22 maio, 2012

conversar



Sessão de apresentação das Conversas à Volta da Fotografia, na Livraria Sá da Costa


Pode até parecer que temos muitas conversas à volta da fotografia, mas na verdade não temos assim tantas. São poucas, quase nenhumas. Vamos vivendo meio acabruhnados sobre aquilo que temos e sabemos e raramente pensamos em partilhar. Podia dizer que é motivo de regozijo só o facto de existir um programa com datas e nomes para falar sobre fotografia como este que agora se apresenta através da revista Coelacanto e de José Soudo. Mas é muito mais do que isso - é júbilo imenso, porque são raras ocasiões como esta e porque, sobretudo, são amplos e ricos os temas metidos nestas Conversas à Volta da Fotografia que acontecerão na Livraria Sá da Costa, em Lisboa, todas as últimas quartas-feiras de cada mês às 19h, a partir de 30 de Maio.

O cronograma das tertúlias é o seguinte:

30 de Maio de 2012
“Conversas à volta da Fotografia e da sua produção contemporânea (1)”
Com a participação de Carla Cabanas, Dora Nogueira, Duarte Amaral Netto, José Nuno Lamas Maria Timóteo, Sandra Rocha, Sofia Silva e Valter Ventura;
Moderador: Lúcia Marques

27 de Junho de 2012
“Conversas à volta da Fotografia e da sua publicação em livro”
com a participação de Adriano Miranda, Augusto Brázio, Clara Azevedo, Daniel Blaufuks, Duarte Belo e João Mariano;
Moderador: Miguel Gaspar

25 de Julho de 2012
“Conversas à volta da Fotografia e da sua produção contemporânea (2)”
Com a participação de António Júlio Duarte, Daniel Malhão, Helena Gonçalves, Marta Sicurella, João Paulo Serafim, José Luís Neto, Paulo Catrica e Susana Paiva;
Moderador: Filipa Valladares

26 de Setembro de 2012
“Conversas à volta da Fotografia editorial com fotógrafos de agência, de jornal e de revista”
Com a participação de Céu Guarda, Bruno Rascão, Daniel Rocha, José Caria, Nelson d’Aires, Miguel Madeira, Pedro Letria e Reinaldo Rodrigues;
Moderador: José Manuel Ribeiro

31 de Outubro de 2012
“Conversas à volta da Fotografia e da sua produção contemporânea (3) com alguns novos-Novos” Com a participação de Inês Beja, João Carreço, João Henriques, Liliana Pinguicha, Mário Ambrózio, Mário Baú, Mauro Bianchi, Micael Nussebaumer e Tugba Karatop;
Moderadores: António Ventura e Nuno Faria

28 de Novembro de 2012
“Conversas à volta da Fotografia de viagem”
Com a participação de Alexandre Oliveira, Ana Marta, Gonçalo Cadilhe, João Grama, Jordi Burch, Luís Filipe Catarino, Nuno Lobito e Teresa Santos;
Moderador: Bruno Sequeira

19 de Dezembro de 2012
“Conversas à volta da Fotografia e da sua pós-produção digital”
com a participação de Álvaro Teixeira, Cláudio Melo, Luís Murtinha Ferreira, Márcio Vilela e Miguel Duarte;
Moderador: Luís Ribeiro

30 de Janeiro de 2013
“Conversas à volta da Fotografia e dos seus processos alternativos”: com a participação de António Rebolo, Camila Watson, Délio Jasse e Paula Lourenço;
Moderador: Mário Raínho

27 de Fevereiro de 2013
“Conversas à volta da Fotografia e do modo de se contarem História(s) com fotografia(s)”
com a participação de José Soudo, Pedro Tropa e Valter Ventura;
Moderador: Madalena Lello

27 de Março de 2013
“Conversas à volta da Fotografia com os seus coleccionistas”
com a participação de António Pedro Vicente, Inês Gil, João Clode
Moderador: Ângela Camila

(Obs: toda a programação apresentada pode vir a sofrer alterações por motivos imprevistos)

Chelsea por um fio



© Rita Barros, Chelsea Hotel


Rita Barros adoptou há muito o Chelsea Hotel, em Nova Iorque, como a sua casa. Ora, parece que os novos donos daquele mítico espaço por onde passaram alguns do artistas mais marcantes do século XX não estão muito preocupados com a carga afectiva que se foi colando às suas paredes e começaram uma vaga de demolições. A propósito deste problema, a fotógrafa projecta hoje, às 19h, na galeria Pente 10 em Lisboa uma série de imagens sobre o ambiente que se vive no Chelsea. O texto de apresentação diz o seguinte:

Rita Barros vive no histórico Chelsea Hotel, em Nova Iorque, há quase três décadas. Foi neste hotel que fotografou “Fifteen Years: Chelsea Hotel”, editado em 1999. 

Em Agosto de 2011 o Hotel foi vendido e fechou ao público. Os novos donos iniciaram uma campanha de intimidação aos residentes de longa data (100 pessoas) ao mesmo tempo que deram início a demolições extensivas dos quartos não ocupados. 

As condições têm sido precárias e os residentes juntaram-se para lutar pelo direito a manter os seus apartamentos sob ameaças de despejo, acções variadas de intimidação e toda a espécie de golpes sujos. 

 Em Setembro, a fotógrafa, Rita Barros, iniciou uma nova série de imagens, ´Displacement´, que tem sido uma forma de lidar com esta realidade, com a incerteza de perder uma rede segurança que se chama casa, e a tristeza de assistir impotente à destruição de um dos mais emblemáticos patrimónios da memória da cidade.

21 maio, 2012

Szabo



© Joseph Szabo


Fiquei encantado com a aventura de Joseph Szabo na fotografia. Algumas imagens dele são-me familiares, mas não tinha a noção global do seu trabalho que é de uma extraodinária sensibilidade, de um olhar muito perspicaz. Szabo deu aulas de fotografia e arte na universidade de Malverne, em Long Island, Nova Iorque, entre 1972 e1999. No início, teve dificuldade em relacionar-se com os alunos e de prender a sua atenção. Para ultrapassar essa barreira, começou a fotografá-los de forma continuada ao longo dos anos. E resultou. Agora, ao olharmos para o início desse golpe de asa, encontramos um corpo de trabalho que consegue captar na perfeição a postura da estudantada da época, muito longe do retrato da juventude violento e cru dado mais ou menos na mesma altura por Larry Clark.
Em 1978, o fotolivro Almost Grown reuniu o início do trabalho de Szabo com os universos dos seus estudantes. Foi aclamado pela crítica e tornou-se numa obra de culto. Em 2003, saiu Teenage, uma visão mais alargada do trabalho iniciado em 1972. Mais recentemente, em 2010, foi publicado Jones Beach, mais focado no areal da praia. 
No ano passado, os realizadores David Khachatorian e George P. Pozderec estrearam um pequeno documentário sobre a obra de Szabo.
A página oficial de The Joseph Szabo Project está aqui
(obrigado Luís)

© Joseph Szabo


Entre aspas



Ida Kar, Cabrera Infante


No centro do chowzinho estava agora a gorda (...) movendo-se ao ritmo da música, rebolando as ancas, todo o corpo, de uma maneira linda, não obscena mas sexual e lindíssima, meneando-se ao ritmo, cantarolando por entre os lábios entumecidos, os lábios gordos e roxos, ao ritmo, agitando o corpo ao ritmo, ritmicamente, deliciosamente, artisticamente agora, e o efeito total era de uma beleza tão particular, tão horrível, tão nova que lamentei não ter trazido a máquina fotográfica para retratar aquele elefante que dançava ballet

Guillermo Cabrera Infante, Três Tristes Tigres, ed. Quetzal

16 maio, 2012

para Perpignan

Göksin Sipahioglu, Maio de 68, Paris



O Visa Pour L`Image de Perpignan já tem programa provisório para a edição que decorre entre os dias 1 e 16 de Setembro. O trabalho de Göksin Sipahioglu, que esteve na origem das agências Gamma, Sygma e Sipa, será uma das principais apostas do festival liderado por Jean-François Leroy que escreveu este texto para o arranque:


Une nouvelle année de changement?

5 octobre 2011. La disparition de Steve Jobs éclipse celle de Göksin Sipahioglu. Pourtant, il avait été avec Hubert Henrotte et Jean Monteux à l’origine du formidable succès des « trois A », Gamma, Sygma et Sipa, qui avaient fait de Paris la capitale internationale du photojournalisme. Une époque déjà lointaine, mais qui nous procure beaucoup de nostalgie…

11 janvier 2012. Gilles Jacquier (grand reporter pour Envoyé Spécial, le magazine de France 2) est tué à Homs, dans des circonstances qui manquent pour le moins de transparence…

22 février 2012. Toujours à Homs, en Syrie, des tirs ciblés tuent Rémi Ochlik et Marie Colvin (grand reporter pour le Sunday Times). L’opinion internationale s’émeut vivement. Mais n’agit pas.

Fin avril 2012, un directeur de la photo est licencié du journal où il travaille depuis six ans. Raison invoquée par la DRH ? «Ton métier n’existe plus ! » Ils engagent aussitôt un jeune iconographe, à peine payé au SMIC, « parce qu’on n’a pas besoin d’un mec qui connaisse toute l’histoire de la photo ».

Il y a quelques semaines, un tweet vraiment bien vu* : « Twitter te fait croire que tu es une personnalité, Instagram que tu es un photographe et Facebook que tu as des amis. Le réveil va être difficile ! » Nous continuons hélas à recevoir des dizaines de propositions de sujets en Hipstamatic… On sortait à peine de la vague du Lomo !

Une année formidable ! Heureusement, on trouve encore ce que nous aimons.
Des sujets incroyables, des témoignages extraordinaires, des histoires poignantes…le monde tel qu’il est.
Bienvenue à Visa pour l’Image!

Jean-François Leroy
25 avril 2012
*@tiersmonde

O programa provisório do festival está aqui

07 maio, 2012

crónica #2


Da série Iraquianos
© António Pedrosa


Esconder
(revista 2, Público, 06.05.2012)

Temos uma atracção pelas fotografias que de forma inequívoca já não pertencem ao nosso tempo. Seja pela admiração da obsolescência dos processos, seja pela nostalgia dos lugares ou pela força enigmática dos olhares que viram um tempo que nunca vimos, sabe bem alojarmo-nos nesse passado que se vai inscrevendo na imagem fotográfica. Mas se há géneros e usos da fotografia em relação aos quais a patine pode ser um campo de virtude, outros há que definham e que deixam de cumprir a função com que foram criados se descansarem demasiado nos arquivos, se assentarem neles demasiada poeira ou se esbarrarem na decisão de quem tem o poder de os revelar. É o caso do fotojornalismo, talvez o género que mais depende do seu tempo (o tempo presente) para se realizar como testemunha, como ferramenta de denúncia e reflexão.


A fotografia que se ergue como documento jornalístico precisa de dar conta do seu tempo, mas, na verdade, só vive plenamente se conseguir chegar ao olhar dos outros.


Antes de chegar ao olhar do júri que em meados de Abril avaliou mais de 400 trabalhos enviados para o Prémio Fotojornalismo 2012 Estação Imagem|Mora, a reportagem com que António Pedrosa venceu o reconhecimento máximo da competição (Iraquianos) passou primeiro por outros olhares. Por sinal, olhares que decidiram não publicar um trabalho distinguido agora por um júri com gente mais do que experimentada, do fotojornalismo à edição fotográfica. Na justificação do prémio (atribuído por unanimidade) veio escrito que “era a melhor história, muito fácil de entender e contada com forte dramatismo”. Foi sublinhado o estilo “muito clássico”, onde o preto e branco foi trabalhado “de forma perfeita”, e o “profundo trabalho de aproximação” à comunidade cigana (“Iraquianos” retrata o quotidiano de um grupo que vive nos arredores de Carrazeda de Ansiães depois de ter sido arredado do centro da vila)


O trabalho de Pedrosa merece estes elogios e mais alguns – afecta-nos, denuncia e revela-nos um mundo que mal conhecemos. O certo é que o fotojornalismo tem um tempo limite para se mostrar com acutilância, caso contrário corre o risco de se transformar num bibelot, numa superfície para a qual se olhará apenas com interesse arqueológico. E se bem que não seja inédito, não deixa de causar apreensão que um trabalho com esta qualidade não tenha encontrado qualquer espaço para ser publicado. Não fosse este prémio, ficaria à mercê do tempo que, com outros, se encarregaria de o esconder.



Da série Iraquianos
© António Pedrosa

30 abril, 2012

tentar

© Maria Gruzdeva (esq.) © Roman Sakovich (dir.)

A cooperativa Magnum e a  agência de talentos IdeasTap estão a recolher candidaturas para o prémio Magnum & IdeasTap Photographic Award 2012 vocacionado para fotojornalistas em início de carreira.

Mais pormenores aqui

17 abril, 2012

Mauro


Lubumbashi 26b,
Mauro Pinto

O fotógrafo moçambicano Mauro Pinto é o vencedor da 8ª edição do BesPhoto, cujo prémio pecuniário ascende aos 40 mil euros. Os restantes artistas nomeados eram Duarte Amaral Netto (Portugal), Rosangela Rennó (Brasil) e Cia de Foto (Brasil).

A exposição com os trabalhos dos quatro finalistas pode ser vista até 27 de Maio no Museu Colecção Berardo (Centro Cultural de Belém, Lisboa). Depois será apresentada na Pinacoteca de São Paulo entre 16 de Junho a 5 de Agosto de 2012.

Mauro foi reconhecido com o trabalho Dá Licença, que mostra o interior de casas do bairro da Mafalala, em Maputo, onde viveram muitos dos que protagonizaram a independência moçambicana.

O júri que atribuiu o prémio era composto pela canadiana Dominique Fontaine (curadora, investigadora e assessora cultural da plataforma POSteRIORI, em Montreal), o belga Dirk Snauwaert (curador e diretor do Wiels Arts Center for Contemporary Art, Bruxelas, membro do júri do prémio Edvard Munch Award for Contemporary Art, Noruega) e o alemão Ulrich Loock, professor e curador independente, director do Kunsthalle Bern e do Museu de Serralves. O prémio foi atribuído por unanimidade.

Segundo o júri, citado num comunicado da organização, esta escolha “resulta da forma como esta série revela a entrega do artista à realidade das pessoas que habitam os espaços aqui retratados, ao mesmo tempo que transmite uma perspetiva histórica e sociológica da realidade contemporânea moçambicana através deste bairro da capital. É de destacar a forma como o artista utiliza a luz dando vida aos elementos presentes. Da cor aos objetos, é de realçar a capacidade com que o seu trabalho nos transporta para uma realidade habitada. Sem artifícios na sua essência, a consistência da apresentação do trabalho de Mauro Pinto foi um factor decisivo na escolha do vencedor. Igualmente relevante é o facto de terem sido tiradas cerca de mil fotografias, entre as quais, o artista selecionou o conjunto de doze que deu origem ao projeto expositivo apresentado.”

Helena Almeida foi a vencedora da 1ª edição, em 2004, José Luís Neto venceu em 2005, Daniel Blaufuks em 2006, Miguel Soares em 2007, Edgar Martins em 2008, Filipa César em 2009 e Manuela Marques em 2010.

Sobre o percurso de Mauro Pinto (texto: organização BesPhoto)

Mauro Pinto (1974) nasceu em Maputo, onde vive e trabalha. Dos primeiros contactos com o fotógrafo português Alexandre Júnior, durante a sua adolescência, surgem as primeiras experiências no domínio da fotografia. No final dos anos de 1990 fez um curso de fotografia na Monitor Internacional School (Joanesburgo), e, pela mesma altura, um estágio com o fotógrafo José Machado, assumindo desde logo como profissão a atividade fotográfica. Em 2002 integra pela primeira vez a PhotoFesta – Festival Internacional de Fotografia (Maputo), voltando a participar na edição de 2006. Em 2003 participa nos Rencontres de Bamako, Biennale Africaine de la Photographie e na coletiva Saudade de L’espoir (Ilha da Reunião). Em 2004 apresenta o seu trabalho na 35.ª edição de Les Rencontres d’Arles e nas III Jornadas África-Brasil (Brasília), e, no ano seguinte, no Fórum Social Mundial (Porto Alegre). Em 2006 integra a exposição Réplica e rebeldia, apresentada em Maputo, Luanda, Praia, Salvador da Bahia, Brasília e Rio de Janeiro. Participa ainda na exposição Vers Matola no Espace 1789 Saint-Ouen, em Paris. Em 2008 integra a primeira edição da bienal Picha! Les Rencontres de l’image de Lubumbashi. No ano seguinte, integra a exposição Maputo, a Tale of One City, que inaugura no Oslo Museum e percorre diferentes cidades da Noruega, e a 2.ª Bienal de Arte Contemporânea de Salónica. Já em 2010, participa mna coletiva Ocupações temporárias 20.10 (Maputo), no Festival mondial des arts nègres (Dakar), e na 2.ª edição de El Ojo Salvaje – Segundo Mes de la Fotografia en Paraguay, sendo o primeiro artista africano a integrar aquela mostra. A sua primeira exposição individual realizou-se em 2002 na Fortaleza de Maputo, destacando-se, as seguintes: Portos de convergência (Centro Cultural Franco-Moçambicano, Maputo, 2005), Lubumbashi interiores – exteriores (Lubumbashi, 2007), Uma questão de Estado (Rua D’Arte, Maputo, 2010); e, em Portugal, Maputo – Luanda – Lubumbashi (Influx Contemporary Art, Lisboa, 2011).

14 abril, 2012

mora 2012


O Prémio de Fotojornalismo 2012 Estação Imagem | Mora foi atribuído a António Pedrosa, pela reportagem Iraquianos, sobre a vida de uma comunidade de 120 pessoas de etnia cigana, do Bairro do Iraque, na vila transmontana de Carrazeda de Ansiães.

11 abril, 2012

crónica #1


Man Ray, Rayography


Poder escolher
(Comecei uma crónica regular na revista 2 de domingo que aqui vou reproduzindo. 08.04.2012)

A impressão que dá é que ainda nem começámos a choramingar por ela quando, na verdade, já está em marcha o cortejo fúnebre. A fotografia analógica (e todos os rituais de produção e de criação que lhe estão associados) anda por aí como um morto-vivo a cavar sepulturas sem saber muito bem quando e onde será enterrada - é um ser moribundo que vai tendo os seus cantos de cisne nos noticiários à medida que vão sendo anunciados golpes de punhal num corpo já ferido.

Apesar de a certidão de óbito já ter sido declarada, a morte propriamente dita ainda não aconteceu. Talvez só agora, numa altura em que a rainha da festa fotográfica - a Kodak - está à beirinha de queimar os últimos cartuchos, tomemos consciência do fim desse casamento onde afinal sempre houve espaço para três - a óptica, a química e a mecânica.

Creio que nesta fase de agonia interessa pouco comparar virtudes e defeitos do que existia e do que existe. Trata-se de um exercício inócuo, para não dizer impossível de estabelecer - o abismo entre as práticas do digital e do analógico não são apenas distantes, em certos aspectos são antagónicos.

Será talvez o momento de tentar perceber o que deixaremos de ver e de fazer com o fim da película fotossensível e da revelação química. E isto tem pouco a ver com o romantismo saudosista da escuridão do laboratório ou com lágrimas vertidas "pelo que foi e que não volta a ser".

O exercício que Tacita Dean fez com Film, apresentado este ano na Tate Modern, em Londres, incita-nos a, pelo menos, pararmos para identificar algumas das coisas que dificilmente voltaremos a ver (ou criar) da mesma maneira. Isto apesar de sabermos que a artista inglesa é uma parte interessada no processo em si (a sua matéria-prima criativa está ligada aos suportes analógicos e à problemática do sua extinção). Dean lembra-nos (como se já fosse preciso lembrar-nos de coisas que ainda ontem aconteceram) o potencial plástico e a variedade de recursos que se podem associar à película para gritar: "Salvem o analógico!"

Menos comprometido e longe do fetichismo pelo suporte, Rui Poças, director de fotografia de Tabu, rodado em película a preto e branco, apontou (no Ípsilon) aquela que será uma das principais feridas abertas com o fim do analógico - o desaparecimento da escolha.

A esta míngua de alternativas aos pixéis podíamos acrescentar outras perdas, como a rejeição do acidente e do acidental, a renúncia do erro e da distracção, acasos do processo e limitações do suporte que tantas vezes foram validados como arte. Na fotográfica também.



»Tacita Dean sobre Film  

26 março, 2012


Entre aspas


© Dulce Fernandes/Público


(...)Partilhei com o Xana outro projecto, que apadrinhei. Queria fotografar as nuvens do céu de Lisboa. Parceu-me uma ideia esplêndida. Sempre gostei das nuvens que correm pelo céu desta cidade, especialmente na primavera e no outono. E, além disso, fez-me pensar em Ruskin e Hopkins, que descreviam a luz e as nuvens. O Xana encontrou um pequeno editor e fez uns postais com essas fotografias. Pedi-lhe uma para a capa de um livro meu que estava para sair em Itália. Era Il Signor Pirandello è desiderato al Telefono (Chamam ao Telefone o Sr. Pirandello).
O livro saiu na Feltrinelli com a fotografia a cores na capa. Na badana está escrito: Alexandre Delgado O`Neill, Nuvola.
É o que o Xana me deixou. Tenho muitas saudades dele.

Antonio Tabucchi, Alexandre Delgado O´Neill, Fotografias, ed. Contexto

19 março, 2012

Regresso ao futuro




(2, Público, 18.03.2012)

E afinal de contas voltamos sempre ao princípio. Ou pelo menos gostamos de sentir que sim, que estamos com o último grito da maquinaria avançada nas mãos, mas com acessórios e aplicações que nos remetem para a experiência (agora) antiquada de fazer as coisas. É uma estratégia ligada ao hábito, ao saudosismo, mas que também pisca o olho aos que nunca terão a experiência real de pôr o rolo numa máquina fotográfica, de trocar de lente ou ouvir as cortinas a abrir e a fechar para que a luz faça o seu trabalho. A fotografia e as múltiplas formas e formatos com que se mostrou no passado têm sido um dos mais profícuos territórios para a invenção de anacronismos que enchem as memórias dos iPhones de tudo quanto são tonalidades embaciadas, lentes, rolos, filtros, papéis fotográficos retro, bordas recortadas e afins. São pequenas viagens no tempo através de aplicações como a Hipstamatic, Instagram, Leme Cam, Camera+, só para citar um punhado delas.

Em paralelo ao mundo dos pixéis, vão aparecendo também todo o tipo de apetrechos mais ligados ao hardware fotográfico para que a experiência mimética seja o mais fiel possível. É nessa onda que está este conjunto retro-analógico lançado agora pela Photojojo, site especialista em parafernália fotográfica para iPhones e não só (photojojo.com/store/). Para além do todo o lustro do alumínio, vem com um disparador, um visor, correia, tripé e três lentes (olho de peixe, tele, wide/macro) que se colam magneticamente à objectiva do telefone. Uma promessa de felicidade na experiência iPhoneográfica retro. Uma espécie de regresso ao futuro.

18 março, 2012

museu#7



Sempre a pensar em ti!


(as imagens em exposição cá em casa)  
 



~museu #6
~museu #5  
~museu #4 
~museu #3
~museu #2 
~museu #1

13 março, 2012

Steidl




O editor alemão Gerhard Steidl tem fama de irrascível e neurórico, mas que é bom editor lá isso ninguém pode negar. A Steidl é uma casa de edição assim a atirar para o romântico com tiragens de fotolivros que poucas editoras se atreveriam a levar às rotativas. Quem quiser conhecer o "método Steidl" de Göttingen pode fazê-lo em Madrid nos dias 22 e 23 de Abril através do projecto Campus PHE, organizado pelo PHotoEspaña. O workshop, cujos participantes serão previamente seleccionados, abordará edição de imagens e design de fotolivros.
Gerhard Steidl (1950) começou a editar e a desenhar livros em 1967. O primeiro livro com a sua chancela foi publicado em 1972, mas só em 1996 a Steidl seguiu apenas o caminho da edição de fotolivros. A produção anual da Steidl ronda os 300 títulos, casa que conta com boa parte da nata da fotografia mundial entre os seus autores - Joel Sternfeld, Richard Serra, Bruce Davidson, Susan Meiselas, Roni Horn, Jürgen Teller...


Ficha de inscrição aqui

www.steidlville.com/



06 março, 2012

o mínimo

© David Shrigley


Tenho-me deliciado com o obra de David Shrigley, em particular com as fotografias que desconcertam e reduzem ao mínimo o mínimo.
Para descobrir tudo aqui

para Berlim

Eikoh Hosoe, Barakei, No. 16. 1961
© Eikoh Hosoe


São muito raras as exposições aqui nas redondezas a mostrar fotógrafos japoneses históricos. E esta é apenas uma das razões mais fracotas para tornar inevitável uma visita ao Museum für Fotografie, de Berlim, para ver Metamorpho​sis of Japan after the War . Photograph​y 1945 - 1964, que reúne um conjunto de nomes fundamentais da fotografia nipónica do pós-guerra e que tiveram um papel fundamental na construção de uma identidade nacional. A mostra inclui imagens de 123 nomes, fotolivros, revistas e catálogos de exposições. Entre os fotógrafos presentes destacam-se:

| Keisuke Katano
| Kikuji Kawada
| Ken Domon
| Eikoh Hosoe
| Yosuke Yamahata
| Yasuhiro Ishimoto
| Tadahiko Hayashi
| Ihei Kimura
| Takeyoshi Tanuma
| Shigeichi Nagano
| Ikko Narahara
| Shomei Tomatsu

01 março, 2012

museu#6




(as imagens em exposição cá em casa)





~museu #5  
~museu #4 
~museu #3
~museu #2 
~museu #1

27 fevereiro, 2012

aperture Primavera




 A edição Primavera/2012 da revista Aperture já está disponível aqui.
Os principais temas deste número são:

> Tema de capa: Viviane Sassen, Ivy, 2010.

> Lieko Shiga: Out of a Crevasse, The Days After the Tsunami, por Mariko Takeuchi

> Arthur Ou: Framework, por Walter Benn Michaels

> The Beat Generation: Writers for the Mambo Age, por Robert Farris Thompson

> Gus the Bear, por Sylvia Plachy

> Precedented Photography, por David Campany

> Paula Luttringer: Archaeology of a Tragedy, por Victoria Verlichak

> Viviane Sassen: Parasomnia, por Aaron Schuman

> Eugène Atget: Mute Witness, por Geoff Dyer

25 fevereiro, 2012

desafiar

© Paulo Pimenta



 Na vertigem do olhar do olhar dos outros
(Sérgio B. Gomes, P2, Público, 25.02.2012)

É um exercício arriscado fotografar uma exposição de fotografia. Ainda mais arriscado é fotografar uma exposição de fotografia onde, para além da imagem fotográfica, aparecem outras imagens — no caso, imagens pintadas que moram em muitas das fotografias da exposição de Thomas Struth no Museu de Serralves, no Porto, em relação às quais o repórter Paulo Pimenta decidiu estabelecer um diálogo ora irónico, ora provocador, um pouco como quem entra sem ser convidado, mas que, mesmo assim, decide dar um passo em frente para ver o que acontece a seguir.

É um risco porque o acto fotográfico pressupõe (na mais pura das funções, na mais romântica acepção) o encerramento de território visual, a conquista de qualquer coisa, como quem espeta uma bandeira em terra virgem. Significa isto que fotografar o fotografado é, de alguma maneira, meter a foice em seara alheia, roubar o já visto, registar o registado. Dizíamos, ainda mais risco porque a fotografia de imagens pictóricas tão icónicas como o auto-retrato de Albrecht Dürer ou a caminhada à chuva nas ruas de Paris de Gustave Caillebotte (tão inspirada na fotografia…) podem facilmente apagar a superfície que está à frente dos nossos olhos (a fotografia) para nos fixar de modo encantatório apenas na tela pintada.

Donde, o desafio e a virtude de um trabalho no fio da navalha como é este de Paulo Pimenta
está na capacidade de conquistar território numa nesga de espaço que já pertencia a outrem, na procura de faíscas que façam com que o diálogo se estabeleça entre universos muito parecidos, num jogo de meta-imagem que entrelaça (e sobrepõe) distintas camadas de leitura. E, na procura desse objectivo, não há melhor aliado do que a vertigem dos que olham o olhar dos outros. É na sua postura (em alguns casos ligada à expressão do olhar) que residem, porventura, as melhores oportunidades para conceber trabalho acerca do uso do espaço museológico e das emoções que se manifestam na experiência estética. É aí, também, que reside a oportunidade para revelar a multiplicidade coreográfica provocada pelo que se vê (e em que condições se vê), para nos vermos ao espelho enquanto massa humana ou simplesmente para pôr em causa (dessacralizar) as obras retratadas (as fotográficas e as outras).

O exercício de paciência e de oportunidade de Paulo Pimenta pode dar-nos isto tudo. Mas há uma característica que transborda deste trabalho: a procura do simples gozo de confundir quem vê. De brincar ao jogo do gato e do rato. Que é para isso que imagem fotográfica também serve.



 fotografiafalada


© José Maçãs de Carvalho

(José Maçãs de Carvalho) 


Parti para este trabalho com a ideia de oposição. Os painéis são um ícone e formam uma ideia de sociedade portuguesa que pretende incluir toda a gente. Mas eu quis falar dos espoliados,
dos que ficam de fora, nos nomes que já existiram em Portugal e que foram proibidos pelo registo civil português. Creio que é uma medida que contribui para a perda de identidade. Para além da ausência (das caixas identificadas com nomes, mas vazias), quis mostrar também algo que significasse conteúdo, e daí as barras de ouro que preenchem de forma fantasiosa uma ideia de totalidade e de garante de viabilidade de um Estado.

© José Maçãs de Carvalho


Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril

19 fevereiro, 2012

os objectos





As palavras e as imagens raramente têm encontros felizes. Não é o caso de Os Rumores dos Objectos (Atlântida, 2005), extraordinário fotolivro de Jorge Manuel de Oliveira sobre a alma e os adereços  de Al Berto e com versos soltos do poeta de Sines. Ainda não tinha dado por ele, mas foi o único a conquistar-me numa livraria prestes a levar a estocada final e onde só se viam montanhas de livros sobre windows 98. Apetece chamar por uma frase feita: quem procura sempre encontra.




18 fevereiro, 2012

 fotografiafalada


Fátima Mendoza
© Carmela García







(Carmela García)

Os Painéis de São Vicente levantam grandes incógnitas, deixam muitas coisas por explicar. Esse lado secretista foi um dos aspectos que mais me inspiraram para fazer estes retratos de mulheres. A questão do género é um tema que tem acompanhado sempre o meu trabalho. E quis voltar a ele mais uma vez, mas aqui sobretudo como uma desculpa para conhecer (e dar a conhecer) melhor estas pintoras. Num certo sentido, esta representação de mulheres surge em oposição aos painéis, mas não queria que estes retratos se esgotassem nessa premissa nem tão-pouco na da imitação.

Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril

16 fevereiro, 2012

Deambulações

Orlando Ribeiro, s/data
© Colecção do Centro de estudos Geográficos

Esta fotografia é como um mapa do território
 
Lucinda Canelas
(P2, Público, 03.02.2012)

Foi a primeira coisa que comprou ao chegar à universidade como professor. Quando Orlando Ribeiro saía para o campo, a Leica era tão importante como as botas ou os óculos. "Ele não via nada sem eles e, sem as fotografias, nós veríamos muito menos de tudo o que ele viu", diz Suzanne Daveau, sua mulher e companheira de muitas viagens. "Quando começava a preparar mais um trabalho numa serra qualquer, o Orlando ia logo buscar a Leica. Ele sabia que a fotografia é um documento que perdura, que amplia a paisagem, que nos permite voltar a olhar com outro tempo, a partir da sala da nossa casa."

Paralelos à escrita, Orlando Ribeiro (1911-1997) manteve sempre outros dois registos para os quais não tinha qualquer formação específica - o do desenho e o da fotografia. Folhear os seus cadernos de campo, cheios de anotações numa letra miudinha, é testemunhar um esforço de organização que, segundo Daveau, contrariava a sua natureza e que, por isso, pode explicar o facto de muitas das imagens dos seus 50 anos de carreira académica (fez cerca de 11 mil, entre fotografia e diapositivos) terem ficado por legendar. "A cartografia dos seus cadernos não é fácil. Às vezes não anota sequer a data e o local de um apontamento ou de um desenho", reconhece Daveau ao P2. Tudo em campo era muito rápido e a fotografia dava ao académico a possibilidade de registar o que via com toda a impaciência que lhe era habitual. "Aprender a trabalhar com a Leica foi uma estreia para o Orlando. Foi a única máquina que aceitou sem reservas. Ele que nunca aprendeu a dactilografar..."

Referência da geografia portuguesa do século XX, autor de livros fundamentais como Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945) e Mediterrâneo. Ambiente e Tradição (1968), Orlando Ribeiro era também fotógrafo. Por necessidade. É esta faceta que Deambulações: Diálogos Fotográficos com Orlando Ribeiro, a exposição que abre hoje na Reitoria da Universidade de Lisboa, explora através de 70 trabalhos de 30 fotógrafos e artistas, cedidos pelos próprios ou saídos do acervo do Centro de Estudos Geográficos (CEG), da colecção da Fundação PLMJ e das galerias Luís Serpa e Carlos Carvalho.

José Manuel Simões e Mário Neves, geógrafos e fotógrafos, são os comissários desta exposição organizada pelo núcleo de investigação que Orlando Ribeiro fundou (o CEG). Com ela quiseram tirá-lo da esfera da academia e mostrar, entre pares, até que ponto podem ser fortes e eficazes as suas imagens documentais. "Conta-se que, na primeira aula do ano, com turmas novas, o professor falava sempre da importância da observação, de como o principal instrumento do geógrafo é o olho", diz Simões, que ainda assistiu a um ou dois dos seus seminários quando chegou à faculdade, em 1974.

Vinte e cinco das suas fotografias documentais foram propositadamente ampliadas para Deambulações e vê-las ao lado de outras mais familiares ao universo artístico - João Pedro Vale, Nuno Cera e Ana Janeiro - é, por si só, uma experiência. Simões e Neves não procuraram o confronto, mas ele às vezes acontece: "Gérard Castello-Lopes é contemporâneo de Orlando Ribeiro; Augusto Cabrita e Eduardo Gageiro gostam de fotografar o trabalho e os trabalhadores; o Duarte Belo entra em diálogo com o território quase nos mesmos moldes. Tudo isto é importante para estabelecer diálogos e contrastes. E os contrastes são bons", defende Mário Neves, frente a uma fotografia que Orlando Ribeiro tirou em plena erupção do vulcão dos Capelinhos, no Faial, em 1957, numa expedição em que também filmou, com a sua assistente, Raquel Soeiro de Brito. "Falta-me ver um vulcão em erupção e uma aurora boreal", diz este geógrafo que já fez trabalho de campo na Antárctida. "O Orlando Ribeiro viu muita coisa."

Sem distinções
Separar o documental do artístico quando se trata de relacionar a fotografia de Orlando Ribeiro com a de Paulo Catrica e de Isabel Brison faz sentido do ponto de vista formal, mas Daveau garante que compartimentar a realidade não era coisa que agradasse ao geógrafo que conheceu num congresso na Suécia em 1960 e com quem viria a casar cinco anos, uma quantas cartas e outros tantos encontros depois. "Mostrei-lhe os Alpes, ele mostrou-me a serra da Estrela. Mostrei-lhe a Bretanha, ele mostrou-me o Alentejo", exemplifica, "mas em nenhuma das nossas viagens ou em momento alguma da nossa vida, o Orlando dividiu a realidade em pedacinhos ou especialidades. A geografia era, é, uma maneira de ver o mundo. Nunca fez qualquer distinção entre ciência e arte, gostava de Vivaldi e Bruckner, como gostava de Goethe e geologia."

Muitas das fotografias de Orlando Ribeiro foram feitas com Daveau, hoje com 86 anos, por perto. E ela também fotografa. Mas num dos registos mais antigos da exposição a geógrafa francesa estava ainda a quase 30 anos de distância. É uma vista do Vale do Zêzere, em 1938, em que é possível ver os pequenos caminhos de pé posto que cortam as encostas e o rio ao fundo, como se fosse apenas um fio de água ali à porta da nascente, no Covão da Ametade.

Duarte Belo conhece bem esta serra, verdadeiro laboratório da geografia portuguesa. Tem sete fotografias expostas em Deambulações, seis delas com rochas, neve e pequenas lagoas da Estrela. As semelhanças entre a sua fotografia e a de Orlando Ribeiro explicam-se pelo "carácter documental" de ambas e pelo facto de ter herdado do geógrafo, que descobriu aos 18 anos nas estantes da livraria Leitura, no Porto, o desejo de conhecer melhor o país. "O Orlando Ribeiro desenha, com uma escrita brilhante e as suas fotografias, um mapa do território português que sempre me interessou muito", diz. "Lê-lo é como ler Camilo ou Aquilino, mas a sua fotografia não quer ser nada além do que é - puramente documental. A sua objectividade é muito tocante. Ele não está nada interessado em criar uma nova linguagem a partir da fotografia, só quer registar o que vê para fixar a memória dos lugares."

O fotógrafo já percorreu os mesmos caminhos do geógrafo mais do que uma vez. Primeiro num projecto para a Expo "98 e o Círculo de Leitores (Portugal - O Sabor da Terra, 1996-98) e depois para a Assírio & Alvim (Orlando Ribeiro - Seguido de uma viagem breve à serra da Estrela, 1999). Agora prepara-se para lançar Portugal, Luz e Sombra - O País depois de Orlando Ribeiro (no próximo dia 23, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, numa edição Temas e Debates/Círculo de Leitores). "Foi com ele que aprendi a olhar para a paisagem. Neste último projecto fui, durante duas semanas, a muitos dos lugares que ele fotografou ao longo de 50 anos. O país de Orlando Ribeiro não era atravessado por auto-estradas."

Mas Daveau lembra-se bem de o percorrer ao volante da 4L. Orlando Ribeiro não costumava guiar. "Perdemo-nos na serra da Lousã, na do Açor... Sempre que tínhamos dois ou três dias para viajar, saíamos. Portugal era o assunto que mais lhe interessava." Era no campo, diz José Manuel Simões, que se sentia bem e as suas fotografias mostram-no: "É no mundo rural que se torna mais evidente o equilíbrio entre o homem e o meio, essa simbiose que Orlando Ribeiro gostava tanto de sublinhar, com um olhar profundamente humanizado."

Deambulações – diálogos fotográficos com Orlando Ribeiro 
Átrio da Reitoria da Universidade de Lisboa
Dias úteis, entre as 9h e as 18h
Até 9 de Março

15 fevereiro, 2012

cindy


© Stefan Ruiz



Será esta a verdadeira Cindy?
Nunca saberemos. Aliás, isso pouco importa - temos sempre todas as outras. E a partir do dia 26 de Fevereiro o MoMA de Nova Iorque vai mostrar um resumo de todo o filme Cindy Sherman e de todas as personagens que nele desempenham o papel principal - Cindy Sherman.
Antes da inauguração, Simon Schama, do Financial Times, foi falar com Cindy ao estúdio onde trabalha, em Nova Iorque. Que Cindy terá dado a entrevista? (aqui

14 fevereiro, 2012


Entre aspas

Robert Mapplethorpe, Forty-second Street, 1970
©Patti Smith
Ele apanhava a linha F até à Times Square, e misturava-se com os cadastrados, os chulos e as prostitutas naquilo a que chamava 'o Jardim da Perversão'. Fez para mim uma fotografia numa cabina telefónica, vestido com o jaquetão de marinheiro que eu lhe oferecera e a espreitar por baixo de um velho boné da marinha francesa; sempre foi a minha fotografia favorita dele.

Patti Smith, Apenas Miúdos, ed. Quetzal

13 fevereiro, 2012

 fotografiafalada


© Pedro Cabral Santo


(Pedro Cabral Santo)


Fui à caixa dos brinquedos buscar os meus bonecos da Playmobil, dos anos 70, juntei-os a figuras saídas das TV Guia da mesma época e criei personagens-tipo. Fiz 26 retratos dos bonecos com que a minha filha costuma brincar, tendo por base pratos da McDonald’s, muito parecidos com as vigias dos navios. Quis expor a falta de diversidade da sociedade portuguesa, por oposição à que aparece retratada nos painéis. No século XV, não estávamos, como agora, a caminho de um rosto comum.



Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril


© Pedro Cabral Santo

06 fevereiro, 2012

/uma fotografia, um nome\


 


© António Drumond, s/t, 2000

Depois de circular pela vasta experiência do mundo contemporâneo que impressiona Thomas Struth, de acumular a magnificência das estruturas, que se dizem transparentes, das suas instituições, de manifestar, enfim, a congratulação e o consolo que estas catedrais abertas do nosso tempo, esmagando o contexto construído e humano, nos impõem, sabe bem reencontrar o mundo interior de António Drumond, no recém-criado bar e loja da Avepod, em frente ao Douro, no Muro dos Bacalhoeiros.

É bem natural que a Fotografia reflicta estas duas atitudes que coincidem em nós neste malogrado século XXI: o turismo de massas entrosou o gosto inteligente do progresso técnico com o revivalismo esporádico de um pretérito que também nos pertence. A velocidade de circulação, a fusão da imagem com a realidade, estabelecem em nós esta profusão de gavetas de um real que se vai desfrutando em momentos sempre actuais, de que é modelo o recurso à memória informática.
No contexto do bar, onde um veleiro de dois mastros, atracado no rio reanima o tempo passado, as provas de vinho fazem-se entre o chão de pedra e as fotografias de António Drumond, de dimensão razoável, alinhadas ou reencontradas na volta de um canto ou à altura de um primeiro andar; a preto e branco ou a cor, identificáveis ou desafiadoras, ajudam a reconstituir, à moda do nosso tempo, um passado que nunca existiu e um presente invadido por esse passado contaminado por um novo olhar. Pois este fotógrafo semi-amador, (categoria muito comum nesta cidade), que sempre adivinhou as mudanças do olhar e as trabalhou com uma técnica que tende a desaparecer, mantém aqui, nesta mostra quase intimista de fotografias maioritariamente construídas, não uma volta ao mundo do exterior, mas um percurso levemente crispado pelo seu e nosso mundo interior.

Esta imagem de 2000, a preto e branco, que conserva por isso mesmo as mínimas diferenças do detalhe, representa um dos temas mais caros ao seu autor: o momento em que o corpo, no tempo suspenso da imagem, condensa uma decisão, uma atitude. Aqui é a própria resistência ao caminhar, o enfrentar o vento com a força da verticalidade, que desenha na roupa o turbilhão de pequenas forças que a resistência acarreta. E, como é habitual nestas suas imagens de partida, onde não vemos os rostos dos personagens, é para um lugar indefinível, quase onírico, de confrontação ou mistério, que nós, com o personagem caminhamos.

Há um limiar de ausência nesta presença, um limiar que conduz à aventura e ao desafio. Nas suas imagens de retirada do sujeito, (habituamo-nos a confrontar o olhar do fotografado, entendendo-o) é o contexto que cria o enigma, abastecendo-nos de metáforas reconhecíveis, seja a água que corre, mudando a sua imutabilidade, seja o lugar dos mortos ou o da distância, seja mesmo o de uma acção qualquer que nos esconde. E assim o que é retratado é uma situação, mas a história é excessivamente aberta, é excessivamente universalizante.

Estou em crer que a repetição dos seus vultos que nos recusam o olhar, que partem decisivos ou indecisos e que parecem interromper-se porque se sentem olhados, tem precisamente essa intenção de se tornaram universais. Sem rosto, um vulto é um vulto, pode ser qualquer um, não o identificamos, não o classificamos, não o catalogamos nas nossas metáforas do esquecimento. A arte, mesmo a naturalista ou realista, parte da pulsão para a sublimação. O impulso é mais desestabilizador do que a acção, porque nesta se introduzem conceitos e memórias da aprendizagem. No impulso, embora obscuramente, através de signos, é o real que fala, na sua infindável pesquisa do Todo, esse desejo de ser, de ser totalmente, de ser pertença, ainda, de um mundo, alheio às aparências de ser que a cultura vai impondo. Por isso aqui, nesta pessoa que se afastava e interrompeu a luta contra o vento e a intempérie, (e uso uma metáfora comum), vemos apenas alguém, vemos o universal, o Homem, não particularizado pelo rosto. Essa condição da Fotografia, o ser uma evocação do real fragmentado, exige sempre de nós reconstituição do ausente, do fora de campo, ou do que imaginamos ser o fora de campo. Mais do que a pintura, fotografia é sempre reflexão, invoca-nos tempo e lugar, contradição e mediação. E, recorra ou não a um aprendizado estético, à estranheza ou a uma fácil decifração, impõe-nos repetidamente uma viagem, pelo conhecido ou pelo desconhecido. Qualquer imagem fotográfica contém um código que existe em nós; algumas delas, como esta, rodeiam-se de signos onde, como o autor, navegamos de conceito em conceito, sem podermos e sem querermos sair da indeterminação do mistério para o qual toda a metáfora é insuficiente. Universalizamos a representação porque ela nos faz acudir qualquer pulsão, e a pulsão, como sabemos, identifica-se com o seu objecto de desejo, (ama-se no outro a satisfação que nos dá). Não há memória na imagem indeterminada mesmo se construída. É uma imagem de desejo, mas de desejo sem objecto.

Maria do Carmo Serén

05 fevereiro, 2012

da viagem


© Jorge Lima Alves

Fotografia e viagem
Jorge Lima Alves

Viajar e fotografar são, para mim, prazeres inseparáveis. Mesmo em Lisboa, quando saio para a rua com uma máquina fotográfica na mão, transformo-me instantaneamente num turista. Turista sim, não temo a palavra. Faz-me rir a conotação negativa que ela ganhou e a presunção com que algumas pessoas reivindicam: "Eu não sou turista, sou um viajante". Esquecem que nem todos os turistas andam atrás de postais ilustrados, e que nem todos os viajantes estão animados das melhores intenções. Adiante.

Quando acabamos a viagem, a única coisa que fica são as coisas que compramos e as fotografias. Tudo o resto (as paisagens magníficas, os templos espectaculares, a gastronomia) acaba por parecer um sonho, pois se escapa por entre os dedos, como água ou areia. Não fomos feitos para possuir nada: tudo o que podemos fazer é esquecer e sonhar.

Louco como sou, gostaria de fotografar até o que já não existe. Ou o que ainda não existe. Como seria interessante, por exemplo, poder tirar fotos da Antiguidade, da Idade Média e, já agora, do Futuro. Viajar no tempo... isso sim, seria viajar.

Não sou muito original: gostaria de ver o mundo todo. Adoraria dar a volta à prisão, como dizia Marguerite Yourcenar. Com toda a razão: aprisionados neste mundo, condenados à morte, esperamos a nossa hora de desaparecer, sem saber o que nos espera. Mas supondo que há vida depois da morte, uau... que viagem!

 fotografiafalada


© José Luís Neto

(José Luís Neto)

Uma das características do trabalho fotográfico que tenho vindo a desenvolver desde 1993 foca-se na reflexão do próprio meio e em imagens de arquivo. A série Inutilizado? é desenvolvida a partir de um negativo de gelatina e prata em suporte de vidro, no formato 13x18cm, do Museu Nacional de Arte Antiga, cuja imagem é uma reprodução fotográfica de um dos Painéis de São Vicente (Painel do Arcebispo), que se encontra muito desvanecida, quase transparente. Ainda preserva em algumas partes do negativo a representação figurativa inicial, dificilmente decifrável na sua superfície bidimensional, e noutras a “passagem do tempo” deu lugar a formas completamente abstractas. Neste trabalho, procuro mostrar a temporalidade, baseada na leitura do detalhe de uma imagem com cerca de 75 anos, respeitando todas as marcas visíveis sofridas pela matriz na emulsão fotográfica e no seu suporte de vidro (manchas, pó, riscos...) desde a sua exposição até aos nossos dias. As fotografias dos pormenores da imagem reflectem uma tentativa de revelar e acrescentar algo que não se vê quando se olha para a imagem.



Políptico, Espaço BES Arte & Finança, Lisboa
José Luís Neto, Carmela García, José Maçãs de Carvalho, Cristina Lucas, Pierre Gonnord, Pedro Cabral Santo
Até 24 de Abril

02 fevereiro, 2012

Carlos, Albertina e Manuel





A campanha Carlos, Albertina e Manuel (Fuel/ Euro RSCG Lisboa) feita no ano passado para assinalar o 30º aniversário da Amnistia Internacional Portugal foi distinguida na categoria print pelo Mobius Awards, um dos mais antigos concursos de publicidade do mundo. Os cartazes foram concebidos a partir de fotografias dos arquivos da PIDE e de imagens actuais captadas por João Pina para o livro Por Teu Livre Pensamento, feito em parceria com o jornalista Rui Daniel Galiza. Em 2011, a mesma campanha já tinha sido distinguida com um Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes na categoria outdoor.




 
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