29 junho, 2009
Webb+Effendi
O fotógrafo americano Alex Webb é o novo presidente da cooperativa Magnum substituindo Stuart Franklin que estava à frente da agência há três anos. A decisão foi tomada na última reunião da cooperativa levada a cabo em Londres que atribuiu ainda a Cristina García Rodero o estatuto de "membro pleno" e a Allessandra Sanguinetti e Mikhael Subotzky o estatuto de "membro associado". O fotógrafo Chris Anderson permanecerá como "associado" e Jacob Aue Sobol, na Magnum há dois anos, ficará como "nomeado". Segundo o The British Journal of Photography, este ano não houve novos fotógrafos nomeados.
Hoje, ficou também a saber-se que a vencedora do prémio The Young Photographer in the Caucasus é Rena Effendi, do Azerbeijão. O galardão reconhece um trabalho "documental com importância social" na região do Cáucaso.
=ColecçãoàVista= 22
Gilbert Fastenaekens, Oberhamen (D), 1983Nocturno
Enquanto o resto do mundo dorme, o fotógrafo belga Gilbert Fastenaekens conduz as suas excursões para a escuridão. O conceito do não iluminado define o tom dos seus trabalhos. A noite é um momento prolongado de várias horas em que o peso dos minutos e da passagem do tempo é libertado. O ritual desta abordagem e o método sistemático conferem às imagens os elementos de uma contemplação do estado das coisas. Dos seus primeiros ensaios (1980) derivam vislumbres inquietantes do estudo nocturno da paisagem urbana e industrial. Denunciando as virtudes da restrição e dos limites, pontualmente regressa aos lugares fotografados, produzindo imagens sem grande espectacularidade ou emoção, mas marcadas de estabilidade e reflexão. A utilização de tons preto e branco é subtil, a luz difusa e a perspectiva equilibrada e “emoldurada”.
(texto:CPF)
28 junho, 2009
/uma fotografia, um nome\
Sabemos que estes homens caminham para um qualquer lugar, com uma certa pressa: estão conscientes da direcção e do porvir, que não vemos. Na imagem, porque os traços luminosos se interrompem, seguem para o interior da noite. É um lugar improvável, porque feito apenas da nossa imaginação e hábitos de aceitação determinista.
Esta imagem de Daniel Blaufuks inclui-se na minha pequena lista de fotografias mágicas. Com ela, para fugir à impressão de síntese, levanto questões do Ser, (quando Ser significava essência e suspensão de mudança e ainda o Ser de hoje, que é só fenómeno, aparição, seja na vida ou na comunicação). Estes homens, no cenário iluminado perseguem, determinados, um objectivo qualquer, vemo-los obstinados e voluntaristas a criar um destino. Não escapa que o fazem com gregarismo, o que não contraria o individualismo tenaz de uma cultura que nasceu, (ao que dizem) livre. O colectivismo é cada vez mais uma questão de marketing e sinalização: a porta de saída assinalada pode explicar o aparente gregarismo.
A aventura do quotidiano é aqui oferecida, em tamanho grande, pelo fotógrafo, é ele que os coloca na galáxia de luz, no caminho de Santiago. Já não lhe cabe o milagre técnico que é a suspensão do movimento, essa suspensão que não lhe retira o acontecer, porque esse reside na nossa imaginação associativa.
Posso lembrar-me daquelas fotografias de intenção psicológica, obtidas nas horas de ponta dos anos cinquenta, mostrando enxames humanos convergindo para estações de transportes urbanos e rarefazendo-se nas outras horas. Explico assim a pressa estatística destes passageiros de Blaufuks. Ou, debitando um olhar antropológico deter-me nos mini-grupos familiares ou não, nos gestos interceptados, no tipo de equipamentos.
Sei que a leitura dependerá em função de cada sujeito e dos seus interesses acumulados.
Se recusar a análise do detalhe, recolho a impressão causada, sincrética e obscura e posso aceitar a ideia gnóstica de iniciação dos escolhidos, atravessando os caminhos de luz para as suas verdadeiras realidades.
A fotografia condensa na sua superfície as nossas pequenas sensações e memórias erráticas. Raras vezes nos diz mais do que já sabemos, porque é assim que negociamos com o real.
Mas um fotógrafo pode propor uma vasta camada de leituras que suscitam a nossa sensibilidade e abrem as gavetas da aprendizagem. Fá-lo acumulando experiências e as dificuldades que a abertura ao mundo necessariamente desencadeia. Saber traduzir, como nesta imagem, a espessura do real e, ao dobá-lo num único acontecer, não conta uma história, ilustra e informa essa dimensão de conhecer que é o homem.
Mas para isso o fotógrafo tem de nos suspender o ritmo, prender este nosso olhar cada vez mais saturado de imagens. O burlesco ou o “apanhado” a que Cartier-Bresson gostava de chamar “momento decisivo”, é um estratagema. Mais difícil é envolver o captado numa perspectiva estética.
Quando a imagem é dolorosamente estética, intraduzível na impressão que a provoca, desnorteando a percepção mas sugerindo sedutoras interpretações, temos uma fotografia mágica. A recepção não é labiríntica, vai-nos entregando, sem intenção, à sua magia.
Tudo isto se desdobra na concentração de cultura e realidade que é “The Passengers”, de Daniel Blaufuks. Um local de passagem pode instaurar um ritual e talvez por isso mesmo prefira a versão alucinante da Gnose: homens comuns, deixando para lá das portas um mundo menor, efectuando a passagem marcada a luz para uma realidade maior.
Maria do Carmo Serén
Daniel Blaufuks vive em Lisboa. Foi distinguido com o Prémio BES Photo em 2007. Mantém uma coerente obra fotográfica e publicada, tendencialmente conceptualista.
confrontar
26 junho, 2009
Rodero na Magnum
Cristina García Rodero tornou-se membro pleno da Magnum. É a primeira fotógrafa espanhola a entrar para a cooperativa fundada em 1947. O processo de admissão começou em 2005 e só ontem o nome da fotógrafa passou a constar de forma definitiva ao lado do de outros membros plenos. Segundo o El País, na terceira e última etapa do processo de admissão, Rodero apresentou um trabalho audiovisual que resume os seus 35 anos de obra. A aprovação dos sócios da cooperativa foi feita por voto secreto.
O trabalho de Cristina García Rodero, que em Outubro celebra 60 anos, gira em torno dos ritos pagãos e religiosos um pouco por todo mundo. No ano passado, a secção oficial do festival PhotoEspaña incluiu uma exposição sua - María Lionza, La Diosa de Los Ojos de Agua.
Cristina García Rodero estudou Pintura na Universidade Complutense de Madrid. Começou a fotografar em 1969 nos meios académicos. Um ano depois decidiu estudar fotografia na escola de Artes Plásticas e Desenho da mesma cidade. Em 1973 começou um trabalho de investigação e recompilação das festas, tradições e rituais pagãos e religiosos em Espanha. A partir de 1989 colaborou com a agência Vu, de Paris. O Getty Center for the History of Art and the Humanities de Santa Mónica comprou, em 1992, cerca de 6000 fotografias relacionadas com religiosidade, cultos, ritos, festivais, tradições e vestuário popular de Espanha. O trabalho sobre o culto a María Lionza começou em 1998. Em 2001, foi seleccionada por Harald Szeeman para participar na Bienal de Veneza. Repetiu a presença na mesma bienal em 2005. Em 2007, tornou-se Fotógrafa Associada da cooperativa de fotógrafos Magnum.
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24 junho, 2009
Kodachrome - o fim
National Geographic de Junho de 1985 onde foi reproduzida a fotografia de Steve McCurry captada com diapositivos Kodachrome O retrato icónico que Steve McCurry captou da afegã Sharbat Gula, em 1984, parece confirmar a descrição que muitos fizeram das cores presentes nas fotografias registadas em rolos Kodachrome - tonalidades “vibrantes, ricas e intensas”. A imagem que correu mundo e que foi capa da National Geographic passará a fazer parte de um memorial muito particular ligado ao suporte com que foi conseguida já que a Eastman Kodak Company anunciou anteontem que deixará de produzir este tipo de película, 74 anos após ter sido colocada à venda.
Aquele que era o mais antigo rolo a cores do mercado – celebrado também na música por Paul Simon numa canção de 1973 cujo refrão pedia: “Mamã não me tires o Kodachrome” - tinha um processo de fabrico complexo e uma revelação igualmente complicada (em Portugal nunca houve laboratórios a fazê-lo). Nos últimos anos, o aparecimento de rolos com resultados a nível da cor semelhantes e menos dispendiosos, bem como a massificação do suporte digital (o próprio Steve McCurry fotografa preferencialmente em digital) fizeram com que as vendas significassem uma pequena parcela do um por cento de receita que a Kodak tem com as películas. As exigências técnicas da revelação dos Kodachrome transformaram-se também num obstáculo ao ponto de hoje existir apenas um laboratório no mundo (Dwayne`s Photo, Kansas, EUA) capaz de dar vida a este tipo de imagens. A empresa estima que os stocks de diapositivos Kodachrome deverão terminar no início do Outono. Por seu lado, o Dwayne`s Photo anunciou que só revelará os filmes até afinal de 2010. Steve McCurry terá o privilégio de usar os últimos rolos e as fotografias que deles saírem serão entregues ao museu Eastman House, em Rochester (EUA).
Perante um cenário em que os rolos eram utilizados por um grupo muito restrito de fotógrafos, a empresa americana não precisou de pedir à mãe de ninguém para acabar com o Kodachrome. Ela própria tirou-o do mercado.
»»O blogue da Kodak apresenta depoimentos de Steve McCurry e de outros fotógrafos que usaram rolos Kodachrome. aqui
»»Paul Simon cantou Kodachrome assim:
When I think back on all the crap Ive learned in highschool
Its a wonder I can think at all
Though my lack of education hasnt hurt me much
I can read the writings on the walls
Kodachrome, they give us those nice bright colours
They give us the greens of summers
Makes you think all the worlds a sunny day, oh yeah
I got a nikon camera, I love to take a photograph
So mama dont take my kodachrome away
If you took all the girls I knew when I was single
Brought em all together for one night
I know theyd never match my sweet imagination
Everything looks better in black and white
Mama dont take my kodachrome away, mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome, mama dont take my kodachrome
Mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome and leave your boy so far from home
Mama dont take my kodachrome away
Mama dont take my kodachrome, whew whew, mama dont take my kodachrome away
Kodachrome, 1973
verão
O Verão começou e a galeria parisiense Camera Obscura promete Um Verão de Fotografias com imagens de Montana (Raymond Meeks), da Sicília (Patrick Taberna), da Crimeia (Claudine Doury), da Provença (Willy Ronis), de Chicago (Yasuhiro Ishimoto), da Alemanha (Ingar Krauss), do Japão (Shoji Ueda), de Paris (Sarah Moon)...
Un été de photographies, vários autores
Galeria Camera Obscura, Boulevard Raspail, 268, Paris
Até 1 de Agosto
23 junho, 2009
Ros
Soldados legionários praticam desporto no quartel Dar Riffien, com Ceuta ao fundo (c. 1930)Cortesia Archivo Familia Ros Amador
Bartolomé Ros
O fotógrafo que não queria ser artista
Quando, no começo dos anos 20, Bartolomé Ros (Cartagena, 1906 – Madrid, 1974) decidiu levar para Espanha a marca de produtos de fotografia Agfa nem sequer tinha idade legal para assinar um contrato. E por isso teve de ser o pai, Prudencio Ros, a rubricar o documento que lhe dava a exclusidade de comercialização de uma das mais promissoras marcas de fotografia da época. A dinâmica precoce e uma predisposição natural para os negócios (em torno da fotografia, mas não só) são marcas fundamentais do percurso deste fotógrafo singular que registou alguns dos mais conturbados períodos da história de Espanha do século XX.
Na altura em que a família de Ros se mudou para Ceuta, em 1918, Bartolomé começou a aprender os rudimentos da prática fotográfica e com apenas 15 anos publica uma imagem na revista Mundo Gráfico, feito que lhe abriu o caminho para ficar como correspondente de outras publicações nacionais espanholas, entre as quais o jornal ABC e a revista Blanco y Negro, e para ser convidado pela revista National Geographic a publicar uma reportagem sobre Espanha, em conjunto com o fotojornalista Ángel Rubio.
Até meados dos anos 50, Bartolomé Ros foi um fotógrafo atento e perspicaz no registo da vida quotidiana de Ceuta que misturava dois universos culturais diferentes. Mas foi sobretudo um cronista gráfico privilegiado das intensas movimentações da presença militar espanhola naquele protectorado. A exposição Bartolomé Ros. Frontera de África, que faz parte da Secção Oficial do festival PhotoEspaña, mostra de forma exemplar estes dois mundos em torno dos quais rodava a sua produção fotográfica. Entre imagens de homens fardados, quartéis e armas surgem também retratos da burguesia e da vida nas ruas de Ceuta e de vizinhas cidades marroquinas, como Tânger e Tetuán. O comissário Alejandro Castellote aponta no catálogo da mostra a “responsabilidade documental” e a “depurada personalidade” que atravessam a obra de Ros. “Ele artista não queria ser”, disse Castellote na apresentação do conjunto de 120 fotografias que se apresenta no Museu de Arte Contemporânea de Madrid.
Apesar de ter colaborado durante anos com a publicação mensal África, Revista de Tropas Coloniales, fundada em 1926 pelos militares que anos mais tarde estariam na origem do golpe que desencadeou a Guerra Civil Espanhola, grupo de ideólogos que contava já com o ditador Francisco Franco, as imagens de Ros estão mais próximas da “verosimilhança” (que descreve e documenta) do que da “narrativa épica” fascista, defende Alejandro Castellote que classifica o fotógrafo como “um homem de convicções liberais”.
A imagem em que Franco aparece abraçado a Millán Astray no momento da passagem de testemunho da Legião para este último é uma das sua fotografias mais conhecidas e reproduzidas. Para Castellote, esta proximidade com o ambiente militar onde vigoravam estas figuras de nostálgicos do império fez com Ros se fosse afastando cada vez mais da fotografia."O seu compromisso pessoal limitava-se aos laços afectivos com cidade onde cresceu como pessoa e como empresário; as veleidades golpistas dos militares não contavam com a sua cumplicidade ideológica", escreve o comissário no catálogo da mostra.
Algo semelhante ao estilo de Joshua Benoliel, que este ano também marca presença no festival, Bartolomé Ros tentou passar despercebido na História que ia acontecendo à sua volta. Um pouco também à imagem de Benoliel que fez questão de verbalizar a sua neutralidade enquanto fotógrafo quando lhe perguntaram: “ - Ó velhinho! Mas afinal, você é monárquico ou republicano? – Homem, eu cá sou fotógrafo!”.
22 junho, 2009
prémios PHE09
Malick Sidibé foi reconhecido com o prémio PHotoEspaña Baume & Mercier 2009, dotado de 12 mil euros. A organizaçãodo festival fala de um "excepcional de retratista" e de uma "sensibilidade e personalidade" particulares.
O prémio Bartolomé Ros para a melhor trajectória na fotografia espanhola foi atribuído a Isabel Muñoz. A galeria Magee Art Gallery conquistou o prémio Festival Off Saab pela exposição Accidentes, de Jin Shi. O prémio Público M2-El Mundo foi atribuído ao Instituto Cervantes pela exposição Resiliencia, organizada por esta instituição, pela Agencia de Cooperación Internacional para el Desarrollo e pelo PHotoEspaña.
Simona Ghizzoni venceu o prémio PHotoEspaña OjodePez Volkswagen de Valores Humanos com o trabalho Odd days. E, finalmente, o prémio para melhor livro de fotografia do ano, categoria nacional, foi atribuído a uma obra com imagens de Paul Strand (En el Principio fue Manhattan) e ditado pela Fundación Barrié de la Maza. Na categoria internacional, venceu Wegee, The Famous (M+M Auer). A Errata Editions foi reconhecida como a melhor editora de livros de fotografia do ano.
=ColecçãoàVista= 21
Carlos Relvas (1838-1994) Golegã, O atelier Relvas, 1885Carlos Relvas
Foi um dos pioneiros da fotografia em Portugal. Homem de inúmeros talentos, Carlos Relvas era muito respeitado, especialmente na sua terra natal, a Golegã. Além de ser um fotógrafo de excepção, destacou-se como toureiro e esgrimista. Como gestor agrícola foi responsável pela introdução de técnicas inovadoras. Tinha um carácter bondoso, o que o tornava especialmente estimado pelos pobres - uma espécie de amigo do mundo. A fotografia foi a sua grande paixão. Produziu imagens de grande qualidade artística e recebeu vários prémios resultantes de exposições na Europa e nos Estados Unidos. Depois de comprar o melhor equipamento então existente, mandou construir de raiz na Golegã, ao lado do Palácio Relvas, o primeiro atelier fotográfico do país. A actual Casa-Museu Carlos Relvas constitui uma preciosa jóia da arquitectura.
(texto:CPF)
Prémio Visão/BES - pausa
No dia em que abriu a exposição que mostra em Lisboa as imagens reconhecidas pelo World Press Photo, a organização do prémio Visão/BES de fotojornalismo anunciou que este ano não se realizará aquele que era o principal concurso deste género em Portugal. A razão apontada é a falta de apoio do principal patrocinador, o Banco Espírito Santo. Fonte da revista Visão disse à agência Lusa que este ano de pausa servirá para "repensar o concurso" e prometeu regressar para o próximo ano.
O prémio principal da edição do ano passado, à qual concorreram 227 fotógrafos, foi conquistado por Augusto Brázio, fotógrafo do colectivo [kameraphoto]. A imagem que convenceu o júri mostra uma rapariga de 19 anos e o seu terceiro filho acabado de nascer.
19 junho, 2009
WPP09
Sung Nam-Hun para a Photonet, Noviça de uma seita esotérica ligada ao budismo tibetano
© Sung Nam-Hun
Abre amanhã ao público no Museu da Electricidade, em Lisboa, a tradicional exposição das imagens distinguidas na última edição do prémio World Press Photo.
Para ver entrevistas com alguns dos fotógrafos vencedores clique aqui
World Press Photo 09
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 19 de Julho
18 junho, 2009
Estranhos
Aguardo com expectativa a exposição Estranhos de Juan Manuel Castro Prieto na [Kgaleria]. Maravilhei-me muito recentemente em Madrid com Etiopía, retrato pleno, sensível e pungente do mosaico que é este velho país dos "caras queimadas".
Eis a apresentação da mostra feita pelo comissário:
“Estranhos é um magnífico exemplo da coerência que Juan Manuel Castro Prieto construiu entre 1983 e 2007. Trata-se de um período de marcado carácter intimista, fundamental no processo de amadurecimento de uma obra poliédrica que explora a memória com base nos vestígios latentes que habitam os seus espaços pessoais e familiares. Castro Prieto cria cenários oníricos a partir da vida quotidiana, denotando uma relação de profunda intimidade com a literatura. Nesta exposição torna-se visível o fio condutor que atravessa toda a sua obra. Assim, o sexo e a morte coexistem nalgumas das suas imagens como uma dualidade que evidencia um certo fatalismo na sua relação com a vida, e são também uma reivindicação lúdica da existência. Por fim, através da infância, o autor mergulha nesse território ambíguo que é o trânsito para a adolescência: um tempo de abstracção e de primeiras introspecções.”
Alejandro Castellote
Estranhos, de Juan Manuel Castro Prieto
[Kgaleria], Rua da Vinha 43A – Bairro Alto, Lisboa
De qua. a Sáb das 15h às 20h (excepto feriados)
De 2 a 31 de Julho
17 junho, 2009
lembrar Ricardo Rangel
João Bafo 1949-2009
“João Bafo recomenda: «Jean Mohr é um fotógrafo suíço desde sempre dedicado a fotografar causas humanitárias e a fazer parcerias com escritores e sociólogos, especialmente com Berger, a "escreverem" – com a tinta e a luz – livros dos quais destaco Ways of Seeing, que por acaso me influenciou bastante e ajudou a não me tresmalhar apenas nos bonecos fáceis para a imprensa (que também os fiz, mas à coté a fazer outro género de fotografia, embora documental, mas mais analítica e a fugir a sete pés da "propaganda"). – jbafo»”
“entre aspas”
15 junho, 2009
Descubrimientos PHE09
Litorais
Antes de tudo Litorais diz-nos o que conhecemos: esses espaços que a distância transforma, que associamos a outras imagens e lugares, espaços que tocam o horizonte próximo, que mal vemos e que, na maior parte das vezes, se escondem do nosso percurso diário.
Estas imagens, neste litoral imenso que é Espinho, falam-nos, de distâncias, de interferências que a fotografia reduz. As distâncias são dadas pelo corpo e é pelo corpo que Danilo Pavone as insinua: o espaço sente-se mais do que se vê, é medido pela nosso lugar, pela intuição do movimento; é sentido pelos contrastes, pela descoberta de descontinuidades: as rochas que tocam o céu, as figuras que volteiam num bailado interrompido de formas num lugar que identificamos mas que é também um espaço imponderável, fora do tempo. Porque o tempo do olhar é fugidio, breve.
E aqui, inventamos caminhos, suspensões, aconteceres: a paisagem pode agitar-nos, suspender a análise, garantir-nos a irrealidade do mundo e das suas promessas. O espaço é também o porvir, o além.
E então a paisagem, mesmo um Sol que morre ao fim do dia ou uma tempestade que se anuncia deixa de ser o fundo de uma representação, o tema de uma imagem. Abre o confronto entre a falta e o que temos, entre o labirinto das sensações e a ordem do entendimento.
A paisagem é, sempre, a janela privada sobre o mundo.
E é bem provável que tudo isto exista, que o mundo possa ser enquadrado num detalhe e abrir um caminho de luz ao nosso sentimento de finitude.
Da realidade que conhecemos o fotógrafo escolhe apenas o que quer ver, o que abre e fecha com o seu estilo, o visível e o invisível.
E o mistério impossível que nos mostra é mais verdadeiro que o real.
Maria do Carmo Serén
14 junho, 2009
Ricardo Rangel 1924-2009
Ricardo Rangel morreu sem dar por ela, pela morte. Faleceu na quinta-feira enquanto dormia um dos principais dinamizadores da fotografia em Moçambique. Rangel participou em dezenas de exposições em vários países e foi condecorado com o grau de Oficial das Artes e Letras pelo governo francês. Deu os primeiros passos na fotografia aos 17 anos, com trabalho de laboratório. Começou a fazer fotojornalismo no Lourenço Marques Guardian e depois passou pelo Notícias da Tarde, onde se tornou o primeiro fotojornalista não branco. Durante a década de 60 foi editor do jornal A Tribuna e trabalhou em vários títulos, entre os quais Diário de Moçambique e Voz Africana. Na década seguinte fundou a revista Tempo, pioneira no uso da cor em Moçambique. Depois da independência, foi editor de fotografia do Notícias e depois do semanário Domingo. Em 1981, esteve na origem da Associação Moçambicana de Fotografia e em 1984 criou o Centro de Formação de Fotografia, responsável pela formação de gerações de fotógrafos moçambicanos.
No ano passado, o realizador brasileiro radicado em Moçambique Licínio de Azevedo dedicou-lhe um filme biográfico, "Ricardo Rangel, Ferro em Brasa", e em 2001, o MoMA de Nova Iorque dedicou-lhe um retrospectiva. Em 2004, o espaço da Culturgest, no Porto, recebeu a exposição “Iluminando vidas, Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana", onde o trabalho do mestre servia como farol para a geração de fotógrafos que ajudou a formar, tais como José Costa, Alexandre Fenías, Naita Ussene e João Costa.
(dados factuais sobre Ricardo Rangel: Agência Lusa)
O site da Afronova tem uma boa lista com as principais exposições de Ricardo Rangel, aqui
Para saber mais sobre a exposição Iluminando Vidas clique aqui
13 junho, 2009
Printed Matter
Parece muito interessante a exposição Printed Matter patente no Fotomuseum Winterthur sobre vários tipos de suportes impressos a partir da fotografia. Para quem não conseguir passar por Zurique até Outubro, pode sempre comprar uma brochura com edição de Thomas Seelig, comissário da mostra, e textos de Florian Ebner e de vários artistas aqui.
Mais informações aqui
Sensation
Já lhe perguntaram se tinha feito estas imagens em Lisboa e não fez, mas podia: o que ele viu no Sul da América do Sul não pertence mais a esse continente do que aos outros. "São fotografias que falam mais de mim do que sobre a viagem de três meses que fiz entre Buenos Aires e o Peru, passando pela Patagónia e Ushuaia e depois subindo o Chile até ao deserto de Atacama. Podiam ter sido feitas na Europa, podiam ter sido feitas em qualquer sítio", diz Guillaume Pazat a propósito da sua primeira exposição individual, que fica até dia 20 na [Kgaleria], em Lisboa. A América do Sul é a circunstância, não é a substância das imagens agora reunidas em Sensation: "O facto de terem sido feitas na América do Sul é casual. O facto de terem sido feitas em viagem não é casual. Estas fotografias só podiam ter sido tiradas longe de tudo. Nesses três meses tive tempo para estar comigo. Esta exposição é o relato de uma viagem interior."
10 junho, 2009
PHE09
PhotoEspaña
Isto hoje anda tudo misturado
(P2, Público, 10.06.2009)
Um festival de fotografia com 259 autores de mais de 40 nacionalidades não é só uma Torre de Babel da língua - é uma Torre de Babel da imagem, um extenso mosaico onde o mais difícil é alguém não encontrar uma exposição com que se identifique. Com a Secção Oficial novamente a cargo do português Sérgio Mah, o PhotoEspaña afirma-se a cada ano como um dos mais importantes e multifacetados encontros em torno da imagem fotográfica, para onde se consegue levar trabalhos fundamentais da história da fotografia e onde se tenta traçar os caminhos que seguem novas propostas criativas. E aquilo que até 26 de Julho está à vista nas mais de 74 exposições, num total de 64 espaços diferentes em Madrid, Lisboa e Cuenca, é só parte do trabalho a que o festival se tem dedicado. A este universo de exposições há que acrescentar programas pedagógicos, como o Campus PHE (oficinas de trabalho orientadas por fotógrafos reconhecidos), o Descubrimientos (incentivo a novos talentos) e a Resiliencia (exposição de trabalhos de novos autores oriundos de vários países da América Latina). Durante dois meses, Madrid transforma-se na cidade mais apetecível para quem gosta de fotografia. Como a Torre de Babel, que, segundo a lenda, ficou inacabada, não existe um roteiro definitivo para percorrer as exposições deste ano. Ainda assim, arriscamos quatro propostas que mostram o enorme talento da linguagem fotográfica para baralhar e voltar a dar.
(ler texto completo aqui)
David Goldblatt, Mãe, Joubert Park, Joanesburgo, 1975© David Goldblatt
09 junho, 2009
=ColecçãoàVista= 20
Ben Shahn (1898-1969), Woman Seated at Window, N.Y.C., 1932
O artista de múltiplas facetas
Nascido em Kaunas, Lituânia, em 1898, Ben Shahn emigra para a América em 1904. Comprometido com os seus ideais e repúdio pelas injustiças sociais, o judeu Benjamin Zwi Shahn é um dos mais importantes e respeitados nomes norte-americanos do século XX e escolheu falar ao mundo através das suas obras de pintura, litografia e fotografia.
Ben Shahn é um representante social. Uma análise mais profunda da sua arte e percurso de vida revelam as diferentes facetas do fotógrafo; por vezes imigrante judeu do leste europeu e, em muitas outras, artista americano de sucesso.
É na cidade de Nova Iorque que o seu trabalho pode ser visto enquanto documentário social. Membro do programa FSA (Farm Security Administration), viaja pelo sul da América e documenta as condições das populações rurais pobres ao lado de Walker Evans, Dorothea Lange e outros fotógrafos convidados.
(texto:CPF)
05 junho, 2009
PHE09 - Notas 3
# Não sei se o Teatro Häagen Dazs tem bom teatro. Bons gelados (como seria de esperar) e bom café (coisa mais ou menos difícil de encontrar em Espanha) tem.
# A Filmoteca Española e o PhotoEspaña respiram o cinema de Pedro Costa por estes dias. O trabalho do realizador português tem sido coberto de elogios.
# O vídeo de Zhao Liang escolhido para o festival (City Scene, 2004) é herdeiro da mesma linguagem narrativa que Pedro Costa utiliza na maioria dos seus filmes. Os dois estão interessados em dar-nos acontecimentos na sua escala mais ínfima. Divergem as abordagens formais para chegarem ao hiperrealismo.
# A edição deste ano do PHE já tem mais artes visuais para além da fotografia. Talvez ainda não tenha o suficiente.
# Dois títulos da primeira página do El Mundo de ontem: Antología del disparate en la recta final de la campaña; La ex alcaldesa de Marbella abofetea a un menor que la llamó "choriza".
# Na exposição de Dorothea Lange (The Crucial Years) ouvem-se algumas gravações da voz de Dorothea Lange. Falava alto e era assertiva.
# O pudim flan na Cocina de Neptuno (c. Cervantes) é de se lhe tirar o chapéu. Agradeço a dica ao companheiro de trabalho da RTPN que tinha acabado de passar por lá.
# Há dois portugueses envolvidos no prémio para melhor livro de fotografia editado no ano passado - Edgar Martins, Topologies (Aperture); Helena Almeida, Tela Rosa para vestir (Telefónica).
# O comissário Paul Wombell saiu-se muito bem como DJ no Matadero. Ao contrário da exposição no Teatro Fernán Gómez, 70s. Photography and Everyday Life, a sessão dedicada aos sons da mesma época esteve carregada de nostalgia, coisa que, aliás, sentimos de uma forma mais aguda na música do que na imagem.
PHE09 - Notas 2
# O trabalho que Walid Raad tem desenvolvido no projecto Atlas Group é de uma grande consistência e mostra-nos como as mais básicas linguagens gráficas baseadas na cor e na forma continuam a ser veículos eficazes para contar histórias, mesmo as mais complexas como as que aconteceram durante os conflitos recentes no Líbano.
# A esplanada da Casa América convida ao descanso. Essa era a ideia do brasileiro Mauro Restiffe depois da apresentação de Mirante, não fosse a hora do avião para a Bienal de Veneza. Em Mirante, Mauro também andou em trânsito - passou de uma América para a outra para olhar para a tomada de posse de Obama, depois de ter feito o mesmo com Lula. No meio, sem multidões, aparecem a Casa de Serralves e mesquitas de Istambul.
# O canal de Isabel II é um encanto para a vista. É lá que Sergei Bratkov nos mostra o mundo complexo e tenebroso em que se transformou o antigo bloco de leste.
# O trabalho do espanhol Bartolomé Ros da primeira metade do século passado faz lembrar o de Joshua Benoliel.
04 junho, 2009
PHE09 - Notas 1
# A palavra mais ouvida quando se anda à noite pela Calle Atocha: cariño.
# O presidente da Telefónica conhece bem a obra de Gerhard Richter. Divagou sobre a morte da fotografia e foi descortinar um poema de um Pulitzer dedicado ao artista alemão. O presidente da Telefónica gosta de fotografia, dá dinheiro para exposições e parece boa pessoa, mas é um péssimo diseur.
# A exposição de Richter é magnífica, talvez demasiado extensa. Ficará como um dos grandes acontecimentos da edição deste PHE.
# No Circulo de Bellas Artes o sistema de som parece que nunca funciona como deve ser. Falou-se francês, castelhano, checo e castelheco e tudo foi mais difícil de entender. Já as fotografias de Patrick Faigenbaum não aparentam nenhum problema técnico e adequam-se muito bem ao tema proposto. Quando vimos Jindřich Štyrský já estávamos em countdown para a realeza, mas deu para perceber que foi o surrealismo a mandar no universo do multifacetado artista checo.
# No Real Jardín Botánico, o príncipe entrou a rir e a distribuir holas (não se sabe se a fazer publicidade à revista). Já a princesa está muito (mas mesmo muito) magra e menos expansiva. A realeza foi chamada outra vez para cortar a fita do festival. E cortou, salvo seja.
# Os homens-armário estavam por todo lado. E a floresta de fotógrafos fazia concorrência à floresta de árvores.
# No Botánico, para além da realeza em pessoa, reinam as fotografias-arte que já só foram fotografias-documento. São as provas de Sultan & Mandel.
# Ali ao lado, a banca de livros do PHE faz pensar no máximo de 23 quilos que se pode transportar na mala de regresso.
03 junho, 2009
PHE09
À janela a olhar o dia que passa
(P2, Público, 03.06.2009)
A vista da janela de Le Gras, captada pelo pai da fotografia, Niépce, nos arredores de Chalon-sur-Saône, entre 1826 e 1827, mostra um trivial conjunto de casas, um par de janelas e uma vaga linha de horizonte. A vista de Le Gras (França) é uma experiência ainda enublada e tosca, mas é, ao mesmo tempo, a matriz de um postal nítido que já vimos vezes sem conta.
O sujeito que compõe a imagem fundadora da fotografia não podia ser mais premonitório do universo que mais se colou à sua prática ao longo dos anos - o quotidiano tornado visível através da ínfima variedade de gestos do dia-a-dia, comuns e repetitivos. É a percepção da realidade imediata que está simplesmente ao nosso alcance, ali, do outro lado da janela, na face de um postal ilustrado ou na janela de um browser de Internet. Se por um lado passámos a partilhar mais o nosso quotidiano, por outro também nos tornámos consumidores vorazes do quotidiano dos outros. Como se estivéssemos todos à janela.
São tão voláteis, complexas e diversas as manifestações visuais da vida diária que não deixa de surpreender (e de mostrar coragem) a escolha do tema Quotidiano como eixo central do PhotoEspaña, o festival de fotografia e artes visuais comissariado pelo segundo ano pelo português Sérgio Mah e que é hoje oficialmente inaugurado em Madrid.
Talvez por causa dessa dificuldade de limitar campos criativos que escapam a convenções e regras estabelecidas, Mah prefere abordar o tema de uma forma aberta e abstracta, não vinculando directamente nenhuma exposição do programa à defesa concreta da quotidianidade enquanto experiência criativa. "O PhotoEspaña não pretende ser uma referência de autoridade estética e moral. Acima de tudo, trata-se de um espaço aberto à multiplicidade de sensibilidades, motivações e comportamentos que compõem o panorama actual das práticas da imagem", escreve no texto do catálogo oficial.
Mas o certo é que as propostas expositivas que apresenta, sozinho ou em conjunto com outros comissários, abarcam uma cronologia muito alargada (a mostra de trabalhos de Dorothea Lange dos anos 30 é a mais recuada na Secção Oficial) e o conjunto acaba por funcionar mais como ponto da situação do que "reflexão sobre tendências recentes da cultura e das artes visuais contemporâneas concentradas na realidade imediata e ordinária do quotidiano".
Faltam, por exemplo, propostas que questionem a fruição de imagens via Web (o suporte onde hoje o quotidiano está mais efervescente), que representem as actuais ferramentas digitais de partilha de imagens - que estão a perder as qualidades vídeo-foto-gráficas para se tornarem cada vez mais "pixográficas" - ou ainda que reflictam sobre a tendência para dar ao conjunto alargado de quem vê através da Net o poder de escolher aquilo que deve ser levado para o museu, como recentemente aconteceu no nova-iorquino Brooklyn Museum of Art com a exposição Click!, na prática comissariada pelos cerca de cem mil cibernautas de todo o mundo que seleccionaram as 389 fotografias da mostra.
Inspirado no facto de nos últimos anos a fotografia, o cinema documental e a vídeo-arte terem redobrado o interesse por objectos visuais que se concentram na crueza do "verdadeiro", no "reconhecível" e nas propostas que se dedicam e exploram "o movimento banal e rotineiro das situações do dia-a-dia", o comissário decidiu dar protagonismo na Secção Oficial à obra do cineasta português Pedro Costa, autor que leva a experiência do documental até à sua expressão mais extrema.
Ao PÚBLICO Mah justifica a escolha de Costa com a "atitude criativa baseada em gestos muito simples". "O cinema de Pedro Costa é um exemplo paradigmático. Trabalha com suporte vídeo, o que lhe permite filmar com menos pessoas e focar-se no essencial. Ele não está preocupado com o espectacular nem com o extraordinário."
Na programação do festival, Pedro Costa é o único autor com direito a mais do que uma iniciativa relacionada com o seu trabalho. Para a Filmoteca Española, durante todo o mês de Junho, está programada uma retrospectiva completa que inclui o último filme, Ne Change Rien (2009), um retrato singular da actriz e cantora francesa Jeanne Balibar, até agora visto apenas no Festival de Cannes.
Pedro Costa em Madrid, Benoliel em Cuenca
No Cine Doré da Filmoteca passarão ainda alguns filmes escolhidos pelo realizador e no Matadero de Madrid será montada uma instalação (Back Home. Video Works) com três momentos criados a partir de material audiovisual captado durante a rodagem dos filmes No Quarto da Vanda (2000) e Juventude em Marcha (2006).
Um sinal de que a obra de Pedro Costa reúne muitos admiradores no país vizinho foi dado pela versão espanhola da revista Cahiers du Cinéma, que dedica uma edição especial à obra do realizador português com textos assinados por mais de uma dezena de pessoas. Para Sérgio Mah, Pedro Costa "sempre se sentiu próximo da fotografia pela facilidade e simplicidade do seu processo de criação". A exposição no Matadero promete dar "uma perspectiva do seu trabalho para além da produção cinematográfica" e propõe uma reflexão "sobre a sua aproximação a outros universos das artes visuais".
Longe do reconhecimento internacional de que goza Pedro Costa, o repórter fotográfico Joshua Benoliel, pioneiro do fotojornalismo, é o outro representante português na programação deste ano. A exposição que será inaugurada em Cuenca, cidade nos arredores Madrid escolhida como sede do festival, trará parte do conjunto de imagens fotográficas e outros documentos que foram vistos durante a última edição do LisboaPhoto, em 2005. Incluída na secção OpenPhoto, que reúne propostas de vários países fora do tema geral do festival, a mostra, comissariada por Emília Tavares, representa, no entanto, uma oportunidade rara de divulgar internacionalmente o trabalho de um fotógrafo "histórico", no caso a colossal produção de Benoliel ao longo dos primeiros e cruciais 30 anos do século XX português.
Lugar para todos
Entre o conjunto de exposições da Secção Oficial, aquela que mais próxima tenta estar da ideia geral do tema, encontram-se propostas muito diversas, com múltiplos modelos criativos e autores de diferentes gerações e geografias. Lado a lado com representações mais actuais e imediatas do quotidiano (Pedro Costa e Zhao Liang) surgem propostas que apelam mais a momentos históricos de criação onde o fotográfico se cruza com o documento ético (anos 30, com Dorothea Lange) ou onde o estilo documental se mistura em definitivo com o conceptual e passa, no fim dos anos 70, a ser encarado como suporte artístico.
É dentro deste último universo que se inscrevem as exposições de Patrick Faigenbaum (retrospectiva em torno do documental e prática pictórica) e daquele que é considerado um dos mais influentes artistas vivos, o alemão Gerhard Richter, que apresenta uma monumental série de Fotografias Pintadas que cruzam dois universos criativos e problematizam a nossa percepção das imagens e da realidade.
Na colectiva Anos 70. Fotografia e Vida Quotidiana, comissariada por Sérgio Mah e Paul Wombell, tenta estabelecer-se um mapa das vanguardas ligadas à imagem fotográfica de uma década considerada fundamental para compreender tudo o que se passou na arte contemporânea dos últimos 35 anos. Estão representados, entre outros, Allan Sekula, Victor Burgin, Boltanski e Sophie Calle.
Para um festival preocupado em aumentar a cada ano o número de visitantes e empenhado em conquistar novos públicos, há também propostas que piscam o olho ao imediatamente reconhecível e ao universo da espectacularidade. No campo das exposições de encher o olho aparece, por exemplo, a ultramediática Annie Leibovitz e sua Vida de Uma Fotógrafa, que oscila entre a captura da intimidade familiar e o registo da mais brilhante constelação de estrelas de Hollywood.
PHE09
Começou esta semana a maratona de inaugurações do PhotoEspaña. Hoje abre ao público a muito aguardada exposição do alemão Gerhard Richter, Fotografias Pintadas, uma das grandes apostas do conjunto de mostras da Secção Oficial, grande parte das quais comissariadas por Sérgio Mah. O texto que apresenta e defende o tema da edição deste ano, Quotidiano, está disponível no portal do PHE, aqui.
ps: ao longo dos próximos quatro dias tentarei, na medida do possível, dar aqui algumas notas sobre o arranque do festival.






























