03 dezembro, 2010

entre aspas



To take a photograph is to align the head, the eye and the heart. It's a way of life.


Henri Cartier-Bresson, in Magnum Photos Featured Photographer

Roadside America

Dog Bank Park Bed & Breakfast Cabin, Cottonwood, Idaho, 2004


Jóias à beira da estrada

Luís Maio (Fugas, Público, 30.10.2010)

Learning From Las Legas saiu em 1972 e foi uma pedrada no charco no mundo da arquitectura. O ensaio assinado por Robert Venturi e Denise Scott Brown veio propor a reabilitação da arquitectura vernacular, nos antípodas do funcionalismo e do austero estilo internacional, que então vigoravam no ramo. Contagiados pela vibração popular, os autores improvisaram títulos jocosos para as duas principais categorias de arquitectura que divisaram em Vegas. Chamaram “alpendres decorados” a edifícios frequentemente banais, mas cobertos de reclames, caso por excelência dos casinos da Strip. Atribuíram, por outro lado, a designação de “grande pato” àqueles que pela sua forma publicitam o que vendem – justamente como o mercado de aves construído em betão armado com a silhueta de um pato, que descortinaram em Long Island.

Esta apologia do vernacular antecipou o debate da pós-modernidade, mas na altura indignou os arquitectos sérios e mais genericamente a intelligentsia norte-americana. Learning From Las Legas não foi, no entanto, uma estreia absoluta: dois anos antes, a Liga de Arquitectura de Nova Iorque organizou uma retrospectiva dedicada a Morris Lapidus, autor de uma porção de hotéis surreais, sobretudo construídos em Miami e Hollywood. O autor desse escândalo, que é como quem diz o curador da exposição Lapidus, era John Margolies, então um jovem graduado em Comunicação Social. Voltaria a reincidir pouco depois ao assinar na revista Progressive Architecture uma apologia do Madonna Inn, hotel temático e catedral do kitsch, sediada em San Luis Obispo, na Califórnia.

John Margolies era desde miúdo um apaixonado do vernacular, em particular da arquitectura e do design que cresceram à beira das velhas estradas da América. Learning From Las Legas veio dar-lhe legitimação teórica, mas também um novo estímulo para partir à descoberta de “grandes patos” e “alpendres decorados” pela América fora. Tornou-se então fotógrafo e durante os trinta anos seguintes viajou perto de 150 mil quilómetros. Sempre dentro dos Estados Unidos, sempre na senda dessas peças de desenho extraordinário. Roadside America, editado Taschen, é a mais recente retrospectiva desse extraordinário trabalho de campo.

Paisagens improvisadas
Os motéis e restaurantes à beira da estrada surgiram nos anos 20, os minigolfes e os cinemas drive-in popularizaram-se na década seguinte. A vulgarização dessas atracções e comércios resultou da paixão norte-americana pelo automóvel, desencadeada pelo lançamento do Modelo T da Ford em 1908. A sua rápida produção em série levou à criação quase instantânea de uma intrincada rede rodoviária, cruzando o país inteiro.

Se os automóveis foram feitos para andar, o propósito dos negócios à beira da estrada era desviá-los do caminho. Um desafio nada fácil de resolver, a que os proprietários dos estabelecimento –, na maior parte gente com mais engenho que cultura –, respondeu improvisando estratégias por vezes luminosas, mas raramente subtis de autopromoção. Letras garrafais, tabuletas XL, néones cintilantes e um sem número de fantasias arquitectónicas integraram esse reportório de manobras de diversão, sinalizando e simbolizando uma variedade de tópicos, desde a fome à diversão, passando pela fé e pela moda. Toda uma iconografia de factura popular, respondendo à necessidade básica de chamar à atenção, não propriamente a exigências de apuro estilístico – embora boa parte dessas criações ingénuas tenha vindo a ser mais tarde reabilitada como Pop Art instantânea.

Até que, em 1956, o Governo Federal aprovou uma lei destinando cerca de 33 mil milhões de dólares para a construção de auto-estradas. Passou a ser possível viajar de costa a costa dos Estados Unidos sem precisar de fazer grandes paragens. Para tornar o sistema mais funcional, a lei previa o condicionamento dos acessos às auto-estradas, proibindo qualquer espécie de distracção nas bermas. As novas condições de circulação coincidiram, por isso mesmo, com a multiplicação de estabelecimentos de traça uniforme de marcas como Shell nos combustíveis, Holiday Inn na hotelaria ou McDonald’s na restauração. O êxito destes fenómenos de estandardização e franchising foram a machadada final para muitos negócios independentes de arquitectura ou design únicos, semeados à beira de antigas e cada vez menos usadas rodovias de via dupla.

Broadway Style House, Shreveport, Louisiana, 1982


Consagração da nostalgia
Foi este universo tipicamente norte-americano, entretanto desqualificado como baixa cultura e condenado em nome do progresso, que John Margolies se propôs documentar a partir de meados dos anos 70. Recorreu à fotografia, mesmo sem saber grande coisa de fotografia e ao longo de trinta anos de carreira foi repetindo que não era fotógrafo. John usava máquinas Canon, uma lente básica (há quem prefira dizer “clássica”) de 50 mm e filmes de 25 ASA, um tipo de filme lento, ideal para puxar pelas cores. Nunca chegou, por outro lado, a fazer o upgrade para o digital.
Margolies tinha, no entanto, um método peculiar, ou melhor será dizer a sua própria rotina de campanha. Ele, que vivia em Nova Iorque, partia à exploração de estradas secundárias na América profunda, por temporadas mais ou menos largas (conforme os patrocínios), mas sempre na estação baixa, para evitar eventuais congestionamentos de trânsito. Chegava aos sítios através de uma ou outra dica de edifícios na sua esfera de interesses, depois ia perguntando e descobrindo outros pelo caminho.

Fotografava sempre com céus azuis (pelos quais podia esperar vários dias), de preferência de manhãzinha, condições que lhe permitiam tirar partido das cores mais frequentemente saturadas dos seus temas. Mas não procurava uma perspectiva especial, ou qualquer tipo de efeito autoral. As suas imagens comungam de uma neutralidade, mais tarde revalorizada como o tom perfeito para acentuar a carga dramática/ poética das suas atracções arruinadas.
Os prédios que fotografava poderiam estar ao abandono ou à beira da demolição, mas as suas imagens depressa chamaram à atenção, valendo-lhe uma subvenção da Guggenheim Fellowship em 1978. Outros financiamentos se seguiram, permitindo-lhe passar até quatro meses por ano a fotografar on the road. Depois vieram as exposições, a começar pelos hotéis das montanhas de Catskill, no Museu Cooper-Hewitt de Design de Nova Iorque, em 1980, e as edições em livro, seja sob a forma de catálogo das exposições, seja de antologias temáticas, dedicadas a especialidade como os cinemas drive-in e os minigolfes.

A consagração internacional chegou já no novo milénio, com homenagens em lugares tão distantes quanto Roma e Macau, ao mesmo tempo que o próprio Congresso norte-americano lhe reconheceu o mérito, comprando-lhe fotografias para o seu arquivo. O mesmo é dizer que as imagens de John Margolies e, consequentemente, a arquitectura e o design vernaculares que passou a vida a retratar, já não são considerados uma piada de mau gosto, mas parte integrante da identidade americana.

A paixão de Margolies terá certamente contribuído para a mobilização que se tem verificado nos Estados Unidos no sentido de preservar os seus tesouros à beira da estrada, inclusive requalificando-os como destinos turísticos. Há mesmo um roadsideamerica.com, guia online para atracções estranhas e prodigiosas, do qual muito obviamente a Tashchen tomou o nome de empréstimo para a presente edição. O guia inclui mapas, sugestões de hotéis e dicas para excursões pela América bizarra e artigos sobre temas tão insólitos como cemitérios de cães, mulheres transparentes e bovinos gigantes.

roadsideamerica.com não partilha, no entanto, da visão e do sentido quase missionário subjacentes ao trabalho de Margolies, já comparado a Heródoto, o célebre historiador que na Antiguidade se dedicou a lançar luz sobre civilizações desaparecidas. Não é menos certo, por outro lado, que as imagens do fotógrafo nova-iorquino funcionam para além do documental, seduzindo na mesma medida em que invocam uma América utópica e desaparecida – a América que já não existe mas com que sonha meio mundo. Nesse aspecto, John Margolies não ficará muito a dever a artistas como Edward Hopper ou Norman Rockwell.



Gorilla Girl, Atlantic City, Nova Jérsia, 1978

22 novembro, 2010

Just Kids


Patti Smith e Robert Mapplethorpe em 1969



Quando trabalhava na livraria Scribner Patti Smith sonhava escrever e imaginava como seria receber um National Book Award, os mais reputados prémios de literatura americanos. Na semana passada, a dama do punk-rock saboreou o momento ao vencer o prémio na categoria de Ensaio com o livro Just Kids, onde recorda a Nova Iorque dos anos 60 e 70 bem como a sua relação de amizade com o fotógrafo Robert Mapplethorpe.


A recensão crítica do NYT ao livro está aqui e a do Guardian aqui

21 novembro, 2010

Guy Bourdain




Joana Amaral Cardoso
(Público, P2, 12.11.2010)

Madrid está cheia de imagens de moda: Mario Testino e o seu Todo o Nada no Museu Thyssen Bornemisza, os 100 anos da Vanity Fair, muitos deles inevitavelmente de moda, na Galeria Ivory Press, e as imagens enigmáticas de Guy Bourdain em Message for You (Sala Canal Isabel II) a servir de corolário.

O nome não rola logo da língua fashion, ao contrário do que acontece com Helmut Newton, Richard Avedon ou mesmo do mais contemporâneo e polémico Terry Richardson. Bourdain é tão iconoclasta como eles. Provocador, criou imagens sugestivas nos terrenos da sexualidade ou da violência. Mas ele era mais discreto - não dava entrevistas nem esclarecia confusões biográficas.

O fotógrafo francês, que morreu em 1991, aos 63 anos, queria era ser pintor. Talvez por isso haja ecos de obras de mestres do século XX no seu trabalho, talvez por isso tivesse uma relação difícil com as fotografias que produzia, talvez por isso fosse arredio do circuito da moda (leia-se as festas, os desfiles). "Era excêntrico e não queria ser medíocre", dizia ao El País Samuel Bourdain, o seu filho. Foi apadrinhado por Man Ray e um apaixonado por Magritte.

Tal como Newton, encenava ao detalhe as suas produções para conseguir composições potentes e narrativas de moda que iam da provocação à insinuação, impondo os expedientes mais extremos às suas modelos. Entre as ideias que as suas imagens nos provocam estão o desconforto e o perigo - e não o mais esperado encanto daquela mulher escultural nos seus sapatos altos. "O que vemos em Bourdain é uma ligação de dois grandes temas: desejo e morte", disse ao Telegraph Philippe Garner, um dos directores da leiloeira Sotheby`s.

Em 2003, uma retrospectiva no Victoria & Albert Museum de Londres começava a celebração da sua obra. Agora, além da exposição madrilena, é lançada a monografia In Between, sobre o trabalho de Bourdain, apadrinhado pela Vogue e pela marca de sapatos Charles Jourdan ao longo de uma carreira de 40 anos.

14 novembro, 2010

novos talentos 2010

© Frederico Azevedo

Estão encontrados os vencedores do Prémio Novo Talento FNAC de Fotografia 2010, no qual participei como júri ao lado de António Júlio Duarte (fotógrafo), António Pedro Ferreira (fotógrafo) e Mário Teixeira da Silva (director da galeria Módulo - Centro Difusor de Arte).
Frederico Azevedo arrecadou o prémio principal com o portfólio In Between e Maria-do-Mar Pedro Rêgo foi reconhecida com uma menção honrosa com o trabalho A História de Tudo aquilo que é.

Eis o texto do júri sobre o trabalho vencedor:

A fotografia de Frederico Azevedo ilustra a forma como muita da fotografia contemporânea, designada habitualmente por plástica, se tem afastado da função de testemunho para se converter inteiramente em obra de arte e assim criar a sua própria história, como diário pessoal, reportagem social ou registo de estados alucinatórios.

Tudo começou no final da década de 60 com a utilização da fotografia pelos artistas conceptuais, onde esta é um simples instrumento para documentar as intervenções em locais afastados do circuito habitual para a arte, galerias ou museus, ou ainda uma via para fixar certo tipo de actividades performativas. A partir daqui, a fotografia ingressou nas escolas de arte e a linguagem fotográfica adquiriu um estatuto de maioridade, passando a ser objecto de investigação, convertendo-se em obra de arte. A fotografia plástica surge assim como alternativa à fotografia documental e à fotografia criativa, não esquecendo que, apesar de estas últimas continuarem hoje presentes, a primeira tem vindo a conquistar um lugar proeminente, tanto no espaço institucional como no do mercado.

Perante as imagens de Frederico Azevedo somos atraídos primeiramente pelos fortes contrastes lumínicos, pela plasticidade expressiva dos negros, pela forma como os vários personagens são fotografados de um modo que não nos ocorre querer saber quem são, ou onde o fotógrafo se cruzou com eles, e ainda a que mundos marginais pertencem. Estes são antes vultos, habitantes sombra de um mundo degradado, claustrofóbico e paralelo ao mundo que nos rodeia a que chamamos normal. Estas fotografias são sobretudo visões de um devir existencial, com os seus medos e as suas angústias. O fotógrafo construiu um corpo fotográfico onde a fotografia documental aparece travestida de intimidade.

Dos mais de duas centenas de portefólios avaliados, In Between de Frederico Azevedo destacou-se claramente pela forte intensidade expressiva e pela perfeita articulação formato – conteúdo. In Between transporta-nos para uma fotografia subjectiva, confessional. Conforme o título deste portefólio, Frederico Azevedo trabalha no limiar de dois mundos, um real, objectivo, que aqui vemos nestas fotografias de um negro exacerbado habitadas por personagens em ambientes de um mundo nocturno e algo fantasmático, o outro, o seu duplo, como querendo fazer entrar o dia na noite. Estas imagens não revelam um outro mundo, mas antes o nosso, por meio do qual o fotógrafo, com uma clara sinceridade, procura libertar-se das suas próprias feridas e fantasmas. Diante deste corpus de trabalho apercebemos quanto de invisibilidade emerge da realidade concreta de uma imagem fotográfica.

Frederico Azevedo, nesta panóplia fotográfica, não procura construir uma tipologia dos muitos e variados exemplares de um mundo suburbano, pelo contrário, In Between funciona como espelho de auto-representação. Casos há na História da fotografia, mais ou menos recente, onde o fotógrafo é o seu próprio modelo, metamorfoseando-se numa série caleidoscópica de personagens, com Frederico Azevedo é o outro a sua imagem ao espelho.


Mário Teixeira da Silva





© Maria-do-Mar Pedro Rêgo

03 novembro, 2010

comissariar

© Eunice Adorno

Muito interessante o projecto Trasatlántica, organizado pelo festival PHotoEspaña que permite a qualquer pessoa organizar um projecto expositivo a partir de imagens de 40 fotógrafos latino-americanos disponibilizadas online. Entre as propostas enviadas serão seleccionados 6 projectos expositivos que serão mostrados online. Entre esses trabalhos será escolhido uma proposta vencedora que será produzida e mostrada nos centros da Agencia Española de Cooperación Internacional para el Desarrollo de toda a América Latina.
As propostas de comissariado podem ser feitas aqui

à espera


Não sei se é por causa dos soluços das Mamiya (que acusam o uso de anos e anos). O certo é que António Júlio Duarte parece cada vez mais interessado na imagem em movimento. Rezemos para que os mecânicos consigam encontrar todos os parafusos e molas soltas nessa maravilha do engenho nipónico. Enquanto isso não acontece desfrutemos de trabalhos noutros suportes como aquele que assina com Filipe Felizardo (Place your bets and pray for blood), peça integrada na mostra O que o futuro foi, que estará patente no espaço Laboratório das Artes, em Guimarães, e que utiliza "longas sequências originais de filmagens de luta de grilos na China". Na mesma ocasião António Júlio Duarte apresenta uma sequência de diapositivos que "resultam do corte (em frames) de um filme".

02 novembro, 2010

reprint in real-time

© Paulo Mendes

Acabadinhas de aterrar no meu e-mail, algumas das imagens que Paulo Mendes mostrará na galeria Reflexus, a partir de sábado, na exposição reprint in real-time, dão vontade de ir até ao Porto.

reprint
A reprint is a re-publishing of material that has already been previously published.

The word reprint is used in many fields.
A new printing of a publication which has no changes from the original.
A publication that is reprinted without changes or editing and offered again for sale.
To renew the impression of anything.A copy of an impression from a part of a bibliographic unit, printed from the type image of the original and separately issued.
A new impression of an existing edition, often made by photographic means, or a new edition made from a new setting of type which is a copy of a previous impression, with no alterations in the text except perhaps the correction of typographical errors.
The reprint is much less expensive than a first edition.
The number of copies in a reprint edition is usually less than in the original edition.
To publish something that has been published before.Separately issued reprint of a part of a publication or document.

(in)

real-time

Of or relating to computer systems that update information at the same rate they receive information.
Being instant, instantaneous or immediate.
Real-time computer graphics, the producing and analysis of images in real time.
A system is said to be hard real-time if the correctness of an operation depends not only upon the logical correctness of the operation but also upon the time at which it is performed.
An operation performed after the deadline is, by definition, incorrect, and usually has no value. In a soft real-time system the value of an operation declines steadily after the deadline expires. Massively multiplayer online real-time strategy (MMORTS) is a category for computer games that combines real-time strategy (RTS) with a large number of simultaneous players over the Internet. It is a type of massively multiplayer online game.
Data from the source that are available for use within a time that is short in comparison to important time scales in the phenomena being studied.
Data presented in usable form at essentially the same time the event occurs. The delay in presenting the data must be small enough to allow a corrective action to be taken if required.

26 outubro, 2010

João Silva


João Silva
© Jerome Delay/Associated Press


No último sábado, o fotojornalista português João Silva, a viver na África do Sul, pisou uma mina artesanal em Arghandab (um vale perto de Kandahar, Afeganistão) e sofreu ferimentos graves que resultaram na amputação das pernas. Depois de ter sido sedado, João Silva acordou hoje e falou com a mulher num hospital militar norte-americano na Alemanha para onde foi transferido. Nos últimos dias, os adjectivos "destemido", "corajoso", "profissional", "generoso", "melhor" têm sido repetidos por colegas de profissão, amigos e conhecidos. Sofia Lorena falou com alguns deles para escrever o texto publicado hoje no P2 que mostra bem o quanto o fotojornalista português é admirado e acarinhado (aqui).
O blogue do New York Times, jornal para o qual João Silva trabalhava quando ficou gravemente ferido, publicou parte de uma conversa entre o fotojornalista e Michael Kamber (também fotojornalista) onde o repórter português fala do seu percurso profissional e do que o move na profissão (aqui).
João Silva nasceu em Odivelas, em 1966. Partiu ainda criança para Moçambique e depois para a África do Sul. Começou a fotografar aos 23 anos, ao serviço do jornal regional Alberton Chronicle, de Joanesburgo, cidade onde vive. Fez-se notar pela primeira vez em 1992, quando venceu o Ilford Press Photograper of the Year por um trabalho publicado no jornal The Star. A cobertura do quotidiano de violência entre apoiantes de Nelson Mandela e Buthelezi nos arredores de Joanesburgo valeram-lhe reputação, trabalho muitas vezes realizado ao lado de Kevin Carter, Greg Marinovitch e Ken Oosterbroek, quarteto que ficou conhecido como bang bang club. Depois da morte de Oosterbroek, em 1994, e Carter, no mesmo ano, Silva e Marinovitch decidiram relatar em livro as suas experiências dos tempos entre o fim do apartheid e as primeiras eleições livres. A obra bang bang club está agora a ser adaptada ao cinema. João Silva trabalhou como freelancer para as agências Reuters e Associated Press. Desde 1996 que trabalha quase em exclusivo para o jornal New York Times, com quem assinou um contrato em 2000. É um dos fotógrafos da agência PictureNet e já foi distinguido com duas menções honrosas nos prémios World Press Photo.

(obrigado J. P.)

19 outubro, 2010

no doc

Countryside 35x45, de Evgeni Solomin


O doclisboa já vai a meio. Ainda assim, aqui ficam algumas sugestões mais "fotográficas" (ou lá o que isso significa) para as sessões que estão por passar:

Dolce Vida Africana
De Cosima Spender (59', França, Reino Unido, 2008)
"Retrato do fotógrafo africano Malick Sidibé e viagem através da história recente do Mali. As fotografias de Malick Sidibé captam o espírito despreocupado de uma juventude ávida de rítmos internacionais, que afirma a libertação do colonialismo nos primórdios da independência."
21 OUT. 21:00 – Cinema LONDRES - Sala 2
23 OUT. 18:30 – Cinema LONDRES - Sala 2
24 OUT. 20:30 – Cinema LONDRES - Sala 1

Countryside 35x45
De Evgeni Solomin (Rússia, 2009, 43’)
"Na Rússia, há pouco tempo atrás, trocavam-se os velhos passaportes soviéticos por novos passaportes russos. Um fotógrafo de província viaja pela Sibéria, tirando fotografias de passaporte 35x45mm dos aldeões. Através de uma profunda observação da vida no campo, o filme desvela uma poética sobre zonas remotas onde duas culturas se justapõem: a da antiga União Soviética e a da Rússia actual."
20 OUT. 18:30 - Cinema LONDRES - Sala 2
22 OUT. 16:00 - Cinema LONDRES - Sala 1

The Forgotten Space
de Allan Sekula e Noël Burch (Holanda, Áustria, 2010, 110’)
"A câmara segue os contentores de navios de carga, barcos, comboios e camiões, ouvindo trabalhadores, engenheiros, gestores de transportes, políticos e marginalizados pelo sistema global de transportes. O mar é esquecido até que um desastre acontece, mas talvez a maior catástrofe seja a da cadeia global de abastecimento, que pode conduzir a economia mundial ao abismo. Percorrendo uma série de cidades e utilizando uma diversidade de fontes, em que se incluem entrevistas e material de arquivo, este filme é um poderoso ensaio visual. Prémio do júri da secção “Orizzonti” de Veneza 2010."
22 OUT. 20:30 – Cinema LONDRES - Sala 1
24 OUT. 22:30 – Cinema LONDRES - Sala 1

Luz Teimosa
De Luís Alves de Matos (Portugal, 2010, 75’)
“O mundo de Fernando Lemos é feroz e despojado de qualquer lógica externa” disse Jorge de Sena. Este filme é uma jornada surrealista, na busca de uma mulher de uma fotografia de há 50 anos, ou numa divertida partida de cartas. E assim nasce cada palavra dentro de outra palavra e cada imagem dentro de cada imagem.” De quantas facas se faz o amor?”
19 OUT. 20:45 – CULTURGEST - Pequeno Auditório

Double Tide
De Sharon Lockhart (EUA , 2009, 99’)
“Double Tide”, o novo filme de Lockhart, é um belíssimo retrato de uma trabalhadora da apanha de mexilhão na costa do Maine, nos Estados Unidos da América. Uma actividade solitária, ritual, sujeita aos elementos da natureza."
21 OUT. 18:00 – CULTURGEST - Pequeno Auditório

The 400 million
De Joris Ivens (EUA, 1939, 53’)
Na guerra Sino-Japonesa, a luta da frente comum chinesa contra a invasão.
Com fotografia de Robert Capa e música de Eisler.
23 OUT. 16:15 - Cinema CITY CLASSIC ALVALADE - Sala 3

(sinopses: doclisboa)

17 outubro, 2010

as mãos


Entrega da proposta do OE 2011
João Henriques/Público

Na sexta-feira, último dia do prazo para a entrega da proposta para o Orçamento de Estado para 2011, enquanto planeávamos na redacção os últimos acertos do destaque a dar ao assunto na homepage do Público Online disse várias vezes que as fotografias deste momento eram normalmente desinteressantes, sensaboronas, burocráticas. O assunto e o cenário do ritual da entrega do OE no Parlamento não costumam permitir fotografias com fulgor e rasgo.
Passava pouco da meia-noite (o OE 2011 incompleto foi entregue quase a tocar o gongo) quando João Henriques, ainda a limpar o suor da testa, nos trouxe esta imagem que demoliu todos os preconceitos que tinha verbalizado durante a jornada de trabalho.
No meio da balbúrdia em que se transformou o momento exacto da entrega da pen com o documento, João escolheu bem. Para lá da solenidade dos corpos engravatados, da pompa da sala, orientou o olhar para a mão que dá (a de Teixeira dos Santos) e para a mão que recebe (a de Jaime Gama), dando àquele gesto um significado visual rico e contraditório, ao mesmo tempo o mais insignificante e o mais definitivo, como o que foi pintado por Miguel Angelo no tecto da capela Sistina, quando Deus toca a mão de Adão no momento da criação.
Teixeira dos Santos é capaz de ter cometido não um mas vários pecados com este Orçamento. E Jaime Gama está longe de ser um Deus miraculoso e criador. Seja como for, este pode ser o momento que marcará o nosso renascimento ou nosso afundamento económico. Será que este Orçamento nos vai salvar do FMI? Ou será que o FMI vai ser a nossa salvação?

ver

Gerda Taro, milicianas durante um treino na Guerra Civil Espanhola

O International Center of Photography pediu ajuda ao escritor e cronista do El País António Muñoz Molina para identificar locais e personalidades registados em alguns dos negativos da mala mexicana, com imagens de Robert Capa, Gerda Taro, e "Chim" (David Seymour) feitas durante a Guerra Civil espanhola. Essa experiência foi contada na sua crónica habitual do Babelia aqui

11 outubro, 2010

Arpad + Helena

Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, Budapeste, 13 de Julho de 1930
© FASVS


O site da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva disponibiliza uma pequeníssima amostra da colecção de fotografia da instituição que diz respeito aos dois artistas. Vieira da Silva, escreve-se na página da FASVS, fugia das entrevistas e das objectivas. Dizia que "a objectiva só podia captar um único ângulo e as pes­soas são feitas de muitos". Mas, volta e meia, lá se deixava apanhar. E gostava mais da pose estudada do que da fotografia espontânea - com medo das expressões repentistas e, eventualmente, menos abonatórias.

aqui

10 outubro, 2010

OjodePez


© Giuseppe Moccia


Giuseppe Moccia é o vencedor do III Premio PHotoEspaña OjodePez de Valores Humanos 2010. O portfólio vencedor chama-se El chico de los miércoles e aborda a vida de Christopher, um rapaz de 18 anos com síndrome de Down. O fotógrafo italiano ganha um prémio monetário de 6 mil euros e a oportunidade de expor individualmente na próxima edição do festival PHotoEspaña.
Para além de Moccia, chegaram à fase final do galardão os fotógrafos Marco Di Lauro, Munem Wasif, Álvaro Laiz García, Alessandro Imbriaco, Jacob Aue Sobol, Carlos Luján, Jackie Dewe Mathews, Alexa Brunet e David Rengel. Os trabalhos destes autores podem ser vistos na última edição da revista OjodePez.
O porfólio vencedor será também exposto nas lojas FNAC de Espanha e Portugal.

09 outubro, 2010

regressar

© Enric Vives-Rubio/Público


Fernando Lemos está de regresso a Lisboa. Na semana passada, inaugurou a exposição Isto é Isto e Ex-Fotos na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva que mostra desenho e fotografia. Para hoje, às 15h30, está marcada uma conversa entre o artista brasileiro e os comissários Filipa Valladares e João Pinharanda.
No dia 17 de Outubro começa o Ciclo Fernando Lemos na FASVS que mostrará filmes e documentários sobre o autor.

Eis o programa:

#17 Outubro, 7 e 21 Novembro, domingos, 15h30
Fernando Lemos – atrás da Imagem
De Guilherme Coelho, 2006, 55’

#24 Outubro, 14 e 28 Novembro
Foto Doc: Fernando Lemos
De Camila Garcia e Renato Suzuki, 2005, 30'
Fernando Lemos e o Surrealismo
De Bruno de Almeida e Pedro Aguilar, 2006, 10’

#31 Outubro, 5 Dezembro
Conversas com Glícinia
De Jorge Silva Melo, 2004, 55’

#Janeiro 2011 (em dias a anunciar)
Luz Teimosa
De Luís Alves de Matos, 2010, 75’
(estreia no Doc’Lisboa 2010, 15 Outubro, 19h00, Culturgest)

07 outubro, 2010

Helena

Helena Almeida, Work-32 (Entrado 1), 1977
© Helena Almeida

Quase sempre que há um leilão de relevo internacional de fotografia lá estão as imagens de Helena Almeida lado a lado com os melhores criadores mundiais. A venda da Philips de Pury & Company está agendada para esta sexta-feira e leva à praça um conjunto de 411 lotes de grande interesse. Helena Almeida faz parte do leilão com dois dípticos da série Entrado 1. Cada lote partirá de uma base de licitação de 8000 dólares.

06 outubro, 2010

10x15

Matías Costa, The Family Project, Genealogia, 2010
© Matías Costa


E com pouco se faz muito. A fanzine online 10x15 (a recordar os álbuns das revelações numa hora) já leva 20 edições com um trabalho de comissariado muito apurado de Arantxa Boyero, María Platero, Lucía Morate e Eduardo B. Muñoz. I LOVE LA FAMILIA é o tema genérica do último número que mostra álbuns de Oriana Eliçabe, Wilma Hurskainen, Aurélia Frey, Yosigo, Ellen Nolan, Ricardo Romanoff, Aaron Gustafson, Thomas Doyle, Alfonso Almendros, Argiderphoto, Goiuri Aldekoa-Otalora, Aislinn Leggett, Matías Costa, STEEL5000 e Martín García Blaya.

10x15

05 outubro, 2010

a mala abre-se

Gerda Taro, Navacerrada, Segovia, Espanha, 1937
© International Center of Photography


A história da "mala mexicana" dava um filme. Para já deu uma exposição. As três caixas recheadas com 4500 negativos de 35mm sensibilizados por Robert Capa, Gerda Taro, e "Chim" (David Seymour) durante a Guerra Civil espanhola foram recuperadas em Dezembro de 2007 e boa parte do seu conteúdo pode agora ser apreciado no International Center of Photography (ICP), a instituição que durante anos foi dirigida por Cornell Capa (irmão de Robert) e que, ao longo de anos, negociou a venda da mala. The Mexican Suitcase (patente até Janeiro de 2011) desvenda imagens de três protagonistas de uma nova forma de fotografar conflitos. A exposição mostra provas de contacto de reportagens, reproduções das melhores imagens de cada um dos fotógrafos (76) e dezenas de revistas de todo mundo onde algumas delas foram publicadas.
O ICP organizou um catálogo em dois volumes, onde estão reproduzidas todas as imagens dos negatidos. A obra tem ensaios de Paul Preston, Simon Dell, David Balsells i Solé, Michel Lefebvre, Bernard Lebrun, Brian Wallis, Cynthia Young e Kristen Lubben.

Mais sobre a exposição The Mexican Suitcase aqui
Mais sobre a "mala mexicana" aqui
Crítica do NYT

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Robert Capa, rio Segre, Aragón,Fraga, Espanha, 1938
© International Center of Photography

04 outubro, 2010

entre aspas


Paul Bowles

Ela abriu a porta. Port estava deitado numa posição estranha, as pernas muito dobradas nas cobertas. Aquele canto do quarto era como uma fotografia imóvel cujo filme fosse bruscamente iluminado no meio de uma corrente de imagens em movimento. Ela fechou a porta suavemente, trancou-a, voltou-se de novo para o canto, e avançou lentamente em direcção ao colchão. Susteve a respiração, debruçou-se, e olhou para dentro dos olhos sem expressão.

Paul Bowles, O céu que nos protege, Assírio & Alvim

óbvio

Helena Gonçalves, José Saramago, 2007
© Helena Gonçalves

Helena Gonçalves fotografou bailarinos do Ballet Gulbenkian (1965-2005), Diogo Dória, Rodrigo Leão e José Saramago. O resultado desse trabalho de retrato (que pôde ser visto no Espaço da Companhia de Teatro Útero, no Ginjal) sublinha os destinos e as actividades de cada sujeito fotografado num jogo óbvio, "demasiado óbvio", nas palavras de José Gil que assina o texto que apresentou a mostra. Aqui

03 outubro, 2010

Visura

Alejandro González, da série Inappropriate Behavior
© Alejandro González


Tenho acompanhado a revista online FotoVisura. Há sempre porfólios com muita qualidade.

Edição nº 10 aqui

02 outubro, 2010

bpb

Martin Parr, Autoportrait
© Collection of Martin Parr



Arranca este fim-de-semana a Brighton Photo Biennial que nesta edição conta com a curadoria do fotógrafo da Magnum Martin Parr. New Documents é o tema genérico que escolheu para o conjunto de exposições que pretendem mostrar "a vibração da prática fotográfica contemporânea, as paixões ecléticas das colecções de fotografia histórica e vernacular e trabalhos inspirados na diversidade de comunidades e contextos de Brighton & Hove".
O bpb apresenta-se como o primeiro festival de fotografia frame-free. O lote de artistas inclui Esteban Pastorino Diaz, Stephen Gill, Rinko Kawauchi, Alec Soth, entre muitos outros.
As exposições podem ser vistas até 14 de Novembro.

Mais informações sobre o bpb aqui

género

Na Índia, não são apenas as classes, as castas e as etnias a cavar mais fundo as diferenças - o género com que se nasce também provoca o abandono, o repúdio e a desonra. As mulheres sabem-no, sentem-no. Sob a batuta da Media Storm, o fotógrafo Walter Astrada alerta para um problema social (e civilizacional) num dos países mais populosos do mundo.


01 outubro, 2010

voltar


(de volta às fotografias)

28 agosto, 2010

férias

© Pedro Cunha/Público

Agora vou ali. Até já.
(Isto andou um bocado parado, eu sei. Foi a canícula. E o trabalho a triplicar...)

16 agosto, 2010

William Gottlieb

Charlie Parker, Tommy Potter e Max Roach, Three Deuces, Nova Iorque, c. Agosto de 1947


Com três disparos apenas
M.P.B. (P2, Público, 14.08.2010)


Se a fotografi a tivesse som, Billie Holiday estaria a cantar “I love you, Porgy/Don’t let him take me/Don’t let him handle me/With his hot hands.” E isso é parte da magia das fotografias de William Gottlieb, uma colecção de 1500 negativos e provas originais agora disponibilizada pela Biblioteca do Congresso norte-americano na rede social Flickr, sem restrições de direitos de autor, seguindo a vontade do próprio fotógrafo e crítico de jazz.

Gottlieb entrou no jazz por um infortúnio: uma intoxicação alimentar atirou-o para a cama durante um mês e uma das suas visitas de cabeceira era o amigo Doc Bartle, pianista e fã de Armstrong e Ellington. As suas primeiras crónicas sobre jazz foram publicadas num jornal universitário, saltou para o Washington Post e aí começou a fotografar com a sua “besta”, como
chamava à máquina, uma Speed Graphic de difícil, e dispendioso, manuseamento (para poupar filme e flash não disparava mais do que três ou quatro vezes). Fez rádio, foi disc jockey, escreveu e fotografou para a revista Down Beat e depois desapareceu de cena. Até um editor o convencer a compilar todo o material em livro, The Golden Age of Jazz (1979), e com isso recuperar o início da sua carreira, a década (1938-48) em que era presença nos clubes nocturnos e nas jam sessions com Charlie Parker, Duke Ellington, Miles Davis, Stan Kenton, Dizzy
Gillespie, Earl Hines, Thelonious Monk, Benny Goodman, entre muitos outros que fizeram a história do jazz norte-americano.
Mais fotografias do mundo jazz de William Gottlieb aqui

14 agosto, 2010

Pieter

© Pieter Hugo


Já vi várias séries de trabalhos do sul-africano Pieter Hugo - não há uma que não nos provoque, que não nos faça estacionar o olhar. É um dos fotógrafos da actualidade que mais admiro.
Mais um exemplo do seu enorme talento na próxima Magazine (A Global Graveyard for Dead Computers in Ghana), do NYT, e aqui



© Pieter Hugo

saldos ICP


O International Center of Photography de Nova Iorque tem dezenas de livros em saldos. Vale a pena espreitar aqui

Mais Ansel?

Cortesia de Rick Norsigian


Há uns dias a CNN anunciou com grandes parangonas que um conjunto de 61 negativos comprados em 2000 por um coleccionador pertenciam a Ansel Adams, um dos nomes maiores da fotografia americana do século XX. A família de Adams, pela voz do seu neto Matthew, contesta a relação entre estes negativos e as imagens captadas pelo fotógrafo que ajudou a mitificar o Yosemite Park, na Califórnia. A jornalista Ana Dias Cordeiro escreveu sobre o assunto logo depois da cadeia de televisão norte-americana ter lançado a teoria da verosimilhança montada por uma firma de advogados contratada por Rick Norsigian.
Eis esse texto:

Ansel Adams
Os novos negativos são um tesouro ou uma fraude?
Ana Dias Cordeiro (P2, Público, 27.07.2010)

Matthew lembra-se bem do avô, Ansel Adams (1902-1984), um dos nomes maiores da fotografia do século XX, conhecido pela forma única como captava a espectacularidade dos rochedos de Yosemite Park, na Califórnia, ou pela candura das suas paisagens da costa Oeste dos Estados Unidos.

Numa entrevista por telefone ao P2, Matthew Adams conta como o avô era meticuloso na sua arte: registava tudo o que fotografava e, em cada imagem que fazia, anotava o tempo de exposição usado. Era desta forma que Ansel - é assim que a ele se refere o neto -aperfeiçoava, em cada fotografia, a técnica de revelação. E com o tempo Ansel tornou-se num dos mais importantes fotógrafos de sempre. Moonrise, Hernandez, New Mexico ou Clearing Winter Storm são apenas algumas das suas fotografias mais conhecidas.

Considerado por muitos como o pai da fotografia norte-americana, Ansel Adams era filho único e teve uma "infância diferente" e solitária, lê-se numa das suas biografias, escrita por William Turnage, também director do Ansel Adams Trust, que hoje detém todos os direitos de publicação do artista.

Tímido e de difícil adaptação à escola, teve um ensino especial à distância e compensou a solidão com a paixão pela natureza e pela música, a que se dedicava tocando piano.

Com o conhecimento que tem da vida e do trabalho do avô, é Matthew - também presidente da Ansel Adams Gallery no Yosemite Park, onde existe uma colecção importante dos seus originais - quem responde, em nome da família, a Rick Norsigian. Este coleccionador de antiguidades de Fresno, na Califórnia, diz ser dono de 61 negativos em placa de vidro de Ansel Adams, encontrados em duas caixas numa venda de garagem em 2000.

Esta semana, uma equipa de especialistas contratados pela firma de advogados de Beverly Hills a que Rick Norsigian recorreu em 2003 veio dar-lhe razão, dizendo que as fotografias teriam sido tiradas entre 1919 e 1932. E anunciou, ao fim de sete anos de investigação, que os negativos fazem parte da obra de Adams. Contactados, nem Norsigian nem a firma de advogados responderam às questões do P2.

Além de uma página pessoal, Norsigian criou um sítio na Internet (http://www.lostnegatives.com/) para vender imagens reveladas a partir de 17 desses negativos, com preços que podem ir até aos 7500 dólares (perto de 6000 euros). O conjunto, diz o especialista em fotografia Patrick Alt também contratado na equipa de peritos, valerá 200 milhões de dólares (150 milhões de euros). "Em quase todas as fotografias, as composições não apresentam nenhuma falha, sendo evidente que foram feitas por um fotógrafo com uma visão e um talento singulares", disse Patrick Alt citado pela CNN e o Los Angeles Times.

A arte da impressão
Matthew Adams começa por dizer que nunca o avô deixaria negativos sem ser ao seu cuidado e que o anúncio pela equipa de especialistas, "com tão poucas provas", é "irresponsável", além de "falso". Não imagina como chegaram ao valor de 200 milhões de dólares. Mas garante que não pode ser verdadeiro, para 61 negativos, de supostas imagens de início de carreira, quando o valor recorde atingido num leilão recente para uma impressão do próprio fotógrafo foi de 720 mil dólares. E explica ao P2: "O valor da obra de Adams está na impressão, que é a expressão da intenção do artista. O negativo é um meio para obter um fim."

Matthew Adams não crê, voltando à forma meticulosa como o artista registava tudo o que fotografava, que houvesse negativos sem registos desse tempo de exposição, que religiosamente anotava. E não há quaisquer registos destes negativos.

É verdade que em 1937 houve um incêndio na câmara escura que Adams tinha no Yosemite Park - tinha outra em São Francisco -, mas isso não explica tudo. "É difícil acreditar que todas as referências desses 61 negativos tenham sido destruídas", diz. No final, considera, a investigação apenas apresenta "provas circunstanciais".

Parte dessas provas diz respeito a esse incêndio - alguns negativos têm os cantos ligeiramente danificados. Além disso, pela semelhança destas imagens com o trabalho de Adams, os especialistas questionam: "Se não foi Adams, quem foi?"

A resposta é imediata e para Matthew parece óbvio que num lugar como o Yosemite, visitado por turistas, amantes e profissionais de fotografia, outra pessoa possa ter captado estas imagens. Volta a insistir que, "embora haja uma boa parte de criatividade e intenção no negativo", a arte está na impressão.

A conversa em tom tranquilo também conduz Matthew à avó, Virginia Best Adams, que nasceu e cresceu no vale de Yosemite. Pela sua proximidade com o marido, com quem se casou em 1928, podia ter sido ela a anotar os nomes dos locais fotografados nos envelopes onde foram encontrados os negativos. Foi o que concluiu a equipa de investigadores, na qual está incluído um especialista em caligrafia, e essa é a ligação a Adams mais concreta que apresentam. Mas é apenas mais uma refutada por Matthew. Os nomes nos envelopes contêm erros "impensáveis" para a sua avó. Como Glaciar Point em vez de Glacier Point ou Bridal Vail Falls em vez de Bridal Veil Falls. Além de conhecer bem cada canto do vale de Yosemite, a avó era "inteligente e culta", garante. "Parece-me inconcebível que Virginia não escrevesse bem qualquer lugar que pertencesse aoYosemite."

Opiniões não coincidentes
Quando, na Primavera de 2000, entrou na venda de antiguidades numa garagem de Fresno, Rick Norsigian achou que os negativos embrulhados em papel de jornal tinham uma "aparência interessante" e comprou o conjunto por 45 dólares. Nada fazia adivinhar que de uma vida modesta, como pintor de paredes numa escola no distrito de Fresno, Norsigian passasse a uma vida cheia de surpresas, digna de um policial, e que chegaria a figura pública, como aconteceu esta semana. O coleccionador não conhecia a obra de Adams mas, entusiasmado com a compra, mostrou as fotografias a familiares e amigos, que notaram a semelhança das imagens com o trabalho do conhecido fotógrafo.

A partir daí, Norsigian empenhou-se em conhecer a vida e a obra de Ansel Adams. Comprou todos os livros de fotografias do artista e leu todas as biografias publicadas. Queria especializar-se para descodificar cada pormenor de cada imagem e assim provar (ou excluir) a hipótese de estes serem negativos perdidos e fotografias inéditas.

Quanto mais lia e observava as fotografias, mais se convencia de que tinha encontrado um "tesouro nacional". Mas precisava de uma confirmação.

Ao contrário do que acontece com as pinturas, não existe uma autoridade oficial que autentique as fotografias e não há uma assinatura que ligue a obra ao artista. Além disso, pouco se sabia de como os negativos teriam chegado àquela venda de antiguidades. O vendedor disse tê-las encontrado num armazém de Los Angeles. Nas suas pesquisas, Norsigian descobriu que Adams se tinha mudado temporariamente para Los Angeles em 1941 para dar aulas. A descoberta deu-lhe ânimo, mas não era suficiente.

Contactou então três dos biógrafos de Ansel Adams, conta o Los Angeles Times num artigo de 2007. A primeira, Mary Street Alinder, encorajou-o. Considerou que algumas imagens pareciam ser de Adams, outras não.

Mais tarde, o coleccionador chegou a Anne Hammond, autora de outra biografia do fotógrafo, que não se pronunciou por ter dúvidas, e a Jonathan Spaulding, também biógrafo de Adams e curador do Museu de História Natural de Los Angeles. Este considerou que nenhum dos negativos chegava ao melhor do trabalho do artista mas que, na altura, Adams não teria ainda desenvolvido o talento que viria a comprovar-se a partir dos anos 30. Mas apontou duas referências nas imagens que estabeleceriam uma possível ligação a Ansel Adams: um carro, um Buick de 1926, como sendo de Albert Bender, que acompanhava Adams nas suas viagens, e uma figura que parecia ser de Ansel Hall, um naturalista de Yosemite que era amigo do fotógrafo.

Podia ou não ser trabalho de Adams. Spaulding não queria comprometer-se com a autoria. Apesar disso, Norsigian entusiasmou-se e, desde 2003, a firma de advogados a que recorreu contratou uma equipa de especialistas em fotografia, caligrafia e até meteorologia. Estes últimos foram ao detalhe de analisar a posição da neve num conhecido pico (Sentinel Dome) do Yosemite Park, as sombras e o modo como estavam formadas as nuvens. Concluíram que uma das imagens dos negativos só podia ter sido captada no mesmo dia de outra, uma fotografia conhecida do arquivo de Ansel Adams - a Jeffrey Pine, um pinheiro no alto de um rochedo.

Matthew, que também vive em Yosemite, diz que a luz, sombras e nuvens de neve na região são indistintas pelo menos durante dois meses num ano. E que a fotografia podia ter sido tirada em qualquer dia desses dois meses, e por outra pessoa que não Ansel Adams.


Cortesia de Rick Norsigian

10 agosto, 2010

Antifotojornalismo

Walid Radd, Atlas Group, 1999, Líbano
© Walid Radd


Antifotojornalismo
Trabalhar sem manual de instruções


No final da exposição Lírica Urbana, de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), no Museu Colecciones ICO, em Madrid, que faz parte do festival PHotoEspaña 2010, há uma inscrição na parede que diz que o trabalho da fotógrafa americana nas ruas de Nova Iorque (onde aparecem maioritariamente crianças) pode classificar-se como “antifotojornalístico”. A frase é de Walker Evans, uma das principais referências de Levitt, e transporta uma alusão ao método de trabalho da fotógrafa, que durante mais de uma década se concentrou num tema específico, com uma abordagem formal mais ensaística e menos… jornalística. As fotografias de Levitt “têm um tempo de observação estendido”, disse ao Público Carles Guerra, um dos comissários da exposição Antifotojornalismo, recentemente inaugurada no espaço La Virreina, em Barcelona. Essas imagens estão menos voltadas para a urgência do momento ou mesmo para a captura do momento decisivo, duas características que percorrem os trabalhos dos 27 criadores representados na exposição que, através de exemplos históricos e diversas propostas formais, tentam reflectir sobre “novas práticas, estratégias, pontos de vista, técnicas e agentes”, que não só puseram em causa o estatuto hegemónico do fotojornalista, como “transformaram radicalmente as instituições e os conceitos basilares da profissão”.

O nome da exposição (que pode ser vista até 10 de Outubro) não deixa grande margem para equívocos: “Todos os autores são críticos do fotojornalismo, que é escravo da urgência, do imediatismo, da imagem que tem de mobilizar opinião.”

O tom geral sobre o conceito de “antifotojornalismo” foi dado por Allan Sekula depois de, em 1999, ter acompanhado as manifestações contra a globalização e a cimeira da OMC em Seattle, nos EUA. Para Sekula, nesta situação, o antifotojornalista “não leva máscara de gás, acreditação de imprensa ou teleobjectiva, não procura o momento mais violento, o clímax… Une-se à manifestação”. Donde, “a fotografia antifotojornalística une-se ao acontecimento, participa nele”. A partir deste princípio, a exposição apresenta-se também como uma crítica aos clichés que se foram colando à prática da profissão, apelando a uma imagem “desapegada do jugo da tradição e livre para formular outras perguntas, outras reivindicações, narrar outras histórias”.

“Creio que cada vez menos se dá liberdade ao fotojornalismo. É cada vez mais escravo dos pedidos – é preciso andar atrás de uma imagem que satisfaça a opinião dos leitores. Em muitos casos, o fotojornalismo converteu-se em mera ilustração, não por culpa dos fotógrafos, mas pelo tipo de exigências dos media”, disse Guerra, numa conversa por telefone. E rematou: “Hoje envia-se alguém a um local para trazer a imagem que, de antemão, queremos ver.”

Para além de Sekula, há, entre outros, obras de Gilles Peress, Paul Fusco, Walid Raad, Susan Meiselas e Kadir van Lohuizen.


Mauro Andrizzi, Iraqui Short Films, 2008
© Mauro Andrizzi

 
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