17 outubro, 2010

as mãos


Entrega da proposta do OE 2011
João Henriques/Público

Na sexta-feira, último dia do prazo para a entrega da proposta para o Orçamento de Estado para 2011, enquanto planeávamos na redacção os últimos acertos do destaque a dar ao assunto na homepage do Público Online disse várias vezes que as fotografias deste momento eram normalmente desinteressantes, sensaboronas, burocráticas. O assunto e o cenário do ritual da entrega do OE no Parlamento não costumam permitir fotografias com fulgor e rasgo.
Passava pouco da meia-noite (o OE 2011 incompleto foi entregue quase a tocar o gongo) quando João Henriques, ainda a limpar o suor da testa, nos trouxe esta imagem que demoliu todos os preconceitos que tinha verbalizado durante a jornada de trabalho.
No meio da balbúrdia em que se transformou o momento exacto da entrega da pen com o documento, João escolheu bem. Para lá da solenidade dos corpos engravatados, da pompa da sala, orientou o olhar para a mão que dá (a de Teixeira dos Santos) e para a mão que recebe (a de Jaime Gama), dando àquele gesto um significado visual rico e contraditório, ao mesmo tempo o mais insignificante e o mais definitivo, como o que foi pintado por Miguel Angelo no tecto da capela Sistina, quando Deus toca a mão de Adão no momento da criação.
Teixeira dos Santos é capaz de ter cometido não um mas vários pecados com este Orçamento. E Jaime Gama está longe de ser um Deus miraculoso e criador. Seja como for, este pode ser o momento que marcará o nosso renascimento ou nosso afundamento económico. Será que este Orçamento nos vai salvar do FMI? Ou será que o FMI vai ser a nossa salvação?

ver

Gerda Taro, milicianas durante um treino na Guerra Civil Espanhola

O International Center of Photography pediu ajuda ao escritor e cronista do El País António Muñoz Molina para identificar locais e personalidades registados em alguns dos negativos da mala mexicana, com imagens de Robert Capa, Gerda Taro, e "Chim" (David Seymour) feitas durante a Guerra Civil espanhola. Essa experiência foi contada na sua crónica habitual do Babelia aqui

11 outubro, 2010

Arpad + Helena

Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, Budapeste, 13 de Julho de 1930
© FASVS


O site da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva disponibiliza uma pequeníssima amostra da colecção de fotografia da instituição que diz respeito aos dois artistas. Vieira da Silva, escreve-se na página da FASVS, fugia das entrevistas e das objectivas. Dizia que "a objectiva só podia captar um único ângulo e as pes­soas são feitas de muitos". Mas, volta e meia, lá se deixava apanhar. E gostava mais da pose estudada do que da fotografia espontânea - com medo das expressões repentistas e, eventualmente, menos abonatórias.

aqui

10 outubro, 2010

OjodePez


© Giuseppe Moccia


Giuseppe Moccia é o vencedor do III Premio PHotoEspaña OjodePez de Valores Humanos 2010. O portfólio vencedor chama-se El chico de los miércoles e aborda a vida de Christopher, um rapaz de 18 anos com síndrome de Down. O fotógrafo italiano ganha um prémio monetário de 6 mil euros e a oportunidade de expor individualmente na próxima edição do festival PHotoEspaña.
Para além de Moccia, chegaram à fase final do galardão os fotógrafos Marco Di Lauro, Munem Wasif, Álvaro Laiz García, Alessandro Imbriaco, Jacob Aue Sobol, Carlos Luján, Jackie Dewe Mathews, Alexa Brunet e David Rengel. Os trabalhos destes autores podem ser vistos na última edição da revista OjodePez.
O porfólio vencedor será também exposto nas lojas FNAC de Espanha e Portugal.

09 outubro, 2010

regressar

© Enric Vives-Rubio/Público


Fernando Lemos está de regresso a Lisboa. Na semana passada, inaugurou a exposição Isto é Isto e Ex-Fotos na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva que mostra desenho e fotografia. Para hoje, às 15h30, está marcada uma conversa entre o artista brasileiro e os comissários Filipa Valladares e João Pinharanda.
No dia 17 de Outubro começa o Ciclo Fernando Lemos na FASVS que mostrará filmes e documentários sobre o autor.

Eis o programa:

#17 Outubro, 7 e 21 Novembro, domingos, 15h30
Fernando Lemos – atrás da Imagem
De Guilherme Coelho, 2006, 55’

#24 Outubro, 14 e 28 Novembro
Foto Doc: Fernando Lemos
De Camila Garcia e Renato Suzuki, 2005, 30'
Fernando Lemos e o Surrealismo
De Bruno de Almeida e Pedro Aguilar, 2006, 10’

#31 Outubro, 5 Dezembro
Conversas com Glícinia
De Jorge Silva Melo, 2004, 55’

#Janeiro 2011 (em dias a anunciar)
Luz Teimosa
De Luís Alves de Matos, 2010, 75’
(estreia no Doc’Lisboa 2010, 15 Outubro, 19h00, Culturgest)

07 outubro, 2010

Helena

Helena Almeida, Work-32 (Entrado 1), 1977
© Helena Almeida

Quase sempre que há um leilão de relevo internacional de fotografia lá estão as imagens de Helena Almeida lado a lado com os melhores criadores mundiais. A venda da Philips de Pury & Company está agendada para esta sexta-feira e leva à praça um conjunto de 411 lotes de grande interesse. Helena Almeida faz parte do leilão com dois dípticos da série Entrado 1. Cada lote partirá de uma base de licitação de 8000 dólares.

06 outubro, 2010

10x15

Matías Costa, The Family Project, Genealogia, 2010
© Matías Costa


E com pouco se faz muito. A fanzine online 10x15 (a recordar os álbuns das revelações numa hora) já leva 20 edições com um trabalho de comissariado muito apurado de Arantxa Boyero, María Platero, Lucía Morate e Eduardo B. Muñoz. I LOVE LA FAMILIA é o tema genérica do último número que mostra álbuns de Oriana Eliçabe, Wilma Hurskainen, Aurélia Frey, Yosigo, Ellen Nolan, Ricardo Romanoff, Aaron Gustafson, Thomas Doyle, Alfonso Almendros, Argiderphoto, Goiuri Aldekoa-Otalora, Aislinn Leggett, Matías Costa, STEEL5000 e Martín García Blaya.

10x15

05 outubro, 2010

a mala abre-se

Gerda Taro, Navacerrada, Segovia, Espanha, 1937
© International Center of Photography


A história da "mala mexicana" dava um filme. Para já deu uma exposição. As três caixas recheadas com 4500 negativos de 35mm sensibilizados por Robert Capa, Gerda Taro, e "Chim" (David Seymour) durante a Guerra Civil espanhola foram recuperadas em Dezembro de 2007 e boa parte do seu conteúdo pode agora ser apreciado no International Center of Photography (ICP), a instituição que durante anos foi dirigida por Cornell Capa (irmão de Robert) e que, ao longo de anos, negociou a venda da mala. The Mexican Suitcase (patente até Janeiro de 2011) desvenda imagens de três protagonistas de uma nova forma de fotografar conflitos. A exposição mostra provas de contacto de reportagens, reproduções das melhores imagens de cada um dos fotógrafos (76) e dezenas de revistas de todo mundo onde algumas delas foram publicadas.
O ICP organizou um catálogo em dois volumes, onde estão reproduzidas todas as imagens dos negatidos. A obra tem ensaios de Paul Preston, Simon Dell, David Balsells i Solé, Michel Lefebvre, Bernard Lebrun, Brian Wallis, Cynthia Young e Kristen Lubben.

Mais sobre a exposição The Mexican Suitcase aqui
Mais sobre a "mala mexicana" aqui
Crítica do NYT

»»Post relacionado
»(bombons de Capa)


Robert Capa, rio Segre, Aragón,Fraga, Espanha, 1938
© International Center of Photography

04 outubro, 2010

entre aspas


Paul Bowles

Ela abriu a porta. Port estava deitado numa posição estranha, as pernas muito dobradas nas cobertas. Aquele canto do quarto era como uma fotografia imóvel cujo filme fosse bruscamente iluminado no meio de uma corrente de imagens em movimento. Ela fechou a porta suavemente, trancou-a, voltou-se de novo para o canto, e avançou lentamente em direcção ao colchão. Susteve a respiração, debruçou-se, e olhou para dentro dos olhos sem expressão.

Paul Bowles, O céu que nos protege, Assírio & Alvim

óbvio

Helena Gonçalves, José Saramago, 2007
© Helena Gonçalves

Helena Gonçalves fotografou bailarinos do Ballet Gulbenkian (1965-2005), Diogo Dória, Rodrigo Leão e José Saramago. O resultado desse trabalho de retrato (que pôde ser visto no Espaço da Companhia de Teatro Útero, no Ginjal) sublinha os destinos e as actividades de cada sujeito fotografado num jogo óbvio, "demasiado óbvio", nas palavras de José Gil que assina o texto que apresentou a mostra. Aqui

03 outubro, 2010

Visura

Alejandro González, da série Inappropriate Behavior
© Alejandro González


Tenho acompanhado a revista online FotoVisura. Há sempre porfólios com muita qualidade.

Edição nº 10 aqui

02 outubro, 2010

bpb

Martin Parr, Autoportrait
© Collection of Martin Parr



Arranca este fim-de-semana a Brighton Photo Biennial que nesta edição conta com a curadoria do fotógrafo da Magnum Martin Parr. New Documents é o tema genérico que escolheu para o conjunto de exposições que pretendem mostrar "a vibração da prática fotográfica contemporânea, as paixões ecléticas das colecções de fotografia histórica e vernacular e trabalhos inspirados na diversidade de comunidades e contextos de Brighton & Hove".
O bpb apresenta-se como o primeiro festival de fotografia frame-free. O lote de artistas inclui Esteban Pastorino Diaz, Stephen Gill, Rinko Kawauchi, Alec Soth, entre muitos outros.
As exposições podem ser vistas até 14 de Novembro.

Mais informações sobre o bpb aqui

género

Na Índia, não são apenas as classes, as castas e as etnias a cavar mais fundo as diferenças - o género com que se nasce também provoca o abandono, o repúdio e a desonra. As mulheres sabem-no, sentem-no. Sob a batuta da Media Storm, o fotógrafo Walter Astrada alerta para um problema social (e civilizacional) num dos países mais populosos do mundo.


01 outubro, 2010

voltar


(de volta às fotografias)

28 agosto, 2010

férias

© Pedro Cunha/Público

Agora vou ali. Até já.
(Isto andou um bocado parado, eu sei. Foi a canícula. E o trabalho a triplicar...)

16 agosto, 2010

William Gottlieb

Charlie Parker, Tommy Potter e Max Roach, Three Deuces, Nova Iorque, c. Agosto de 1947


Com três disparos apenas
M.P.B. (P2, Público, 14.08.2010)


Se a fotografi a tivesse som, Billie Holiday estaria a cantar “I love you, Porgy/Don’t let him take me/Don’t let him handle me/With his hot hands.” E isso é parte da magia das fotografias de William Gottlieb, uma colecção de 1500 negativos e provas originais agora disponibilizada pela Biblioteca do Congresso norte-americano na rede social Flickr, sem restrições de direitos de autor, seguindo a vontade do próprio fotógrafo e crítico de jazz.

Gottlieb entrou no jazz por um infortúnio: uma intoxicação alimentar atirou-o para a cama durante um mês e uma das suas visitas de cabeceira era o amigo Doc Bartle, pianista e fã de Armstrong e Ellington. As suas primeiras crónicas sobre jazz foram publicadas num jornal universitário, saltou para o Washington Post e aí começou a fotografar com a sua “besta”, como
chamava à máquina, uma Speed Graphic de difícil, e dispendioso, manuseamento (para poupar filme e flash não disparava mais do que três ou quatro vezes). Fez rádio, foi disc jockey, escreveu e fotografou para a revista Down Beat e depois desapareceu de cena. Até um editor o convencer a compilar todo o material em livro, The Golden Age of Jazz (1979), e com isso recuperar o início da sua carreira, a década (1938-48) em que era presença nos clubes nocturnos e nas jam sessions com Charlie Parker, Duke Ellington, Miles Davis, Stan Kenton, Dizzy
Gillespie, Earl Hines, Thelonious Monk, Benny Goodman, entre muitos outros que fizeram a história do jazz norte-americano.
Mais fotografias do mundo jazz de William Gottlieb aqui

14 agosto, 2010

Pieter

© Pieter Hugo


Já vi várias séries de trabalhos do sul-africano Pieter Hugo - não há uma que não nos provoque, que não nos faça estacionar o olhar. É um dos fotógrafos da actualidade que mais admiro.
Mais um exemplo do seu enorme talento na próxima Magazine (A Global Graveyard for Dead Computers in Ghana), do NYT, e aqui



© Pieter Hugo

saldos ICP


O International Center of Photography de Nova Iorque tem dezenas de livros em saldos. Vale a pena espreitar aqui

Mais Ansel?

Cortesia de Rick Norsigian


Há uns dias a CNN anunciou com grandes parangonas que um conjunto de 61 negativos comprados em 2000 por um coleccionador pertenciam a Ansel Adams, um dos nomes maiores da fotografia americana do século XX. A família de Adams, pela voz do seu neto Matthew, contesta a relação entre estes negativos e as imagens captadas pelo fotógrafo que ajudou a mitificar o Yosemite Park, na Califórnia. A jornalista Ana Dias Cordeiro escreveu sobre o assunto logo depois da cadeia de televisão norte-americana ter lançado a teoria da verosimilhança montada por uma firma de advogados contratada por Rick Norsigian.
Eis esse texto:

Ansel Adams
Os novos negativos são um tesouro ou uma fraude?
Ana Dias Cordeiro (P2, Público, 27.07.2010)

Matthew lembra-se bem do avô, Ansel Adams (1902-1984), um dos nomes maiores da fotografia do século XX, conhecido pela forma única como captava a espectacularidade dos rochedos de Yosemite Park, na Califórnia, ou pela candura das suas paisagens da costa Oeste dos Estados Unidos.

Numa entrevista por telefone ao P2, Matthew Adams conta como o avô era meticuloso na sua arte: registava tudo o que fotografava e, em cada imagem que fazia, anotava o tempo de exposição usado. Era desta forma que Ansel - é assim que a ele se refere o neto -aperfeiçoava, em cada fotografia, a técnica de revelação. E com o tempo Ansel tornou-se num dos mais importantes fotógrafos de sempre. Moonrise, Hernandez, New Mexico ou Clearing Winter Storm são apenas algumas das suas fotografias mais conhecidas.

Considerado por muitos como o pai da fotografia norte-americana, Ansel Adams era filho único e teve uma "infância diferente" e solitária, lê-se numa das suas biografias, escrita por William Turnage, também director do Ansel Adams Trust, que hoje detém todos os direitos de publicação do artista.

Tímido e de difícil adaptação à escola, teve um ensino especial à distância e compensou a solidão com a paixão pela natureza e pela música, a que se dedicava tocando piano.

Com o conhecimento que tem da vida e do trabalho do avô, é Matthew - também presidente da Ansel Adams Gallery no Yosemite Park, onde existe uma colecção importante dos seus originais - quem responde, em nome da família, a Rick Norsigian. Este coleccionador de antiguidades de Fresno, na Califórnia, diz ser dono de 61 negativos em placa de vidro de Ansel Adams, encontrados em duas caixas numa venda de garagem em 2000.

Esta semana, uma equipa de especialistas contratados pela firma de advogados de Beverly Hills a que Rick Norsigian recorreu em 2003 veio dar-lhe razão, dizendo que as fotografias teriam sido tiradas entre 1919 e 1932. E anunciou, ao fim de sete anos de investigação, que os negativos fazem parte da obra de Adams. Contactados, nem Norsigian nem a firma de advogados responderam às questões do P2.

Além de uma página pessoal, Norsigian criou um sítio na Internet (http://www.lostnegatives.com/) para vender imagens reveladas a partir de 17 desses negativos, com preços que podem ir até aos 7500 dólares (perto de 6000 euros). O conjunto, diz o especialista em fotografia Patrick Alt também contratado na equipa de peritos, valerá 200 milhões de dólares (150 milhões de euros). "Em quase todas as fotografias, as composições não apresentam nenhuma falha, sendo evidente que foram feitas por um fotógrafo com uma visão e um talento singulares", disse Patrick Alt citado pela CNN e o Los Angeles Times.

A arte da impressão
Matthew Adams começa por dizer que nunca o avô deixaria negativos sem ser ao seu cuidado e que o anúncio pela equipa de especialistas, "com tão poucas provas", é "irresponsável", além de "falso". Não imagina como chegaram ao valor de 200 milhões de dólares. Mas garante que não pode ser verdadeiro, para 61 negativos, de supostas imagens de início de carreira, quando o valor recorde atingido num leilão recente para uma impressão do próprio fotógrafo foi de 720 mil dólares. E explica ao P2: "O valor da obra de Adams está na impressão, que é a expressão da intenção do artista. O negativo é um meio para obter um fim."

Matthew Adams não crê, voltando à forma meticulosa como o artista registava tudo o que fotografava, que houvesse negativos sem registos desse tempo de exposição, que religiosamente anotava. E não há quaisquer registos destes negativos.

É verdade que em 1937 houve um incêndio na câmara escura que Adams tinha no Yosemite Park - tinha outra em São Francisco -, mas isso não explica tudo. "É difícil acreditar que todas as referências desses 61 negativos tenham sido destruídas", diz. No final, considera, a investigação apenas apresenta "provas circunstanciais".

Parte dessas provas diz respeito a esse incêndio - alguns negativos têm os cantos ligeiramente danificados. Além disso, pela semelhança destas imagens com o trabalho de Adams, os especialistas questionam: "Se não foi Adams, quem foi?"

A resposta é imediata e para Matthew parece óbvio que num lugar como o Yosemite, visitado por turistas, amantes e profissionais de fotografia, outra pessoa possa ter captado estas imagens. Volta a insistir que, "embora haja uma boa parte de criatividade e intenção no negativo", a arte está na impressão.

A conversa em tom tranquilo também conduz Matthew à avó, Virginia Best Adams, que nasceu e cresceu no vale de Yosemite. Pela sua proximidade com o marido, com quem se casou em 1928, podia ter sido ela a anotar os nomes dos locais fotografados nos envelopes onde foram encontrados os negativos. Foi o que concluiu a equipa de investigadores, na qual está incluído um especialista em caligrafia, e essa é a ligação a Adams mais concreta que apresentam. Mas é apenas mais uma refutada por Matthew. Os nomes nos envelopes contêm erros "impensáveis" para a sua avó. Como Glaciar Point em vez de Glacier Point ou Bridal Vail Falls em vez de Bridal Veil Falls. Além de conhecer bem cada canto do vale de Yosemite, a avó era "inteligente e culta", garante. "Parece-me inconcebível que Virginia não escrevesse bem qualquer lugar que pertencesse aoYosemite."

Opiniões não coincidentes
Quando, na Primavera de 2000, entrou na venda de antiguidades numa garagem de Fresno, Rick Norsigian achou que os negativos embrulhados em papel de jornal tinham uma "aparência interessante" e comprou o conjunto por 45 dólares. Nada fazia adivinhar que de uma vida modesta, como pintor de paredes numa escola no distrito de Fresno, Norsigian passasse a uma vida cheia de surpresas, digna de um policial, e que chegaria a figura pública, como aconteceu esta semana. O coleccionador não conhecia a obra de Adams mas, entusiasmado com a compra, mostrou as fotografias a familiares e amigos, que notaram a semelhança das imagens com o trabalho do conhecido fotógrafo.

A partir daí, Norsigian empenhou-se em conhecer a vida e a obra de Ansel Adams. Comprou todos os livros de fotografias do artista e leu todas as biografias publicadas. Queria especializar-se para descodificar cada pormenor de cada imagem e assim provar (ou excluir) a hipótese de estes serem negativos perdidos e fotografias inéditas.

Quanto mais lia e observava as fotografias, mais se convencia de que tinha encontrado um "tesouro nacional". Mas precisava de uma confirmação.

Ao contrário do que acontece com as pinturas, não existe uma autoridade oficial que autentique as fotografias e não há uma assinatura que ligue a obra ao artista. Além disso, pouco se sabia de como os negativos teriam chegado àquela venda de antiguidades. O vendedor disse tê-las encontrado num armazém de Los Angeles. Nas suas pesquisas, Norsigian descobriu que Adams se tinha mudado temporariamente para Los Angeles em 1941 para dar aulas. A descoberta deu-lhe ânimo, mas não era suficiente.

Contactou então três dos biógrafos de Ansel Adams, conta o Los Angeles Times num artigo de 2007. A primeira, Mary Street Alinder, encorajou-o. Considerou que algumas imagens pareciam ser de Adams, outras não.

Mais tarde, o coleccionador chegou a Anne Hammond, autora de outra biografia do fotógrafo, que não se pronunciou por ter dúvidas, e a Jonathan Spaulding, também biógrafo de Adams e curador do Museu de História Natural de Los Angeles. Este considerou que nenhum dos negativos chegava ao melhor do trabalho do artista mas que, na altura, Adams não teria ainda desenvolvido o talento que viria a comprovar-se a partir dos anos 30. Mas apontou duas referências nas imagens que estabeleceriam uma possível ligação a Ansel Adams: um carro, um Buick de 1926, como sendo de Albert Bender, que acompanhava Adams nas suas viagens, e uma figura que parecia ser de Ansel Hall, um naturalista de Yosemite que era amigo do fotógrafo.

Podia ou não ser trabalho de Adams. Spaulding não queria comprometer-se com a autoria. Apesar disso, Norsigian entusiasmou-se e, desde 2003, a firma de advogados a que recorreu contratou uma equipa de especialistas em fotografia, caligrafia e até meteorologia. Estes últimos foram ao detalhe de analisar a posição da neve num conhecido pico (Sentinel Dome) do Yosemite Park, as sombras e o modo como estavam formadas as nuvens. Concluíram que uma das imagens dos negativos só podia ter sido captada no mesmo dia de outra, uma fotografia conhecida do arquivo de Ansel Adams - a Jeffrey Pine, um pinheiro no alto de um rochedo.

Matthew, que também vive em Yosemite, diz que a luz, sombras e nuvens de neve na região são indistintas pelo menos durante dois meses num ano. E que a fotografia podia ter sido tirada em qualquer dia desses dois meses, e por outra pessoa que não Ansel Adams.


Cortesia de Rick Norsigian

10 agosto, 2010

Antifotojornalismo

Walid Radd, Atlas Group, 1999, Líbano
© Walid Radd


Antifotojornalismo
Trabalhar sem manual de instruções


No final da exposição Lírica Urbana, de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), no Museu Colecciones ICO, em Madrid, que faz parte do festival PHotoEspaña 2010, há uma inscrição na parede que diz que o trabalho da fotógrafa americana nas ruas de Nova Iorque (onde aparecem maioritariamente crianças) pode classificar-se como “antifotojornalístico”. A frase é de Walker Evans, uma das principais referências de Levitt, e transporta uma alusão ao método de trabalho da fotógrafa, que durante mais de uma década se concentrou num tema específico, com uma abordagem formal mais ensaística e menos… jornalística. As fotografias de Levitt “têm um tempo de observação estendido”, disse ao Público Carles Guerra, um dos comissários da exposição Antifotojornalismo, recentemente inaugurada no espaço La Virreina, em Barcelona. Essas imagens estão menos voltadas para a urgência do momento ou mesmo para a captura do momento decisivo, duas características que percorrem os trabalhos dos 27 criadores representados na exposição que, através de exemplos históricos e diversas propostas formais, tentam reflectir sobre “novas práticas, estratégias, pontos de vista, técnicas e agentes”, que não só puseram em causa o estatuto hegemónico do fotojornalista, como “transformaram radicalmente as instituições e os conceitos basilares da profissão”.

O nome da exposição (que pode ser vista até 10 de Outubro) não deixa grande margem para equívocos: “Todos os autores são críticos do fotojornalismo, que é escravo da urgência, do imediatismo, da imagem que tem de mobilizar opinião.”

O tom geral sobre o conceito de “antifotojornalismo” foi dado por Allan Sekula depois de, em 1999, ter acompanhado as manifestações contra a globalização e a cimeira da OMC em Seattle, nos EUA. Para Sekula, nesta situação, o antifotojornalista “não leva máscara de gás, acreditação de imprensa ou teleobjectiva, não procura o momento mais violento, o clímax… Une-se à manifestação”. Donde, “a fotografia antifotojornalística une-se ao acontecimento, participa nele”. A partir deste princípio, a exposição apresenta-se também como uma crítica aos clichés que se foram colando à prática da profissão, apelando a uma imagem “desapegada do jugo da tradição e livre para formular outras perguntas, outras reivindicações, narrar outras histórias”.

“Creio que cada vez menos se dá liberdade ao fotojornalismo. É cada vez mais escravo dos pedidos – é preciso andar atrás de uma imagem que satisfaça a opinião dos leitores. Em muitos casos, o fotojornalismo converteu-se em mera ilustração, não por culpa dos fotógrafos, mas pelo tipo de exigências dos media”, disse Guerra, numa conversa por telefone. E rematou: “Hoje envia-se alguém a um local para trazer a imagem que, de antemão, queremos ver.”

Para além de Sekula, há, entre outros, obras de Gilles Peress, Paul Fusco, Walid Raad, Susan Meiselas e Kadir van Lohuizen.


Mauro Andrizzi, Iraqui Short Films, 2008
© Mauro Andrizzi

Sítio


Valter Vinagre, da série Sítio, Caldas da Rainha, 1997
© Valter Vinagre


Sítios de morte e exorcismo

Sérgio C. Andrade (P2, Público, 27. 07.2010)

É com um certo sentido de exorcismo que Valter Vinagre (n. Anadia, 1954) volta ao "sítio" onde, há pouco mais de uma década, esteve "entre o cá e o lá", quase viveu a experiência da morte. Para o fotógrafo, esse lugar é agora só memória, algo de que fala com um distanciamento saudável. Mesmo se admite que, quando aí regressa, tudo lhe surge "como no dia em que lá [esteve]".

Foi em 1997 que Valter Vinagre regressou a esse lugar de morte, e trouxe de lá, no corpo, as marcas dela. "Contraí uma febre - a que os médicos não deram nome, nem explicação -, que me manteve durante mais de uma semana entre o 'cá e o lá'."

Nesse ano, Valter Vinagre tinha sido convidado pela artista plástica Marina Abramovic a fotografar o sítio do antigo matadouro municipal das Caldas da Rainha, desactivado uma década antes, para o seu projecto site specific Spirit House. Acontece que o fotógrafo, que então vivia e trabalhava na cidade, tinha fotografado o matadouro enquanto ele estava ainda em actividade.

"Quando lá estive pela primeira vez, em 1988, acompanhei os animais desde a sua entrada, passando pelo abate, desmancho e saída para os talhos", lembra ao P2. "Balidos misturados com vozes humanas, um cheiro adocicado a sangue e fezes, vapor de água e ruína" ficou então entranhado nas paredes do edifício. Um cheiro de morte que voltou a atacar, mesmo quando o edifício foi transformado, "branqueado", primeiro em lugar aberto a experiências de arte, depois em Centro da Juventude.

Valter Vinagre reuniu fotografias que fez nesses dois momentos, em tudo distintos, no matadouro das Caldas da Rainha e reconstruiu o Sítio numa selecção de 11 imagens que agora formam a exposição com aquele título, e que até 25 de Setembro pode ser visitada na Casa Bernardo, naquela cidade. Ao mesmo tempo, o fotógrafo apresenta também nas Caldas da Rainha, no Centro Cultural e de Congressos, até 30 de Setembro, Húmus, uma outra exposição com 70 trabalhos - exibida, no ano passado, no Centro Cultural de Cascais -, que fazem a retrospectiva da sua obra.

06 agosto, 2010

Camille Silvy

Camille Silvy, músicos de rua, 1859-1860 (ca), albumina
© Getty Museum, The J. Paul Getty Trust


Camille Silvy (1834-1910) foi um dos pioneiros da fotografia francesa. Cursou desenho e chegou a iniciar estudos de direito. Tirou as primeiras fotografias durante uma viagem à Argélia, em 1857. No ano seguinte, de regresso a França, captou cenas campestres da sua região natal, o vale de Huisne, talvez o quinhão mais pessoal e inspirado da sua obra que havia de ser mostrado numa exposição da Sociedade Francesa de Fotografia, em 1859.

Para além de paisagem, captou os efeitos do crepúsculo, do nevoeiro e do sol, registou cenas da cidade, na rua, no teatro, na ópera. Silvy mostrou ainda um gosto particular pela fotografia que mostrava a exuberância das roupas e dos adereços, notabilizando-se como fotógrafo da alta sociedade e de alguma realeza em Londres, lançando o formato carte-de-visite nessa cidade, por volta de 1860. No seu estúdio preparou e decorou uma sala particular para receber a rainha Vitória, o Queen`s Room, mas a monarca nunca chegou a aparecer perante o sua câmara. A actividade fotográfica de Camille Silvy foi largamente inspirada na visão do "pintor da vida moderna" esboçado por Charles Baudelaire (1821-67) no ensaio com o mesmo nome.

A National Portrait Gallery de Londres mostra até 24 de Outubro uma grande exposição de trabalhos de Camille Silvy que revelam os primeiros passos da fotografia de moda, de teatro e de rua. A Londres vitoriana e Paris estão em destaque nesse retrato do turbilhão moderno em que embarcaram as grandes metrópoles da época. Algumas das fotografias incluídas na exposição não foram vistas em público desde os anos 60 do século XIX.



Camille Silvy, tenente-general Clark Kennedy, 1860, albumina
© Victoria and Albert Museum

31 julho, 2010

INiepce


© 2010 AAnonymes Project



A curadora Romaric Tisserand andou cinco anos a juntar fotografias antigas. Cinco anos em busca do "acidente deliberado" em imagens perdidas em mercados de velharias, lojas de velharias e bric-a-brac de Buenos Aires, Madrid, Berlim, Paris, Londres, Roma, Havana, Nova Iorque e Lisboa. O resultado dessa procura é o projecto online e a exposição INiepce que junta 365 fotografias vernaculares que para Tisserand possuem um valor estético particular e ajudam a contar uma história da fotografia paralela aos cânones. E não só: ajudam a salvar e a valorizar o património fotográfico que fica fora das assinaturas de nomeada, dos selos de qualidade e das tiragens limitadas.
Romaric Tisserand explica o seu prazer com a fotografia vernacular aqui.
Projecto INiepce

30 julho, 2010

entre aspas

© Jean-Baptiste Mondino


E quando chegámos aqui ao Femina foi a primeira pessoa em que pensei. Na altura, primeiro desenvolvemos a ideia os dois e depois a agência dele entrou em contacto com o management para acertarem o preço das fotos que era um T0 em Lisboa e enviei-lhe um e-mail a dizer que ficávamos amigos à mesma mas que não tínhamos hipótese nenhuma de fazer isso e que ia procurar outra solução, não ia usar essa ideia. e ele, mais uma vez disse: 'Ok. Não, essa ideia tem que andar para a frente, tem que se fazer assim. Desde que se assumam as despesas do estúdio o resto não é mais nada'. E mais uma vez foi ele a fotografar-me. É incrível.

Paulo Furtado aka Legendary Tiger Man, in Playboy

saldos Aperture

© Sylvia Plachy

A Aperture está em saldos de Verão: 30 por cento nos livros e 15 nas fotografias. aqui

26 julho, 2010

O Boxe


A Cinemateca termina o ciclo O Boxe com o documentário Muhammad Ali, The Greatest (França, 1974, 120 min), do mestre William Klein.
A projecção está agendada para amanhã, dia 27, 21h30, na sala Félix Ribeiro, e é uma estreia na Cinemateca Portuguesa.

25 julho, 2010

Gerardo Mosquera





O cubano Gerardo Mosquera é o novo comissário-geral do festival PHotoEspaña para o triénio 2011-13. Crítico, comissário e historiador de arte independente, a viver em Havana, Mosquera faz parte do conselho editorial de várias revistas de arte internacionais é assessor da Academia de Belas-Artes holandesa, fundou a Bienal de Havana e foi curador do New Museum of Contemporary Art, de Nova Iorque. É autor de centenas de ensaios, artigos e comentários em publicações de vários países.

Gerardo Mosquera: Vivimos en la era de la imagen técnica, y la fotografía y el video ya forman parte de nuestra vida cotidiana. Se ha convertido en algo dominante. Dentro de lo que llamamos arte, se ha consolidado como una manifestación propia, al mismo nivel que el resto, y a la vez tiene una presencia crucial dentro de formas artísticas híbridas. También como documentación de performances, intervenciones, etc., donde la fotografía es a menudo “lo que queda” de la acción y lo que se vende.

O PHotoEspaña 2011 decorre entre 1 de Junho e 24 de Julho. Alguns números sobre a edição deste ano que oficialmente termina hoje (há exposições que se estendem até meados de Agosto):
>As 69 exposições já receberam até agora 708 mil pessoas, mais cerca de 15 visitantes que a edição do ano passado.

>O programa de actividades registou o maior número de participantes de sempre, com mais de 7000 pessoas inscritas em oficinas de fotografia, master classes, visitas guiadas, oficinas infantis, conferências e mesas redondas.

>O programa Descubrimientos PHE recebeu mais de 1851 portfólios de fotógrafos de 76 nacionalidades. Pela primeira vez, as candidaturas estrangeiras superaram as espanholas.

>O festival acreditou 977 jornalistas de 35 países.

Entrevista a Gerardo Mosquera publicada na A*DESK

09 julho, 2010

Heavy Storm



(...)
I wish I could hold on a little longer
Still my worried stomach and calm my hunger
I wish I could believe what they taught me

I saw, I saw, I saw, I saw an old photograph
And the picture that appeared, well it took me back to the time
When she was around

She used to play that old mandolin
And the moon and the sea invited her in
I wish that I had told her by then
But she knew deep down that she only wished that time would come back

(...)

Heavy Storm, Klara & Johanna Söderberg (First Aid Kit), The Big Black and The Blue

Europa




Europa é o novo livro do fotógrafo francês Bernard Plossu, andarilho inveterado. A editora espanhola La Fábrica Editorial apresenta a obra como uma selecção de fotografias "cheias de melancolia" e onde são também protagonistas a "penumbra" e a "nostalgia". A panorâmica que Plossu tirou do continente vai desde cidades como Berlim, Madrid e Lisboa a paragens perdidas no mapa.

08 julho, 2010

Pré-Rafaelitas


John Robert Parsons, sob a orientação de Dante Gabriel Rossetti, Jane Morris, 1865
Manuscripts Division, Department of Rare Books and Special Collections, Princeton University Library
© Princeton University Library


O Musée d'Orsay mostra uma boa selecção de fotógrafos que seguiram a estética pré-rafaelita da Inglaterra da segunda metade do século XIX, apogeu da época vitoriana. John Ruskin, principal ideólogo da Irmandade Pré-Rafaelita, defendia um regresso à natureza, ao modo artesal de fazer contra a velocidade e uniformização industrializada, potencial destruidura das "altas qualidades morais" que julgava presentes na arte medieval, algures entre a passagem do gótico para o Renascimento.
Entre pintores e fotógrafos victorianos são comuns os temas históricos retirados de obras de Dante, Shakespeare, Byron ou Lord Tennyson. A mostra estabelece um diálogo entre os quadros de John Everett Millais, Dante Gabriel Rossetti, Ford Maddox Brown e as fotografias de Julia Margaret Cameron, Roger Fenton, Lewis Carroll e Henry Peach Robinson.
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