck
>Special Presentation: Jeff Bridges

Dude... I really love you!

folha

Peter Marlow, The Conservative Prime Minister Margaret Thatcher, 1981
© Peter Marlow/Magnum Photos

Uma folha de contacto (ou o berçário de imagens à porfia a ver quem chora mais alto).

24 abril, 2013

estou vivo

© Bruno Dias Vieira


Estou vivo
(Revista 2Público, 24.03.2013) 

Uma vez, fui parar a um seminário sobre conservação e restauro de fotografia na Biblioteca Nacional. Acho que foi na altura em que queria salvar o mundo pela fotografia, mas já não tenho bem a certeza. Havia convidados de gabarito, entre os quais a neta de Henri Cartier-Bresson, Anne, conservadora em Paris. Não me lembro de uma palavra do que ela disse nessa ocasião. E se tivesse de salvar do desvanecimento um espólio de imagens de prata a partir do que ouvi nesses dois dias de conclave fotográfico a coisa seria um desastre. Do que me lembro bem é da tenacidade da antiga directora do Centro Português de Fotografia (CPF) do Porto, Tereza Siza, que participou como oradora e começou a sua intervenção a dizer que não gastaria nem mais um segundo da sua vida a lamuriar-se com a falta de dinheiro, falta de recursos e de tudo mais que se apresenta para justificar a inactividade, o comodismo e a aselhice a que tantas instituições públicas se entregam para mais placidamente levarem a vida.

Tereza, é sabido, gosta de trocar as voltas ao guião. Deu as suas alfinetadas, apresentou a obra feita no seu reduto e, claro, defendeu a absoluta necessidade de garantir todos os mimos às imagens à sua guarda para as devolver à vista de todos. Nessa altura, o CPF era uma força concretizadora, um lugar dinâmico e desempoeirado. Lembrei-me dele quando, há dias, fui ao Arquivo Fotográfico de Lisboa.

O sufoco orçamental com que têm de lidar hoje tantos organismos do Estado é uma passadeira vermelha a todo o tipo de desculpas para não mexerem uma palha fora dos seus deveres. Mas, mesmo com recursos escassos, há sempre quem tente remar contra a maré. O Arquivo, pela mão de José Luís Neto, é um desses remadores. Subtilmente, com saber, criatividade, vai recuperando o fulgor de uma casa que perdeu a sua timoneira, Luísa Costa Dias (1956-2011). O Arquivo da Rua da Palma é por estes dias um exemplo daquilo que deve ser uma instituição pública com a responsabilidade de guardar e mostrar fotografia, quer se revelem em papel albuminado ou em impressões a jacto de tinta. Enquanto no primeiro andar dialogam suportes antigos e novos (Imagem entre Imagens), um lanço de escadas acima, mostra-se Séma Chéein, o extraordinário trabalho sobre os limites da figuração e da captação do rosto, da autoria de Bruno Dias Vieira naquela que é a sua primeira exposição (até 26 de Abril). A mostra tem um conceito expositivo inteligente e cuidado. Marcará o ano. Ou seja, é o Arquivo atento e a descobrir talento. E a dizer: "Estou vivo."

© Bruno Dias Vieira

os fantasmas



© Daniel Blaufuks

© Daniel Blaufuks

Daniel Blaufuks gosta de resgatar imagens. Mas não só - gosta de lhes dar novos contextos para trazer à luz a memória, a carga sensorial e o peso das histórias ocultas que transportam num exercício que vai muito além da arqueologia ou da memorabilia imagética. Em Fábrica (ed. Pierre von Kleist, 2013), um dos seus mais recentes trabalhos que estará até 26 de Maio no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura em Guimarães, a dualidade entre o universo visual do tempo em que a Fábrica de Fiação de Tecidos do Rio Vizela laborava a todo o vapor e as imagens de abandono, destruição e caos dos dias de hoje convoca vários fantasmas - o mais poderoso dos quais o fantasma do som.

As imagens de Fábrica (que se confrontam em exposição, livro e filme) são seres sonoros. À medida que se vão sucedendo, é difícil não imaginar a paleta de ruídos associada à marcha quotidiana de um lugar enxameado por trabalhadores, vozes, roldanas, máquinas cardadoras, teares, máquinas de toda a maneira e feitio. E nesse embate de tempos e espaços distintos, são as fotografias de hoje, do vazio, que pelo contraste acabam por dar ilusão de vida àquilo que já está morto. É a ruína a funcionar como uma caixa-de-ressonância.

A edição das imagens que foi vertida em livro (projecto concretizado no âmbito Reimaginar Guimarães, da Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura) procura dar-nos a intensidade da fábrica pela ausência (de coisas, pessoas, equipamentos, rotinas...). Ao mesmo tempo que sugere o pulsar de um espaço de produção em série moldado pelas matrizes da Revolução Industrial, a sequenciação a vários ritmos (formato, cor, tonalidade, texto/imagem...) tenta criar espaços de silêncio que são interrompidos de modo cíclico (e às vezes brusco), como quem tapa e destapa os ouvidos no meio de um escarcéu.

A apropriação de imagens já concretizadas, um dos recursos criativos com que Daniel Blaufuks mais tem trabalhado, não é paternalista, nem instiga ao saudosismo, muito pelo contrário. No texto que acompanha o livro, faz questão de deixar claro: "[A Fábrica de Fiação de Tecidos do Rio Vizela] deve ter sido um lugar aterrador, com todos os têxteis em alta rotação, a velocidade das máquinas, os operários analfabetos, que chegavam das aldeias pobres nas redondezas. Não deveríamos sentir demasiado a sua falta. Um inferno desmantelado."


© Daniel Blaufuks


© Daniel Blaufuks

 
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