22 março, 2010

/uma fotografia, um nome\


Rasto de asteróide
NASA, ESA, e D. Jewitt (Universidade da Califórnia, Los Angeles), fotografia nº STScI-2010-07



Luís Tobias, in Espelho do Começo dos Nossos dias, 2001
© Luís Tobias


Há um paradigma do valor do visual que o Ocidente fez migrar para toda a ciência do Mundo; radica na crença ocidental da centralidade da visão, - na identificação do conhecimento com a visão.

Nesta perspectiva estas duas imagens ancoram o mesmo sentir, mostram-nos qualquer coisa que somos levados a compreender através do fardo incomensurável da nossa experiência e aprendizagem.

A primeira imagem é vista como documental, somos levadas a dar-lhe crédito de inteligibilidade sobre a realidade; a de Luís Tobias é uma imagem produzida a partir de cristais de cloreto de sódio fotografados e tratados em computador. A sensação de acumulação, de condensação de astros em galáxia de constelações ou, já que o título é uma sugestão, de micro-organismos organizando-se no espaço, é uma simulação, um jogo com a nossa aprendizagem. Se a primeira é documento, a segunda pretende-se arte.

A fotografia é o objecto ideal para salientar a sua própria ambiguidade, oscilando entre o artístico e o científico.

A teoria fotográfica encontra facilmente argumentos para as distinguir , mas também para as identificar. Sabemos que a imagem fotográfica de um asteróide, parecendo transportar na cauda uma galáxia luminosa, destacando-.se no azul de um céu que é negro, pois não é o nosso é também uma simulação; uma simulação técnica, artificialmente colorida e iluminada, escolhida porque enquadrada na janela a que o nosso olhar fotográfico e pictórico nos habituou; sabemos que é a distância entre o objecto e a objectiva que cria o manto de estrelas que parece acompanhar o asteróide. Sabemos, enfim, que esta imagem obedece a um programa tecnológico da câmara incorporada no dispositivo de captação. Na fotografia de Luís Tobias também há um programa e um projecto; é um projecto pessoal, que utiliza as virtualidades da câmara e do computador para a sua produção. É apenas nos interstícios das definições que as distinguimos e analisamos.

Mas há mais qualquer coisa. Quando vi a imagem do asteróide que impressionou a sensibilidade do Sérgio, lembrei-me da série do Luís Tobias e comparei-as.

Ambas as imagens são incómodas. Nega-nos o limite, enche-nos do horror do progresso do incomensurável, do imprevisível. E aí é com os gestos da existência que as olhamos, essa existência que, por ser nossa não sentimos, apenas rodeamos de chavões da nossa cultura e aprendizagem. Mas há coisas que vemos com um olhar de longe, como um rosto, um gesto, um movimento fugidio: um ar, quando o silêncio se instala e a palavra se cala. Só temos como utensílios de entendimento a nossa memória e essa é feita de fragmentos, de traços, de fisionomias vagas e improváveis. Quando não comparamos, não dividimos, não seleccionamos, não repetimos, quando não usamos a aprendizagem que nos dá o “eu”com que vivemos e julgamos ser, a existência toma lugar e, com ela, a imprecisão, o medo, a dúvida, a síncrise, num movimento radical para procurar as origens. Por isso o silêncio é a origem que regressa à origem. E é com esses gestos da existência que tentamos depois traduzir em origem do mundo ou origem do homem, que se recebe, num primeiro olhar, cada uma destas imagens fotográficas. A existência, esse retorno à tensão das origens, impõe-se quando a realidade nos perturba, é, naturalmente opaca e implica arremetidas imprevistas. A linguagem, a palavra, é transparente e linearmente coerente. Nos labirintos repetitivos da razão o olhar torna-se inquisidor, analítico na predação do saber acumulado; no incómodo que é o confronto com uma realidade temida, a imprevisibilidade permanece. A estranheza do mundo é a nossa memória imperfeita.

Maria do Carmo Serén

=ColecçãoàVista= 51


Ruben Garcia (1903-1993), Mrs. Mole, s/d.
Fundo Ruben Garcia © Centro Português de Fotografia


Ruben Garcia


Nascido em Sintra em 1903, foi fotógrafo amador desde os vinte anos e engenheiro electrotécnico com formação em construção naval efectuada em Génova. Enquanto fotógrafo, trabalhou com recurso a uma Leica e uma Nikon. Produziu ainda cinema e revelou um profundo interesse pelas correntes artísticas que estetizavam o progresso técnico (abstraccionismo, futurismo, surrealismo e modernismo da Bauhaus). Marcado pela pesquisa de um novo enquadramento, orientado para o novo olhar fotográfico e a descoberta do objecto fotográfico, apresenta ensaios pessoais. Fá-lo com um olhar academista do salonismo nacional oferecendo, em simultâneo, a dominância da verticalidade e da obliquidade sobre a horizontalidade tradicional. É curioso observar como Ruben Garcia fotografa “Mrs. Mole” fazendo-nos evocar Bill Brandt.
(texto:CPF)

Público-20 anos de fotojornalismo (XII)

Alexandre Quintanilha, Porto
© Nelson garrido/Público

“O retrato pela ausência”, a luz do retroprojector e o factor improvisação
Nelson Garrido, 2001


As fotografias não têm som. Mas podem sugeri-lo. Neste retrato de Nelson Garrido, somos levados para o universo sonoro do giz que risca no quadro de ardósia. Os desenhos das equações vieram da mão de Alexandre Quintanilha. A sessão de imagens com professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, foi curta, não terá durado mais de 20 minutos. Serviu para acompanhar uma das entrevistas de fundo da Pública, Conversas com Vista Para…, de Maria João Seixas. Para projectar a silhueta de Quintanilha no quadro, Nelson Garrido improvisou. Usou a luz de retroprojector da sala de aula. “É um retrato que marca pela ausência da figura real e do rosto. Agrada-me este jogo que não mostra tudo, o jogo da suposição.” O fotojornalista destaca a importância de registar as pessoas no seu ambiente natural. Mas como em quase tudo na fotografia, a regra no retrato é coisa que não existe.

18 março, 2010

começar bem

Sede da Estação Imagem em Mora
© Luís Vasconcelos

É um começo auspicioso para o prémio de fotojornalismo promovido pela Estação Imagem: depois de fechadas as inscrições, registou-se um recorde de candidaturas em comparação com concursos congéneres em Portugal. Foram 233 as candidaturas entregues. O Prémio Internacional de Fotojornalismo recebeu 190 inscrições e a bolsa de 5.000 euros (destinada a apoiar um projecto sobre o Alentejo) tem 30 candidatos.
O prémio Estação Imagem/Mora tem um valor pecuniário de 7.500 euros e contempla ainda outros sete galardões no valor de 2.500 euros cada, nas categorias Notícia, Vida Quotidiana, Ambiente, Acção no Desporto; Artes e Espectáculo e Série de Retratos. Este ano há uma categoria especial sobre o tema 2009 Ano de Eleições.
O júri é liderado pela vice-presidente do departamento de fotografia da agência Reuters e presidente do júri da edição 2010 do World Press Photo, Ayperi Karabuda. Os vencedores serão anunciados no dia 24 de Abril.

17 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (XI)

Adriano Miranda, Lisboa
© Adriano Miranda/Público


“Um beijo grande”, a fotografia no momento da despedida
Adriano Miranda, 2000


Uma entrevista a Yasser Arafat não é só uma entrevista. É o confronto com uma imagem icónica – um desafio para qualquer jornalista, talvez um desafio maior para qualquer fotojornalista. Adriano Miranda disparava à medida que a conversa entre o líder da Autoridade Palestiniana e Margarida Santos Lopes se desenrolava. Fotografou muito, porque um momento que inclui este nível de proximidade (alguma intimidade) é coisa que não acontece muitas vezes com líderes de importância global. No fim, Arafat despediu-se com “um beijo grande” na face de cada um dos repórteres. Antes de sair, Adriano Miranda não resistiu a um último olhar. E disparou no momento em que Arafat parece regressar ao seu mundo. A fotografia saiu na primeira página. Adriano gosta de lembrar esta imagem para contrariar a tese dos que acham que não se devem fotografar pessoas de costas. “Podem fotografar-se pessoas de toda a maneira e feitio. Até Arafat.”

Ristelhueber

Sophie Ristelhueber, Eleven Blowups #5, 2006
© Sophie Ristelhueber/adagp

Sophie Ristelhueber (1949, França) é a vencedora do 2010 Deutsche Börse Photography Prize. A artista tinha sido nomeada para a fase final do galardão por uma retrospectiva do seu trabalho apresentada em 2009 no centro Jeu de Paume, em Paris. O trabalho de Ristelhueber aborda essencialmente "o impacto dos conflitos humanos na arquitectura e na paisagem".

Entrevista a Sophie Ristelhueber no Le Monde aqui e galeria de imagens aqui

silêncios

© Eduardo Gageiro


Eduardo Gageiro inaugura a 20 de Março a exposição Silêncios no Centro Cultural de Ílhavo. O mostra pode ser vista até 6 de Junho.

debater

Anna Fox, Cockroach Diaries & Other Stories
© Anna Fox


O vencedor do Deutsche Börse Photography Prize será conhecido hoje. A Photographers` Gallery, onde está patente a exposição com os finalistas, mantém um fórum onde se discutem temas relacionados com o prémio. Um dos tópicos de discussão é What does an annual prize do for photography? Aqui

31


Ann Woo, Cave, 2007, da série Portraits, Landscapes, Still Lives
© Ann Woo

A Humble Arts Foundation inaugurou na galeria Affirmation Arts, em Nova Iorque, a segunda edição da 31 Women in Art Photography, que reúne o trabalho de 31 novas artistas que escolheram a fotografia como principal suporte criativo. A exposição, comissariada por Charlotte Cotton e Jon Feinstein, revela um grande ecletismo ao nível temático. Foi escolhida apenas uma imagem de cada criadora. Aqui

16 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (X)

Miguel Madeira, Timor-Leste
© Miguel Madeira/Público



“A feitiçaria protectora”, João da Silva e o arco e a flecha proibidos
Miguel Madeira, 1999


Espreitar por cima do ombro pode até ser mal-educado (ou mal-interpretado), mas tem as suas vantagens. Dá-nos, por exemplo, uma perspectiva muito próxima do olhar dos outros, convida-nos a entrar nos seus limites visuais. Quando os fotógrafos decidem captar imagens por cima dos ombros dos outros, como nesta fotografia de Miguel Madeira, somos confrontados com um paradoxo visual atordoante onde não sabemos bem se somos o fotógrafo ou o espectador. No período pré-referendo em Timor-Leste em que se tentou algum concílio entre os grupos beligerantes, João da Silva, líder da juventude do bairro de Becora, queria ir à sede da ONU armado de arco e flecha. Disseram-lhe que isso não era possível e João procurou um feiticeiro local para lhe substituir a protecção armada por outro tipo de poder.

RFK

Paul Fusco, s/t, da série RFK Funeral Train Rediscovered
© Paul Fusco/Magnum Photos


Todas as fotografias carregam em si algo do sentido da viagem. As variantes são imensas, mas há fotografias (ou séries delas) que nos oferecem melhor o sentimento de embarque do que outras. E a ilusão técnica de movimento nem é o factor que mais determina essa nossa atracção por elas. Talvez seja a percepção de viagem infinita, o sentimento de continuidade que paradoxalmente nos é dado por um suporte descontínuo, limitado e finito.
É essa noção de viagem que nunca mais acaba que temos ao ver RFK, a série de fotografias que Paul Fusco captou para a revista Look no dia em que transportaram de comboio o corpo de Robert Kennedy (assassinado em Los Angeles a 5 de Junho de 1968) de Nova Iorque para Washington D. C. Ao longo das linhas, milhares de pessoas quiseram prestar homenagem a "Bobby", que lutava para ser candidato a Presidente dos EUA. No interior da composição, Fusco foi captando as mais variadas manifestações e os mais diversos cenários naquela que é uma das mais impressivas e extraordinárias séries de fotografia de reportagem alguma vez executada. E hoje parece que este comboio ainda não parou.
A exposição Paul Fusco: RFK Funeral Train Rediscovered pode ser vista actualmente no Norton Museum of Art, na Florida, EUA. Em 2008, por ocasião do 40º aniversário da morte de Robert Kennedy, a Aperture reeditou RFK, com 70 imagens inéditas retiradas da Look Magazine Collection depositada na Livraria do Congresso. A obra tem ensaios de Vicki Goldberg, Norman Mailer, Evan Thomas e Edward M. Kennedy.

Paul Fusco, s/t, da série RFK Funeral Train Rediscovered
© Paul Fusco/Magnum Photos

Sonseca



Não conhecia a obra de Manuel Sonseca. Fiquei com muita vontade de a conhecer depois de folhear digitalmente as páginas de Manuel Sonseca. En Blanco y negro que a editora La Fábrica acaba de lançar. Juan Manuel Bonet, no ensaio que abre o livro, compara o fotógrafo espanhol aos franceses Bernard Plossu e Patrick Modiano. A carga poética que conseguem transportar para as suas imagens é o elo que os une. O trabalho apresentado neste livro é o resultado de viagens por várias cidades como Buenos Aires, Roma, Lisboa e Madrid. Para além do ensaio de Bonet, é publicada uma entrevista de Alejandro Castellote a Sonseca, vencedor, em 2008, do Premio Internacional de Fotografía Pilar Citoler.
Para folhear o novo livro de Manuel Sonseca clique aqui

15 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (IX)

Daniel Rocha, Lisboa
© Daniel Rocha/Público

“Onde anda a fotografia à noite”, a cidade imaginada ou a guerra das estrelas
Daniel Rocha, 1998


Do alto, nem sempre vemos melhor, mas vemos quase sempre mais. Daniel Rocha quis subir à Torre Vasco da Gama para ter uma perspectiva mais ampla do recinto da Expo 98. O mais alto possível, sem qualquer vidro à frente para além do da lente da objectiva que lhe valeu este efeito galáctico, espacial, que dá vida própria à cidade imaginada para a Expo 98, como se fosse uma nave de motores ligados, prestes a descolar, rumo a… planetas imaginados. “Ao olhar para esta fotografia hoje, sinto falta de trabalhos que revelem as transformações visuais que se dão à noite. Há uma riqueza visual muito grande no universo nocturno que se tem perdido cada vez mais nos jornais”.

14 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VIII)


Luís Vasconcelos, Mali
© Luís Vasconcelos/Público

“Jornalistas em pista”, correr no Dakar a ver passar os aviões
Luís Vasconcelos, 1997


Muito antes dos “jornalistas incorporados (embedded)” da invasão do Iraque de 2003, já os jornalistas andavam “em pista”. Pelo menos no Rali Dakar, onde os repórteres podiam correr lado a lado com os melhores do mundo em todo-o-terreno, às suas custas, à sua inteira responsabilidade. Dentro do acontecimento, portanto. Luís Vasconcelos embarcou em várias dessas aventuras que guardavam para os menos equipados os piores momentos. “Éramos os mais desgraçados. Íamos dormir depois de toda a gente e acordávamos antes de toda a gente”. Acordar muito cedo. Até pode ter sido bom. Foi com a luz ténue da alvorada que ficou registada esta fotografia “meio louca”, “um pouco surreal”, com malianos a passar como quem vai comprar pão fresco e aviões de hélice pilotados por tripulações de leste habituadas a aterrar em qualquer caminho de cabras. Os Dakar são feitos de motas, carros e camiões, mas há quem diga, como diz Luís Vasconcelos, que um dos atractivos da prova são os aviões.

=ColecçãoàVista= 50


Bernd Becher, Hilla Becher, FrameWork House in Heisberg, Siegen, Alemanha, 1978
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Bernd e Hilla Becher
conheceram-se em Düsseldorf em 1957 e desde essa altura desenvolveram o seu trabalho em parceria. Para eles não é importante quem executa o trabalho final, tudo é definido previamente. Têm procedimentos bem definidos, fotografam sempre a preto-e-branco a perspectiva frontal, com muita profundidade de campo, céu nublado e luz opaca. Bernd começou por fotografar as tipologias da arquitectura da era pós industrial como ponto de partida para os seus desenhos. Com a intervenção de Hilla assiste-se a um aperfeiçoamento estético e de método. Viajaram pela Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e E.U.A. em busca de paisagens pós industriais. Este foi o projecto dos Becher, a constituição de um inventário, não só da Alemanha, mas do mundo.
(texto:CPF)

AIPAD Show

Jerome Liebling, Butterfly Boy, Nova Iorque, 1949
© Jerome Liebling

O AIPAD Photography Show junta em Nova Iorque, entre 18 e 21 Março, as mais importantes galerias e instituições ligadas à fotografia. É a 30ª edição deste encontro organizado pela Association of International Photography Art Dealers, o que o torna no mais antigo acontecimento mundial de fotografia.

13 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VII)

Daniel Rocha, Portalegre
© Daniel Rocha/Público

“Uma pedra às costas”, sair do buraco ou um político a andar de gatas
Daniel Rocha, 1996


Daniel Rocha bem que andou no escuro, no oco da pedra megalítica, a tentar fazer uma imagem que simbolizasse a visita do primeiro-ministro António Guterres a Portalegre. O trabalho não estava a correr como queria e decidiu sair para a luz para conseguir antecipar um momento que se previa caricato – o chefe do Governo a andar de gatas. “Saí, esperei pelo momento certo e tive a sorte de Guterres ter saído sozinho, aninhado, dando a sensação que carregava aquela pedra às costas”, lembra o fotojornalista. Apesar de ainda fresco no Governo (vitória nas Legislativas de 1995), esta fotografia confronta simbolicamente o primeiro-ministro com uma série de obstáculos e tudo se parece conjugar para lhe dificultar a vida – o peso da carga, o caminho tortuoso e árido e até um céu com nuvens a ameaçar chuva.

12 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VI)

Luís Ramos, Nova Iorque
© Luís Ramos/Público

“Uma cena fora”, estar atento ou vida das imagens para além do seu tempo
Luís Ramos, 1995


Ali por cima da entrada ainda está escrito. As portas estão abertas. Os seguranças armados e os detectores de objectos perigosos devem estar mais recuados - não se vislumbram. Aliás, não se passa quase nada. Só aquela baforada depois de um travo de cigarro a deixar em suspenso uma imagem que podia estar nos filmes antigos ou na galeria de figuras solitárias dos quadros de Edward Hopper. Uma imensa serenidade. Prolongada. Mas isto é Nova Iorque? É. Luís Ramos tinha outras reportagens previstas, mas acabou fixado nesta “cena fora”. Em várias “cenas fora” que lhe deram um portfólio de pessoas obrigadas a fumar na rua, coisa estranha em 1995 do lado de cá do Atlântico. A baforada continua suspensa, mas, hoje, esta imagem chega aos nossos olhos contaminada por um paradoxo - o confronto entre a mais incipiente rotina e a mais terrível carga simbólica que aquelas palavras carregam - está escrito World Trade Center.

11 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (V)


Luís Ramos, Lisboa
© Luís Ramos/Público


“Geração rasca”, piadas de caserna, o traseiro e outras coisas ao léu
Luís Ramos, 1994


Haverá muito poucas imagens tão coladas a uma expressão como esta (e outras) que Luís Ramos captou nas manifestações de estudantes do ensino superior e secundário contra as provas globais, propinas e tudo mais que naquele ano fosse decidido por Manuela Ferreira Leite. Não só porque faz eco visual perfeito da provocação lançada por Vicente Jorge Silva (“Estamos a assistir ao nascimento de uma geração rasca?”) como, em parte, foi a origem do epíteto com que um dos fundadores deste jornal confrontou a geração pós-25 de Abril. O primeiro director do Público já lamentou a fama da sua prosa que ficou na história “por razões mais folclóricas do que substanciais”. O certo é que foi o folclore (e mais uns quantos adjectivos pouco abonatórios) estampado nas imagens de Luís Ramos que soltou a cólera do director. A história destas imagens só começou verdadeiramente depois de Vicente Jorge Silva as ter visto, confessa o antigo editor de fotografia do Público.

10 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (IV)


Alfredo Cunha, Moçambique
© Alfredo Cunha/Público


“Um filme inteiro”, a vaidade de fotografar e ser fotografado
Alfredo Cunha, 1993


“Um filme inteiro”. Tudo para descortinar o foco exacto, a melhor pose e este olhar de soslaio a desmanchar a formatura. Os soldados moçambicanos da Frelimo cumpriam na Cidade da Beira o render da guarda das tropas do Zimbawe estacionadas ao longo do chamado “corredor da Beira”. Alfredo Cunha e César Camacho assistiram à cerimónia de troca de estandartes e às formalidades da passagem de poder. E quando tudo parece burocrático e aborrecido há pequenos nadas que podem revelar tanto. Como esta imagem, apenas um fotograma de uma longa sequência que incluiu olhares mais declarados. “Aquilo que eu estava a ver agradava-me e gastei um filme inteiro só nesta fileira de soldados”. O repórter recorda o “jogo” que se impôs naquele momento que resultou numa vaidade mútua entre quem fotografa e quem é fotografado.

09 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (III)

Luís Ramos, Algarve
© Luís Ramos/Público

“Deixem-me trabalhar”, Cavaco em estado zen e o fotógrafo a banhos
Luís Ramos, 1991


Cavaco Silva vivia confortável na segunda maioria absoluta quando começou a contestação às suas políticas económicas. Eram as “forças de bloqueio” a funcionar até que o professor deixou sair em voz alta o famoso desabafo: “Deixem-me trabalhar”. Na fotografia de Luís Ramos, Cavaco parece trabalhar para o bronze. E, por segundos, muito poucos - conta quem presenciou - o primeiro-ministro da austeridade flutuou, descontraído, ao sabor das mornas ondas da Praia dos Olhos de Água, Algarve. Luís tinha a água pela cintura. Com a repórter Áurea Sampaio, competia-lhe trazer um retrato das férias do chefe do Governo. O fotojornalista lembra a simpatia de Cavaco e sua inteira disponibilidade para ser fotografado. Foi o único político que alguma vez lhe mandou uma nota de agradecimento por uma reportagem.

08 março, 2010

Público - 20 anos de fotojornalismo (II)

Alfredo Cunha, Roménia
© Alfredo Cunha/Público

“A ânsia de tocar as mãos”, a fotografia no momento da denúncia
Alfredo Cunha, 1991

Chora? E se chora, porque não lhe correm as lágrimas? Talvez porque lhe falta tudo – a percepção, o espaço, a luz, a liberdade. Na cave escura e nauseabunda de um asilo para filhos de opositores ao regime romeno, os rapazes deambulam simplesmente e pedem para tocar as mãos de quem se aproxima. Uma estranha “ânsia de tocar as mãos, de contacto”, lembra Alfredo Cunha que assinala esta reportagem que fez com Luís Pedro Nunes como a mais marcante de toda a sua vida profissional, apesar do que viu nas guerras, apesar de ter tido muitas vezes a morte à frente da objectiva. Estes homenzinhos mirrados pela força da intolerância e da barbárie social não tinham nunca tocado o solo livre de uma rua. Não tinham nada. Chorará este homenzinho que nos abraça com uma expressão infinitamente perdida? E se chora, quem lhe roubou as lágrimas?

07 março, 2010

tentar

© Sean Gallagher


A Magnum Foundation em conjunto com outras entidades públicas e privadas está a aceitar candidaturas para o Emerging Photographer Grant 2010, criado para apoiar a concretização de um projecto que tanto pode ser baseado numa "missão jornalística" ou inspirado em "interesses artísticos pessoais".
O The Emerging Photographer Fund foi iniciado em 2008 por David Alan Harvey (fotógrafo da cooperativa e fundador da Burn Magazine) e, no ano passado teve como júri Martin Parr, Gilles Peress, Eugene Richards, Carol Nagar, Fred Ritchin, Maggie Steber, David Griffin, John Gossage e James Nachtwey. Já venceram o galardão Sean Gallagher e Alejandro Chaskielburg.
Os trabalhos para a edição deste ano podem ser enviados até ao dia 15 de Abril. O vencedor será anunciado em Junho. Mais informações aqui


© Alejandro Chaskielburg

Público - 20 anos de fotojornalismo (I)

Carlos Lopes, Berlim
© Carlos Lopes/Público




Tive o privilégio de falar com cada um dos fotógrafos que viram imagens suas seleccionadas para uma iniciativa da edição comemorativa dos 20 anos Público. António Barreto, director por um dia, quis espalhar ao longo do jornal de sexta-feira 20 fotografias emblemáticas de outros tantos anos de fotojornalismo ao serviço do Público. Competia-me escrever pequenas legendas procurando junto dos autores das imagens memórias do momento da captura. Ao longo dos próximos 20 dias, publicarei aqui essas fotografias que mostram como o Público contribuiu para a afirmação de um fotojornalismo de qualidade em Portugal.

“Liberdade, ano zero”, trabalhar para o boneco ou o arranque falhado
Carlos Lopes, 1990

Houve capas do PÚBLICO que não chegaram a sê-lo. Ou melhor, não chegaram à vista dos leitores. Não se tornaram públicas. Perdida nas inúmeras peripécias dos “números zero” (os longos meses de preparação para o arranque), esta fotografia de Carlos Lopes chegou a ser paginada numa primeira página. Mas esse jornal, que titulava “Liberdade, ano zero”, nunca chegaria às bancas. Foi a falsa partida de 2 de Janeiro de 1990. “Andámos meses a trabalhar para o boneco. Esta fotografia, como muitas outras, foi literalmente para o boneco”, recorda o fotojornalista, enviado a Berlim na passagem de ano para registar a euforia do período pós-queda do muro. Carlos trabalhou com a luz disponível. É avesso ao flash, foge dele sempre que pode. Nesta imagem, plena de entusiasmo, conjugaram-se luzes vindas de várias direcções. Conjugou-se um grito de união.

06 março, 2010

Nozolino vence prémio AICA


© Paulo Pimenta/PÚBLICO


Paulo Nozolino venceu o prémio anual da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). “Este prémio aceito-o. Houve outros que recusei. Este aceito. Eles lá devem ter as suas razões. Estas coisas escapam-me sempre um bocado”, disse o fotógrafo ao Público. O galardão tem um valor pecuniário de 10 mil euros.

02 março, 2010

Chema

© Chema Madoz


O portal do PHotoEspaña falou com poeta visual Chema Madoz, o fotógrafo madrileno que gosta de jogar com os duplos sentidos e as várias camadas de leitura das fotografias, dos objectos e os lugares do quotidiano. As suas reflexões sobre a fotografia e algumas explicações sobre o método do seu trabalho podem ser lidas aqui e vistas aqui

dos lugares


© José Manuel Ribeiro


O Centro Português de Fotografia e a Estação Imagem organizaram a exposição Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa, que será inaugurada no edifício da ex-Cadeia da Relação do Porto, no sábado, dia 6 de Março, às 16h00. O mostra reúne 12 fotógrafos e dois designers. No total, foram seleccionadas 39 fotografias e seis ilustrações entre as imagens publicadas no livro com o mesmo título, editado pela Estação Imagem. O projecto resulta da interpretação de 14 obras da literatura portuguesa do século XX ligadas ao Alentejo e assinadas por escritores como Florbela Espanca, Vergílio Ferreira e José Saramago. Estão representados os fotógrafos António Carrapato, Bruno Portela, Bruno Rascão, Céu Guarda, Fernando Veludo, José Manuel Ribeiro, Leonel de Castro, Luísa Ferreira, Luís Barra, Luís Ramos, Luís Vasconcelos e Pedro Letria, e os designers Henrique Cayatte e José Pinto Nogueira. Foram ainda incluídos três trabalhos de Eduardo Nogueira, um precursor da fotografia em Évora, activo durante a primeira metade do século XX, imagens sobre as quais Vanessa Rato, jornalista do Público, escreveu um texto.

É bem-vinda ao panorama fotográfico português a Estação Imagem, "uma associação sem fins lucrativos dedicada ao estudo e promoção da imagem, com particular enfoque na fotografia documental". Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa é o primeiro projecto que concretiza. Esperamos por mais.



© Pedro Letria


Centro Português de Fotografia, Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa, v/a
Campo Mártires da Pátria, Porto
De seg. a Sex., das 10h00 às 18h00;
Sáb., Dom. e Fer., das 10h00 às 19h00
Até 18 de Abril

01 março, 2010

=ColecçãoàVista= 49

Cristina Garcia Rodero (1949), Peregrinación, Les Saintes Maries de la Mer, Francia, 1994
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Rituais

Durante mais de 20 anos Cristina Garcia Rodero envolveu-se no estudo artístico das tradições populares de Espanha. Desse estudo resultaram alguns dos seus mais célebres trabalhos enquanto fotojornalista. No entanto, acabaria por deixar a terra natal para viajar pelo mundo em busca de outras culturas e tradições específicas.
Professora de Fotografia convidada da Faculdade de Belas Artes da Univ. Complutense de Madrid, recebeu vários prémios, designadamente, o prestigiado prémio W. Eugene Smith [1989] e o Prémio Nacional de Fotografia de Espanha [1996].
Amplamente publicado e exibido, o valor documental e etnográfico do seu trabalho é notável. A qualidade estética das suas fotografias ultrapassa o simples registo visual e aprisiona o nosso olhar.
(texto:CPF)

26 fevereiro, 2010

das imagens


Dennys Martins, Freguesia do Monte, Madeira



As imagens no tempo da ugência da partilha

Sérgio B. Gomes e João Pedro Pereira
(P2, Público, 22.02.2010)

Aconteceu com a tempestade que se abateu sobre o arquipélago da Madeira, no sábado, aconteceu com outras tragédias recentes em outras partes do mundo - as primeiras imagens divulgadas pelos media foram registos dos leitores partilhados em redes sociais na internet ou enviados directamente para as redacções de jornais, revistas e televisões. As fotografias e vídeos colocados na rede por quem experimentou um acontecimento extraordinário passaram definitivamente a ser matéria-prima das notícias dos meios de comunicação tradicionais (e das suas páginas na web), menos aptos para responder à velocidade - à quase imediação - a que correm aquelas imagens.

Estas redes sociais criaram uma dinâmica própria, não só fundada numa necessidade de mostrar, numa urgência de partilhar, mas também movida por apelos à solidariedade e ao espírito de entreajuda. Os media têm saciado a sua sede de imagens nestes espaços que se multiplicam e diversificam em distintas plataformas, consoante o suporte de registo e a lógica de distribuição. São imagens que se tornaram parte fundamental da construção do discurso noticioso que passou a incorporar o vernacular, as fotografias ou vídeos sem qualidade estética ou de produção, mas com um grande valor informativo.

Durante muito tempo, a distribuição em larga escala e em tempo útil de imagens foi um exclusivo dos media tradicionais. O certo é que este panorama tem vindo a sofrer profundas alterações. Um bom exemplo dessa mudança de paradigma aconteceu logo após o sismo que abalou o Haiti no início de Janeiro. O canal americano de notícias CNN (com a reputação de estar em todo o lado em qualquer momento) passou em vários noticiários e durante largos minutos as primeiras imagens sobre aquela tragédia divulgadas em redes sociais, como o Facebook, o Twitter ou o YouTube. Dentro dos estúdios da CNN, as câmaras de televisão saltaram de ecrã para ecrã de computador, de onde saíram as primeiras fotografias e vídeos da recente catástrofe haitiana.

Este sábado, a informação sobre o temporal da Madeira correu pelo Twitter, com curtos relatos de pessoas no local e fotografias a serem distribuídas e redistribuídas pelos utilizadores desta rede. Estas mensagens estavam normalmente identificadas com a palavra-chave #tempmad, abreviação de "temporal" e "Madeira" - no Twitter, estas palavras-chave, que são precedidas do símbolo cardinal, são chamadas hashtags e permitem aos utilizadores agruparem informação relativa ao mesmo assunto, tornando-a assim facilmente pesquisável.

Inevitavelmente, o YouTube foi inundado com vídeos amadores. As torrentes de água e lama, os carros arrastados e as pontes destruídas foram captados por câmaras de pouca qualidade e por telemóveis. Muitos destes vídeos acabaram em alguns dos principais órgãos de informação do país.

Pelo menos dois jornais - o Público e o JN - usaram nos seus sites um mapa interactivo criado com ferramentas da Google, que permitia a qualquer pessoa acrescentar pontos com fotos, vídeos e outra informação sobre as consequências do temporal. A iniciativa não partiu das redacções: o mapa foi criado pelo jornalista freelance e blogger Alexandre Gamela, a partir de Birmingham. E o mapa não continha apenas informação. Havia também pedidos de ajuda: "Se tiverem informações sobre a situação no Curral das Freiras, partilhem", lê-se ao clicar num ponto de interrogação sobre a localidade de Curral das Freiras, que esteve incontactável até ontem.

Os vídeos e fotografias dos amadores misturaram-se na Web com os dos profissionais. Nos sites de informação, nas televisões - e também na blogosfera - conviviam com as imagens captadas pelos cibernautas as imagens que iam sendo registadas pelos jornalistas em serviço.

Marcel Gautherot


Marcel Gautherot, Congresso Nacional em construção, c. 1958, Brasília
© Instituto Moreira Salles


Isabel Coutinho
(P2, Público, 22.02.2010)

Gautherot
O jeito inédito de ver o Brasil

Quando, debaixo de um sol quentíssimo, o arquitecto Augusto da Silva Telles, um dos grandes nomes do património histórico brasileiro, foi fazer uma visita de inspecção a um engenho colonial no interior do Rio de Janeiro, encontrou o fotógrafo Marcel Gautherot sentado no meio de um descampado.

Debaixo de uma sombrinha, com a máquina em cima do tripé, o francês comia calmamente uma sanduíche de mortadela. "Marcel, o que você está fazendo aqui?", perguntou-lhe Telles. Entre "uma mordida e outra", Gautherot apontou para o céu e disse: "Está vendo aquela nuvem ali? Quando ela estiver bem ali, eu faço a foto."

Esta é uma das histórias que fazem parte da lenda do fotógrafo francês, que viveu e morreu no Brasil, considerado o "mestre do preto e branco". Um homem paciente e reservado, que falava pouquíssimo nas entrevistas que deu, por vezes respondendo a resmungar, e que eternizou a utopia arquitectónica que foi a cidade de Brasília, a pedido do arquitecto Oscar Niemeyer.

No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Marcel Gautherot (1910-1996) e também os 50 anos da construção de Brasília, o Instituto Moreira Salles (IMS) organizou o livro e a exposição Norte, comissariada pelo professor universitário Samuel Titan Jr. e pelo escritor Milton Hatoum, com as imagens das viagens do fotógrafo à Amazónia. Pode ser visitada até ao dia 21 de Março no IMS, em São Paulo, e deverá seguir para o Rio de Janeiro e para a Europa. Em Abril publicarão o livro A Brasília de Marcel Gautherot, com um ensaio do arquitecto e crítico inglês Kenneth Frampton, que terá uma edição internacional na Thames & Hudson. Na mesma altura será inaugurada no Rio de Janeiro uma exposição dedicada à maneira como a capital brasileira tem sido retratada por fotógrafos.

O acervo de Marcel Gautherot foi comprado à família pelo IMS. São 25 mil fotografias cujos negativos estão em óptimas condições. Além de ser muito metódico, o fotógrafo dedicou os últimos anos de vida a organizar e a catalogar o seu acervo. "Tem uma qualidade estética muito alta, pois ele mesmo se encarregou de descartar aquilo que achava inferior e secundário", explica numa conversa telefónica a partir de São Paulo Samuel Titan Jr, o coordenador cultural do Instituto Moreira Salles.

Na última Feira do Livro de Frankfurt, em Outubro, Samuel apresentou à Thames & Hudson o projecto deste livro. Estava convencido que seria o projecto do IMS com mais vocação internacional. "Temos um lindo acervo fotográfico, mas sinto sempre que a primeira dificuldade é apresentar José Medeiros, Thomaz Farkas e Marcel Gautherot a um público não-brasileiro. Neste caso, Brasília serviu de isca, e, na sequência, tive que explicar quem era o Gautherot."

A primeira explicação que Samuel deu aos editores da Hudson foi "a mais folclórica": um francês que foge da II Guerra Mundial, se instala no Brasil e se deixa fascinar pelo país. "Esse é o lado mais fácil do apelo biográfico, mas também o lado pelo qual Gautherot não se distingue de outros estrangeiros que se apaixonaram pelo Brasil [por exemplo, os fotógrafos Pierre Verger e Jean Manzon]." Depois mostrou-lhes que Marcel Gautherot trouxe para a fotografia brasileira um olhar inspirado pela arquitectura moderna e pelo melhor do modernismo dos anos 20 e 30.

Influência do modernismo
Marcel Gautherot nasceu em Paris em 1910, numa família operária. Estudou na Escola de Artes Decorativas, onde o currículo era uma mistura de arquitectura, de arquitectura de interiores e de design. Estudava à noite e, apesar de não chegar a concluir o curso, entrou em contacto com o modernismo de Le Corbusier e de Mies van der Rohe. Empregou-se numa fábrica de "simpatias modernistas", onde desenhava móveis, e mais tarde acabou por ir trabalhar para o Museu do Homem, também em Paris, como arquitecto de interiores. "É assim, um pouco por acidente, que ele começou a praticar fotografia a cargo do museu. De um lado, tem a vertente arquitectónica e modernista, de outro, esse lado etnográfico que aprendeu no museu." É também por isso que, em 1936, vai ao México (a Meca dos fotógrafos e cineastas), onde conheceu o realizador russo Eisenstein.

Foi por causa de ter lido Jubiabá, de Jorge Amado, que Marcel Gautherot teve vontade de ir ao Brasil. A sua primeira grande viagem pelo país realizou-se no Norte, em 1939. Andou pela Amazónia, pelo Recife, por Belém. "Ele chega ao Brasil e certamente se deixa fascinar, mas tem um olhar muito culto. Aquilo que vai fazer nos 50 anos seguintes não tem nada a ver com exotismo tropical", explica Samuel Titan Jr. Na verdade, Gautherot chegou na altura em que no Rio de Janeiro se estava a organizar a geração de ouro da arquitectura brasileira: Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx, etc. Ficou amigo deste grupo de arquitectos, mas também dos arquitectos do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. Isso permitiu-lhe viajar pelos lugares mais recônditos do Brasil e contactar com a paisagem e com a arte luso-brasileira.

Nas fotografias do início da sua carreira já se notava o "estilo pessoal" que apareceria em todos os temas de que se ocuparia depois. "As fotos das viagens à Amazónia em 1939, de outra, em 44, e de uma terceira, em 54/55, são surpreendentes porque já antecipavam muitos dos ângulos e efeitos que ele iria perseguir quando depois foi fotografar uma coisa radicalmente diferente como Brasília. Essa procura da composição, e sobretudo a procura da distância certa para fotografar as coisas, já estava muito presente."

Na selva amazónica, Marcel Gautherot, em vez de tentar fugir às dificuldades - subir a árvores, fotografar de um avião ou tirar fotografias do meio do rio -, "quase sempre" recusou as soluções óbvias. Tentou trazer para as fotografias a sensação urgente de quem se sente assediado pela floresta e pela sua opressão. "Ele, em contraste com quase toda a tradição iconográfica anterior, aceitou a dificuldade como um ponto de partida do trabalho e não como um problema a ser evitado."

Da mesma maneira, quando foi fotografar Brasília e foi confrontado com a vastidão do espaço e uma linha do horizonte claramente desenhada mas sempre muito distante ("que dá uma situação de isolamento e de fragilidade no meio daquilo tudo"), Gautherot percebeu o que havia de característico, de peculiar, num certo tipo de paisagem e partiu daí. Ao contrário de muitos dos fotógrafos que fotografaram Brasília e que tentaram o close up, o anedótico, o engraçado, o patético. Chegaram lá e "não sabiam o que fazer com essa vastidão do horizonte que é uma espécie de vazio omnipresente."

Quando Marcel Gautherot se instalou definitivamente no Rio de Janeiro, em 1940, foi por causa do seu portfólio (com fotos de arquitectura que fez no México e em Atenas) que conseguiu trabalhar com o arquitecto paisagista Burle Marx (até aos anos 90), e com Niemeyer, que depois de Gautherot ter fotografado a Pampulha o convidou para integrar a equipa da construção de Brasília (une-os a afinidade estética - os dois são devotos de Le Corbusier - e também a questão política, o comunismo).

No acervo do fotógrafo que pertence ao Instituto Moreira Salles, 2950 das 25 mil fotografias são sobre a construção da capital brasileira. Em Brasília, Gautherot fez uma coisa que nenhum outro fotógrafo fez: fotografou a vida dos "candangos", os operários que foram construir a cidade. Fotografou os subúrbios do plano-piloto, que anos mais tarde se transformaram nas cidades-satélites. Naquela época eram acampamentos de trabalhadores, desde vilas operárias mais ou menos bem construídas até verdadeiras "favelas" (a "sacolândia"). "Por mais simpático que Gautherot fosse à arquitectura e às ideias políticas do Niemeyer, o facto é que ele registou Brasília de um ângulo que às vezes é heróico, mas também francamente crítico. Tem alguma coisa de muito promissor, mas também de muito ameaçador, naquelas pessoas que estão reduzidas a bonequinhos numa maqueta. É impossível ver as fotos de Brasília e não sentir que aquilo tem alguma coisa de risível, de uma maqueta perdida no planalto", afirma Samuel Titan Jr. O fotógrafo mais simpático à causa acaba por ser o que capturou a ambiguidade de Brasília como ninguém.

Uma das frustrações de Marcel Gautherot é nunca ter conseguido publicar estas fotografias. "Havia um controlo oficial tão estrito sobre o que se publicava de Brasília, havia um desejo tão ardente de fazer propaganda do país moderno, que essas fotos da vida miserável em torno de Brasília, que no fundo são já uma nuvem negra pairando sobre a utopia urbanística, nunca tiveram curso durante a vida dele."

Sem miserabilismo
Marcel Gautherot poderia ter sido um daqueles fotógrafos que praticam uma espécie de realismo socialista na fotografia. Mas, tal como explica Samuel, a simpatia comunista foi elaborada esteticamente por ele de "um jeito muito peculiar". Em vez de olhar para a vida popular como marcada pelo negativo (pela falta de cultura, de comida, de saúde, de dinheiro), como "uma espécie de vazio que se tem que preencher com imagens gloriosas de camponeses e operários cruzando a foice e o martelo", ele mostra uma espécie de plenitude e de positividade na vida popular. É por isso que se interessa tanto por fotografar o trabalho, os ofícios e as festas populares. A simpatia comunista serviu-lhe para não cair no miserabilismo na fotografia.

Quando se olha para o espólio de Marcel Gautherot, que imagem é que se tem do Brasil? "A imagem de um Brasil em tremenda transformação. É um Brasil que conserva ainda todas as marcas do século XVIII e XIX. O Rio de Janeiro que Gautherot fotografou é o da belle époque, do final do século XIX, início do XX. As Minas Gerais, que fotografou, estão virtualmente no século XVIII. E é o mesmo país onde estão se erguendo a catedral de Brasília, a Pampulha, em que os arquitectos cariocas estão a construir o aterro do Flamengo. Na década de 50/60 é um país de aceleração do processo de modernização e ao mesmo tempo é o lugar onde festas populares, costumes, jeitos e trejeitos lá do fundo da vida colonial, continuam existindo."

Fotografava com Rolleiflex. "Tinha uma herança pictórica tão forte que o fez desgostar da Leica e de todas as câmaras de disparo rápido. Ele sempre se manteve muito fiel à Rolleiflex e ao negativo quadrado, 6x6 cm. Mais clássica e que serve a esse desejo de composição que é muito forte nele. Esse tipo de escolha já mostra o tipo de fotógrafo que ele é: menos o do instante capturado do que o da composição cuidadosa."

Marcel Gautherot, o fotógrafo que um dia disse ao seu amigo, o poeta Jacques Prévert: "No Brasil, tive vontade de derrubar uma floresta inteira para tirar o retrato de uma certa árvore de que gostei."


Marcel Gautherot na ilha de Marajo, Pará, c. 1970
© Instituto Moreira Salles

 
free web page hit counter