04 julho, 2010

Nozolino recusa Prémio AICA/MC


Paulo Nozolino
© Paulo Pimenta/PÚBLICO



Paulo Nozolino recusou o Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte/Ministério da Cultura (AICA/MC) 2009 em protesto pelo “comportamento obsceno e de má-fé” na actuação do Estado na Cultura.
Nozolino só ficou a saber as condições em que viria a receber o galardão um dia depois da cerimónia de entrega, que decorreu na última terça-feira, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa.
Em declarações ao Público, disse ter aceitado o prémio “por delicadeza” e revelou que tentou informar-se, sem sucesso, sobre as condições em que o valor lhe seria atribuído. Os serviços administrativos do MC comunicaram-lhe então que sobre o valor dos 10 mil euros de prémio, ser-lhe-iam retirados 10 por cento de IRS. Ainda segundo o Público, na mesma mensagem dos serviços administrativos da Direcção-Geral das Artes, era-lhe ainda pedido que preenchesse uma nota de honorários e exigido que apresentasse certidões da situação contributiva, para a Segurança Social, e tributária, junto das Finanças. Perante esta situação, o fotógrafo decidiu recusar o prémio pelo que considerou ser “um comportamento de má-fé do Estado português”.

O comunicado de Paulo Nozolino na íntegra:

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.

A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!

Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.

Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.

Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.

Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino, 1 de Julho de 2010

=ColecçãoàVista= 57

Júlia Margaret Cameron (1815-1879), Alethea (Study of Alice Liddell), 1872
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia




Julia Margaret Cameron

Nasceu em Calcutá, viveu na Índia e foi para Inglaterra. A sua casa estava constantemente repleta de artistas e cientistas da época vitoriana. Foi “apresentada à fotografia” aos 48 anos através de uma câmara que recebeu de presente e a partir desse momento dedicou-se, principalmente, ao retrato. Os seus modelos preferidos eram a família, amigos e empregados.
Produziu fortes inovações visuais: grandes aproximações, desfocagens resultantes de lentes mal corrigidas e, sobretudo, um método de impressão no qual era colocado um vidro entre o negativo de colódio e o papel emulsionado. Deste modo, obtinham-se retratos que adquiriam uma aura pelo efeito de flou e espelham, sem sombra de dúvida, a tendência da corrente pictórica romântica do momento, a assim dita pré-rafaelista.
(texto:CPF)

02 julho, 2010

 fotografiafalada


Krakatindur, da série Iceland
© Manel Armengol



(Manel Armengol)

Estas são seguidas. Houve uma noite que não dormi. Estávamos num refúgio. Na segunda viagem tive um ajudante islandês porque não me via capaz de conduzir sempre e transportar todo o material sozinho. Estas duas fotografias foram resultado de uma noite sem dormir porque no refúgio havia muitas pessoas a dormir lado a lado, algumas delas a ressonar… não conseguia dormir. Saí de madrugada. Há uma da manhã, acordei o ajudante e disse-lhe que íamos fazer fotografias. Fui até ao topo da montanha onde estava o refúgio e, quando cheguei, eram duas ou três da madrugada, havia uma luz ténue, silêncio absoluto… Até que vi a primeira luz do sol no pico desta montanha que era de uma coloração ocre. Era uma imagem muito intensa porque tudo à volta era negro, rocha vulcânica… talvez seja uma das imagens desta série em que se nota mais esta tentativa de compenetração com o que estava a ver… creio que transparece, que se percebe isso. É um momento mágico, pode parecer até um pouco teatral, mas foi um momento muito forte, muito real. Não sei se para além de mim, as pessoas conseguirão sentir isso.



Blautaver, da série Iceland
© Manel Armengol




Manel Armengol, Terrae
Galeria Pente 10, Trav. da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa,
Até 3 de Julho

Manuela Marques


Manuela Marques, sans-titre, 2005
© Manuela Marques


A terceira edição do festival Photo Levallois, que decorrerá na cidade francesa de Levallois entre 19 de Novembro e 18 de Dezembro de 2010, terá a participação especial da fotógrafa portuguesa Manuela Marques (Tondela, 1959).

PHE10 - 5 paragens. #5



© Steven Pippin



Entre Tempos… Quantos tempos tem o tempo na fotografia?

Nos primeiros dois anos como comissário-geral, Sérgio Mah optou por centrar a defesa do tema escolhido numa exposição assumindo aí grande parte das despesas da justificação teórica dos eixos centrais do festival – foi assim com Lugar (2008), através da mostra de W. Eugene Smith, e com Quotidiano (2009), através da exposição colectiva Anos 70. Fotografia e Vida Quotidiana. Para a recta final como director artístico do PHotoEspaña 2010, dirigido segundo o tema genérico Tempo, o comissário português fez questão de sublinhar o carácter dialogante da exposição Entre Tempos. Instantes, intervalos, durações com outras propostas programáticas do festival, quer tenham sido orientadas por si ou por comissários convidados.

A ideia é estabelecer relações formais e estéticas entre as várias exposições da secção oficial de maneira alargar ainda mais a reflexão sobre o vasto espectro de práticas visuais que giram em torno das múltiplas (multíplices, paradoxais…) noções do conceito de tempo. O jogo de descoberta de semelhanças, contaminações, familiaridades ou acasos não tem regras de partida, mas o guia oficial do festival pode dar uma ajuda preciosa. Por exemplo, através dele podemos comparar as figuras heróicas da NBA de Paul Pfeiffer, em plena acção e isoladas de todo o ruído visual circundante, com o mergulho para a piscina sobre fundo negro de Pete Desjardin registado pelo engenheiro Harold Edgerton durante as experiências com flash estroboscópico, uma novidade técnica capaz de registar movimentos até então impossíveis de detectar a olho nu.

Entre registos fotográficos, videográficos e fílmicos, ao longo das salas subterrâneas do sempre fresco Teatro Fernán Gómez, há 17 autores para descobrir (ou redescobrir) e que representam uma cartografia possível da ideia de tempo na linguagem fotográfica. Em conversa com o PÚBLICO no dia da inauguração, Mah afirmou que Entre Tempos… é uma exposição para pensar e para se ver devagar. Não só para que se possam estabelecer as relações e os conflitos dialogantes entre as várias propostas criativas, mas também para que se consiga descobrir a beleza nas pequenas diferenças que se estabelecem entre duas imagens separadas apenas por um abrir e fechar de olhos (Jochen Lempert, Cro-Mañon, 2006).


© Tacita Dean



Entre Tempos. Instantes, intervalos, durações
Ignasí Aballí, Daniel Blaufuks, Iñaki Bonillas, David Claerbout, Tacita Dean, Ceal Floyer, Joachim Koester, Jochen Lempert, Mabel Palacín, Paul Pfeiffer, Steven Pippin, Michael Snow, Clare Strand, Hiroshi Sugimoto, Jeff Wall, Michael Wesely e Erwin Wurm
Teatro Fernán Gómez, Plaza de Colón, 4, Madrid
Até 25 de Julho

PHE10 - 5 paragens. #4

Atlas Monograph, Max Pam, T&G Publishing



Os livros e a fotografia já casaram há muito tempo, mas o namoro continua

Já não é só uma tradição (e que boa tradição) – é uma instituição também. A iniciativa Os melhores livros de fotografia do ano mantém-se inabalável desde a primeira edição do PHotoEspaña, em 1998. Todos os anos o festival recebe centenas de cópias de foto livros enviados de todo o mundo, sinal de que o suporte continua vivo e a merecer cada vez mais dedicação de autores e editores.

No conjunto de várias dezenas de obras seleccionadas para os prémios finais deste ano, estão lado a lado livros produzidos por editoras de escala mundial e livros produzidos pelos próprios fotógrafos, em edições de autor cada vez mais cuidadas. Esta profusão de projectos de iniciativa individual no núcleo restrito de finalistas revela também como se democratizou o processo de produção dos foto livros, que há muito deixaram de estar dependentes das grandes tiragens para se tornarem realidade. Com tantas portas fechadas nos tradicionais meios de divulgação e sustento dos autores, quantas vezes os livros não surgem como a única maneira de tornar visível o trabalho de um fotógrafo?

Os melhores livros de fotografia estão, pela segunda vez, no Matadero de Madrid. O festival dá três prémios. O prémio para o Melhor Livro de Fotografia Nacional (livros publicados em Espanha) foi para a reedição de Soviet Aviation (Editorial Lampreave), de Alexander Rodchenko e Varvara Stepanova, um dos vários foto livros produzidos pelo regime soviético para levar à feira mundial de Nova Iorque, em 1939. O mais recente Atlas Monograph (T&G Publishing), do fotógrafo australiano Max Pam, foi considerado O Melhor Livro de Fotografia Internacional. Para além do trabalho fotográfico de Pam, a obra inclui desenhos, pinturas e textos do autor produzidos no decorrer de várias viagens pelo mundo. O prémio para a Editora do Ano foi atribuído à Aperture Foundation, que chegou com várias obras à escolha final, entre os quais o último foto livro da americana Sally Mann, Proud Flesh. De Portugal, só foi seleccionada para a exposição no Matadero a reedição de Lisboa, Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla/Costa Martins, publicada pela Pierre von Kleist Editions.



Soviet Aviation, Alexander Rodchenko e Varvara Stepanova, Editorial Lampreave



Os Melhores Livros de Fotografia do Ano
Matadero de Madrid, Chopera, 14
Até 25 de Julho

28 junho, 2010

 fotografiafalada


Islândia, 2003
© Manel Armengol

(Manel Armengol)

Esta fotografia funcionou para mim como núcleo definidor da minha primeira viagem à Islândia, uma viagem totalmente solitária, durante 12 dias. A maior parte do tempo, estive em silêncio, sozinho. Para mim, esta condição foi fundamental, porque a relação que estabeleci entre mim e o mundo exterior acabou por ser fortíssima…
Era para mostrar apenas a montanha do vulcão. Estava a entardecer, já havia pouca luz, mas em Julho nunca anoitece completamente, há sempre alguma luz. E assim de repente, ao vê-la de longe… gosto de tudo o que são cosmogonias, relatos antigos das origens… pareceu-me uma mesa ritual no meio da planura… uma ideia que me surgiu como uma aparição – uma mesa ritual natural: ‘vou parar aqui’, pensei. Estava tudo enevoado. ‘vou esperar para ver se aparece uma luz especial, alguma coisa’, pensei. Estava um vento tremendo, ao ponto de ter de me proteger por trás do carro para não ser atirado para o chão. Tinha a câmara e o tripé preparados. Esperei uma meia-hora até que esta luz se definisse. Foi uma emoção… estava à espera que acontecesse alguma coisa que efectivamente aconteceu… alguma coisa que era muito improvável que acontecesse, mas que acabou por acontecer… foi um momento mágico, fundamental, foi a imagem que sustentou todo o trabalho da primeira viagem. Recordo-me de ter pensado que estava perto de um antigo vulcão e da sua chaminé e de pensar que ia a até ao centro da terra… lembrei-me também da lava e das cosmogonias do axis mundi… o que é que existe entre o céu e o centro da terra? Surgiu-me esta pergunta enquanto esperava
.

Manel Armengol, Terrae
Galeria Pente 10, Trav. da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa,
Até 3 de Julho

PHE10 - 5 paragens. #3




A rua já foi uma lírica urbana, agora é um paraíso perdido

Se considerarmos cada fotografia como uma pequena máquina do tempo que é accionada no momento em que alguém a vê, é inevitável não entrarmos na viagem rumo às ruas de Nova Iorque dos anos 40 através das imagens de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), onde as crianças se movimentam em liberdade numa teia de cumplicidades e todo o tipo de brincadeiras. Passeios, portas, escadas, esquinas e reentrâncias, fontes, árvores e pontos de água a espirrar géisers - tudo serve para campo de acção desta Lírica Urbana nos bairros populares da grande metrópole registada por uma das últimas grandes autoras da fotografia de rua do século XX, aposta forte da programação do festival com uma exposição antológica (a primeira desde a sua morte em 2009) que abarca trabalhos captados entre 1936 a 1993. A mostra foi comissariada pelo catalão Jorge Ribalta que dedica um ensaio à autora no livro El tiempo expandido que reúne ensaios de vários autores sobre a diversidade de propostas do festival.

As cópias de época de pequeno formato que dão corpo à exposição, sobretudo as que foram registadas durante a primeira década de trabalho de Levitt, convidam-nos de uma maneira eficaz a entrar nessa cápsula do tempo, já que em muitas delas é preciso encostar o nariz ao vidro da moldura e alguma concentração para ver os risos, as caretas e as pistolas de fingir usadas nestas microscópicas peças de teatro, fugazes instantes da vida quotidiana raramente tidos em conta pela “grande” história urbana. Esta subtileza no momento de revelar o seu trabalho através de pequenos formatos está em sintonia com uma actuação de grande delicadeza no momento de fazer o disparo. Helen Levitt bebeu todos os ensinamentos de Walker Evans (uma das suas maiores referências na fotografia a par de Henri Cartier-Bresson), para quem a força do documento fotográfico, o realismo máximo, se conseguiam sobretudo quanto os fotógrafos conseguiam passar despercebidos, sem influenciar o sujeito e, de preferência, com uma máquina Leica na mão.

O mundo que Helen Levitt fotografou nas ruas de Nova Iorque na década de 40, o trabalho pelo qual ficou mais conhecida, desapareceu. Como quase desapareceu a prática fotográfica cândida com que se divertia a registar o divertimento dos outros, a lírica urbana (título mais adequado não podia haver) que hoje os fotógrafos têm mais dificuldade em apreender. É um paraíso perdido.


Helen Levitt, Lírica Urbana. Fotografías 1936-1993
Museo Colecciones ICO (MUICO), Zorrilla, 3, Madrid
Até 28 de Agosto

PHE10 - 5 paragens. #2



Madres e hijas
© Adriana Lestido



Adriana Lestido mete-se dentro das histórias, não se limita a observá-las

O trabalho que Adriana Lestido (Argentina, 1955) tem desenvolvido ao longo dos 30 anos que já leva de carreira está impregnado de uma aproximação documental que se inclui dentro do género do fotojornalismo. As primeiras séries presentes na retrospectiva Amores Difíciles (a primeira mostra individual que apresenta em Espanha com obras captadas entre 1979 e 2007) denunciam muito directamente essa condição formal. Mas à medida que se avança rumo a trabalhos mais recentes, descobre-se uma procura de registos mais fugazes e diluídos, uma procura “pela vivência do tempo como um processo narrativo” que vai revelando uma visão mais poética e emotiva, “uma voz interior”.

A experiência da maternidade em situações emocionais limite tem formado um dos temas centrais da obra da fotógrafa argentina. Dentro desse universo que aborda a dificuldade de construir relacionamentos estáveis (Madres Adolescentes, sobre a solidão e o medo de uma maternidade antes do tempo numa casa estranha, Mujeres Presas, sobre os condicionamentos de ser mãe na prisão), onde é mais nítida a reflexão sobre questões sociais, surge um olhar mais pessoal acerca da “dificuldade de amar” e que se revela sobretudo nos projectos Madres e hijas, El Amor e Villa Gesell. Aqui, os sentidos e as experiências íntimas falam mais alto - a nitidez, o foco e o enquadramento perfeito foram ficando para trás. No primeiro trabalho, Lestido acompanhou durante quase cinco anos alguns altos e baixos do relacionamento de quatro pares de mães e filhas. Em El Amor (1995-2005) e Villa Gesell (2005) aparecem as vivências mais introspectivas e ligadas a uma tentativa de libertar as imagens de qualquer género ou tipologia estética. Lestido é “uma documentalista que não se dilui no género fotojornalístico e que procura um olhar interior, os aspectos mais emocionais que privilegiam os sentidos”, afirmou o comissário Santiago Olmo na apresentação da mostra.

Para Olmo, todas as séries apresentadas (um total de 159 fotografias) são “para ver e sentir”, porque Adriana Lestido “é uma fotógrafa que se mete dentro das histórias, não se limita a observá-las”.


Madres e hijas
© Adriana Lestido


Adriana Lestido, Amores Difíciles
Casa de América, Marqués del Duero, 2, Madrid
Até 29 de Agosto

PHE - 5 paragens. #1

Victoria Beckham
© Juergen Teller


Depois de Juergen Teller a fotografia de moda nunca mais será a mesma

A primeira fotografia visível na exposição Calves and Thighs de Juergen Teller (Alemanha, 1964) não estava programada à partida. Só apareceu porque Katy Baggott, amiga e agente do autor, morreu recentemente durante a preparação da mostra em Madrid. A imagem, que aparece por cima de uma dedicatória de Teller, mostra Baggott com Nobuyoshi Araki, a estrela planetária da fotografia japonesa, num braço de ferro renhido. Embora tenha sido escolhida com o propósito de homenagear alguém, a representação de um personagem do círculo mais íntimo do fotógrafo alemão em confronto (amigável) com um famoso ilustra bem as dicotomias e os conflitos temáticos que atravessam as séries agora seleccionadas pelo comissário inglês Paul Wombell a partir de uma exposição já apresentada em Nuremberga. A sensação de navegação à vista não se relaciona apenas com a aproximação formal da maioria das imagens de Teller (desfocadas, sobreexpostas, tortas… enfim, “retorcidas”, como alguém as classificou) - estende-se aos sujeitos fotografadas que podem ir de auto-retratos intimistas a tomar banho com o filho a objectos vernaculares (muitas vezes abjectos) ou ainda às pernas de Vitoria Beckham enfiada dentro de um saco de compras da marca de roupa Mark Jacobs.

Fotógrafo de moda durante muitos anos para publicações como Arena, The Face e I-D, Teller, juntamente com o conterrâneo Wolfgang Tillmans, é reconhecido como alguém que contribui para quebrar os limites e deu início a mais uma discussão acerca do verdadeiro lugar do género na criação conceptual contemporânea. Enfastiado com a repetição dos cânones, o fotógrafo alemão começou a colocar lado a lado imagens vindas de um universo pessoal e encomendas mais voltadas para a divulgação e publicidade das criações de estilistas ou marcas de roupa. No meio de todo este caldeirão imagético, cujo resultado se aproxima de um exercício de psicanálise público, prevalece um fio condutor mínimo ao nível do tema – o retrato. E também ao nível da forma – o flash e a luz artificial.

O catálogo da exposição, que o comissário classifica como “extensão” da mostra, abre com 102 perguntas dirigidas por vários amigos (muitos famosos, como não podia deixar de ser) a Juergen Teller. As tentativas de resposta não são dadas com texto – são dadas com imagens.

Juergen Teller, Calves and Thighs
Comunidad de Madrid/Sala Alcalá 31
Até 22 de Agosto

27 junho, 2010

László Moholy-Nagy

Ellen Frank, 1929

László Moholy-Nagy - Regresso ao artista total

Sérgio B. Gomes
(Ípsilon, Público, 18.06.2010)

Se havia em Madrid um lugar perfeito para expor a obra eclética de László Moholy-Nagy (Bácsborsod, Hungria, 1895 – Chicago, EUA, 1946), esse lugar era o Círculo de Bellas Artes (CBA), a casa que ostenta a estátua altaneira de Minerva, a deusa da guerra, da sabedoria e das artes. Uma casa multidisciplinar por excelência, para onde confluem todo o tipo de manifestações criativas, sem filhos pródigos ou parentes pobres. É o mesmo tipo de atitude transversal que norteou todo o percurso de Moholy-Nagy como teórico, pedagogo, académico e criador em vários suportes que vão do cinema à pintura, do desenho gráfico à fotografia, da cenografia à escultura. Um labor intenso, sem hierarquias estéticas, que, durante os anos 20, 30 e 40, procurou a concretização do ideário moderno de artista total, em substituição do endeusamento do artista como génio.

A luz e as suas qualidades como matéria-prima criativa ocuparam a maior parte das obras e do raciocínio teórico de László Moholy-Nagy. Mas não menos importante é a intervenção crítica em relação ao seu tempo histórico, a centelha que fez com que se acendesse essa vontade de procurar nas nuances dos claros-escuros e nos jogos de reflexos dos espelhos uma reacção vanguardista aos cânones, uma alternativa que tenta “despertar o espectador, torná-lo activo”.

“O tempo expandido” é o tema escolhido por Sérgio Mah para fechar o seu último ano como comissário-geral do PHotoEspaña, no âmbito do qual foi inaugurada a exposição de Moholy-Nagy. Se considerarmos o conjunto da obra do mestre húngaro como uma procura incessante por uma “arte nova” capaz de “responder a um momento histórico presidido pela máquina e pela Revolução Industrial”, a mostra que Oliva María Rubio comissariou no CBA representa uma resposta ao tema expandida no tempo.





Ecletismo

O ecletismo com que todos os anos se apresenta o festival - modelo que, ao longo dos anos, se tem afirmado como uma imagem de marca do PHotoEspaña - tem os seus perigos e as suas vantagens. Se por um lado, a variedade das propostas expositivas pode dar contributos importantes para reflectir sobre o tema central, por outro pode estilhaçar demasiado essas referências que, por si mesmas, são difíceis de condensar numa exposição, quanto mais em dezenas delas. As três exposições da Secção Oficial mais direccionadas para os autores clássicos, onde se inclui a mostra A Arte da Luz de László Moholy-Nagy (que já tem itinerâncias agendadas para o Martin Gropius Bau de Berlim e para o Gemeentemuseum Den Haag de Haia), são um bom exemplo de como pode resultar bem esse ecletismo. De uma assentada, podem comparar-se, por exemplo, três utilizações/abordagens muito distintas do suporte fotográfico nos EUA dentro da década de 40 do século passado, se a Moholy-Nagy juntarmos mais duas exposições: Anatomia do Movimento, de Harold Edgerton (EUA, 1903-1990), sobre as experiências com aparelhos fotográficos ultra-rápidos, capazes de revelar os mais ínfimos segredos do movimento; e Lírica Urbana, de Helen Levitt (EUA, 1913-2009), sobre a vida nas ruas de Nova Iorque.

De tão vasta e diversificada que é, a obra do mestre húngaro agora apresentada no festival madrileno pode entrar facilmente em diálogo com outras propostas expositivas. Durante a apresentação da mostra, a comissária Olivia María Rubio, directora de exposições da La Fábrica, empresa que organiza o PHotoEspaña, confessou que entre todas as artes tocadas por Moholy-Nagy, apenas a escultura não está representada. De resto, entre outros grupos de obras, podem ver-se provas de época dos conhecidos fotogramas, imagens conseguidas com a acção directa da luz sobre uma superfície sensibilizada sem a intermediação da máquina que, para o autor, produzem “um efeito sublime, radiante, quase imaterial”, em contraponto com os raiogramas desenvolvidos por Man Ray na mesma época, tecnicamente semelhantes mas com a representação de objectos de contornos bem definidos, menos “poéticos” e à procura do efeito “surpreendente”. São simbólicas também as fotografias captadas de maneira tradicional (com máquina), onde os enquadramentos e as perspectivas revelam o interesse Moholy-Nagy pelas linhas de força e formas geométricas, características de vários autores modernistas que lhe sucederam (não é claro que tenha conhecido Alexander Rodchenko, fotógrafo russo com uma linguagem fotográfica semelhante). Num conjunto muito pouco conhecido, László Moholy-Nagy revela-se também como um dos pioneiros da fotografia a cores, aqui com registos de pendor intimista, sobretudo captados em família.

Falar da enorme importância de László Moholy-Nagy na história da fotografia será sempre um eufemismo. O contributo teórico e criativo que deu para a emancipação plena da produção fotográfica nas primeiras décadas do século XX é incontornável não só para uma prática até então desconsiderada, como para o conjunto de outras artes para onde levou a linguagem da fotografia, principalmente para o cinema e para a pintura. Consciente de que a “a arte é o que desperta os sentidos, que aguça a vista, a mente e as sensações”, Moholy-Nagy “trabalhará com afinco (…) num projecto pedagógico alargado que se concentra na formação desse homem total, suma de psicofísico, intelecto e afecto, um homem não dividido e uma arte que se funde com a vida”, escreve María Rubio no livro de ensaios em torno da proposta temática (novidade deste festival).

Sempre fiel à “estética da luz” e sem contrariar a sua concepção das artes como um todo, a fotografia foi um dos suportes a que László Moholy-Nagy mais voltou. Sobretudo porque “alimentava a ideia de criar uma arte nova à volta da fotografia e porque acreditava que as antigas artes já não podiam representar a vida moderna”. Em paralelo à prática artística e pedagógica (foi professor da Bauhaus em Weimar, 1923-1925, e em Dessau, 1925-1928, na Alemanha, da New Bauhaus e do Institute of Design, ambas em Chicago, nos EUA, até à sua morte, em 1946) desenvolveu uma ampla reflexão teórica em torno da fotografia, cujo principal ensaio é Pintura, Fotografia, Cinema (1925), onde elabora sobre “a luz como matriz da arte”.

Apesar de ter orientado toda a sua criação rumo a um tempo repleto de ideais e de futuro que a história se encarregou de desmentir, a arte de László Moholy-Nagy continua a deslumbrar e muitas das suas máximas revelaram-se certeiras ou estão agora a acontecer diante dos nossos olhos. Como aquela que diz: “Os analfabetos do futuro não serão apenas aqueles que ignorarem a linguagem escrita, mas também todos os que ignorarem o uso da máquina fotográfica”.



Ascona, Itália, 1930

22 junho, 2010

Vanessa Winship


© Vanessa Winship

A fotógrafa inglesa Vanessa Winship ganhou o prémio Descubrimientos do PHoto España 2010 com o trabalho Sweet Nothings, captado durante 2008. Depois deste reconhecimento, Winship terá direito a uma exposição individual na próxima edição do festival. Sweet Nothings reúne retratos de raparigas de zonas rurais da Turquia vestidas com uniformes escolares.
O júri do prémio era constituído por Francisco Carpio, crítico e comissário independente, Brett Rogers, directora da Photographer´s Gallery, de Londres e Markus Hartmann, director de publicações internacionais da editora Hatje Cantz.
Vanessa Winship (1960, Reino Unido) vive actualmente em Londres e, para além da Turquia, já trabalhou em vários países dos Balcãs e do Cáucaso. É representada pela agência Vu.
Já ganhou prémios no World Press Photo e foi nomeada fotógrafa do ano no Sony World Photography.
Os vencedores das edições anteriores do prémio foram: Alejandra Laviada, Yann Gross, Harri Palviranta, Stanislas Guigui, Vesselina Nikolaeva, Comenius Röthlisberger, Pedro Álvarez, Tanit Plana, Sophie Dubosc, Juan de la Cruz Megías, Paula Luttringer e Matías Costa. O Descubrimientos PHE, dirigido a fotógrafos profissionais, recebeu 1851 inscrições. Um grupo de 70 finalistas mostrou os seus portfólios a especialistas de diversas áreas da fotografia vindos de todo mundo. Georges Pacheco era o único fotógrafo português entre este grupo.

17 junho, 2010

OjodePez

O prazo para recepção de portfólios do OjodePez Photo Meeting Barcelona foi ampliado até 1 de Julho.
O visionamento dos trabalhos vai ser feito nos dias 15, 16 e 17 de Julho por Jamie Wellford, Christian Caujolle, Jessica Murray, Craig Cohen, Chris Boot, Silvia Omedes o Gigi Giannuzzi.
Durante estes dias, haverá conferências, projecções e oficinas de trabalho com Susan Meiselas, Alex Majoli, Michael Ackerman, Donald Weber e Bloomberg & Chanarin
Mais informações aqui

=ColecçãoàVista= 56

Ewald Rüffer, Régua, ca.1984
Fundo Ewald Rüffer © Centro Português de Fotografia

Férias em Portugal

Desconhece-se o que levou Ewald Rüffer a fazer tantas viagens a Portugal. Talvez parte da explicação resida no facto de ter sido membro da Associação Luso-Hanseática, orientada para a promoção das relações existentes entre a cidade de Hamburgo e Portugal. Desconhece-se o que mais o fascina no país; desconhecem-se o curriculum e o percurso do autor. Mas conhecemos o poder das imagens, a importância que elas têm, os sítios, os costumes, as gentes, o quotidiano, a cultura, a tradição, as belas paisagens… E revemo-nos em cada uma delas. É notável o facto de as típicas e comuns imagens de férias terem tanto para nos contar sobre nós próprios e sobre o nosso país. Entre 1955 e 1995 fez inúmeras viagens a Portugal e elaborou um registo fotográfico dos diversos locais por onde passou, de norte a sul, incluindo as ilhas.
(texto:CPF)

11 junho, 2010

PHE10 - notas #2

João Castilho, da série Redemunho
© João Castilho


# Na televisão, logo de manhãzinha, quatro jornalistas conversam com Felipe González, a eminência (pouco) parda da política espanhola, sobre a crise e a soluções para voltar a respirar acima da linha da água. Quando uma televisão começa o dia desta maneira é porque a coisa pode ser mesmo grave. Afinal é possível: um político pode falar na televisão durante mais de três minutos seguidos sem ser interrompido.

# Com tanta conversa até me perdi nas horas. Engoli o café e quando cheguei ao Instituto Cervantes para mais um inauguração PHE um polícia carrancudo quis saber o que levava na mochila. Logo a seguir, uma senhora simpática agarrou-me pelo braço e perguntou-me o nome e, sem mais, enfiou-me na conferência de imprensa Percepciones del consumidor español ante el robo de identidad. Nem reagi, não sei bem porquê, talvez por causa do polícia carrancudo. Antes de entrar na sala, os jornalistas tinham de passar por um painel em frente ao qual um rapaz disfarçado de polícia tirava instaxes (o suporte com que a FujiFilm tentou imitar a Polaroid). Puseram-me um cartaz à frente do peito e o flash disparou numa brincadeirinha de marketing cujo objectivo real desconheço. Duas raparigas levaram-me depois para a antiga caixa forte do edifício onde está instalado o Cervantes e eu então percebi que estava no casamento errado. Como uma vez um tio meu que seguiu o carro dos noivos de outra família. Saí de fininho já com uma nota de prensa na mãos que titula Los españoles afirmam estar muy preocupados por el robo de identidad pero son poco precavidos.

# Alejandro Castellote e Juan Antonio Molina fizeram um bom trabalho de comissariado dos Encubrimientos (os Descubrimientos voltados apenas para os fotógrafos da América do Sul). Ficaram-me especialmente os trabalhos de João Castilho (Brasil), Sebastián Friedman e Alejandro Lipszyc (ambos da Argentina).

# Saquei da instax para me rir mais um bocado. É anedótica. Mas pelo menos dá para ver que meço 1,75 cm.

# Ali a dois passos, Juergen Teller apresentava Calves & Thighs, fotografias esbranquiçadas ora intimistas, ora absurdas ou as duas coisas juntas. Quase todas à procura da provocação.

# Na Alcalá quase todos os dias há uma manifestação. Hoje eram os trabalhadores dos correios. As pandeiretas e os apitos davam o tom de samba com que os sindicatos querem fazer dançar as medidas de austeridade decretadas por Zapatero.

# Os vídeos de Roman Signer no Matadero casam na perfeição com o local. Rastilhos, explosões, fumo e fogo numa sala negra por onde também já andou a língua do diabo.

# Num par de dias já ouvi três pessoas a dizer que é preciso reciclar os actuais políticos, ou lá o que isso significa na realidade. É capaz de ter a ver com aquela coisa de esquerda e direita.

09 junho, 2010

PHE10 - notas #1

Helen Levitt, Nova Iorque, 1940


# Chove, está frio em Madrid. O cheiro da terra molhada no Jardim Botánico compensou a barulheira dentro das salas onde estão os trabalhos de Bleda y Rosa e de Jem Southam.

# A exposição de Óscar Muñoz no Circulo de Bellas Artes (CBA) mostra como pode ser efémera a imagem. E como a memória é uma faculdade que convém exercitar.

# Os do El Brillante puseram no meio da tasca um bocadillo de calamares do tamanho de gente. É só para que fique bem claro que é ali que se come o melhor bocadillo de calamares de Madrid. E era preciso? Não.

# Fernando Sánchez Castilllo quis registar pessoas a tocar nas estátuas equestres de Franco que se retiraram das ruas de muitas localidades e cidades espanholas. Deu-se mal. A maior parte das instituições que ainda guardam este tesourinho deprimente não lhe abriram as portas do refugo onde Franco está encarcerado.

# O mestre László Moholy-Nagy reina no CBA. A exposição revela na perfeição como era um artista total.

# Este ano, a fita não foi cortada pelo realeza do topo. Mas enviaram reforços.

# Os Amores Difíciles da argentina Adriana Lestido são uma das boas surpresas do festival. Mais de 30 anos de trabalho resumidos em pequenos conjuntos que mostram bem como podem ser intrincadas as relações humanas.

# No sempre magnífico e singular espaço do Canal Isabel II, Isabel Muñoz põe-nos à prova com imagens violentas que testemunham um cerimonial religioso do Curdistão.

# O mundo que Helen Levitt fotografou nas ruas de Nova Iorque (sobretudo na década de 40) desapareceu. Como desapareceu o tipo de prática fotográfica com que se divertia a registar o divertimento dos mais novos.

PHE10

Hiroshi Sugimoto, da série Tri City Drive-in, San Bernardino, 1993
Hiroshi Sugimoto/Cortesia Galeria Koyanagi


Tempo para pensar os tempos da fotografia
(P2
, Público, 9.05.2010)

No metro, dois homens discutem em amena cavaqueira e muitos gestos à mistura um dos actuais temas de Madrid – Mourinho, claro.

Um desconfia da capacidade do treinador português para levantar o Real das ruas da amargura. O outro vai lembrando os títulos, os sucessos e o carácter do antigo técnico adjunto de Bobby Robson no Barcelona. Madrid vive um tempo de expectativa e anseia pela mestria que José Mourinho já provou noutros emblemas. E o clube quer voltar rapidamente para as primeiras páginas dos jornais, com o treinador prometido a erguer a taça e os jogadores eufóricos, todos juntos em registos fotográficos de alcance global e de consumo rápido. Não podemos saber se o treinador português será campeão em Espanha, nem tão-pouco se levantará troféus ao serviço do Real.

Mas, se isso acontecer, aí talvez o artista norte-americano Paul Pfeiffer se interesse pelas fotografias de Mourinho vitorioso, em êxtase. Talvez o queira isolar de todo o ruído visual que o cercará para dele dar uma percepção de ser mítico, “o mito de herói solitário e desmesurado, fora do tempo e do espaço”, tal qual os heróis do basquetebol da NBA que aparecem sozinhos nas fotografias que Pfeiffer manipulou para a série Quatro Cavaleiros do Apocalipse, um dos trabalhos seleccionados pelo comissário-geral do festival PHotoEspaña 2010, Sérgio Mah, para a exposição colectiva Entre Tempos – Instantes, Intervalos e Durações que ontem foi inaugurada no Teatro Fernán Gómez, em Madrid.

Nas fotografias que Pfeiffer foi buscar aos arquivos on-line da NBA, o torneio norte-americano de basquetebol, algumas das maiores lendas da modalidade aparecem suspensas, num tempo e num espaço “limpo” digitalmente de todos os elementos que possam perturbar a contemplação absoluta dos momentos escolhidos, instantes que revelam esforço máximo, toda a energia do corpo e da expressão humanas. São fotografias para ver devagar. Que implicam algum grau de reflexão e uma certa predisposição.

Parar para ver imagens, parar para pensar sobre elas e sobre a maneira como se situam conceptualmente no actual panorama criativo. Sérgio Mah, que agora termina um ciclo de três anos à frente do PHotoEspaña (o nome do novo comissário ainda não é conhecido), definiu os três temas mal foi convidado para liderar o festival – Lugar, Quotidiano e Tempo. Mas quis guardar para a última edição o programa mais “reflexivo” e que envolvesse o espectador de uma forma mais intensa “para se tentar perceber o lugar da imagem fotográfica e a sua singularidade no panorama da arte contemporânea”, disse ao P2 o comissário português durante uma visita à exposição. “O que se pretende é a existência do espectador pensativo, diferente do espectador apressado, desinteressado e longínquo. Apesar da tendência para dar valor à rapidez e à velocidade como características que distinguem as sociedades pós-modernas, começa a ser desconcertante (e também necessário) assinalar indícios de inclinações artísticas que tendem para ritmos contrários, favorecendo uma relação mais desacelerada, experiencial e dialéctica com o tempo”, escreve o comissário no catálogo da exposição que reúne trabalhos de 17 artistas, entre os quais o do português Daniel Blaufuks.

Para Mah, a reflexão acerca do tema genérico Tempo “ajuda-nos a tomar plena consciência de que a linguagem fotográfica já saiu da fotografia há muito” para ser utilizada no vídeo, na escultura, na pintura e em todo o tipo de artes visuais. “A fotografia foi muito importante na reprodução do tempo racional e cronometrado, mas também foi muito importante na produção de um tempo predominante visual, fenomenológico, plástico, mental, metafórico e não linear.” Os trabalhos escolhidos para Entre Tempos estão mais relacionados com o último grupo de categorias da fotografia. E foi a partir daqui que surgiram os quatro grandes núcleos da mostra – os efeitos das interrupções, a reprodução de momentos efémeros, o jogo entre imagem fixa e imagem em movimento e a relação da imagem com a percepção da história.

A exposição abre com uma série recente de Jeff Wall que retoma o tema nuclear da sua obra – a realidade quotidiana e, através dela, a sugestão de que existe uma narratividade anterior e posterior às imagens captadas. Ao lado, o espanhol Ignasi Aballí mostra jogos de imagens retiradas de jornais e desprovidas de qualquer texto referencial num convite sedutor ao espectador para refazer algumas das grandes questões da história do nosso tempo.

A estimulação do imaginário continua com os trabalhos fotográficos de estética policial da inglesa Clare Strand, onde há muitos indícios, mas faltam as certezas. É a contaminação do real pelo ficcional. “As imagens ficcionais influenciam a maneira como vemos o real. Este trabalho cria um conjunto de histórias que nos instigam e nos interrogam”, explica Mah. Estes três nomes são alguns dos representantes dos “efeitos das interrupções” na fotografia.

No grupo de trabalhos voltados para o jogo imagem fixa versus imagem em movimento, o belga David Claerbout apresenta uma nova obra videográfica onde a câmara viaja por entre figuras suspensas, num jogo visual sincronizado com som. É uma criação voltada para “a adoração do instante”. Neste conjunto, incluem-se também obras de Tacita Dean, Ceal Floyer e Michael Snow, este último através de um vídeo apresentado na última edição da LisboaPhoto, em 2005.

A representar a relação da imagem com a percepção da história estão, entre outros, o trabalho que Daniel Blaufuks realizou em Terezin (República Checa), e o de Michael Wesely em Berlim. O primeiro revisitou a memória dos lugares e sugere uma experiência visual que está ao mesmo tempo ligada ao presente e ao passado. O segundo realizou um conjunto de imagens que mostram a reconstrução de Berlim. Cada imagem de Wesely tem dois anos de registo do mesmo local e em permanência. Funcionam como camadas da história e do espaço edificado que se construiu ou se destruiu. Mesmo ao lado, Hiroshi Sugimoto joga também com os tempos de exposição da fotografia, desta vez para nos dar um tempo mais curto – a luz por onde passaram horas de imagens cinematográficas.

Um dos artistas mais vistos ao longo do percurso (presente em vários núcleos temáticos) é Jochen Lempert, que no ano passado apresentou na Culturgest, em Lisboa, uma das exposições mais elogiadas do ano pela crítica internacional. Algumas dessas imagens, de minimalismo poético e de movimentos requintados, já foram vistas em Lisboa, mas há trabalhos novos incluídos. Como a série que fecha a exposição e que mostra várias imagens de fumo a sair do vulcão de Stromboli, na Itália. É um conjunto para apreciar com tempo. E para se perceber como ele pode ser imaterial e fluido. E para sairmos também com a noção de como ainda está em aberto a percepção que temos dele.



Michael Wesely, Potsdamer Platz, belim, 27.3.1997 - 13.12.1998
© Michael Wesely, Cortesia Colecção Thomas Kexel, Berlim

01 junho, 2010

entre aspas

Louis-Ferdinand Céline

Qualquer tradução de um grande livro é uma fotografia a preto e branco de um quadro.

António Lobo Antunes, sobre "Viagem ao Fim da Noite", de Louis-Ferdinand Céline,
in Ípsilon, Público

Sally Mann


Sally Mann, Vinland (1992) da série Immediate Family
© Sally Mann/Gagosian Gallery



A última edição da Guardian Weekend Magazine publica uma reportagem sobre a primeira exposição individual da americana Sally Mann no Reino Unido. A mostra, que será inaugurada a 18 de Junho na The Photographers' Gallery de Londres, percorre alguns do trabalhos mais marcantes das diferentes fases da carreira de Mann desde que começou a fotografar, nos anos 70.
O artigo do Guardian está aqui

German Faces

Collie Schorr, Game Keeper, 2004
© Collier Schorr, cortesia 303 Gallery, Nova Iorque


Sérgio B. Gomes
(Público Online, 31.05.2010)

German Faces, da artista americana Collier Schorr, é a exposição que marca o arranque do PhotoEspaña, o festival de fotografia e artes visuais da capital espanhola, que estendeu mais uma vez até ao Museu Colecção Berardo parte da sua programação. No último ano como comissário do festival, o português Sérgio Mah escolheu trazer a Lisboa o trabalho meticuloso que Schorr tem vindo a desenvolver ao longo das últimas duas décadas na cidade alemã de Schwäbisch Gmünd, um conjunto que junta fotografia, vídeo, desenho colagem e que aborda as marcas da história e da memória nos lugares e nos gestos do quotidiano. A mostra, organizada em jeito de retrospectiva, abre amanhã ao público.

Para Mah, que fecha o seu ciclo de três anos como comissário do PhotoEspaña com o tema genérico Tempo, Collier Schorr “é uma das mais importantes artistas da actualidade”. Faz parte de uma geração “que está a fazer um trabalho muito interessante na actualização do histórico”, utilizando “de uma forma muito particular os cânones artísticos para abordar grandes questões da história”.

E uma das grandes questões da história à qual Schorr se dedicou ao longo dos últimos anos foi a II Guerra Mundial e as ressonâncias que o conflito continua a provocar na sociedade alemã. Collier Schorr (n.1963, Nova Iorque) chegou Schwäbisch Gmünd com um olhar de turista, mas à medida que se foi integrando na comunidade local quis aprofundar e problematizar “o seu quotidiano, os seus traços culturais e as suas idiossincrasias psicossociais”.

Ao longo das cinco salas que acolhem a mostra no Museu Colecção Berardo, o espectador é confrontado com imagens em diferentes suportes e dimensões que sugerem pequenas narrativas, que mostram pequenos detalhes, que apelam aos pormenores, que iludem a certeza entre o que faz parte do universo ficcional e o que faz parte do universo real. Nas palavras de Mah, a intenção é “perceber até que ponto a representação dos lugares não nos proporciona apenas uma consciência do espaço visível”, tendo em conta que os lugares “são depósitos de memórias” que articulam o passado e o presente.

Convocar o passado
Num percurso temático e formal pouco linear, Schorr (de ascendência judaica) convoca símbolos do passado nazi da Alemanha para questionar a forma como essa referência histórica ainda influencia a vida quotidiana e para perceber de que modo desperta expectativas, traumas e temores. Ao lado de retratos de rapazes fardados e com símbolos que nos ligam a um momento histórico preciso e dramático há imagens de momentos indefinidos no tempo e de objectos do quotidiano que dão referências abstractas e abrem campo à especulação e à dualidade de sentidos. Numa das imagens da série que mostra flores suspensas na paisagem por linhas, o bucolismo das diferentes cores e da claridade solarenga esconde o peso simbólico de fardas nazis e material de guerra que ali foi enterrado por um ex-militar. “Este é um lugar estigmatizado pela memória, guerra, nacionalismo, emigração e reconstrução social, ou seja, uma realidade marcada pelo seu tempo que a artista procura explorar de forma a fazer emergir os seus efeitos psíquicos e sociais”, explica Sérgio Mah no texto de apresentação da mostra.

Durante uma visita à exposição com um grupo de jornalistas na véspera da inauguração ao público, Collier explicou que não está interessada em fazer um trabalho que espelhe simplesmente “a luta do bem contra o mal”. “As minhas fotografias têm muito de comentário. O meu trabalho não é sobre tudo e mais alguma coisa. Quero que as pessoas entendam aquilo que quero dizer sobre um tema.” E para tentar concretizar essa tarefa, Collier veste a pele não só de fotógrafa, mas também de antropóloga social, psicanalista, arqueóloga e contadora de histórias.

A variedade de aproximações formais ao tema está bem espelhada na montagem final da exposição, que tanto inclui fotografias e desenhos realizados segundo as regras do documentalismo mais pragmático (os retratos fazem lembrar as séries tipológicas que August Sander realizou para a república de Weimar) como colagens resultantes de derivações ficcionais ou simples fotocópias de fotografias coladas na parede classificadas por Collier como “anotações”, como as que os escritores fazem ao lado dos textos.

Em vez de procurar a monumentalidade, os “vestígios da guerra” à larga escala, como o tema à primeira vista poderia sugerir, Collier orientou o seu discurso visual para universos ligados ao vernacular, ao bucólico, ao sexual e ao fetichista, problematizando a história, a memória colectiva e a identidade social a partir de uma escala micro, sem nunca sair dela.

A localidade de Schwäbisch Gmünd, bem como os rostos e os objectos que lhe dão forma, “compõem uma metáfora da Alemanha do pós-guerra, uma sociedade presa na sua própria história”, e que, por este trabalho, demonstra ter ainda alguns fantasmas no armário.

O restante programa do festival PhotoEspaña 2010 começa no dia 9 de Junho em Madrid e Cuenca, localidade que receberá a mostra Batalha de Sombras que reúne alguns dos autores mais representativos da produção fotográfica portuguesa dos anos 50. A maioria das exposições estará patente até ao dia 25 de Julho.

Haywagon, 2009
© Collier Schorr, cortesia 303 Gallery, Nova Iorque

30 maio, 2010

Giroux Daguerréotype


Peter Coeln, da WestLicht Photographica, com a Giroux Daguerréotype
© WestLicht Photographica

Uma das raras primeiras máquinas assinadas por um dos inventores da fotografia, o francês Louis J. M. Daguerre, foi vendida em leilão por um preço recorde de 732 mil euros. O aparelho Giroux Daguerréotype foi produzido em Paris em 1839 pelo cunhado de Daguerre, Alphonse Giroux. O comprador é um coleccionador internacional que não quis revelar a identidade.
Até agora, nunca tinha sido vendida em leilão uma máquina assinada por Daguerre. Os exemplares que chegaram até aos nossos dias, cerca de uma dezena, estão em museus. O aparelho foi colocado na leiloeira austríaca WestLicht, especializada em máquinas e fotografia antiga, que em 2007 já tinha vendido uma máquina semelhante produzida pelo fabricante Susse Frères por um valor recorde de 576 mil euros, mas sem a assinatura de um dos inventores da fotografia.
Segundo a WestLicht, o aparelho de 170 anos, construído em madeira de cedro e de nogueira, apresenta todos os componentes ópticos, o interior em veludo preto e a placa com a assinatura e identificação do fabricante em "extraordinárias" condições. A existência desta Giroux Daguerréotype nunca tinha sido documentada até este leilão.
A autenticidade do aparelho foi assegurada por Michael Auer, um perito em máquinas fotográficas antigas de renome internacional e autor de vários livros sobre o assunto. O lote incluía ainda um livro de instruções original de 24 páginas, também ele extremamente raro. O antigo dono recebeu a máquina nos anos 70 como presente do pai por ter passado no exame final do curso de óptica. Estava na mesma família há várias gerações, no Norte da Alemanha.

Os resultados do leilão podem ser consultados aqui

25 maio, 2010

entre aspas

Paolo Pellegrin, Gaza 2009
© Paolo Pellegrin/Magnum Photos

I'm more interested in a photography that is 'unfinished' - a photography that is suggestive and can trigger a conversation or dialogue. There are pictures that are closed, finished, to which there is no way in.

Paolo Pellegrin, in Magnum Photos Featured Photographer

distinguir II


O festival Emergent - Photography and Visual Arts International, de Lleida, Espanha, abriu inscrições para prémio Emergent - Fundació Sorigué 2010 dirigido a qualquer aluno europeu de uma escola de fotografia, belas-artes ou comunicação audiovisual.

Mais informações aqui

distinguir


© Público


A partir da próxima edição, os Encontros da Imagem de Braga vão passar a atribuir o prémio Emergentes DST, um galardão que pretende distinguir todos os anos "a melhor obra de fotografia a nível internacional". Os pormenores do prémio serão apresentados esta quinta-feira no Museu da Imagem, em Braga, às 11h00.

=ColecçãoàVista= 55

Ed van der Elsken (1925–1990), Paris, França, 1951
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Vida em imagens
Ed van der Elsken, fotógrafo e realizador, é o enfant terrible da fotografia holandesa.
O tema principal do seu trabalho era a sua própria vida. Durante 40 anos exprime pela imagem fotográfica e cinematográfica, os encontros com as pessoas que com ele se cruzam.
Nascido em Amesterdão em 1925, trabalha de 1950 a 1954 em Paris, onde vive com Ata Kando. Regressa a Amesterdão onde permanece até 1971.
Entre as muitas viagens que realiza devido ao seu trabalho faz, entre 1959 e 1960, uma longa viagem ao mundo. É acompanhado por Gerda van der Veen, sua segunda mulher, de quem tem dois filhos. Faz reportagens a cores para a revista mensal Avenue durante as várias jornadas.
A partir de 1971 vive perto de Edam deslocando-se com frequência ao Japão e a Amesterdão. Tem outro filho com a terceira mulher, Anneke Hilhorst.
O seu primeiro livro - Love on the left bank - foi publicado em 1956 e tornou-o imediatamente conhecido.
Morre em 1990, dois anos depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro.
(texto:CPF)

24 maio, 2010

Animais de estimação


Valter Vinagre, da série Animais de Estimação
© Valter Vinagre



Quanto mais exposições vejo em antigos espaços industriais semi-abandonados mais tenho a certeza que não há melhor lugar para mostrar fotografia. A Antigua Fábrica de Tabacos de Madrid é só mais um exemplo recente da reconversão de um colosso edificado em lenta podridão num local vivo, prenhe de ideias e manifestações criativas. Desde o início do mês uma exposição duplamente colectiva aborda questões relacionadas com o meio ambiente, no ano em que se celebra a biodiversidade. E.C0 2010 reúne imagens de vinte colectivos de fotógrafos da Europa e da América do Sul. A [kameraphoto] é a representante portuguesa. Antes da partida para Madrid, conversei com Valter Vinagre sobre o ensaio escolhido que aborda o fascínio pelos animais embalsamados:


Qual era o desafio de partida?
Era fotografar algum tema relacionado com biodiversidade em Portugal. Foram convidados colectivos de vários países da Europa e da América do Sul.

Esta actividade da taxidermia está em extinção? Foi fácil encontrar pessoas que se dedicassem a ela?
Não. A maioria já tem muita idade. Encontrei uma pessoa que ainda faz e tem 80 e tal anos. Está sempre a criticar o pessoal que se metia a fazer esse trabalho sem saber muito bem o que estava a fazer.

Como é que te lembraste desta “fauna” que ainda sobrevive em muitas casas portuguesas?
Nunca tenho bem a noção de quando é que a ideia para um trabalho mais alargado surge. Durante a realização deste projecto tentei recordar-me do momento em que o assunto se atravessou à minha frente e me fez pensar, mas não consegui isolá-lo. O tema da morte, dos “cães danados”, de uma certa noção de ruína tem-me acompanhado… Quis registar a teimosia humana, a necessidade que temos de tentar perpetuar memórias, neste caso memórias naturais em extinção.
Quando nos chegou este desafio e se começou a discutir, na [kameraphoto], o que é que se ia fazer, lembrei-me logo dos animais embalsamados que muitas vezes aparecem expostos nos cafés. E fui, também, à procura deles em espaços mais privados. Para o conjunto de 12 imagens que apresento acabei por seleccionar apenas uma captada em cafés. As restantes foram tiradas em espaços privados.

Não deixa de ser interessante reconhecer que o conjunto pode ser lido também como a antítese da biodiversidade, se entendermos o termo na sua noção mais restrita, ou seja, como o conjunto de todas as espécies e seres vivos nos seus ecossistemas
Agrada-me esse contra-pé com o tema proposto. Há também alguma ironia no título da série, animais de estimação, tendo em conta que estes animais eram selvagens e acabam por ser domesticados depois de mortos, tornaram-se queridos das pessoas e como tal foram embalsamados e não destruídos. Em alguns casos, eram animais domésticos cujos donos os quiseram perpetuar desta forma.

Outra coisa extraordinária é que esta actividade pode ajudar a limitar ainda mais a biodiversidade, tendo em conta a procura de animais exóticos e raros para embalsamar
Sim, é verdade. Mas há um dado curioso: esta actividade tornou-se cada vez mais rara por causa de uma lei que a enquadrava e que levantou o boato de que era proibido ter em casa animais embalsamados em perigo de extinção, o que fez com que muita gente deitasse fora esses animais e que a actividade acabasse também por sofrer… Ironicamente, isto significa que alguns animais embalsamados podem ser duplamente raros. Há poucos embalsamamentos bem executados. E a maior parte dos que existem estão nos museus.

Há também uma mensagem que é: atenção porque qualquer dia para ver uma determinada espécie só desta maneira.
Sim. Há um lado do trabalho que pode funcionar como alerta.

E a abordagem? Todo este universo à volta da taxidermia é um pouco kitsch
Muito. Para além de mostrar os animais, quis dar um pouco do universo que os rodeia. Interessa-me muito a memória dos lugares, os ambientes em que as coisas aparecem e se constroem.

O conjunto dá um ambiente assustador, a fazer lembrar filmes de classe Z. Apesar de “domesticados” estes animais têm um ar tenebroso, agressivo. O flash sublinha esse aspecto e parece que os apanhaste em flagrante no seu meio natural
É uma maneira de sublinhar ainda mais a ilusão de vida que se pretende criar com o embalsamamento. Por outro lado, ao dar parte do cenário onde estão arrumados, remeto para o seu lado doméstico e… definitivamente domesticado. São usados como bibelots.

E por que é que o colectivo decidiu apresentar o trabalho de uma pessoa?
Achamos que era a maneira de apresentar um trabalho mais homogéneo, em vez de estar a juntar uma ou duas imagens de várias pessoas para um total que não ultrapassará as 15 fotografias. Com o devido respeito, quisemos fugir um pouco ao estilo national geographic. Até porque nenhum de nós trabalha a natureza de uma forma recorrente a partir de um ponto de vista tão estreito e académico.

E conheciam as abordagens dos outros colectivos?
Antes de começar a trabalhar nestas imagens, não.

Queres continuar a fotografar este universo?
Sim, interessa-me muito. Para já, quero continuar a fotografar na região da Beira-Baixa. E depois ir pelo país.

O tema é biodiversidade, mas este trabalho é mais sobre a morte do que sobre a vida

É mais sobre a morte, nitidamente. Não quis ir pelo lado do troféu de caça, mas mais pelo apego que as pessoas demonstraram ter por estes objectos que antes de serem bibelots foram animais vivos.



Valter Vinagre, da série Animais de Estimação

© Valter Vinagre

21 maio, 2010

MadridFoto


© Nuno Cera
Cortesia galeria Pedro Cera
A fotografia portuguesa vende bem
Sérgio B. Gomes (P2, Público, 21.05.2010)

Voltar. A fotografia portuguesa saiu-se bem na MadridFoto e por isso as quatro galerias lisboetas que se instalaram na capital espanhola entre 12 e 16 de Maio querem regressar à única feira internacional de fotografia da Península Ibérica, que teve este ano a sua segunda edição. A grande maioria dos autores nacionais representados conseguiu vender trabalhos.

Apesar de uma semana cheia de vicissitudes e acontecimentos extraordinários que afastaram visitantes e compradores (desde o anúncio de medidas de austeridade em Portugal e Espanha à Gran Via engalanada - e alcatifada de azul - para comemorar 100 anos e celebrar Santo Isidro), o balanço global dos galeristas portugueses é positivo. Para a Galeria Filomena Soares, em particular, o arranque da feira não podia ter sido melhor: logo no primeiro dia uma obra da dupla Dias & Riedweg (Cada coisa seu lugar. Outro lugar, outra coisa, 2009) foi reconhecida com o prémio Comunidad de Madrid, o que significa que foi comprada para a colecção desta instituição. Para Manuel Santos, um dos directores da galeria, é em tempo de crise que "vale a pena apostar" em arte. Até ao último dia da feira tinha vendido obras dos portugueses Vasco Araújo, Helena Almeida e João Penalva. Entre os artistas estrangeiros, foram negociados trabalhos de Günther Förg, Shirin Neshat e Allan Sekula.

A Galeria Pedro Cera, que se estreia numa feira exclusivamente dedicada à fotografia, vendeu imagens dos três autores que levou até à capital espanhola. Pedro Cera dá conta de um momento de algum constrangimento, mas desdramatiza: "Foi muito produtivo ter vindo. Há muitos coleccionadores cautelosos e que sabem que o cenário é difícil, mas não é dramático." As fotografias vendidas tinham valores entre os 7500 euros (Pedro Barateiro) e os 3750 (André Cepeda).

Na Carlos Carvalho, a única galeria portuguesa repetente da feira, as fotografias de Isabel Brison (Lisboa, 1980) foram das que mais interesse suscitaram. As duas fotografias que ainda estavam na parede (da série Maravilhas de Portugal, trabalhos entre a desordem paisagística e a poluição visual) venderam quatro cópias a 1200 euros, mas o galerista afirma ter vendido outros trabalhos da artista ("Quantas tivéssemos, quantas vendíamos"). Apesar do sucesso das imagens de Brison, o retorno dos custos da deslocação até Madrid não ficou garantido. "Acho que não vamos conseguir pagar a feira, mas como temos um bom grupo de artistas que utiliza a fotografia era muito importante estarmos cá." Uma das vendas mais simbólicas foi a de uma imagem de Daniel Blaufuks para a Fundació Foto Colectania de Barcelona, a primeira do artista português numa das mais importantes colecções de fotografia de Espanha.

A Módulo, de Mário Teixeira da Silva, um dos primeiros galeristas a expor fotografia em Portugal, decidiu apostar num espaço totalmente preenchido com fotógrafos portugueses: Rodrigo Amado, Brígida Mendes, António Júlio Duarte, Virgílio Ferreira e Ana Telhado. No último dia da feira confirmaram-se as vendas de imagens de António Júlio Duarte, Rodrigo Amado e Brígida Mendes. O galerista mostrou-se satisfeito por ter regressado "ao circuito das feiras pequenas" e sem "poluição visual". "O formato desta feira agrada-me. Há muita qualidade na maioria das galerias e julgo que tem pernas para andar", disse ao P2.

Fora das galerias portuguesas, a londrina White Space Gallery (uma das mais concorridas da MadridFoto) vendeu a única imagem exposta de José Pedro Cortes (1300 euros). Já a Galería La Caja Negra (Madrid) que representa Edgar Martins não conseguiu negociar nenhuma das fotografias da nova série do artista, The Reluctant Monoliths, que isola paisagens e objectos urbanos sobre fundo negro.

As imensas bancadas vazias que rodearam o espaço da feira no Palácio dos Desportos (no centro de Madrid) acabaram por resultar numa metáfora perfeita em relação ao número de visitantes que ao longo dos dias pareceu sempre demasiado escasso. Em conversa com o P2, Giulietta Speranza, a directora artística da feira, mostrou-se "muito satisfeita" com a qualidade dos trabalhos e com o facto de, este ano e a seu pedido, boa parte das 58 galerias participantes terem apostado também em autores clássicos e provas vintage (de época).

A feira do ano que vem já começou a ser pensada. É provável que a próxima MadridFoto volte a andar com a casa às costas.

18 maio, 2010

=ColecçãoàVista=54

Berenice Abbott (1898-1991), 7th Ave. between 12th and 13th Street, New York City, 1936
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia



New york, New York

Abbott consagra a paixão pela fotografia em 1923, altura em que Man Ray procura alguém que nada saiba sobre fotografia e acaba por contratá-la como assistente de câmara escura. Impressionado com o seu trabalho, apresenta-a a Eugène Atget. A fotógrafa desenvolve grande admiração por Atget e consegue, pouco antes da sua morte, persuadi-lo a sentar-se para um retrato [1927]. É numa visita a Nova Iorque, quando procura ostensivamente uma editora para resgatar o esquecimento da obra de Atget, que Abbott vê na cidade o potencial fotográfico. Decide ficar para fotografar o urbanismo com a diligência e atenção ao detalhe que tanto admirou em Atget. O seu trabalho é hoje um testemunho histórico dos edifícios destruídos e bairros de Manhattan..
(texto:CPF)

08 maio, 2010

Mudanças

José Manuel Ballester
© José Manuel Ballester

Pausa para mudanças. Até já.

02 maio, 2010

J. Laurent

Palácio de Monserrate, Sintra (Colecção Alexandre Ramires)


O pioneiro francês que fotografava ao ritmo do comboio

Sérgio C. Andrade
P2, Público (1.05.2010)

A convicção de Ângela Castelo-Branco, a comissária portuguesa da exposição J. Laurent e Portugal - Fotografia do Século XIX, na Torre do Tombo, em Lisboa (até 31 de Maio), é que este pioneiro francês da fotografia (1816-1886), mas que desenvolveu o mais importante da sua actividade a partir de Madrid, onde montou o seu estúdio e se tornou numa espécie de fotógrafo oficial da casa real, visitou e fotografou Portugal em 1869, tendo mesmo ficado por cá até ao início do ano seguinte.

Ainda que não tenham sido até agora descobertos testemunhos que permitam fixar com certeza histórica a data da viagem, a comissária e investigadora da história da fotografia socorre-se de elementos como o calendário do desenvolvimento da rede ferroviária no nosso país para avançar o ano de 1869. "O fotógrafo deslocava-se de comboio devido à quantidade de material necessário para a obtenção dos negativos em vidro de colódio húmido que tinham de ser sensibilizados e revelados no local onde se fotografava", escreve Ângela Castelo-Branco no texto de apresentação da exposição - que, no ano passado, foi apresentada no Centro Português de Fotografia/Cadeia da Relação, no Porto, e que deverá poder vir ainda a contar com um catálogo que documente a importância de Laurent para a história da fotografia.

J. (que pode ser lido Jean ou Juan) Laurent "foi o primeiro fotógrafo a fazer o levantamento paisagístico e patrimonial da Península Ibérica", diz ao P2 a comissária da exposição, relevando "a grande visão comercial" que presidiu a este projecto de "inventário". Publicou em 1872 e 79, no seu Catálogo de los retratos que se vendem en casa de J. Laurent, a série de fotografias que realizara em Portugal. Nelas destacam-se paisagens, retratos (género a que Laurent se dedicou no início da carreira, e que está também ainda pouco documentado) e registos de vários monumentos, mas há também pintura e escultura fotografadas em instituições como as academias reais das Ciências e de Belas-Artes, em Lisboa.

Mas são principalmente os monumentos mais conhecidos do património português que foram documentados pela objectiva de Laurent, e que na Torre do Tombo podemos agora revisitar, recuando à segunda metade do século XIX: o Palácio de Monserrate, em Sintra, os Jerónimos, em Lisboa, os mosteiros da Batalha e de Alcobaça, a igrejas de Santa Cruz, em Coimbra, dos Clérigos, no Porto, ou do Bom Jesus, em Braga...

Para além de Castelo-Branco, a exposição J. Laurent e Portugal (integralmente constituída por imagens originais, e que inclui também algumas "vistas" de Espanha) é igualmente comissariada por Alexandre Ramires e pelo espanhol Carlos Teixidor, curador dos espólios fotográficos de J. Laurent, que estão depositados no Instituto do Património Cultural de Espanha e no arquivo Ruiz Vernacci, em Madrid.


Elche, Alicante, Espanha (Colecção Nuno Borges de Araújo)

 
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