23 novembro, 2009

Lisboa, Cidade Triste e Alegre

© Miguel Manso/Público



Para reeditar este livro até a tinta teve de ser inventada
Sérgio B. Gomes
(P2, Público, 23.11.2009)

Outra vez te revejo,

Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo…


Álvaro de Campos, Lisboa Revisited (1926)


Chamam-lhe poema gráfico. E ele tem, na verdade, estampada a poesia das palavras, o virtuosismo dos melhores: Pessoa, O`Neill, Sena, Miguéis, Mourão-Ferreira, Gomes Ferreira... No livro dos livros de fotografia criados em Portugal, entraram muitas fontes de poesia, muitos géneros de poemas, que estão para lá da rima e da métrica. À palavra juntaram-se, no papel, outras formas de poesia, a gráfica e a fotográfica – ingredientes para um poema visual total que nos “anos de chumbo” (Fernando Lopes) do fim dos anos 50 foi assinado por dois autores de talentos múltiplos, Victor Palla (1922-2006)/Costa Martins (1922-1996).

Quando passam 50 anos sobre a primeira edição de Lisboa, Cidade Triste e Alegre (1959), o único álbum português referenciado na bíblia mundial dos livros de fotografia – The Photobook: A History (Phaidon, 2004) - vai ser finalmente reeditado em Dezembro pela mão de outra dupla de fotógrafos, José Pedro Cortes e André Príncipe.

Durante a última semana, as rotativas da Heidelberg Speedmaster da Guide Artes Gráficas, em Odivelas, afinaram-se ao máximo para que as páginas voltassem a ser impressas. No chão da gráfica foram-se empilhando resmas de papel onde já se mostravam casais de namorados e varinas, calçadas e fontenários. Páginas e páginas, onde brincam crianças à soleira de portas, onde descansam velhos nos jardins. Ao passar os dedos pelo papel ainda quente, sente-se uma finíssima camada de pó, segredo eficaz para que as folhas empilhadas voltem separar-se e se transformem em livros e não em blocos compactos.

Na mesa de trabalho, Armindo Francisco, um dos impressores do turno da manhã, não dá descanso ao conta-fios, a lente que lhe fornece pistas sobre se a impressão está a tomar o caminho certo. Compara as páginas soltas de um original meio amarelado com o resultado das cópias. Compara e faz esvoaçar páginas de um lado para o outro. Pelo meio vai carregando em filas de botões, como se estivesse a tocar piano. Lisboa, Cidade Triste e Alegre tem ritmo até na impressão. Armindo não conhece o livro que está a imprimir. A fama dele não o assusta. A fama dele nem a sente. Só lhe promete dar o melhor que sabe.


© Miguel Manso/Público

Um livro desejado
Em escalas diferentes, a história da iniciativa particular e da teimosia de poucos à volta da edição daquele que é considerado por Martin Parr e Gerry Badger (autores de The Photobook…) um dos melhores livros de fotografia da Europa do pós-guerra parece repetir-se.

Se em 1959, Palla/Martins juntaram à sua criatividade todo o esforço e dinheiro para transformar em livro (distribuído por fascículos) o trabalho fotográfico que vinham desenvolvendo juntos nos bairros históricos de Lisboa desde 1956, Cortes/Príncipe ousaram dar, em 2006, um novo impulso a um projecto de reedição ambicioso, mas mais ou menos moribundo, que envolvia o autor de uma tese de mestrado sobre o livro, o Centro Português de Fotografia, a família dos autores e a reputada editora alemã de fotolivros Steidl.

Apenas na recta final, quando todo o projecto de Cortes/Príncipe estava encaminhado rumo à gráfica, a editora fundada pelos dois, a Pierre von Kleist, garantiu a venda de 500 das 2000 cópias a um banco, garantindo desta forma o retorno de parte do investimento. E foi então que as rotativas começaram definitivamente a mexer-se.

Há semelhanças nas dificuldades do passado e do presente. Em contramão, há uma diferença significativa no que toca ao reconhecimento do génio envolvido na criação de Lisboa, Cidade Triste e Alegre, contemporâneo de outros livros de fotografia incontornáveis, como Les Américains (Robert Frank, 1958) ou New York (William Klein, 1956). Ao fracasso comercial e alcance limitado da primeira edição, contrapõe-se agora um renovado interesse e uma grande procura da obra por coleccionadores nacionais e internacionais.

Em Junho de 2006, no primeiro leilão de fotografia em Portugal, organizado pela P4, um exemplar sem sobrecapa foi à praça com um preço base de 400 euros e acabou nos 1200. A disputa terminou em palmas. Em Maio de 2007, num leilão de livros de fotografia da Christie`s, em Londres, uma cópia com sobrecapa branca foi vendida a um coleccionador americano por cerca de 14 mil euros. No ano passado, também num leilão da P4 com lotes que testemunhavam as várias facetas criativas de Victor Palla, foram vendidas mais três cópias, entre 4600 e 7400 euros.

Ao longo destes 50 anos Lisboa, Cidade Triste e Alegre já passou por momentos altos e baixos. Como um gato, vai mostrando que sabe viver muitas vidas. Criado na sequência de duas exposições em 1958, em Lisboa (Galeria Diário de Notícias) e no Porto (Divulgação), com imagens que fugiam da tónica da fotografia de salão mais ou menos alinhada com o regime, o livro não se pode comparar com nada do que existia em Portugal e, hoje, ombreia com os mais reputados livros de fotografia do mundo.

No final dos 50 Palla/Martins mergulharam no Bairro Alto e em Alfama. “Deixaram de trabalhar e todos os dias – dia e noite – deambularam pela cidade, fotografando, falando, comendo, divertindo-se com pessoas e coisas. Vinham a casa apenas para revelar e ampliar [os negativos]”, escreve António Sena (Uma História da Imagem Fotográfica em Portugal - 1839-1997, 1998). Inspirados na espontaneidade da fotografia humanista à maneira de Cartier-Bresson e num modo de ver cinematográfico e neo-realista, consumaram um livro graficamente arrojado, onde se sente a “sinfonia da cidade”.

Lisboa é, certamente, um livro mais complexo do que aparenta ser à primeira vista. (…) Se menciono que a chave do seu sucesso é o design e a tipografia, não é para denegrir as fotografias ou outros aspectos do volume, mas para dizer que a exuberância do design cria largamente a exuberância do livro”, escreve Gerry Badger num longo ensaio que será publicado num índice encartado com a reedição da Pierre von Kleist. Depois da primeira edição, o livro hibernou, foi esquecido, até que, em 1982, António Sena o retirou da sombra através da exposição Lisboa e Tejo e Tudo, na galeria Ether. Nessa altura, juntaram-se muitos dos fascículos que estavam por encadernar e fizeram-se cerca de 200 cópias. Esta segunda vida dá-lhe alguma cotação internacional, confirmada, muitos anos mais tarde na obra de Parr/Badger.

Conscientes da reputação e da importância do livro na história da fotografia portuguesa, José Pedro Cortes e André Príncipe decidiram meter mãos à obra, depois de uma conversa do segundo com uma das filhas de Victor Palla, Maria José, também fotógrafa. “Sabíamos que a reedição que envolvia a Steidl estava parada e a meio de uma conversa com a Maria José surgiu a ideia de avançarmos. Eu ri-me e disse: ‘Sabe que este livro não se faz assim’. Mas depois de dizer isto, percebi que podíamos mesmo voltar a editá-lo”, recorda o fotógrafo do Porto que se encontrou com Victor Palla várias vezes para rodar um filme sobre o seu trabalho. “Vi-me no meio de uma série de factores que me diziam que podia concretizar a reedição. E o facto de ter mantido algum contacto com Victor Palla enquanto ele foi vivo deu-me uma espécie de legitimidade para levar o projecto em frente”, afirma Príncipe que lembra que o fotógrafo (também arquitecto, escritor, tradutor e designer) sempre lhe falou do livro de uma maneira “despretensiosa” e que tanto lhe recordava as peripécias à volta da sua realização como do projecto da Aldeia das Açoteias (condomínio no Algarve). José Pedro Cortes: "Sentimos uma grande responsabilidade. A intenção é democratizar a obra. Colocá-la no sítio onde deve estar, que é na mão das pessoas."

A inexistência da maior parte dos negativos e o desaparecimento da rotogravura em Portugal (técnica em que foi impressa a primeira edição) obrigaram os novos editores a optar por uma solução em fac-símile. Ou seja, as fotografias foram fotografadas e tratadas digitalmente de maneira a aproximarem-se ao máximo dos originais. Para além do rigor da cópia visual, houve também cuidado redobrado nos pormenores tácteis. Foi escolhido um papel grosso, levemente rugoso (do tipo gardapat), e mandou-se fabricar na Alemanha uma tinta específica (de tonalidades mais quentes e um elevado grau de liquidez) para que a sensação táctil produzida pela rotogravura pudesse, pelo menos, ser sugerida. “Houve uma preocupação em não alterar nada na lógica narrativa e no conceito de design do livro. Quando escolhemos a tinta e o papel, tentámos aproximar esta edição o mais possível do conceito original”, explica Príncipe.

Fazer artesanato
A tinta até pode ser especial e o papel um dos melhores para suportar fotografia, mas não fosse a experiência e a iniciativa da Guide talvez esta reedição não existisse. Cortes e Príncipe bateram a várias portas e todas se fecharam. Algumas gráficas nem arriscaram dar orçamentos para um livro de execução muito complexa e demorada. “Este livro não foi pensado para um processo industrial. É por isso que vai ser acabado de forma artesanal com técnicas actuais”, explica Nuno Penedo, um dos responsáveis da Guide e um dos nomes a quem se deve a concretização da obra. Lisboa, Cidade Triste e Alegre tinha de ser feito “com algum sentimento”, diz Penedo, contente por ser uma gráfica portuguesa a responsável por lançar de novo o livro no mercado. “Vai exceder as expectativas das pessoas que estão à espera dele.”

Conhece-se o entusiasmo à volta de Lisboa, Cidade Triste e Alegre. A procura que a primeira edição de 1959 e a reencadernação de 1982 têm despertado não pára de surpreender. Agora, há alguma expectativa sobre o sucesso da reedição da obra-prima da dupla Palla/Martins. De uma coisa a dupla Cortes/Príncipe não tem dúvidas: “Se esta edição esgotar, tentaremos fazer outra, porque os grandes livros de fotografia têm de ser como os clássicos da literatura – têm de estar sempre disponíveis.”

22 novembro, 2009

entre aspas



Como eram essas casas?
Eram sombrias, com corredores compridos, cortinas corridas, pianos e fotografias de mortos.


António Lobo Antunes, em entrevista a Sara Belo Luís, Visão, 8.11.2009

21 novembro, 2009

Paris Photo


Paulo Nozolino, Marrakech, 1983
© Paulo Nozolino, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 21.11.2009)

Portugal é um dos países que estão este ano em estreia no ParisPhoto, o salão internacional de fotografia que termina amanhã no Carrousel do Louvre. O tema da 13.ª edição, inaugurada a 19, é o Irão e o Mundo Árabe, e o olhar de Paulo Nozolino sobre a cidade marroquina de Marraquexe é parte do conjunto de trabalhos com que a galeria Pente 10, de Lisboa, assegura esta primeira representação nacional no salão parisiense – há também trabalhos de Rita Barros, João Cutileiro, Inês Gonçalves, Victor Palla e Miguel Santos, entre outros.

“A fotografia do Médio Oriente é normalmente a grande ausente dos salões ou galerias consagrados à imagem”, disse ao jornal Le Figaro o comissário do ParisPhoto, Guillaume Piens, ao apresentar esta edição. “Fala-se raramente de fotógrafos árabes e iranianos – só há alguns anos o público e os coleccionadores começaram a interessar-se pelo tema. Esta região do mundo foi o primeiro território de experimentação da fotografia.”

É assim que, numa centena de stands, com galerias e editoras de 23 países, o mundo árabe está retratado, tanto pelos seus próprios fotógrafos como por olhares estrangeiros. Há imagens da guerra do Afeganistão e do conflito israelo-palestiniano, principalmente registadas por fotojornalistas. Há retratos de quotidianos menos traumáticos e mais de acordo com um certo imaginário exótico da terra de As Mil e Uma Noites. Há fotografias com a patine do tempo e a homenagem a alguns autores históricos, como o egípcio Abbas e o seu registo da vida quotidiana no Irão (Pérsia) pré-Revolução Islâmica de 1979. Mas há também as experiências fotográficas do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, cujas obras da série Road (galeria inglesa Purdy Hicks)
estão cotadas a 30 mil euros cada.

“No conjunto, os fotógrafos iranianos distinguem-se pelo modo como integram nas suas imagens os elementos da sua cultura: a caligrafia à moda de Shirin Neshat, mas também o véu islâmico (Sadegh Tirafkan), o tapete persa (Jalal Sepehr). A temática é muitas vezes política, as imagens falam do fecho da sociedade, da condição da mulher, mas de forma indirecta”, defende a crítica do Le Monde, Claire Guillott. A galerista Anahita Ghabaian-Ettehadieh opta por outra expressão – é uma fotografia que aborda a realidade com “um pudor tipicamente iraniano”.


Hicham Benohoud, Azemmour, 2007
© Hicham Benohoud, cortesia Galerie VU, Paris

19 novembro, 2009

Steidl


Karl Lagerfeld, 2008
© Steidl


O livro de fotografia está na mó de cima. As editoras de livros de fotografia ganham protagonismo no mercado internacional e há nomes que estão na ribalta - como o de Gerhard Steidl, descrito pelo Le Monde como "um editor de alta-costura". Das oficinas de Göttingen, sede da casa editora Steidl, na Alemanha, sai quase todos os dias um livro. Na "steidlville", os livros de fotografia são imaginados e concretizados de uma forma global e sempre que possível com a presença dos autores.
Fascinados com a qualidade das obras editadas por Gerhard Steidl e com a constelação de estrelas do mundo da fotografia que passam pela "steidlville", os responsáveis pelo Musée de l'Elysée de Lausanne desafiaram, entre outros, Raymond Depardon, Jim Dine, Robert Frank, Roni Horn, Karl Lagerfeld, Ed Ruscha, Jürgen Teller, Deborah Turbeville e Jeff Wall a revelarem os bastidores da criação dos seus livros. O resultado desse labor pode ser visto agora na exposição House of Steidl.

Gronsky


Alexander Gronsky, s/d, s/t, da série The Edge



O Aperture Portfolio Prize 2009 foi atribuído ao trabalho The Edge/Pastoral de Alexander Gronsky. As quatro menções honrosas do mesmo galardão foram distribuídas a Keliy Anderson-Staley (Off the Grid), Alejandro Cartagena (Lost Rivers), Maureen Drennan (Meet Me in the Green Glen), Jason Hanasik (He Opened Up Somewhere Along the Eastern Shore) e Mark Lyon (Landscapes for the People).

17 novembro, 2009

Electricity

Cable, Atlanta, Georgia, USA, 2009
© António Júlio Duarte

A fotografia de António Júlio Duarte é rude e crua. Dá-nos o lado B, o lado C e muitos outros lados das coisas. Isto não é novo e parece que não vai mudar. Ainda bem.
Durante dois meses o fotógrafo conduziu e fotografou os Humanization 4tet (Luís Lopes-guitarra, Rodrigo Amado-saxofone tenor, Aaron Gonzalez-contrabaixo, Stefan Gonzalez-bateria) durante uma tournée pelos Estados Unidos. Um conjunto reduzido (mas eficaz) de 12 imagens dá-nos algumas impressões desta viagem musical e fotográfica. A série chama-se acertadamente Electricity, provável homenagem aos décibeis e à falsa luz.

Electricity, de António Júlio Duarte
Centro de Arte e Imagem – Galeria do Instituto Politécnico de Tomar, Tomar

16 novembro, 2009

=ColecçãoàVista= 37

Compass, Noel Pemberton-Billing, Jaeger LeCoultre & Cie, Sentier, Suíça/Compass Camera Ltd., Londres, Inglaterra
Colecção de Câmaras do CPF © Centro Português de Fotografia


Compass, construída como um relógio – tão simples de usar

Esta pequena peça de design sofisticado e invulgar foi criada pelo inglês Noel Pemberton-Billing, como resultado de seis anos de trabalho. Foi patenteada em Maio de 1936 e produzida pela Le Coultre et Cie (Jaeger-LeCoultre), uma das principais e mais consagradas marcas da relojoaria suíça, para a Compass Cameras Ltd. A sua produção terminou em 1939 e apesar de ser ainda publicitada e vendida em 1941, não voltou a ser fabricada depois da guerra. Estima-se que tenham sido produzidas menos de 4000 câmaras. A minúcia e complexidade implícitas na sua construção e a diversidade de variantes que esta câmara incorpora – visor de ângulo recto, fotómetro de extinção, filtros, despolido de foco, entre outras – fazem dela uma pequena grande maravilha da engenharia mecânica.
(texto:CPF)

13 novembro, 2009

Sobre Ruins of the Gilded Age

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Bakersfield
© Edgar Martins


Depois de ter recebido o Prémio BES Photo, em Abril, Edgar Martins publicou um portfólio sobre a crise no sector imobiliário nos EUA encomendado pela New York Times Magazine. A publicação dessas imagens, na edição impressa e no site do jornal, em Julho, ficou marcada pela polémica, depois de um leitor ter apontado manipulação digital em muitas delas. O Times retirou as imagens do site e, pouco depois, o artista divulgou um texto a explicar a sua abordagem estética ao trabalho. O caso intensificou a velha discussão acerca dos limites da manipulação fotográfica no jornalismo e sobre os desencontros entre um artista conceptual e uma publicação jornalística. O filósofo Peter D. Osborne, professor do London College of Communication, com obra publicada em fotografia e cultura visual, escreveu um ensaio sobre Ruins of The Gilded Age (que pode ser visto na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, até 5 de Dezembro).

Eis a versão curta desse texto:

Isto não é uma casa
Algumas reflexões a propósito de Ruins of Gilded Age, de Edgar Martins

1. A palavra grega Oikonomos (economia) deriva parcialmente de Oikos, que significa “casa”. Mesmo no grego contemporâneo, que usa spiti para “casa”, existem termos associados, como oika, katoika, oikiakos, entre outros.

2. As ruínas recordam-nos da materialidade muda do mundo, as coisas que em nada se importam dos nossos projectos fúteis, que em nenhum aspecto reconhecem a ordem que as nossas arquitecturas tentam impor no mundo. Todavia, na sua esmagadora maioria, as ruínas são um dos cenários feitos da história, e a partir deles muitos significados e representações foram edificados. Pense-se na fotografia de ruínas americanas: os edifícios queimados em Atlanta em 1864, os panoramas de Arnold Genthe de São Francisco depois do terramoto na viragem do século XX, os barracões abandonados dos agricultores foreiros nas fotografias do projecto da Farm Secutiry Administration, as mansões desertas e decrépitas das plantações do Mississípi fotografadas por Clarence John Laughlin nos anos 1940, as fotografias de imprensa dos blocos de apartamentos incendiados de Newark e noutros lugares onde os negros norte-americanos se sublevaram na década de 60, cidades-fantasma e motéis destituídos e invadidos pelas ervas daninhas, os projectos de Lewis Baltz sobre desertos de ar provisório, a casa de sonhos de Joel Sternfeld destruída pelo deslizamento de terras, e, claro está, o “Ground Zero” de Nova Iorque. Os desastres norte-americanos tendem a tornar-se icónicos. São necessários para alimentar a epopeia perene que são os Estados Unidos – ou deveríamos antes dizer “foram”? –, uma epopeia de desastres superados, certamente, mas ao mesmo tempo uma epopeia assombrada pelo sentimento da sua própria precariedade, a sua própria brevidade, a sua própria incerteza face ao local a que pertence, se é que pertence. Neste sentido, a loja da Best em Houston projectada por James Wines, construída como se já tivesse sofrido graves tremores de terra, pode ser entendida ora como um desafio face ao fatal destino ora como uma defesa contra ele. A América é uma nação de colonos. A casa, o abrigo, tem uma ressonância muito especial aqui. Qualquer desastre que implique o abrigo, a colónia, torna-se rapidamente uma metáfora de todo um processo histórico.
É este o contexto no qual surge a série de Edgar Martins, Ruins of the Gilded Age, as ruínas da economia caseira.

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Phoenix
© Edgar Martins

3. Supor que a elegância, a abstracção, e a cuidada tradução dos valores formais e a manipulação necessária existentes em muito do trabalho de Edgar Martins são de alguma forma qualidades inconvenientes para aplicar aos temas do seu trabalho actual seria um erro. É verdade que a crise social e que a infelicidade humana implícitas em muitas destas imagens são reais o suficiente, e impõem a qualquer fotógrafo um qualquer grau de responsabilidade ética. Porém, Martins nunca foi um fotógrafo humanista nem tampouco um documentalista social. No entanto, é precisamente a ausência da figura humana que, nesta série, acentua uma paisagem profundamente humana, o humano como um princípio que se tivesse ausentado, e que deixa um silêncio visual. É na transmutação de espaços habitados em estruturas quase abstractas que as abstracções mais amplas dos mercados financeiros se revelam, e tornados reais e presentes nas desconstruções que eles mesmos desencadearam. O abandono da figura humana destes espaços é mais do que uma opção estética. Considerando-as nos termos do que Jacques Rancière apelida “a linguagem silenciosa das coisas”(1), estas imagens retratam mais do que uma realidade imediata. Elas representam uma condição que é social e empírica mas também metafísica, e que exige uma estética que jamais se poderá fundamentar somente na observação imediata, e escolhe assim abster-se da melancolia distópica comum em muita da arte de espaços vazios. Citando Rancière mais uma vez: “o real tem de ser ficcionalizado para que possa ser pensado” (2). A palavra ficção tem conotações de um movimento falso empregue para a produção de efeitos reais (uma finta) e, ao mesmo tempo, a de uma coisa feita (as palavras “facto” e “fábrica” partilham a mesma raiz), algo real apesar de manufacturado. Martins tenta, nesta série, fazer evoluir uma “forma de visibilidade”, na qual a grandeza das imagens e das imagens que as acompanham – as de construções num equilíbrio precário, construídas pelo fotógrafo a partir dos detritos deixados no interior de edifícios vazios – fazem com que traga para primeiro plano a “qualidade de factura” do seu trabalho, a sua fictividade, e, nesse sentido, o fabrico das suas intervenções. Mas faz mais do que isso. Como se afirmou acima, estes espaços desabitados ou incompletos começam por aparecer como formas puras, sem qualquer conteúdo, tal como as abstracções económicas que as levaram a este estado. A ficção que é a factura revela a ficção que é o movimento falso, a finta, de Wall Street. Apercebemo-nos deste modo que a economia sobre a qual estas casas e interiores se construíram é tão ilusória quanto os interiores de uma fotografia de Thomas Demand. Ruins of a Gilded Age não produz uma verdade mas antes um processo de uma verdadeira “recomplicação da realidade” (3), baseada na prova da sua própria beleza, na documentação da sua própria estética.

4. Ficámos a saber que aqueles que haviam encomendado este trabalho se sentiram incomodados com a manipulação digital circunscrita que o fotógrafo aplicou sobre algumas das imagens. Bom, é verdade que o trabalho interfere sobre o real, mas um real que já havia sofrido uma interferência substancial. E eu concordaria com o filósofo Peter Osborne quando este diz suspeitar que muito do pânico sobre a perda do real implicada pelas imagens digitais não é mais do que a expressão de uma angústia mais fundamental e deslocada sobre a perda do capitalismo da sua “economia real”.

1. Jacques Rancière, (2006) The Aesthetics of Politics [v. orig. Le Partage du sensible: Esthetique et politique, 2000], London/NY: Continuum; pg. 36.
2. Rancière, op. cit.; pg. 38.
3. Uma frase empregue por Don Delillo para descrever a função do romance.

A versão completa deste ensaio pode ser lida (em inglês) na página de Edgar Martins aqui

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Atlanta
© Edgar Martins

Frank



A arte de Robert Frank começou na fotografia mas não acabou na fotografia
(P2, 12.11.2009)

Quando o nome do fotógrafo suíço-americano Robert Frank vem a terreiro, a arte que se lhe cola logo é a fotografia e o livro tornado obra endeusada pelo virtuosismo de articular narrativas visuais pela imagem fotográfica - The Americans (1958), ou a poderosa sequência táctil de uma das road trips pela América profunda que mais influência criativa e ondas de choque provocaram no pós-guerra. E o que é que vemos afinal de Robert Frank para lá desse eterno "poema triste" (Jack Kerouac) que se move como uma sombra fatalmente agrilhoada ao seu autor? Ainda no ano passado, em Nova Iorque, numa rara aparição pública, o próprio Frank, hoje com 85 anos, hesitou muito na resposta, mas acabou por admitir a sua felicidade por fazer perdurar esta ligação umbilical com o livro de fotografia que - ninguém tem dúvidas - o eternizará.

O que aparece em The Americans é Frank no seu registo mais forte e genuíno. Mas a sua grandeza criativa está longe de se esgotar nessas 80 fotografias que foram outras tantas alfinetadas na maneira instituída (e instalada) de representar a América. Há muitos mais livros de fotografia que resultam do seu génio. E há também uma vasta obra cinematográfica e videográfica (mais de 25 títulos) que, até há pouco tempo e para além das polémicas imagens que rodou de uma digressão dos Rolling Stones (Cocksucker Blues, 1972), permanecia relativamente misteriosa e ao alcance de poucos.

As portas de Robert Frank realizador abriram-se um pouco mais no ano passado quando a casa editora alemã Steidl começou a editar a sua obra completa em DVD. À boleia da reedição de The Americans (em 2008 a primeira edição, impressa em França pela mão de Robert Delpire, fez 50 anos) e de muitos outros livros da sua vasta obra, a editora alemã decidiu tirar do baú de Frank todos os seus projectos que incluíram imagens em movimento, desde o filme inaugural Pull My Daisy (1959), escrito e narrado pelo compagnon de route Jack Kerouac e protagonizado por Alan Ginsberg e por outros artistas da beat generation, tido como uma das sementes do Novo Cinema Americano, passando por videoclips para os New Order (1989) ou para Patti Smith (1996), até aos mais recentes registos autobiográficos, como True Story (2004), que mistura o seu legado artístico com o da mulher, June Leaf, e remexe em acontecimentos de família e dramas pessoais.

Foi a partir desta exemplar recolha da Steidl que a edição deste ano do Estoril Film Festival (a decorrer até domingo) programou vários filmes e vídeos de Robert Frank, uma filmografia que inclui géneros tão variados como o experimentalismo, o documentário e a ficção.

Para amanhã, as Robert Frank Sessions têm agendadas as duas últimas obras do realizador no festival: C`est Vrai (1990) e Paper Route (2002). No primeiro, Frank caminha por Nova Iorque durante uma hora exacta, sem qualquer edição da narrativa, numa justaposição de cenas estudadas e improvisação onde entram novamente velhos conhecidos do "círculo beat", como o poeta Peter Orlovsky. No segundo, o artista decide acompanhar o distribuidor de jornais Robert MacMillian numa manhã invernosa no seu percurso rotineiro pelas zonas rurais da região canadiana da Nova Escócia, refúgio do artista desde os anos 60. À medida que a viagem avança, Frank vai procurando a paisagem e as histórias de vida de MacMillian.

São dois exemplos de um registo que tenta aproximar-se das angústias, das alegrias ou da simples existência das pessoas da "vida real", um universo que Frank sempre procurou, quer como realizador, quer como fotógrafo. Tentou compreender os outros, mas também procurou explicações sobre si, como em About Me - A Musical (1971), quando, logo nos primeiros minutos, decide abandonar a ideia de um filme sobre música (primeiro indiana e depois americana) e concentrar-se numa análise introspectiva: "Que se foda a música! Decidi fazer um filme sobre mim." E quem disse que as melhores histórias estão assim tão longe?

Pull My Daisy

10 novembro, 2009

das cidades



O processo de nascimento e desenvolvimento das cidades tem a sua dose de mistério e de encantamento. Quando é possível identificar com alguma clarividência o rastilho que deu origem à explosão das grandes metrópoles (como é o caso da generalidade das cidades americanas) o fascínio ainda é maior porque, muitas vezes, descobrem-se as mais extraordinárias razões, os mais corriqueiros acontecimentos para que um grupo de pessoas tenha decidido ficar num determinado local e a partir dele formar tecido urbano. À semelhança do que já fez com outras grandes cidades de todo o mundo, a editora Taschen organizou uma história fotográfica de Los Angeles (Los Angeles, Portrait of a City) que parte desde a primeira imagem conhecida da cidade até às vistas mais recentes que nos encadeiam os olhos. O pulsar da capital mundial do entretenimento é dado por dezenas de fotografias históricas e de não menos históricos fotógrafos, como Julius Shulman, Garry Winogrand e William Claxton. Os ensaios ficaram a cargo de Kevin Starr, historiador da Califórnia, e David L. Ulin, especialista em literatura.
Los Angeles, Portrait of a City pode ser folheado aqui

Visura


Kashmir, Any Spyra
© Andy Spyra


A revista de fotografia Visura, suportada pela Lucie Foundation, só existe em suporte digital. É publicada desde Janeiro e divulga portfólios com diferentes abordagens da imagem fotográfica. Apesar do aspecto geral que abusa da estilização, a navegação pelas imagens faz-se de maneira eficaz. As fotografias de Kashmir, de Andy Spyra, formam um dos melhores ensaios deste número.
A Visura está aqui

09 novembro, 2009

=ColecçãoàVista=36


Nuno Félix da Costa, Sem título, s/ d,
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia



Grafites

Nuno Félix da Costa nasceu em Lisboa em 1950. É médico psiquiatra no Hospital de Santa Maria e Professor da Faculdade de Medicina e do Instituto de Ciências de Saúde. Desde 1983 que tem dado a conhecer o seu trabalho em exposições individuais e colectivas de pintura e fotografia. Nos seus projectos artísticos, o autor tem associado poesia a estas duas componentes. Um exemplo disso é Arte Última, editado em parceria com a Casa Fernando Pessoa e acompanhado por poemas do poeta português.
Nesta imagem, o autor usa uma técnica diferente que resulta da junção de impressão de fotografia digital com desenho. É uma técnica muito curiosa pela utilização do pixel e também do traço. Talvez a falta de “consistência” do digital tenha levado o autor a graffitar posteriormente as imagens.
(texto:CPF)

08 novembro, 2009

Zmâla


Chegou-me às mãos uma nova revista onde a fotografia de reportagem é a principal protagonista: a Zmâla. O título, com sede em França, quer mostrar nas suas páginas o que de melhor é registado pelos colectivos de fotógrafos de todo o globo. A reportagem de João Pina nas favelas do Rio de Janeiro representa o colectivo português [KameraPhoto]. Há também lugar para ensaios como o que Gilles Mora escreveu sobre o futuro e os problemas actuais que se colocam à fotografia de rua. A revista é editada pela Photographie & Compagnie, um casa independente que dá início à sua actividade com este projecto. A Zmâla custa 19 euros. Está à venda na sede da [KameraPhoto], em Lisboa, e pode ser encomendada pelo mail: zmalaphoto@gmail.com

06 novembro, 2009

A&J

José Carlos Duarte, A&J
© José Carlos Duarte


O que me surpreendeu quando vi as fotografias de A&J de José Carlos Duarte no ano passado foi sobretudo essa capacidade de retratar um happening casamenteiro de uma forma tão distanciada e ao mesmo tempo tão íntima. Ficamos a imaginar os corpos completos que se vestem assim, os seus rostos, as suas expressões de contentamento, de emoção e euforia. Ficamos a imaginar o que se diz naquele grupo de pernas armadas com saias de cetim. Entramos no sonho daquele rapaz esgotado que caiu redondo no sofá gigante à espera que a meia da noiva seja finalmente cortada e leiloada. Vemos (será que vemos?) a festa a decorrer, os bolos e balões mas nunca provamos pitada que seja do prato principal. E, paradoxalmente, é a partir de uma certa sonolência e algum desapego que entramos como convidados especiais nesta festa que celebrou também o registo fotográfico do pico de felicidade, sempre coberto (negado?) pelo véu do corte e do descontexto.

A&J foi reconhecido com uma menção honrosa no prémio Novos Talentos FNAC Fotografia 2008. A FNAC Sta. Catarina, no Porto, mostra este trabalho até 31 de Dezembro.


José Carlos Duarte, A&J
© José Carlos Duarte

Robert Frank no Estoril

Robert Frank, fotogramas de Pull My Daisy, 1959

Depois de ter pousado a máquina fotográfica, no final dos 50, o mestre americano Robert Frank passou a dedicar-se mais à imagem em movimento. Mesmo depois de ter regressado à fotografia, durante os anos 70, Frank não mais deixou de fazer cinema e vídeo. No ano passado, a editora alemã Steidl começou a editar em DVD toda a cinematografia de Robert Frank que é composta por mais de 25 obras. O projecto Robert Frank - The Complete Film Works terminará no Outono do próximo ano, para quando está prevista a distribuição das quatro películas mais recentes, rodadas entre 2002 e 2006.
Conversations in Vermont (26´, 1969), o primeiro de vários títulos autobiográficos, pôde ser visto no DocLisboa do ano passado. Agora, o Estoril Film Festival, apresenta a partir de hoje uma ampla selecção de obras do realizador nas Robert Frank Sessions.
O programa está aqui

05 novembro, 2009

entre aspas

Man Ray, Rayography Film strip & sphere, 1922
© Man Ray Trust

O ajudante de farmácia pediu para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre a doença, uma opinião formada, Não creio que se lhe possa chamar, em sentido próprio, uma doença, começou por precisar o médico, e depois, simplificando muito, resumiu o que investigara nos livros antes de ter cegado. Algumas camas adiante, o motorista escutava com atenção, e quando o médico terminou o seu relato, disse de lá, Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê, tal como na película a imagem aparece (...)

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

03 novembro, 2009

Georgian Spring

Alex Majoli, Olhando através do monóculo de um sniper, checkpoint na Ossétia do Sul
© Alex Majoli/Magnum Photos

Depois do lançamento do álbum Georgian Spring é a vez de brilhar o site com os dez ensaios de fotógrafos da Magnum que andaram pela Geórgia na tentativa de construir um retrato identitário daquele país. A página georgianspring.com explica todos os pormenores do projecto, apresenta vídeos, podcasts e os portfólios de todos os fotógrafos envolvidos: Antoine d'Agata, Jonas Bendiksen, Thomas Dworzak, Martine Franck, Alex Majoli, Gueorgui Pinkhassov, Martin Parr, Paolo Pellegrin, Mark Power e Alec Soth. Aqui

Deutsche Börse

Anna Fox, Cockroach Diaries & Other Stories
© Anna Fox

Os fotógrafos nomeados para a fase final do Deutsche Börse Photography Prize foram recentemente anunciados pela londrina The Photographers’ Gallery, parceira do galardão. Anna Fox (Ing., 1961), Zoe Leonard (EUA, 1961), Sophie Ristelhueber (Fr., 1949) e Donovan Wylie (Ing., 1971) concorrem para o prémio máximo que será divulgado no dia 17 de Março de 2010. Antes desse anúncio, será apresentada uma exposição dos finalistas que poderá ser vista entre 17 de Fevereiro e 18 de Abril.
O prémio anual, no valor de 33 mil euros, reconhece um artista vivo, de qualquer nacionalidade, que através de uma exposição ou de um livro "tenha contribuído de forma marcante para o panorama da fotografia europeia" entre 1 de Outubro de 2008 e 30 de Setembro de 2009. O júri da edição deste ano será composto por Olivia Maria Rubio (directora de exposições da galeria La Fabrica, Madrid), Gilane Tawadros (líder da Design Artists Copyright Society, curador e escritor), James Welling (artista) e Anne-Marie Beckmann (curadora da Art Collection Deutsche Börse).

02 novembro, 2009

=ColecçãoàVista=35

Alvin Langdon Coburn, Decorative Study, 1906
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Forma abstracta

Alvin Langdon Coburn (1882-1966) pertence à geração de fotógrafos que trouxe a mudança da arte pictórica do século XIX para o estilo de fotografia de orientação vanguardista. Fez experiências com perspectivas e desenvolveu um interesse por estruturas e formas abstractas.
Em 1916 escreveria palavras nas quais ecoava o manifesto de Stieglitz em favor da exploração das qualidades próprias à fotografia e o abandono de referências estéticas alienígenas: “O que nós precisamos na fotografia é mais sinceridade, mais respeito pelo nosso meio e menos respeito por convenções decadentes”, dizia Coburn, e acrescentava: “Isso faz-me querer gritar, ‘Acordem!’ ‘Façam alguma coisa ultrajantemente ruim, desde que isso seja revigorante”. Havia ali um convite à ousadia e à criatividade que, se hoje soa muito permeado pelo “progressismo” da época, ainda assim permanece uma das mais vigorosas páginas escritas em torno da estética fotográfica. (texto:CPF)

Pierre von Kleist


Silence, José Pedro Cortes


Já não era sem tempo: há uma nova editora de livros de fotografia em Portugal, iniciativa de André Príncipe e José Pedro Cortes. Chama-se Pierre von Kleist, tem publicado um livro, Silence, de José Pedro Cortes, o segundo a caminho, VOL.I, de Pauliana Valente Pimentel, e o terceiro agendado para Dezembro, uma reedição de Lisboa, cidade triste e alegre, de Victor Palla/Costa Martins que contará com um ensaio de Gerry Badger um dos autores do celebrado The Photobook - A History. O lançamento do álbum de Pauliana Valente Pimentel acontece na quarta-feira, na galeria lisboeta 3+1, R. António Maria Cardoso, 31.


VOL.I, Pauliana Valente Pimentel

450

Jordi Burch, Expedição arqueológica com alunos e professores, Junho, 2009, Arronches
© Jordi Burch


Para a história da Universidade de Évora

Sérgio C. Andrade
(P2, 1.11.2009)

É um levantamento histórico-sociológico aquele que a Universidade de Évora decidiu agora fazer, na passagem dos 450 anos de ensino na instituição. A reitoria decidiu assinalar a efeméride com um projecto triplo: uma exposição, um livro e um vídeo, que fazem uma súmula daquilo que é a realidade actual na universidade. O seu dia-a-dia, dentro e fora de portas, a população estudantil que a frequenta e as actividades em que se envolve ao longo do ano lectivo: o estudo e o lazer, a investigação laboratorial e o trabalho de campo, as praxes e o desporto, a relação com as pedras e os lugares históricos de Évora...

Da exposição de fotografia ocupou-se o colectivo Kameraphoto, que reuniu 13 fotógrafos – Alexandre Almeida, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Pina, Jordi Burch, Martim Ramos, Nelson d’Aires, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Sandra Rocha e Valter Vinagre.

“Esmiuçaram” a universidade de ponta a ponta, e do início ao fim de um ciclo, “percorrendo salas de aula, bibliotecas, laboratórios de investigação e herdades experimentais, espiando os alunos e os professores nas cerimónias académicas, na lavra dos campos, nas pesquisas arqueológicas, nas cirurgias veterinárias, na observação da fauna oceânica, nas expressões artísticas e no desporto, no namoro, no lazer e nas tradicionais praxes académicas”, como descreve o reitor, Jorge Araújo.

Tudo isto está registado num retrato constituído por 170 imagens, realizadas “sem
maquilhagem nem peruca”, e que poderão ser vistas a partir de hoje, e até 31 de Dezembro, no Palácio da Inquisição, na galeria de exposições da Fundação Eugénio de Almeida – que futuramente será a sede do Museu de Arte Contemporânea de Évora.

Acresce à exposição e ao livro um vídeo de 16 minutos, intitulado A Rede, realizado por Rui Xavier, também membro do colectivo Kameraphoto. No conjunto, um testemunho da vida real da Universidade de Évora, ao mesmo tempo para registar História e ficar para a História.

Augusto Brázio, Hospital Veterinário, pós-operatório, Março, 2009
© Augusto Brázio

450, [Kameraphoto]
Fundação Eugénio de Almeida, Palácio da Inquisição, Évora
Até 31 de Dezembro

01 novembro, 2009

PHE Trasatlántica

© João Castilho

Não são novidade as ambições extra fronteiras do festival PHotoEspaña que em edições anteriores já se estendeu para França e Portugal. Agora, atravessou o Atlântico para se instalar na América do Sul instituindo um novo fórum. A iniciativa foi apelidada de Trasatlántica e a motivação principal passa por "promover o encontro de profissionais e criar redes de trabalho no âmbito da fotografia e das artes visuais" naquele continente. O fórum arranca no início de Novembro e prolonga-se até Janeiro de 2010 em vários países latino-americanos. Haverá crítica de portfólios, selecção dos melhores trabalhos para futuras exposições, incentivo ao comissariado online, encontro de críticos, teóricos e investigadores de fotografia e envolvimento de instituições de fotografia da América do Sul.
O site do Trasatlántica tem os pormenores. aqui

as 100

Criança iraquiana chora depois de uma bomba ter ferido o tio, 18 de Agosto, 2004
Ali Jasim © Reuters

Na última semana a agência Reuters divulgou uma selecção das suas 100 fotografias da década. Na escolha, prevalecem as imagens de guerra, calamidade, medo e catástrofe. A década que agora passa não se apresenta assim tão diferente de outras que já passaram. E, por este prisma, parece que continuamos a gostar de olhar o sofrimento dos outros (Sontag).


29 outubro, 2009

/uma fotografia, um nome\

Graça Sarsfield, da série A céu aberto
© Graça Sarsfield

Esta imagem pertence a uma série de três, A céu aberto, que vi pela primeira vez em Braga, nos Encontros da Imagem em 2002; a autora cedeu-me duas para uma publicação recente. Trata-se de uma transfiguração: a figura curvada que se encontra em primeiro plano irá transmutar-se numa nuvem compacta de flores vermelhas que parecem papoilas; na terceira fotografia apenas vemos um compacto conjunto de flores. São imagens muito belas, onde a dominante é a cor esparsa das papoilas. Esta imagem é a primeira da série.

Mas quando as vi ocorreu-me de imediato uma novela de Boris Vian, na qual uma rapariga doente dos pulmões apenas sobrevivia aspirando a vitalidade flores que sucessivamente lhe traziam e que, também sucessivamente, murchavam: era um trocadilho, mas arrepiava. Na série de Graça Sarsfield as flores investem sobre a mulher vergada, quase indistinta na penumbra e ocupam todo o seu espaço. É a vanguarda de um enxame de flores sedentas do corpo que flutuam à altura dos nossos olhos, um enxame de flores vermelhas de sangue.

E, no entanto, há uma delicadeza, uma estética muito clara na composição que sempre se sobrepõe à nossa consternação. As flores de fogo, frágeis como um sopro, não rimam com este sentimento nem com o fim das coisas, fins de dia, fins de luz. Acodem no fim da vida, como participantes, como homenagem. Talvez por isso mesmo me acudam velhas hipóteses de Pitágoras sobre a contínua encarnação, o ciclo de nascimentos das almas pouco responsáveis.

Mas seja para contar esta história ou fazer uma narrativa qualquer, confrontamos uma encenação fabulosa, um enquadramento de mistério, profundamente onírico: a sombra da mulher suficientemente vergada para deixar visível a janela por onde entram, uma a uma, as papoilas e, ao mesmo tempo, definir os contornos da figura na penumbra; esta semi-obscuridade esclarecida não pela clarabóia mas pela luz da sala adjacente, o envelhecimento e abandono de todo o contexto… é todo o ritual mistérico que se define. A luz vem com as papoilas vermelhas acabará por encher o espaço e retirar outra informação quando o enxame de flores absorver a mulher.

São imagens perversas, na fragilidade da sua indeterminação. É uma narrativa perversa que retira à ideia da flor a sua benignidade e beleza. Um pesadelo muito belo.

… A obra fotográfica sempre foi uma obra aberta.

Maria do Carmo Serén

Graça Sarsfield trabalha e vive no Porto.


Graça Sarsfield, da série A céu aberto
© Graça Sarsfield

=ColecçãoàVista= 34

Gérard Castello-Lopes, Portimão, Portugal
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Curiosidade

Personalidade de destaque no panorama da fotografia portuguesa, além de profissional de cinema e crítico, Gérard Castello-Lopes, nascido em Vichy em 1925, viveu em Lisboa, Cascais e Estrasburgo, fixando mais tarde residência em Paris. Como autodidacta, dedica-se à fotografia a partir de 1956 tendo como referência Cartier-Bresson. Caracterizam-no dois períodos, o da década de 50, em que mostra um registo sobre Portugal, e o da década de 80 sobre o Mundo. Nas suas próprias palavras, a fotografia é a sua maneira de “bloquear o Mundo”. Fotografa a preto e branco, e frequentemente inscreve no título o lugar geográfico e data.
Esta imagem, produzida em momento decisivo, sugere-nos uma paragem no tempo e aguça a observação e a curiosidade de perceber o que está para além do olhar e dos olhares.
(texto:CPF)

26 outubro, 2009

entre aspas


László Moholy-Nagy, Photogram, 1928

Levantou-se com cuidado, às apalpadelas procurou e enfiou o roupão, entrou na casa de banho e urinou. Depois virou-se para onde sabia que estava o espelho, desta vez não perguntou Que será isto, não disse Há mil razões para que o cérebro humano se feche, só estendeu as mãos até tocar o vidro, sabia que a sua imagem estava ali a olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem.

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

Misrach e Beard

Peter Beard, Portraits London (F. Bacon)/Paris/Nairobi, 1990
© Peter Beard

Uma paisagem de Richard Misrach e uma montagem de Peter Beard (que inclui fotografias de retratos de Francis Bacon) foram os lotes mais caros do último leilão de fotografia da casa Phillips de Pury. Foram ambos vendidos por cerca 52,5 mil libras (cerca de 57 mil euros).


Richard Misrach, s/t, 2003
© Richard Misrach

25 outubro, 2009

Pina no El País

Dois alegados traficantes de droga detidos durante uma operação da polícia no bairro de Acari, Rio de Janeiro, Brasil
© João Pina

O fotógrafo do colectivo [KameraPhoto] João Pina assina no El País uma grande reportagem sobre o quotidiano das favelas do Rio de Janeiro. As imagens são acompanhadas de um texto de Bernardo Gutiérrez e podem ser vistas aqui. É deprimente reparar que não existe hoje em Portugal jornal ou revista com orçamento para pagar com regularidade trabalhos de fundo com esta qualidade.

Adenda: a prestigiada The New Yorker foi primeira publicação a divulgar um conjunto de imagens deste trabalho de João Pina que tem fotografado as favelas do Rio desde há dois anos e meio. A galeria é acompanhada com um depoimento de Jon Lee Anderson que assina o texto Gangland na edição de 5 de Outubro.

desenhos de Eggleston



Pela primeira vez desde que foi lançada, em 1952, a Aperture Magazine reproduz na capa um desenho e não uma fotografia. Para o número de Outono, a revista da Aperture Fundation escolheu um desenho abstracto do mestre William Eggleston, o primeiro a apresentar uma exposição de fotografia a cores no MoMA de Nova Iorque, em 1976. É a primeira vez que esta faceta de Eggleston para lá da fotografia é publicamente divulgada.

23 outubro, 2009

Prix Pictet para Nadav Kander

Nadav Kander, Chongqing XI, China
© Nadav Kander

Kofi Annan, antigo líder das Nações Unidas e presidente honorário do Prix Pictet, anunciou ontem à noite em Paris o vencedor do Prix Pictet 2009 para a sustentabilidade ambiental: Nadav Kander, fotógrafo israelita a viver no Reino Unido. Ao fotógrafo americano Ed Kashi foi atribuída uma bolsa anual para trabalhar em Madagáscar com a ONG Azafady num projecto relacionado com a degradação dos solos e a desertificação de certas regiões do país. O tema deste ano do Prix Pictet era a Terra. Nadav Kander foi escolhido pelo portfolio Yangtze, The Long River Series, 2006-07, que mostra as bruscas mudanças na paisagem e nas localidades chinesas que se situam ao longo do rio Yangtze.

Kander e Kashi foram seleccionados de uma lista de 12 nomes que incluíam Darren Almond, Christopher Anderson, Sammy Baloji, Edward Burtynsky, Andreas Gursky, Naoya Hatakeyama, Nadav Kander, Ed Kashi, Abbas Kowsari, Yao Lu, Edgar Martins e Chris Steele-Perkins.

Annan aproveitou a ocasião do anúncio dos prémios para lançar um recado para a cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas que se avizinha: “Only weeks separate us from the decisive negotiations on climate change in Copenhagen. We are confronted with the vital need to prepare the political momentum necessary for a fair and effective post-Kyoto agreement. The images in front of us remind us of the fragility of our planet and the damage we have already done. When we see these photographs we cannot close our eyes and remain indifferent. Through our actions and voices, we must keep building the pressure to secure urgent action at Copenhagen and beyond.

Por seu lado, Francis Hodgson, presidente do júri, sublinhou a qualidade excepcional dos trabalhos deste ano e acrescentou: “The shortlisted photographers set the Jury an immense problem and I am grateful to my fellow judges for their insight, expertise and good humour.

Todos os portfolios dos 12 finalistas podem ser vistos até 24 de Novembro numa exposição inaugurada na galeria Passage de Retz, em Paris. A mostra andará depois em itinerância por vários países. Não há ainda nenhuma data prevista para Portugal. O catálogo da exposição foi publicado pela teNeues.

O site de Nadav Kander tem uma galeria com fotografias de Yangtze, The Long River Series, 2006-07 aqui

Há cerca de um ano, o fotógrafo falou com Leo Benedictus do Guardian acerca daquela que considera ser a sua melhor fotografia. aqui

 
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