29 outubro, 2009

/uma fotografia, um nome\

Graça Sarsfield, da série A céu aberto
© Graça Sarsfield

Esta imagem pertence a uma série de três, A céu aberto, que vi pela primeira vez em Braga, nos Encontros da Imagem em 2002; a autora cedeu-me duas para uma publicação recente. Trata-se de uma transfiguração: a figura curvada que se encontra em primeiro plano irá transmutar-se numa nuvem compacta de flores vermelhas que parecem papoilas; na terceira fotografia apenas vemos um compacto conjunto de flores. São imagens muito belas, onde a dominante é a cor esparsa das papoilas. Esta imagem é a primeira da série.

Mas quando as vi ocorreu-me de imediato uma novela de Boris Vian, na qual uma rapariga doente dos pulmões apenas sobrevivia aspirando a vitalidade flores que sucessivamente lhe traziam e que, também sucessivamente, murchavam: era um trocadilho, mas arrepiava. Na série de Graça Sarsfield as flores investem sobre a mulher vergada, quase indistinta na penumbra e ocupam todo o seu espaço. É a vanguarda de um enxame de flores sedentas do corpo que flutuam à altura dos nossos olhos, um enxame de flores vermelhas de sangue.

E, no entanto, há uma delicadeza, uma estética muito clara na composição que sempre se sobrepõe à nossa consternação. As flores de fogo, frágeis como um sopro, não rimam com este sentimento nem com o fim das coisas, fins de dia, fins de luz. Acodem no fim da vida, como participantes, como homenagem. Talvez por isso mesmo me acudam velhas hipóteses de Pitágoras sobre a contínua encarnação, o ciclo de nascimentos das almas pouco responsáveis.

Mas seja para contar esta história ou fazer uma narrativa qualquer, confrontamos uma encenação fabulosa, um enquadramento de mistério, profundamente onírico: a sombra da mulher suficientemente vergada para deixar visível a janela por onde entram, uma a uma, as papoilas e, ao mesmo tempo, definir os contornos da figura na penumbra; esta semi-obscuridade esclarecida não pela clarabóia mas pela luz da sala adjacente, o envelhecimento e abandono de todo o contexto… é todo o ritual mistérico que se define. A luz vem com as papoilas vermelhas acabará por encher o espaço e retirar outra informação quando o enxame de flores absorver a mulher.

São imagens perversas, na fragilidade da sua indeterminação. É uma narrativa perversa que retira à ideia da flor a sua benignidade e beleza. Um pesadelo muito belo.

… A obra fotográfica sempre foi uma obra aberta.

Maria do Carmo Serén

Graça Sarsfield trabalha e vive no Porto.


Graça Sarsfield, da série A céu aberto
© Graça Sarsfield

=ColecçãoàVista= 34

Gérard Castello-Lopes, Portimão, Portugal
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Curiosidade

Personalidade de destaque no panorama da fotografia portuguesa, além de profissional de cinema e crítico, Gérard Castello-Lopes, nascido em Vichy em 1925, viveu em Lisboa, Cascais e Estrasburgo, fixando mais tarde residência em Paris. Como autodidacta, dedica-se à fotografia a partir de 1956 tendo como referência Cartier-Bresson. Caracterizam-no dois períodos, o da década de 50, em que mostra um registo sobre Portugal, e o da década de 80 sobre o Mundo. Nas suas próprias palavras, a fotografia é a sua maneira de “bloquear o Mundo”. Fotografa a preto e branco, e frequentemente inscreve no título o lugar geográfico e data.
Esta imagem, produzida em momento decisivo, sugere-nos uma paragem no tempo e aguça a observação e a curiosidade de perceber o que está para além do olhar e dos olhares.
(texto:CPF)

26 outubro, 2009

entre aspas


László Moholy-Nagy, Photogram, 1928

Levantou-se com cuidado, às apalpadelas procurou e enfiou o roupão, entrou na casa de banho e urinou. Depois virou-se para onde sabia que estava o espelho, desta vez não perguntou Que será isto, não disse Há mil razões para que o cérebro humano se feche, só estendeu as mãos até tocar o vidro, sabia que a sua imagem estava ali a olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem.

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

Misrach e Beard

Peter Beard, Portraits London (F. Bacon)/Paris/Nairobi, 1990
© Peter Beard

Uma paisagem de Richard Misrach e uma montagem de Peter Beard (que inclui fotografias de retratos de Francis Bacon) foram os lotes mais caros do último leilão de fotografia da casa Phillips de Pury. Foram ambos vendidos por cerca 52,5 mil libras (cerca de 57 mil euros).


Richard Misrach, s/t, 2003
© Richard Misrach

25 outubro, 2009

Pina no El País

Dois alegados traficantes de droga detidos durante uma operação da polícia no bairro de Acari, Rio de Janeiro, Brasil
© João Pina

O fotógrafo do colectivo [KameraPhoto] João Pina assina no El País uma grande reportagem sobre o quotidiano das favelas do Rio de Janeiro. As imagens são acompanhadas de um texto de Bernardo Gutiérrez e podem ser vistas aqui. É deprimente reparar que não existe hoje em Portugal jornal ou revista com orçamento para pagar com regularidade trabalhos de fundo com esta qualidade.

Adenda: a prestigiada The New Yorker foi primeira publicação a divulgar um conjunto de imagens deste trabalho de João Pina que tem fotografado as favelas do Rio desde há dois anos e meio. A galeria é acompanhada com um depoimento de Jon Lee Anderson que assina o texto Gangland na edição de 5 de Outubro.

desenhos de Eggleston



Pela primeira vez desde que foi lançada, em 1952, a Aperture Magazine reproduz na capa um desenho e não uma fotografia. Para o número de Outono, a revista da Aperture Fundation escolheu um desenho abstracto do mestre William Eggleston, o primeiro a apresentar uma exposição de fotografia a cores no MoMA de Nova Iorque, em 1976. É a primeira vez que esta faceta de Eggleston para lá da fotografia é publicamente divulgada.

23 outubro, 2009

Prix Pictet para Nadav Kander

Nadav Kander, Chongqing XI, China
© Nadav Kander

Kofi Annan, antigo líder das Nações Unidas e presidente honorário do Prix Pictet, anunciou ontem à noite em Paris o vencedor do Prix Pictet 2009 para a sustentabilidade ambiental: Nadav Kander, fotógrafo israelita a viver no Reino Unido. Ao fotógrafo americano Ed Kashi foi atribuída uma bolsa anual para trabalhar em Madagáscar com a ONG Azafady num projecto relacionado com a degradação dos solos e a desertificação de certas regiões do país. O tema deste ano do Prix Pictet era a Terra. Nadav Kander foi escolhido pelo portfolio Yangtze, The Long River Series, 2006-07, que mostra as bruscas mudanças na paisagem e nas localidades chinesas que se situam ao longo do rio Yangtze.

Kander e Kashi foram seleccionados de uma lista de 12 nomes que incluíam Darren Almond, Christopher Anderson, Sammy Baloji, Edward Burtynsky, Andreas Gursky, Naoya Hatakeyama, Nadav Kander, Ed Kashi, Abbas Kowsari, Yao Lu, Edgar Martins e Chris Steele-Perkins.

Annan aproveitou a ocasião do anúncio dos prémios para lançar um recado para a cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas que se avizinha: “Only weeks separate us from the decisive negotiations on climate change in Copenhagen. We are confronted with the vital need to prepare the political momentum necessary for a fair and effective post-Kyoto agreement. The images in front of us remind us of the fragility of our planet and the damage we have already done. When we see these photographs we cannot close our eyes and remain indifferent. Through our actions and voices, we must keep building the pressure to secure urgent action at Copenhagen and beyond.

Por seu lado, Francis Hodgson, presidente do júri, sublinhou a qualidade excepcional dos trabalhos deste ano e acrescentou: “The shortlisted photographers set the Jury an immense problem and I am grateful to my fellow judges for their insight, expertise and good humour.

Todos os portfolios dos 12 finalistas podem ser vistos até 24 de Novembro numa exposição inaugurada na galeria Passage de Retz, em Paris. A mostra andará depois em itinerância por vários países. Não há ainda nenhuma data prevista para Portugal. O catálogo da exposição foi publicado pela teNeues.

O site de Nadav Kander tem uma galeria com fotografias de Yangtze, The Long River Series, 2006-07 aqui

Há cerca de um ano, o fotógrafo falou com Leo Benedictus do Guardian acerca daquela que considera ser a sua melhor fotografia. aqui

20 outubro, 2009

fazer zoom


Arthur Rothstein, Dakota do Sul, Maio de 1936
© Library of Congress


A mentira é um dos temas eleição do realizador americano Errol Morris, autor, entre outros, do documentário Standard Operating Procedure, que aborda o escândalo das fotografias da prisão iraquiana de Abu Ghraib tiradas por soldados americanos. Os ensaios que Morris tem publicado no blogue Zoom (New York Times) a propósito da mentira na fotografia (mas não só) são particularmente interessantes e muito úteis para quem se interessa por discussões (sempre frutíferas) como a que aborda a fiabilidade das imagens ou a que trata casos históricos de propaganda com recurso à fotomontagem.
Os últimos posts de Morris (dois primeiros de uma série de sete) recuperam as polémicas acerca das fotografias manipuladas/"encenadas" durante o período da Grande Depressão. Arthur Rothstein é um dos fotógrafos da agência do Governo dos EUA Farm Security Administration no centro da discussão. Mas o texto vai mais além questionando o "puritanismo" regularmente associado a todo o trabalho feito ao serviço da FSA. No post mais recente, Errol Morris entrevista James Curtis, professor da Universidade de Delaware e autor do ensaio revisionista Mind’s Eye, Mind’s Truth: FSA Photography Reconsidered (1991).
Está previsto para o fim deste ano a publicação de um livro que reúne uma selecção de ensaios de Errol Morris.

o Zoom está aqui

19 outubro, 2009

Pessoa no Mercado

© Jorge Colombo, 2008

O Mercado de Santa Clara é um navio de ferro forjado meio à deriva mesmo no coração da Feira da Ladra de Lisboa. Desde há umas semanas, tem um novo inquilino - a Casa Fernando Pessoa, que ali instalou uma galeria. O espaço abriu com uma exposição de fotografia que já passou no início do ano pela casa do poeta em Campo de Ourique (a CFP chama-lhe uma "nova versão") - Lisboa Revisitada. Partindo do desespero, da indefinição e da angústia do heterónimo Álvaro de Campos, Jorge Colombo tenta captar a imagem de uma Lisboa bucólica, caótica, cabisbaixa e triste.
O catálogo pode ser visto e folheado aqui

Eis o poema de onde partiram as fotografias:

Lisboa Revisitada (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja--
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu
poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número de porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta--até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia
sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra cousa, nem cousa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo--Lisboa e Tejo e tudo--,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim--
Um bocado de ti e de mim!...


Lisboa Revisitada, de Jorge Colombo
Galeria Fernando Pessoa, Mercado de Santa Clara, Campo de Santa Clara, Lisboa
De ter. a sáb., entre as 11h00 e as 17h00

16 outubro, 2009

entre aspas

© Time Inc.

Devo dizer-te que pressenti o que estava para acontecer; ou melhor, percebi que estava para acontecer qualquer coisa, que não ia exactamente favorecer os intentos da Eve e, por isso, não fiquei tão espantado como a minha filha. A Lorraine irrompeu em lágrimas, a Doris disse 'Saia desta casa', e o Ira e eu levantámos a Eve do chão, levámo-la para o patamar e depois pela escada abaixo, e conduzimo-la à estação de Penn. O Ira ia sentado à frente, ao meu lado, e ela ia sentada atrás como se esquecida de tudo o que se tinha passado. Durante o trajecto para a estação conservou sempre o mesmo sorriso, o que fazia para as câmaras, e por baixo daquele sorriso não existia absolutamente nada, nem a sua personalidade, nem a sua história, nem sequer a sua infelicidade. Ela era apenas o que tinha estampado no rosto. Não estava sequer sozinha. Não havia ninguém para estar sozinha. Fossem quais fossem as origens vergonhosas de que tinha passado a vida a fugir, o resultado tinha sido este: alguém de quem a própria vida tinha fugido.

Casei com um Comunista, Philip Roth

Polaroid de regresso

Florian Kaps, The Impossible Project


Como Lázaro de Betânia, a Polaroid morreu mas vai voltar à vida. E bem pode dizer-se que o seu santo milagreiro foi o The Impossible Project, o grupo liderado por Florian Kaps (fundador do polanoid.net) que, depois do encerramento da fábrica de cartuchos Polaroid em Enschede, na Holanda, nunca deixou morrer a esperança de ver outra vez no mercado a "velha" fotografia analógica instantânea. E conseguiu, o lobby a favor da ressurreição da Polaroid resultou: em Junho o Summit Global Group anunciou a compra dos direitos de exploração da marca até 2014 e, depois de meses de especulação, o consórcio anunciou há dois dias que vai voltar a colocar no mercado a "maioria" dos formatos de filmes e novas máquinas, projecto que inclui também modelos digitais. Os produtos devem ficar disponíveis em meados de 2010. O The Impossible Project ficará responsável pelo fabrico das películas. Porque afinal "impossível" é só uma palavra.

>The Impossible Project
>Comunicado do Summit Global Group

>Posts relacionados
>>Saudades da Plaroid

14 outubro, 2009

J. Laurent

J. Laurent, Basílica da Estrela
© Colecção António Barreto


Não são muitos os exemplos de registo fotográfico metódico da monumentalidade e das vistas pittorescas no Portugal da segunda metade do século XIX. Há os levantamentos mais virados para a arquitectura de J. Possidónio Narciso da Silva, as edições do Archivo Pittoresco e de Monumentos Nacionaes e pouco mais. Já os fotógrafos estrangeiros que por cá passaram durante esse período não foram tão parcimoniosos. Como é o caso de J. Laurent (1816-1886), um francês que se estabeleceu em Madrid e que se deslocou várias vezes a Portugal, onde captou centenas de fotografias reproduzidas em álbuns como Œuvres d'Art en Photographie - L'Espagne et le Portugal au Point de vue artistique, monumentale et pittoresque (1872).

J. Laurent e Portugal - Fotografia do século XIX é o título da exposição que será inaugurada no dia 17 de Outubro no Centro Português de Fotografia, no Porto. A mostra - organizada pela Associação Portuguesa de Photographia e produzida pelo CPF em parceria com a Torre do Tombo - integra provas oriundas de colecções privadas e instituições públicas. Ângela Camila Castelo-Branco e Alexandre Ramires (APPh) e Carlos Teixidor (curador dos espólios fotográficos de J. Laurent depositados no Instituto do Património Cultural de Espanha) são os comissários que trabalharam na vasta obra de Laurent relativa a Portugal que inclui imagens de monumentos, obras de arte, arquitectura e paisagens, vistas estereoscópicas e retrato.

Em Abril de 2010, a exposição poderá ser vista na Torre do Tombo, em Lisboa.

da história

Wenceslau Cifka (1811-1883), daguerreótipo, Château de Sintra, Portugal, 1848
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Foi recentemente distribuído com o Diário de Notícias o volume relativo à Fotografia em Portugal da autoria de Maria do Carmo Serén. A obra, que faz parte da colecção Arte Portuguesa coordenada por Dalila Rodrigues, viaja pela história da imagem fotográfica em Portugal desde os primeiros sinais de que a daguerreotipia estava a caminho até aos autores mais contemporâneos como André Cepeda, André Príncipe, Edgar Martins e Virgílio Ferreira.

Eis o índice:

>Inventariação e registo: Século XIX e inícios do século XX
>>O arquivo do mundo. Catalogação de um "museu imaginário"
>>Amadores e estrangeiros
>>A fotografia portuguesa no Oitocentos: décadas de 50 e 60
>>Fotografia da classe científica
>>Maturidade da fotografia de estúdio, adesão social e sua instrumentalização
>>>Casas fotográficas
>>A Exposição Internacional de Fotografia do Porto (1886) e a Arte Photographica
>>A fotografia de reportagem e do acontecimento

>O fotógrafo vagabundo e a consciência da "aura". A primeira metade do Século XX e a conjuntura humanista de 60 e 70
>>Clandestinos na verdade do mundo
>>Entre o modernismo das elites artísticas e o salonismo tecnicista português

>Fotógrafos e fotografias, ensaios e tendências
>>Nos efeitos de um tempo político e ideológico: Nozolino, Molder e Helena Almeida
>>Na nova fotografia
>>Temas de crise e de crítica
>>Inquietação e paisagem
>>Fotografia, arquitectura e urbanismo
>>Do conceptualismo às estratégias pós-modernistas
>>Um novo olhar crítico na fotografia portuguesa
>>A instalação como discurso
>>E um discurso do instantâneo produzido
>>Humano, demasiado humano

Virgílio Ferreira, Xangai, China, 2006
© Virgílio Ferreira

13 outubro, 2009

entre aspas

Helmut Newton
© Helmut Newton Estate

Assim fui vivendo, ou quase vivendo, entre festas, sexo, drogas e, vez por outra, um desfile de modas. Cheguei a desfilar em Paris para os irmãos Congo. Não me lembro de tudo. A minha memória é uma estrada cheia de buracos, e que não me leva a lugar nenhum. Trago sempre comigo um álbum de fotografias porque vivo com medo de me perder de mim.

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa

12 outubro, 2009

descobrir

Roald Amundsen e a sua equipa no Pólo Sul, em 14 de Dezembro de 1911
Cortesia da National Library of Australia

O explorador norueguês Roald Amundsen chegou ao Pólo Sul no dia 14 de Dezembro de 1911, 34 dias antes do aventureiro britânico Robert Falcon Scott que, em vez de cães, preferiu apostar em cavalos mongóis para puxar os trenós. As fotografias conhecidas do glorioso feito de Amundsen eram reproduções de uma ampliação de época feita a partir dos negativos originais. Não se sabia do paradeiro dessa ampliação até que, na semana passada, Harald Ostgaard Lund, curador da Biblioteca Nacional da Noruega, desvendou o mistério ao encontrá-la, através de uma pesquisa no google, num álbum intitulado Tasmanian Views, catalogado e digitalizada pela Biblioteca Nacional da Austrália de Camberra, em 2002. "Sabíamos que era uma fotografia da expedição de Amundsen ao Pólo Sul, o que não tínhamos percebido é que se tratava da única no mundo", afirmou Linda Groom, conservadora de fotografia da biblioteca australiana. As dimensões da imagem deram a Lund as pistas necessárias para a conclusão de que se tratava de uma ampliação feita directamente a partir do negativo, cujo paradeiro se desconhece.

Em 1912, assim que atracou no primeiro porto vindo da Antártida, em Hobart, na Tansmânia, Amundsen entregou os negativos para serem revelados no estúdio de JW Beattie. Segundo Groom, Beattie terá dado o trabalho ao seu assistente Edward Searle, que mais tarde juntou num álbum as melhores fotografias que passaram pelas suas mãos. Esse conjunto de imagens foi comprado à família de Searle já sem os negativos pela Biblioteca Nacional da Austrália, em 1965.

Cerca de cinco semanas depois desta imagem ter sido captada, a equipa liderada por Robert Scott também se fez fotografar no mesmo local, junto à tenda onde já ondulava a bandeira da Noruega. Scott escreveu no seu diário: "Great god this is an awful place and terrible enough for us to have laboured to it without the reward of priority".

A Biblioteca da Austrália está a digitalizar a totalidade da sua colecção de fotografias, que inclui cerca de 700 mil provas. Para Groom, são descobertas como a que agora foi feita que dão ao projecto maior relevância e um renovado fôlego. O álbum onde consta aquela que é talvez a única cópia de época que regista a primeira expedição a chegar ao Pólo Sul vai agora viajar para a Noruega para uma exposição que comemorará os 100 anos da façanha de Roald Amundsen.


Esta fotografia tirada por “Birdie” W. R. Bowers foi a última onde apareceram Robert Scott e a sua equipa. No regresso, nenhum dos aventureiros resistiu ao frio, à fome e às violentas tempestades. A tenda com os corpos dos cinco homens, onde estava o diário de Scott e esta imagem, foi descoberta em Novembro de 1912

=ColecçãoàVista= 33


Pierre Devin, Mondego 94, 1994
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Vale do Mondego

Pierre Devim (1946) foi um dos fundadores do Centre Regional de la Photographie Nord Pas de Calais, França, curioso empreendimento, cuja identidade artística e cultural está no confronto das convicções cívicas e no apego a um território, tendo como objectivo principal a inserção da arte no coração da cidade e a luta contra a segregação cultural. Desde 1987 Pierre Devin promoveu a Missão Fotográfica Transmanche, como forma de questionar publicamente a construção europeia através do apelo a autores de todas as origens para formar um corpus revelador na criação fotográfica contemporânea. Também fotógrafo, levantou questões sobre a paisagem (Thiérache, India do Sul, Rio Mondego), a era pós industrial e a cidade, o relacionamento da fotografia com a literatura, com o cinema, com a escultura. Tem livros publicados em diversos países e possui fotos em diferentes colecções.
(texto:CPF)

08 outubro, 2009

Irving Penn (1917-2009)

Irving Penn Turning Head, Nova Iorque, 1993
© Da colecção Rex, Inc.


Morreu ontem em Nova Iorque Irving Penn, um dos mestres da fotografia de moda e do retrato do século XX, um dos grandes cultores do minimalismo cool e do sujeito fotográfico isolado do seu contexto, quer se tratasse do mais lânguido modelo ou da mais enlameada figura da Nova-Guiné. Acreditava que era contra um pano de estúdio onde o retratado melhor revelava a sua mais pura natureza. O anúncio do desaparecimento de Penn, que contava 92 anos, foi feito por Roger Krueger, o seu assistente de fotografia.

Irving Penn nasceu em Plainfield, Nova Jérsia, em 1917. Formou-se na Pennsylvania Museum School of Industrial Art, onde conheceu Alexei Brodovitch, fotógrafo, designer e um influente professor que deu aulas a Diane Arbus, Eve Arnold, Richard Avedon e Gary Winogrand. É Brodovitch quem leva Penn como assistente para a revista Harper's Bazaar, em 1939. Dois anos depois, começa a trabalhar para os armazéns Saks e viaja para o México, onde fotografa à maneira de E. Atget e W. Evans. Apesar deste interesse pela fotografia, queria ser pintor e é como designer gráfico que entra para a Vogue, em 1943, depois de ter conhecido Alexander Liberman. Conta a agência Associated Press que os fotógrafos da casa ficaram surpreendidos com a sua maneira de apresentar as imagens nas páginas da revista e o director de arte convida-o a fotografar uma capa. Desde então, não mais parou de fotografar. Ao longo dos anos 40, consolida a sua carreira na fotografia de moda e, no final da mesma década, começa a retratar artistas, escritores, gente famosa e gente anónima num estilo muito depurado e simples que se opunha ao retrato captado "em contexto", carregado de matéria, mais em voga na década precedente à guerra. O The Getty Center de Los Angeles expõe actualmente uma série de retratos ligados às profissões captados em Nova Iorque, Paris e Londres. (galeria aqui)

No início da década de 50, nos anos que passou em Paris, o seu estilo austero (mas ao mesmo tempo chic e carregado de glamour) continuou a ser vincado colocando modelos e acessórios de moda contra fundos lisos e limpos à procura de grandes contrastes e silhuetas perfeitas. Os nus desta época embarcam no mesmo estilo, com planos aproximados e iluminação forte que resultam em peles lívidas e linhas vincadas. Penn ganhou reputação e encontrou uma linguagem particular que para a época era tida como radical. Acreditava que o seu sucesso como fotógrafo de moda estava na preocupação com o leitor e não com o modelo.

Para além da moda, um dos fascínios de Penn passava por dar vida e significado a todo o tipo de bric-a-brac encontrado, fruta podre e roupa velha. Nestas fotografias de natureza-morta escolheu a cor para os objectos de luxo e para alimentos refinados e o preto e branco para os objectos apanhados nas ruas de Manhattan. Parte deste trabalho foi apresentado no Metropolitan Museum of Art, em 1977. "Fotografar um bolo pode ser arte", disse em 1953 na inauguração do seu estúdio, de onde saiu trabalho até ao século XXI. Em 1975, o Museum of Modern Art expôs um conjunto de 14 grandes ampliações de beatas de cigarros. A mostra causou polémica, com alguns críticos a afirmarem que se tratava de uma "poderosa elevação do banal ao monumental" e outros a garantirem que não passava de um sinal de "auto-indulgência".

Entre 1964 e 1971 Penn concretizou alguns projectos relacionados com retrato em lugares remotos, fora do universo da moda, mas utilizando o mesmo estilo e as mesmas técnicas de iluminação (transportou consigo as ferramentas essenciais que utilizava em estúdio). Fotografou desde indígenas no Peru, na Nova-Guiné e em Marrocos a hippies em São Francisco. Era um fotógrafo que gostava de revelar as suas imagens. Perseguia a "cópia perfeita". Passou "incontáveis" horas na câmara escura a apurar soluções químicas que lhe fizessem surgir imagens na sua técnica preferida, a platinotipia (também conhecida por platina/paládio).

Irving Penn era irmão de Arthur Penn, realizador de "Bonnie and Clyde". Em 1950, casou com uma das modelos que mais gostava de fotografar, Lisa Fonssagrives, com quem teve um filho, Tom. Doou fotografias à National Portrait Gallery e ao National Museum of American Art, ambos de Washington, e os seus arquivos estão depositados no Art Institute of Chicago. A sua morte, encerra mais um ciclo da época fulgurosa da fotografia de moda de meados do século XX, depois do desaparecimento de outros herdeiros desse labor, nomeadamente Richard Avedon (1923-2004) e Helmut Newton (1920-2004).

(fontes: AP, Dictionnaire Mondial de la Photographie)

O site oficial de Irving Penn lista os seus livros e os livros sobre si. aqui
O extenso obituário do New York Times está aqui

Many photographers feel their client is the subject. My client is a woman in Kansas who reads Vogue. I'm trying to intrigue, stimulate, feed her. (...) The severe portrait that is not the greatest joy in the world to the subject may be enormously interesting to the reader.

/Irvin Penn, New York Times, 1991


Irving Penn em trabalho na Nova-Guiné
© Irving Penn Studio, Inc.,Lisa Fonssagrives-Penn

07 outubro, 2009

os livros do Japão




A editora Aperture prepara-se para lançar uma obra que pode tornar-se no guia de referência para quem procura conhecer melhor o período dourado da edição de livros de fotografia no Japão. Japanese Photobooks of the 1960s and '70s selecciona 40 títulos que exemplificam a busca da excelência no design, na impressão e nos materiais por parte de criadores e editores nipónicos. As reproduções de cada livro, avança a Aperture, são acompanhadas por um texto histórico e por pequenos apontamentos que indicam a importância de pormenores como editores, designers e temas. Haverá, entre outros, obras de Nobuyoshi Araki, Eikoh Hosoe, Yasuhiro Ishimoto, Miyako Ishiuchi, Kikuji Kawada, Daido Moriyama, Shomei Tomatsu e Hiromi Tsuchida. Um dos ensaios de arranque é assinado por Ryuchi Kaneko, curador do Tokyo Metropolitan Museum of Photography, especialista em livros de fotografia japoneses e um dos autores de The History of Japanese Photography. Ivan Vartanian, tradutor de Setting Sun: Writings by Japanese Photographers (Aperture, 2006), é o editor e o autor de outro ensaio.

In the West, we have only known about the pleasures and delights of Japanese photography books in the last decade or so. What a treat to see the picks of one of the great Japanese Photo books collectors, Ryuichi Kaneko. He has a collection to make us all green with envy. For this wonderful book he selects some old favorites, and charms us with many new discoveries.

/Martin Parr


entre aspas

Scarlett Johansson & Dita von Teese, editorial para a revista Flaunt

- Sendo como é, a Eve aceita todas as extravagâncias do tipo, alinha em todas as suas loucuras, chega mesmo a ser apanhada por elas. Às vezes, quando a Eve desatava a chorar sem mais nem menos e o Ira lhe perguntava porquê, ela dizia-lhe: 'As coisas que ele me obrigou a fazer... o que eu tive de fazer...' Depois de ela ter escrito aquele livro, e o casamento dela com o Ira sair escarrapachado em todos os jornais, o Ira recebeu uma carta de uma mulher de Cincinnati. Dizia que, caso ele estivesse interessado em escrever também um livrinho, talvez lhe interessasse vir conversar com ela ao Ohio. Tinha trabalhado num clube nocturno nos anos 30 como cantora e tinha sido uma das namoradas de Jumbo. Dizia que o Ira era capaz de gostar de ver umas fotografias que o Jumbo tinha tirado. Talvez ela e o Ira pudessem colaborar numas memórias conjuntas - ele providenciava as palavras, e ela, por uma quantia a combinar, seleccionava as fotografias. Na altura o Ira estava tão obcecado pela vingança que respondeu à mulher e mandou-lhe um cheque de cem dólares. Ela garantia ter duas dúzias de fotos e ele mandou-lhe os cem dólares que ela pedia só para lhe mostrar uma delas.
- E chegou a recebê-la?
- Ela falava verdade. Mandou-lhe de facto uma na volta do correio. Mas como eu não ia deixar que o meu irmão distorcesse ainda mais a ideia que as pessoas tinham do significado da sua vida, tirei-lha da mão e destruí-a. Uma estupidez. Um assomo sentimental, presumido, idiota e nada inteligente. Pôr a fotografia a circular teria sido coisa pouca em comparação com o que depois aconteceu.

Casei com um Comunista, Philip Roth

06 outubro, 2009

Nobel para o CCD

Os investigadores Willard Boyle (à esq.) e George Smith experimentam, em 1969, dispositivos de imagem baseados na tecnologia CCD
Cortesia Lucent Technologies Inc.

A Real Academia Sueca das Ciências anunciou hoje a atribuição do prémio Nobel da Física a Charles K. Kao, por uma descoberta relacionada com a fibra óptica, e a William Boyle e George Smith, por terem posto em prática nos laboratórios AT&T Bell a primeira tecnologia de imagem que utiliza o sensor digital Charge-Coupled Device (CCD), hoje em dia utilizado em quase todo o tipo de dispositivos relacionados com imagem digital.

Lembra a Academia que a tecnologia CCD usa um efeito fotoeléctrico, precisamente aquele que foi teorizado por Albert Einstein, que valeu ao famoso físico o Nobel de 1921. Através deste efeito os padrões de luz são transformados em sinais eléctricos. A partir deste princípio, Boyle e Smith conceberam um sensor de imagem com velocidades muito elevadas capaz de captar e transformar esses sinais numa grande quantidade de pontos de imagem (píxeis). Pode dizer-se que a última grande revolução na captação de imagens digitais começou com esta descoberta - em alternativa a películas ou outras superfícies sensibilizadas, a luz passou a poder ser capturada electronicamente. Para além de ser usada em máquinas fotográficas digitais convencionais, a tecnologia CCD está presente em múltiplas áreas da ciência, como a medicina, a astronomia e a física. Para a Academia, o Charge-Coupled Device "permitiu-nos ver aquilo que não era possível ver" e "deu-nos imagens cristalinas de lugares distantes do nosso universo e das profundezas do oceano".

O artigo da Wikipedia sobre o CCD está aqui

Sensor CCD
© Christoph Müller

todos

Luísa Ferreira, Lisboa, 2009
© Luísa Ferreira

Entre todas as grandes praças de Lisboa, a do Martim Moniz é talvez aquela que mais sofreu com sucessivos erros urbanísticos e abandono por parte de quem dela devia zelar. Aqui, inexplicavelmente, a opção foi quase sempre rebentar, emparedar, demolir, esconder. Apesar de abraçar uma das zonas mais dinâmicas e cosmopolitas da cidade (e por isso merecedora de mais atenção e cuidado), a principal praça da Mouraria e as ruas que nela desaguam são o espelho da inoperância camarária e autárquica para resolver os problemas mais corriqueiros de quem lá vive e trabalha. A última remodelação da praça (isolada por estrada e carros) não passa de mais um atentado urbanístico a acrescentar aos três que já lá moram há mais tempo (centros comerciais e Hotel Mundial).

Não fosse a dinâmica comercial, cultural e social criada por gentes de diferentes culturas, o Martim Moniz seria apenas mais um lugar moribundo de Lisboa, seria apenas o rosto do falhanço completo da passagem da cidade antiga para a cidade moderna. É por isso que todos os que fazem o quotidiano do Martim Moniz são a sua principal riqueza. Foi a pensar nesse património humano que o Arquivo Fotográfico Municipal convidou cinco fotógrafos para captar as vivências pública e privada desta parte do bairro, um projecto simplesmente apelidado de todos integrado no programa Lisboa, Encruzilhada de Mundos. À vasta experiência a olhar Portugal de Georges Dussaud, juntaram-se distintas relações com o Martim Moniz e a Mouraria de Luísa Ferreira, Camilla Watson, Luís Pavão e Carlos Morganho. Durante 20 dias, estes fotógrafos percorreram o bairro, em conjunto ou separados. O resultado final dessa viagem, cerca de uma dúzia de imagens de cada um patentes no Arquivo, mostra bem como pode ser radicalmente oposta e diversificada a narrativa visual de um espaço geográfico limitado. Enquanto Carlos Morganho se fixou preferencialmente nos rostos e nos olhares, Luís Pavão preferiu as pequenas multidões e as ruas. Enquanto Camila Watson se deslumbrou com os vazios da noite, Georges Dussaud e Luísa Ferreira procuraram o fervilhar que acontece à luz do dia.

Para se ter uma ideia das peripécias urbanísticas pelas quais já passou a Praça do Martim Moniz, o Arquivo organizou também uma projecção de imagens do seu espólio (Artur Pastor, Eduardo Portugal, Joshua Benoliel, Mário Noaves, etc.) que ilustram algumas dessas grandes e pequenas alterações. Em redor da praça, cravadas a edifícios abandonados ou por acabar, há ampliações gigantes do trabalho de Georges Dussaud.

Georges Dussaud, Lisboa, 2009
© Georges Dussaud

05 outubro, 2009

oil

Edward Burtynsky, Alberta Oil Sands #6, Fort McMurray, Alberta, 2007
© Edward Burtynsky, cortesia Nicholas Metivier Gallery, Canadá


Ao longo das últimas duas décadas, o fotógrafo canadiano Edward Burtynsky tem-nos mostrado alguns exemplos das enormes transformações que os mais de dois séculos de industrialização provocaram e continuam a provocar neste globo em que vivemos. Em 2003, depois de muitos anos a fotografar com os pés assentes na terra, Burtynsky, que trabalhou na indústria pesada e em minas de ouro no Canadá antes de se dedicar tempo inteiro à fotografia, começou a alugar helicópteros para captar perspectivas que fugissem aos limites físicos da sua posição e lhe dessem novas linguagens visuais para moldar o seu trabalho. Quando tiradas do ar, as imagens de Burtynsky ganham vastidão e horizontes mais longínquos, mas nunca a uma escala em que se deixa de ter a mínima percepção do que se está a ver - o fotógrafo esteve longe, mas não demasiado longe. Apenas longe o suficiente para nos dar um dos aspectos que mais lhe parece interessar - o contexto. O contexto terrivelmente belo dos golpes que não temos parado de dar à natureza.

Em Oil, a nova exposição que pode ser vista em três galerias, duas americanas e uma canadiana (Nicholas Metivier Gallery, Hasted Hunt Kraeutler, Adamson Gallery), Edward Burtynsky reúne um conjunto de imagens captadas durante a última década relativas ao tema do petróleo, onde aparecem refinarias, parques industriais de carros, auto-estradas e poços. São também mostradas novas imagens de transportes, dos campos de Alberta e dos campos abandonados do Azerbeijão. A exposição é itinerante e, para já, na Europa poderá ser vista a partir de 28 de Novembro na Hiuis Marseille - Museum of Photography e a partir de Dezembro na Torch Gallery, ambos de Amesterdão. A editora Steidl acaba de publicar o livro Burtynsky: Oil com ensaios de Paul Roth, Michael Mitchell, e William E. Rees.
Para ver uma galeria com este trabalho de Burtynsky clique aqui

(...) When the world takes on a surreal, dream-like apperence I stop, and I am compelled to make pictures in those moments. Using the helicopter as a tool, a lofty tripod, I found the strange, dizzying perspective on the landscape provided the new element I was after. The rare bird`s-eye vantage point provides for a view that incorporates the grand scale of what human intervention on our planet quite literally looks like with my desire to transcend that reality and create a work of art.

Edward Burtynsky



=ColecçãoàVista= 32


Imogen Cunningham, Day In Arizona, Number 5 (Canyon de Chelly), 1939
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Inquietude

Imogen Cunningham (1883-1976), fotógrafa americana, começou a fotografar com apenas 18 anos depois de ter feito os seus estudos universitários na área de Química. Exímia no domínio da técnica, a sua primeira câmara, em formato 10x12, foi mandada vir pelo correio em 1905, quando frequentava o terceiro ano da American School of Art and Photography. As suas primeiras fotografias eram requintes de ousadia, pois aparecia nua em várias delas. Em 1910, já com estúdio próprio, deu início a uma produção que fugia a todas as convenções fotográficas da época: retratos em exteriores e naturezas mortas em enquadramentos extremamente fechados. A partir de 1920 volta-se para os seus temas preferidos: as formas das plantas, flores e nus. Passou a ser um símbolo para a história da fotografia, exemplo de inquietude e anti-convencionalismo.
(texto:CPF)

02 outubro, 2009

snapshot


Fotógrafo desconhecido, 1950s
Colecção de Robert E. Jackson

Em 2007, a National Gallery of Art de Washington apresentou a exposição The Art of the American Snapshot, 1888–1978 organizada a partir da colecção de Robert E. Jackson. A mostra traçou a evolução da fotografia vernacular desde o momento em que George Eastman colocou no mercado a primeira Kodak até aos anos 70. A mesma instituição recupera agora através do seu espaço na net as linhas gerais dessa exposição com uma página especial (aqui) e podcasts com a curadora Sarah Greenough e o coleccionador Robert E. Jackson (aqui).

do sentir


Guillaume Zuili, Untitled, Moscovo, 2000
© Guillaume Zuili/Cortesia Galeria Pente 10, Lisboa

Diz Guillaume Zuili que na fotografia lhe interessa mais sentir do que ver. Se é verdade que tendemos a olhar para a imagem fotográfica como um fim em si, como a concretização derradeira de decisões mentais e de movimentações mecânicas e químicas, também não deixa de ser poderoso o apelo à releitura, à reinterpretação e à narrativa subjectiva que cada fotografia em potência carrega. E, paradoxalmente, é sempre possível fantasiar, inventar novos sentidos, construir universos imaginários a partir deste suporte que um dia "sonhou" encerrar a realidade. Ao optar por impressionar duas vezes cada Polaroid com paisagens distintas a partir do mesmo local, Zuili aveluda-nos o caminho rumo à sobreinterpretação. A projecção em diferentes camadas - que nascem não só da acção óptica, mas também da acção química da superfície sensibilizada e da acção física do autor ao destapar essa superfície - espicaça e atordoa. Confere dinâmica ao acto de "ver", aqui mais acompanhado do "imaginar" e muito mais do "sentir". Na sua forma, as fotografias de Zuili não são abstractas. Mas o certo é que ao procuramos nelas a posição natural das coisas não a encontramos. O que encontramos é um conjunto de véus difusos, umas vezes encantatórios, outras vezes atemorizadores. Ao olharmos para estas imagens tendemos a desarrumar a percepção e a ordem, entrando por esta via no jogo de intenções que definiram o próprio acto criativo, muitas vezes aventureiro ou apenas confiante na mediação do acaso.
Talvez a desestabilização do ver se chame sentir.
Em Exposed Cities Guillaume Zuili faz-nos sentir com ele.


Guillaume Zuili, Untitled, Berlim, 1998
© Guillaume Zuili/Cortesia Galeria Pente 10, Lisboa


Exposed Cities, de Guillaume Zuili
Galeria Pente 10, trav. da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa
Até 21 de Novembro

01 outubro, 2009

/uma fotografia, um nome\


Paulo Nozolino, Tóquio, Japão, 1996
© Paulo Nozolino

E porquê esta imagem, aparentemente límpida e bem calibrada, entre tantas imagens belíssimas de Paulo Nozolino, que fazem capa de revista e fulguram em exposições revisitadas até à exaustão?

Há aqui a comodidade de não haver perplexidade, não há arestas vivas, o enigma é o de todos os dias – não vemos os rostos, a história do personagem: não há ambiguidade nem sobressalto.
Mas nunca, desde o primeiro olhar, “um personagem à procura de autor”, é, decididamente, uma imagem de Nozolino; e sempre me perturbou.

Detecta-se a nova concepção de distância fotográfica, onde ficamos onde estamos, fora de cena, sem perseguir mistificações. O fotógrafo joga com o claro-escuro, (um negro intenso e injusto, um branco de cegar), sem debitar ensaios técnicos que exigem um bloco de notas prévio; mas a fotografia é habitada pela transparência pesada de um entardecer, que reconhecemos existir sem nunca a olharmos, a sentirmos assim, na mínima transparência dos nossos dias.

Tudo se fez, tudo se congregou para definir este cenário de passagem: o contraste da pedra com a marca branca no asfalto, o corte exacto no geometrismo, a ausência de céu, a simetria incómoda, de espelho, dos dois personagens. Ao fundo a sugestão de janelas iluminadas na parede cinza, falsas e oníricas, com ladrilhos que as negam, mas deixando a ilusão persistir.
E, no entanto, para meu mal, não é a análise da composição que me seduz. A sedução é uma apropriação da lisura, uma inconveniência e esta imagem sempre me seduziu.

Porque conheço, todos nós conhecemos, este apressamento quase automático dos nossos fins de dia, estes gestos padronizados, esta negligência física que esconde mal a repetição das nuances e dos códigos. Conhecemos a sobremodernidade onde isto se passa e se interioriza, estes não-lugares onde a comunicação virtual não é comunicação e o perigo é uma coacção. Sabemos deste seguir em frente, sem olhar, tão rápido como a decisão, tão solitário como a esperança. O que esta imagem de Paulo Nozolino nos dá, de forma concentrada, no passo elástico da determinação numa incaracterística esquina de Tóquio, é a nossa pertença a este magnetismo da solidão. Porque nesta nossa cultura, nesta cultura quase universal, que nos identifica, recupera-se o “significante flutuante” de que fala José Gil – a força primária, colectiva, energia do vivo sobre todos os objectos que, mesmo minimamente, o representam. Não é uma varanda para o conhecimento, mas para a identificação, no mar de signos que provoca. O que sabemos com o corpo muitas vezes não tem nome. Na falta de código, sabemos sem significados.

O paradoxo desta fotografia é ligar-nos o corpo cúmplice a esta imitação da vida a preto e branco, para entendermos o sentido que a aprendizagem não nos sabe dizer.

Maria do Carmo Serén

Paulo Nozolino (1955), vive actualmente em Lisboa;
Fotógrafo inveteradamente flâneur é o mais internacional dos fotógrafos portugueses.

Património Mundial

Piso superior da Casa-Estúdio Carlos Relvas
© Miguel Silva (Público/Arquivo)

Casa-Estúdio Carlos Relvas vai ser candidata a Património Mundial. O anúncio vai ser feito hoje no arranque da 2ª Semana da Fotografia da Golegã. António Martiniano Ventura, presidente do Centro de Estudos em Fotografia da Golegã, criado pelo Instituto Politécnico de Tomar e pela Câmara Municipal da Golegã, é o principal impulsionador da organização e implementação do dossier de candidatura que conta já com os apoios de António Pedro Vicente (professor, historiador), Jorge Custódio (director do Museu Nacional Ferroviário), José Soudo (fotógrafo, professor de fotografia), Luís Pavão (fotógrafo, conservador de fotografia e professor), Manuel Silveira Ramos (fotógrafo, professor de fotografia), Pedro Aboim (fotógrafo, investigador de História da Fotografia) e Victor Mestre (arquitecto responsável pelo projecto de recuperação da Casa-Estúdio Carlos Relvas).

Na 2ª Semana da Fotografia da Golegã, que decorre até sábado, haverá um ciclo de conferências cujo tema genérico é A Fotografia nos Museus - Os Museus da Fotografia. Entre os oradores contam-se Grant Romer (director do Programa Avançado de Residências em Conservação de Fotografia da Casa George Eastman, Museu Internacional da Fotografia e do Filme, em Rochester, Nova Iorque), Mattie Boom (conservadora de fotografia no Museu do Risco em Amesterdão e antiga presidente Sociedade Holandesa de Fotografia), Silvestre Lacerda (Director da Direcção-Geral de Arquivos, Centro Português de Fotografia), Luísa Costa Dias (Directora do Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Lisboa), Helena Araújo (Directora do Photographia Museu Vicentes do Funchal), Cármen Almeida (responsável pelo Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Évora, Luís Pavão e Cátia Fonseca (da Casa-Estúdio Carlos Relvas).

30 setembro, 2009

entre aspas

Allan Grant, actriz Maria Felix em "Juana Gallo", México, 1960
© Time Inc.


(...) Conto isto para melhor compreenderem o meu espanto quando Mãe Mocinha se pôs a falar da minha vida com detalhes que apenas eu próprio julgava conhecer. Era como se fosse eu a falar de mim, embora com a distância e a lucidez de um estranho.

-Essa mulher não está apaixonada por você - disse, referindo-se a Kianda. - Quando olhamos para um espelho, não é o espelho que vemos. O que vemos é a nossa imagem reflectida nele. Você é como um espelho para essa mulher. Ela nem sequer repara em você, filho, está apaixonada pelo próprio reflexo. Do que ela gosta é do seu deslumbramento, gosta da forma como você a vê.
(...)

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa

29 setembro, 2009

na [Kgaleria]

Bert Teunissen, Domestic Landscapes
© Bert Teunissen

É muito feliz e acertada a passagem de testemunho que as fotografias do peruano Paco Chuquiure fazem ao trabalho do holandês Bert Teunissen na [Kgaleria], em Lisboa. Há em ambos uma procura da pose grave em espaços que são do círculo mais íntimo dos seus protagonistas e uma composição meticulosamente arrumada, como que a tentar parar ainda mais o tempo. Perpassa um sentimento de ligação afectiva com o lugar. Nas imagens a preto e branco de Chuquiure, mais soturnas e comprometidas, encontra-se a mesma dignidade nostálgica das imagens a cores de Teunissen, mais livres e românticas.

O projecto de Paco Chuquiure, Álbum Familiar, retrata a vida dos habitantes de Oásis Villa, uma parcela de terra no distrito de Villa El Salvador, nos arrabaldes de Lima, Peru. Este terreno foi ocupado à força por cerca de 1200 famílias em meados de 2006. As condições de vida estão no limite e os habitantes vivem com ansiedade, na expectativa de serem desalojados pelas autoridades ou pelos donos legítimos daquelas terras. Apesar de viverem na incerteza de ficarem sem o pouco que têm, Chuquiure afirma ter descoberto aqui "o prazer de viver" e uma organização social muito forte presente, por exemplo, nas inúmeras celebrações que tanto podem marcar o nascimento de uma criança como a efeméride do assassinato de um líder local.

Em Domestic Landscapes Bert Teunissen tenta apreender uma luminosidade particular, a luminosidade dos velhos lugares, das velhas casas europeias que, na sua opinião, está a desaparecer à medida que se vão destruindo antigas habitações, tascas e lojas. A faísca que deu início a esta série está na infância do autor que nunca se adaptou bem à mudança para uma casa nova e um estilo de vida urbano. Desde que, há 10 anos, captou uma imagem dentro de uma casa em Castelnau, no sul de França, e sentiu naquela luz uma remeniscência da "sua" antiga luz nunca mais parou. Muitas das imagens de Domestic Landscapes foram captadas em Portugal. O Museu da Imagem de Braga apresentou uma selecção deste trabalho em 2004 e agora é a vez da K Galeria receber estas selectas composições de luz que nos atiram inevitavelmente para quadros de pintores como Vermeer.

Paco Chuquiure, Álbum Familiar
© Paco Chuquiure


Domestic Landscapes, de Bert Teunissen
[Kgaleria], Rua da Vinha 43A – Bairro Alto, Lisboa
De seg. a sex. das 10h às 18h, sáb. das 14h às 19h (excepto feriados)
Até 31 de Outubro

leiloar

Lola Álvarez Bravo, Los Gorriones, 1940s


A casa leiloeira Phillips de Pury & Company agendou para 3 de Outubro em Nova Iorque um leilão com obras da América Latina (ou com ela relacionada) de vários campos artísticos. Há dezenas de lotes de fotografia onde constam reproduções de autores como Manuel e Lola Álvarez Bravo, Graciela Iturbide, Mario Cravo Neto, Miguel Rio Branco, Sebastião Salgado e Flor Garduño. Aqui


Alberto Korda, Guerrillero heroico (Che Guevara), 1960

 
free web page hit counter