01 outubro, 2010

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(de volta às fotografias)

28 agosto, 2010

férias

© Pedro Cunha/Público

Agora vou ali. Até já.
(Isto andou um bocado parado, eu sei. Foi a canícula. E o trabalho a triplicar...)

16 agosto, 2010

William Gottlieb

Charlie Parker, Tommy Potter e Max Roach, Three Deuces, Nova Iorque, c. Agosto de 1947


Com três disparos apenas
M.P.B. (P2, Público, 14.08.2010)


Se a fotografi a tivesse som, Billie Holiday estaria a cantar “I love you, Porgy/Don’t let him take me/Don’t let him handle me/With his hot hands.” E isso é parte da magia das fotografias de William Gottlieb, uma colecção de 1500 negativos e provas originais agora disponibilizada pela Biblioteca do Congresso norte-americano na rede social Flickr, sem restrições de direitos de autor, seguindo a vontade do próprio fotógrafo e crítico de jazz.

Gottlieb entrou no jazz por um infortúnio: uma intoxicação alimentar atirou-o para a cama durante um mês e uma das suas visitas de cabeceira era o amigo Doc Bartle, pianista e fã de Armstrong e Ellington. As suas primeiras crónicas sobre jazz foram publicadas num jornal universitário, saltou para o Washington Post e aí começou a fotografar com a sua “besta”, como
chamava à máquina, uma Speed Graphic de difícil, e dispendioso, manuseamento (para poupar filme e flash não disparava mais do que três ou quatro vezes). Fez rádio, foi disc jockey, escreveu e fotografou para a revista Down Beat e depois desapareceu de cena. Até um editor o convencer a compilar todo o material em livro, The Golden Age of Jazz (1979), e com isso recuperar o início da sua carreira, a década (1938-48) em que era presença nos clubes nocturnos e nas jam sessions com Charlie Parker, Duke Ellington, Miles Davis, Stan Kenton, Dizzy
Gillespie, Earl Hines, Thelonious Monk, Benny Goodman, entre muitos outros que fizeram a história do jazz norte-americano.
Mais fotografias do mundo jazz de William Gottlieb aqui

14 agosto, 2010

Pieter

© Pieter Hugo


Já vi várias séries de trabalhos do sul-africano Pieter Hugo - não há uma que não nos provoque, que não nos faça estacionar o olhar. É um dos fotógrafos da actualidade que mais admiro.
Mais um exemplo do seu enorme talento na próxima Magazine (A Global Graveyard for Dead Computers in Ghana), do NYT, e aqui



© Pieter Hugo

saldos ICP


O International Center of Photography de Nova Iorque tem dezenas de livros em saldos. Vale a pena espreitar aqui

Mais Ansel?

Cortesia de Rick Norsigian


Há uns dias a CNN anunciou com grandes parangonas que um conjunto de 61 negativos comprados em 2000 por um coleccionador pertenciam a Ansel Adams, um dos nomes maiores da fotografia americana do século XX. A família de Adams, pela voz do seu neto Matthew, contesta a relação entre estes negativos e as imagens captadas pelo fotógrafo que ajudou a mitificar o Yosemite Park, na Califórnia. A jornalista Ana Dias Cordeiro escreveu sobre o assunto logo depois da cadeia de televisão norte-americana ter lançado a teoria da verosimilhança montada por uma firma de advogados contratada por Rick Norsigian.
Eis esse texto:

Ansel Adams
Os novos negativos são um tesouro ou uma fraude?
Ana Dias Cordeiro (P2, Público, 27.07.2010)

Matthew lembra-se bem do avô, Ansel Adams (1902-1984), um dos nomes maiores da fotografia do século XX, conhecido pela forma única como captava a espectacularidade dos rochedos de Yosemite Park, na Califórnia, ou pela candura das suas paisagens da costa Oeste dos Estados Unidos.

Numa entrevista por telefone ao P2, Matthew Adams conta como o avô era meticuloso na sua arte: registava tudo o que fotografava e, em cada imagem que fazia, anotava o tempo de exposição usado. Era desta forma que Ansel - é assim que a ele se refere o neto -aperfeiçoava, em cada fotografia, a técnica de revelação. E com o tempo Ansel tornou-se num dos mais importantes fotógrafos de sempre. Moonrise, Hernandez, New Mexico ou Clearing Winter Storm são apenas algumas das suas fotografias mais conhecidas.

Considerado por muitos como o pai da fotografia norte-americana, Ansel Adams era filho único e teve uma "infância diferente" e solitária, lê-se numa das suas biografias, escrita por William Turnage, também director do Ansel Adams Trust, que hoje detém todos os direitos de publicação do artista.

Tímido e de difícil adaptação à escola, teve um ensino especial à distância e compensou a solidão com a paixão pela natureza e pela música, a que se dedicava tocando piano.

Com o conhecimento que tem da vida e do trabalho do avô, é Matthew - também presidente da Ansel Adams Gallery no Yosemite Park, onde existe uma colecção importante dos seus originais - quem responde, em nome da família, a Rick Norsigian. Este coleccionador de antiguidades de Fresno, na Califórnia, diz ser dono de 61 negativos em placa de vidro de Ansel Adams, encontrados em duas caixas numa venda de garagem em 2000.

Esta semana, uma equipa de especialistas contratados pela firma de advogados de Beverly Hills a que Rick Norsigian recorreu em 2003 veio dar-lhe razão, dizendo que as fotografias teriam sido tiradas entre 1919 e 1932. E anunciou, ao fim de sete anos de investigação, que os negativos fazem parte da obra de Adams. Contactados, nem Norsigian nem a firma de advogados responderam às questões do P2.

Além de uma página pessoal, Norsigian criou um sítio na Internet (http://www.lostnegatives.com/) para vender imagens reveladas a partir de 17 desses negativos, com preços que podem ir até aos 7500 dólares (perto de 6000 euros). O conjunto, diz o especialista em fotografia Patrick Alt também contratado na equipa de peritos, valerá 200 milhões de dólares (150 milhões de euros). "Em quase todas as fotografias, as composições não apresentam nenhuma falha, sendo evidente que foram feitas por um fotógrafo com uma visão e um talento singulares", disse Patrick Alt citado pela CNN e o Los Angeles Times.

A arte da impressão
Matthew Adams começa por dizer que nunca o avô deixaria negativos sem ser ao seu cuidado e que o anúncio pela equipa de especialistas, "com tão poucas provas", é "irresponsável", além de "falso". Não imagina como chegaram ao valor de 200 milhões de dólares. Mas garante que não pode ser verdadeiro, para 61 negativos, de supostas imagens de início de carreira, quando o valor recorde atingido num leilão recente para uma impressão do próprio fotógrafo foi de 720 mil dólares. E explica ao P2: "O valor da obra de Adams está na impressão, que é a expressão da intenção do artista. O negativo é um meio para obter um fim."

Matthew Adams não crê, voltando à forma meticulosa como o artista registava tudo o que fotografava, que houvesse negativos sem registos desse tempo de exposição, que religiosamente anotava. E não há quaisquer registos destes negativos.

É verdade que em 1937 houve um incêndio na câmara escura que Adams tinha no Yosemite Park - tinha outra em São Francisco -, mas isso não explica tudo. "É difícil acreditar que todas as referências desses 61 negativos tenham sido destruídas", diz. No final, considera, a investigação apenas apresenta "provas circunstanciais".

Parte dessas provas diz respeito a esse incêndio - alguns negativos têm os cantos ligeiramente danificados. Além disso, pela semelhança destas imagens com o trabalho de Adams, os especialistas questionam: "Se não foi Adams, quem foi?"

A resposta é imediata e para Matthew parece óbvio que num lugar como o Yosemite, visitado por turistas, amantes e profissionais de fotografia, outra pessoa possa ter captado estas imagens. Volta a insistir que, "embora haja uma boa parte de criatividade e intenção no negativo", a arte está na impressão.

A conversa em tom tranquilo também conduz Matthew à avó, Virginia Best Adams, que nasceu e cresceu no vale de Yosemite. Pela sua proximidade com o marido, com quem se casou em 1928, podia ter sido ela a anotar os nomes dos locais fotografados nos envelopes onde foram encontrados os negativos. Foi o que concluiu a equipa de investigadores, na qual está incluído um especialista em caligrafia, e essa é a ligação a Adams mais concreta que apresentam. Mas é apenas mais uma refutada por Matthew. Os nomes nos envelopes contêm erros "impensáveis" para a sua avó. Como Glaciar Point em vez de Glacier Point ou Bridal Vail Falls em vez de Bridal Veil Falls. Além de conhecer bem cada canto do vale de Yosemite, a avó era "inteligente e culta", garante. "Parece-me inconcebível que Virginia não escrevesse bem qualquer lugar que pertencesse aoYosemite."

Opiniões não coincidentes
Quando, na Primavera de 2000, entrou na venda de antiguidades numa garagem de Fresno, Rick Norsigian achou que os negativos embrulhados em papel de jornal tinham uma "aparência interessante" e comprou o conjunto por 45 dólares. Nada fazia adivinhar que de uma vida modesta, como pintor de paredes numa escola no distrito de Fresno, Norsigian passasse a uma vida cheia de surpresas, digna de um policial, e que chegaria a figura pública, como aconteceu esta semana. O coleccionador não conhecia a obra de Adams mas, entusiasmado com a compra, mostrou as fotografias a familiares e amigos, que notaram a semelhança das imagens com o trabalho do conhecido fotógrafo.

A partir daí, Norsigian empenhou-se em conhecer a vida e a obra de Ansel Adams. Comprou todos os livros de fotografias do artista e leu todas as biografias publicadas. Queria especializar-se para descodificar cada pormenor de cada imagem e assim provar (ou excluir) a hipótese de estes serem negativos perdidos e fotografias inéditas.

Quanto mais lia e observava as fotografias, mais se convencia de que tinha encontrado um "tesouro nacional". Mas precisava de uma confirmação.

Ao contrário do que acontece com as pinturas, não existe uma autoridade oficial que autentique as fotografias e não há uma assinatura que ligue a obra ao artista. Além disso, pouco se sabia de como os negativos teriam chegado àquela venda de antiguidades. O vendedor disse tê-las encontrado num armazém de Los Angeles. Nas suas pesquisas, Norsigian descobriu que Adams se tinha mudado temporariamente para Los Angeles em 1941 para dar aulas. A descoberta deu-lhe ânimo, mas não era suficiente.

Contactou então três dos biógrafos de Ansel Adams, conta o Los Angeles Times num artigo de 2007. A primeira, Mary Street Alinder, encorajou-o. Considerou que algumas imagens pareciam ser de Adams, outras não.

Mais tarde, o coleccionador chegou a Anne Hammond, autora de outra biografia do fotógrafo, que não se pronunciou por ter dúvidas, e a Jonathan Spaulding, também biógrafo de Adams e curador do Museu de História Natural de Los Angeles. Este considerou que nenhum dos negativos chegava ao melhor do trabalho do artista mas que, na altura, Adams não teria ainda desenvolvido o talento que viria a comprovar-se a partir dos anos 30. Mas apontou duas referências nas imagens que estabeleceriam uma possível ligação a Ansel Adams: um carro, um Buick de 1926, como sendo de Albert Bender, que acompanhava Adams nas suas viagens, e uma figura que parecia ser de Ansel Hall, um naturalista de Yosemite que era amigo do fotógrafo.

Podia ou não ser trabalho de Adams. Spaulding não queria comprometer-se com a autoria. Apesar disso, Norsigian entusiasmou-se e, desde 2003, a firma de advogados a que recorreu contratou uma equipa de especialistas em fotografia, caligrafia e até meteorologia. Estes últimos foram ao detalhe de analisar a posição da neve num conhecido pico (Sentinel Dome) do Yosemite Park, as sombras e o modo como estavam formadas as nuvens. Concluíram que uma das imagens dos negativos só podia ter sido captada no mesmo dia de outra, uma fotografia conhecida do arquivo de Ansel Adams - a Jeffrey Pine, um pinheiro no alto de um rochedo.

Matthew, que também vive em Yosemite, diz que a luz, sombras e nuvens de neve na região são indistintas pelo menos durante dois meses num ano. E que a fotografia podia ter sido tirada em qualquer dia desses dois meses, e por outra pessoa que não Ansel Adams.


Cortesia de Rick Norsigian

10 agosto, 2010

Antifotojornalismo

Walid Radd, Atlas Group, 1999, Líbano
© Walid Radd


Antifotojornalismo
Trabalhar sem manual de instruções


No final da exposição Lírica Urbana, de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), no Museu Colecciones ICO, em Madrid, que faz parte do festival PHotoEspaña 2010, há uma inscrição na parede que diz que o trabalho da fotógrafa americana nas ruas de Nova Iorque (onde aparecem maioritariamente crianças) pode classificar-se como “antifotojornalístico”. A frase é de Walker Evans, uma das principais referências de Levitt, e transporta uma alusão ao método de trabalho da fotógrafa, que durante mais de uma década se concentrou num tema específico, com uma abordagem formal mais ensaística e menos… jornalística. As fotografias de Levitt “têm um tempo de observação estendido”, disse ao Público Carles Guerra, um dos comissários da exposição Antifotojornalismo, recentemente inaugurada no espaço La Virreina, em Barcelona. Essas imagens estão menos voltadas para a urgência do momento ou mesmo para a captura do momento decisivo, duas características que percorrem os trabalhos dos 27 criadores representados na exposição que, através de exemplos históricos e diversas propostas formais, tentam reflectir sobre “novas práticas, estratégias, pontos de vista, técnicas e agentes”, que não só puseram em causa o estatuto hegemónico do fotojornalista, como “transformaram radicalmente as instituições e os conceitos basilares da profissão”.

O nome da exposição (que pode ser vista até 10 de Outubro) não deixa grande margem para equívocos: “Todos os autores são críticos do fotojornalismo, que é escravo da urgência, do imediatismo, da imagem que tem de mobilizar opinião.”

O tom geral sobre o conceito de “antifotojornalismo” foi dado por Allan Sekula depois de, em 1999, ter acompanhado as manifestações contra a globalização e a cimeira da OMC em Seattle, nos EUA. Para Sekula, nesta situação, o antifotojornalista “não leva máscara de gás, acreditação de imprensa ou teleobjectiva, não procura o momento mais violento, o clímax… Une-se à manifestação”. Donde, “a fotografia antifotojornalística une-se ao acontecimento, participa nele”. A partir deste princípio, a exposição apresenta-se também como uma crítica aos clichés que se foram colando à prática da profissão, apelando a uma imagem “desapegada do jugo da tradição e livre para formular outras perguntas, outras reivindicações, narrar outras histórias”.

“Creio que cada vez menos se dá liberdade ao fotojornalismo. É cada vez mais escravo dos pedidos – é preciso andar atrás de uma imagem que satisfaça a opinião dos leitores. Em muitos casos, o fotojornalismo converteu-se em mera ilustração, não por culpa dos fotógrafos, mas pelo tipo de exigências dos media”, disse Guerra, numa conversa por telefone. E rematou: “Hoje envia-se alguém a um local para trazer a imagem que, de antemão, queremos ver.”

Para além de Sekula, há, entre outros, obras de Gilles Peress, Paul Fusco, Walid Raad, Susan Meiselas e Kadir van Lohuizen.


Mauro Andrizzi, Iraqui Short Films, 2008
© Mauro Andrizzi

Sítio


Valter Vinagre, da série Sítio, Caldas da Rainha, 1997
© Valter Vinagre


Sítios de morte e exorcismo

Sérgio C. Andrade (P2, Público, 27. 07.2010)

É com um certo sentido de exorcismo que Valter Vinagre (n. Anadia, 1954) volta ao "sítio" onde, há pouco mais de uma década, esteve "entre o cá e o lá", quase viveu a experiência da morte. Para o fotógrafo, esse lugar é agora só memória, algo de que fala com um distanciamento saudável. Mesmo se admite que, quando aí regressa, tudo lhe surge "como no dia em que lá [esteve]".

Foi em 1997 que Valter Vinagre regressou a esse lugar de morte, e trouxe de lá, no corpo, as marcas dela. "Contraí uma febre - a que os médicos não deram nome, nem explicação -, que me manteve durante mais de uma semana entre o 'cá e o lá'."

Nesse ano, Valter Vinagre tinha sido convidado pela artista plástica Marina Abramovic a fotografar o sítio do antigo matadouro municipal das Caldas da Rainha, desactivado uma década antes, para o seu projecto site specific Spirit House. Acontece que o fotógrafo, que então vivia e trabalhava na cidade, tinha fotografado o matadouro enquanto ele estava ainda em actividade.

"Quando lá estive pela primeira vez, em 1988, acompanhei os animais desde a sua entrada, passando pelo abate, desmancho e saída para os talhos", lembra ao P2. "Balidos misturados com vozes humanas, um cheiro adocicado a sangue e fezes, vapor de água e ruína" ficou então entranhado nas paredes do edifício. Um cheiro de morte que voltou a atacar, mesmo quando o edifício foi transformado, "branqueado", primeiro em lugar aberto a experiências de arte, depois em Centro da Juventude.

Valter Vinagre reuniu fotografias que fez nesses dois momentos, em tudo distintos, no matadouro das Caldas da Rainha e reconstruiu o Sítio numa selecção de 11 imagens que agora formam a exposição com aquele título, e que até 25 de Setembro pode ser visitada na Casa Bernardo, naquela cidade. Ao mesmo tempo, o fotógrafo apresenta também nas Caldas da Rainha, no Centro Cultural e de Congressos, até 30 de Setembro, Húmus, uma outra exposição com 70 trabalhos - exibida, no ano passado, no Centro Cultural de Cascais -, que fazem a retrospectiva da sua obra.

06 agosto, 2010

Camille Silvy

Camille Silvy, músicos de rua, 1859-1860 (ca), albumina
© Getty Museum, The J. Paul Getty Trust


Camille Silvy (1834-1910) foi um dos pioneiros da fotografia francesa. Cursou desenho e chegou a iniciar estudos de direito. Tirou as primeiras fotografias durante uma viagem à Argélia, em 1857. No ano seguinte, de regresso a França, captou cenas campestres da sua região natal, o vale de Huisne, talvez o quinhão mais pessoal e inspirado da sua obra que havia de ser mostrado numa exposição da Sociedade Francesa de Fotografia, em 1859.

Para além de paisagem, captou os efeitos do crepúsculo, do nevoeiro e do sol, registou cenas da cidade, na rua, no teatro, na ópera. Silvy mostrou ainda um gosto particular pela fotografia que mostrava a exuberância das roupas e dos adereços, notabilizando-se como fotógrafo da alta sociedade e de alguma realeza em Londres, lançando o formato carte-de-visite nessa cidade, por volta de 1860. No seu estúdio preparou e decorou uma sala particular para receber a rainha Vitória, o Queen`s Room, mas a monarca nunca chegou a aparecer perante o sua câmara. A actividade fotográfica de Camille Silvy foi largamente inspirada na visão do "pintor da vida moderna" esboçado por Charles Baudelaire (1821-67) no ensaio com o mesmo nome.

A National Portrait Gallery de Londres mostra até 24 de Outubro uma grande exposição de trabalhos de Camille Silvy que revelam os primeiros passos da fotografia de moda, de teatro e de rua. A Londres vitoriana e Paris estão em destaque nesse retrato do turbilhão moderno em que embarcaram as grandes metrópoles da época. Algumas das fotografias incluídas na exposição não foram vistas em público desde os anos 60 do século XIX.



Camille Silvy, tenente-general Clark Kennedy, 1860, albumina
© Victoria and Albert Museum

31 julho, 2010

INiepce


© 2010 AAnonymes Project



A curadora Romaric Tisserand andou cinco anos a juntar fotografias antigas. Cinco anos em busca do "acidente deliberado" em imagens perdidas em mercados de velharias, lojas de velharias e bric-a-brac de Buenos Aires, Madrid, Berlim, Paris, Londres, Roma, Havana, Nova Iorque e Lisboa. O resultado dessa procura é o projecto online e a exposição INiepce que junta 365 fotografias vernaculares que para Tisserand possuem um valor estético particular e ajudam a contar uma história da fotografia paralela aos cânones. E não só: ajudam a salvar e a valorizar o património fotográfico que fica fora das assinaturas de nomeada, dos selos de qualidade e das tiragens limitadas.
Romaric Tisserand explica o seu prazer com a fotografia vernacular aqui.
Projecto INiepce

30 julho, 2010

entre aspas

© Jean-Baptiste Mondino


E quando chegámos aqui ao Femina foi a primeira pessoa em que pensei. Na altura, primeiro desenvolvemos a ideia os dois e depois a agência dele entrou em contacto com o management para acertarem o preço das fotos que era um T0 em Lisboa e enviei-lhe um e-mail a dizer que ficávamos amigos à mesma mas que não tínhamos hipótese nenhuma de fazer isso e que ia procurar outra solução, não ia usar essa ideia. e ele, mais uma vez disse: 'Ok. Não, essa ideia tem que andar para a frente, tem que se fazer assim. Desde que se assumam as despesas do estúdio o resto não é mais nada'. E mais uma vez foi ele a fotografar-me. É incrível.

Paulo Furtado aka Legendary Tiger Man, in Playboy

saldos Aperture

© Sylvia Plachy

A Aperture está em saldos de Verão: 30 por cento nos livros e 15 nas fotografias. aqui

26 julho, 2010

O Boxe


A Cinemateca termina o ciclo O Boxe com o documentário Muhammad Ali, The Greatest (França, 1974, 120 min), do mestre William Klein.
A projecção está agendada para amanhã, dia 27, 21h30, na sala Félix Ribeiro, e é uma estreia na Cinemateca Portuguesa.

25 julho, 2010

Gerardo Mosquera





O cubano Gerardo Mosquera é o novo comissário-geral do festival PHotoEspaña para o triénio 2011-13. Crítico, comissário e historiador de arte independente, a viver em Havana, Mosquera faz parte do conselho editorial de várias revistas de arte internacionais é assessor da Academia de Belas-Artes holandesa, fundou a Bienal de Havana e foi curador do New Museum of Contemporary Art, de Nova Iorque. É autor de centenas de ensaios, artigos e comentários em publicações de vários países.

Gerardo Mosquera: Vivimos en la era de la imagen técnica, y la fotografía y el video ya forman parte de nuestra vida cotidiana. Se ha convertido en algo dominante. Dentro de lo que llamamos arte, se ha consolidado como una manifestación propia, al mismo nivel que el resto, y a la vez tiene una presencia crucial dentro de formas artísticas híbridas. También como documentación de performances, intervenciones, etc., donde la fotografía es a menudo “lo que queda” de la acción y lo que se vende.

O PHotoEspaña 2011 decorre entre 1 de Junho e 24 de Julho. Alguns números sobre a edição deste ano que oficialmente termina hoje (há exposições que se estendem até meados de Agosto):
>As 69 exposições já receberam até agora 708 mil pessoas, mais cerca de 15 visitantes que a edição do ano passado.

>O programa de actividades registou o maior número de participantes de sempre, com mais de 7000 pessoas inscritas em oficinas de fotografia, master classes, visitas guiadas, oficinas infantis, conferências e mesas redondas.

>O programa Descubrimientos PHE recebeu mais de 1851 portfólios de fotógrafos de 76 nacionalidades. Pela primeira vez, as candidaturas estrangeiras superaram as espanholas.

>O festival acreditou 977 jornalistas de 35 países.

Entrevista a Gerardo Mosquera publicada na A*DESK

09 julho, 2010

Heavy Storm



(...)
I wish I could hold on a little longer
Still my worried stomach and calm my hunger
I wish I could believe what they taught me

I saw, I saw, I saw, I saw an old photograph
And the picture that appeared, well it took me back to the time
When she was around

She used to play that old mandolin
And the moon and the sea invited her in
I wish that I had told her by then
But she knew deep down that she only wished that time would come back

(...)

Heavy Storm, Klara & Johanna Söderberg (First Aid Kit), The Big Black and The Blue

Europa




Europa é o novo livro do fotógrafo francês Bernard Plossu, andarilho inveterado. A editora espanhola La Fábrica Editorial apresenta a obra como uma selecção de fotografias "cheias de melancolia" e onde são também protagonistas a "penumbra" e a "nostalgia". A panorâmica que Plossu tirou do continente vai desde cidades como Berlim, Madrid e Lisboa a paragens perdidas no mapa.

08 julho, 2010

Pré-Rafaelitas


John Robert Parsons, sob a orientação de Dante Gabriel Rossetti, Jane Morris, 1865
Manuscripts Division, Department of Rare Books and Special Collections, Princeton University Library
© Princeton University Library


O Musée d'Orsay mostra uma boa selecção de fotógrafos que seguiram a estética pré-rafaelita da Inglaterra da segunda metade do século XIX, apogeu da época vitoriana. John Ruskin, principal ideólogo da Irmandade Pré-Rafaelita, defendia um regresso à natureza, ao modo artesal de fazer contra a velocidade e uniformização industrializada, potencial destruidura das "altas qualidades morais" que julgava presentes na arte medieval, algures entre a passagem do gótico para o Renascimento.
Entre pintores e fotógrafos victorianos são comuns os temas históricos retirados de obras de Dante, Shakespeare, Byron ou Lord Tennyson. A mostra estabelece um diálogo entre os quadros de John Everett Millais, Dante Gabriel Rossetti, Ford Maddox Brown e as fotografias de Julia Margaret Cameron, Roger Fenton, Lewis Carroll e Henry Peach Robinson.
Mais informações aqui

04 julho, 2010

Nozolino recusa Prémio AICA/MC


Paulo Nozolino
© Paulo Pimenta/PÚBLICO



Paulo Nozolino recusou o Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte/Ministério da Cultura (AICA/MC) 2009 em protesto pelo “comportamento obsceno e de má-fé” na actuação do Estado na Cultura.
Nozolino só ficou a saber as condições em que viria a receber o galardão um dia depois da cerimónia de entrega, que decorreu na última terça-feira, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa.
Em declarações ao Público, disse ter aceitado o prémio “por delicadeza” e revelou que tentou informar-se, sem sucesso, sobre as condições em que o valor lhe seria atribuído. Os serviços administrativos do MC comunicaram-lhe então que sobre o valor dos 10 mil euros de prémio, ser-lhe-iam retirados 10 por cento de IRS. Ainda segundo o Público, na mesma mensagem dos serviços administrativos da Direcção-Geral das Artes, era-lhe ainda pedido que preenchesse uma nota de honorários e exigido que apresentasse certidões da situação contributiva, para a Segurança Social, e tributária, junto das Finanças. Perante esta situação, o fotógrafo decidiu recusar o prémio pelo que considerou ser “um comportamento de má-fé do Estado português”.

O comunicado de Paulo Nozolino na íntegra:

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.

A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!

Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.

Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.

Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.

Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino, 1 de Julho de 2010

=ColecçãoàVista= 57

Júlia Margaret Cameron (1815-1879), Alethea (Study of Alice Liddell), 1872
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia




Julia Margaret Cameron

Nasceu em Calcutá, viveu na Índia e foi para Inglaterra. A sua casa estava constantemente repleta de artistas e cientistas da época vitoriana. Foi “apresentada à fotografia” aos 48 anos através de uma câmara que recebeu de presente e a partir desse momento dedicou-se, principalmente, ao retrato. Os seus modelos preferidos eram a família, amigos e empregados.
Produziu fortes inovações visuais: grandes aproximações, desfocagens resultantes de lentes mal corrigidas e, sobretudo, um método de impressão no qual era colocado um vidro entre o negativo de colódio e o papel emulsionado. Deste modo, obtinham-se retratos que adquiriam uma aura pelo efeito de flou e espelham, sem sombra de dúvida, a tendência da corrente pictórica romântica do momento, a assim dita pré-rafaelista.
(texto:CPF)

02 julho, 2010

 fotografiafalada


Krakatindur, da série Iceland
© Manel Armengol



(Manel Armengol)

Estas são seguidas. Houve uma noite que não dormi. Estávamos num refúgio. Na segunda viagem tive um ajudante islandês porque não me via capaz de conduzir sempre e transportar todo o material sozinho. Estas duas fotografias foram resultado de uma noite sem dormir porque no refúgio havia muitas pessoas a dormir lado a lado, algumas delas a ressonar… não conseguia dormir. Saí de madrugada. Há uma da manhã, acordei o ajudante e disse-lhe que íamos fazer fotografias. Fui até ao topo da montanha onde estava o refúgio e, quando cheguei, eram duas ou três da madrugada, havia uma luz ténue, silêncio absoluto… Até que vi a primeira luz do sol no pico desta montanha que era de uma coloração ocre. Era uma imagem muito intensa porque tudo à volta era negro, rocha vulcânica… talvez seja uma das imagens desta série em que se nota mais esta tentativa de compenetração com o que estava a ver… creio que transparece, que se percebe isso. É um momento mágico, pode parecer até um pouco teatral, mas foi um momento muito forte, muito real. Não sei se para além de mim, as pessoas conseguirão sentir isso.



Blautaver, da série Iceland
© Manel Armengol




Manel Armengol, Terrae
Galeria Pente 10, Trav. da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa,
Até 3 de Julho

Manuela Marques


Manuela Marques, sans-titre, 2005
© Manuela Marques


A terceira edição do festival Photo Levallois, que decorrerá na cidade francesa de Levallois entre 19 de Novembro e 18 de Dezembro de 2010, terá a participação especial da fotógrafa portuguesa Manuela Marques (Tondela, 1959).

PHE10 - 5 paragens. #5



© Steven Pippin



Entre Tempos… Quantos tempos tem o tempo na fotografia?

Nos primeiros dois anos como comissário-geral, Sérgio Mah optou por centrar a defesa do tema escolhido numa exposição assumindo aí grande parte das despesas da justificação teórica dos eixos centrais do festival – foi assim com Lugar (2008), através da mostra de W. Eugene Smith, e com Quotidiano (2009), através da exposição colectiva Anos 70. Fotografia e Vida Quotidiana. Para a recta final como director artístico do PHotoEspaña 2010, dirigido segundo o tema genérico Tempo, o comissário português fez questão de sublinhar o carácter dialogante da exposição Entre Tempos. Instantes, intervalos, durações com outras propostas programáticas do festival, quer tenham sido orientadas por si ou por comissários convidados.

A ideia é estabelecer relações formais e estéticas entre as várias exposições da secção oficial de maneira alargar ainda mais a reflexão sobre o vasto espectro de práticas visuais que giram em torno das múltiplas (multíplices, paradoxais…) noções do conceito de tempo. O jogo de descoberta de semelhanças, contaminações, familiaridades ou acasos não tem regras de partida, mas o guia oficial do festival pode dar uma ajuda preciosa. Por exemplo, através dele podemos comparar as figuras heróicas da NBA de Paul Pfeiffer, em plena acção e isoladas de todo o ruído visual circundante, com o mergulho para a piscina sobre fundo negro de Pete Desjardin registado pelo engenheiro Harold Edgerton durante as experiências com flash estroboscópico, uma novidade técnica capaz de registar movimentos até então impossíveis de detectar a olho nu.

Entre registos fotográficos, videográficos e fílmicos, ao longo das salas subterrâneas do sempre fresco Teatro Fernán Gómez, há 17 autores para descobrir (ou redescobrir) e que representam uma cartografia possível da ideia de tempo na linguagem fotográfica. Em conversa com o PÚBLICO no dia da inauguração, Mah afirmou que Entre Tempos… é uma exposição para pensar e para se ver devagar. Não só para que se possam estabelecer as relações e os conflitos dialogantes entre as várias propostas criativas, mas também para que se consiga descobrir a beleza nas pequenas diferenças que se estabelecem entre duas imagens separadas apenas por um abrir e fechar de olhos (Jochen Lempert, Cro-Mañon, 2006).


© Tacita Dean



Entre Tempos. Instantes, intervalos, durações
Ignasí Aballí, Daniel Blaufuks, Iñaki Bonillas, David Claerbout, Tacita Dean, Ceal Floyer, Joachim Koester, Jochen Lempert, Mabel Palacín, Paul Pfeiffer, Steven Pippin, Michael Snow, Clare Strand, Hiroshi Sugimoto, Jeff Wall, Michael Wesely e Erwin Wurm
Teatro Fernán Gómez, Plaza de Colón, 4, Madrid
Até 25 de Julho

PHE10 - 5 paragens. #4

Atlas Monograph, Max Pam, T&G Publishing



Os livros e a fotografia já casaram há muito tempo, mas o namoro continua

Já não é só uma tradição (e que boa tradição) – é uma instituição também. A iniciativa Os melhores livros de fotografia do ano mantém-se inabalável desde a primeira edição do PHotoEspaña, em 1998. Todos os anos o festival recebe centenas de cópias de foto livros enviados de todo o mundo, sinal de que o suporte continua vivo e a merecer cada vez mais dedicação de autores e editores.

No conjunto de várias dezenas de obras seleccionadas para os prémios finais deste ano, estão lado a lado livros produzidos por editoras de escala mundial e livros produzidos pelos próprios fotógrafos, em edições de autor cada vez mais cuidadas. Esta profusão de projectos de iniciativa individual no núcleo restrito de finalistas revela também como se democratizou o processo de produção dos foto livros, que há muito deixaram de estar dependentes das grandes tiragens para se tornarem realidade. Com tantas portas fechadas nos tradicionais meios de divulgação e sustento dos autores, quantas vezes os livros não surgem como a única maneira de tornar visível o trabalho de um fotógrafo?

Os melhores livros de fotografia estão, pela segunda vez, no Matadero de Madrid. O festival dá três prémios. O prémio para o Melhor Livro de Fotografia Nacional (livros publicados em Espanha) foi para a reedição de Soviet Aviation (Editorial Lampreave), de Alexander Rodchenko e Varvara Stepanova, um dos vários foto livros produzidos pelo regime soviético para levar à feira mundial de Nova Iorque, em 1939. O mais recente Atlas Monograph (T&G Publishing), do fotógrafo australiano Max Pam, foi considerado O Melhor Livro de Fotografia Internacional. Para além do trabalho fotográfico de Pam, a obra inclui desenhos, pinturas e textos do autor produzidos no decorrer de várias viagens pelo mundo. O prémio para a Editora do Ano foi atribuído à Aperture Foundation, que chegou com várias obras à escolha final, entre os quais o último foto livro da americana Sally Mann, Proud Flesh. De Portugal, só foi seleccionada para a exposição no Matadero a reedição de Lisboa, Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla/Costa Martins, publicada pela Pierre von Kleist Editions.



Soviet Aviation, Alexander Rodchenko e Varvara Stepanova, Editorial Lampreave



Os Melhores Livros de Fotografia do Ano
Matadero de Madrid, Chopera, 14
Até 25 de Julho

28 junho, 2010

 fotografiafalada


Islândia, 2003
© Manel Armengol

(Manel Armengol)

Esta fotografia funcionou para mim como núcleo definidor da minha primeira viagem à Islândia, uma viagem totalmente solitária, durante 12 dias. A maior parte do tempo, estive em silêncio, sozinho. Para mim, esta condição foi fundamental, porque a relação que estabeleci entre mim e o mundo exterior acabou por ser fortíssima…
Era para mostrar apenas a montanha do vulcão. Estava a entardecer, já havia pouca luz, mas em Julho nunca anoitece completamente, há sempre alguma luz. E assim de repente, ao vê-la de longe… gosto de tudo o que são cosmogonias, relatos antigos das origens… pareceu-me uma mesa ritual no meio da planura… uma ideia que me surgiu como uma aparição – uma mesa ritual natural: ‘vou parar aqui’, pensei. Estava tudo enevoado. ‘vou esperar para ver se aparece uma luz especial, alguma coisa’, pensei. Estava um vento tremendo, ao ponto de ter de me proteger por trás do carro para não ser atirado para o chão. Tinha a câmara e o tripé preparados. Esperei uma meia-hora até que esta luz se definisse. Foi uma emoção… estava à espera que acontecesse alguma coisa que efectivamente aconteceu… alguma coisa que era muito improvável que acontecesse, mas que acabou por acontecer… foi um momento mágico, fundamental, foi a imagem que sustentou todo o trabalho da primeira viagem. Recordo-me de ter pensado que estava perto de um antigo vulcão e da sua chaminé e de pensar que ia a até ao centro da terra… lembrei-me também da lava e das cosmogonias do axis mundi… o que é que existe entre o céu e o centro da terra? Surgiu-me esta pergunta enquanto esperava
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Manel Armengol, Terrae
Galeria Pente 10, Trav. da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa,
Até 3 de Julho

PHE10 - 5 paragens. #3




A rua já foi uma lírica urbana, agora é um paraíso perdido

Se considerarmos cada fotografia como uma pequena máquina do tempo que é accionada no momento em que alguém a vê, é inevitável não entrarmos na viagem rumo às ruas de Nova Iorque dos anos 40 através das imagens de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), onde as crianças se movimentam em liberdade numa teia de cumplicidades e todo o tipo de brincadeiras. Passeios, portas, escadas, esquinas e reentrâncias, fontes, árvores e pontos de água a espirrar géisers - tudo serve para campo de acção desta Lírica Urbana nos bairros populares da grande metrópole registada por uma das últimas grandes autoras da fotografia de rua do século XX, aposta forte da programação do festival com uma exposição antológica (a primeira desde a sua morte em 2009) que abarca trabalhos captados entre 1936 a 1993. A mostra foi comissariada pelo catalão Jorge Ribalta que dedica um ensaio à autora no livro El tiempo expandido que reúne ensaios de vários autores sobre a diversidade de propostas do festival.

As cópias de época de pequeno formato que dão corpo à exposição, sobretudo as que foram registadas durante a primeira década de trabalho de Levitt, convidam-nos de uma maneira eficaz a entrar nessa cápsula do tempo, já que em muitas delas é preciso encostar o nariz ao vidro da moldura e alguma concentração para ver os risos, as caretas e as pistolas de fingir usadas nestas microscópicas peças de teatro, fugazes instantes da vida quotidiana raramente tidos em conta pela “grande” história urbana. Esta subtileza no momento de revelar o seu trabalho através de pequenos formatos está em sintonia com uma actuação de grande delicadeza no momento de fazer o disparo. Helen Levitt bebeu todos os ensinamentos de Walker Evans (uma das suas maiores referências na fotografia a par de Henri Cartier-Bresson), para quem a força do documento fotográfico, o realismo máximo, se conseguiam sobretudo quanto os fotógrafos conseguiam passar despercebidos, sem influenciar o sujeito e, de preferência, com uma máquina Leica na mão.

O mundo que Helen Levitt fotografou nas ruas de Nova Iorque na década de 40, o trabalho pelo qual ficou mais conhecida, desapareceu. Como quase desapareceu a prática fotográfica cândida com que se divertia a registar o divertimento dos outros, a lírica urbana (título mais adequado não podia haver) que hoje os fotógrafos têm mais dificuldade em apreender. É um paraíso perdido.


Helen Levitt, Lírica Urbana. Fotografías 1936-1993
Museo Colecciones ICO (MUICO), Zorrilla, 3, Madrid
Até 28 de Agosto

PHE10 - 5 paragens. #2



Madres e hijas
© Adriana Lestido



Adriana Lestido mete-se dentro das histórias, não se limita a observá-las

O trabalho que Adriana Lestido (Argentina, 1955) tem desenvolvido ao longo dos 30 anos que já leva de carreira está impregnado de uma aproximação documental que se inclui dentro do género do fotojornalismo. As primeiras séries presentes na retrospectiva Amores Difíciles (a primeira mostra individual que apresenta em Espanha com obras captadas entre 1979 e 2007) denunciam muito directamente essa condição formal. Mas à medida que se avança rumo a trabalhos mais recentes, descobre-se uma procura de registos mais fugazes e diluídos, uma procura “pela vivência do tempo como um processo narrativo” que vai revelando uma visão mais poética e emotiva, “uma voz interior”.

A experiência da maternidade em situações emocionais limite tem formado um dos temas centrais da obra da fotógrafa argentina. Dentro desse universo que aborda a dificuldade de construir relacionamentos estáveis (Madres Adolescentes, sobre a solidão e o medo de uma maternidade antes do tempo numa casa estranha, Mujeres Presas, sobre os condicionamentos de ser mãe na prisão), onde é mais nítida a reflexão sobre questões sociais, surge um olhar mais pessoal acerca da “dificuldade de amar” e que se revela sobretudo nos projectos Madres e hijas, El Amor e Villa Gesell. Aqui, os sentidos e as experiências íntimas falam mais alto - a nitidez, o foco e o enquadramento perfeito foram ficando para trás. No primeiro trabalho, Lestido acompanhou durante quase cinco anos alguns altos e baixos do relacionamento de quatro pares de mães e filhas. Em El Amor (1995-2005) e Villa Gesell (2005) aparecem as vivências mais introspectivas e ligadas a uma tentativa de libertar as imagens de qualquer género ou tipologia estética. Lestido é “uma documentalista que não se dilui no género fotojornalístico e que procura um olhar interior, os aspectos mais emocionais que privilegiam os sentidos”, afirmou o comissário Santiago Olmo na apresentação da mostra.

Para Olmo, todas as séries apresentadas (um total de 159 fotografias) são “para ver e sentir”, porque Adriana Lestido “é uma fotógrafa que se mete dentro das histórias, não se limita a observá-las”.


Madres e hijas
© Adriana Lestido


Adriana Lestido, Amores Difíciles
Casa de América, Marqués del Duero, 2, Madrid
Até 29 de Agosto

PHE - 5 paragens. #1

Victoria Beckham
© Juergen Teller


Depois de Juergen Teller a fotografia de moda nunca mais será a mesma

A primeira fotografia visível na exposição Calves and Thighs de Juergen Teller (Alemanha, 1964) não estava programada à partida. Só apareceu porque Katy Baggott, amiga e agente do autor, morreu recentemente durante a preparação da mostra em Madrid. A imagem, que aparece por cima de uma dedicatória de Teller, mostra Baggott com Nobuyoshi Araki, a estrela planetária da fotografia japonesa, num braço de ferro renhido. Embora tenha sido escolhida com o propósito de homenagear alguém, a representação de um personagem do círculo mais íntimo do fotógrafo alemão em confronto (amigável) com um famoso ilustra bem as dicotomias e os conflitos temáticos que atravessam as séries agora seleccionadas pelo comissário inglês Paul Wombell a partir de uma exposição já apresentada em Nuremberga. A sensação de navegação à vista não se relaciona apenas com a aproximação formal da maioria das imagens de Teller (desfocadas, sobreexpostas, tortas… enfim, “retorcidas”, como alguém as classificou) - estende-se aos sujeitos fotografadas que podem ir de auto-retratos intimistas a tomar banho com o filho a objectos vernaculares (muitas vezes abjectos) ou ainda às pernas de Vitoria Beckham enfiada dentro de um saco de compras da marca de roupa Mark Jacobs.

Fotógrafo de moda durante muitos anos para publicações como Arena, The Face e I-D, Teller, juntamente com o conterrâneo Wolfgang Tillmans, é reconhecido como alguém que contribui para quebrar os limites e deu início a mais uma discussão acerca do verdadeiro lugar do género na criação conceptual contemporânea. Enfastiado com a repetição dos cânones, o fotógrafo alemão começou a colocar lado a lado imagens vindas de um universo pessoal e encomendas mais voltadas para a divulgação e publicidade das criações de estilistas ou marcas de roupa. No meio de todo este caldeirão imagético, cujo resultado se aproxima de um exercício de psicanálise público, prevalece um fio condutor mínimo ao nível do tema – o retrato. E também ao nível da forma – o flash e a luz artificial.

O catálogo da exposição, que o comissário classifica como “extensão” da mostra, abre com 102 perguntas dirigidas por vários amigos (muitos famosos, como não podia deixar de ser) a Juergen Teller. As tentativas de resposta não são dadas com texto – são dadas com imagens.

Juergen Teller, Calves and Thighs
Comunidad de Madrid/Sala Alcalá 31
Até 22 de Agosto

27 junho, 2010

László Moholy-Nagy

Ellen Frank, 1929

László Moholy-Nagy - Regresso ao artista total

Sérgio B. Gomes
(Ípsilon, Público, 18.06.2010)

Se havia em Madrid um lugar perfeito para expor a obra eclética de László Moholy-Nagy (Bácsborsod, Hungria, 1895 – Chicago, EUA, 1946), esse lugar era o Círculo de Bellas Artes (CBA), a casa que ostenta a estátua altaneira de Minerva, a deusa da guerra, da sabedoria e das artes. Uma casa multidisciplinar por excelência, para onde confluem todo o tipo de manifestações criativas, sem filhos pródigos ou parentes pobres. É o mesmo tipo de atitude transversal que norteou todo o percurso de Moholy-Nagy como teórico, pedagogo, académico e criador em vários suportes que vão do cinema à pintura, do desenho gráfico à fotografia, da cenografia à escultura. Um labor intenso, sem hierarquias estéticas, que, durante os anos 20, 30 e 40, procurou a concretização do ideário moderno de artista total, em substituição do endeusamento do artista como génio.

A luz e as suas qualidades como matéria-prima criativa ocuparam a maior parte das obras e do raciocínio teórico de László Moholy-Nagy. Mas não menos importante é a intervenção crítica em relação ao seu tempo histórico, a centelha que fez com que se acendesse essa vontade de procurar nas nuances dos claros-escuros e nos jogos de reflexos dos espelhos uma reacção vanguardista aos cânones, uma alternativa que tenta “despertar o espectador, torná-lo activo”.

“O tempo expandido” é o tema escolhido por Sérgio Mah para fechar o seu último ano como comissário-geral do PHotoEspaña, no âmbito do qual foi inaugurada a exposição de Moholy-Nagy. Se considerarmos o conjunto da obra do mestre húngaro como uma procura incessante por uma “arte nova” capaz de “responder a um momento histórico presidido pela máquina e pela Revolução Industrial”, a mostra que Oliva María Rubio comissariou no CBA representa uma resposta ao tema expandida no tempo.





Ecletismo

O ecletismo com que todos os anos se apresenta o festival - modelo que, ao longo dos anos, se tem afirmado como uma imagem de marca do PHotoEspaña - tem os seus perigos e as suas vantagens. Se por um lado, a variedade das propostas expositivas pode dar contributos importantes para reflectir sobre o tema central, por outro pode estilhaçar demasiado essas referências que, por si mesmas, são difíceis de condensar numa exposição, quanto mais em dezenas delas. As três exposições da Secção Oficial mais direccionadas para os autores clássicos, onde se inclui a mostra A Arte da Luz de László Moholy-Nagy (que já tem itinerâncias agendadas para o Martin Gropius Bau de Berlim e para o Gemeentemuseum Den Haag de Haia), são um bom exemplo de como pode resultar bem esse ecletismo. De uma assentada, podem comparar-se, por exemplo, três utilizações/abordagens muito distintas do suporte fotográfico nos EUA dentro da década de 40 do século passado, se a Moholy-Nagy juntarmos mais duas exposições: Anatomia do Movimento, de Harold Edgerton (EUA, 1903-1990), sobre as experiências com aparelhos fotográficos ultra-rápidos, capazes de revelar os mais ínfimos segredos do movimento; e Lírica Urbana, de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), sobre a vida nas ruas de Nova Iorque.

De tão vasta e diversificada que é, a obra do mestre húngaro agora apresentada no festival madrileno pode entrar facilmente em diálogo com outras propostas expositivas. Durante a apresentação da mostra, a comissária Olivia María Rubio, directora de exposições da La Fábrica, empresa que organiza o PHotoEspaña, confessou que entre todas as artes tocadas por Moholy-Nagy, apenas a escultura não está representada. De resto, entre outros grupos de obras, podem ver-se provas de época dos conhecidos fotogramas, imagens conseguidas com a acção directa da luz sobre uma superfície sensibilizada sem a intermediação da máquina que, para o autor, produzem “um efeito sublime, radiante, quase imaterial”, em contraponto com os raiogramas desenvolvidos por Man Ray na mesma época, tecnicamente semelhantes mas com a representação de objectos de contornos bem definidos, menos “poéticos” e à procura do efeito “surpreendente”. São simbólicas também as fotografias captadas de maneira tradicional (com máquina), onde os enquadramentos e as perspectivas revelam o interesse Moholy-Nagy pelas linhas de força e formas geométricas, características de vários autores modernistas que lhe sucederam (não é claro que tenha conhecido Alexander Rodchenko, fotógrafo russo com uma linguagem fotográfica semelhante). Num conjunto muito pouco conhecido, László Moholy-Nagy revela-se também como um dos pioneiros da fotografia a cores, aqui com registos de pendor intimista, sobretudo captados em família.

Falar da enorme importância de László Moholy-Nagy na história da fotografia será sempre um eufemismo. O contributo teórico e criativo que deu para a emancipação plena da produção fotográfica nas primeiras décadas do século XX é incontornável não só para uma prática até então desconsiderada, como para o conjunto de outras artes para onde levou a linguagem da fotografia, principalmente para o cinema e para a pintura. Consciente de que a “a arte é o que desperta os sentidos, que aguça a vista, a mente e as sensações”, Moholy-Nagy “trabalhará com afinco (…) num projecto pedagógico alargado que se concentra na formação desse homem total, suma de psicofísico, intelecto e afecto, um homem não dividido e uma arte que se funde com a vida”, escreve María Rubio no livro de ensaios em torno da proposta temática (novidade deste festival).

Sempre fiel à “estética da luz” e sem contrariar a sua concepção das artes como um todo, a fotografia foi um dos suportes a que László Moholy-Nagy mais voltou. Sobretudo porque “alimentava a ideia de criar uma arte nova à volta da fotografia e porque acreditava que as antigas artes já não podiam representar a vida moderna”. Em paralelo à prática artística e pedagógica (foi professor da Bauhaus em Weimar, 1923-1925, e em Dessau, 1925-1928, na Alemanha, da New Bauhaus e do Institute of Design, ambas em Chicago, nos EUA, até à sua morte, em 1946) desenvolveu uma ampla reflexão teórica em torno da fotografia, cujo principal ensaio é Pintura, Fotografia, Cinema (1925), onde elabora sobre “a luz como matriz da arte”.

Apesar de ter orientado toda a sua criação rumo a um tempo repleto de ideais e de futuro que a história se encarregou de desmentir, a arte de László Moholy-Nagy continua a deslumbrar e muitas das suas máximas revelaram-se certeiras ou estão agora a acontecer diante dos nossos olhos. Como aquela que diz: “Os analfabetos do futuro não serão apenas aqueles que ignorarem a linguagem escrita, mas também todos os que ignorarem o uso da máquina fotográfica”.



Ascona, Itália, 1930

22 junho, 2010

Vanessa Winship


© Vanessa Winship

A fotógrafa inglesa Vanessa Winship ganhou o prémio Descubrimientos do PHoto España 2010 com o trabalho Sweet Nothings, captado durante 2008. Depois deste reconhecimento, Winship terá direito a uma exposição individual na próxima edição do festival. Sweet Nothings reúne retratos de raparigas de zonas rurais da Turquia vestidas com uniformes escolares.
O júri do prémio era constituído por Francisco Carpio, crítico e comissário independente, Brett Rogers, directora da Photographer´s Gallery, de Londres e Markus Hartmann, director de publicações internacionais da editora Hatje Cantz.
Vanessa Winship (1960, Reino Unido) vive actualmente em Londres e, para além da Turquia, já trabalhou em vários países dos Balcãs e do Cáucaso. É representada pela agência Vu.
Já ganhou prémios no World Press Photo e foi nomeada fotógrafa do ano no Sony World Photography.
Os vencedores das edições anteriores do prémio foram: Alejandra Laviada, Yann Gross, Harri Palviranta, Stanislas Guigui, Vesselina Nikolaeva, Comenius Röthlisberger, Pedro Álvarez, Tanit Plana, Sophie Dubosc, Juan de la Cruz Megías, Paula Luttringer e Matías Costa. O Descubrimientos PHE, dirigido a fotógrafos profissionais, recebeu 1851 inscrições. Um grupo de 70 finalistas mostrou os seus portfólios a especialistas de diversas áreas da fotografia vindos de todo mundo. Georges Pacheco era o único fotógrafo português entre este grupo.

17 junho, 2010

OjodePez

O prazo para recepção de portfólios do OjodePez Photo Meeting Barcelona foi ampliado até 1 de Julho.
O visionamento dos trabalhos vai ser feito nos dias 15, 16 e 17 de Julho por Jamie Wellford, Christian Caujolle, Jessica Murray, Craig Cohen, Chris Boot, Silvia Omedes o Gigi Giannuzzi.
Durante estes dias, haverá conferências, projecções e oficinas de trabalho com Susan Meiselas, Alex Majoli, Michael Ackerman, Donald Weber e Bloomberg & Chanarin
Mais informações aqui

 
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