01 outubro, 2009

/uma fotografia, um nome\


Paulo Nozolino, Tóquio, Japão, 1996
© Paulo Nozolino

E porquê esta imagem, aparentemente límpida e bem calibrada, entre tantas imagens belíssimas de Paulo Nozolino, que fazem capa de revista e fulguram em exposições revisitadas até à exaustão?

Há aqui a comodidade de não haver perplexidade, não há arestas vivas, o enigma é o de todos os dias – não vemos os rostos, a história do personagem: não há ambiguidade nem sobressalto.
Mas nunca, desde o primeiro olhar, “um personagem à procura de autor”, é, decididamente, uma imagem de Nozolino; e sempre me perturbou.

Detecta-se a nova concepção de distância fotográfica, onde ficamos onde estamos, fora de cena, sem perseguir mistificações. O fotógrafo joga com o claro-escuro, (um negro intenso e injusto, um branco de cegar), sem debitar ensaios técnicos que exigem um bloco de notas prévio; mas a fotografia é habitada pela transparência pesada de um entardecer, que reconhecemos existir sem nunca a olharmos, a sentirmos assim, na mínima transparência dos nossos dias.

Tudo se fez, tudo se congregou para definir este cenário de passagem: o contraste da pedra com a marca branca no asfalto, o corte exacto no geometrismo, a ausência de céu, a simetria incómoda, de espelho, dos dois personagens. Ao fundo a sugestão de janelas iluminadas na parede cinza, falsas e oníricas, com ladrilhos que as negam, mas deixando a ilusão persistir.
E, no entanto, para meu mal, não é a análise da composição que me seduz. A sedução é uma apropriação da lisura, uma inconveniência e esta imagem sempre me seduziu.

Porque conheço, todos nós conhecemos, este apressamento quase automático dos nossos fins de dia, estes gestos padronizados, esta negligência física que esconde mal a repetição das nuances e dos códigos. Conhecemos a sobremodernidade onde isto se passa e se interioriza, estes não-lugares onde a comunicação virtual não é comunicação e o perigo é uma coacção. Sabemos deste seguir em frente, sem olhar, tão rápido como a decisão, tão solitário como a esperança. O que esta imagem de Paulo Nozolino nos dá, de forma concentrada, no passo elástico da determinação numa incaracterística esquina de Tóquio, é a nossa pertença a este magnetismo da solidão. Porque nesta nossa cultura, nesta cultura quase universal, que nos identifica, recupera-se o “significante flutuante” de que fala José Gil – a força primária, colectiva, energia do vivo sobre todos os objectos que, mesmo minimamente, o representam. Não é uma varanda para o conhecimento, mas para a identificação, no mar de signos que provoca. O que sabemos com o corpo muitas vezes não tem nome. Na falta de código, sabemos sem significados.

O paradoxo desta fotografia é ligar-nos o corpo cúmplice a esta imitação da vida a preto e branco, para entendermos o sentido que a aprendizagem não nos sabe dizer.

Maria do Carmo Serén

Paulo Nozolino (1955), vive actualmente em Lisboa;
Fotógrafo inveteradamente flâneur é o mais internacional dos fotógrafos portugueses.

Património Mundial

Piso superior da Casa-Estúdio Carlos Relvas
© Miguel Silva (Público/Arquivo)

Casa-Estúdio Carlos Relvas vai ser candidata a Património Mundial. O anúncio vai ser feito hoje no arranque da 2ª Semana da Fotografia da Golegã. António Martiniano Ventura, presidente do Centro de Estudos em Fotografia da Golegã, criado pelo Instituto Politécnico de Tomar e pela Câmara Municipal da Golegã, é o principal impulsionador da organização e implementação do dossier de candidatura que conta já com os apoios de António Pedro Vicente (professor, historiador), Jorge Custódio (director do Museu Nacional Ferroviário), José Soudo (fotógrafo, professor de fotografia), Luís Pavão (fotógrafo, conservador de fotografia e professor), Manuel Silveira Ramos (fotógrafo, professor de fotografia), Pedro Aboim (fotógrafo, investigador de História da Fotografia) e Victor Mestre (arquitecto responsável pelo projecto de recuperação da Casa-Estúdio Carlos Relvas).

Na 2ª Semana da Fotografia da Golegã, que decorre até sábado, haverá um ciclo de conferências cujo tema genérico é A Fotografia nos Museus - Os Museus da Fotografia. Entre os oradores contam-se Grant Romer (director do Programa Avançado de Residências em Conservação de Fotografia da Casa George Eastman, Museu Internacional da Fotografia e do Filme, em Rochester, Nova Iorque), Mattie Boom (conservadora de fotografia no Museu do Risco em Amesterdão e antiga presidente Sociedade Holandesa de Fotografia), Silvestre Lacerda (Director da Direcção-Geral de Arquivos, Centro Português de Fotografia), Luísa Costa Dias (Directora do Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Lisboa), Helena Araújo (Directora do Photographia Museu Vicentes do Funchal), Cármen Almeida (responsável pelo Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Évora, Luís Pavão e Cátia Fonseca (da Casa-Estúdio Carlos Relvas).

30 setembro, 2009

entre aspas

Allan Grant, actriz Maria Felix em "Juana Gallo", México, 1960
© Time Inc.


(...) Conto isto para melhor compreenderem o meu espanto quando Mãe Mocinha se pôs a falar da minha vida com detalhes que apenas eu próprio julgava conhecer. Era como se fosse eu a falar de mim, embora com a distância e a lucidez de um estranho.

-Essa mulher não está apaixonada por você - disse, referindo-se a Kianda. - Quando olhamos para um espelho, não é o espelho que vemos. O que vemos é a nossa imagem reflectida nele. Você é como um espelho para essa mulher. Ela nem sequer repara em você, filho, está apaixonada pelo próprio reflexo. Do que ela gosta é do seu deslumbramento, gosta da forma como você a vê.
(...)

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa

29 setembro, 2009

na [Kgaleria]

Bert Teunissen, Domestic Landscapes
© Bert Teunissen

É muito feliz e acertada a passagem de testemunho que as fotografias do peruano Paco Chuquiure fazem ao trabalho do holandês Bert Teunissen na [Kgaleria], em Lisboa. Há em ambos uma procura da pose grave em espaços que são do círculo mais íntimo dos seus protagonistas e uma composição meticulosamente arrumada, como que a tentar parar ainda mais o tempo. Perpassa um sentimento de ligação afectiva com o lugar. Nas imagens a preto e branco de Chuquiure, mais soturnas e comprometidas, encontra-se a mesma dignidade nostálgica das imagens a cores de Teunissen, mais livres e românticas.

O projecto de Paco Chuquiure, Álbum Familiar, retrata a vida dos habitantes de Oásis Villa, uma parcela de terra no distrito de Villa El Salvador, nos arrabaldes de Lima, Peru. Este terreno foi ocupado à força por cerca de 1200 famílias em meados de 2006. As condições de vida estão no limite e os habitantes vivem com ansiedade, na expectativa de serem desalojados pelas autoridades ou pelos donos legítimos daquelas terras. Apesar de viverem na incerteza de ficarem sem o pouco que têm, Chuquiure afirma ter descoberto aqui "o prazer de viver" e uma organização social muito forte presente, por exemplo, nas inúmeras celebrações que tanto podem marcar o nascimento de uma criança como a efeméride do assassinato de um líder local.

Em Domestic Landscapes Bert Teunissen tenta apreender uma luminosidade particular, a luminosidade dos velhos lugares, das velhas casas europeias que, na sua opinião, está a desaparecer à medida que se vão destruindo antigas habitações, tascas e lojas. A faísca que deu início a esta série está na infância do autor que nunca se adaptou bem à mudança para uma casa nova e um estilo de vida urbano. Desde que, há 10 anos, captou uma imagem dentro de uma casa em Castelnau, no sul de França, e sentiu naquela luz uma remeniscência da "sua" antiga luz nunca mais parou. Muitas das imagens de Domestic Landscapes foram captadas em Portugal. O Museu da Imagem de Braga apresentou uma selecção deste trabalho em 2004 e agora é a vez da K Galeria receber estas selectas composições de luz que nos atiram inevitavelmente para quadros de pintores como Vermeer.

Paco Chuquiure, Álbum Familiar
© Paco Chuquiure


Domestic Landscapes, de Bert Teunissen
[Kgaleria], Rua da Vinha 43A – Bairro Alto, Lisboa
De seg. a sex. das 10h às 18h, sáb. das 14h às 19h (excepto feriados)
Até 31 de Outubro

leiloar

Lola Álvarez Bravo, Los Gorriones, 1940s


A casa leiloeira Phillips de Pury & Company agendou para 3 de Outubro em Nova Iorque um leilão com obras da América Latina (ou com ela relacionada) de vários campos artísticos. Há dezenas de lotes de fotografia onde constam reproduções de autores como Manuel e Lola Álvarez Bravo, Graciela Iturbide, Mario Cravo Neto, Miguel Rio Branco, Sebastião Salgado e Flor Garduño. Aqui


Alberto Korda, Guerrillero heroico (Che Guevara), 1960

28 setembro, 2009

On Reading

André Kertész, Greenwich Village, Nova Iorque, 1963
© The Estate of André Kertész/Cortesia de Stephen Bulger Gallery

Há actos do quotidiano que de tão repetidos parecem desprovidos de qualquer interesse visual. E no entanto, olhares mais atentos, como o de André Kertész, conseguiram encontrar nas mais banais vivências do dia-a-dia a beleza. Kertész gostava de ver os outros a ler e passou a registar esse acto de prazer, concentração e magnetismo que, diga-se, está carregado de fotogenia e não é assim tão invisível. On Reading, foi uma das principais apostas de Verão da Photographer`s Gallery de Londres, exposição que ainda pode ser vista até 4 de Outubro. O conjunto reúne imagens captadas entre 1915 e 1980 e para além da leitura celebra o livro como objecto e os espaços onde costuma estar disponível.

=ColecçãoàVista= 31

Robert Demachy, Study (Nude), 1906
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Erotismo na Fotografia

O francês Robert Demachy (1859-1936), um dos principais teóricos da corrente fotográfica denominada por pictorialismo, fez a sua obra versar sobre temas como o nu e a paisagem da bretanha francesa. Nas artes visuais, o erotismo sempre esteve presente como tema. Na fotografia acontece o mesmo a partir da sua descoberta no século XIX. Para além de Robert Demachy, autores como Henry Voland e Edward Steichen entre outros, trouxeram-no para o registo fotográfico. Barthes define a fotografia erótica como aquela em que o campo cego sai para fora do enquadramento e a nossa imaginação vai além da imagem fixa. O punctum é, portanto, uma espécie de extra-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver: não somente para “o resto” da nudez, não somente para o fantasma de uma prática, mas para a excelência absoluta de um ser, alma e corpo intrincados.
(texto:CPF)

24 setembro, 2009

Paraty em Foco

Filipe Berndt, festival Off Paraty em Foco
© Filipe Berndt

Começou o Paraty em Foco - Festival Internacional de Fotografia Fnac que na sua quinta edição tenta compreender algumas das revoluções por que passa a fotografia contemporânea. A cidade histórica brasileira acolhe até ao dia 27 de Setembro uma vasta programação que inclui muitos novos autores. Em paralelo com as exposições, leilões e actividades sociais, foram agendadas para a Casa da Cultura de Paraty uma série de entrevistas públicas que ampliarão as vozes de nomes como Rosângela Rennó, Orlando Brito e Lula Marques, Loretta Lux e Alessandra Sanguinetti (estas conversas poderão ser seguidas em directo por aqui). No campo das mesas redondas, haverá, por exemplo, um encontro da Blogosfera Fotográfica que pretende ser o ponto de partida para a manutenção de um blogue colectivo que junte na mesma morada os saberes de alguns dos melhores blogues brasileiros de divulgação, teoria, criação, investigação e crítica fotográficas.
Na última noite de projecções o colectivo português [Kameraphoto], que participa pela primeira vez no festival, fará uma apresentação de State of Affairs, o seu mais recente projecto que implicou a deslocação de todos os fotógrafos do colectivo para distintos lugares do mundo com o objectivo de captar l´air du temps. Caberá a Jordi Burch explicar a concretização desta ideia.
O Paraty em Foco – Festival Internacional de Fotografia Fnac é realizado pela Galeria Zoom, de Paraty, e pelo Estúdio Madalena, de São Paulo.
O blogue colectivo do Paraty em Foco está aqui


Francesco Zizola, Centro de recuperação para crianças com deficiências graves, Khodjeli, Uzbequistão, 1997
© Francesco Zizola

Shore

Stephen Shore, de Uncommon Places, 5th and Broadway, Eureka, Califórnia, 1974
© Stephen Shore

Vale a pena ouvir esta curta conversa de Stephen Shore com Jean Wainwright sobre o seminal conjunto de imagens que deram forma a Uncommon Places, influência directa para gerações de fotógrafos. Aqui

23 setembro, 2009

Dress Codes


Jeremy Kost, Amanda Backstage at Heatherette, from the series Private Pageantry, 2005–
© Jeremy Kost/Cortesia do artista


O International Center of Photography de Nova Iorque abre ao público no dia 2 de Outubro Dress Codes: The Third ICP Triennial of Photography and Video, a iniciativa que marca o fim de um ciclo de projectos de 2009 dedicados ao mundo da moda e à sua relação com a arte e a sociedade. Através do prisma da moda, no seu conceito mais alargado, a trienal, que se denomina como a única iniciativa regular americana voltada para a criação internacional contemporânea de fotografia e vídeo, pretende "olhar para a proliferação de fotografias e vídeos que exploram a estilização, a imagem e a personalização nas suas criações".
O guião geral é este:
The theme of fashion encompasses a diverse range of practices and ideas, including explorations of identity and affiliation; the production, distribution, and consumption of images and goods; contemporaneity; age; gender; and global industry. The themes of the Triennial express the exuberance, wit, and astute social observation taking place within contemporary image-making. These artists variously explore fashion—whether in everyday dress, haute couture, street fashion, or uniforms—as a celebration of individuality, personal identity, and self-expression, and as cultural, religious, social, and political statements.

Ao todo, serão expostos mais de 100 trabalhos de 34 artistas, entre os quais nomes em ascensão como os de Mickalene Thomas, Yto Barrada, Kimsooja e Thorsten Brinkmann, ou consagrados como os de Cindy Sherman, Stan Douglas e Lorna Simpson. Em conjunto com a editora Steidl, o ICP organizou um catálogo com os trabalhos dos artistas representados na trienal, ensaios dos comissários da iniciativa e excertos de pensadores que ao longo dos tempos problematizaram as relações entre a arte e a moda.

=ColecçãoàVista= 30


Leon Levinstein (1913-1988), Three Women, ca. 1960
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Momento de Exposição

Apesar do sucesso do início de 1950, quando obteve alguns prémios, Leon Levinstein só atraiu os olhos do público a partir de 1988, após a sua morte. Não foi o mundo em geral que captou com a sua câmara, mas antes os seus habitantes, os expressivos rostos e gestos. Enquanto espectadores, não temos noção de como se inserem nesse mundo. Desenvolveu um estilo de rua que tornou a sua fotografia directa e chocante, com ângulos baixos, perspectivas a ameaçar o diagonal e peculiares pontos de vista, que exibem ao mesmo tempo complexidade e elegância.
Homem de alma solitária, evitou sempre a intimidade com as pessoas. O único relacionamento sério que teve foi com a fotografia. Num olhar estrangeiro sobre “o pitoresco”, retrata com uma visão romântica o Portugal à beira-mar plantado, a típica Nazaré e a labuta dos pescadores.
(texto:CPF)

22 setembro, 2009

NTF 09

Alexandre Delmar (menção honrosa NTF 08), Deli, 2007
© Alexandre Delmar

O prazo de entrega de portfólios para o prémio Novo Talento Fnac Fotografia 2009 foi adiado para o dia 30 de Outubro. Para descarregar o regulamento clique aqui

entre aspas


© Margaret Bourke-White

- O Teiger, o Sam Teiger, proprietário do Tavern, vê a Eve e traz à nossa mesa uma garrafa de champanhe. O Ira conviado-o a beber connosco e brinda-o com a história dos seus trinta dias como empregado do Tavern em 1929, e, agora que a sua vida se transformou, toda a gente aprecia a comédia dos seus infortúnios e a ironia de o Ira lá ter voltado. Todos nós apreciamos o desportivismo com que ele encara as velhas feridas. O Teiger corre ao escritório, volta com uma máquina fotográfica e tira-nos uma fotografia durante o jantar e, mais tarde, pendura-a na sala de fumo do Tavern, ao lado das fotografias de todos os outros notáveis que por lá tinham passado. Não teria havido qualquer razão para a fotografia não ter continuado lá pendurada até o Tavern fechar, já depois de 1967, se o Ira não tivesse ido parar à lista negra dezasseis anos antes. Soube que a tiraram de um dia para o outro, como se a vida dele tivesse sido transformada em nada.

Casei com um comunista, Philip Roth, ed. Dom Quixote

31 agosto, 2009

...


Weegee, duche colectivo durante o Verão, Lower East Side, 1937

(até já)

Para Perpignan

Miquel Dewever-Plana, The other war
Miquel Dewever-Plana/Agence VU

Sempre que tem oportunidade o francês Jean-François Leroy denuncia as dificuldades e os entraves que se colocam no caminho do fotojornalismo. Foi assim quando, por várias ocasiões, participou no júri do prémio Visão/BES Fotojornalismo e foi assim, mais uma vez, na apresentação da edição deste ano do festival Visa pour L`image, que ajudou a fundar e que actualmente dirige. O certo é que sempre que se olha para os trabalhos programados por Leroy em Perpignan encontram-se a acutilância, a oportunidade e força do melhor fotojornalismo do planeta. Este ano, a América do Norte tem um destaque especial no festival. Há uma série inédita de Eugene Richards (War is Personal) que procura o impacto da última guerra do Iraque na sociedade dos EUA, uma reportagem de Miquel Dewever-Plana acerca dos Maras da Guatemala e um trabalho de Jérome Sessini sobre o poder tentacular do narcotráfico no México. Além das imagens ampliadas que questionam o fanatismo no Afeganistão, o iraniano Abbas decidiu mostrar boa parte do making of desse trabalho.

Todas as informações sobre o Visa pour L`image aqui

Zgierz/Lisboa/Bissau

Guiné-Bissau, Bairro Quelele, Mercado © Mikael Levin

Que se saiba a fotografia não tem o dom de curar nada. E raras vezes apazigua ou adormece. Pelo contrário, contribui mais vezes para acicatar emoções, provocar estados de alma e ressuscitar histórias adormecidas resgatando do esquecimento os passos, os sinais, os lugares e os objectos, por mais irreconhecíveis que estejam, por mais desvanecidos se encontrem. Porque para visualizar nem sempre é preciso ver.
Para contar a História de Cristina (Museu Berardo, até 1 de Novembro), Mikael Levin serviu-se da fotografia como filtro difusor de uma narrativa de busca pessoal que só encontra nitidez e contorno no momento em que se torna colectiva (e logo nossa também). O percurso em torno das memórias de uma família judia que, em três gerações, se movimentou por geografias muito díspares é feito em imagens-retalho unidas por uma linha ténue que lhes fornece alguma cumplicidade, é uma linha que sugere viagem, movimento e diáspora que fica mais forte quando se mostram os sinais de um passado familiar, de uma história particular que se quis tornar pública e que se quer tornar origem de novas histórias.
A exposição Cristina`s History mostra imagens de Zgierz, Lisboa e Guiné-Bissau. Zgierz é uma aldeia polaca, origem dos antepassados de Cristina da Silva-Schwarz e Mikael Levin. Uma geração da família passou por Lisboa, depois por Bissau e regressou a Lisboa.
Cristina`s History não é a história de um – é a história de vários. E é também a nossa história.


Zgierz, Fábrica em ruínas © Mikael Levin

Lisboa, Praça do comércio © Mikael Levin

=ColecçãoàVista= 29

Bert Hardy (1913–1995), Row of Sickles, Portugal, Setembro de 1955
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Colheita do Arroz


Bert Hardy é um autodidacta. Começou a trabalhar em 1927 como assistente de laboratório no Central Photo Service, em Londres, onde permaneceu até 1936. Foi um dos primeiros fotógrafos a usar uma Câmara Leica de 35 mm, em 1938. De 1941 a 1957 é um dos repórteres da célebre revista Picture Post e será nesta fase que visita Portugal, da Nazaré ao Alentejo, nomeadamente em 1951 e 1955. Nesta revista semanal publicou esta e outras imagens, no artigo intitulado “The Rice Harvest” (sobre a colheita do arroz em Portugal) a 29 de Outubro de 1955.
Foi o fundador da Grove Hardy Ltd. em conjunto com Gerry Grove. Trabalhou ainda como freelancer em fotografia publicitária, ganhando um prémio, com o cartaz para os cigarros Strand, em 1960. Tornou-se agricultor depois de 1964.
(texto:CPF)

25 agosto, 2009

Pacheco no Masters

Calle Habana, Cuba, 2007
© Georges Pacheco

O fotógrafo Georges Pacheco é um dos dez nomeados na categoria Editorial para o prémio Masters promovido pela marca Hasselblad. O trabalho que valeu a Pacheco a presença entre os finalistas mostra Cuba de uma forma perspicaz e descomprometida. A Hasselblad organizou uma exposição que terá uma imagem de cada finalista e que passará nos próximos meses por Hong Kong, Copenhaga, Nova Iorque e Londres. Para além da decisão do júri (do qual fazem parte Anton Corbijn, Douglas Kirkland, Efrem Raimondi, entre outros) o Masters contará, pela primeira vez, com a contribuição do público.
Amostra do trabalho de Georges Pacheco aqui

o luxo

Benedikt Taschen e Helmut Newton com uma cópia de Sumo.
A primeira cópia foi autografada por mais de 80 celebridades que aparecem na obra e foi vendido por 430 mil dólares, em 2000
© Taschen

Os livros de fotografia de luxo são à prova da crise?, pergunta Eleanor Morgan no Guardian. Para tentar encontrar a resposta, Morgan falou com o mais aventureiro dos editores de livros de fotografia - Benedikt Taschen. aqui

=ColecçãoàVista= 28

Alfredo Cunha (1953), Estaleiros do Douro, 1997
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Fotografia Directa

Alfredo Cunha é filho de fotógrafo. Começou a fazer fotografia por obrigação. É após uma viagem à Suécia, no início da década de 70 do século XX, do contraste suscitado entre diferentes realidades, que, no regresso a Portugal, toma consciência que a fotografia lhe permite registar um país desadequado. O 25 de Abril dá-se quando tem 20 anos e trabalha no jornal O Século como repórter, arrepende-se até hoje de ter tirado poucas fotografias. A sua preocupação social está patente no seu trabalho e nesta imagem publicada no livro A Norte. As suas imagens incluem toda a informação necessária sobre o homem, vê-se o ambiente e o material de trabalho. São imagens directas, sem qualquer efeito fácil.
(texto:CPF)

23 agosto, 2009

o tesouro da NG

George Shiras III, Hunting Deer with a Camera, Michigan
© George Shiras III/National Geographic Society/Steven Kasher Gallery

A National Geographic Society chama-lhe o alicerce fundamental sobre o qual se ergueu e sobre o qual agora repousa. As caves do edifício-sede, em Washignton D. C., guardam um tesouro fotográfico relativamente secreto, do qual só vimos uma ínfima parte. É um tesouro que resume boa parte do registo visual do século XX ligado não só à natureza animal e à paisagem natural, mas também à natureza humana, às sociedades e à paisagem urbana. Para além de ter decidido começar a mostrar parte dos 11 milhões de imagens que habitam o salão de 600 metros quadrados no subsolo da sua casa-mãe, a NGS resolveu pôr à venda cerca de 500 mil provas vintage. “As pessoas não imaginam a beleza desta colecção e é uma pena que, de certo modo, seja eu o único a vê-la”, disse ao New York Times William C. Bonner, arquivista da NGS responsável pelo espólio. O primeiro passo para que a partilha deste tesouro seja alargada é dado já no dia 17 de Setembro com a inauguração da primeira de uma série de quatro exposições. A maior parte das 150 imagens seleccionadas para a mostra inaugural são provas a preto e branco das primeiras aventuras registadas pelos fotógrafos da NG, mas haverá também muitas autochromes (as primeiras fotografias a cores). Muitas são inéditas e nunca chegaram a ser publicadas na revista da NG. Os preços das imagens ainda não estão completamente definidos, mas devem situar-se entre os 3000 e os 10 mil dólares.



21 agosto, 2009

au féminin

Dora Maar, Portrait d`une femme, Paris, c. 1935

Mulheres a olhar para mulheres
(P2, 21.08.2008)

Bem vistas as coisas, discutir o sexo da fotografia é mais ou menos como discutir o sexo dos anjos. De exclusivamente feminino só mesmo o género da palavra, porque, enquanto processo
técnico, o suporte fotográfico é insensível ao sexo de quem regista ou de quem cria. À partida, a
fotografi a apresenta-se como campo neutro, pronta para ser manipulada, disponível para ser
consequência de variáveis como o gosto, a sensibilidade, a formação e também… o género.

Para abrir o ensaio do catálogo que acompanha a exposição Au féminin, Women Photographing
Women 1849-2009
(Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Paris, até29 de Setembro), o comissário Jorge Calado escolheu uma citação da fotógrafa americana Imogen Cunningham (1883-1976) que clarifica, à partida, a fronteira entre estes dois momentos: “A fotografia
não tem sexo”, no sentido em que, na sua génese, ela está apenas ao serviço da luz, como uma
folha em branco. Apesar da sua neutralidade de género, a fotografia (ou produção fotográfica que se tornou mais visível) esteve durante muito tempo nas mãos de homens. Não que as mulheres estivessem ausentes do universo da fotografia. Muito pelo contrário, elas sempre fizeram parte dela, não só como tema e sujeito, mas também como criadoras, comissárias e teóricas (como Susan Sontag e Gisèle Freund, que assinaram alguns dos mais importantes ensaios do século passado).

O certo é que a sociedade machista em que se moveu a imagem fotográfica ao longo dos últimos dois séculos fez com que apenas nas últimas duas ou três décadas se considerasse criticamente o contributo das mulheres para a fotografia. Com Au fémininJorge Calado pretende contribuir para o “equilíbrio de géneros, numa arte geralmente limitada ao masculino”.

Nas palavras do comissário, é a primeira vez que se concebe uma exposição em que a mulher é ao mesmo tempo objecto e sujeito, autor e tema em sentido lato (não confinada à nudez ou ao retrato). Através de um total de 140 imagens de mais de 100 autoras, Calado tenta mostrar “a diversidade da condição feminina em toda a sua riqueza e subtileza”.

Há imagens de várias fotógrafas portuguesas, entre trabalhos que vão desde 1849 até aos nossos dias. Julia Margaret Cameron, Lee Miller, Dorothea Lange, Diane Arbus e Sarah Moon são só alguns exemplos da constelação de autoras fundamentais. Uma amostra do trabalho fotográfico sobre a condição feminina no Portugal dos anos 40 de Maria Lamas (1893-1983) é uma das escolhas mais notadas e surpreendentes, já que é a primeira vez que se apresenta este lado da sua obra contextualizado numa grande exposição.

18 agosto, 2009

best shot

Abbas Kiarostami, da série Rain
© Abbas Kiarostami/Purdy Hicks Gallery

Sabe bem entrar nas razões que levam um fotógrafo a escolher determinada imagem como a sua preferida entre milhares, milhões de outras. É particularmente feliz e bem feita a série best shot do Guardian que, segundo o arquivo disponível na web, já dura desde Novembro de 2006. O fotógrafo de moda Mario Testino foi o primeiro a explicar porque escolheu Eva Herzigova a contrariar o efeito Wonderbra como a sua best shot. Depois dele seguiram-se mais de uma centena de fotógrafos e outras tantas imagens.
O precioso arquivo desses testemunhos está aqui

Nova Iorque

Mitch Epstein
© Mitch Epstein/Sikkema Jenkins & Co.

Haverá ainda imagens de Nova Iorque capazes de nos abalar? Sim. Haverá sempre imagens de Nova Iorque capazes de nos abalar. Como esta de Mitch Epstein, presente numa exposição da galeria Sikkema Jenkins & Co., uma das participantes da iniciativa colectiva New York Photographs que tenta recuperar o brilho, as luzes, os símbolos e a vida mundana das ruas da cidade das cidades.

Galeria com mais fotografias aqui
Artigo do NYT aqui

17 agosto, 2009

=ColecçãoàVista= 27

Dominique Mérigard (1964), Sem título, 2001
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Terra fecunda

Dominique Mérigard, nascido em Châtellerault, em 1964, e com uma carreira no mundo da fotografia bastante extensa, a par da actividade de professor, inspirou-se, tal como tantos outros autores, na região única do Douro. O olhar deste fotógrafo francês trespassa esta zona de contrastes, produzindo imagens de uma terra envolta em mistério, mas onde a acção humana está presente pela imposição da sua vontade e força de trabalho. A presença do homem completa a paisagem da natureza dura mas bela. As vinhas são o mote da fecundidade onde o vinho gerado alimenta e fortalece os varões na luta intemporal contra a austeridade campestre. São imagens contemplativas que nos transportam para o fenómeno do Douro, terra geradora de sentimentos.
(texto:CPF)

13 agosto, 2009

saudades da Polaroid

© mironabside

Há aí um grupo de rapaziada bem intencionado que quer à viva força fazer com que as máquinas da fábrica da Polaroid de Enschede (Holanda) voltem a fazer cartuchos de fotografia instantânea. Desde que em Fevereiro deste ano foi anunciado o fim dos míticos quase-quadrados brancos, o austríaco Florian Kaps (fundados do polanoid.net) não deixou de pensar como é que havia de trazer à vida a Polaroid. Ele e mais 11 corajosos que se juntaram num projecto que não podia ter um nome mais desafiador: The Impossible Project. Boa sorte.

O New Yor Times escreveu sobre eles aqui
e publicou uma galeria com cinco fotógrafos que falam sobre o seu suporte preferido. aqui

12 agosto, 2009

BES Photo - nomeados

Ontem de André Cepeda
© Susana Pomba aka missdove


André Cepeda, de 33 anos, Filipa César, de 34, e Patrícia Almeida, de 39, são os nomeados para o prémio BES Photo 2010. A escolha foi feita pelos críticos e comissários Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo, em função das exposições realizadas nos últimos 12 meses. André Cepeda foi nomeado pelas exposições Ontem, na Galeria Zé Dos Bois (ZDB), e River, na Galeria Pedro Cera; Filipa César, por Le Passeur, na Fundação Ellipse, Rapport/Raccord, na Galeria Distrito Cuatro, em Madrid, e The Four Chambered Heart, na Galeria Cristina Guerra; e Patrícia Almeida por Portobello, na ZDB e Art Allgarve 2009.

O júri de selecção justificou as suas nomeações assim:

André Cepeda: “consistência de apresentação de dois projectos que retratam realidades e contextos sociais que denotam um amadurecimento notável das formas expressivas do autor”.

Filipa César: “qualidades fílmicas de documentário do projecto Le passeur no qual se destaca o olhar fotográfico consciente da tradição retratística do fotógrafo. Esta relação fica bem explícita no projecto Rapport/Raccord apresentado na Galeria Distrito 4 e volta a ser visível no projecto The Four Chambered Heart apresentado na Galeria Cristina Guerra.

Patrícia Almeida: “olhar pessoal e atento da artista sobre um contexto social específico”. O júri salientou ainda "a importância da publicação do livro de autor no âmbito do projecto Portobello”.

11 agosto, 2009

sair do escuro

Retrato de William Henry Fox Talbot (início da década de 1840)
© Antoine Jean François Claudet/The British Library

A British Library (Londres) tem agendada para o fim de Outubro a inauguração de uma grande exposição sobre a evolução do suporte fotográfico ao longo do século XIX. As provas que contarão a história da fotografia desde os seus primeiros passos até à viragem do século fazem parte do vasto espólio da BL, muitas das quais nunca mostradas publicamente. Points of View: Capturing the 19th Century in Photographs arranca no dia 30 de Outubro e estende-se até 7 de Março de 2010. No Guardian já podem ser vistas algumas imagens (aqui) e, no mesmo jornal, Mark Brown desvenda as linhas gerais da mostra (aqui).

Josef Maria Eder e Eduard Valenta, radiografia de rãs, década de 1890
© The British Library

09 agosto, 2009

Arles

Hyman Goldin, Barbara in mask, Washington DC, 1953
© Hyman Goldin


Há 40 anos a marcar Encontros
(P2, 09.08.2009)

Os Encontros de Fotografia de Arles entraram na casa dos 40, mas parecem longe de acusar a idade. Na passagem do milénio, o festival de fotografia mais antigo do mundo parecia estagnado e sem argumentos para recuperar o cariz político (que lhe deu impacto), o espaço criativo (que lhe deu reputação), a força do debate (que suscitou paixões) e a atitude libertária (que seduziu viajantes) - tudo marcas fundamentais das primeiras edições, concretizadas durante a ressaca do Maio de 68. Em 2001, o programa oferecia 14 exposições que foram vistas por nove mil pessoas. No ano passado, as 60 mostras do cartaz receberam 60 mil visitantes. Os Encontros alargaram o leque de géneros, tendências e suportes, recuperaram brilho e ganharam o fôlego de outros tempos.


Oan Kim, da série Je suis le chien Piti
© Oan Kim

Se há coisas que se podem repetir no tempo com alguma nitidez, há outras que se vão desvanecendo, às vezes irremediavelmente. François Barré, presidente do festival francês desde 2001 e um dos artífices deste novo alento, lembra algumas das características que já estão muito longe dos "heróicos" primeiros anos: os Encontros deixaram de ser apenas "profissionais" para se "destinarem a todos e abrirem a todos"; as máquinas Leica deixaram de ser as únicas "relíquias" da prática fotográfica; o preto e branco e o suporte analógico deixaram de ser opções exclusivas da imagem fixa (em contramão, a cor passou a estar "por todo o lado" e o digital "invadiu o planeta fotografia"). Barré proclama no texto de apresentação deste ano a "continuação do espectáculo" ("apesar da crise") e antevê edições de "extraordinária mutação".

Enquanto espera pelas imagens de mudança do futuro, o festival olha para as imagens de ruptura que ajudaram a construir o seu (nosso) passado. A programação dos Encontros, a decorrer até 18 de Setembro, assenta em dois eixos principais: 40 ans de Rencontres celebra a dedicação e os múltiplos talentos de Robert Delpire (criador da célebre colecção de livros de fotografia Photo Poche) e reúne exposições de novos talentos escolhidos por antigos directores artísticos e fotógrafos que ajudaram a escrever a história do festival; 40 ans de ruptures integra trabalhos apresentados em Arles que provocaram debate e desafiaram convenções. É aqui que se encontra a retrospectiva de Duane Michals e as exposições dos 13 fotógrafos escolhidos pela americana Nan Goldin, comissária convidada deste ano e uma das muitas fotógrafas lançadas pelo festival de Arles. Goldin apresenta ainda imagens das séries The Ballad of Sexual Dependency e Soeurs, Saintes et Sybilles e fotografias da sua colecção privada. Paulo Nozolino é outro dos fotógrafos da ruptura representados, ao lado de Brian Griffin, Eugene Richards, Martin Parr e René Burri.


Eugene Richards, do livro The Blue Room, Corinth, Dakota do Norte, 2006
© Eugene Richards

#Pendant la crise, le spectacle continue, texto de François Barré
#40 de Rencontres, 40 ans de ruptures, texto de François Hébel
#Programação completa dos Rencontres d`Arles

06 agosto, 2009

/uma fotografia, um nome\

Bruno Sequeira, Pushkar, 1993
© Bruno Sequeira


E regresso a Nietzsche, o que é inevitável, tratando-se de fotografia, essa imagem que está sobre os ombros do tempo e agrega em si todas as experiências anteriores. Vejo pois o homem como o animal que é construtor de metáforas; e a metáfora como a nossa forma de caracterizar o desconhecido vestindo-lhe o casaco reconfortante do que já conhecemos. Ao comunicar com os outros, pelo som ou pela imagem, temos de criar modelos, representações, ilusões, ficções e mentiras; mentiras que são réplicas, que são signos.

É um processo já mediático, pouco simples e relativamente eficaz; mas nem tudo, objectos materiais ou imateriais, se deixa cobrir com metáforas. Há sentimentos, pulsões e imagens que não sabemos traduzir. E não saber classificar, fechar no armário do entendimento num código acessível, não saber ordenar e transformar em conhecido, (significar) é um arrepio, uma desolação.

Por tudo isto esta imagem de Bruno Sequeira investe sobre nós, no turbilhão da poeira levantada, numa aceleração visível. Esta estratégia de fazer saltar sobre nós o acontecimento, já o cinema divulgara, desde os quadros cinematográficos mais pioneiros com comboios que progridem para o público, à avassaladora cena inicial de "A Guerra das Estrelas/2". E bem antes, Emílio Biel fazia publicar na primeira página de “O Occidente”, a preto e branco e em xilogravura, uma locomotiva com o mesmo efeito.

Aqui, em Rushkar, soma-se ao choque iminente a indeterminação dos animais: entrevistos na sua parte, não nos olhares, investem cegos como as máquinas, mas não o são.

Sabemos o milagre do que somos: sentimos a velocidade, a poeira, o cheiro, a estranheza e a aproximação da catástrofe. Somos animais de frontalidade visual, mas precisamos da distância. Recuamos frente à vertigem da incapacidade de defesa. Num primeiro olhar, a única metáfora que sabemos é a do medo. Mas um medo intelectualizado, um breve tremor e recuo, porque a sabemos imagem. Mas a fotografia já nos prendeu. Uma cáfila? Uma debandada?

Habituamo-nos à inteligibilidade da imagem, interiorizamos a banalidade do risco improvável, do sobressalto, da neurose. A multiplicação das imagens que nos rodeia quase torna exterior o mundo interior de cada um, codifica a sensibilidade, mas ainda não se deteve na apresentação, no fenómeno sem nome. Frente à estranheza ficámos sem dois dos três canais psicológicos que nos dão o mundo, o imaginário e o simbólico. Resta o real, que não é fiável, pois é um residente do inconsciente: só é real, o que é ignorado.

Se o ponto de vista fosse lateral havia percepção imediata, porque não éramos potencialmente agredidos. A potência, porém, está na mão do fotógrafo, que reage assim à sua argumentação Ele usa o imaginário e o simbólico e com isso vai filtrando a significação: cáfila? Debandada sobre a estrada solar?

Por vezes esquecemos o que sabemos; a fotografia, mesmo relevando da realidade que de certo modo transporta, nada diz em si mesma. Interpretamos os dados, as referências que lhe atribuímos ao sabor de imagens semelhantes, associando-lhe metáforas que coincidem ou não com as do fotógrafo. Há fotografias que nos falam porque nelas fala o nosso real, armadilhando-nos, armadilhando-as. A realidade é o lugar estruturado pela precisão e complexidade das nossas ligações ao mundo; o real caótico que partilhamos com a verdade do mundo, na sua e nossa inconsciência, só se apresenta como esta imagem de Bruno Sequeira, uma armadilha pelo sentir.

Maria do Carmo Serén

Bruno Pelletier Sequeira vive em Lisboa; É engenheiro, fotógrafo, professor e investigador em fotografia, cine-vídeo e som.

 
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