06 dezembro, 2009

entre aspas


Edouard Boubat, Lella, Bretagne, 1948

No es comparable la sensualidad de esse momento robado a una mujer normal que el artificio de una modelo que posa para la cámara de un fotógrafo. !Cuánto disfrutaría un fotógrafo o un pintor si pudiera moverse invisible entre todas estas mujeres despojadas de los adjetivos que proporciona la ropa! Cuánto disfrutaría cualquer amante de las mujeres si pudiera estudiar el cuerpo humano en todas as edades de la vida.


Elvira Lindo, Mujeres desnudas, El País, 15.11.2009

04 dezembro, 2009

*À conversa com...


© Enric Vives-Rubio/Público

...Fernando Lemos

Eu sou a fotografia

Sérgio B. Gomes
(Ípsilon, Público, 4.11.2009)

O mestre gosta de acompanhar o processo. Gosta da revelação e do contacto com os líquidos do laboratório. O mestre Fernando Lemos, 83 anos, nome maior do surrealismo português, veio do Brasil com os negativos na mala para tirar deles fotografias inéditas dos tempos em que, ao lado de Fernando de Azevedo e Vespeira, abriu caminho na escuridão criativa dos anos 50. O minúsculo laboratório em Lisboa, de onde saíram retratos nunca antes vistos publicamente, faz-lhe lembrar o Japão, de tão pequeno e atafulhado que está. O mestre avisa o impressor: “Cuidado com o retoque! E não se esqueça daquilo que lhe disse”. O mestre disse que gosta do preto como se fosse preto tinta-da-china e do branco como se fosse branco papel. Os meios-tons ficam para o impressor.
Conversámos com Fernando Lemos no dia em que estava marcada a viagem para Vila Nova de Famalicão, onde a Fundação Cupertino de Miranda expõe a série realizada nos primeiros anos da década de 50 que o tornaram incontornável na história da fotografia portuguesa. E não só. Ao lado dessas imagens, há novos retratos de amigos feitos “por amor, amizade, respeito intelectual e aprendizagem”.

Ainda fotografa?
Muito pouco. Considero a fotografia já em mim. Já me perguntaram também se eu era fotógrafo. Respondo: “Não. Eu sou a fotografia”. Em tudo o que vejo, é como se fosse a fotografia a ver essas coisas. Tenho a fotografia na minha cultura visual.
Já cheguei a dizer uma coisa meio escandalosa que é: as câmaras hoje são melhores que os fotógrafos, elas fazem tudo. Levam o serviço pronto até casa…
Quando comecei a ver que toda a gente tinha uma camarazinha e andava fotografando primeiro achei que era um disparate. Depois pensei outra vez e disse para comigo: afinal, uma das coisas boas da fotografia é que ela ensina a ver. E isso é uma grande consagração do desejo da imagem e da autoimagem, do amadorismo, mais do que a coisa profissional. Eu tive tudo para me tornar um profissional, com essa tralha toda às costas. Queriam até que eu fizesse um estúdio, mas disse “não”. Nunca fiz retratos de pessoas que não conhecia. Nem que me pagassem. Não sou essa fotografia, não sou esse fotógrafo.
A gente já sabe que a fotografia foi mais uma vitória industrial do que artística. Não importa se vai sair dela mais ou menos arte. O que é mais importante é que a magia fica ao alcance de toda a gente. No Japão, percebi que as crianças aprendem primeiro a fotografar e só depois a escrever e a desenhar. Elas registam imagens e só depois aprendem a escrita e o desenho. E isto falta-nos no Ocidente - pôr o desenho como uma coisa obrigatória no ensino desde cedo. Não é para ser artista, é para aprender a ver a coisas. A fotografia é a mãe disso. Ela vem da gravura… deu o cinema… Vem da coisa dramática que é a sombra, a luz. Todas as grandes aquisições da arte foram a preto-e-branco, a própria televisão nasceu a preto-e-branco. Ainda hoje quando se vê um filme antigo a preto-e-branco as imagens de sangue não precisam de ser vermelhas. Sabemos que é sangue. Isso não se vai perder nunca. Essa capacidade de interpretar a imagem que em parte se deve à fotografia. A fotografia é a minha maneira de olhar as coisas. Aprendemos a ver a nossa própria realidade, o nosso quotidiano.

As duplas exposições são um dos traços mais distintivos do seu trabalho. Qual é papel do acidental nas imagens que captou?
Tenho-me garantido mais por juízos de gente nova. Ultimamente tenho-me dado até mais com fotógrafos. Aos artistas plásticos nem quero vê-los à frente – todos chatos e intimistas. O que os mais novos me dizem é que estas fotografias parecem ter sido feitas hoje. E isso para mim é uma revelação espantosa. Eu digo-lhes que quando tirei estas fotografias tinha a idade deles, uns vinte anos. Foi como se tivesse esgotado o primeiro estágio de uma arte visual. Quando as tirei não estava preocupado com o tempo. Não tenho nas minhas fotografias grandes revelações, não tenho um automóvel, o beijo na rua, essa coisa toda dos artistas franceses. Nunca fiz isso.

Mas quando está a fazer a dupla exposição não está à espera que o acidental também faça o seu trabalho?
Sem dúvida. Como não tinha uma máquina automática, era preciso passar o rolo manualmente, aquilo a que se chamava “mão na roda”. O que queria preparar na composição era um pensamento mais pictórico e gráfico. No fundo, considero-me gráfico em tudo o que faço. Quando imaginava uma certa situação para um retrato, ocultava uma parte da captura da imagem já preparando a outra, como se estivesse pintando, fazendo com que a matéria fosse aderindo uma à outra, transformando esta pele deste corpo na mesma pele do outro corpo que é o mesmo repetido. Há aqui alguma herança cubista, na medida em que de uma posição vemos vários ângulos do objecto. Os meus corpos também se foram mostrando dos vários lados. No retrato, tentei passar as possíveis fisionomias que vamos tendo em poucas fracções de segundo e de que não damos conta. Os retratos não são uma coisa estática. Há uma mudança de gesto, de olhar. Dentro disto, é claro que há o flagrante, há o instante. Saber se a luz está boa ou não, tudo isso para mim é secundário. O desafiante é esse “flagra”. O fotógrafo também é uma testemunha. Ele vem testemunhar fenómenos que desconhece, aos quais é alheio. Não como repórter, mas como fotógrafo que assiste ao acidente.

Escreveu na exposição Refotos [SNBA, Lisboa, 1982]: “Não se pretendeu criar nenhuma ruptura no conceito solene da santa fotografia. Não temos nada contra os fotógrafos, nem as máquinas fotográficas, a não ser quando eles são menos eficientes que elas e lhes obedecem cegamente deixando-as fazer praticamente tudo”. Como é que olha hoje para o advento da fotografia digital?
O universo que se estendeu através do digital é uma grande conquista, como todas as outras grandes conquistas, como o teatro, o cinema. No início, foram um grande susto. O digital trouxe mais elementos tecnológicos, novas coisas ligadas à velocidade. E na velocidade há uma coisa que acho má: a pressa. Isso está deturpando e dando ao digital recursos de uma liberdade ao serviço da publicidade, coisas secundárias, coisas da arte do agrado, da arte do bonitinho. Afastou-se daquilo que acho importante na arte que é o fingimento. O Gaston Bachelard sabe o que isso quer dizer, o “devaneio” que a própria fotografia faz à volta da realidade.
O digital cresceu, mas a mudança que se pode fazer dentro dele é discutível… é como discutir o facto de se ter dado cor ao cinema. Que nem é bem a cor, é mais a colorização. A fotografia em branco e preto ainda tem a dramatização… O cinema aprendeu isso.
Quando digo que já sou a fotografia, já estou a ver também quando é que sou a fotografia digital. Se se meter numa imagem um pássaro todo quadriculado e roxo, isso é uma coisa da publicidade, para atingir um certo tipo de gosto, um certo tipo de público. É como se se estivesse a vender sabonetes. Não tenho nenhuma guerra aberta com o digital. Mas prefiro ser eu a controlar aí uns 85 por cento e deixar o resto para os automatismos.


Hilda Hilst, s/d, s/l
© Fernando Lemos


É verdade que às vezes prefere o resultado do que aparece no negativo do que a imagem que é ampliada a partir dele?
Sim, é verdade. Prefiro a imagem do negativo no sentido da surpresa do registo. A fotografia para mim é um percurso meio aquático. Na hora de tirar uma cópia da banheira, dá ideia que se está a pescar um peixe, fresquinho. A fotografia para mim também é a transparência. A transparência é uma forma de espionagem. Apanhamos certas coisas e nem sabemos que as apanhámos. Como um furto. O olhar fotográfico pode furtar da realidade coisas de que nem nos apercebemos. No negativo, a transparência torna-se importante. Há dados nessa imagem… uma fraqueza de luz num lugar… mais preto num canto, como se se estive a colorir ou desenhar. Como fotógrafo, tenho directrizes já bem definidas e que passei várias vezes para o laboratório e tentei passar para o António [impressor de Lisboa]: “os pretos são pretos porque são feitos com tinta-da-china, os brancos são os brancos do papel. Considere sempre que estou desenhando, e invente nos meios-tons, nos cinzentos. Isso é um trabalho seu, do laboratório”.

E incomoda-o o retoque?
Acho que o retoque é como a última solução, uma coisa a que não se pode fugir. É como as nossas rugas. No retoque que se faz por causa dos danos do tempo corre-se o risco de se perder tempo, demora muito para ficar bem feito, e sempre um remendo, uma maquilhagem, um botox. É melhor deixar como está.

É raro alguém conseguir apontar a “sua” primeira fotografia. O Fernando tem esse momento bem presente na vista tirada da sua casa, na Rua do Sol ao Rato, em Lisboa. O que é que recorda desse momento?
No grupo surrealista ninguém estava interessado em usar a fotografia. Havia umas colagens, mas não se usava para reproduzir. A fotografia aproximou-se de mim por causa do rosto, do nosso rosto como portugueses. Até aí, achava que não havia nada que nos desse a cara da nossa gente. Nas artes plásticas, muito pouco. Lembrei-me da fotografia e pensei que a cara das pessoas com quem tinha amizade já era algo que valia a pena, um começo para essa colecta de retratos por amor, por amizade, por respeito intelectual, por aprendizagem.
Resolvi comprar uma câmara, a mais barata que consegui. Felizmente tinha uma lente fenomenal e a vantagem de não ser automática. Morava num quinto andar. No dia seguinte, assim que acordei, peguei nela e fui à cozinha que tinha uma janelinha pequena. Não resisti. Era a minha rua, o meu bairro, o sítio onde nasci. Decidi: é aqui que vai acontecer a minha primeira fotografia. E sempre a coloquei assim.

No catálogo da exposição da Casa Jalco [exposição surrealista com Fernando de Azevedo e Vespeira, 1952], António Pedro dizia que “pintava com a máquina fotográfica e com os pincéis”. Este é talvez o resumo perfeito para explicar a indiferenciação entre o pintor e o fotógrafo. Revê-se nesta descrição enquanto criador?
Não há distinção. Sou muito gráfico. Faço tudo com uma visão gráfica. Executei a fotografia como se estivesse pintando, usando matéria para ela se fundir, para adquirir as qualidades da pintura, mas do que as qualidades da fotografia, como o recorte. O Manuel Bandeira, que fez um texto para a minha primeira exposição no Rio de Janeiro também se refere a esta questão…

…dizia que se “sente o pintor nas suas fotografias”
Porque a fotografia não foi feita para imitar a pintura, mas para ser a técnica da fusão. A pintura é uma adesão, uma adesão de vários gestos coloridos através da cor. O desenho é uma arte de um gesto só. O desenho é uma arte de alta precisão como o electrocardiograma. Não tem retoque. A pintura pode ter retoque. Vamos pondo e tirando, mudando de cor, de formato. Na fotografia há todo um outro gesto. Na fotografia e no desenho há uma soma de gestos num único olhar. A mão quando chega já é uma ferramenta.

O desafio de chegar ao campo do surrealismo pela fotografia é maior do que pelas outras artes, como pela pintura ou pela poesia?
Sim, é verdade. Os trabalhos que me impressionaram mais no surrealismo foram aqueles que usaram a fotografia. Mesmo quando não era “a” fotografia de uma coisa mas o uso de coisas que tinham sido fotografadas e depois coladas, rasgadas, intervenções nas chamadas ocultações que foram produtos de vários artistas. A produção do Max Ernst, por exemplo, pega muito em coisas feitas e cria obras novas.
Na fotografia surrealista a bandeira da liberdade era mais exposta. A fotografia contém uma certa ideia de liberdade, na acção, na captação de tudo. O conceito de liberdade aparece mais na fotografia, do que em outra coisa qualquer. Justamente porque ela foi uma testemunha. É a prova de que foi uma coisa livre. Se não foi livre, ela denuncia. Essa ideia da liberdade está sempre em jogo. A fotografia tem esse poder.

A criação em campo aberto, em liberdade total, é também uma ideia muito ligada ao surrealismo
Exactamente. Das coisas importantes depois da guerra – a Europa estava enferma, desgovernada e triste – foi nós surgirmos como um surto de alegria, de bem-estar, de optimismo, em contraponto com a ideia de que o mundo tinha acabado. Tivemos um pouco essa ousadia de dizer “o mundo não acabou, não pode acabar. Agora é que começou”.

Fala-se sempre da influência da obra de Man Ray na sua obra fotográfica. Que alcance teve o surrealismo de Ray nas imagens que produziu?
Vim a conhecer o Man Ray depois de fazer aquelas fotografias. Não tínhamos assim tanta informação sobre o que se passava lá fora. Quando descobri o trabalho dele achei que era um gajo porreiro. Mas a influência de man Ray – que conheci em Paris – nem foi pela fotografia. Foi mais por essa postura multifacetada perante os vários suportes de criação. Ele era um artista total. Deu lições radicais sobre várias coisas, inclusive na publicidade. Considero-o importante, mas diria que me senti mais influenciado pelo Max Ernst, por exemplo.

Quer dizer que a sua fotografia foi mais influenciada pela pintura?
Sim. Na fotografia vi muitas coisas, e ainda vejo, mas tenho ideia que as origens são sempre as mesmas. Esse surrealismo de figurinha sifilítica herdada do Dalí, essa coisa do erotismo, da masturbação e dos corpos estragados são meio “demodé”. Para mim, a fotografia do Man Ray é música de câmara, quer dizer, é muito laboratório.

Lourival Gomes machado, s/d, s/l
© Fernando Lemos


Entende a fotografia mais como um processo de destruição ou construção da realidade?
A construção e a destruição estão em mim como um temperamento que me leva a fazer tudo. A minha obra tem sido analisada nesse sentido. O tipo de trabalho de sensualidade que eu coloco numa coisa é feito a partir da destruição dessa coisa. Não para ela ser substituída, mas para ela ser uma construção. Mesmo no caos é possível existir alguma regra. No caos é preciso aproveitar a lição, todas as equações de um projecto que se construiu. Mostrar o que já nele há de destruição. Pode ser o tempo, um erro de cálculo, o mau uso, uma guerra, uma fatalidade. Há uma herança sensual de querer… não é uma coisa mórbida de querer ter relações sexuais com cadáveres. É uma coisa mais ligada à ideia de permanência de valores. Não os valores de permanência, que podem levar ao fascismo, mas à permanência daquilo que são realmente valores, como é a força da arte.

Numa entrevista disse que a sua fotografia era “sensorial e quase primitiva”. Quer aprofundar esta descrição?
Tenho insistido muito nesta ideia para afastar qualquer pretensão de que sirvo de exemplo para alguma grande teoria da fotografia. Nem o efeito das exposições e os prémios me convencem que sou um caso excepcional. Entrei na fotografia como um primitivo. Esta descrição é como uma defesa. É também sinal de alguma cobardia em eu não querer assumir um estatuto. Entrei na fotografia por acaso. Eu sou o acaso, sou um primitivo. E isto não tem nada a ver com o folclórico, com a arte primeira. Primitivo é no sentido de quem chegou à fotografia por acaso. Parece que deu certo. Ainda bem.

A partir de determinada altura deixou de recorrer à fotografia como suporte criativo. Porquê?
Sou muito mais gráfico. Sou muito mais ligado ao desenho e ao texto, que são artes ligadas ao gesto. Entendo a fotografia mais como uma ferramenta do resultado, o último gesto de uma criação. É uma arte final. É por isso que eu considero a fotografia já em mim e digo “eu sou a fotografia”. É porque eu já sou um produto acabado, deixei de ser um “layout” para ser mais uma arte final.

É apresentado como o único fotógrafo surrealista português dos anos 50. No entanto, no ano passado, um leilão em Lisboa revelou um outro fotógrafo que encontrou inspiração na mesma corrente artística no final dos anos 50, Victor Palla. Já viu essas imagens?
Vi. Gostei o trabalho dele. Admirava-o muito por causa das capas de livros que criava. Era das poucas coisas que se faziam bem em Portugal. Eram novas, não provincianas. Tive uma ou duas vezes com ele, mas não falámos de fotografia. Havia entre nós uma apreciação meio secreta.

Havia uma admiração mútua?
Sem dúvida. Ele sabia que o admirava e eu sabia que ele me admirava. Durante mais de 50 e tal anos de afastamento perdi muitos detalhes das pessoas. Fui assistindo a tudo isso à distância. O tempo distanciou-me. Quando recebi o prémio do Centro Português de Fotografia [Prémio Nacional de Fotografia] nem sabia que existia. Quando a Tereza [Siza] me disse que o Palla tinha vencido a primeira edição, disse: “Ainda bem. Foi bem entregue”.

Na prática, o seu exemplo não foi seguido de maneira consequente nos anos seguintes. O Estado Novo venceu o surrealismo?
Não sei. Sob certos aspectos talvez tenha vencido. Mas não se pode falar em vitória. Um Estado que não teve capacidade para outra coisa que não fosse instaurar medo, destruição do lado humano do português, e querer exaltar a história de Portugal… Ele não destruiu só o surrealismo, ele destruiu o próprio processo histórico. Fez a feira popular com aquelas coisas todas feitas de estafa e gesso. Eles estragaram toda a festa. O António Ferro é uma figura discutível, mas ainda tentou salvar a cara, mas não deu certo. Não conseguiu. Os discursos do Salazar foram uma anedota, meio hilários, meio dementes. Só um povo humilde como o nosso podia aceitar aquela situação. Até a polícia política era a mais atrasada delas todas. Vieram aqui os profissionais das SS alemãs dar treinos, mas nem assim eles aprenderam. Eram todos uns sacanas sem categoria nenhuma. Eram uns denunciantes, sacaneando o vizinho.

O livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre vai ser reeditado em Dezembro. Partilha do entusiasmo que gira à volta desta obra?
Partilho. É uma boa notícia. O livro tem uma reputação enorme. Dá uma versão de Lisboa absolutamente adequada. É uma fotografia que eterniza certas coisas de Lisboa. É a tal história da permanência de valores. Há ali certas coisas que não vão acabar nunca, nem com a morte da gente. São coisas que vão ficar. Lisboa tem uma história, é das poucas cidades no mundo com várias características próprias que não são palpáveis em outros lugares. Tenho pregado muito esse sermão. Para um fotógrafo, a forma urbanística da implantação de Lisboa é muito interessante. Uma cidade que criou estas estreitezas todas fica parecida com um brinquedo de armar. A gente corta e monta em casa.

E o livro reflecte isso
Reflecte isso e dá uma lição humanista. Lisboa é a minha cidade. O livro do Palla/Martins dá-nos uma Lisboa que não pode ser igualada por mais ninguém. A boniteza de Lisboa não foi idealizada, foi uma coisa que aconteceu. E isto do acontecer não é só importante na fotografia, mas em relação a todo o objecto de arte. Só é objecto de arte, aquilo que inaugura. Todo o gesto de arte é inaugurante, o que funda uma coisa. O resto, são tudo derivados. Quando a coisa se torna torna inconfundível … e o que é que é o belo? O belo é quando a coisa deu certo. O belo é quando a fórmula é bem sucedida. E Lisboa dá-me essa sensação. Pode ser uma ilusão minha, uma bebedeira, mas acho que Lisboa é um gesto fundador.

A exposição inaugurada na Fundação Cupertino de Miranda tem fotografias inéditas. Quando andou a mexer de novo nos seus negativos o que é que procurou? Muito pouca coisa. Não fui à procura de nada que fosse exclusivo. Há uma ou outra imagem que já podia ter sido ampliado antes. Mas não me preocupei muito com isso. Não sou pesquisador.

No novo conjunto continua a existir muito retrato. Prevalece um tipo de retrato psicológico, mais voltado para a sugestão do que para a fisionomia. O que é que procura transmitir com este estilo?
Procuro mostrar que somos vários. Quando aparecemos em qualquer situação, não temos uma cara fixa, não somos uma máscara. Quis captar os retratos desta forma para se perceber que temos na nossa cara um mundo de coisas para explodir, para esconder. Não se fica a conhecer uma pessoa ao olhar para a calça, para o sapato. Conhecemos, quando olhamos para o rosto das pessoas. É na cara que está tudo e não sabemos os códigos disso. Na procura do retrato entra-se um pouquinho nesses códigos.

Continua a tentar “adivinhar a idade do futuro”?
Ouvi essa expressão numa entrevista ao Philip Glass. Ele dizia que não sabia a idade do futuro. Achei interessante. Sabe-se a idade do passado, do presente, mas qual é a idade do futuro? Fiquei a pensar nisso. Depois do livro do Saramago, “As Intermitências da Morte”, eu chego a ter medo que a morte me esqueça. É um pouco hilária esta coisa toda, a gente é que toma tudo muito a sério. É a questão também do surrealismo, o não tomar a sério. Mas é preciso levar as pessoas a entenderem que só gente séria é que pode brincar.



Lygia Fagundes Telles, s/d, s/l
© Fernando Lemos

01 dezembro, 2009

entre aspas



E em redor da mesa os jovens judeus olham primeiro atentamente para a disposição dos alimentos, e comem depois - como quem ouve. Pensam estar a comer, mas estão a aprender. E tal parece ser uma boa forma de olhar para as refeições do quotidiano. Em vez de um meio, um objectivo. Comer é ser ensinado. E mais importante ainda: é manter a memória. -Come esta refeição para não esqueceres os teus bisavós. Como se esta fosse um outra maneira de ver um álbum de fotografias antigo; fotografias que mostram familiares que os mais novos não chegaram a conhecer.

Gonçalo M. Tavares, Da minha janela subjectiva, Visão, 26.11.2009

Foam #21, merge




A partir de 10 de Dezembro ficará disponível a edição #21 da Foam Magazine. Merge é o tema genérico que se centrará na fusão entre a fotografia e outros suportes de media e de arte. A nova edição incluirá portfólios de Broomberg & Chanarin, Claerbout, Tarkovsky, Umbrico entre outros.

celebrar a Polaroid


Rankin, Gordon Brown
© Rankin

O prazo de validade dos cartuchos Polaroid acabou em Outubro de 2009. Para marcar o fim de um tempo (a que se seguirá outro protagonizado pelo The Impossible Project), a Photographers’ Gallery de Londres e o jornal The Observer deram máquinas e filmes Polaroid a oito fotógrafos contemporâneos - Harry Borden, Nan Goldin, Tom Hunter, Mary McCartney, Martin Parr, Rankin, Lord Snowden e Taylor-Wood. Os cartuchos tinham de ser utilizados num dia. O resultado desse desafio pode ser visto agora na livraria da Photographers’ Gallery, onde algumas fotografias estão à venda.

A Photographers’ Gallery, fornecedora dos cartuchos para o Polaroid Project, clama ser um dos poucos locais do mundo ainda com filmes Polaroid. E avança que será um dos primeiros postos de venda a ter os novos cartuchos já anunciados para 2010 pelo The Impossible Project.

=ColecçãoàVista= 39

Wolf Suschitzky (1912), Boy Making Baskets, 1950
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Mistérios dos mesteres

Suschitzky Wolf nasce em Viena em 1912 no seio de uma família hebraica. Em 1934-35 parte para Inglaterra onde se naturaliza, em 1947. Em Londres desenvolve a sua carreira como fotógrafo e cineasta tornando-se rapidamente reconhecido pelo resultado das suas imagens. É um mestre do clássico preto e branco na fotografia. Percorre inúmeras temáticas mas versa sobre retrato: famosos, escritores, políticos, cientistas, animais e crianças. O seu trabalho está presente nas colecções de várias instituições de onde se destaca o Arquivo da cidade de Amesterdão. Fotografava sempre que viajava e construiu um grande arquivo de imagens documentais. Visitou a Madeira em 1950, onde fez algumas fotografias, como a da criança aqui representada envolvida no seu mester. É surpreendente a clarividência na imagem e tranquilidade transmitida pelo rosto da criança; como se o trabalho se tratasse de um entretenimento e lazer.
(texto:CPF)

26 novembro, 2009

 fotografiafalada


Ferrnando Lemos, Lygia Fagundes Telles, s/d, s/l
Fernando Lemos © Colecção Fundação Cupertino de Miranda


Há novas fotografias a sair dos negativos de Fernando Lemos. Fotografias nunca antes vistas publicamente e aqui divulgadas em primeira mão. O artista que criou as primeiras imagens fotográficas surrealistas em Portugal – mostradas na polémica exposição da Casa Jalco, em Lisboa, em 1952 – andou a vasculhar o seu arquivo a pedido da Colecção Fundação Cupertino de Miranda (Vila Nova de Famalicão), onde hoje é inaugurada uma exposição que já inclui as novas imagens. Enquanto as cópias estavam a ser ultimadas no laboratório, falámos com Fernando Lemos sobre este regresso a uma série marcante, cheia de retratos de amigos. O fotógrafo gosta de dizer que foram “actos amorosos”

Fiquei positivamente surpreendido ao ver estas imagens ampliadas com papel de alta qualidade. Ganharam outra energia. Tenho recordações de muitos dos retratados. Estas fotografias eram actos amorosos. Eram gente da oposição, não iam na conversa do Estado Novo. Vivíamos clandestinamente, fazíamos encontros às escondidas para mostrar e falar sobre as coisas que íamos criando. Estes retratos, de uma forma geral, representam muito para mim.


Fernando Lemos, Agostinho da Silva, s/d, s/l
Fernando Lemos © Colecção Fundação Cupertino de Miranda


Com este trabalho, há essa coisa que eu considero boa que é todos os retratados se terem tornado cúmplices do jeito de eu fazer a fotografia. Ninguém se aburguesou para tirar um retrato. Com gravata ou sem gravata, não interessava. Há muitas com dupla exposição, como eu gostava de fazer para mostrar as mudanças de fisionomia que vamos tendo de um instante para o outro. O retrato não é uma coisa estática. Eles saborearam muito isso.

Fernando Lemos, Willys de Castro, s/d, s/l
Fernando Lemos © Colecção Fundação Cupertino de Miranda

Estes retratos nunca foram mostrados. Foram tirados dentro de um grupo de amigos e conhecidos no início dos anos 50. (…) Tenho muitos outros, mas achei que não valia a pena ampliá-los porque os negativos não estavam bons. É um pouco do Brasil que trouxe. As minhas amizades, as minhas relações. (…) Esta série é inédita até pela técnica. Talvez seja a última vez que esteja a tirar as imagens dos negativos originais. Há muito que não mexia neles. Ficaram com umas “bexigas” [marcas brancas, impurezas…]. O tempo vai deixando a sua marca.

(Fernando Lemos, P2, Público, 27.11.2009)

Fernando Lemos - Fotografia
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
Até 26 de Fevereiro

Estação Imagem

O fotojornalista Luís Vasconcelos, editor da revista Visão durante uma década, anunciou a criação de um novo prémio de fotografia de reportagem, o Prémio Estação Imagem/Mora que se realiza já em 2010. O júri será presidido por Ayperi Karabuda Ecer, vice-presidente do departamento de fotografia da Reuters. Mais informações aqui

25 novembro, 2009

=ColecçãoàVista= 38

Guy Le Querrec Portugal, Laboncinho, concelho de Castro Daire
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia



Olhar político sobre a sociedade

Guy Le Querrec nasceu em 1941, na Bretanha, no seio de uma família da classe trabalhadora. Ainda adolescente, tira as suas primeiras fotografias com uma Ultraflex e em 1955 compra em segunda mão uma Fotax. Trabalha numa companhia de seguros e com as horas extras compra a sua primeira Leica em 1962. No final dos anos 50 faz os seus primeiros retratos de músicos de jazz, em Londres. Só depois de passar pelo serviço militar, em 1967, é que inicia o seu percurso de fotógrafo profissional. Das suas fotografias sobre a época da revolução dos cravos, destaca-se a imagem produzida em Maio de 1975 sobre a campanha de dinamização cultural levada a cabo pelas equipas de veterinários da secção do MFA de Castro Daire. Observa-se a discussão entre os militares e os agricultores, depois da vacinação dos bovinos.
(texto:CPF)

4 anos

Masao Yamamoto, s/d, Installation
© Masao Yamamoto


Faz hoje 4 anos que foi publicado o primeiro post no Arte Photographica.

23 novembro, 2009

Lisboa, Cidade Triste e Alegre

© Miguel Manso/Público



Para reeditar este livro até a tinta teve de ser inventada
Sérgio B. Gomes
(P2, Público, 23.11.2009)

Outra vez te revejo,

Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo…


Álvaro de Campos, Lisboa Revisited (1926)


Chamam-lhe poema gráfico. E ele tem, na verdade, estampada a poesia das palavras, o virtuosismo dos melhores: Pessoa, O`Neill, Sena, Miguéis, Mourão-Ferreira, Gomes Ferreira... No livro dos livros de fotografia criados em Portugal, entraram muitas fontes de poesia, muitos géneros de poemas, que estão para lá da rima e da métrica. À palavra juntaram-se, no papel, outras formas de poesia, a gráfica e a fotográfica – ingredientes para um poema visual total que nos “anos de chumbo” (Fernando Lopes) do fim dos anos 50 foi assinado por dois autores de talentos múltiplos, Victor Palla (1922-2006)/Costa Martins (1922-1996).

Quando passam 50 anos sobre a primeira edição de Lisboa, Cidade Triste e Alegre (1959), o único álbum português referenciado na bíblia mundial dos livros de fotografia – The Photobook: A History (Phaidon, 2004) - vai ser finalmente reeditado em Dezembro pela mão de outra dupla de fotógrafos, José Pedro Cortes e André Príncipe.

Durante a última semana, as rotativas da Heidelberg Speedmaster da Guide Artes Gráficas, em Odivelas, afinaram-se ao máximo para que as páginas voltassem a ser impressas. No chão da gráfica foram-se empilhando resmas de papel onde já se mostravam casais de namorados e varinas, calçadas e fontenários. Páginas e páginas, onde brincam crianças à soleira de portas, onde descansam velhos nos jardins. Ao passar os dedos pelo papel ainda quente, sente-se uma finíssima camada de pó, segredo eficaz para que as folhas empilhadas voltem separar-se e se transformem em livros e não em blocos compactos.

Na mesa de trabalho, Armindo Francisco, um dos impressores do turno da manhã, não dá descanso ao conta-fios, a lente que lhe fornece pistas sobre se a impressão está a tomar o caminho certo. Compara as páginas soltas de um original meio amarelado com o resultado das cópias. Compara e faz esvoaçar páginas de um lado para o outro. Pelo meio vai carregando em filas de botões, como se estivesse a tocar piano. Lisboa, Cidade Triste e Alegre tem ritmo até na impressão. Armindo não conhece o livro que está a imprimir. A fama dele não o assusta. A fama dele nem a sente. Só lhe promete dar o melhor que sabe.


© Miguel Manso/Público

Um livro desejado
Em escalas diferentes, a história da iniciativa particular e da teimosia de poucos à volta da edição daquele que é considerado por Martin Parr e Gerry Badger (autores de The Photobook…) um dos melhores livros de fotografia da Europa do pós-guerra parece repetir-se.

Se em 1959, Palla/Martins juntaram à sua criatividade todo o esforço e dinheiro para transformar em livro (distribuído por fascículos) o trabalho fotográfico que vinham desenvolvendo juntos nos bairros históricos de Lisboa desde 1956, Cortes/Príncipe ousaram dar, em 2006, um novo impulso a um projecto de reedição ambicioso, mas mais ou menos moribundo, que envolvia o autor de uma tese de mestrado sobre o livro, o Centro Português de Fotografia, a família dos autores e a reputada editora alemã de fotolivros Steidl.

Apenas na recta final, quando todo o projecto de Cortes/Príncipe estava encaminhado rumo à gráfica, a editora fundada pelos dois, a Pierre von Kleist, garantiu a venda de 500 das 2000 cópias a um banco, garantindo desta forma o retorno de parte do investimento. E foi então que as rotativas começaram definitivamente a mexer-se.

Há semelhanças nas dificuldades do passado e do presente. Em contramão, há uma diferença significativa no que toca ao reconhecimento do génio envolvido na criação de Lisboa, Cidade Triste e Alegre, contemporâneo de outros livros de fotografia incontornáveis, como Les Américains (Robert Frank, 1958) ou New York (William Klein, 1956). Ao fracasso comercial e alcance limitado da primeira edição, contrapõe-se agora um renovado interesse e uma grande procura da obra por coleccionadores nacionais e internacionais.

Em Junho de 2006, no primeiro leilão de fotografia em Portugal, organizado pela P4, um exemplar sem sobrecapa foi à praça com um preço base de 400 euros e acabou nos 1200. A disputa terminou em palmas. Em Maio de 2007, num leilão de livros de fotografia da Christie`s, em Londres, uma cópia com sobrecapa branca foi vendida a um coleccionador americano por cerca de 14 mil euros. No ano passado, também num leilão da P4 com lotes que testemunhavam as várias facetas criativas de Victor Palla, foram vendidas mais três cópias, entre 4600 e 7400 euros.

Ao longo destes 50 anos Lisboa, Cidade Triste e Alegre já passou por momentos altos e baixos. Como um gato, vai mostrando que sabe viver muitas vidas. Criado na sequência de duas exposições em 1958, em Lisboa (Galeria Diário de Notícias) e no Porto (Divulgação), com imagens que fugiam da tónica da fotografia de salão mais ou menos alinhada com o regime, o livro não se pode comparar com nada do que existia em Portugal e, hoje, ombreia com os mais reputados livros de fotografia do mundo.

No final dos 50 Palla/Martins mergulharam no Bairro Alto e em Alfama. “Deixaram de trabalhar e todos os dias – dia e noite – deambularam pela cidade, fotografando, falando, comendo, divertindo-se com pessoas e coisas. Vinham a casa apenas para revelar e ampliar [os negativos]”, escreve António Sena (Uma História da Imagem Fotográfica em Portugal - 1839-1997, 1998). Inspirados na espontaneidade da fotografia humanista à maneira de Cartier-Bresson e num modo de ver cinematográfico e neo-realista, consumaram um livro graficamente arrojado, onde se sente a “sinfonia da cidade”.

Lisboa é, certamente, um livro mais complexo do que aparenta ser à primeira vista. (…) Se menciono que a chave do seu sucesso é o design e a tipografia, não é para denegrir as fotografias ou outros aspectos do volume, mas para dizer que a exuberância do design cria largamente a exuberância do livro”, escreve Gerry Badger num longo ensaio que será publicado num índice encartado com a reedição da Pierre von Kleist. Depois da primeira edição, o livro hibernou, foi esquecido, até que, em 1982, António Sena o retirou da sombra através da exposição Lisboa e Tejo e Tudo, na galeria Ether. Nessa altura, juntaram-se muitos dos fascículos que estavam por encadernar e fizeram-se cerca de 200 cópias. Esta segunda vida dá-lhe alguma cotação internacional, confirmada, muitos anos mais tarde na obra de Parr/Badger.

Conscientes da reputação e da importância do livro na história da fotografia portuguesa, José Pedro Cortes e André Príncipe decidiram meter mãos à obra, depois de uma conversa do segundo com uma das filhas de Victor Palla, Maria José, também fotógrafa. “Sabíamos que a reedição que envolvia a Steidl estava parada e a meio de uma conversa com a Maria José surgiu a ideia de avançarmos. Eu ri-me e disse: ‘Sabe que este livro não se faz assim’. Mas depois de dizer isto, percebi que podíamos mesmo voltar a editá-lo”, recorda o fotógrafo do Porto que se encontrou com Victor Palla várias vezes para rodar um filme sobre o seu trabalho. “Vi-me no meio de uma série de factores que me diziam que podia concretizar a reedição. E o facto de ter mantido algum contacto com Victor Palla enquanto ele foi vivo deu-me uma espécie de legitimidade para levar o projecto em frente”, afirma Príncipe que lembra que o fotógrafo (também arquitecto, escritor, tradutor e designer) sempre lhe falou do livro de uma maneira “despretensiosa” e que tanto lhe recordava as peripécias à volta da sua realização como do projecto da Aldeia das Açoteias (condomínio no Algarve). José Pedro Cortes: "Sentimos uma grande responsabilidade. A intenção é democratizar a obra. Colocá-la no sítio onde deve estar, que é na mão das pessoas."

A inexistência da maior parte dos negativos e o desaparecimento da rotogravura em Portugal (técnica em que foi impressa a primeira edição) obrigaram os novos editores a optar por uma solução em fac-símile. Ou seja, as fotografias foram fotografadas e tratadas digitalmente de maneira a aproximarem-se ao máximo dos originais. Para além do rigor da cópia visual, houve também cuidado redobrado nos pormenores tácteis. Foi escolhido um papel grosso, levemente rugoso (do tipo gardapat), e mandou-se fabricar na Alemanha uma tinta específica (de tonalidades mais quentes e um elevado grau de liquidez) para que a sensação táctil produzida pela rotogravura pudesse, pelo menos, ser sugerida. “Houve uma preocupação em não alterar nada na lógica narrativa e no conceito de design do livro. Quando escolhemos a tinta e o papel, tentámos aproximar esta edição o mais possível do conceito original”, explica Príncipe.

Fazer artesanato
A tinta até pode ser especial e o papel um dos melhores para suportar fotografia, mas não fosse a experiência e a iniciativa da Guide talvez esta reedição não existisse. Cortes e Príncipe bateram a várias portas e todas se fecharam. Algumas gráficas nem arriscaram dar orçamentos para um livro de execução muito complexa e demorada. “Este livro não foi pensado para um processo industrial. É por isso que vai ser acabado de forma artesanal com técnicas actuais”, explica Nuno Penedo, um dos responsáveis da Guide e um dos nomes a quem se deve a concretização da obra. Lisboa, Cidade Triste e Alegre tinha de ser feito “com algum sentimento”, diz Penedo, contente por ser uma gráfica portuguesa a responsável por lançar de novo o livro no mercado. “Vai exceder as expectativas das pessoas que estão à espera dele.”

Conhece-se o entusiasmo à volta de Lisboa, Cidade Triste e Alegre. A procura que a primeira edição de 1959 e a reencadernação de 1982 têm despertado não pára de surpreender. Agora, há alguma expectativa sobre o sucesso da reedição da obra-prima da dupla Palla/Martins. De uma coisa a dupla Cortes/Príncipe não tem dúvidas: “Se esta edição esgotar, tentaremos fazer outra, porque os grandes livros de fotografia têm de ser como os clássicos da literatura – têm de estar sempre disponíveis.”

22 novembro, 2009

entre aspas



Como eram essas casas?
Eram sombrias, com corredores compridos, cortinas corridas, pianos e fotografias de mortos.


António Lobo Antunes, em entrevista a Sara Belo Luís, Visão, 8.11.2009

21 novembro, 2009

Paris Photo


Paulo Nozolino, Marrakech, 1983
© Paulo Nozolino, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 21.11.2009)

Portugal é um dos países que estão este ano em estreia no ParisPhoto, o salão internacional de fotografia que termina amanhã no Carrousel do Louvre. O tema da 13.ª edição, inaugurada a 19, é o Irão e o Mundo Árabe, e o olhar de Paulo Nozolino sobre a cidade marroquina de Marraquexe é parte do conjunto de trabalhos com que a galeria Pente 10, de Lisboa, assegura esta primeira representação nacional no salão parisiense – há também trabalhos de Rita Barros, João Cutileiro, Inês Gonçalves, Victor Palla e Miguel Santos, entre outros.

“A fotografia do Médio Oriente é normalmente a grande ausente dos salões ou galerias consagrados à imagem”, disse ao jornal Le Figaro o comissário do ParisPhoto, Guillaume Piens, ao apresentar esta edição. “Fala-se raramente de fotógrafos árabes e iranianos – só há alguns anos o público e os coleccionadores começaram a interessar-se pelo tema. Esta região do mundo foi o primeiro território de experimentação da fotografia.”

É assim que, numa centena de stands, com galerias e editoras de 23 países, o mundo árabe está retratado, tanto pelos seus próprios fotógrafos como por olhares estrangeiros. Há imagens da guerra do Afeganistão e do conflito israelo-palestiniano, principalmente registadas por fotojornalistas. Há retratos de quotidianos menos traumáticos e mais de acordo com um certo imaginário exótico da terra de As Mil e Uma Noites. Há fotografias com a patine do tempo e a homenagem a alguns autores históricos, como o egípcio Abbas e o seu registo da vida quotidiana no Irão (Pérsia) pré-Revolução Islâmica de 1979. Mas há também as experiências fotográficas do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, cujas obras da série Road (galeria inglesa Purdy Hicks)
estão cotadas a 30 mil euros cada.

“No conjunto, os fotógrafos iranianos distinguem-se pelo modo como integram nas suas imagens os elementos da sua cultura: a caligrafia à moda de Shirin Neshat, mas também o véu islâmico (Sadegh Tirafkan), o tapete persa (Jalal Sepehr). A temática é muitas vezes política, as imagens falam do fecho da sociedade, da condição da mulher, mas de forma indirecta”, defende a crítica do Le Monde, Claire Guillott. A galerista Anahita Ghabaian-Ettehadieh opta por outra expressão – é uma fotografia que aborda a realidade com “um pudor tipicamente iraniano”.


Hicham Benohoud, Azemmour, 2007
© Hicham Benohoud, cortesia Galerie VU, Paris

19 novembro, 2009

Steidl


Karl Lagerfeld, 2008
© Steidl


O livro de fotografia está na mó de cima. As editoras de livros de fotografia ganham protagonismo no mercado internacional e há nomes que estão na ribalta - como o de Gerhard Steidl, descrito pelo Le Monde como "um editor de alta-costura". Das oficinas de Göttingen, sede da casa editora Steidl, na Alemanha, sai quase todos os dias um livro. Na "steidlville", os livros de fotografia são imaginados e concretizados de uma forma global e sempre que possível com a presença dos autores.
Fascinados com a qualidade das obras editadas por Gerhard Steidl e com a constelação de estrelas do mundo da fotografia que passam pela "steidlville", os responsáveis pelo Musée de l'Elysée de Lausanne desafiaram, entre outros, Raymond Depardon, Jim Dine, Robert Frank, Roni Horn, Karl Lagerfeld, Ed Ruscha, Jürgen Teller, Deborah Turbeville e Jeff Wall a revelarem os bastidores da criação dos seus livros. O resultado desse labor pode ser visto agora na exposição House of Steidl.

Gronsky


Alexander Gronsky, s/d, s/t, da série The Edge



O Aperture Portfolio Prize 2009 foi atribuído ao trabalho The Edge/Pastoral de Alexander Gronsky. As quatro menções honrosas do mesmo galardão foram distribuídas a Keliy Anderson-Staley (Off the Grid), Alejandro Cartagena (Lost Rivers), Maureen Drennan (Meet Me in the Green Glen), Jason Hanasik (He Opened Up Somewhere Along the Eastern Shore) e Mark Lyon (Landscapes for the People).

17 novembro, 2009

Electricity

Cable, Atlanta, Georgia, USA, 2009
© António Júlio Duarte

A fotografia de António Júlio Duarte é rude e crua. Dá-nos o lado B, o lado C e muitos outros lados das coisas. Isto não é novo e parece que não vai mudar. Ainda bem.
Durante dois meses o fotógrafo conduziu e fotografou os Humanization 4tet (Luís Lopes-guitarra, Rodrigo Amado-saxofone tenor, Aaron Gonzalez-contrabaixo, Stefan Gonzalez-bateria) durante uma tournée pelos Estados Unidos. Um conjunto reduzido (mas eficaz) de 12 imagens dá-nos algumas impressões desta viagem musical e fotográfica. A série chama-se acertadamente Electricity, provável homenagem aos décibeis e à falsa luz.

Electricity, de António Júlio Duarte
Centro de Arte e Imagem – Galeria do Instituto Politécnico de Tomar, Tomar

16 novembro, 2009

=ColecçãoàVista= 37

Compass, Noel Pemberton-Billing, Jaeger LeCoultre & Cie, Sentier, Suíça/Compass Camera Ltd., Londres, Inglaterra
Colecção de Câmaras do CPF © Centro Português de Fotografia


Compass, construída como um relógio – tão simples de usar

Esta pequena peça de design sofisticado e invulgar foi criada pelo inglês Noel Pemberton-Billing, como resultado de seis anos de trabalho. Foi patenteada em Maio de 1936 e produzida pela Le Coultre et Cie (Jaeger-LeCoultre), uma das principais e mais consagradas marcas da relojoaria suíça, para a Compass Cameras Ltd. A sua produção terminou em 1939 e apesar de ser ainda publicitada e vendida em 1941, não voltou a ser fabricada depois da guerra. Estima-se que tenham sido produzidas menos de 4000 câmaras. A minúcia e complexidade implícitas na sua construção e a diversidade de variantes que esta câmara incorpora – visor de ângulo recto, fotómetro de extinção, filtros, despolido de foco, entre outras – fazem dela uma pequena grande maravilha da engenharia mecânica.
(texto:CPF)

13 novembro, 2009

Sobre Ruins of the Gilded Age

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Bakersfield
© Edgar Martins


Depois de ter recebido o Prémio BES Photo, em Abril, Edgar Martins publicou um portfólio sobre a crise no sector imobiliário nos EUA encomendado pela New York Times Magazine. A publicação dessas imagens, na edição impressa e no site do jornal, em Julho, ficou marcada pela polémica, depois de um leitor ter apontado manipulação digital em muitas delas. O Times retirou as imagens do site e, pouco depois, o artista divulgou um texto a explicar a sua abordagem estética ao trabalho. O caso intensificou a velha discussão acerca dos limites da manipulação fotográfica no jornalismo e sobre os desencontros entre um artista conceptual e uma publicação jornalística. O filósofo Peter D. Osborne, professor do London College of Communication, com obra publicada em fotografia e cultura visual, escreveu um ensaio sobre Ruins of The Gilded Age (que pode ser visto na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, até 5 de Dezembro).

Eis a versão curta desse texto:

Isto não é uma casa
Algumas reflexões a propósito de Ruins of Gilded Age, de Edgar Martins

1. A palavra grega Oikonomos (economia) deriva parcialmente de Oikos, que significa “casa”. Mesmo no grego contemporâneo, que usa spiti para “casa”, existem termos associados, como oika, katoika, oikiakos, entre outros.

2. As ruínas recordam-nos da materialidade muda do mundo, as coisas que em nada se importam dos nossos projectos fúteis, que em nenhum aspecto reconhecem a ordem que as nossas arquitecturas tentam impor no mundo. Todavia, na sua esmagadora maioria, as ruínas são um dos cenários feitos da história, e a partir deles muitos significados e representações foram edificados. Pense-se na fotografia de ruínas americanas: os edifícios queimados em Atlanta em 1864, os panoramas de Arnold Genthe de São Francisco depois do terramoto na viragem do século XX, os barracões abandonados dos agricultores foreiros nas fotografias do projecto da Farm Secutiry Administration, as mansões desertas e decrépitas das plantações do Mississípi fotografadas por Clarence John Laughlin nos anos 1940, as fotografias de imprensa dos blocos de apartamentos incendiados de Newark e noutros lugares onde os negros norte-americanos se sublevaram na década de 60, cidades-fantasma e motéis destituídos e invadidos pelas ervas daninhas, os projectos de Lewis Baltz sobre desertos de ar provisório, a casa de sonhos de Joel Sternfeld destruída pelo deslizamento de terras, e, claro está, o “Ground Zero” de Nova Iorque. Os desastres norte-americanos tendem a tornar-se icónicos. São necessários para alimentar a epopeia perene que são os Estados Unidos – ou deveríamos antes dizer “foram”? –, uma epopeia de desastres superados, certamente, mas ao mesmo tempo uma epopeia assombrada pelo sentimento da sua própria precariedade, a sua própria brevidade, a sua própria incerteza face ao local a que pertence, se é que pertence. Neste sentido, a loja da Best em Houston projectada por James Wines, construída como se já tivesse sofrido graves tremores de terra, pode ser entendida ora como um desafio face ao fatal destino ora como uma defesa contra ele. A América é uma nação de colonos. A casa, o abrigo, tem uma ressonância muito especial aqui. Qualquer desastre que implique o abrigo, a colónia, torna-se rapidamente uma metáfora de todo um processo histórico.
É este o contexto no qual surge a série de Edgar Martins, Ruins of the Gilded Age, as ruínas da economia caseira.

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Phoenix
© Edgar Martins

3. Supor que a elegância, a abstracção, e a cuidada tradução dos valores formais e a manipulação necessária existentes em muito do trabalho de Edgar Martins são de alguma forma qualidades inconvenientes para aplicar aos temas do seu trabalho actual seria um erro. É verdade que a crise social e que a infelicidade humana implícitas em muitas destas imagens são reais o suficiente, e impõem a qualquer fotógrafo um qualquer grau de responsabilidade ética. Porém, Martins nunca foi um fotógrafo humanista nem tampouco um documentalista social. No entanto, é precisamente a ausência da figura humana que, nesta série, acentua uma paisagem profundamente humana, o humano como um princípio que se tivesse ausentado, e que deixa um silêncio visual. É na transmutação de espaços habitados em estruturas quase abstractas que as abstracções mais amplas dos mercados financeiros se revelam, e tornados reais e presentes nas desconstruções que eles mesmos desencadearam. O abandono da figura humana destes espaços é mais do que uma opção estética. Considerando-as nos termos do que Jacques Rancière apelida “a linguagem silenciosa das coisas”(1), estas imagens retratam mais do que uma realidade imediata. Elas representam uma condição que é social e empírica mas também metafísica, e que exige uma estética que jamais se poderá fundamentar somente na observação imediata, e escolhe assim abster-se da melancolia distópica comum em muita da arte de espaços vazios. Citando Rancière mais uma vez: “o real tem de ser ficcionalizado para que possa ser pensado” (2). A palavra ficção tem conotações de um movimento falso empregue para a produção de efeitos reais (uma finta) e, ao mesmo tempo, a de uma coisa feita (as palavras “facto” e “fábrica” partilham a mesma raiz), algo real apesar de manufacturado. Martins tenta, nesta série, fazer evoluir uma “forma de visibilidade”, na qual a grandeza das imagens e das imagens que as acompanham – as de construções num equilíbrio precário, construídas pelo fotógrafo a partir dos detritos deixados no interior de edifícios vazios – fazem com que traga para primeiro plano a “qualidade de factura” do seu trabalho, a sua fictividade, e, nesse sentido, o fabrico das suas intervenções. Mas faz mais do que isso. Como se afirmou acima, estes espaços desabitados ou incompletos começam por aparecer como formas puras, sem qualquer conteúdo, tal como as abstracções económicas que as levaram a este estado. A ficção que é a factura revela a ficção que é o movimento falso, a finta, de Wall Street. Apercebemo-nos deste modo que a economia sobre a qual estas casas e interiores se construíram é tão ilusória quanto os interiores de uma fotografia de Thomas Demand. Ruins of a Gilded Age não produz uma verdade mas antes um processo de uma verdadeira “recomplicação da realidade” (3), baseada na prova da sua própria beleza, na documentação da sua própria estética.

4. Ficámos a saber que aqueles que haviam encomendado este trabalho se sentiram incomodados com a manipulação digital circunscrita que o fotógrafo aplicou sobre algumas das imagens. Bom, é verdade que o trabalho interfere sobre o real, mas um real que já havia sofrido uma interferência substancial. E eu concordaria com o filósofo Peter Osborne quando este diz suspeitar que muito do pânico sobre a perda do real implicada pelas imagens digitais não é mais do que a expressão de uma angústia mais fundamental e deslocada sobre a perda do capitalismo da sua “economia real”.

1. Jacques Rancière, (2006) The Aesthetics of Politics [v. orig. Le Partage du sensible: Esthetique et politique, 2000], London/NY: Continuum; pg. 36.
2. Rancière, op. cit.; pg. 38.
3. Uma frase empregue por Don Delillo para descrever a função do romance.

A versão completa deste ensaio pode ser lida (em inglês) na página de Edgar Martins aqui

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Atlanta
© Edgar Martins

Frank



A arte de Robert Frank começou na fotografia mas não acabou na fotografia
(P2, 12.11.2009)

Quando o nome do fotógrafo suíço-americano Robert Frank vem a terreiro, a arte que se lhe cola logo é a fotografia e o livro tornado obra endeusada pelo virtuosismo de articular narrativas visuais pela imagem fotográfica - The Americans (1958), ou a poderosa sequência táctil de uma das road trips pela América profunda que mais influência criativa e ondas de choque provocaram no pós-guerra. E o que é que vemos afinal de Robert Frank para lá desse eterno "poema triste" (Jack Kerouac) que se move como uma sombra fatalmente agrilhoada ao seu autor? Ainda no ano passado, em Nova Iorque, numa rara aparição pública, o próprio Frank, hoje com 85 anos, hesitou muito na resposta, mas acabou por admitir a sua felicidade por fazer perdurar esta ligação umbilical com o livro de fotografia que - ninguém tem dúvidas - o eternizará.

O que aparece em The Americans é Frank no seu registo mais forte e genuíno. Mas a sua grandeza criativa está longe de se esgotar nessas 80 fotografias que foram outras tantas alfinetadas na maneira instituída (e instalada) de representar a América. Há muitos mais livros de fotografia que resultam do seu génio. E há também uma vasta obra cinematográfica e videográfica (mais de 25 títulos) que, até há pouco tempo e para além das polémicas imagens que rodou de uma digressão dos Rolling Stones (Cocksucker Blues, 1972), permanecia relativamente misteriosa e ao alcance de poucos.

As portas de Robert Frank realizador abriram-se um pouco mais no ano passado quando a casa editora alemã Steidl começou a editar a sua obra completa em DVD. À boleia da reedição de The Americans (em 2008 a primeira edição, impressa em França pela mão de Robert Delpire, fez 50 anos) e de muitos outros livros da sua vasta obra, a editora alemã decidiu tirar do baú de Frank todos os seus projectos que incluíram imagens em movimento, desde o filme inaugural Pull My Daisy (1959), escrito e narrado pelo compagnon de route Jack Kerouac e protagonizado por Alan Ginsberg e por outros artistas da beat generation, tido como uma das sementes do Novo Cinema Americano, passando por videoclips para os New Order (1989) ou para Patti Smith (1996), até aos mais recentes registos autobiográficos, como True Story (2004), que mistura o seu legado artístico com o da mulher, June Leaf, e remexe em acontecimentos de família e dramas pessoais.

Foi a partir desta exemplar recolha da Steidl que a edição deste ano do Estoril Film Festival (a decorrer até domingo) programou vários filmes e vídeos de Robert Frank, uma filmografia que inclui géneros tão variados como o experimentalismo, o documentário e a ficção.

Para amanhã, as Robert Frank Sessions têm agendadas as duas últimas obras do realizador no festival: C`est Vrai (1990) e Paper Route (2002). No primeiro, Frank caminha por Nova Iorque durante uma hora exacta, sem qualquer edição da narrativa, numa justaposição de cenas estudadas e improvisação onde entram novamente velhos conhecidos do "círculo beat", como o poeta Peter Orlovsky. No segundo, o artista decide acompanhar o distribuidor de jornais Robert MacMillian numa manhã invernosa no seu percurso rotineiro pelas zonas rurais da região canadiana da Nova Escócia, refúgio do artista desde os anos 60. À medida que a viagem avança, Frank vai procurando a paisagem e as histórias de vida de MacMillian.

São dois exemplos de um registo que tenta aproximar-se das angústias, das alegrias ou da simples existência das pessoas da "vida real", um universo que Frank sempre procurou, quer como realizador, quer como fotógrafo. Tentou compreender os outros, mas também procurou explicações sobre si, como em About Me - A Musical (1971), quando, logo nos primeiros minutos, decide abandonar a ideia de um filme sobre música (primeiro indiana e depois americana) e concentrar-se numa análise introspectiva: "Que se foda a música! Decidi fazer um filme sobre mim." E quem disse que as melhores histórias estão assim tão longe?

Pull My Daisy

10 novembro, 2009

das cidades



O processo de nascimento e desenvolvimento das cidades tem a sua dose de mistério e de encantamento. Quando é possível identificar com alguma clarividência o rastilho que deu origem à explosão das grandes metrópoles (como é o caso da generalidade das cidades americanas) o fascínio ainda é maior porque, muitas vezes, descobrem-se as mais extraordinárias razões, os mais corriqueiros acontecimentos para que um grupo de pessoas tenha decidido ficar num determinado local e a partir dele formar tecido urbano. À semelhança do que já fez com outras grandes cidades de todo o mundo, a editora Taschen organizou uma história fotográfica de Los Angeles (Los Angeles, Portrait of a City) que parte desde a primeira imagem conhecida da cidade até às vistas mais recentes que nos encadeiam os olhos. O pulsar da capital mundial do entretenimento é dado por dezenas de fotografias históricas e de não menos históricos fotógrafos, como Julius Shulman, Garry Winogrand e William Claxton. Os ensaios ficaram a cargo de Kevin Starr, historiador da Califórnia, e David L. Ulin, especialista em literatura.
Los Angeles, Portrait of a City pode ser folheado aqui

Visura


Kashmir, Any Spyra
© Andy Spyra


A revista de fotografia Visura, suportada pela Lucie Foundation, só existe em suporte digital. É publicada desde Janeiro e divulga portfólios com diferentes abordagens da imagem fotográfica. Apesar do aspecto geral que abusa da estilização, a navegação pelas imagens faz-se de maneira eficaz. As fotografias de Kashmir, de Andy Spyra, formam um dos melhores ensaios deste número.
A Visura está aqui

09 novembro, 2009

=ColecçãoàVista=36


Nuno Félix da Costa, Sem título, s/ d,
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia



Grafites

Nuno Félix da Costa nasceu em Lisboa em 1950. É médico psiquiatra no Hospital de Santa Maria e Professor da Faculdade de Medicina e do Instituto de Ciências de Saúde. Desde 1983 que tem dado a conhecer o seu trabalho em exposições individuais e colectivas de pintura e fotografia. Nos seus projectos artísticos, o autor tem associado poesia a estas duas componentes. Um exemplo disso é Arte Última, editado em parceria com a Casa Fernando Pessoa e acompanhado por poemas do poeta português.
Nesta imagem, o autor usa uma técnica diferente que resulta da junção de impressão de fotografia digital com desenho. É uma técnica muito curiosa pela utilização do pixel e também do traço. Talvez a falta de “consistência” do digital tenha levado o autor a graffitar posteriormente as imagens.
(texto:CPF)

08 novembro, 2009

Zmâla


Chegou-me às mãos uma nova revista onde a fotografia de reportagem é a principal protagonista: a Zmâla. O título, com sede em França, quer mostrar nas suas páginas o que de melhor é registado pelos colectivos de fotógrafos de todo o globo. A reportagem de João Pina nas favelas do Rio de Janeiro representa o colectivo português [KameraPhoto]. Há também lugar para ensaios como o que Gilles Mora escreveu sobre o futuro e os problemas actuais que se colocam à fotografia de rua. A revista é editada pela Photographie & Compagnie, um casa independente que dá início à sua actividade com este projecto. A Zmâla custa 19 euros. Está à venda na sede da [KameraPhoto], em Lisboa, e pode ser encomendada pelo mail: zmalaphoto@gmail.com

06 novembro, 2009

A&J

José Carlos Duarte, A&J
© José Carlos Duarte


O que me surpreendeu quando vi as fotografias de A&J de José Carlos Duarte no ano passado foi sobretudo essa capacidade de retratar um happening casamenteiro de uma forma tão distanciada e ao mesmo tempo tão íntima. Ficamos a imaginar os corpos completos que se vestem assim, os seus rostos, as suas expressões de contentamento, de emoção e euforia. Ficamos a imaginar o que se diz naquele grupo de pernas armadas com saias de cetim. Entramos no sonho daquele rapaz esgotado que caiu redondo no sofá gigante à espera que a meia da noiva seja finalmente cortada e leiloada. Vemos (será que vemos?) a festa a decorrer, os bolos e balões mas nunca provamos pitada que seja do prato principal. E, paradoxalmente, é a partir de uma certa sonolência e algum desapego que entramos como convidados especiais nesta festa que celebrou também o registo fotográfico do pico de felicidade, sempre coberto (negado?) pelo véu do corte e do descontexto.

A&J foi reconhecido com uma menção honrosa no prémio Novos Talentos FNAC Fotografia 2008. A FNAC Sta. Catarina, no Porto, mostra este trabalho até 31 de Dezembro.


José Carlos Duarte, A&J
© José Carlos Duarte

Robert Frank no Estoril

Robert Frank, fotogramas de Pull My Daisy, 1959

Depois de ter pousado a máquina fotográfica, no final dos 50, o mestre americano Robert Frank passou a dedicar-se mais à imagem em movimento. Mesmo depois de ter regressado à fotografia, durante os anos 70, Frank não mais deixou de fazer cinema e vídeo. No ano passado, a editora alemã Steidl começou a editar em DVD toda a cinematografia de Robert Frank que é composta por mais de 25 obras. O projecto Robert Frank - The Complete Film Works terminará no Outono do próximo ano, para quando está prevista a distribuição das quatro películas mais recentes, rodadas entre 2002 e 2006.
Conversations in Vermont (26´, 1969), o primeiro de vários títulos autobiográficos, pôde ser visto no DocLisboa do ano passado. Agora, o Estoril Film Festival, apresenta a partir de hoje uma ampla selecção de obras do realizador nas Robert Frank Sessions.
O programa está aqui

05 novembro, 2009

entre aspas

Man Ray, Rayography Film strip & sphere, 1922
© Man Ray Trust

O ajudante de farmácia pediu para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre a doença, uma opinião formada, Não creio que se lhe possa chamar, em sentido próprio, uma doença, começou por precisar o médico, e depois, simplificando muito, resumiu o que investigara nos livros antes de ter cegado. Algumas camas adiante, o motorista escutava com atenção, e quando o médico terminou o seu relato, disse de lá, Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê, tal como na película a imagem aparece (...)

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

03 novembro, 2009

Georgian Spring

Alex Majoli, Olhando através do monóculo de um sniper, checkpoint na Ossétia do Sul
© Alex Majoli/Magnum Photos

Depois do lançamento do álbum Georgian Spring é a vez de brilhar o site com os dez ensaios de fotógrafos da Magnum que andaram pela Geórgia na tentativa de construir um retrato identitário daquele país. A página georgianspring.com explica todos os pormenores do projecto, apresenta vídeos, podcasts e os portfólios de todos os fotógrafos envolvidos: Antoine d'Agata, Jonas Bendiksen, Thomas Dworzak, Martine Franck, Alex Majoli, Gueorgui Pinkhassov, Martin Parr, Paolo Pellegrin, Mark Power e Alec Soth. Aqui

Deutsche Börse

Anna Fox, Cockroach Diaries & Other Stories
© Anna Fox

Os fotógrafos nomeados para a fase final do Deutsche Börse Photography Prize foram recentemente anunciados pela londrina The Photographers’ Gallery, parceira do galardão. Anna Fox (Ing., 1961), Zoe Leonard (EUA, 1961), Sophie Ristelhueber (Fr., 1949) e Donovan Wylie (Ing., 1971) concorrem para o prémio máximo que será divulgado no dia 17 de Março de 2010. Antes desse anúncio, será apresentada uma exposição dos finalistas que poderá ser vista entre 17 de Fevereiro e 18 de Abril.
O prémio anual, no valor de 33 mil euros, reconhece um artista vivo, de qualquer nacionalidade, que através de uma exposição ou de um livro "tenha contribuído de forma marcante para o panorama da fotografia europeia" entre 1 de Outubro de 2008 e 30 de Setembro de 2009. O júri da edição deste ano será composto por Olivia Maria Rubio (directora de exposições da galeria La Fabrica, Madrid), Gilane Tawadros (líder da Design Artists Copyright Society, curador e escritor), James Welling (artista) e Anne-Marie Beckmann (curadora da Art Collection Deutsche Börse).

02 novembro, 2009

=ColecçãoàVista=35

Alvin Langdon Coburn, Decorative Study, 1906
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Forma abstracta

Alvin Langdon Coburn (1882-1966) pertence à geração de fotógrafos que trouxe a mudança da arte pictórica do século XIX para o estilo de fotografia de orientação vanguardista. Fez experiências com perspectivas e desenvolveu um interesse por estruturas e formas abstractas.
Em 1916 escreveria palavras nas quais ecoava o manifesto de Stieglitz em favor da exploração das qualidades próprias à fotografia e o abandono de referências estéticas alienígenas: “O que nós precisamos na fotografia é mais sinceridade, mais respeito pelo nosso meio e menos respeito por convenções decadentes”, dizia Coburn, e acrescentava: “Isso faz-me querer gritar, ‘Acordem!’ ‘Façam alguma coisa ultrajantemente ruim, desde que isso seja revigorante”. Havia ali um convite à ousadia e à criatividade que, se hoje soa muito permeado pelo “progressismo” da época, ainda assim permanece uma das mais vigorosas páginas escritas em torno da estética fotográfica. (texto:CPF)

Pierre von Kleist


Silence, José Pedro Cortes


Já não era sem tempo: há uma nova editora de livros de fotografia em Portugal, iniciativa de André Príncipe e José Pedro Cortes. Chama-se Pierre von Kleist, tem publicado um livro, Silence, de José Pedro Cortes, o segundo a caminho, VOL.I, de Pauliana Valente Pimentel, e o terceiro agendado para Dezembro, uma reedição de Lisboa, cidade triste e alegre, de Victor Palla/Costa Martins que contará com um ensaio de Gerry Badger um dos autores do celebrado The Photobook - A History. O lançamento do álbum de Pauliana Valente Pimentel acontece na quarta-feira, na galeria lisboeta 3+1, R. António Maria Cardoso, 31.


VOL.I, Pauliana Valente Pimentel

 
free web page hit counter