09 janeiro, 2010

yo, otro

Gauri Gill, Balika Mella, portraits, 2003
© Gauri Gill

O Artium, Centro Museo Vasco de Arte Contemporáneo de Vitoria, mostra Yo mismo y el otro. Retratos en la fotografía india, uma selecção de retratos de 16 artistas indianos que tenta dar conta do pulsar criativo neste género fotográfico no segundo país mais populoso do mundo.
O texto do catálogo pode descarregado aqui

Fotonoviembre


© Loretta Lux

O Tenerife Espacio de las Artes acolhe há pouco mais de um ano o Centro de Fotografía Isla de Tenerife que organiza a cada dois anos o Festival Internacional de Fotografía de Tenerife, Fotonoviembre, que está a cumprir dez edições. A espinha dorsal da bienal foi construída em torno da Colección Ordóñez Falcón de Fotografia, de onde foram seleccionadas mais de uma centena de imagens do seu espólio para mostrar em vários espaços de Tenerife.

07 janeiro, 2010

Segunda Escolha

© António Pedro Ferreira

A [K Galeria] não podia começar melhor a programação deste ano. O trabalho António Pedro Ferreira, fotojornalista do Expresso, é hoje apresentado no Bairro Alto. É uma boa notícia porque quem (como eu) conhece minimamente as fotografias de António Pedro Ferreira fica sempre com a sensação de querer ver mais.
Luiz Carvalho, também fotojornalista do semanário Expresso, escreveu sobre António Pedro Ferreira e "os meses intensos" que passou em Paris durante um estágio na agência Magnum.

Eis esse texto:

O salto de um fotógrafo enquanto jovem

O que leva um médico recém-nascido a abandonar o berço da Pátria e a refugiar-se em Paris na Casa de Portugal? A desilusão de um país adiado, o engano na escolha do canudo, ou a coragem de finalmente poder fugir com a amante? Entenda-se: a fotografia. Está ultima hipótese é a mais considerada em círculos próximos e amigos do António Pedro Ferreira.

Esta fuga reporta a 1982 e estende-se até 84, o período sabático que esse jovem médico com a cabeça na fotografia permaneceu em Paris atrás de emigrantes portugueses, à procura de um conjunto de imagens que pudesse testemunhar e entender socialmente os seus conterrâneos emigrados. A aventura foi possível graças a uma parca bolsa da Secretaria de Estado da
Cultura, ao apoio de amigos que então estudavam em Paris, a um impulso próprio dos apaixonados: uma urgência em pegar na Leica M4 e ir em busca de uma história, de um discurso visual.


Foram meses intensos. A Agência Magnum fazia a supervisão do trabalho para apresentar ao promotor da bolsa e era o ciumento Jimmy Fox, rédacteur-en chef, que recebia o António Pedro todos os meses e lhe supervisionava o ensaio fotográfico. Nunca um fotógrafo português tinha tido esta possibilidade: poder estagiar na mais mítica agência de fotojornalismo.

Depois das idas à Magnum, com todo o ritual que isso significa (imagine-se o que sentiu um fotógrafo como o António Pedro Ferreira ao poder ver o Henri Cartier-Bresson mesmo ao longe!) os dias eram longos e dedicados. Milhares de fotografias em bairros como St. Denis ou Gentilly, em festas, casamentos, momentos de ócio, trabalho. Contactos, amizades, intimismo, cumplicidades.

As noites eram para o laboratório de fotografia improvisado, uma arrecadação com água corrente, na residência universitária onde pernoitava.

O que é notável nestas fotografias do António Pedro é que elas marcam o início de uma nova atitude no fotojornalismo português. Estávamos perante um jovem que queria intervir na sociedade, testemunhando, convergindo com uma preocupação inabalável de produzir fotografias com referências. Fotografia pura e dura. Daí a Magnum e o aval de qualidade que sempre atestou ao seu trabalho.

Se o poema de Manuel Alegre sobre a emigração em França nos comove, o filme “O Salto” nos envolve, ou se as cantigas de José Mário Branco nos embalam para um tempo a preto-e-branco, as fotografias do António Pedro são o somatório de tudo isto na síntese perfeita do instante decisivo.

Tive a felicidade de ter podido compartilhar com o meu amigo alguns dias nesse distante ano de 1983. Lembro-me de um baile em St. Germain-des-Prés e de um jantar festivo numa colectividade nos arredores de Paris. Eram tempos simples, austeros, mas de uma esperança infinita que nos foi traída.


Luiz Carvalho, 25 de Novembro 2009


Segunda Escolha, de António Pedro Ferreira
[Kgaleria], Rua da Vinha 43A – Bairro Alto, Lisboa
De seg. a sex. das 10h às 18h, sáb. das 14h às 19h (excepto feriados)
Até 6 de Fevereiro

06 janeiro, 2010

Lhasa


Desde há três dias que o meu leitor de CD não pára de tocar os três discos que Lhasa de Sela (1972-2010) nos deixou.

as melhores


© Jochen Lempert


O top ten dos críticos do Público (José Marmeleira, Luísa Soares Oliveira e Óscar Faria) para as melhores exposições em Portugal em 2009 inclui quatro mostras de fotografia. O primeiro lugar é ocupado por Trabalho de Campo, de Joachen Lempert (Culturgest, Lisboa) e o segundo por bone lonely, de Paulo Nozolino (Galeria Quadrado Azul, Lisboa). Estão ainda referenciadas Arquivo Universal - a condição do documento e a utopia fotográfica moderna (Museu Berardo, Lisboa) e Sem Saída/Ensaio Sobre o Optimismo, de Augusto Alves da Silva (Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto).

Conversaciones

Hannah Collins, Lisboa, 2006
© Hannah Collins


A editora espanhola La Fábrica tem lançado nos últimos anos um interessante conjunto de pequenos livros com conversas entre fotógrafos e pessoas ligadas ao universo da imagem. As obras estão agrupadas na colecção Conversaciones e as edições de 2009 incluem trocas de ideias com John Baldessari, Hannah Collins, Axel Hütte, Gonzalo Puch, Wolfgang Tillmans e Jeff Wall.

2009


Adriano Miranda, Armando Vara, Aveiro, 2009
© Adriano Miranda/Público


Imagino que nesta altura do campeonato já ninguém tenha um segundo de paciência para balanços de fim de ano, mas ainda assim queria partilhar estas duas galerias com algumas fotografias marcantes de 2009. Uma é o resultado de uma selecção de imagens feita pelos fotógrafos do Público e a outra de uma escolha da agência Reuters.


(portugal)




(mundo)


Beatles to Bowie


Robert Whitaker, The Beatles, 1964
Robert Whitaker Archive © Robert Whitaker


Entrou na recta final a exposição Beatles to Bowie, the 60s exposed da National Portrait Gallery de Londres que recupera algumas das imagens que ajudaram a criar o Swinging London dos anos 60 e muitos dos ícones desse tempo (e do nosso tempo).

04 janeiro, 2010

Matador M., Barcelona

Francesc Català-Roca, Barcelona, s/d

A revista Matador dedica a edição M. a Barcelona. Ao longo das páginas de uma das mais sumptuosas publicações de fotografia e ensaio aparecerão portfólios de Francesc Català-Roca, Thomas Ruff, Manel Esclusa, Txema Salvans, Ferran Freixa e textos de Eduardo Mendoza, Josep Pla, Rodrigo Fresán, Santiago Roncagliolo, Oscar Tusquets, Fernando Amat, entre outros. Na próxima segunda-feira, o espaço da La Fábrica em Barcelona acolherá uma exposição com algumas das obras publicadas na revista.

=ColecçãoàVista= 43


James Forrester, Douro, s/d
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


James Forrester (1809-1861)

Nascido na Escócia, fixa-se no Porto em 1831, onde tinha um tio comerciante. Respeitado no seio da comunidade inglesa, foi uma figura bastante interveniente na política social e cultural da cidade. Importante negociante de vinhos, pertenceu às principais instituições comerciais e industriais, revelando-se versado na região do Douro e no vinho do Porto. Formado em pintura, desenho e em gravação litográfica, executou plantas e cartas do Douro. Conhecem-se alguns papéis salgados resultantes da fotografia que efectuou entre 1854 e 1857. Em 1856 usa o colódio húmido. A sua contribuição para a produção de obras sobre a viticultura do Douro valeu-lhe o título de barão de Forrester, oferecido pela Coroa Portuguesa. Morreu afogado no rio numa visita à “Ferreirinha”. O corpo nunca viria a ser encontrado.
(texto:CPF)

24 dezembro, 2009

Novos talentos

© Miguel Godinho

Miguel Godinho é o vencedor do Prémio Novo Talento Fnac Fotografia 2009. O projecto Mimesis traça os caminhos, ora subtis ora declarados, da necessidade do Homem em estar ao lado da natureza, de se enquadrar nela e de a tomar como modelo nas mais ínfimas manifestações da vida e do quotidiano.
Miguel Proença, com Los Agarradores, e Cátia Alves, com Um Dia Pergunto o Teu Nome, foram distinguidos com menções honrosas.
O júri que seleccionou estes trabalhos foi composto por António Júlio Duarte (fotógrafo), António Pedro Ferreira (fotógrafo), Fátima Marques Pereira (professora), Miguel von Hafe Pérez (crítico e comissário) e o escriba deste blogue.
A exposição com o trabalho vencedor será inaugurada no dia 22 de Janeiro na Fnac Colombo. Los Agarradores tem inauguração marcada para o dia 29 de Janeiro na Fnac do Norte Shopping e Um Dia Pergunto o Teu Nome para o dia 12 de Fevereiro na Fnac Almada.

Mimesis é a arte de reproduzir, de imitar, de tomar por modelo, de assemelhar, de falsificar. Mimesis parte da relação entre o Homem e a natureza, da necessidade que o Homem sente em criar espaços e objectos numa tentativa de copiar a própria natureza através de reproduções artificiais.
Miguel Godinho, Mimesis


© Miguel Proença

Desde a Idade do Bronze que os galegos se ocupam de adestrar as bestas. A existência de manadas selvagens nas montanhas, dá lugar a um dos espectáculos mais genuínos sobre a lida destas gentes do campo que, cada Verão, se exibe nos montes para, com gritos guerreiros, obrigar os cavalos a descer das montanhas aos vales.
Miguel Proença, Los Agarradores


© Cátia Alves

Não são retratos de um indivíduo porque neles, por muito que se incluam muitas variações, nunca se consegue aglomerar um Eu, são antes retratos da nossa pluralidade, identidades globais dispostas em catálogo.
Cátia Alves, Um Dia Pergunto o Teu Nome

Na Lona

Na Lona, Rio de Janeiro, Brasil
© Rogério Reis

A exposição Na Lona de Rogério Reis (Galeria Zoom de Fotografia, Paraty) marca o arranque da próxima edição do Parary em Foco que decorrerá entre 15 e 19 de Setembro de 2010. Na Lona é o resultado de 14 anos de trabalho no meio do Carnaval do Rio de Janeiro. Em todos as imagens, Reis optou por retirar do contexto os retratados utilizando uma lona que dá nome à exposição.


Na Lona, Rio de Janeiro, Brasil
© Rogério Reis

21 dezembro, 2009

entre aspas


Girl in bus and figures in street during snowstorm, Nova Iorque, EUA, 1967
© Erich Hartmann/Magnum Photos

A large portion of my work is concerned with people because people are the most inventive and news-making part of our lives. Yet I am as much attracted to the evidence of their presence and efforts, whether good or evil, as I am to the people themselves.

Erich Hartmann, in Magnum Photos Featured Photographer

=ColecçãoàVista= 42

Clarence H. White, Alfred Stieglitz, Experiment 28, 1909
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Camera Work

Clarence H. White (1871-1925) foi um dos membros fundadores do movimento americano Photo-Secession, liderado por Alfred Stieglitz (1864-1946), constituído para promover uma estética própria, impulsionando o pictorialismo e a afirmação da fotografia enquanto arte.
Colaborou com Stieglitz na revista Camera Work (1903-1917), onde publicou as suas imagens de 1903 até 1910. Os trabalhos desta publicação foram expostos a partir de 1905 na Galeria 291 (situada exactamente no número 291 da 5.ª Avenida em Nova Iorque), o primeiro espaço a exibir fotografia como meio de expressão artística. Em 1914, abre a Clarence White School of Photography em Nova Iorque, escola que se manteve em actividade até 1942. A presente fotogravura foi publicada no n.º 27 da Camera Work em 1909.
(texto:CPF)

encontrar

Rob Gnant, Regen, Londres, 1957
© Fotostiftung Schweiz

O Fotostiftung Schweiz é vizinho do Fotomuseum Winterthur, em Zurique, na Suíça. Instalados num antigo complexo industrial, as duas instituições gozam de autonomia e estão concentradas em diferentes áreas da fotografia - o Fotostiftung Schweiz dedica-se à fotografia suíça ao longo de todo o seu percurso histórico, enquanto que o Fotomuseum Winterthur está mais focado na fotografia internacional contemporânea e histórica.

O site do Fotostiftung Schweiz (depurado e eficaz) disponibiliza centenas de fotografias da sua colecção que no total guarda mais de 50 mil imagens. É muito fácil perdermos (e encontrarmos) a noção do tempo aqui


Yvan Dalain, Geister-Express, Zurique, 1956
© Fotostiftung Schweiz

20 dezembro, 2009

Rodchenko

Alexander Rodchenko,Lily Brik, retrato para o poster Knigi, 1924
© A. Rodchenko, V. Stepanova Archive/Moscow House of Photography Museum

A arte fotográfica de Alexander Rodchenko (1891-1956) está à vista no Foam_Fotografiemuseum de Amesterdão, que apresenta uma extensa exposição retrospectiva daquele que é um dos mais profícuos criadores avant-garde do século XX. A mostra apresenta mais de 200 provas vintage, algumas das quais nunca antes vistas a Ocidente. Depois de se ter tornado famoso pela pintura, escultura e design gráfico, Rodchenko decidiu abraçar a fotografia no começo dos anos 20 convencido de que este suporte se tornaria o expoente máximo da arte no século XX. Ao longo das duas décadas seguintes captou imagens com enquadramentos, composições e perspectivas que definiram um novo vocabulário fotográfico e deram ao fotógrafo um protagonismo que até então não gozava.

Wladimir Majakowski, Alexander Rodchenko, 1924
© Schweizerische Stiftung für die Photographie

Lisboa no Porto



Depois de ter sido apresentado em Lisboa no espaço BES Arte & Finança, a reedição do livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre, da responsabilidade da editora Pierre von Kleist Editions, vai ser apresentada no Porto na livraria Inc. (r. da Boa Nova, 168), no dia 23 de Dezembro, a partir das 18h00.

19 dezembro, 2009

entre aspas

© Inês Gonçalves

Fiquei esclarecido. Como fizeram os óculos e as fotografias da Inês. A luz é uma coisa; ver é outra, mas fazer ver é outra coisa ainda. Obrigado.

Miguel Esteves Cardoso, Clarividências, Público, 16.12.2009

17 dezembro, 2009

/uma fotografia, um nome\


Amazonas, 2000
© Duarte Belo



No Fausto de Goethe, o diabo aparece ao solicitante, numa primeira vez, como um grande cão negro. Só mais tarde toma a configuração simpática de um intelectual interessado.

Nos finais do século XVIII a representação do diabo abandonou as formas terrificantes que herdara da metodologia da Igreja e do vocabulário e bestiário populares. No século XIX já vemos diabos tão belos e elegantes como achamos que os anjos caídos devem ser. Começara a era da ciência triunfante, do método infalível e os seus princípios materialistas substituíam-se ao sagrado; o milagre deixa de ser o padrão do extraordinário. Porque a ciência, afinal, tudo pode explicar.

Os cães negros como Anúbis, são os emissários ou as moradas temporárias do mal, onde acontecem misérias. Perdendo essa força de premonição, porque afinal não desaparecem como os desvios culturais, guardam-se com velhas significações, no inconsciente que Freud inventara a partir do nada e de inquietações suas.

Mas, quer se trate de imagens ou de realidade, a perturbação permanece, se desencadeada; porque não está nas coisas fornecê-las, mas apenas no olhar. E por isso renasce.

E este cão preto de Duarte Belo, que não nos olha porque não tem cabeça, crava as unhas temíveis com determinação ou desespero no chão de tábuas de um momento qualquer do Amazonas. A imagem é, no mínimo, uma alucinação. Ergue-se num primeiro plano próximo demais para ser ilusão, recorta-se na claridade do espaço como um desenho inacabado e, no contexto anónimo e mal reconhecido pela nomeação, pode ser uma das aparições que assustavam os meninos mal comportados da América do Sul.

O cão negro, em si mesmo, não é sinistro; o que o torna inquietante é a fixidez da imagem, que permite notar o esforço das garras e nos dá um cão preto sem cabeça. Pertence mais à esfera do não habitual e assim, pouco inquietante. Mas é-o, apenas, porque preside ao regresso do recalcado.

A arte, como sabemos, dispõe de mais e melhores meios do que o quotidiano para sugerir a perturbação.

Duarte Belo fotografa nas tonalidades dos cinzentos; mas não aqui, os fundos ténues mas bem focados, esbatem-se apenas no confronto com o negro do cão. Utiliza habitualmente câmaras que recolhem a imagem do chão, que sobe até nós, com recorte em quadrado. Desta série do Amazonas tem fotografias que param o tempo e nos deixam um pretérito belo e suspenso, nos fazem recordar os seringais de uma cultura rica e próspera da borracha, o que ficou do esplendor e do novo-riquismo de Manaus.

E assim, esta aparição, regressada de velhos arquétipos quase esquecidos, não surpreende, nem está deslocada. Mas, sabemos hoje porque vivemos no tempo de muitas suspeitas e muitas violências, que a suspeição gera inquietação. E com isso, o que devia permanecer escondido aparece, torna-se mais um tema do que uma alucinação.

Maria do Carmo Serén

Duarte Belo vive em Lisboa.

15 dezembro, 2009

recriar

George Dodge, Boats

Recriar - talvez seja este um dos maiores incentivos para quem procura nas fotografias esquecidas, as que estão fora das histórias e das enciclopédias, a centelha que as torna realizações criativas de alto nível, "imagens puras" sem o peso da marca artística. Robert Flynn Johnson, conservador de desenho, gravura e fotografia do Fine Arts Museum of San Francisco durante mais de 30 anos, é um coleccionador com um olhar perspicaz. Mais do que o carimbo do reconhecível e do reconhecido, interessa-lhe a descoberta de autores que passam despercebidos, a afirmação de fotografias que, embora de autoria anónima, demonstrem "uma vontade estética" e revelem "excepção" ou "estranheza" no seu conteúdo. O finura do olhar de Johnson não acaba na descoberta, antes começa nela para dar corpo a conjuntos que se manifestam desiguais na forma e no género, mas que brilham numa desordem afinada por essa "vontade estética".
A galeria madrilena Benveniste Contemporary mostra um exemplo dessa "caça" de imagens levada a cabo por Johnson através de uma exposição onde a montagem é a outra parte do segredo que permite retirar narrativa dos amontoados silenciosos.
Robert Flynn Johnson é autor de Anonymous: Enigmatic Images by Unknown Photographers (Electa, 2004) e The Face in the Lens: Enigmatic Images of People by Unknown Photographers (Thames and Hudson, 2009).

14 dezembro, 2009

máscaras

O retrato de Ana Jardim e o seu rosto numa máscara de gesso


Há muito de máscara no acto fotográfico. Muito, para além da dupla representação, do mistério ou da sedução que se instala pela decisão de omitir. A máscara esconde, mas também revela. E, à semelhança da fotografia, cristaliza. O projecto Integrar pela Arte do Movimento de Expressão Fotográfica juntou máscaras e fotografias para que pessoas com deficiência visual pudessem experenciar o retrato fotográfico e imaginar a face e a expressão nele contido. Na Fábrica da Pólvora, em Oeiras, mostra-se um conjunto de trabalhos que coloca lado a lado fotografias e máscaras de gesso dos retratados para quem quiser ver e sentir com o toque o rosto de cada um. Será sempre diferente o rosto que ficou gravado pela luz e pelo gesso, mas em ambos os suportes o que ficou gravado foi um momento essencial. Um momento que pretende dar vida. Há quem diga, no entanto, que é apenas no momento da morte que ocorre o spiritus sanctus, "o momento em que o rosto da alma é suposto aparecer" (Anne Sofie Tiedemann Dal, Pela Tua Máscara Saberei quem És, citada por Susana Neves, Pública, 13.12.2009). É nesses instantes que se devem cobrir as faces de cera ou de gesso para que o registo do molde trabalhe para a memória e perdure, como um negativo. É um registo que, no século XIX, foi destronado por outra arte da memória - a fotografia.

=ColecçãoàVista=41


Russel Lee, Farmhouse after Flood Posey Co. Indiana, 1937
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


O Engenheiro-Fotógrafo

Comprou a sua primeira câmara, uma Contax 35mm, para o ajudar nas pinturas e desenhos. A formação de engenheiro químico permitiu-lhe explorar, com confiança e rapidez, os aspectos técnicos da fotografia e a sua lendária habilidade na utilização do flash permitiu-lhe criar alguns dos melhores instantâneos da história da fotografia. Como membro do programa FSA, documentou a realidade da Grande Depressão contribuindo assim para um vasto arquivo fotográfico documental do desemprego, fome e desespero da vida americana na época.
O seu trabalho também se revela surpreendente noutras áreas menos relacionadas com o FSA, como sejam as fotografias políticas, os retratos de deficientes mentais e físicos ou trabalhos mais comerciais que efectuou fora dos Estados Unidos.
Lee (1903-1986) foi o primeiro professor a leccionar Fotografia na Universidade do Texas.
(texto:CPF)

12 dezembro, 2009

New Photo




A vida da New Photo foi breve, mas determinante. Os quatro números desta revista chinesa underground (com apenas 20 a 30 cópias cada) publicados entre 1996 e 1998 por Rong Rong e Liu Zheng influenciaram a mais recente produção fotográfica de vários géneros na China. No ano passado, quando se cumpriram dez anos depois da publicação do último número, a galeria nova-iorquina Carolina Nitsch organizou uma exposição com 16 trabalhos surgidos na revista (NEW PHOTO – Ten Years) e produziu a reedição dos seminais quatro números publicados. A acompanhar fac-símile vem um quinto volume com entrevistas, depoimentos e ensaios de Wu Hung, Karen Smith, Toshio Shimizu, Zhang Li e Christopher Phillips.

O obra pode ser comprada através da Ivory Press aqui


Nós, Alentejo


© António Carrapato



Luís Miguel Queirós
(P2, Público, 06.12.2009)

Não deve haver terra portuguesa mais carregada de estereótipos do que o Alentejo. Abre-se um álbum de fotografias e já se sabe que nos esperam as searas a perder de vista, as casas brancas caiadas de azul, as mulheres sentadas à soleira das portas, umas quantas azinheiras. Nas fotografias do alentejano António Carrapato, este Alentejo não deixa de ser reconhecível, e é justamente por isso que estas imagens, na sua capacidade de surpreender o detalhe insólito, adquirem uma dimensão auto-irónica tão divertida e eficaz. Há uma seriedade neste humor e uma delicada ingenuidade que pode fazer pensar num Jacques Tati. De resto, a fotografia que aqui reproduzimos, com um cisne que parece estar a discutir com outro que vem atrás, quase poderia ser uma citação da célebre cena de O Meu Tio em que um cão ladra à cabeça de peixe que espreita do saco de compras de Mr. Hulot.

Em muitas destas imagens, o impacto do pormenor destacado depende do contexto. A porta abandonada de uma camioneta tornada placa de indentificação da mulher sentada nas proximidades, o homem-rã que se diverte no lago do célebre Bairro da Malagueira, de Siza Vieira, o cavaleiro que não se vai safar de apanhar um grande banho, o cabisbaixo homem-lagarto cor-de-rosa que se deve ter fartado de alguma animação de rua em que participava, o poste que, em vez de sustentar, é sustentado, e ainda essa notável trilogia de olhares: animoso no primeiro plano, enternecido no segundo, perplexo no cartaz de parede que anuncia os bonecos de Santo Aleixo.

Carrapato passou 15 anos a fotografar a sua terra, para o trabalho Nós, Alentejo. Estas são algumas das imagens que seleccionou para uma exposição a que chamou apenas Nós e que pode ser vista no Museu de Évora, até 10 de Janeiro.



© António Carrapato

10 dezembro, 2009

no topo do top




Jeffrey Ladd, fundador das Errata Editions, historiador e crítico de livros de fotografia, autor do blogue 5B4 e um dos membros do painel que no ano passado escolheu os melhores livros de fotografia para a Photo-Eye, anunciou hoje o seu top ten para este ano. E o primeiro lugar vai para... a reedição de Lisboa, Cidade Triste e Alegre (Victor Palla/Costa Martins, 1959; Pierre von Kleist Editions, 2009).

Os quatro livros seguintes são:

2. Robert Frank: Looking In

3. Protest Photographs by Chauncey Hare

4. John Baldessari: Pure Beauty

5. Studien nach der Natur by Jurgen Bergbauer

O resto da lista está aqui

09 dezembro, 2009

a caixa-almofada

Agustí Centelles, resistência republicana

A caixa que ainda hoje guarda os negativos das fotografias da guerra civil espanhola de Agustí Centelles (1909-1985) serviu muitas vezes de almofada. O fotógrafo catalão dormiu com ela durante os anos que passou em dois campos de concentração franceses, em Bram e Argèles-sur-Mer, para garantir a sobrevivência de milhares de instantâneos que testemunham a luta entre nacionalistas e republicanos. Dessa caixa já saíram algumas das fotografias mais icónicas do conflito, mas a maior parte do que lá se guarda só chegou à vista de poucos. Para que se possa alargar esse grupo, o Ministério da Cultura de Espanha comprou agora o espólio à família (por 700 mil euros) para o depositar no Centro Documental da Memória Histórica, em Salamanca. Ao todo, há mais de 10 mil negativos dentro da caixa-almofada que não só Agustí como toda a família Centelles guardou com toda a perseverança.


O El País conta mais pormenores sobre a caixa de Centelles aqui

à venda

Augusto Ferreira Gomes (?), Fernando Pessoa, 1935(?)

A casa leiloeira P4 prepara-se para levar a cabo mais um leilão com a fotografia como protagonista. A venda decorre amanhã, às 09h00, na R. dos Navegantes, em Lisboa. Os lotes, que podem ser licitados online, incluem fotografias de Amália Rodrigues captadas por Thurston Hopkins e Eduardo Gageiro, fotografias de reportagem da guerra colonial de Augusto Cabrita e um vasto espólio (o último?) de fotografias de Fernando Pessoa, onde aparecem aquelas que são descritas como as suas últimas imagens fotográficas em vida. Há ainda vários lotes de livros de fotografia e posters de cinema.

O catálogo pode ser folheado aqui

08 dezembro, 2009

=ColecçãoàVista= 40

Manuel Pinheiro da Rocha (1893-1973), Pintor. S/ data
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Pinheiro da Rocha

Nasceu em Britiande, Lamego, e desde cedo foi trabalhar para a alfaiataria do pai, manifestando a extraordinária vocação para esta profissão denotando uma estética e um sentido artístico muito elevados. Passou por alguns dos melhores alfaiates do Porto até ter fundado, em 1920, a Alfaiataria Pinheiro da Rocha, na Rua de Santa Catarina, coabitando com o célebre fotógrafo Domingos Alvão. Por certo, esta proximidade terá despertado nele o gosto pela fotografia.
Nesta época, convivia com artistas plásticos famosos, tais como o mestre Acácio Lima, o célebre escultor Teixeira Lopes e Agostinho Salgado.
Os seus trabalhos estiveram expostos nos mais importantes salões nacionais e internacionais; foi o primeiro português a ver uma fotografia sua a ser admitida no Salão de Londres, tendo exposto ainda em Paris, Saragoça, Madrid e no Salão Internacional Alberto I, em Bruxelas.
(texto:CPF)

apresentar



A reedição de Lisboa, Cidade Triste e Alegre (Victor Palla/Costa Martins, 1959) vai ser apresentada no dia 10 de Dezembro, às 19h30, no espaço BES Arte & Finança (Marquês de Pombal), em Lisboa.

>Post relacionado
>>Para reeditar este livro até a tinta teve de ser inventada

07 dezembro, 2009

PHE10 - do tempo


László Moholy-Nagy, Ascona, 1930




A experiência do tempo é o tema proposto por Sérgio Mah para a edição de 2010 do PHotoEspaña que decorrerá entre 9 de Junho e 25 de Julho em Madrid. Segundo refere uma nota do festival o comissário tentará lançar uma reflexão sobre o papel e os poderes do fotográfico como meio e ferramenta para a percepção do tempo. Para a XIII festival de Fotografia e Artes Visuais da capital espanhola já estão previstas exposições de László Moholy-Nagy, Bleda y Rosa, Hiroshi Sugimoto, Jeff Wall e a colectiva Entre Tiempos.

 
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