21 julho, 2009

concorrer

Jean Chung, Rio de Janeiro, Brasil, 2008
© Jean Chung


Há dois prémios internacionais de fotografia com prazos de entrega relativamente longe no calendário. Um é patrocinado pela Comissão Europeia e surge no contexto do Ano Europeu da Criatividade e Inovação. O tema é Imaginar Um Novo Mundo e está aberto à participação de fotógrafos residentes nos Estados membros e países candidatos à UE. O prazo para o envio dos trabalhos termina no dia 31 de Agosto (mais informações aqui). O outro é organizado pela Stop Tuberculosis Partnership e chama-se Images to Stop Tuberculosis Award Competition. A ideia é descobrir e reconhecer trabalhos que promovam a prevenção e o tratamento da tuberculose. Os portfólios devem ser enviados até 20 de Setembro (mais informações aqui).

=ColecçãoàVista= 25

No. 1 Brownie Camera, model B. Eastman Kodak Company, Rochester, Nova Iorque, EUA
Colecção de Câmaras © Centro Português de Fotografia

“You press the button, we do the rest”

Em 1888 George Eastman apresentou ao mundo a No.1 Kodak Camera, e com o slogan You press the button, we do the rest (você carrega no botão, nós fazemos o resto) revolucionou todo o conceito de fazer fotografia. Pela primeira vez, o acto fotográfico restringe-se à captação da imagem em si. As provas finais passam a ser feitas em laboratórios comerciais.
Em 1900 é lançada a Kodak Brownie. Esta pequena e simples câmara, que custava apenas um dólar, era tão fácil de usar que as suas campanhas publicitárias se dirigiam às crianças enquanto potencial público-alvo. Teve tanto sucesso que durante setenta anos foram criados 125 modelos diferentes, isto é, milhões de câmaras produzidas e distribuídas em vários pontos do mundo.
Finalmente, a fotografia havia deixado de ser um mistério exclusivo do fotógrafo para passar a estar ao alcance de todos.
(texto:CPF)

20 julho, 2009

Edgar Martins no Prix Pictet 2009

Da série Diminishing Present, 2005
Edgar Martins)

Edgar Martins, recentemente envolvido numa polémica sobre manipulação digital de um conjunto de fotografias publicadas na revista do New York Times, está nomeado para o Prix Pictet 2009. A série de imagens pelas quais foi escolhido, Diminishing Present (2005), mostra paisagens atingidas por incêndios florestais. Depois da primeira edição ter sido dedicada à Água, este ano os trabalhos seleccionados são dedicados à Terra. Foram enviados a concurso mais de 300 portfólios.

Criado pelo banco suíço Pictet & Cie e pelo jornal Financial Times, o prémio, com um valor monetário de 100 mil francos suíços (cerca de 66 mil euros), é dedicado à fotografia e sustentabilidade. O vencedor será anunciado a 22 de Outubro, em Paris, por Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU. As obras candidatas vão ser apresentadas em Genebra, Suíça, em Setembro, em Londres, no início de Outubro, e em Paris, a partir de 23 de Outubro, na galeria Passage de Retz, um dia depois de anunciado o vencedor. Este ano, as imagens finalistas marcarão ainda presença na feira parisience de arte contemporânea FIAC (22-25 de Outubro) e na Paris Photo (19-22 de Novembro).

Para além Martins, estão nomeados para o prémio outros 11 fotógrafos, a saber:

»»Darren Almond (Reino Unido)
»»Christopher Anderson (Canadá)
»»Sammy Baloji (Congo)
»»Edward Burtynsky (Canadá)
»»Andreas Gursky (Alemanha)
»»Naoya Hatakeyama (Japão)
»»Nadav Kander (Reino Unido)
»»Ed Kashi (EUA)
»»Abbas Kowsari (Irão)
»»Yao Lu (China)
»»Chris Steele-Perkins (Reino Unido)

»»Post relacionado
»(Edgar Martins e NYT - desencontros)

19 julho, 2009

Julius Schulman 1910-2009


Julius Schulman, Case Study House #22



Antes de Julius Schulman a fotografia de arquitectura raramente incluia pessoas dentro das construções. O fotógrafo americano olhou para as obras de arquitectos modernistas como Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe e decidiu que as imagens que fazia ganhavam outro sentido se fossem habitadas. Schulman, considerado um dos nomes maiores da fotografia de arquitectura, morreu na semana passada em Los Angeles, aos 98 anos, depois de quase oito décadas de trabalho. As fotografias que concebeu da Case Study House #22 (1960, Los Angeles), de Pierre Koenig, e da Kaufmann House (1947, Palm Springs), de Richard J. Neutra, estão entre as mais icónicas imagens de arquitectura do século XX.

Julius Shulman nasceu em Nova Iorque em 1910. O seu interesse pela fotografia tornou-se mais sério depois de, em 1936, ter captado as linhas da Kun Residence (Neutra) com uma Kodak Vestpocket. O arquitecto gostou das imagens e passou a encomendar-lhe trabalhos. Desde então, Shulman registou projectos de alguns dos mais destacados arquitectos do seu tempo. Captou as linhas da arquitectura modernista do pós-guerra com grande sentido de composição. Nas fotografias de Shulman, com uma luz tratada de forma magistral, os projectos aparecem preferencialmente no seu contexto natural, com montanhas, plantas e o oceano como pano de fundo. As imagens de Shulman tentam materializar uma dos mandamentos dos modernistas dos anos 50 e 60 segundo o qual o bom design pode melhorar a vida de quem fizer uso dele. Centenas de jornais, revistas e livros publicaram imagens suas.

No ano passado, por ocasião do seu 97º aniversário, a editora alemã Taschen publicou um livro que mostra o desenrolar da carreira de Shulman, Modernism Rediscoverd, com mais de 400 projectos por si fotografados. O documentário de Eric Bricker intitulado Visual Acoustics: The Modernism of Julius Shulman, narrado por Dustin Hoffman, traça o seu percurso de vida e obra.


k pelo mundo



Começa amanhã a aventura dos 13 fotógrafos do colectivo Kameraphoto em 13 redacções de jornais de todo o globo, desde o Japão até Reiquejavique. A ideia é fazer um retrato do estado do mundo. O resultado destes trabalhos será mostrado numa exposição em galerias de Lisboa, Mora e Londres. Um dos membros do colectivo vai pegar nos trabalhos de todos e montar um filme para mostrar no festival de fotojornalismo de Perpignan, em França. Alexandra Lucas Coelho falou com todos os fotógrafos antes da partida. o resultado dessas conversas está publicado no P2 de hoje. Aqui

Os fotógrafos e os destinos:

»»Guillaume Pazat, Detroit (EUA), Detroit Free Press
»»Jordi Burch, Cidade do México (México), El Universal
»»Valter Vinagre, São Paulo (Brasil), Folha de São Paulo
»»Céu Guarda, Reiquejavique (Islândia), Morgunbladid
»»Augusto Brázio, Madrid (Espanha), El País
»»Pauliana V. Pimentel, Istambul (Turquia), Hurriyet
»»Alexandre Almeida, Beirute (Líbano), Al Akbar
»»Nelson d`Aires, Moscovo (Rússia), Izvestia
»»Pedro Letria, Gaza (Autoridade Palestiniana), Agência Ramattan
»»Sandra Rocha, Tóquio (Japão), Mainichi
»»António Júlio Duarte, Macau (China), Hoje Macau
»»João Pina, Joanesburgo (África do Sul), Daily Sun
»»Martim Ramos, Nova Deli (Índia), Hindustan Times
»»Rui Xavier (vídeo), Lisboa

18 julho, 2009

Glory Days

Sergei Bratkov, da série Raparigas do Exército, 2000
© Sergei Bratkov, cortesia Regina Gallery, Moscovo


Sergei Bratkov
Onde estão os dias de glória?
(P2
, 18.07.2009)

Aparecem galhofeiros em fatiotas garridas, tropas em pose escultural, camisolas com bonecos famosos e futuros radiosos. Os sinais de um mundo cor-de-rosa estão sublinhados. Entram-nos pelos olhos a um ponto que nos leva a acreditar que o paraíso existe, que anda quase toda a gente feliz e contente, em dias soalheiros que convidam a meter a cabeça na água. Estarão aqui os dias gloriosos? O paraíso até pode existir, mas não mora nestas imagens. E se há glória colada às fotografias de Sergei Bratkov (Kharkov, Ucrânia, 1960) é só no título da exposição que reúne os seus últimos 20 anos de trabalho. Glory Days é mais do que um nome irónico, é uma provocação e uma crítica mordaz à realidade social que saiu da fragmentação soviética e à ressaca da experiência política comunista que não estilhaçou apenas geografias - abalou identidades e desnorteou experiências de vida, como a do próprio fotógrafo que diz ter nascido "num país que já não existe".

O protagonista das mais de 130 fotografias e quatro vídeos que Sergei Bratkov apresenta em Madrid até 30 de Agosto na belíssima Sala Canal Isabel II (exposição integrada no festival PhotoEspaña), é o mundo do pós-comunismo e muitos dos estereótipos que lhe estão associados. E um dos rasgos de originalidade do seu trabalho - muito inspirado e dialogante com o do seu conterrâneo Boris Mikhailov - está precisamente nessa reflexão sobre os estereótipos sem nunca chegar a produzir nenhum deles (Boris Buden). À reprodução fácil e folclórica, Bratkov responde com registos baseados na "desconstrução" e na "subversão" do que o rodeia.

Num certo sentido, e à primeira leitura, o realismo fotográfico de Bratkov mente. Porque nos dá pistas enganadoras e conjuntos de referentes que aparentam ser aquilo que não são. É um método de trabalho que tenta mostrar a realidade pela subjectividade, pela ambiguidade e pela mensagem subliminar, sempre com a crítica ideológica como horizonte. Bratkov serve-nos a glória e transporta-nos para um imaginário hollywoodesco ao mesmo tempo que nos mostra, sem moralismos, a delinquência juvenil, a inocência perdida e a ilusão do império e da supremacia militar. É um mundo onde se revela "um fracassado começo do zero". E onde se mostra uma sociedade com a cabeça meia dentro, meia fora de água.

17 julho, 2009

Dias Úteis


© Guillaume Pazat


A exposição Dias Úteis de Catarina Botelho chega hoje ao fim com uma festa que se prolongará até às 24h00. A partir das 17h00 haverá venda de livros organizada pela Inc. - Livros e Edições de Autor. Para as 19h00 está marcada uma conversa sobre livros de fotografia e edições de autor que juntará na mesma mesa Filipa Valladares, Miguel von Haffe Perez, Pedro Falcão, Daniel Malhão.

15 julho, 2009

=ColecçãoàVista= 24

Wolfgang Sievers (1913 – 2007), Igreja Alemã, Lisboa, 1935
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Fuga aos nazis

“Levei horas para tirar esta fotografia, tudo por causa das três bandeiras: tive de esperar muito tempo até que a bandeira portuguesa ficasse bem desfraldada, a alemã só um pouco e a da suástica nazi nada mesmo.”
Em 1933, a Alemanha não é o lugar ideal para um filho de pais cristãos, cujos avós maternos são judeus, o que faz dele, não por opção, mas por nascimento, judeu. Wolfgang Sievers é enviado pelo pai, Professor Johannes Sievers, para Portugal ao cuidado do embaixador da Alemanha, Hans Freytag.
Viveu calmamente em Portugal nos anos de 1934 e 1935, viajando e fotografando pelo país. O seu trabalho desenvolve-se posteriormente e fica conhecido como fotógrafo industrial do século XX, mas a sua história pessoal está patente nas suas fotografias sobre a Alemanha, Portugal e Austrália.
(texto:CPF)

14 julho, 2009

Macau



Macau
Afong/Colecção Privada, Inglaterra

Já são muito diferentes desta imagem as paisagens urbanas que hoje se projectam em Macau. O francês Jules Itier, incorporado numa missão diplomática, captou as primeiras imagens conhecidas da China, em 1940. Quatro anos depois, passou por Macau e registou vistas da cidade e dos seus principais atractivos, como as ruínas da Catedral de S. Paulo, que chegou a ser a maior catedral católica da Ásia.
A exposição Uma Viagem através da Luz e da Sombra – A Invenção da Fotografia e as Primeiras Fotografias de Macau, patente no Museu de Macau (até 23 de Agosto), mostra as primeiras imagens conhecidas daquela antiga colónia portuguesa. As 180 fotografias expostas, captadas entre 1844 e os primeiros anos do século XX, revelam ainda as paisagens coloniais de outras partes da China, como Hong Kong. Para acompanhar as imagens, o Museu de Macau pediu emprestado ao Museu Nicéphore Niépce algumas das primeiras máquinas fotográficas. Ao todo, a mostra reúne peças de 12 outros museus, instituições culturais e colecções privadas em vários pontos do globo.

13 julho, 2009

museu Atlântico


© Adriano Miranda/Público

A associação Eixo Atlântico (constituída por 18 cidades portuguesas e galegas) decidiu criar uma bienal de fotografia. O anúncio foi feito pelo vereador da Cultura da Câmara de Gaia, Mário Dorminsky, autarquia que é a anfitriã da Capital da Cultura do Eixo Atlântico. Ouvido pela agência Lusa, Dorminsky anunciou também a criação de um "Museu da Fotografia do Eixo Atlântico", ainda sem localização e data de inauguração. Criado em 1992 por 18 cidades, nove de cada lado da fronteira, o Eixo Atlântico é uma associação transfronteiriça que reúne 34 municípios, 17 de cada lado da fronteira.

11 julho, 2009

Castro Prieto

© Castro Prieto


Fotografo o que não vivi

Sérgio B. Gomes
(P2, 11.07.2009)

Há quem se dedique a registar pela fotografia o ínfimo acontecimento, a marcha da pequena e da grande história que ficará agarrada a uma linha cronológica, a uma coutada geográfica. É um trabalho (necessidade) de classificação e de arquivo que (ainda) dá à fotografia esse estatuto tão especial de prova do que foi, de como, onde e com quem aconteceu. Diz-se documental esse registo que, com o mínimo de artifícios estilísticos, tenta reproduzir fielmente a realidade.

Há quem nos reproduza parcelas do mundo tal qual ele é - puro e duro. E há quem parta dessa frieza para registos que tocam um mundo mais onírico e fantasmagórico, mais mágico, intemporal - um mundo que contraria e que sujeita a história à poesia. É nesta linguagem fotográfica - muito mais ligada à atmosfera introspectiva do que à fidelidade do acontecimento - que assenta Estraños, a exposição com que o espanhol Juan Manuel Castro Prieto (Madrid, 1958) se apresenta pela primeira vez em Portugal na Kgaleria, em Lisboa.

Para quem construiu um percurso na fotografia sobretudo ligado aos rigores da técnica - Prieto é um dos mais exímios e reputados impressores de fotografia espanhóis com clientes como Chema Madoz, Cristina García Rodero e Alberto Garcia-Alix - não deixa de ser paradoxal que o conjunto de imagens que dão forma a Estraños assente em abordagens difusas, tanto na forma como no conteúdo, que resvala facilmente para a alegoria, para o lirismo literário. Paradoxal, mas também revelador de uma necessidade de enfrentar convenções e de encontrar diferentes maneiras de ver e fazer fotografia. Alejandro Castellote, comissário desta exposição apresentada pela primeira vez em Madrid em 2002, ano em que Prieto ganhou o prémio carreira do festival PhotoEspaña, elogia-lhe a atitude "coerente" em busca de "mundos oníricos a partir do quotidiano" e vê no "fatalismo" com que encara a vida um dos principais motores da sua produção fotográfica. Em resposta a Castellote, no catálogo de Estraños, Castro Prieto resume o resultado dessa procura assim: "Fotografo experiências que não vivi".

© Castro Prieto

10 julho, 2009

Edgar Martins e NYT - desencontros

Uma das imagem publicadas pelo site PDN onde se indentificam partes da fotografia duplicadas


O fotógrafo Edgar Martins está envolvido numa polémica sobre manipulação digital de imagens. As fotografias em causa foram publicadas na última edição da revista dominical do New York Times e no site do jornal que na quarta-feira retirou o portfólio de Edgar Martins.

O fotógrafo aceitou falar com o Público para dar a sua versão do caso. Eis esse texto:

"Sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo”


Ana Machado, com Sérgio B. Gomes


Edgar Martins passou 21 dias a fotografar 19 cidades norte-americanas, a convite da "New York Times Magazine”. O trabalho, com mais de uma centena de fotografias sobre os efeitos da crise económica no país, foi publicado no passado fim-de-semana, em seis fotografias. E retirado na terça-feira depois de um leitor ter identificado nas imagens alterações feitas em computador. Edgar Martins, fotógrafo freelancer português, a viver em Inglaterra, explicou ao PÚBLICO que se trata de um mal-entendido entre o que o jornal queria publicar e aquilo que era a intenção do artista.

Nas fotografias imperam imagens de casas inacabadas, vazio e destruição deixados para trás por famílias e empresas norte-americanas arruinadas pela crise. Mas o que foi detectado por um leitor do Minesotta, programador informático, que confessa nem perceber de fotografia, foi que, em pelo menos um caso, onde se via o interior vazio de uma grande casa em madeira, havia manipulação digital da imagem: um dos lados era literalmente o espelho do outro, uma imagem simétrica só conseguida com recurso a um editor de fotografia, como o conhecido programa Photoshop.

O leitor da denúncia chama-se Adam Gurno e acabaria por ficar famoso depois de ter dado uma entrevista ao blogue “Bloggasm”, de Simon Owens ,a contar a sua descoberta. Daí o caso passou para o site “Photo District News”, especializada em informação sobre fotografia. E partir deste site a discussão alargou-se ainda mais na Internet. Os editores da “New York Times Magazine”, que nunca tinham detectado as alterações nas fotografias, não gostaram de saber destas alterações às imagens, até porque o trabalho tinha sido anunciado como puramente documental. E retiraram a fotogaleria do site da revista: “Soubessem os editores que as fotografias tinham sido manipuladas digitalmente e o trabalho não teria sido publicado. Por isso foi retirado”, pode ler-se numa mensagem deixada no lugar do portfólio.

Edgar Martins, vencedor do prémio BES Photo deste ano responde à polémica: “Já esperava esta discussão, o que não esperava era a forma como aconteceu”, disse ao PÚBLICO. “O problema foi o “New York Times” ter vendido a história como vendeu”, disse, negando a acusação de manipulação. “Sou crítico do fotógrafo como turista, que produz um trabalho factual, recuso ser um mero intermediário, que dá uma visão fragmentária”, acrescenta o autor, referindo que nunca lhe foi dito que o objectivo era uma abordagem factual, apesar de conhecer “as ansiedades da editora” sobre trabalhos conceptuais que permitem todo o tipo de liberdades estilísticas.

“Sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo. Eu não fui para observar, fui para comentar”, admite Edgar Martins que frisa que nunca colocou de lado o uso do computador e que fala de “um desencontro” sobre o modo como cada parte assumiu o ponto de partida para o trabalho.

Edgar Martins reconhece assim que recorreu a um técnico de Photoshop para transmitir intencionalmente a ideia de um mundo paralelo – daí a imagem espelhada que foi detectada. E que isso não se chama manipulação: “Não foi uma alteração para servir a estética. É uma mensagem que eu quero passar da dualidade entre a aspiração e o excesso, a ruína e a decadência”.

O autor, que já falou sobre este assunto com críticos de arte norte-americanos, e que está em negociações para publicar o trabalho integral com uma editora norte-americana, felicita-se sobre a abertura de um debate sobre um assunto que há muito deveria ter sido lançado, sobre o factual e o conceptual na fotografia: “Perguntaram-me se instiguei este debate deliberadamente e eu respondi que não, mas que de certa forma estava à espera dele. E vai prolongar-se. Tenho uma fotografia que mostra um tijolo em cima de uma esponja, que traduz a fragilidade desta situação. Toda a realidade é uma construção”.

08 julho, 2009

Taro + Capa

Gerda Taro, miliciana republicana a treinar numa praia, Arredores de Barcelona, 1936
© ICP

A produção fotográfica de Gerda Taro (Estugarda 1910 - Brunete 1937) foi curta mais intensa, sobretudo o trabalho que desenvolveu no decorrer da Guerra Civil de Espanha, onde partilhou o ofício com Endre Friedman, que ficou para a história como Robert Capa. No ano passado o International Center of Photography de Nova Iorque decidiu organizar a primeira retrospectiva da obra Taro. Mas não sem a companhia de alguns trabalhos de Capa (ou pelo menos de alguns que lhe são atribuídos) que se prestam inevitavelmente à comparação dos diferentes olhares, mas que sobretudo enriquecem os contextos em que as imagens de ambos foram tomadas. Isto sem contar com a dúvida que pesará sempre sobre a verdadeira autoria de muitas das sequências registadas durante o conflito espanhol.
Depois de Londres e Milão, as exposições Gerda Taro: Retrieving History e Robert Capa at Work chegam a Museu Nacional de Arte da Catalunha (MNAC), em Barcelona, onde vão ficar até 27 de Setembro. Na primeira mostra reúne-se todo o espólio atribuído a Taro, inclusivamente 3 fotografias inéditas reveladas na "mala mexicana". Na segunda aparecem seis reportagens de guerra assinadas por Capa, entre as quais três da Guerra Civil espanhola e as imagens míticas do desembarque na Normandia.

Gerda Taro
© ICP

07 julho, 2009

Húmus - mais tempo


© Valter Vinagre

A Fundação D. Luís, instalada no Centro Cultural de Cascais, decidiu prolongar até 26 de Julho a exposição Húmus de Valter Vinagre. Uma boa notícia para quem não conseguiu arranjar tempo para conhecer o mosaico de realidades produzido entre 1988 e 2009 e seleccionado por Alejandre Castellote.

06 julho, 2009

Iturbide

Graciela Iturbide, Epicentro de templos hinduistas, Khajuraho, India, 1998

A fotografia poética e de introspecção da mexicana Graciela Iturbide (Cidade do México, 1942) merece uma grande exposição retrospectiva na Fundación Mapfre, em Madrid. Os pássaros, uma das obsessões de Iturbide, marcam presença, mas também lá estão as paisagens (México, EUA, Índia...) e os objectos encontrados. Muitas das 180 imagens agora apresentadas na capital espanhola nunca tinham sido vistas na Europa. O conjunto reúne trabalhos dos mais de 40 anos de trabalho de Iturbide, um dos nomes fundamentais da fotografia hispano-americana. No ano passado, a fotógrafa mexicana foi reconhecida com um dos prémios mais importantes na fotografia - o prémio The Hasselblad Foundation.

Para além do catálogo, a exposição é acompanhada por um caderno muito completo que pode ser descarregado aqui

Graciela Iturbide, Autorretrato en casa de Trotsky, Coyoacán, México, 2006

Graciela Iturbide
Fundación Mapfre, Madrid
Até 6 de Setembro

05 julho, 2009

=ColecçãoàVista= 23


Federico Patellani (1911-1975), Nazareth, Dezembro de 1946
Colecção Nacional de Fotografia, CNF 1694 © Centro Português de Fotografia

No corpo da realidade

Federico Patellani, um fotógrafo italiano de época, dos rostos e das pessoas do povo, com trabalho ofuscado pelo sucesso de Cartier-Bresson, Robert Frank, Edward Weston ou Paul Strand, ainda assim soube afirmar o que de melhor tem a sua obra. Reuniu imagens que vão desde simples passeios, a retratos de pintores e escritores, passando por tradições e pobreza. Com um estilo centrado na verdade e na vontade de fornecer um documento da realidade circundante, fortemente influenciado pelo estilo da revista Time e o pelo fotojornalismo, Patellani não resiste àquilo que vulgarmente chamamos de “fotografia turística”. É na Nazaré que capta nobres imagens, representadas na Colecção Nacional de Fotografia, de uma gente que lhe oferece tudo o que ele quer desenhar com a luz.
(
texto: CPF)

03 julho, 2009

os momentos


© Nuno Ferreira Santos/Público

Os corninhos jocosos do ministro Manuel Pinho para a bancada do PCP valeram-lhe a demissão. O fotojornalista do Público Nuno Ferreira Santos foi o único a captar o momento fundamental que marcou o debate de ontem sobre o estado da nação. Essa perspicácia e concentração deram-lhe hoje a melhor primeira página do dia e a reprodução da sua imagem em jornais como o El País e o El Mundo. A fotografia do ex-ministro Pinho a brincar às touradas é magnífica e poderosa porque ficará como marca iconográfica de um dos momentos mais hilariantes do Parlamento nos últimos anos. Igualmente extraordinária é a fotografia que Nuno registou de um par de deputados a ver no Público Online a fotografia da polémica quando a sessão na Assembleia ainda decorria e quando ainda não se sabia o futuro do ministro. É uma fotografia que revela bem o aumento da velocidade a que corre a informação e a estranha colisão entre momentos que estávamos habituados a ver em momentos diferentes, ou pelo menos em momentos mais espaçados. São as imagens a empurrar a realidade.

© Nuno Ferreira Santos/Público

29 junho, 2009

Webb+Effendi

© Rena Effendi

O fotógrafo americano Alex Webb é o novo presidente da cooperativa Magnum substituindo Stuart Franklin que estava à frente da agência há três anos. A decisão foi tomada na última reunião da cooperativa levada a cabo em Londres que atribuiu ainda a Cristina García Rodero o estatuto de "membro pleno" e a Allessandra Sanguinetti e Mikhael Subotzky o estatuto de "membro associado". O fotógrafo Chris Anderson permanecerá como "associado" e Jacob Aue Sobol, na Magnum há dois anos, ficará como "nomeado". Segundo o The British Journal of Photography, este ano não houve novos fotógrafos nomeados.
Hoje, ficou também a saber-se que a vencedora do prémio The Young Photographer in the Caucasus é Rena Effendi, do Azerbeijão. O galardão reconhece um trabalho "documental com importância social" na região do Cáucaso.

Alex Webb

=ColecçãoàVista= 22


Gilbert Fastenaekens, Oberhamen (D), 1983
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Nocturno

Enquanto o resto do mundo dorme, o fotógrafo belga Gilbert Fastenaekens conduz as suas excursões para a escuridão. O conceito do não iluminado define o tom dos seus trabalhos. A noite é um momento prolongado de várias horas em que o peso dos minutos e da passagem do tempo é libertado. O ritual desta abordagem e o método sistemático conferem às imagens os elementos de uma contemplação do estado das coisas. Dos seus primeiros ensaios (1980) derivam vislumbres inquietantes do estudo nocturno da paisagem urbana e industrial. Denunciando as virtudes da restrição e dos limites, pontualmente regressa aos lugares fotografados, produzindo imagens sem grande espectacularidade ou emoção, mas marcadas de estabilidade e reflexão. A utilização de tons preto e branco é subtil, a luz difusa e a perspectiva equilibrada e “emoldurada”.
(texto:CPF)

28 junho, 2009

/uma fotografia, um nome\


Daniel Blaufuks, The Passengers, 2001
© Daniel Blaufuks


Cinco estradas de luz definem vias paralelas na noite envolvente. E criam o mundo. Aí, as sombras são, como na vida, incompletas mas pregnantes.

Sabemos que estes homens caminham para um qualquer lugar, com uma certa pressa: estão conscientes da direcção e do porvir, que não vemos. Na imagem, porque os traços luminosos se interrompem, seguem para o interior da noite. É um lugar improvável, porque feito apenas da nossa imaginação e hábitos de aceitação determinista.

Esta imagem de Daniel Blaufuks inclui-se na minha pequena lista de fotografias mágicas. Com ela, para fugir à impressão de síntese, levanto questões do Ser, (quando Ser significava essência e suspensão de mudança e ainda o Ser de hoje, que é só fenómeno, aparição, seja na vida ou na comunicação). Estes homens, no cenário iluminado perseguem, determinados, um objectivo qualquer, vemo-los obstinados e voluntaristas a criar um destino. Não escapa que o fazem com gregarismo, o que não contraria o individualismo tenaz de uma cultura que nasceu, (ao que dizem) livre. O colectivismo é cada vez mais uma questão de marketing e sinalização: a porta de saída assinalada pode explicar o aparente gregarismo.

A aventura do quotidiano é aqui oferecida, em tamanho grande, pelo fotógrafo, é ele que os coloca na galáxia de luz, no caminho de Santiago. Já não lhe cabe o milagre técnico que é a suspensão do movimento, essa suspensão que não lhe retira o acontecer, porque esse reside na nossa imaginação associativa.

Posso lembrar-me daquelas fotografias de intenção psicológica, obtidas nas horas de ponta dos anos cinquenta, mostrando enxames humanos convergindo para estações de transportes urbanos e rarefazendo-se nas outras horas. Explico assim a pressa estatística destes passageiros de Blaufuks. Ou, debitando um olhar antropológico deter-me nos mini-grupos familiares ou não, nos gestos interceptados, no tipo de equipamentos.

Sei que a leitura dependerá em função de cada sujeito e dos seus interesses acumulados.
Se recusar a análise do detalhe, recolho a impressão causada, sincrética e obscura e posso aceitar a ideia gnóstica de iniciação dos escolhidos, atravessando os caminhos de luz para as suas verdadeiras realidades.

A fotografia condensa na sua superfície as nossas pequenas sensações e memórias erráticas. Raras vezes nos diz mais do que já sabemos, porque é assim que negociamos com o real.
Mas um fotógrafo pode propor uma vasta camada de leituras que suscitam a nossa sensibilidade e abrem as gavetas da aprendizagem. Fá-lo acumulando experiências e as dificuldades que a abertura ao mundo necessariamente desencadeia. Saber traduzir, como nesta imagem, a espessura do real e, ao dobá-lo num único acontecer, não conta uma história, ilustra e informa essa dimensão de conhecer que é o homem.

Mas para isso o fotógrafo tem de nos suspender o ritmo, prender este nosso olhar cada vez mais saturado de imagens. O burlesco ou o “apanhado” a que Cartier-Bresson gostava de chamar “momento decisivo”, é um estratagema. Mais difícil é envolver o captado numa perspectiva estética.

Quando a imagem é dolorosamente estética, intraduzível na impressão que a provoca, desnorteando a percepção mas sugerindo sedutoras interpretações, temos uma fotografia mágica. A recepção não é labiríntica, vai-nos entregando, sem intenção, à sua magia.

Tudo isto se desdobra na concentração de cultura e realidade que é “The Passengers”, de Daniel Blaufuks. Um local de passagem pode instaurar um ritual e talvez por isso mesmo prefira a versão alucinante da Gnose: homens comuns, deixando para lá das portas um mundo menor, efectuando a passagem marcada a luz para uma realidade maior.

Maria do Carmo Serén

Daniel Blaufuks vive em Lisboa. Foi distinguido com o Prémio BES Photo em 2007. Mantém uma coerente obra fotográfica e publicada, tendencialmente conceptualista.

confrontar



Dizem que a fotografia é a arte do fúnebre, pelo registo do que já passou, pela memória do tempo ido. A fotografia é o suporte do regresso do morto, mas é também, inevitavelmente, o suporte do confronto, da comparação e da tensão entre diferença e semelhança.


26 junho, 2009

Rodero na Magnum


Cristina García Rodero
(© Nelson Garrido/Público)

Cristina García Rodero tornou-se membro pleno da Magnum. É a primeira fotógrafa espanhola a entrar para a cooperativa fundada em 1947. O processo de admissão começou em 2005 e só ontem o nome da fotógrafa passou a constar de forma definitiva ao lado do de outros membros plenos. Segundo o El País, na terceira e última etapa do processo de admissão, Rodero apresentou um trabalho audiovisual que resume os seus 35 anos de obra. A aprovação dos sócios da cooperativa foi feita por voto secreto.
O trabalho de Cristina García Rodero, que em Outubro celebra 60 anos, gira em torno dos ritos pagãos e religiosos um pouco por todo mundo. No ano passado, a secção oficial do festival PhotoEspaña incluiu uma exposição sua - María Lionza, La Diosa de Los Ojos de Agua.

Cristina García Rodero estudou Pintura na Universidade Complutense de Madrid. Começou a fotografar em 1969 nos meios académicos. Um ano depois decidiu estudar fotografia na escola de Artes Plásticas e Desenho da mesma cidade. Em 1973 começou um trabalho de investigação e recompilação das festas, tradições e rituais pagãos e religiosos em Espanha. A partir de 1989 colaborou com a agência Vu, de Paris. O Getty Center for the History of Art and the Humanities de Santa Mónica comprou, em 1992, cerca de 6000 fotografias relacionadas com religiosidade, cultos, ritos, festivais, tradições e vestuário popular de Espanha. O trabalho sobre o culto a María Lionza começou em 1998. Em 2001, foi seleccionada por Harald Szeeman para participar na Bienal de Veneza. Repetiu a presença na mesma bienal em 2005. Em 2007, tornou-se Fotógrafa Associada da cooperativa de fotógrafos Magnum.

»»Post relacionado
»(
*À conversa com...)

24 junho, 2009

Kodachrome - o fim

National Geographic de Junho de 1985 onde foi reproduzida a fotografia de Steve McCurry captada com diapositivos Kodachrome


O retrato icónico que Steve McCurry captou da afegã Sharbat Gula, em 1984, parece confirmar a descrição que muitos fizeram das cores presentes nas fotografias registadas em rolos Kodachrome - tonalidades “vibrantes, ricas e intensas”. A imagem que correu mundo e que foi capa da National Geographic passará a fazer parte de um memorial muito particular ligado ao suporte com que foi conseguida já que a Eastman Kodak Company anunciou anteontem que deixará de produzir este tipo de película, 74 anos após ter sido colocada à venda.


Aquele que era o mais antigo rolo a cores do mercado – celebrado também na música por Paul Simon numa canção de 1973 cujo refrão pedia: “Mamã não me tires o Kodachrome” - tinha um processo de fabrico complexo e uma revelação igualmente complicada (em Portugal nunca houve laboratórios a fazê-lo). Nos últimos anos, o aparecimento de rolos com resultados a nível da cor semelhantes e menos dispendiosos, bem como a massificação do suporte digital (o próprio Steve McCurry fotografa preferencialmente em digital) fizeram com que as vendas significassem uma pequena parcela do um por cento de receita que a Kodak tem com as películas. As exigências técnicas da revelação dos Kodachrome transformaram-se também num obstáculo ao ponto de hoje existir apenas um laboratório no mundo (Dwayne`s Photo, Kansas, EUA) capaz de dar vida a este tipo de imagens. A empresa estima que os stocks de diapositivos Kodachrome deverão terminar no início do Outono. Por seu lado, o Dwayne`s Photo anunciou que só revelará os filmes até afinal de 2010. Steve McCurry terá o privilégio de usar os últimos rolos e as fotografias que deles saírem serão entregues ao museu Eastman House, em Rochester (EUA).


Perante um cenário em que os rolos eram utilizados por um grupo muito restrito de fotógrafos, a empresa americana não precisou de pedir à mãe de ninguém para acabar com o Kodachrome. Ela própria tirou-o do mercado.


»»O blogue da Kodak apresenta depoimentos de Steve McCurry e de outros fotógrafos que usaram rolos Kodachrome. aqui

»»Paul Simon cantou Kodachrome assim:

When I think back on all the crap Ive learned in highschool
Its a wonder I can think at all
Though my lack of education hasnt hurt me much
I can read the writings on the walls

Kodachrome, they give us those nice bright colours
They give us the greens of summers
Makes you think all the worlds a sunny day, oh yeah
I got a nikon camera, I love to take a photograph
So mama dont take my kodachrome away

If you took all the girls I knew when I was single
Brought em all together for one night
I know theyd never match my sweet imagination
Everything looks better in black and white

Mama dont take my kodachrome away, mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome away

Mama dont take my kodachrome, mama dont take my kodachrome
Mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome and leave your boy so far from home
Mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome, whew whew, mama dont take my kodachrome away


Kodachrome, 1973

verão

Raymond Meeks, summer 2002, Montana
© Raymond Meeks

O Verão começou e a galeria parisiense Camera Obscura promete Um Verão de Fotografias com imagens de Montana (Raymond Meeks), da Sicília (Patrick Taberna), da Crimeia (Claudine Doury), da Provença (Willy Ronis), de Chicago (Yasuhiro Ishimoto), da Alemanha (Ingar Krauss), do Japão (Shoji Ueda), de Paris (Sarah Moon)...

Un été de photographies, vários autores
Galeria Camera Obscura, Boulevard Raspail, 268, Paris
Até 1 de Agosto

23 junho, 2009

Kodachrome - fim


© AFP


A Kodak anunciou o fim da produção dos filmes Kodachrome.
O comunicado da empresa está aqui

Ros


Soldados legionários praticam desporto no quartel Dar Riffien, com Ceuta ao fundo (c. 1930)
Cortesia Archivo Familia Ros Amador


Bartolomé Ros
O fotógrafo que não queria ser artista

Quando, no começo dos anos 20, Bartolomé Ros (Cartagena, 1906 – Madrid, 1974) decidiu levar para Espanha a marca de produtos de fotografia Agfa nem sequer tinha idade legal para assinar um contrato. E por isso teve de ser o pai, Prudencio Ros, a rubricar o documento que lhe dava a exclusidade de comercialização de uma das mais promissoras marcas de fotografia da época. A dinâmica precoce e uma predisposição natural para os negócios (em torno da fotografia, mas não só) são marcas fundamentais do percurso deste fotógrafo singular que registou alguns dos mais conturbados períodos da história de Espanha do século XX.

Na altura em que a família de Ros se mudou para Ceuta, em 1918, Bartolomé começou a aprender os rudimentos da prática fotográfica e com apenas 15 anos publica uma imagem na revista Mundo Gráfico, feito que lhe abriu o caminho para ficar como correspondente de outras publicações nacionais espanholas, entre as quais o jornal ABC e a revista Blanco y Negro, e para ser convidado pela revista National Geographic a publicar uma reportagem sobre Espanha, em conjunto com o fotojornalista Ángel Rubio.

Até meados dos anos 50, Bartolomé Ros foi um fotógrafo atento e perspicaz no registo da vida quotidiana de Ceuta que misturava dois universos culturais diferentes. Mas foi sobretudo um cronista gráfico privilegiado das intensas movimentações da presença militar espanhola naquele protectorado. A exposição Bartolomé Ros. Frontera de África, que faz parte da Secção Oficial do festival PhotoEspaña, mostra de forma exemplar estes dois mundos em torno dos quais rodava a sua produção fotográfica. Entre imagens de homens fardados, quartéis e armas surgem também retratos da burguesia e da vida nas ruas de Ceuta e de vizinhas cidades marroquinas, como Tânger e Tetuán. O comissário Alejandro Castellote aponta no catálogo da mostra a “responsabilidade documental” e a “depurada personalidade” que atravessam a obra de Ros. “Ele artista não queria ser”, disse Castellote na apresentação do conjunto de 120 fotografias que se apresenta no Museu de Arte Contemporânea de Madrid.

Apesar de ter colaborado durante anos com a publicação mensal África, Revista de Tropas Coloniales, fundada em 1926 pelos militares que anos mais tarde estariam na origem do golpe que desencadeou a Guerra Civil Espanhola, grupo de ideólogos que contava já com o ditador Francisco Franco, as imagens de Ros estão mais próximas da “verosimilhança” (que descreve e documenta) do que da “narrativa épica” fascista, defende Alejandro Castellote que classifica o fotógrafo como “um homem de convicções liberais”.

A imagem em que Franco aparece abraçado a Millán Astray no momento da passagem de testemunho da Legião para este último é uma das sua fotografias mais conhecidas e reproduzidas. Para Castellote, esta proximidade com o ambiente militar onde vigoravam estas figuras de nostálgicos do império fez com Ros se fosse afastando cada vez mais da fotografia."O seu compromisso pessoal limitava-se aos laços afectivos com cidade onde cresceu como pessoa e como empresário; as veleidades golpistas dos militares não contavam com a sua cumplicidade ideológica", escreve o comissário no catálogo da mostra.

Algo semelhante ao estilo de Joshua Benoliel, que este ano também marca presença no festival, Bartolomé Ros tentou passar despercebido na História que ia acontecendo à sua volta. Um pouco também à imagem de Benoliel que fez questão de verbalizar a sua neutralidade enquanto fotógrafo quando lhe perguntaram: “ - Ó velhinho! Mas afinal, você é monárquico ou republicano? – Homem, eu cá sou fotógrafo!”.

22 junho, 2009

prémios PHE09

Soireé
©
Malick Sidibé, cortesia Galería Oliva Arauna


Malick Sidibé foi reconhecido com o prémio PHotoEspaña Baume & Mercier 2009, dotado de 12 mil euros. A organizaçãodo festival fala de um "excepcional de retratista" e de uma "sensibilidade e personalidade" particulares.
O prémio Bartolomé Ros para a melhor trajectória na fotografia espanhola foi atribuído a Isabel Muñoz. A galeria Magee Art Gallery conquistou o prémio Festival Off Saab pela exposição Accidentes, de Jin Shi. O prémio Público M2-El Mundo foi atribuído ao Instituto Cervantes pela exposição Resiliencia, organizada por esta instituição, pela Agencia de Cooperación Internacional para el Desarrollo e pelo PHotoEspaña.
Simona Ghizzoni venceu o prémio PHotoEspaña OjodePez Volkswagen de Valores Humanos com o trabalho Odd days. E, finalmente, o prémio para melhor livro de fotografia do ano, categoria nacional, foi atribuído a uma obra com imagens de Paul Strand (En el Principio fue Manhattan) e ditado pela Fundación Barrié de la Maza. Na categoria internacional, venceu Wegee, The Famous (M+M Auer). A Errata Editions foi reconhecida como a melhor editora de livros de fotografia do ano.

Malick Sidibé
© PhotoEspaña

=ColecçãoàVista= 21


Carlos Relvas (1838-1994) Golegã, O atelier Relvas, 1885
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Carlos Relvas

Foi um dos pioneiros da fotografia em Portugal. Homem de inúmeros talentos, Carlos Relvas era muito respeitado, especialmente na sua terra natal, a Golegã. Além de ser um fotógrafo de excepção, destacou-se como toureiro e esgrimista. Como gestor agrícola foi responsável pela introdução de técnicas inovadoras. Tinha um carácter bondoso, o que o tornava especialmente estimado pelos pobres - uma espécie de amigo do mundo. A fotografia foi a sua grande paixão. Produziu imagens de grande qualidade artística e recebeu vários prémios resultantes de exposições na Europa e nos Estados Unidos. Depois de comprar o melhor equipamento então existente, mandou construir de raiz na Golegã, ao lado do Palácio Relvas, o primeiro atelier fotográfico do país. A actual Casa-Museu Carlos Relvas constitui uma preciosa jóia da arquitectura.
(texto:CPF)

Prémio Visão/BES - pausa

01h27, 18.02.2007
© Augusto Brázio


No dia em que abriu a exposição que mostra em Lisboa as imagens reconhecidas pelo World Press Photo, a organização do prémio Visão/BES de fotojornalismo anunciou que este ano não se realizará aquele que era o principal concurso deste género em Portugal. A razão apontada é a falta de apoio do principal patrocinador, o Banco Espírito Santo. Fonte da revista Visão disse à agência Lusa que este ano de pausa servirá para "repensar o concurso" e prometeu regressar para o próximo ano.
O prémio principal da edição do ano passado, à qual concorreram 227 fotógrafos, foi conquistado por Augusto Brázio, fotógrafo do colectivo [kameraphoto]. A imagem que convenceu o júri mostra uma rapariga de 19 anos e o seu terceiro filho acabado de nascer.

19 junho, 2009

WPP09

Sung Nam-Hun para a Photonet, Noviça de uma seita esotérica ligada ao budismo tibetano
© Sung Nam-Hun


Abre amanhã ao público no Museu da Electricidade, em Lisboa, a tradicional exposição das imagens distinguidas na última edição do prémio World Press Photo.

Para ver entrevistas com alguns dos fotógrafos vencedores clique aqui

World Press Photo 09
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 19 de Julho

 
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