31 março, 2010

Pente 10 outra vez na Paris Photo

Paulo Nozolino, Obs. 2, 2009
©
Paulo Nozolino/Cortesia Galeria Pente 10


A galeria de fotografia Pente 10 vai participar pelo segundo ano consecutivo na Paris Photo, a maior feira de fotografia do mundo. No espaço da galeria serão expostos trabalhos de Rita Barros, Fernando Lemos e Alexandr Glyadyelov. De Paulo Nozolino haverá trabalhos inéditos, captados em 2009, entre os quais o díptico que o Arte Photographica revela em primeira mão.

Público-20 anos de fotojornalismo (XIV)

© Rui Gaudêncio/Público

Um coração ou uma avelã? O fotógrafo de bata, mas sem bisturi
Rui Gaudêncio, 2003


Com a fotografia (e com os fotógrafos) entramos visualmente em muitos locais onde o comum dos mortais nunca vai poder entrar. A fotografia dá-nos essa ilusão da vivência dos lugares e da comunhão com os acontecimentos de uma forma particular e íntima. Rui Gaudêncio foi autorizado a fotografar uma operação ao coração de um bebé de três meses no Hospital da Cruz Vermelha. Recebeu instruções precisas para que não se mexesse a fim de não atrapalhar o desenrolar da cirurgia. Ficou no mesmo sítio durante horas e enfrentou um grande desafio técnico - a baixa intensidade da luz. Foi graças à luz (ou à falta dela) que captou esta imagem que tanto vive na penumbra como na luminosidade. Nestas operações não há listas de espera - são todas urgentes. “O que mais me impressionou foi a escala de tudo o que está envolvido neste tipo de operação a começar pelo bebé, com dois palmos, e pelo coração, do tamanho de uma avelã”.

Aperture #198


Anders Petersen, Paris, 2006
© Anders Petersen

Foi lançada a edição de Primavera da revista da Fundação Aperture. Entre outros artigos e portfólios, destaque para o frente-a-frente entre Elliott Erwitt e Marc Riboud, a análise dos primeiros trabalhos de Anders Peterson e o seu método de fotografar pessoas e a reportagem de Paolo Pellegrin e Scott Anderson sobre a diáspora iraquiana.

=ColecçãoàVista= 52


Francis Frith (1822 – 1898), The Penha Convent, Sintra, Portugal, s/d
Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior © Centro Português de Fotografia


Sintra

Francis Frith, fotógrafo e editor, foi comerciante de especiarias entre 1844 e 1855, actividade que abandona à medida que desenvolve o seu interesse pela fotografia, surgido na década de 40. Monta um estúdio em Liverpool em 1850 e, cinco anos mais tarde, começa a viajar e a dedica-se em exclusivo à fotografia. Começa por viajar até ao Egipto, em 1856, e percorre vastas áreas do Médio Oriente e da Ásia onde faz séries de grande formato de paisagens e monumentos. Utilizava o processo de colódio húmido, que obrigava a uma perícia extrema por parte do fotógrafo, com impressões em albumina. Em 1859 cria a editora F. Frith & Company em Reigate. Publica imagens estereoscópicas e álbuns de vários locais do mundo. Esta firma manteve-se em actividade até 1970. A sua passagem por Portugal deverá ter sido ocasional, em escala para outros destinos.
(texto:CPF)

26 março, 2010

Jim Marshall 1936 - 2010


Chuck Berry no Madison Square Garden, Nova Iorque, 1969


Morreu Jim Marshall, um dos primeiros fotógrafos a dar imagem ao universo rock 'n' roll. Autor de muitas fotografias icónicas, foi ele que imortalizou, por exemplo, o momento em que Jimi Hendrix pega fogo à sua guitarra no Monterey International Pop Festival, em 1967. Marshall morreu durante o sono na madrugada de quarta-feira em Nova Iorque, onde promovia o seu último livro, Match Prints, feito em parceria com Timothy White.
Mário Lopes escreveu sobre Jim Marshall aqui




Jimi Hendrix no Monterey International Pop Festival, em 1967

Público-20 anos de fotojornalismo (XIII)

© Adriano Miranda/Público

“Queres um desenho?”, a fotografia logo depois de acordar
Adriano Miranda, 2002


“Eu nem acreditei quando me disseram que ia fotografar o monstro do surrealismo português”. Encontro marcado – três horas. O artista dormia, num quarto surreal, claro. E para a entrevista preferiu não abandonar o leito, os seus metros quadrados mais íntimos. Logo aos primeiros disparos Adriano Miranda sentiu uma entrega total à objectiva, uma predisposição para se revelar, entre cigarros atrás de cigarros. Conquistou-se uma empatia e Cesariny lança: “Queres um desenho?”. “Talvez não, ofereço-te para a próxima quando nos voltarmos a encontrar…”. Adriano Miranda nunca mais encontrou Mário Cesariny. Perdeu o desenho do mestre, mas ganhou aquela que é, na sua opinião, a mais feliz e conseguida sessão de retrato que alguma vez realizou. Por esta fotografia sentimos que Cesariny nos topa bem. Mesmo de olhos fechados.

vamos ao circo

© Valter Vinagre


Valter Vinagre acaba de inaugurar no Bartô do Chapitô - Colectividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, em Lisboa, a exposição Paixão que retrata os dias de trabalho na Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro.
Valter resume o encontro com este espaço carioca assim:

Um muro, um portão, a campainha...
- Bom dia!
Três passos e espanto! Estou dentro de um circo. Sim! Num circo, numa daquelas tendas que alegrava a minha infância em domingos especiais: luz, fantasia, animais selvagens, palhaços, malabaristas, trapezistas, ilusionistas, contorcionistas, rebuçados, etc.
Aqui, nesta tenda, não há animais selvagens domesticados ou para domesticar. Aqui, ensina-se toda a arte que tantos domingos especiais trouxeram à minha infância. Este lugar é a Escola Nacional de Circo no Rio de Janeiro onde fotografei durante uma semana, corria o ano de 2002.
Paixão.


Valter Vinagre
Lisboa, 22 de Fevereiro de 2010

22 março, 2010

/uma fotografia, um nome\


Rasto de asteróide
NASA, ESA, e D. Jewitt (Universidade da Califórnia, Los Angeles), fotografia nº STScI-2010-07



Luís Tobias, in Espelho do Começo dos Nossos dias, 2001
© Luís Tobias


Há um paradigma do valor do visual que o Ocidente fez migrar para toda a ciência do Mundo; radica na crença ocidental da centralidade da visão, - na identificação do conhecimento com a visão.

Nesta perspectiva estas duas imagens ancoram o mesmo sentir, mostram-nos qualquer coisa que somos levados a compreender através do fardo incomensurável da nossa experiência e aprendizagem.

A primeira imagem é vista como documental, somos levadas a dar-lhe crédito de inteligibilidade sobre a realidade; a de Luís Tobias é uma imagem produzida a partir de cristais de cloreto de sódio fotografados e tratados em computador. A sensação de acumulação, de condensação de astros em galáxia de constelações ou, já que o título é uma sugestão, de micro-organismos organizando-se no espaço, é uma simulação, um jogo com a nossa aprendizagem. Se a primeira é documento, a segunda pretende-se arte.

A fotografia é o objecto ideal para salientar a sua própria ambiguidade, oscilando entre o artístico e o científico.

A teoria fotográfica encontra facilmente argumentos para as distinguir , mas também para as identificar. Sabemos que a imagem fotográfica de um asteróide, parecendo transportar na cauda uma galáxia luminosa, destacando-.se no azul de um céu que é negro, pois não é o nosso é também uma simulação; uma simulação técnica, artificialmente colorida e iluminada, escolhida porque enquadrada na janela a que o nosso olhar fotográfico e pictórico nos habituou; sabemos que é a distância entre o objecto e a objectiva que cria o manto de estrelas que parece acompanhar o asteróide. Sabemos, enfim, que esta imagem obedece a um programa tecnológico da câmara incorporada no dispositivo de captação. Na fotografia de Luís Tobias também há um programa e um projecto; é um projecto pessoal, que utiliza as virtualidades da câmara e do computador para a sua produção. É apenas nos interstícios das definições que as distinguimos e analisamos.

Mas há mais qualquer coisa. Quando vi a imagem do asteróide que impressionou a sensibilidade do Sérgio, lembrei-me da série do Luís Tobias e comparei-as.

Ambas as imagens são incómodas. Nega-nos o limite, enche-nos do horror do progresso do incomensurável, do imprevisível. E aí é com os gestos da existência que as olhamos, essa existência que, por ser nossa não sentimos, apenas rodeamos de chavões da nossa cultura e aprendizagem. Mas há coisas que vemos com um olhar de longe, como um rosto, um gesto, um movimento fugidio: um ar, quando o silêncio se instala e a palavra se cala. Só temos como utensílios de entendimento a nossa memória e essa é feita de fragmentos, de traços, de fisionomias vagas e improváveis. Quando não comparamos, não dividimos, não seleccionamos, não repetimos, quando não usamos a aprendizagem que nos dá o “eu”com que vivemos e julgamos ser, a existência toma lugar e, com ela, a imprecisão, o medo, a dúvida, a síncrise, num movimento radical para procurar as origens. Por isso o silêncio é a origem que regressa à origem. E é com esses gestos da existência que tentamos depois traduzir em origem do mundo ou origem do homem, que se recebe, num primeiro olhar, cada uma destas imagens fotográficas. A existência, esse retorno à tensão das origens, impõe-se quando a realidade nos perturba, é, naturalmente opaca e implica arremetidas imprevistas. A linguagem, a palavra, é transparente e linearmente coerente. Nos labirintos repetitivos da razão o olhar torna-se inquisidor, analítico na predação do saber acumulado; no incómodo que é o confronto com uma realidade temida, a imprevisibilidade permanece. A estranheza do mundo é a nossa memória imperfeita.

Maria do Carmo Serén

=ColecçãoàVista= 51


Ruben Garcia (1903-1993), Mrs. Mole, s/d.
Fundo Ruben Garcia © Centro Português de Fotografia


Ruben Garcia


Nascido em Sintra em 1903, foi fotógrafo amador desde os vinte anos e engenheiro electrotécnico com formação em construção naval efectuada em Génova. Enquanto fotógrafo, trabalhou com recurso a uma Leica e uma Nikon. Produziu ainda cinema e revelou um profundo interesse pelas correntes artísticas que estetizavam o progresso técnico (abstraccionismo, futurismo, surrealismo e modernismo da Bauhaus). Marcado pela pesquisa de um novo enquadramento, orientado para o novo olhar fotográfico e a descoberta do objecto fotográfico, apresenta ensaios pessoais. Fá-lo com um olhar academista do salonismo nacional oferecendo, em simultâneo, a dominância da verticalidade e da obliquidade sobre a horizontalidade tradicional. É curioso observar como Ruben Garcia fotografa “Mrs. Mole” fazendo-nos evocar Bill Brandt.
(texto:CPF)

Público-20 anos de fotojornalismo (XII)

Alexandre Quintanilha, Porto
© Nelson garrido/Público

“O retrato pela ausência”, a luz do retroprojector e o factor improvisação
Nelson Garrido, 2001


As fotografias não têm som. Mas podem sugeri-lo. Neste retrato de Nelson Garrido, somos levados para o universo sonoro do giz que risca no quadro de ardósia. Os desenhos das equações vieram da mão de Alexandre Quintanilha. A sessão de imagens com professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, foi curta, não terá durado mais de 20 minutos. Serviu para acompanhar uma das entrevistas de fundo da Pública, Conversas com Vista Para…, de Maria João Seixas. Para projectar a silhueta de Quintanilha no quadro, Nelson Garrido improvisou. Usou a luz de retroprojector da sala de aula. “É um retrato que marca pela ausência da figura real e do rosto. Agrada-me este jogo que não mostra tudo, o jogo da suposição.” O fotojornalista destaca a importância de registar as pessoas no seu ambiente natural. Mas como em quase tudo na fotografia, a regra no retrato é coisa que não existe.

18 março, 2010

começar bem

Sede da Estação Imagem em Mora
© Luís Vasconcelos

É um começo auspicioso para o prémio de fotojornalismo promovido pela Estação Imagem: depois de fechadas as inscrições, registou-se um recorde de candidaturas em comparação com concursos congéneres em Portugal. Foram 233 as candidaturas entregues. O Prémio Internacional de Fotojornalismo recebeu 190 inscrições e a bolsa de 5.000 euros (destinada a apoiar um projecto sobre o Alentejo) tem 30 candidatos.
O prémio Estação Imagem/Mora tem um valor pecuniário de 7.500 euros e contempla ainda outros sete galardões no valor de 2.500 euros cada, nas categorias Notícia, Vida Quotidiana, Ambiente, Acção no Desporto; Artes e Espectáculo e Série de Retratos. Este ano há uma categoria especial sobre o tema 2009 Ano de Eleições.
O júri é liderado pela vice-presidente do departamento de fotografia da agência Reuters e presidente do júri da edição 2010 do World Press Photo, Ayperi Karabuda. Os vencedores serão anunciados no dia 24 de Abril.

17 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (XI)

Adriano Miranda, Lisboa
© Adriano Miranda/Público


“Um beijo grande”, a fotografia no momento da despedida
Adriano Miranda, 2000


Uma entrevista a Yasser Arafat não é só uma entrevista. É o confronto com uma imagem icónica – um desafio para qualquer jornalista, talvez um desafio maior para qualquer fotojornalista. Adriano Miranda disparava à medida que a conversa entre o líder da Autoridade Palestiniana e Margarida Santos Lopes se desenrolava. Fotografou muito, porque um momento que inclui este nível de proximidade (alguma intimidade) é coisa que não acontece muitas vezes com líderes de importância global. No fim, Arafat despediu-se com “um beijo grande” na face de cada um dos repórteres. Antes de sair, Adriano Miranda não resistiu a um último olhar. E disparou no momento em que Arafat parece regressar ao seu mundo. A fotografia saiu na primeira página. Adriano gosta de lembrar esta imagem para contrariar a tese dos que acham que não se devem fotografar pessoas de costas. “Podem fotografar-se pessoas de toda a maneira e feitio. Até Arafat.”

Ristelhueber

Sophie Ristelhueber, Eleven Blowups #5, 2006
© Sophie Ristelhueber/adagp

Sophie Ristelhueber (1949, França) é a vencedora do 2010 Deutsche Börse Photography Prize. A artista tinha sido nomeada para a fase final do galardão por uma retrospectiva do seu trabalho apresentada em 2009 no centro Jeu de Paume, em Paris. O trabalho de Ristelhueber aborda essencialmente "o impacto dos conflitos humanos na arquitectura e na paisagem".

Entrevista a Sophie Ristelhueber no Le Monde aqui e galeria de imagens aqui

silêncios

© Eduardo Gageiro


Eduardo Gageiro inaugura a 20 de Março a exposição Silêncios no Centro Cultural de Ílhavo. O mostra pode ser vista até 6 de Junho.

debater

Anna Fox, Cockroach Diaries & Other Stories
© Anna Fox


O vencedor do Deutsche Börse Photography Prize será conhecido hoje. A Photographers` Gallery, onde está patente a exposição com os finalistas, mantém um fórum onde se discutem temas relacionados com o prémio. Um dos tópicos de discussão é What does an annual prize do for photography? Aqui

31


Ann Woo, Cave, 2007, da série Portraits, Landscapes, Still Lives
© Ann Woo

A Humble Arts Foundation inaugurou na galeria Affirmation Arts, em Nova Iorque, a segunda edição da 31 Women in Art Photography, que reúne o trabalho de 31 novas artistas que escolheram a fotografia como principal suporte criativo. A exposição, comissariada por Charlotte Cotton e Jon Feinstein, revela um grande ecletismo ao nível temático. Foi escolhida apenas uma imagem de cada criadora. Aqui

16 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (X)

Miguel Madeira, Timor-Leste
© Miguel Madeira/Público



“A feitiçaria protectora”, João da Silva e o arco e a flecha proibidos
Miguel Madeira, 1999


Espreitar por cima do ombro pode até ser mal-educado (ou mal-interpretado), mas tem as suas vantagens. Dá-nos, por exemplo, uma perspectiva muito próxima do olhar dos outros, convida-nos a entrar nos seus limites visuais. Quando os fotógrafos decidem captar imagens por cima dos ombros dos outros, como nesta fotografia de Miguel Madeira, somos confrontados com um paradoxo visual atordoante onde não sabemos bem se somos o fotógrafo ou o espectador. No período pré-referendo em Timor-Leste em que se tentou algum concílio entre os grupos beligerantes, João da Silva, líder da juventude do bairro de Becora, queria ir à sede da ONU armado de arco e flecha. Disseram-lhe que isso não era possível e João procurou um feiticeiro local para lhe substituir a protecção armada por outro tipo de poder.

RFK

Paul Fusco, s/t, da série RFK Funeral Train Rediscovered
© Paul Fusco/Magnum Photos


Todas as fotografias carregam em si algo do sentido da viagem. As variantes são imensas, mas há fotografias (ou séries delas) que nos oferecem melhor o sentimento de embarque do que outras. E a ilusão técnica de movimento nem é o factor que mais determina essa nossa atracção por elas. Talvez seja a percepção de viagem infinita, o sentimento de continuidade que paradoxalmente nos é dado por um suporte descontínuo, limitado e finito.
É essa noção de viagem que nunca mais acaba que temos ao ver RFK, a série de fotografias que Paul Fusco captou para a revista Look no dia em que transportaram de comboio o corpo de Robert Kennedy (assassinado em Los Angeles a 5 de Junho de 1968) de Nova Iorque para Washington D. C. Ao longo das linhas, milhares de pessoas quiseram prestar homenagem a "Bobby", que lutava para ser candidato a Presidente dos EUA. No interior da composição, Fusco foi captando as mais variadas manifestações e os mais diversos cenários naquela que é uma das mais impressivas e extraordinárias séries de fotografia de reportagem alguma vez executada. E hoje parece que este comboio ainda não parou.
A exposição Paul Fusco: RFK Funeral Train Rediscovered pode ser vista actualmente no Norton Museum of Art, na Florida, EUA. Em 2008, por ocasião do 40º aniversário da morte de Robert Kennedy, a Aperture reeditou RFK, com 70 imagens inéditas retiradas da Look Magazine Collection depositada na Livraria do Congresso. A obra tem ensaios de Vicki Goldberg, Norman Mailer, Evan Thomas e Edward M. Kennedy.

Paul Fusco, s/t, da série RFK Funeral Train Rediscovered
© Paul Fusco/Magnum Photos

Sonseca



Não conhecia a obra de Manuel Sonseca. Fiquei com muita vontade de a conhecer depois de folhear digitalmente as páginas de Manuel Sonseca. En Blanco y negro que a editora La Fábrica acaba de lançar. Juan Manuel Bonet, no ensaio que abre o livro, compara o fotógrafo espanhol aos franceses Bernard Plossu e Patrick Modiano. A carga poética que conseguem transportar para as suas imagens é o elo que os une. O trabalho apresentado neste livro é o resultado de viagens por várias cidades como Buenos Aires, Roma, Lisboa e Madrid. Para além do ensaio de Bonet, é publicada uma entrevista de Alejandro Castellote a Sonseca, vencedor, em 2008, do Premio Internacional de Fotografía Pilar Citoler.
Para folhear o novo livro de Manuel Sonseca clique aqui

15 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (IX)

Daniel Rocha, Lisboa
© Daniel Rocha/Público

“Onde anda a fotografia à noite”, a cidade imaginada ou a guerra das estrelas
Daniel Rocha, 1998


Do alto, nem sempre vemos melhor, mas vemos quase sempre mais. Daniel Rocha quis subir à Torre Vasco da Gama para ter uma perspectiva mais ampla do recinto da Expo 98. O mais alto possível, sem qualquer vidro à frente para além do da lente da objectiva que lhe valeu este efeito galáctico, espacial, que dá vida própria à cidade imaginada para a Expo 98, como se fosse uma nave de motores ligados, prestes a descolar, rumo a… planetas imaginados. “Ao olhar para esta fotografia hoje, sinto falta de trabalhos que revelem as transformações visuais que se dão à noite. Há uma riqueza visual muito grande no universo nocturno que se tem perdido cada vez mais nos jornais”.

14 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VIII)


Luís Vasconcelos, Mali
© Luís Vasconcelos/Público

“Jornalistas em pista”, correr no Dakar a ver passar os aviões
Luís Vasconcelos, 1997


Muito antes dos “jornalistas incorporados (embedded)” da invasão do Iraque de 2003, já os jornalistas andavam “em pista”. Pelo menos no Rali Dakar, onde os repórteres podiam correr lado a lado com os melhores do mundo em todo-o-terreno, às suas custas, à sua inteira responsabilidade. Dentro do acontecimento, portanto. Luís Vasconcelos embarcou em várias dessas aventuras que guardavam para os menos equipados os piores momentos. “Éramos os mais desgraçados. Íamos dormir depois de toda a gente e acordávamos antes de toda a gente”. Acordar muito cedo. Até pode ter sido bom. Foi com a luz ténue da alvorada que ficou registada esta fotografia “meio louca”, “um pouco surreal”, com malianos a passar como quem vai comprar pão fresco e aviões de hélice pilotados por tripulações de leste habituadas a aterrar em qualquer caminho de cabras. Os Dakar são feitos de motas, carros e camiões, mas há quem diga, como diz Luís Vasconcelos, que um dos atractivos da prova são os aviões.

=ColecçãoàVista= 50


Bernd Becher, Hilla Becher, FrameWork House in Heisberg, Siegen, Alemanha, 1978
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Bernd e Hilla Becher
conheceram-se em Düsseldorf em 1957 e desde essa altura desenvolveram o seu trabalho em parceria. Para eles não é importante quem executa o trabalho final, tudo é definido previamente. Têm procedimentos bem definidos, fotografam sempre a preto-e-branco a perspectiva frontal, com muita profundidade de campo, céu nublado e luz opaca. Bernd começou por fotografar as tipologias da arquitectura da era pós industrial como ponto de partida para os seus desenhos. Com a intervenção de Hilla assiste-se a um aperfeiçoamento estético e de método. Viajaram pela Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e E.U.A. em busca de paisagens pós industriais. Este foi o projecto dos Becher, a constituição de um inventário, não só da Alemanha, mas do mundo.
(texto:CPF)

AIPAD Show

Jerome Liebling, Butterfly Boy, Nova Iorque, 1949
© Jerome Liebling

O AIPAD Photography Show junta em Nova Iorque, entre 18 e 21 Março, as mais importantes galerias e instituições ligadas à fotografia. É a 30ª edição deste encontro organizado pela Association of International Photography Art Dealers, o que o torna no mais antigo acontecimento mundial de fotografia.

13 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VII)

Daniel Rocha, Portalegre
© Daniel Rocha/Público

“Uma pedra às costas”, sair do buraco ou um político a andar de gatas
Daniel Rocha, 1996


Daniel Rocha bem que andou no escuro, no oco da pedra megalítica, a tentar fazer uma imagem que simbolizasse a visita do primeiro-ministro António Guterres a Portalegre. O trabalho não estava a correr como queria e decidiu sair para a luz para conseguir antecipar um momento que se previa caricato – o chefe do Governo a andar de gatas. “Saí, esperei pelo momento certo e tive a sorte de Guterres ter saído sozinho, aninhado, dando a sensação que carregava aquela pedra às costas”, lembra o fotojornalista. Apesar de ainda fresco no Governo (vitória nas Legislativas de 1995), esta fotografia confronta simbolicamente o primeiro-ministro com uma série de obstáculos e tudo se parece conjugar para lhe dificultar a vida – o peso da carga, o caminho tortuoso e árido e até um céu com nuvens a ameaçar chuva.

12 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VI)

Luís Ramos, Nova Iorque
© Luís Ramos/Público

“Uma cena fora”, estar atento ou vida das imagens para além do seu tempo
Luís Ramos, 1995


Ali por cima da entrada ainda está escrito. As portas estão abertas. Os seguranças armados e os detectores de objectos perigosos devem estar mais recuados - não se vislumbram. Aliás, não se passa quase nada. Só aquela baforada depois de um travo de cigarro a deixar em suspenso uma imagem que podia estar nos filmes antigos ou na galeria de figuras solitárias dos quadros de Edward Hopper. Uma imensa serenidade. Prolongada. Mas isto é Nova Iorque? É. Luís Ramos tinha outras reportagens previstas, mas acabou fixado nesta “cena fora”. Em várias “cenas fora” que lhe deram um portfólio de pessoas obrigadas a fumar na rua, coisa estranha em 1995 do lado de cá do Atlântico. A baforada continua suspensa, mas, hoje, esta imagem chega aos nossos olhos contaminada por um paradoxo - o confronto entre a mais incipiente rotina e a mais terrível carga simbólica que aquelas palavras carregam - está escrito World Trade Center.

11 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (V)


Luís Ramos, Lisboa
© Luís Ramos/Público


“Geração rasca”, piadas de caserna, o traseiro e outras coisas ao léu
Luís Ramos, 1994


Haverá muito poucas imagens tão coladas a uma expressão como esta (e outras) que Luís Ramos captou nas manifestações de estudantes do ensino superior e secundário contra as provas globais, propinas e tudo mais que naquele ano fosse decidido por Manuela Ferreira Leite. Não só porque faz eco visual perfeito da provocação lançada por Vicente Jorge Silva (“Estamos a assistir ao nascimento de uma geração rasca?”) como, em parte, foi a origem do epíteto com que um dos fundadores deste jornal confrontou a geração pós-25 de Abril. O primeiro director do Público já lamentou a fama da sua prosa que ficou na história “por razões mais folclóricas do que substanciais”. O certo é que foi o folclore (e mais uns quantos adjectivos pouco abonatórios) estampado nas imagens de Luís Ramos que soltou a cólera do director. A história destas imagens só começou verdadeiramente depois de Vicente Jorge Silva as ter visto, confessa o antigo editor de fotografia do Público.

10 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (IV)


Alfredo Cunha, Moçambique
© Alfredo Cunha/Público


“Um filme inteiro”, a vaidade de fotografar e ser fotografado
Alfredo Cunha, 1993


“Um filme inteiro”. Tudo para descortinar o foco exacto, a melhor pose e este olhar de soslaio a desmanchar a formatura. Os soldados moçambicanos da Frelimo cumpriam na Cidade da Beira o render da guarda das tropas do Zimbawe estacionadas ao longo do chamado “corredor da Beira”. Alfredo Cunha e César Camacho assistiram à cerimónia de troca de estandartes e às formalidades da passagem de poder. E quando tudo parece burocrático e aborrecido há pequenos nadas que podem revelar tanto. Como esta imagem, apenas um fotograma de uma longa sequência que incluiu olhares mais declarados. “Aquilo que eu estava a ver agradava-me e gastei um filme inteiro só nesta fileira de soldados”. O repórter recorda o “jogo” que se impôs naquele momento que resultou numa vaidade mútua entre quem fotografa e quem é fotografado.

09 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (III)

Luís Ramos, Algarve
© Luís Ramos/Público

“Deixem-me trabalhar”, Cavaco em estado zen e o fotógrafo a banhos
Luís Ramos, 1991


Cavaco Silva vivia confortável na segunda maioria absoluta quando começou a contestação às suas políticas económicas. Eram as “forças de bloqueio” a funcionar até que o professor deixou sair em voz alta o famoso desabafo: “Deixem-me trabalhar”. Na fotografia de Luís Ramos, Cavaco parece trabalhar para o bronze. E, por segundos, muito poucos - conta quem presenciou - o primeiro-ministro da austeridade flutuou, descontraído, ao sabor das mornas ondas da Praia dos Olhos de Água, Algarve. Luís tinha a água pela cintura. Com a repórter Áurea Sampaio, competia-lhe trazer um retrato das férias do chefe do Governo. O fotojornalista lembra a simpatia de Cavaco e sua inteira disponibilidade para ser fotografado. Foi o único político que alguma vez lhe mandou uma nota de agradecimento por uma reportagem.

08 março, 2010

Público - 20 anos de fotojornalismo (II)

Alfredo Cunha, Roménia
© Alfredo Cunha/Público

“A ânsia de tocar as mãos”, a fotografia no momento da denúncia
Alfredo Cunha, 1991

Chora? E se chora, porque não lhe correm as lágrimas? Talvez porque lhe falta tudo – a percepção, o espaço, a luz, a liberdade. Na cave escura e nauseabunda de um asilo para filhos de opositores ao regime romeno, os rapazes deambulam simplesmente e pedem para tocar as mãos de quem se aproxima. Uma estranha “ânsia de tocar as mãos, de contacto”, lembra Alfredo Cunha que assinala esta reportagem que fez com Luís Pedro Nunes como a mais marcante de toda a sua vida profissional, apesar do que viu nas guerras, apesar de ter tido muitas vezes a morte à frente da objectiva. Estes homenzinhos mirrados pela força da intolerância e da barbárie social não tinham nunca tocado o solo livre de uma rua. Não tinham nada. Chorará este homenzinho que nos abraça com uma expressão infinitamente perdida? E se chora, quem lhe roubou as lágrimas?

07 março, 2010

tentar

© Sean Gallagher


A Magnum Foundation em conjunto com outras entidades públicas e privadas está a aceitar candidaturas para o Emerging Photographer Grant 2010, criado para apoiar a concretização de um projecto que tanto pode ser baseado numa "missão jornalística" ou inspirado em "interesses artísticos pessoais".
O The Emerging Photographer Fund foi iniciado em 2008 por David Alan Harvey (fotógrafo da cooperativa e fundador da Burn Magazine) e, no ano passado teve como júri Martin Parr, Gilles Peress, Eugene Richards, Carol Nagar, Fred Ritchin, Maggie Steber, David Griffin, John Gossage e James Nachtwey. Já venceram o galardão Sean Gallagher e Alejandro Chaskielburg.
Os trabalhos para a edição deste ano podem ser enviados até ao dia 15 de Abril. O vencedor será anunciado em Junho. Mais informações aqui


© Alejandro Chaskielburg

 
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