16 março, 2010

RFK

Paul Fusco, s/t, da série RFK Funeral Train Rediscovered
© Paul Fusco/Magnum Photos


Todas as fotografias carregam em si algo do sentido da viagem. As variantes são imensas, mas há fotografias (ou séries delas) que nos oferecem melhor o sentimento de embarque do que outras. E a ilusão técnica de movimento nem é o factor que mais determina essa nossa atracção por elas. Talvez seja a percepção de viagem infinita, o sentimento de continuidade que paradoxalmente nos é dado por um suporte descontínuo, limitado e finito.
É essa noção de viagem que nunca mais acaba que temos ao ver RFK, a série de fotografias que Paul Fusco captou para a revista Look no dia em que transportaram de comboio o corpo de Robert Kennedy (assassinado em Los Angeles a 5 de Junho de 1968) de Nova Iorque para Washington D. C. Ao longo das linhas, milhares de pessoas quiseram prestar homenagem a "Bobby", que lutava para ser candidato a Presidente dos EUA. No interior da composição, Fusco foi captando as mais variadas manifestações e os mais diversos cenários naquela que é uma das mais impressivas e extraordinárias séries de fotografia de reportagem alguma vez executada. E hoje parece que este comboio ainda não parou.
A exposição Paul Fusco: RFK Funeral Train Rediscovered pode ser vista actualmente no Norton Museum of Art, na Florida, EUA. Em 2008, por ocasião do 40º aniversário da morte de Robert Kennedy, a Aperture reeditou RFK, com 70 imagens inéditas retiradas da Look Magazine Collection depositada na Livraria do Congresso. A obra tem ensaios de Vicki Goldberg, Norman Mailer, Evan Thomas e Edward M. Kennedy.

Paul Fusco, s/t, da série RFK Funeral Train Rediscovered
© Paul Fusco/Magnum Photos

Sonseca



Não conhecia a obra de Manuel Sonseca. Fiquei com muita vontade de a conhecer depois de folhear digitalmente as páginas de Manuel Sonseca. En Blanco y negro que a editora La Fábrica acaba de lançar. Juan Manuel Bonet, no ensaio que abre o livro, compara o fotógrafo espanhol aos franceses Bernard Plossu e Patrick Modiano. A carga poética que conseguem transportar para as suas imagens é o elo que os une. O trabalho apresentado neste livro é o resultado de viagens por várias cidades como Buenos Aires, Roma, Lisboa e Madrid. Para além do ensaio de Bonet, é publicada uma entrevista de Alejandro Castellote a Sonseca, vencedor, em 2008, do Premio Internacional de Fotografía Pilar Citoler.
Para folhear o novo livro de Manuel Sonseca clique aqui

15 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (IX)

Daniel Rocha, Lisboa
© Daniel Rocha/Público

“Onde anda a fotografia à noite”, a cidade imaginada ou a guerra das estrelas
Daniel Rocha, 1998


Do alto, nem sempre vemos melhor, mas vemos quase sempre mais. Daniel Rocha quis subir à Torre Vasco da Gama para ter uma perspectiva mais ampla do recinto da Expo 98. O mais alto possível, sem qualquer vidro à frente para além do da lente da objectiva que lhe valeu este efeito galáctico, espacial, que dá vida própria à cidade imaginada para a Expo 98, como se fosse uma nave de motores ligados, prestes a descolar, rumo a… planetas imaginados. “Ao olhar para esta fotografia hoje, sinto falta de trabalhos que revelem as transformações visuais que se dão à noite. Há uma riqueza visual muito grande no universo nocturno que se tem perdido cada vez mais nos jornais”.

14 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VIII)


Luís Vasconcelos, Mali
© Luís Vasconcelos/Público

“Jornalistas em pista”, correr no Dakar a ver passar os aviões
Luís Vasconcelos, 1997


Muito antes dos “jornalistas incorporados (embedded)” da invasão do Iraque de 2003, já os jornalistas andavam “em pista”. Pelo menos no Rali Dakar, onde os repórteres podiam correr lado a lado com os melhores do mundo em todo-o-terreno, às suas custas, à sua inteira responsabilidade. Dentro do acontecimento, portanto. Luís Vasconcelos embarcou em várias dessas aventuras que guardavam para os menos equipados os piores momentos. “Éramos os mais desgraçados. Íamos dormir depois de toda a gente e acordávamos antes de toda a gente”. Acordar muito cedo. Até pode ter sido bom. Foi com a luz ténue da alvorada que ficou registada esta fotografia “meio louca”, “um pouco surreal”, com malianos a passar como quem vai comprar pão fresco e aviões de hélice pilotados por tripulações de leste habituadas a aterrar em qualquer caminho de cabras. Os Dakar são feitos de motas, carros e camiões, mas há quem diga, como diz Luís Vasconcelos, que um dos atractivos da prova são os aviões.

=ColecçãoàVista= 50


Bernd Becher, Hilla Becher, FrameWork House in Heisberg, Siegen, Alemanha, 1978
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Bernd e Hilla Becher
conheceram-se em Düsseldorf em 1957 e desde essa altura desenvolveram o seu trabalho em parceria. Para eles não é importante quem executa o trabalho final, tudo é definido previamente. Têm procedimentos bem definidos, fotografam sempre a preto-e-branco a perspectiva frontal, com muita profundidade de campo, céu nublado e luz opaca. Bernd começou por fotografar as tipologias da arquitectura da era pós industrial como ponto de partida para os seus desenhos. Com a intervenção de Hilla assiste-se a um aperfeiçoamento estético e de método. Viajaram pela Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e E.U.A. em busca de paisagens pós industriais. Este foi o projecto dos Becher, a constituição de um inventário, não só da Alemanha, mas do mundo.
(texto:CPF)

AIPAD Show

Jerome Liebling, Butterfly Boy, Nova Iorque, 1949
© Jerome Liebling

O AIPAD Photography Show junta em Nova Iorque, entre 18 e 21 Março, as mais importantes galerias e instituições ligadas à fotografia. É a 30ª edição deste encontro organizado pela Association of International Photography Art Dealers, o que o torna no mais antigo acontecimento mundial de fotografia.

13 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VII)

Daniel Rocha, Portalegre
© Daniel Rocha/Público

“Uma pedra às costas”, sair do buraco ou um político a andar de gatas
Daniel Rocha, 1996


Daniel Rocha bem que andou no escuro, no oco da pedra megalítica, a tentar fazer uma imagem que simbolizasse a visita do primeiro-ministro António Guterres a Portalegre. O trabalho não estava a correr como queria e decidiu sair para a luz para conseguir antecipar um momento que se previa caricato – o chefe do Governo a andar de gatas. “Saí, esperei pelo momento certo e tive a sorte de Guterres ter saído sozinho, aninhado, dando a sensação que carregava aquela pedra às costas”, lembra o fotojornalista. Apesar de ainda fresco no Governo (vitória nas Legislativas de 1995), esta fotografia confronta simbolicamente o primeiro-ministro com uma série de obstáculos e tudo se parece conjugar para lhe dificultar a vida – o peso da carga, o caminho tortuoso e árido e até um céu com nuvens a ameaçar chuva.

12 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (VI)

Luís Ramos, Nova Iorque
© Luís Ramos/Público

“Uma cena fora”, estar atento ou vida das imagens para além do seu tempo
Luís Ramos, 1995


Ali por cima da entrada ainda está escrito. As portas estão abertas. Os seguranças armados e os detectores de objectos perigosos devem estar mais recuados - não se vislumbram. Aliás, não se passa quase nada. Só aquela baforada depois de um travo de cigarro a deixar em suspenso uma imagem que podia estar nos filmes antigos ou na galeria de figuras solitárias dos quadros de Edward Hopper. Uma imensa serenidade. Prolongada. Mas isto é Nova Iorque? É. Luís Ramos tinha outras reportagens previstas, mas acabou fixado nesta “cena fora”. Em várias “cenas fora” que lhe deram um portfólio de pessoas obrigadas a fumar na rua, coisa estranha em 1995 do lado de cá do Atlântico. A baforada continua suspensa, mas, hoje, esta imagem chega aos nossos olhos contaminada por um paradoxo - o confronto entre a mais incipiente rotina e a mais terrível carga simbólica que aquelas palavras carregam - está escrito World Trade Center.

11 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (V)


Luís Ramos, Lisboa
© Luís Ramos/Público


“Geração rasca”, piadas de caserna, o traseiro e outras coisas ao léu
Luís Ramos, 1994


Haverá muito poucas imagens tão coladas a uma expressão como esta (e outras) que Luís Ramos captou nas manifestações de estudantes do ensino superior e secundário contra as provas globais, propinas e tudo mais que naquele ano fosse decidido por Manuela Ferreira Leite. Não só porque faz eco visual perfeito da provocação lançada por Vicente Jorge Silva (“Estamos a assistir ao nascimento de uma geração rasca?”) como, em parte, foi a origem do epíteto com que um dos fundadores deste jornal confrontou a geração pós-25 de Abril. O primeiro director do Público já lamentou a fama da sua prosa que ficou na história “por razões mais folclóricas do que substanciais”. O certo é que foi o folclore (e mais uns quantos adjectivos pouco abonatórios) estampado nas imagens de Luís Ramos que soltou a cólera do director. A história destas imagens só começou verdadeiramente depois de Vicente Jorge Silva as ter visto, confessa o antigo editor de fotografia do Público.

10 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (IV)


Alfredo Cunha, Moçambique
© Alfredo Cunha/Público


“Um filme inteiro”, a vaidade de fotografar e ser fotografado
Alfredo Cunha, 1993


“Um filme inteiro”. Tudo para descortinar o foco exacto, a melhor pose e este olhar de soslaio a desmanchar a formatura. Os soldados moçambicanos da Frelimo cumpriam na Cidade da Beira o render da guarda das tropas do Zimbawe estacionadas ao longo do chamado “corredor da Beira”. Alfredo Cunha e César Camacho assistiram à cerimónia de troca de estandartes e às formalidades da passagem de poder. E quando tudo parece burocrático e aborrecido há pequenos nadas que podem revelar tanto. Como esta imagem, apenas um fotograma de uma longa sequência que incluiu olhares mais declarados. “Aquilo que eu estava a ver agradava-me e gastei um filme inteiro só nesta fileira de soldados”. O repórter recorda o “jogo” que se impôs naquele momento que resultou numa vaidade mútua entre quem fotografa e quem é fotografado.

09 março, 2010

Público-20 anos de fotojornalismo (III)

Luís Ramos, Algarve
© Luís Ramos/Público

“Deixem-me trabalhar”, Cavaco em estado zen e o fotógrafo a banhos
Luís Ramos, 1991


Cavaco Silva vivia confortável na segunda maioria absoluta quando começou a contestação às suas políticas económicas. Eram as “forças de bloqueio” a funcionar até que o professor deixou sair em voz alta o famoso desabafo: “Deixem-me trabalhar”. Na fotografia de Luís Ramos, Cavaco parece trabalhar para o bronze. E, por segundos, muito poucos - conta quem presenciou - o primeiro-ministro da austeridade flutuou, descontraído, ao sabor das mornas ondas da Praia dos Olhos de Água, Algarve. Luís tinha a água pela cintura. Com a repórter Áurea Sampaio, competia-lhe trazer um retrato das férias do chefe do Governo. O fotojornalista lembra a simpatia de Cavaco e sua inteira disponibilidade para ser fotografado. Foi o único político que alguma vez lhe mandou uma nota de agradecimento por uma reportagem.

08 março, 2010

Público - 20 anos de fotojornalismo (II)

Alfredo Cunha, Roménia
© Alfredo Cunha/Público

“A ânsia de tocar as mãos”, a fotografia no momento da denúncia
Alfredo Cunha, 1991

Chora? E se chora, porque não lhe correm as lágrimas? Talvez porque lhe falta tudo – a percepção, o espaço, a luz, a liberdade. Na cave escura e nauseabunda de um asilo para filhos de opositores ao regime romeno, os rapazes deambulam simplesmente e pedem para tocar as mãos de quem se aproxima. Uma estranha “ânsia de tocar as mãos, de contacto”, lembra Alfredo Cunha que assinala esta reportagem que fez com Luís Pedro Nunes como a mais marcante de toda a sua vida profissional, apesar do que viu nas guerras, apesar de ter tido muitas vezes a morte à frente da objectiva. Estes homenzinhos mirrados pela força da intolerância e da barbárie social não tinham nunca tocado o solo livre de uma rua. Não tinham nada. Chorará este homenzinho que nos abraça com uma expressão infinitamente perdida? E se chora, quem lhe roubou as lágrimas?

07 março, 2010

tentar

© Sean Gallagher


A Magnum Foundation em conjunto com outras entidades públicas e privadas está a aceitar candidaturas para o Emerging Photographer Grant 2010, criado para apoiar a concretização de um projecto que tanto pode ser baseado numa "missão jornalística" ou inspirado em "interesses artísticos pessoais".
O The Emerging Photographer Fund foi iniciado em 2008 por David Alan Harvey (fotógrafo da cooperativa e fundador da Burn Magazine) e, no ano passado teve como júri Martin Parr, Gilles Peress, Eugene Richards, Carol Nagar, Fred Ritchin, Maggie Steber, David Griffin, John Gossage e James Nachtwey. Já venceram o galardão Sean Gallagher e Alejandro Chaskielburg.
Os trabalhos para a edição deste ano podem ser enviados até ao dia 15 de Abril. O vencedor será anunciado em Junho. Mais informações aqui


© Alejandro Chaskielburg

Público - 20 anos de fotojornalismo (I)

Carlos Lopes, Berlim
© Carlos Lopes/Público




Tive o privilégio de falar com cada um dos fotógrafos que viram imagens suas seleccionadas para uma iniciativa da edição comemorativa dos 20 anos Público. António Barreto, director por um dia, quis espalhar ao longo do jornal de sexta-feira 20 fotografias emblemáticas de outros tantos anos de fotojornalismo ao serviço do Público. Competia-me escrever pequenas legendas procurando junto dos autores das imagens memórias do momento da captura. Ao longo dos próximos 20 dias, publicarei aqui essas fotografias que mostram como o Público contribuiu para a afirmação de um fotojornalismo de qualidade em Portugal.

“Liberdade, ano zero”, trabalhar para o boneco ou o arranque falhado
Carlos Lopes, 1990

Houve capas do PÚBLICO que não chegaram a sê-lo. Ou melhor, não chegaram à vista dos leitores. Não se tornaram públicas. Perdida nas inúmeras peripécias dos “números zero” (os longos meses de preparação para o arranque), esta fotografia de Carlos Lopes chegou a ser paginada numa primeira página. Mas esse jornal, que titulava “Liberdade, ano zero”, nunca chegaria às bancas. Foi a falsa partida de 2 de Janeiro de 1990. “Andámos meses a trabalhar para o boneco. Esta fotografia, como muitas outras, foi literalmente para o boneco”, recorda o fotojornalista, enviado a Berlim na passagem de ano para registar a euforia do período pós-queda do muro. Carlos trabalhou com a luz disponível. É avesso ao flash, foge dele sempre que pode. Nesta imagem, plena de entusiasmo, conjugaram-se luzes vindas de várias direcções. Conjugou-se um grito de união.

06 março, 2010

Nozolino vence prémio AICA


© Paulo Pimenta/PÚBLICO


Paulo Nozolino venceu o prémio anual da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). “Este prémio aceito-o. Houve outros que recusei. Este aceito. Eles lá devem ter as suas razões. Estas coisas escapam-me sempre um bocado”, disse o fotógrafo ao Público. O galardão tem um valor pecuniário de 10 mil euros.

02 março, 2010

Chema

© Chema Madoz


O portal do PHotoEspaña falou com poeta visual Chema Madoz, o fotógrafo madrileno que gosta de jogar com os duplos sentidos e as várias camadas de leitura das fotografias, dos objectos e os lugares do quotidiano. As suas reflexões sobre a fotografia e algumas explicações sobre o método do seu trabalho podem ser lidas aqui e vistas aqui

dos lugares


© José Manuel Ribeiro


O Centro Português de Fotografia e a Estação Imagem organizaram a exposição Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa, que será inaugurada no edifício da ex-Cadeia da Relação do Porto, no sábado, dia 6 de Março, às 16h00. O mostra reúne 12 fotógrafos e dois designers. No total, foram seleccionadas 39 fotografias e seis ilustrações entre as imagens publicadas no livro com o mesmo título, editado pela Estação Imagem. O projecto resulta da interpretação de 14 obras da literatura portuguesa do século XX ligadas ao Alentejo e assinadas por escritores como Florbela Espanca, Vergílio Ferreira e José Saramago. Estão representados os fotógrafos António Carrapato, Bruno Portela, Bruno Rascão, Céu Guarda, Fernando Veludo, José Manuel Ribeiro, Leonel de Castro, Luísa Ferreira, Luís Barra, Luís Ramos, Luís Vasconcelos e Pedro Letria, e os designers Henrique Cayatte e José Pinto Nogueira. Foram ainda incluídos três trabalhos de Eduardo Nogueira, um precursor da fotografia em Évora, activo durante a primeira metade do século XX, imagens sobre as quais Vanessa Rato, jornalista do Público, escreveu um texto.

É bem-vinda ao panorama fotográfico português a Estação Imagem, "uma associação sem fins lucrativos dedicada ao estudo e promoção da imagem, com particular enfoque na fotografia documental". Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa é o primeiro projecto que concretiza. Esperamos por mais.



© Pedro Letria


Centro Português de Fotografia, Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa, v/a
Campo Mártires da Pátria, Porto
De seg. a Sex., das 10h00 às 18h00;
Sáb., Dom. e Fer., das 10h00 às 19h00
Até 18 de Abril

01 março, 2010

=ColecçãoàVista= 49

Cristina Garcia Rodero (1949), Peregrinación, Les Saintes Maries de la Mer, Francia, 1994
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Rituais

Durante mais de 20 anos Cristina Garcia Rodero envolveu-se no estudo artístico das tradições populares de Espanha. Desse estudo resultaram alguns dos seus mais célebres trabalhos enquanto fotojornalista. No entanto, acabaria por deixar a terra natal para viajar pelo mundo em busca de outras culturas e tradições específicas.
Professora de Fotografia convidada da Faculdade de Belas Artes da Univ. Complutense de Madrid, recebeu vários prémios, designadamente, o prestigiado prémio W. Eugene Smith [1989] e o Prémio Nacional de Fotografia de Espanha [1996].
Amplamente publicado e exibido, o valor documental e etnográfico do seu trabalho é notável. A qualidade estética das suas fotografias ultrapassa o simples registo visual e aprisiona o nosso olhar.
(texto:CPF)

26 fevereiro, 2010

das imagens


Dennys Martins, Freguesia do Monte, Madeira



As imagens no tempo da ugência da partilha

Sérgio B. Gomes e João Pedro Pereira
(P2, Público, 22.02.2010)

Aconteceu com a tempestade que se abateu sobre o arquipélago da Madeira, no sábado, aconteceu com outras tragédias recentes em outras partes do mundo - as primeiras imagens divulgadas pelos media foram registos dos leitores partilhados em redes sociais na internet ou enviados directamente para as redacções de jornais, revistas e televisões. As fotografias e vídeos colocados na rede por quem experimentou um acontecimento extraordinário passaram definitivamente a ser matéria-prima das notícias dos meios de comunicação tradicionais (e das suas páginas na web), menos aptos para responder à velocidade - à quase imediação - a que correm aquelas imagens.

Estas redes sociais criaram uma dinâmica própria, não só fundada numa necessidade de mostrar, numa urgência de partilhar, mas também movida por apelos à solidariedade e ao espírito de entreajuda. Os media têm saciado a sua sede de imagens nestes espaços que se multiplicam e diversificam em distintas plataformas, consoante o suporte de registo e a lógica de distribuição. São imagens que se tornaram parte fundamental da construção do discurso noticioso que passou a incorporar o vernacular, as fotografias ou vídeos sem qualidade estética ou de produção, mas com um grande valor informativo.

Durante muito tempo, a distribuição em larga escala e em tempo útil de imagens foi um exclusivo dos media tradicionais. O certo é que este panorama tem vindo a sofrer profundas alterações. Um bom exemplo dessa mudança de paradigma aconteceu logo após o sismo que abalou o Haiti no início de Janeiro. O canal americano de notícias CNN (com a reputação de estar em todo o lado em qualquer momento) passou em vários noticiários e durante largos minutos as primeiras imagens sobre aquela tragédia divulgadas em redes sociais, como o Facebook, o Twitter ou o YouTube. Dentro dos estúdios da CNN, as câmaras de televisão saltaram de ecrã para ecrã de computador, de onde saíram as primeiras fotografias e vídeos da recente catástrofe haitiana.

Este sábado, a informação sobre o temporal da Madeira correu pelo Twitter, com curtos relatos de pessoas no local e fotografias a serem distribuídas e redistribuídas pelos utilizadores desta rede. Estas mensagens estavam normalmente identificadas com a palavra-chave #tempmad, abreviação de "temporal" e "Madeira" - no Twitter, estas palavras-chave, que são precedidas do símbolo cardinal, são chamadas hashtags e permitem aos utilizadores agruparem informação relativa ao mesmo assunto, tornando-a assim facilmente pesquisável.

Inevitavelmente, o YouTube foi inundado com vídeos amadores. As torrentes de água e lama, os carros arrastados e as pontes destruídas foram captados por câmaras de pouca qualidade e por telemóveis. Muitos destes vídeos acabaram em alguns dos principais órgãos de informação do país.

Pelo menos dois jornais - o Público e o JN - usaram nos seus sites um mapa interactivo criado com ferramentas da Google, que permitia a qualquer pessoa acrescentar pontos com fotos, vídeos e outra informação sobre as consequências do temporal. A iniciativa não partiu das redacções: o mapa foi criado pelo jornalista freelance e blogger Alexandre Gamela, a partir de Birmingham. E o mapa não continha apenas informação. Havia também pedidos de ajuda: "Se tiverem informações sobre a situação no Curral das Freiras, partilhem", lê-se ao clicar num ponto de interrogação sobre a localidade de Curral das Freiras, que esteve incontactável até ontem.

Os vídeos e fotografias dos amadores misturaram-se na Web com os dos profissionais. Nos sites de informação, nas televisões - e também na blogosfera - conviviam com as imagens captadas pelos cibernautas as imagens que iam sendo registadas pelos jornalistas em serviço.

Marcel Gautherot


Marcel Gautherot, Congresso Nacional em construção, c. 1958, Brasília
© Instituto Moreira Salles


Isabel Coutinho
(P2, Público, 22.02.2010)

Gautherot
O jeito inédito de ver o Brasil

Quando, debaixo de um sol quentíssimo, o arquitecto Augusto da Silva Telles, um dos grandes nomes do património histórico brasileiro, foi fazer uma visita de inspecção a um engenho colonial no interior do Rio de Janeiro, encontrou o fotógrafo Marcel Gautherot sentado no meio de um descampado.

Debaixo de uma sombrinha, com a máquina em cima do tripé, o francês comia calmamente uma sanduíche de mortadela. "Marcel, o que você está fazendo aqui?", perguntou-lhe Telles. Entre "uma mordida e outra", Gautherot apontou para o céu e disse: "Está vendo aquela nuvem ali? Quando ela estiver bem ali, eu faço a foto."

Esta é uma das histórias que fazem parte da lenda do fotógrafo francês, que viveu e morreu no Brasil, considerado o "mestre do preto e branco". Um homem paciente e reservado, que falava pouquíssimo nas entrevistas que deu, por vezes respondendo a resmungar, e que eternizou a utopia arquitectónica que foi a cidade de Brasília, a pedido do arquitecto Oscar Niemeyer.

No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Marcel Gautherot (1910-1996) e também os 50 anos da construção de Brasília, o Instituto Moreira Salles (IMS) organizou o livro e a exposição Norte, comissariada pelo professor universitário Samuel Titan Jr. e pelo escritor Milton Hatoum, com as imagens das viagens do fotógrafo à Amazónia. Pode ser visitada até ao dia 21 de Março no IMS, em São Paulo, e deverá seguir para o Rio de Janeiro e para a Europa. Em Abril publicarão o livro A Brasília de Marcel Gautherot, com um ensaio do arquitecto e crítico inglês Kenneth Frampton, que terá uma edição internacional na Thames & Hudson. Na mesma altura será inaugurada no Rio de Janeiro uma exposição dedicada à maneira como a capital brasileira tem sido retratada por fotógrafos.

O acervo de Marcel Gautherot foi comprado à família pelo IMS. São 25 mil fotografias cujos negativos estão em óptimas condições. Além de ser muito metódico, o fotógrafo dedicou os últimos anos de vida a organizar e a catalogar o seu acervo. "Tem uma qualidade estética muito alta, pois ele mesmo se encarregou de descartar aquilo que achava inferior e secundário", explica numa conversa telefónica a partir de São Paulo Samuel Titan Jr, o coordenador cultural do Instituto Moreira Salles.

Na última Feira do Livro de Frankfurt, em Outubro, Samuel apresentou à Thames & Hudson o projecto deste livro. Estava convencido que seria o projecto do IMS com mais vocação internacional. "Temos um lindo acervo fotográfico, mas sinto sempre que a primeira dificuldade é apresentar José Medeiros, Thomaz Farkas e Marcel Gautherot a um público não-brasileiro. Neste caso, Brasília serviu de isca, e, na sequência, tive que explicar quem era o Gautherot."

A primeira explicação que Samuel deu aos editores da Hudson foi "a mais folclórica": um francês que foge da II Guerra Mundial, se instala no Brasil e se deixa fascinar pelo país. "Esse é o lado mais fácil do apelo biográfico, mas também o lado pelo qual Gautherot não se distingue de outros estrangeiros que se apaixonaram pelo Brasil [por exemplo, os fotógrafos Pierre Verger e Jean Manzon]." Depois mostrou-lhes que Marcel Gautherot trouxe para a fotografia brasileira um olhar inspirado pela arquitectura moderna e pelo melhor do modernismo dos anos 20 e 30.

Influência do modernismo
Marcel Gautherot nasceu em Paris em 1910, numa família operária. Estudou na Escola de Artes Decorativas, onde o currículo era uma mistura de arquitectura, de arquitectura de interiores e de design. Estudava à noite e, apesar de não chegar a concluir o curso, entrou em contacto com o modernismo de Le Corbusier e de Mies van der Rohe. Empregou-se numa fábrica de "simpatias modernistas", onde desenhava móveis, e mais tarde acabou por ir trabalhar para o Museu do Homem, também em Paris, como arquitecto de interiores. "É assim, um pouco por acidente, que ele começou a praticar fotografia a cargo do museu. De um lado, tem a vertente arquitectónica e modernista, de outro, esse lado etnográfico que aprendeu no museu." É também por isso que, em 1936, vai ao México (a Meca dos fotógrafos e cineastas), onde conheceu o realizador russo Eisenstein.

Foi por causa de ter lido Jubiabá, de Jorge Amado, que Marcel Gautherot teve vontade de ir ao Brasil. A sua primeira grande viagem pelo país realizou-se no Norte, em 1939. Andou pela Amazónia, pelo Recife, por Belém. "Ele chega ao Brasil e certamente se deixa fascinar, mas tem um olhar muito culto. Aquilo que vai fazer nos 50 anos seguintes não tem nada a ver com exotismo tropical", explica Samuel Titan Jr. Na verdade, Gautherot chegou na altura em que no Rio de Janeiro se estava a organizar a geração de ouro da arquitectura brasileira: Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx, etc. Ficou amigo deste grupo de arquitectos, mas também dos arquitectos do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. Isso permitiu-lhe viajar pelos lugares mais recônditos do Brasil e contactar com a paisagem e com a arte luso-brasileira.

Nas fotografias do início da sua carreira já se notava o "estilo pessoal" que apareceria em todos os temas de que se ocuparia depois. "As fotos das viagens à Amazónia em 1939, de outra, em 44, e de uma terceira, em 54/55, são surpreendentes porque já antecipavam muitos dos ângulos e efeitos que ele iria perseguir quando depois foi fotografar uma coisa radicalmente diferente como Brasília. Essa procura da composição, e sobretudo a procura da distância certa para fotografar as coisas, já estava muito presente."

Na selva amazónica, Marcel Gautherot, em vez de tentar fugir às dificuldades - subir a árvores, fotografar de um avião ou tirar fotografias do meio do rio -, "quase sempre" recusou as soluções óbvias. Tentou trazer para as fotografias a sensação urgente de quem se sente assediado pela floresta e pela sua opressão. "Ele, em contraste com quase toda a tradição iconográfica anterior, aceitou a dificuldade como um ponto de partida do trabalho e não como um problema a ser evitado."

Da mesma maneira, quando foi fotografar Brasília e foi confrontado com a vastidão do espaço e uma linha do horizonte claramente desenhada mas sempre muito distante ("que dá uma situação de isolamento e de fragilidade no meio daquilo tudo"), Gautherot percebeu o que havia de característico, de peculiar, num certo tipo de paisagem e partiu daí. Ao contrário de muitos dos fotógrafos que fotografaram Brasília e que tentaram o close up, o anedótico, o engraçado, o patético. Chegaram lá e "não sabiam o que fazer com essa vastidão do horizonte que é uma espécie de vazio omnipresente."

Quando Marcel Gautherot se instalou definitivamente no Rio de Janeiro, em 1940, foi por causa do seu portfólio (com fotos de arquitectura que fez no México e em Atenas) que conseguiu trabalhar com o arquitecto paisagista Burle Marx (até aos anos 90), e com Niemeyer, que depois de Gautherot ter fotografado a Pampulha o convidou para integrar a equipa da construção de Brasília (une-os a afinidade estética - os dois são devotos de Le Corbusier - e também a questão política, o comunismo).

No acervo do fotógrafo que pertence ao Instituto Moreira Salles, 2950 das 25 mil fotografias são sobre a construção da capital brasileira. Em Brasília, Gautherot fez uma coisa que nenhum outro fotógrafo fez: fotografou a vida dos "candangos", os operários que foram construir a cidade. Fotografou os subúrbios do plano-piloto, que anos mais tarde se transformaram nas cidades-satélites. Naquela época eram acampamentos de trabalhadores, desde vilas operárias mais ou menos bem construídas até verdadeiras "favelas" (a "sacolândia"). "Por mais simpático que Gautherot fosse à arquitectura e às ideias políticas do Niemeyer, o facto é que ele registou Brasília de um ângulo que às vezes é heróico, mas também francamente crítico. Tem alguma coisa de muito promissor, mas também de muito ameaçador, naquelas pessoas que estão reduzidas a bonequinhos numa maqueta. É impossível ver as fotos de Brasília e não sentir que aquilo tem alguma coisa de risível, de uma maqueta perdida no planalto", afirma Samuel Titan Jr. O fotógrafo mais simpático à causa acaba por ser o que capturou a ambiguidade de Brasília como ninguém.

Uma das frustrações de Marcel Gautherot é nunca ter conseguido publicar estas fotografias. "Havia um controlo oficial tão estrito sobre o que se publicava de Brasília, havia um desejo tão ardente de fazer propaganda do país moderno, que essas fotos da vida miserável em torno de Brasília, que no fundo são já uma nuvem negra pairando sobre a utopia urbanística, nunca tiveram curso durante a vida dele."

Sem miserabilismo
Marcel Gautherot poderia ter sido um daqueles fotógrafos que praticam uma espécie de realismo socialista na fotografia. Mas, tal como explica Samuel, a simpatia comunista foi elaborada esteticamente por ele de "um jeito muito peculiar". Em vez de olhar para a vida popular como marcada pelo negativo (pela falta de cultura, de comida, de saúde, de dinheiro), como "uma espécie de vazio que se tem que preencher com imagens gloriosas de camponeses e operários cruzando a foice e o martelo", ele mostra uma espécie de plenitude e de positividade na vida popular. É por isso que se interessa tanto por fotografar o trabalho, os ofícios e as festas populares. A simpatia comunista serviu-lhe para não cair no miserabilismo na fotografia.

Quando se olha para o espólio de Marcel Gautherot, que imagem é que se tem do Brasil? "A imagem de um Brasil em tremenda transformação. É um Brasil que conserva ainda todas as marcas do século XVIII e XIX. O Rio de Janeiro que Gautherot fotografou é o da belle époque, do final do século XIX, início do XX. As Minas Gerais, que fotografou, estão virtualmente no século XVIII. E é o mesmo país onde estão se erguendo a catedral de Brasília, a Pampulha, em que os arquitectos cariocas estão a construir o aterro do Flamengo. Na década de 50/60 é um país de aceleração do processo de modernização e ao mesmo tempo é o lugar onde festas populares, costumes, jeitos e trejeitos lá do fundo da vida colonial, continuam existindo."

Fotografava com Rolleiflex. "Tinha uma herança pictórica tão forte que o fez desgostar da Leica e de todas as câmaras de disparo rápido. Ele sempre se manteve muito fiel à Rolleiflex e ao negativo quadrado, 6x6 cm. Mais clássica e que serve a esse desejo de composição que é muito forte nele. Esse tipo de escolha já mostra o tipo de fotógrafo que ele é: menos o do instante capturado do que o da composição cuidadosa."

Marcel Gautherot, o fotógrafo que um dia disse ao seu amigo, o poeta Jacques Prévert: "No Brasil, tive vontade de derrubar uma floresta inteira para tirar o retrato de uma certa árvore de que gostei."


Marcel Gautherot na ilha de Marajo, Pará, c. 1970
© Instituto Moreira Salles

=ColecçãoàVista= 48

Marques Abreu (1879-1958), Chegada de veraneantes. S/data
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Marques Abreu

Conhecido artista gráfico português, nascido em Tábua e que veio a falecer no Porto. Em 1892, era ajudante de farmácia no Porto. Logo a seguir passa para o ramo das artes gráficas. Em 1898, com Cunha Moraes, cria a Ilustração Moderna. De 1905 a 1912 publicou a colecção de monografias A Arte em Portugal. A produção editorial de Marques Abreu foi diversificada, sendo de assinalar mais de 28 títulos, de que se pode destacar o albúm de costumes Vida Rústica. Foi ainda professor de Gravura numa escola técnica no Porto. Em 1955 foi-lhe consagrada uma exposição na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, que serviu como uma homenagem pública. Em 17 de Dezembro de 1928, o Governo conferiu-lhe o Grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada.
(texto:CPF)

23 fevereiro, 2010

BESPhoto2009 para Filipa César


© Filipa César

Filipa César (1975) venceu o prémio BESPhoto 2009.

O júri de premiação justificou a sua escolha pela "criação de um objecto ímpar. Pela maneira inédita de tratar múltiplos problemas - a história de Portugal, a censura e a moral salazarista, o degredo, a homossexualidade feminina, o trabalho e a matéria - cruzando narrativas com geografia e construindo imagens em que o a-humano, o elementar, o cósmico, contaminam com fora inatingível, a acção do homem".

A artista foi seleccionada para a fase final do galardão pelos projectos Le Passeur, na Fundação Ellipse; Rapport/ Raccord, na Galeria Distrito Cuatro, em Madrid, e The Four Chambered Heart, na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa. Quando foi nomeada, o júri apontou "as qualidades fílmicas de documentário" do projecto Le Passeur e destacou nele "o olhar fotográfico consciente da tradição retratística do fotógrafo", considerando que esta relação está também bem explícita nos outros projectos da artista.

A exposição do artista vencedor daquele que já se transformou no principal prémio de arte contemporânea em Portugal (com um valor pecuniário de 25 mil euros) pode ser vista até ao dia 4 de Abril no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. Os artistas finalistas foram seleccionados por um júri composto pelos críticos de arte e comissários Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo com base em exposições realizadas no ano passado.

O júri de premiação foi constituído por José Gil, professor universitário, filósofo, ensaísta e ficcionista; Alberto Anaut, director da La Fábrica e presidente do PHotoEspaña e Marcel Feil, curador do Foam-Fotografiemuseum Amesterdam.

22 fevereiro, 2010

Schwarzenbach

Lisboa, s/a, 1941-1942


Annemarie Schwarzenbach
Uma vida em convulsão, uma fotografia em devaneio


Sérgio B. Gomes
(Ípsilon, Público, 19.02.2010)


É um risco. E quem o correu não quer fazer apostas. Nem uma previsão sobre as superfícies impressas para onde mais tenderá o nosso olhar – se para as fotografias onde fixaram Annemarie Schwarzenbach se para as fotografias que Annemarie Schwarzenbach fixou. É a obra a deixar-se ofuscar pela imagem do seu criador. Nada que não se tenha já concretizado, nada que não se pudesse já antever em relação a esta viajante suíça, também fotógrafa e aprendiz de arqueóloga, mas sobretudo escritora compulsiva, que durante uma vida curta (morreu aos 34 anos) se dedicou ao romance, ao conto, à epístola, à poesia e à reportagem, algumas vezes sobre os outros, quase sempre sobre si, os seus medos, angústias e contradições.

Esta ameaça de sombra (que também pode ser de brilho) não é nova. Emília Tavares e Sónia Serrano, as comissárias de Auto-Retratos do Mundo - Annemarie Schwarzenbach, 1908-1942, a exposição que na segunda-feira abre portas no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, tiveram-na em conta e, no início do projecto, até ponderaram fugir dela, mas viram-se perante uma força icónica poderosa, difícil de contornar – os rostos de Schwarzenbach impuseram-se paredes meias com mais de uma centena de fotografias captadas pela sua Rolleiflex em geografias longínquas (do Afeganistão ao Congo Belga), durante tempos agitados (da Áustria ocupada pelos nazis aos EUA mergulhados na Grande Depressão).

O magnetismo da figura andrógina de Annemarie Schwarzenbach e o seu poder de sedução enquanto sujeito fotográfico já tinham sido experimentados no Verão de 1987, quando a revista suíça Der Alltag decidiu resgatá-la do esquecimento com uma série de artigos sobre a sua vida e obra a que se seguiu a publicação de livros inéditos. Nessa altura, um retrato seu de 1930, estampado na capa de uma revista e em cartazes espalhados por Zurique, bastou para aguçar a curiosidade sobre quem terá sido e o que terá produzido aquele ser, cujo rosto se revelava tão desconcertante, simples e belo, cujo olhar se mostrava tão melancólico, profundo e sombrio. Schwarzenbach, habituada a conviver com máquinas fotográficas desde cedo por causa de uma mãe obsessiva com o registo da sua figura, parece consciente do frenesi encantatório da sua imagem. Sónia Serrano conta no catálogo da exposição que a escritora enviou a Claude Carrac (segundo secretário da delegação francesa na Pérsia com quem manteve um casamento à distância) a fotografia que fez capa da Der Alltag com a dedicatória “Quelque ressemblance de Annemarie” (“Alguma semelhança com Annemarie”) juntamente com “um provocatório texto sobre si” no verso do papel fotográfico. Consciente ou não desse poder, Annemarie Schwarzenbach sabia estar diante de uma objectiva, não a temia, deambulava perante ela em poses sedutoras, que fazem lembrar sofisticadas produções de moda.

Perto do precipício
Primeiro, as passagens por Lisboa e pelas ex-colónias portuguesas. Depois as viagens por África, Médio Oriente e EUA. E depois a vida na Europa central. À medida que se foram acrescentando núcleos de fotografias captadas por Annemarie Schwarzenbach durante as suas viagens e se foram organizando documentos sobre a sua obra literária, cresceu a consciência de que faltava a imagem de uma viagem não menos importante também fornecida pelos inúmeros retratos que fizeram de si – a viagem interior, um caminho que Schwarzenbach nunca parou de percorrer. Sónia Serrano em conversa com o Ípsilon: “Tendo ela esta força imagética era impossível não incluir fotografias suas enquanto tema da fotografia. Tem necessidade de ser fotografada. E tem a percepção do seu poder enquanto imagem fotográfica. Esta predisposição para a imagem está de alguma forma relacionada com a obra literária que produz – quase tudo fala sobre si, quase tudo gira à sua volta.” Muito antes do poder da sua imagem, Annemarie passeou o seu poder de sedução em pessoa: para o Nobel da Literatura francês Roger Martin du Gard tinha um “belo rosto de anjo inconsolável”; a fotógrafa berlinense Marianne Breslauer, com quem trabalhou no início dos anos 30, disse que era semelhante a uma obra de arte, “estranha mistura entre homem e mulher”; depois de a conhecer, a escritora americana Carson McCullers admitiu que o seu rosto a perseguiria “para toda a vida”.

Assim descrita, espalhando deslumbramento e erotismo, Annemarie Schwarzenbach - “um dos segredos mais bem guardados da literatura europeia” nas palavras de Carlos Vaz Marques no prefácio a Morte na Pérsia (ed. Tinta da China, 2008) - parece alguém muito seguro de si. É certo, no entanto, que a sua curta existência carregou intensas lutas interiores (tentativas de suicídio, constantes reabilitações por causa da dependência da morfina, homossexualidade reprimida pela família) e sua postura perante a vida, em constante vaivém, sempre perto de um qualquer precipício, em convulsão, reflecte em certa medida uma Europa mergulhada em “mal-estar”, um continente que assistiu à ascensão do nazismo e consequente demência exterminadora por ele gerada. Annemarie é oriunda de uma família aristocrática, herdeira de um milionário negócio ligado aos têxteis. Numa sociedade conservadora e perante uma mãe possessiva (os Schwarzenbach eram simpatizantes do regime nazi), manifestou a sua discordância com o rumo dos acontecimentos políticos à sua volta revelando “ideias modernas e antimilitaristas”. No início dos anos 30, deu início a um ciclo de idas e voltas que só teve fim quando morreu, em 1942, após complicações originadas por uma queda de bicicleta, em Sils, no sul da Suíça.

Terminada a formação académica em História, em 1931, Annemarie Schwarzenbach passou a dedicar-se cada vez mais à escrita. Apesar de uma produção relativamente vasta - se considerarmos o curto período em que sua obra fotográfica ganha efectivamente algum relevo – a fotografia nunca foi o seu suporte de eleição e terá começado a interessar-se por ele por influência da mãe, fotógrafa compulsiva. A palavra (ou a simples sonoridade que potencia, como chegou a confessar) é o seu campo criativo favorito, mas o conjunto da obra fotográfica que produziu está longe de ser figura de corpo presente. “As imagens que Schwarzenbach foi produzindo nas viagens ao longo da sua vida gizam trajectos marginais de entendimento da fotografia muitas vezes de forma completamente solitária”, escreve Emília Tavares, para quem a fotografia da autora “não se enquadra em nenhum género, não segue nenhum movimento e é difícil de catalogar”. As motivações para ter pegado na Rolleiflex são variadas e vão do registo documental, de testemunho ou denúncia, à contemplação prazenteira ou à mais pura deambulação sem objectivo concreto, uma errância visual que condiz mais com o espírito de viajante do que com o de turista (Annemarie criticou sempre o sightseeing).

Portugal, o fim da aventura?
Schwarzenbach tem a prática fotográfica adquirida desde cedo. Mas é uma viagem de trabalho, em 1933, ao Norte de Espanha com a fotógrafa berlinense Marianne Breslauer que marcou o início de uma apropriação mais consequente da fotografia. Além dar relevo à inevitável faceta literária de Annemarie Schwarzenbach na sua mais complexa teia de estilos e géneros, a exposição do Museu Berardo procura identificar as particularidades e a relevância criativa da imagem fotográfica no conjunto da obra da autora suíça. No que respeita à fotografia, o percurso será orientado através de quatro grandes núcleos – Médio Oriente, Fascismos, EUA e África - que correspondem a diferentes abordagens formais, muito condicionadas por diferentes estados de espírito da autora, influências criativas e tempos históricos em rápida mutação.

Quando regressou da primeira viagem ao Médio Oriente, para onde partiu em 1933 a fim de participar em escavações arqueológicas na Turquia, Síria, Líbano, Palestina, Iraque e Irão, todas as imagens que trouxe na bagagem eram já da sua autoria. Nestas fotografias, tentou fugir ao exótico e procurou apreender as culturas que a rodearam. “É uma fotografia que não mostra o habitual postalinho”, diz ao Ípsilon Emília Tavares. Por esta altura, concretizou algumas reportagens (fotográficas e escritas) em que tentou denunciar as alterações económicas e sociais que as expedições ocidentais estavam a provocar nas populações locais, num difícil compromisso entre tradição e progresso. Na última viagem ao Médio Oriente (de carro na companhia de Ella Maillart, outra grande viajante) mantêm-se as imagens que remetem para a “ancestralidade dos lugares” mas desta vez num estilo mais “acutilante e informativo” e, ao mesmo tempo, mais “errático”, fruto de uma negação da velocidade em que já se produziam as imagens. São do Médio Oriente a maior parte das fotografias que hoje dão corpo ao espólio de Annemarie S. depositado nos Arquivos Literários Suíços. São também as mais conseguidas. “O simbolismo da paisagem, a constatação das mudanças políticas e sociais, a importância da religião e dos lugares sagrados, o fascínio pela liberdade e respeito pela dureza do nomadismo”, constituem, grosso modo, os assuntos a que deu mais atenção.

Em fuga de mais uma temporada de entradas e saídas em clínicas de desintoxicação, tentando ultrapassar equívocos e dramas de amor, Schwarzenbach partiu em Agosto de 1936 para os EUA a convite da fotógrafa Barbara Hamilton-Wright. A ideia era fazer um conjunto de reportagens sobre as populações mais carenciadas no Sul do país, a braços com uma crise social e económica sem precedentes – a Grande Depressão. É o trabalho fotográfico onde revela mais objectividade e realismo e no qual concentra quase todos os recursos criativos (deixou de lado a literatura e investiu nas reportagens). Nos EUA, conhece Roy Striker, economista fotógrafo e um dos ideólogos da nova fotografia norte-americana de reportagem materializada no projecto da Farm Security Administration. As abordagens marcadas por grandes planos de miséria social, das condições do trabalho e de paisagens áridas, um conceito de fotografia “comprometida”, de denúncia, acaba por influenciar a sua prática na época. É o seu trabalho fotográfico mais “classificável”, mais colado a um género e a uma estética realista, onde os rostos e as pessoas assumem um protagonismo que acabará por influenciar futuros registos.

Quando, na Europa Central, o nazismo começou a alastrar definitivamente os seus tentáculos para fora da Alemanha, Annemarie regressou a casa, na Suíça, e começou a aperceber-se do clima de opressão e desvario que se preparava. Na Primavera de 1938, foi até Viena, na Áustria, numa altura em que o país já estava sob jugo alemão e a cidade já estava transformada num palco de propaganda nazi. Fotografou “a arrogância da pose dos oficiais, os recrutamentos, as paradas obrigatórias, a manipulação de toda a população pela fome e pelo desemprego”. Os comentários que escreveu no verso das fotografias (um exercício de micro-narrativa que cultivou em outras ocasiões) são claros na condenação de uma espiral de demência ideológica e militar.

As comissárias decidiram juntar a este núcleo as escassas fotografias que Annemarie tirou em Portugal, em 1941 e 1942. É uma provocação e um contraponto à lucidez crítica que a autora demonstrou na Áustria. O conjunto de reportagens que acabou por concretizar mostram Lisboa ora carregada de estereótipos, ora trabalhando em prol dos interesses suíços no único porto livre do Atlântico, em plena II Guerra Mundial. “Mais do que as imagens que tirou, o que marca a passagem de Annemarie Schwarzenbach por Portugal são as imagens que não tirou”, sublinha Emília Tavares. Os artigos feitos por encomenda da embaixada da Suíça em Lisboa, são revistos por mais do que uma entidade de censura e parte das fotografias publicadas são fornecidas pelos serviços de propaganda do regime de Salazar. “Razões pessoais e políticas terão estado na origem deste olhar tão diverso [para uma e outra ditadura], mas não deixa de ser significativo que Portugal tenha conseguido, em plena Segunda Guerra Mundial, manter uma máquina de propaganda eficaz, e muito semelhante às de outros países, em que a imagem de país ‘paraíso’ e único estado europeu em progresso, foi sendo instaurada interna e externamente”.

Foi de Lisboa, a bordo do navio Colonial, que Annemarie partiu rumo ao continente africano para as suas derradeiras viagens pelo mundo na tentativa de um recomeço, de um novo projecto de vida. Antes de chegar ao Congo Belga (actual República Democrática do Congo), fez escalas na Madeira e em S. Tomé. Em pleno coração de África, foi ao encontro de um casal de suíços que explorava a maior plantação do país. Passou um mês a deambular pela região com a senhora Vivien, uma nova geografia que lhe deu alento para escrever e fotografar. Fez imagens num registo muito próximo da linguagem visual antropológica do século XIX e não foi capaz de esconder o “preconceito da superioridade da civilização ocidental”. “Se no Médio Oriente as imagens são o cerne de um questionamento complexo entre a representação ocidental dessa cultura e um desejo de desafiar essa constante secular, já nas viagens a África, tanto na escrita como nas imagens, encontramos enraizada e muito questionada uma ideia de ‘colonialismo’ e da sua representação”, escreve Emília Tavares.

Antes de regressar à Suíça, ainda passou por Marrocos onde se encontrou pela última vez com o ainda seu marido. Tencionava pedir-lhe o divórcio, mas arrependeu-se.

Diz-se que depois do fatídico Verão de 1942 Annemarie pretendia estabelecer-se em Portugal. Henri Martin, embaixador da Suíça em Lisboa e amigo de longa data, convidou-a para ficar na capital portuguesa como correspondente do jornal Neue Zürcher Zeitung. A própria admite a ideia numa carta a Ella Maillart: “Talvez regresse a Portugal para viver no campo (…)”. Portugal era para si um país “acolhedor”, surgia-lhe como um lugar privilegiado para “estar em contacto com a mentalidade e os problemas” que assolavam a Europa. Talvez fosse o lugar escolhido para continuar a procurar aquilo que nunca soube identificar, aquilo que nunca encontrou. O lugar escolhido para o fim da aventura. Não podemos saber.

18 fevereiro, 2010

Carlos Afonso Dias (1930-2010)


Miradouro de Sta. Luzia, Lisboa, 1957
(© Carlos Afonso Dias)


Morreu o fotógrafo Carlos Afonso Dias.

Em actividade desde meados da década 50, contemporâneo de Gérard Castello Lopes, Costa Martins/Vítor Palla, Carlos Afonso Dias foi um dos poucos que nos anos de penumbra criativa do Estado Novo desviaram caminho da fotografia salonista e académica que então se praticava. Sem referências internas para seguir, os que escolheram a fotografia livre do jugo ideológico procuraram noutras paragens o seu modelo de fotografia. Henri Cartier-Bresson foi um desses faróis. E com ele a fotografia preocupada com os valores e a dignidade do ser humano que Carlos Afonso Dias também praticou.
O percurso de Carlos Afonso Dias na fotografia portuguesa é discreto e foram raras as vezes que mostrou o seu trabalho em público. O primeiro grande raio de luz que se projectou sobre as imagens que tirou em Portugal e no estrangeiro foi dado pela Galeria Ether, Vale Tudo Menos Tirar Olhos, em 1989, com a exposição Fotografias 1954-1969.
Em Outubro de 2008, a galeria Pente 10 mostrou boa parte das imagens mais significativas dos primeiros anos de actividade de Carlos Afonso Dias, engenheiro geógrafo de profissão, e revelou também um pequeno conjunto (6 fotografias) captadas nos últimos anos.

Carlos Afonso Dias é um grande fotógrafo português e, como todos nós, é um fotógrafo 'estrangeirado'. Seria bom que o público que se interessa pela fotografia soubesse que os fotógrafos portugueses só se servem de um ingrediente nacional: a água. Tudo o resto: a máquina, a objectiva, o filme, os filtros, o flash, os produtos químicos, o ampliador, as lâmpadas, o papel vem de fora. Como de fora vem a moda, um estilo, as preocupações, as revistas e os livros; numa palavra: os paradigmas.

Gérard Castello Lopes, prefácio a Carlos Afonso Dias, Lisboa, 1989

14 fevereiro, 2010

/uma fotografia, um nome\


Valter Vinagre, da série Pensaram matar o bicho, ficou a peçonha, 1999-2009
© Valter Vinagre


Na vida de todos os dias há coincidências inesperadas. Tinha escolhido uma imagem de carácter antropológico do Valter Vinagre para comentar aqui (uma fotografia terrível, de um passo de uma cerimónia religiosa nocturna e tradicional) e o Sérgio enviou-me esta que de antropológica só tem o título da série, mas que igualmente mergulha nas impressões que são armadilhadas pelo inconsciente.

Valter Vinagre tem uma longa história na Fotografia. Explora temáticas variadas, mas do que mais gosto nele é a sua aptidão para captar a estranheza do mundo e dos homens, seja com esse olhar antropológico que revela gestos e costumes de sobrevivência, seja o olhar que demora nas contradições do sujeito.

Assim, esta é uma imagem intimista. Colheu um momento preciso em que os faróis de um carro atravessam a névoa de um dia, desenham uma paisagem de indecisão que nos lembra Ingmar Bergman. O homem, sabemos, gosta do jogo de codificar e descodificar e faz disso a sua longa peregrinação para a descoberta do mundo e de si. Sabemos que é o indecifrável, o sem-nome, que o perturba e por isso mesmo transforma esse exterior que absorve como um caos indomável, num cosmos organizado e, acima de tudo, desmontável – desde a lei científica ao enquadramento de uma paisagem.

Só assim o mundo ganha coerência e o homem segurança e isonomia.

Valter Vinagre levanta, por vezes, as brechas dessa percepção ilusória. Nesta imagem o espaço mais próximo (esse próximo que se nos oferece com uma clareza absoluta na definição e no controlo, como um flash de realidade bem descodificada) contrasta com a indeterminação que nasce sob o avanço da luz dos faróis do carro.

Reconhecemos estes lugares sob um céu liso, são lugares de estranheza nos nossos sonhos e no assalto dos medos dos mitos. Não interessa que se construam com arquétipos ou imagens de filme ou ainda com uma experiência mal vivida, são lugares de passagem entre dois mundos e é esse conhecimento que ecoa da mentalidade mítica que ainda se infiltra, quase imutado, no nosso quotidiano. A figura da passagem do conhecido para o desconhecido, de um mundo para um outro, marcou a indeterminação das coisas e do saber mágico da pré-ciência. Mas permaneceu na linguagem e atravessa os tempos, fazendo alternar sucessivamente uma concepção realista por uma abstracta da arte e do saber. O realismo que regula o nosso olhar é uma simulação biológica, do corpo, para identificar o perigo do mundo, que o abstraccionismo tende a codificar para melhor o compreender.

Este mundo que Valter Vinagre nos oferece é, naturalmente, perigoso. E o perigo é o alerta de todas as sensações envoltas pelo medo.

É isso que o fotógrafo traduziu: a familiaridade exacerbada do primeiro plano, a graduação da distância conjugando as muitas concepções que a teoria nos informa para que o segredo se mantenha como segredo. E o segredo é precisamente um dos indicadores do social e do íntimo que a nossa cultura informática tende a fazer desaparecer.

Talvez por isso a Fotografia se revele como o elo entre um saber nostálgico e o saber deste nosso presente volátil.

Maria do Carmo Serén

13 fevereiro, 2010

Molder



Jorge Molder
© Clara Azevedo


Vale a pena ler a entrevista que Anabela Mota Ribeiro fez a Jorge Molder, onde o fotógrafo fala da influência dos sonhos e das imagens de cinema no seu trabalho.
O texto da Pública está aqui

WPP09

© Pietro Masturzo


O fotógrafo italiano Pietro Masturzo venceu o World Press Photo of the Year 2009 com uma imagem que mostra um grupo de mulheres num telhado a gritar em protesto nos dias seguintes ao anúncio dos resultados das polémicas eleições presidenciais no Irão que colocaram novamente no poder Mahmoud Ahmadinejad.
"A fotografia mostra o princípio de alguma coisa o princípio de uma grande história. Acrescenta perspectivas à notícia. Toca-nos tanto visualmente como emocionalmente, e o meu coração entregou-se imediatamente”, afirmou o presidente júri da 53ª edição do prémio, Ayperi Karabuda Ecer. A reportagem de Masturzo valeu-lhe ainda o primeiro prémio na categoria Pessoas nas Notícias.
Para ver uma galeria com algumas das imagens premiadas clique aqui

OjodePez

El brazo de Simona con flores, "Residencia Palazzo Francisci", Todi (PG) 2007
© Simona Ghizzoni/Contrasto


Está aberto o prazo de entrega de trabalhos para o prémio de fotografia documental III Premio PHotoEspaña OjodePez de Valores Humanos.
O portfólio vencedor será conhecido durante Junho, por ocasião do festival PHotoEspaña 2010.
A última edição do prémio contou com mais de 620 candidaturas, enviadas de 50 países. A fotógrafa italiana Simona Ghizzoni foi a vencedora com o trabalho Odd days.
As candidaturas podem ser feitas até 1 de Maio aqui

08 fevereiro, 2010

=ColecçãoàVista= 47

José Osório da Gama e Castro (1858-1923), Casa do Conselheiro Oliveira Baptista, Arcozelo, s/d
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Arcozelo

Nasceu na freguesia de Nespereira, concelho de Gouveia, em 1856 e com apenas 22 anos formou-se em Direito. Seguindo a tradição familiar de seu pai e seu avô cedo mostrou um carácter social interventivo, designadamente na fundação do Clube Camões, na conclusão das obras do Teatro Hermínio e na renovação das Escolas Primárias do concelho.
Da sua actividade como fotógrafo resultou um fundo que em 2003 foi doado pelo seu sobrinho-bisneto, Eduardo Osório Gonçalves, ao CPF. O fundo é na sua maioria constituído por paisagens e retratos individuais e de grupo que mostram o urbanismo, os lanifícios e os usos e costumes das beiras. São imagens cativantes que revelam a vivacidade cultural, qualidades humanas e o talento peculiar para a fotografia deste autor português.
(
texto:CPF)

best of 2009


The Spirit & The Flesh, de Debbie Fleming Caffery, ensaio de Carrie Springer, Radius Books, 2009



Andei a passar os olhos novamente pelos títulos escolhidos pelo painel da revista photo-eye que resultou na lista dos Best Photobooks of 2009. Sei que já vamos um bocadinho longe da praga das listas de fim de ano e que de listas está o mundo cheio, mas esta relação oferecida pela photo-eye é um utilíssimo farol para chegar ao que de melhor se publicou ao longo do ano passado. Aqui

 
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