18 junho, 2009

Estranhos

© Juan Manuel Castro Prieto


Aguardo com expectativa a exposição Estranhos de Juan Manuel Castro Prieto na [Kgaleria]. Maravilhei-me muito recentemente em Madrid com Etiopía, retrato pleno, sensível e pungente do mosaico que é este velho país dos "caras queimadas".

Eis a apresentação da mostra feita pelo comissário:

Estranhos é um magnífico exemplo da coerência que Juan Manuel Castro Prieto construiu entre 1983 e 2007. Trata-se de um período de marcado carácter intimista, fundamental no processo de amadurecimento de uma obra poliédrica que explora a memória com base nos vestígios latentes que habitam os seus espaços pessoais e familiares. Castro Prieto cria cenários oníricos a partir da vida quotidiana, denotando uma relação de profunda intimidade com a literatura. Nesta exposição torna-se visível o fio condutor que atravessa toda a sua obra. Assim, o sexo e a morte coexistem nalgumas das suas imagens como uma dualidade que evidencia um certo fatalismo na sua relação com a vida, e são também uma reivindicação lúdica da existência. Por fim, através da infância, o autor mergulha nesse território ambíguo que é o trânsito para a adolescência: um tempo de abstracção e de primeiras introspecções.

Alejandro Castellote

Estranhos, de Juan Manuel Castro Prieto
[Kgaleria], Rua da Vinha 43A – Bairro Alto, Lisboa
De qua. a Sáb das 15h às 20h (excepto feriados)
De 2 a 31 de Julho

17 junho, 2009

lembrar Ricardo Rangel


Ricardo Rangel, da série Pão nosso de cada noite, Lourenço Marques, dos anos 60 a 70

Raul Alves Calane da Silva, José Luís Cabaço e Sérgio Santimano falam sobre Ricardo Rangel no obituário que Alexandra Prado Coelho escreveu para o P2. O fotógrafo que ofereceu um espelho aos moçambicanos está aqui

João Bafo 1949-2009

(via frenesi-livros.blogspot.com)

João Bafo recomenda: «Jean Mohr é um fotógrafo suíço desde sempre dedicado a fotografar causas humanitárias e a fazer parcerias com escritores e sociólogos, especialmente com Berger, a "escreverem" – com a tinta e a luz – livros dos quais destaco Ways of Seeing, que por acaso me influenciou bastante e ajudou a não me tresmalhar apenas nos bonecos fáceis para a imprensa (que também os fiz, mas à coté a fazer outro género de fotografia, embora documental, mas mais analítica e a fugir a sete pés da "propaganda"). – jbafo»



João Bafo, Porto, 1990
© Fundação PLMJ

regressar

© Marina Black, da série Versts

Como é bom regressar de quando em vez à burn. para ver fotografia inquietante e ler boas discussões. Veja-se o último trabalho de Marina Black (Versts, Версты) sobre memória e o papel que a fotografia joga nela. Mais do que tudo aqui

entre aspas



© Ricardo Rangel, Pausa do Estivador, Lourenço Marques, 1958

No começo, eu não sabia por que tirava certas fotos. As pessoas diziam-me: 'Tu não és preto, por que é que andas a tirar fotografias a pretos?' Comecei a tomar consciência quando as queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto a pedir, o polícia a algemar o 'indígena'


Ricardo Rangel em entrevista a Luís Carlos Patraquim, Público, 30.06.1991

15 junho, 2009

Descubrimientos PHE09

© Alejandra Laviada


A mexicana Alejandra Laviada venceu o Descubrimientos PHE09, o prémio com que o festival PhotoEspaña reconhece todos os anos um novo talento na fotografia. A série com que foi reconhecida capta esculturas feitas a partir de objectos vindos de lugares que vão ser demolidos ou remodelados, refere o comunicado do PHE.
O júri era composto por Susan Kismaric, conservadora do departamento de fotografia do Museum of Modern Art - MoMA de Nova Iorque, Colette Olof, comissária, Foam_ Fotografiemuseum de Amesterdão e Lesley A. Martin, editora executiva da Aperture Foundation de Nova Iorque. Foram enviados mais de 1000 portfólios de fotógrafos de 65 nacionalidades. O prémio será entregue no dia 22 de Junho. No próximo ano, Laviada terá direito a uma exposição individual integrada no PHE10.

Litorais

Danilo Pavone, Litorais
© Danilo Pavone


Antes de tudo Litorais diz-nos o que conhecemos: esses espaços que a distância transforma, que associamos a outras imagens e lugares, espaços que tocam o horizonte próximo, que mal vemos e que, na maior parte das vezes, se escondem do nosso percurso diário.

Estas imagens, neste litoral imenso que é Espinho, falam-nos, de distâncias, de interferências que a fotografia reduz. As distâncias são dadas pelo corpo e é pelo corpo que Danilo Pavone as insinua: o espaço sente-se mais do que se vê, é medido pela nosso lugar, pela intuição do movimento; é sentido pelos contrastes, pela descoberta de descontinuidades: as rochas que tocam o céu, as figuras que volteiam num bailado interrompido de formas num lugar que identificamos mas que é também um espaço imponderável, fora do tempo. Porque o tempo do olhar é fugidio, breve.

E aqui, inventamos caminhos, suspensões, aconteceres: a paisagem pode agitar-nos, suspender a análise, garantir-nos a irrealidade do mundo e das suas promessas. O espaço é também o porvir, o além.

E então a paisagem, mesmo um Sol que morre ao fim do dia ou uma tempestade que se anuncia deixa de ser o fundo de uma representação, o tema de uma imagem. Abre o confronto entre a falta e o que temos, entre o labirinto das sensações e a ordem do entendimento.

A paisagem é, sempre, a janela privada sobre o mundo.

E é bem provável que tudo isto exista, que o mundo possa ser enquadrado num detalhe e abrir um caminho de luz ao nosso sentimento de finitude.

Da realidade que conhecemos o fotógrafo escolhe apenas o que quer ver, o que abre e fecha com o seu estilo, o visível e o invisível.

E o mistério impossível que nos mostra é mais verdadeiro que o real.

Maria do Carmo Serén

14 junho, 2009

Ricardo Rangel 1924-2009


Ricardo Rangel
© David Clifford/Público


Ricardo Rangel morreu sem dar por ela, pela morte. Faleceu na quinta-feira enquanto dormia um dos principais dinamizadores da fotografia em Moçambique. Rangel participou em dezenas de exposições em vários países e foi condecorado com o grau de Oficial das Artes e Letras pelo governo francês. Deu os primeiros passos na fotografia aos 17 anos, com trabalho de laboratório. Começou a fazer fotojornalismo no Lourenço Marques Guardian e depois passou pelo Notícias da Tarde, onde se tornou o primeiro fotojornalista não branco. Durante a década de 60 foi editor do jornal A Tribuna e trabalhou em vários títulos, entre os quais Diário de Moçambique e Voz Africana. Na década seguinte fundou a revista Tempo, pioneira no uso da cor em Moçambique. Depois da independência, foi editor de fotografia do Notícias e depois do semanário Domingo. Em 1981, esteve na origem da Associação Moçambicana de Fotografia e em 1984 criou o Centro de Formação de Fotografia, responsável pela formação de gerações de fotógrafos moçambicanos.

No ano passado, o realizador brasileiro radicado em Moçambique Licínio de Azevedo dedicou-lhe um filme biográfico, "Ricardo Rangel, Ferro em Brasa", e em 2001, o MoMA de Nova Iorque dedicou-lhe um retrospectiva. Em 2004, o espaço da Culturgest, no Porto, recebeu a exposição “Iluminando vidas, Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana", onde o trabalho do mestre servia como farol para a geração de fotógrafos que ajudou a formar, tais como José Costa, Alexandre Fenías, Naita Ussene e João Costa.

(dados factuais sobre Ricardo Rangel: Agência Lusa)

O site da Afronova tem uma boa lista com as principais exposições de Ricardo Rangel, aqui
Para saber mais sobre a exposição Iluminando Vidas clique aqui


Ricardo Rangel, Modelo de Olhos Tristes, 1962

13 junho, 2009

Printed Matter

Nils Nova, N&M, da série Gegenüberstellung der Erinnerung (confronto da memória), 2004
© Nils Nova


Parece muito interessante a exposição Printed Matter patente no Fotomuseum Winterthur sobre vários tipos de suportes impressos a partir da fotografia. Para quem não conseguir passar por Zurique até Outubro, pode sempre comprar uma brochura com edição de Thomas Seelig, comissário da mostra, e textos de Florian Ebner e de vários artistas aqui.

Mais informações aqui

Sensation


© Guillaume Pazat

Esta América podia ser em qualquer parte do mundo

Inês Nadais
(P2, Público, 13.06.2009)

Já lhe perguntaram se tinha feito estas imagens em Lisboa e não fez, mas podia: o que ele viu no Sul da América do Sul não pertence mais a esse continente do que aos outros. "São fotografias que falam mais de mim do que sobre a viagem de três meses que fiz entre Buenos Aires e o Peru, passando pela Patagónia e Ushuaia e depois subindo o Chile até ao deserto de Atacama. Podiam ter sido feitas na Europa, podiam ter sido feitas em qualquer sítio", diz Guillaume Pazat a propósito da sua primeira exposição individual, que fica até dia 20 na [Kgaleria], em Lisboa. A América do Sul é a circunstância, não é a substância das imagens agora reunidas em Sensation: "O facto de terem sido feitas na América do Sul é casual. O facto de terem sido feitas em viagem não é casual. Estas fotografias só podiam ter sido tiradas longe de tudo. Nesses três meses tive tempo para estar comigo. Esta exposição é o relato de uma viagem interior."

Feita nas horas mortas de uma deslocação ao serviço da revista Visão - "Fomos fazer uma série de reportagens sobre o aquecimento global. Comprámos um Ford Falcon, que é um carro mítico na Argentina, e viajámos a 60 à hora" -, essa viagem interior surpreendeu-o como Lisboa já não consegue surpreendê-lo (nasceu em França, em 1970, mas vive em Portugal desde 1998). "Tenho muita dificuldade em fazer fotografias em Lisboa. Já não consigo ser surpreendido. Vejo tudo com o filtro do hábito, do quotidiano. Sim, estas imagens também podiam ter sido feitas em Lisboa - mas não por mim", explica. Numa viagem, ser surpreendido é a coisa mais importante. Regressar é a segunda. Quando ele regressou, pôs a cabeça em ordem: "Foi isto que senti, foi isto que pus na parede."

Co-fundador do colectivo Kameraphoto, Guillaume Pazat trabalha para vários jornais e revistas da Europa. No primeiro trimestre de 2008 realizou, em conjunto com Luís Pedro Cabral e Jordi Burch, o projecto multimédia Estação do calor (http://www.estacaodocalor.org/) e também teve tempo para isto que agora vemos, sem nunca sabermos exactamente de que terra é.

Sensation, de Guillaume Pazat
[Kgaleria], Rua da Vinha, Lisboa
Até 20 de Junho

10 junho, 2009

PHE09


Gerhard Richter, 4.12.06, Privatbesitz Deutschland
© Gerhard Richter


PhotoEspaña
Isto hoje anda tudo misturado
(P2
, Público, 10.06.2009)

Um festival de fotografia com 259 autores de mais de 40 nacionalidades não é só uma Torre de Babel da língua - é uma Torre de Babel da imagem, um extenso mosaico onde o mais difícil é alguém não encontrar uma exposição com que se identifique. Com a Secção Oficial novamente a cargo do português Sérgio Mah, o PhotoEspaña afirma-se a cada ano como um dos mais importantes e multifacetados encontros em torno da imagem fotográfica, para onde se consegue levar trabalhos fundamentais da história da fotografia e onde se tenta traçar os caminhos que seguem novas propostas criativas. E aquilo que até 26 de Julho está à vista nas mais de 74 exposições, num total de 64 espaços diferentes em Madrid, Lisboa e Cuenca, é só parte do trabalho a que o festival se tem dedicado. A este universo de exposições há que acrescentar programas pedagógicos, como o Campus PHE (oficinas de trabalho orientadas por fotógrafos reconhecidos), o Descubrimientos (incentivo a novos talentos) e a Resiliencia (exposição de trabalhos de novos autores oriundos de vários países da América Latina). Durante dois meses, Madrid transforma-se na cidade mais apetecível para quem gosta de fotografia. Como a Torre de Babel, que, segundo a lenda, ficou inacabada, não existe um roteiro definitivo para percorrer as exposições deste ano. Ainda assim, arriscamos quatro propostas que mostram o enorme talento da linguagem fotográfica para baralhar e voltar a dar.
(ler texto completo aqui)


David Goldblatt, Mãe, Joubert Park, Joanesburgo, 1975
© David Goldblatt

09 junho, 2009

=ColecçãoàVista= 20

Ben Shahn (1898-1969), Woman Seated at Window, N.Y.C., 1932
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

O artista de múltiplas facetas

Nascido em Kaunas, Lituânia, em 1898, Ben Shahn emigra para a América em 1904. Comprometido com os seus ideais e repúdio pelas injustiças sociais, o judeu Benjamin Zwi Shahn é um dos mais importantes e respeitados nomes norte-americanos do século XX e escolheu falar ao mundo através das suas obras de pintura, litografia e fotografia.
Ben Shahn é um representante social. Uma análise mais profunda da sua arte e percurso de vida revelam as diferentes facetas do fotógrafo; por vezes imigrante judeu do leste europeu e, em muitas outras, artista americano de sucesso.
É na cidade de Nova Iorque que o seu trabalho pode ser visto enquanto documentário social. Membro do programa FSA (Farm Security Administration), viaja pelo sul da América e documenta as condições das populações rurais pobres ao lado de Walker Evans, Dorothea Lange e outros fotógrafos convidados.
(texto:CPF)

05 junho, 2009

PHE09 - Notas 3

William Egglestom, da série Seventies vol. II, circa 1970
© William Egglestom/Chaim & Read, Nova Iorque


# Não sei se o Teatro Häagen Dazs tem bom teatro. Bons gelados (como seria de esperar) e bom café (coisa mais ou menos difícil de encontrar em Espanha) tem.


# A Filmoteca Española e o PhotoEspaña respiram o cinema de Pedro Costa por estes dias. O trabalho do realizador português tem sido coberto de elogios.


# O vídeo de Zhao Liang escolhido para o festival (City Scene, 2004) é herdeiro da mesma linguagem narrativa que Pedro Costa utiliza na maioria dos seus filmes. Os dois estão interessados em dar-nos acontecimentos na sua escala mais ínfima. Divergem as abordagens formais para chegarem ao hiperrealismo.


# A edição deste ano do PHE já tem mais artes visuais para além da fotografia. Talvez ainda não tenha o suficiente.


# Dois títulos da primeira página do El Mundo de ontem: Antología del disparate en la recta final de la campaña; La ex alcaldesa de Marbella abofetea a un menor que la llamó "choriza".


# Na exposição de Dorothea Lange (The Crucial Years) ouvem-se algumas gravações da voz de Dorothea Lange. Falava alto e era assertiva.


# O pudim flan na Cocina de Neptuno (c. Cervantes) é de se lhe tirar o chapéu. Agradeço a dica ao companheiro de trabalho da RTPN que tinha acabado de passar por lá.


# Há dois portugueses envolvidos no prémio para melhor livro de fotografia editado no ano passado - Edgar Martins, Topologies (Aperture); Helena Almeida, Tela Rosa para vestir (Telefónica).


# O comissário Paul Wombell saiu-se muito bem como DJ no Matadero. Ao contrário da exposição no Teatro Fernán Gómez, 70s. Photography and Everyday Life, a sessão dedicada aos sons da mesma época esteve carregada de nostalgia, coisa que, aliás, sentimos de uma forma mais aguda na música do que na imagem.

PHE09 - Notas 2

Bartolomé Ros, Franco e Millán Astray, 1926
© Cortesia Arquivo Familia Ros Amador


# O trabalho que Walid Raad tem desenvolvido no projecto Atlas Group é de uma grande consistência e mostra-nos como as mais básicas linguagens gráficas baseadas na cor e na forma continuam a ser veículos eficazes para contar histórias, mesmo as mais complexas como as que aconteceram durante os conflitos recentes no Líbano.

# A esplanada da Casa América convida ao descanso. Essa era a ideia do brasileiro Mauro Restiffe depois da apresentação de Mirante, não fosse a hora do avião para a Bienal de Veneza. Em Mirante, Mauro também andou em trânsito - passou de uma América para a outra para olhar para a tomada de posse de Obama, depois de ter feito o mesmo com Lula. No meio, sem multidões, aparecem a Casa de Serralves e mesquitas de Istambul.

# O canal de Isabel II é um encanto para a vista. É lá que Sergei Bratkov nos mostra o mundo complexo e tenebroso em que se transformou o antigo bloco de leste.

# O trabalho do espanhol Bartolomé Ros da primeira metade do século passado faz lembrar o de Joshua Benoliel.

04 junho, 2009

PHE09 - Notas 1

Anders Petersen, s/t, da série Café Lehmitz, 1977
© Anders Petersen


# A palavra mais ouvida quando se anda à noite pela Calle Atocha: cariño.

# O presidente da Telefónica conhece bem a obra de Gerhard Richter. Divagou sobre a morte da fotografia e foi descortinar um poema de um Pulitzer dedicado ao artista alemão. O presidente da Telefónica gosta de fotografia, dá dinheiro para exposições e parece boa pessoa, mas é um péssimo diseur.

# A exposição de Richter é magnífica, talvez demasiado extensa. Ficará como um dos grandes acontecimentos da edição deste PHE.

# No Circulo de Bellas Artes o sistema de som parece que nunca funciona como deve ser. Falou-se francês, castelhano, checo e castelheco e tudo foi mais difícil de entender. Já as fotografias de Patrick Faigenbaum não aparentam nenhum problema técnico e adequam-se muito bem ao tema proposto. Quando vimos Jindřich Štyrský já estávamos em countdown para a realeza, mas deu para perceber que foi o surrealismo a mandar no universo do multifacetado artista checo.

# No Real Jardín Botánico, o príncipe entrou a rir e a distribuir holas (não se sabe se a fazer publicidade à revista). Já a princesa está muito (mas mesmo muito) magra e menos expansiva. A realeza foi chamada outra vez para cortar a fita do festival. E cortou, salvo seja.

# Os homens-armário estavam por todo lado. E a floresta de fotógrafos fazia concorrência à floresta de árvores.

# No Botánico, para além da realeza em pessoa, reinam as fotografias-arte que já só foram fotografias-documento. São as provas de Sultan & Mandel.

# Ali ao lado, a banca de livros do PHE faz pensar no máximo de 23 quilos que se pode transportar na mala de regresso.

03 junho, 2009

PHE09

Pedro Costa, Tarrafal (fotograma), 2007

À janela a olhar o dia que passa


(P2, Público, 03.06.2009)

A vista da janela de Le Gras, captada pelo pai da fotografia, Niépce, nos arredores de Chalon-sur-Saône, entre 1826 e 1827, mostra um trivial conjunto de casas, um par de janelas e uma vaga linha de horizonte. A vista de Le Gras (França) é uma experiência ainda enublada e tosca, mas é, ao mesmo tempo, a matriz de um postal nítido que já vimos vezes sem conta.

O sujeito que compõe a imagem fundadora da fotografia não podia ser mais premonitório do universo que mais se colou à sua prática ao longo dos anos - o quotidiano tornado visível através da ínfima variedade de gestos do dia-a-dia, comuns e repetitivos. É a percepção da realidade imediata que está simplesmente ao nosso alcance, ali, do outro lado da janela, na face de um postal ilustrado ou na janela de um browser de Internet. Se por um lado passámos a partilhar mais o nosso quotidiano, por outro também nos tornámos consumidores vorazes do quotidiano dos outros. Como se estivéssemos todos à janela.

São tão voláteis, complexas e diversas as manifestações visuais da vida diária que não deixa de surpreender (e de mostrar coragem) a escolha do tema Quotidiano como eixo central do PhotoEspaña, o festival de fotografia e artes visuais comissariado pelo segundo ano pelo português Sérgio Mah e que é hoje oficialmente inaugurado em Madrid.

Talvez por causa dessa dificuldade de limitar campos criativos que escapam a convenções e regras estabelecidas, Mah prefere abordar o tema de uma forma aberta e abstracta, não vinculando directamente nenhuma exposição do programa à defesa concreta da quotidianidade enquanto experiência criativa. "O PhotoEspaña não pretende ser uma referência de autoridade estética e moral. Acima de tudo, trata-se de um espaço aberto à multiplicidade de sensibilidades, motivações e comportamentos que compõem o panorama actual das práticas da imagem", escreve no texto do catálogo oficial.

Mas o certo é que as propostas expositivas que apresenta, sozinho ou em conjunto com outros comissários, abarcam uma cronologia muito alargada (a mostra de trabalhos de Dorothea Lange dos anos 30 é a mais recuada na Secção Oficial) e o conjunto acaba por funcionar mais como ponto da situação do que "reflexão sobre tendências recentes da cultura e das artes visuais contemporâneas concentradas na realidade imediata e ordinária do quotidiano".

Faltam, por exemplo, propostas que questionem a fruição de imagens via Web (o suporte onde hoje o quotidiano está mais efervescente), que representem as actuais ferramentas digitais de partilha de imagens - que estão a perder as qualidades vídeo-foto-gráficas para se tornarem cada vez mais "pixográficas" - ou ainda que reflictam sobre a tendência para dar ao conjunto alargado de quem vê através da Net o poder de escolher aquilo que deve ser levado para o museu, como recentemente aconteceu no nova-iorquino Brooklyn Museum of Art com a exposição Click!, na prática comissariada pelos cerca de cem mil cibernautas de todo o mundo que seleccionaram as 389 fotografias da mostra.

Inspirado no facto de nos últimos anos a fotografia, o cinema documental e a vídeo-arte terem redobrado o interesse por objectos visuais que se concentram na crueza do "verdadeiro", no "reconhecível" e nas propostas que se dedicam e exploram "o movimento banal e rotineiro das situações do dia-a-dia", o comissário decidiu dar protagonismo na Secção Oficial à obra do cineasta português Pedro Costa, autor que leva a experiência do documental até à sua expressão mais extrema.

Ao PÚBLICO Mah justifica a escolha de Costa com a "atitude criativa baseada em gestos muito simples". "O cinema de Pedro Costa é um exemplo paradigmático. Trabalha com suporte vídeo, o que lhe permite filmar com menos pessoas e focar-se no essencial. Ele não está preocupado com o espectacular nem com o extraordinário."

Na programação do festival, Pedro Costa é o único autor com direito a mais do que uma iniciativa relacionada com o seu trabalho. Para a Filmoteca Española, durante todo o mês de Junho, está programada uma retrospectiva completa que inclui o último filme, Ne Change Rien (2009), um retrato singular da actriz e cantora francesa Jeanne Balibar, até agora visto apenas no Festival de Cannes.

Pedro Costa em Madrid, Benoliel em Cuenca
No Cine Doré da Filmoteca passarão ainda alguns filmes escolhidos pelo realizador e no Matadero de Madrid será montada uma instalação (Back Home. Video Works) com três momentos criados a partir de material audiovisual captado durante a rodagem dos filmes No Quarto da Vanda (2000) e Juventude em Marcha (2006).

Um sinal de que a obra de Pedro Costa reúne muitos admiradores no país vizinho foi dado pela versão espanhola da revista Cahiers du Cinéma, que dedica uma edição especial à obra do realizador português com textos assinados por mais de uma dezena de pessoas. Para Sérgio Mah, Pedro Costa "sempre se sentiu próximo da fotografia pela facilidade e simplicidade do seu processo de criação". A exposição no Matadero promete dar "uma perspectiva do seu trabalho para além da produção cinematográfica" e propõe uma reflexão "sobre a sua aproximação a outros universos das artes visuais".

Longe do reconhecimento internacional de que goza Pedro Costa, o repórter fotográfico Joshua Benoliel, pioneiro do fotojornalismo, é o outro representante português na programação deste ano. A exposição que será inaugurada em Cuenca, cidade nos arredores Madrid escolhida como sede do festival, trará parte do conjunto de imagens fotográficas e outros documentos que foram vistos durante a última edição do LisboaPhoto, em 2005. Incluída na secção OpenPhoto, que reúne propostas de vários países fora do tema geral do festival, a mostra, comissariada por Emília Tavares, representa, no entanto, uma oportunidade rara de divulgar internacionalmente o trabalho de um fotógrafo "histórico", no caso a colossal produção de Benoliel ao longo dos primeiros e cruciais 30 anos do século XX português.

Lugar para todos
Entre o conjunto de exposições da Secção Oficial, aquela que mais próxima tenta estar da ideia geral do tema, encontram-se propostas muito diversas, com múltiplos modelos criativos e autores de diferentes gerações e geografias. Lado a lado com representações mais actuais e imediatas do quotidiano (Pedro Costa e Zhao Liang) surgem propostas que apelam mais a momentos históricos de criação onde o fotográfico se cruza com o documento ético (anos 30, com Dorothea Lange) ou onde o estilo documental se mistura em definitivo com o conceptual e passa, no fim dos anos 70, a ser encarado como suporte artístico.

É dentro deste último universo que se inscrevem as exposições de Patrick Faigenbaum (retrospectiva em torno do documental e prática pictórica) e daquele que é considerado um dos mais influentes artistas vivos, o alemão Gerhard Richter, que apresenta uma monumental série de Fotografias Pintadas que cruzam dois universos criativos e problematizam a nossa percepção das imagens e da realidade.

Na colectiva Anos 70. Fotografia e Vida Quotidiana, comissariada por Sérgio Mah e Paul Wombell, tenta estabelecer-se um mapa das vanguardas ligadas à imagem fotográfica de uma década considerada fundamental para compreender tudo o que se passou na arte contemporânea dos últimos 35 anos. Estão representados, entre outros, Allan Sekula, Victor Burgin, Boltanski e Sophie Calle.

Para um festival preocupado em aumentar a cada ano o número de visitantes e empenhado em conquistar novos públicos, há também propostas que piscam o olho ao imediatamente reconhecível e ao universo da espectacularidade. No campo das exposições de encher o olho aparece, por exemplo, a ultramediática Annie Leibovitz e sua Vida de Uma Fotógrafa, que oscila entre a captura da intimidade familiar e o registo da mais brilhante constelação de estrelas de Hollywood.

PHE09

Gerhard Richter, 4.12.06
© Gerhard Richter

Começou esta semana a maratona de inaugurações do PhotoEspaña. Hoje abre ao público a muito aguardada exposição do alemão Gerhard Richter, Fotografias Pintadas, uma das grandes apostas do conjunto de mostras da Secção Oficial, grande parte das quais comissariadas por Sérgio Mah. O texto que apresenta e defende o tema da edição deste ano, Quotidiano, está disponível no portal do PHE, aqui.

ps: ao longo dos próximos quatro dias tentarei, na medida do possível, dar aqui algumas notas sobre o arranque do festival.

=ColecçãoàVista= 19


Ramón Zabalza Ramos, Mocejón, Toledo, 1986
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Tempestade

As viagens de Ramón Zabalza ao interior de Espanha tinham como objectivo perceber as diferentes culturas. As particularidades encontradas nos ciganos e a documentação escrita existente motivaram-no a interessar-se verdadeiramente por este povo e a levar a cabo o projecto de o retratar.
Durante 20 anos Zabalza acompanhou várias famílias ciganas. Em 1995 publica o livro Gypsies Portrayed, photographes and reminiscences que, entre outras coisas, demonstra a curiosidade pela forma de vida, a convivência, a experiência e a capacidade de observação do fotógrafo. Num acampamento em Mocejón, Zabalza não teve autorização para fotografar, mas deixou-se ficar por perto, observando. À meia-noite trovejou imenso e os ciganos desmontaram as tendas, carregaram os carros e fugiram enquanto Zabalza os fotografava às escuras.
(texto:CPF)

31 maio, 2009

Blographo

Paulo Ricca, mau tempo na Foz, 1990
© Paulo Ricca/Público


Os fotojornalistas do Público acabam de lançar o Blographo, um blogue colectivo que mostrará as melhores imagens captadas ao serviço do jornal. Em jeito de apresentação, o primeiro post de cada um recupera a fotografia (e alguns pormenores sobre o momento em que foi tomada) que lhes valeu a primeira primeira página do jornal. Alguns recuaram até 1990, ano em que o Público saiu para as bancas.
No blographo vão mostrar-se as melhores imagens vindas do trabalho diário de todos os repórteres e vão privilegiar-se formas criativas de contar estórias pela imagem fotogáfica. E, se os leitores ajudarem, vai discutir-se fotojornalismo, os problemas e saídas da mais nobre expressão da fotografia.

Os fotojornalistas do Público são:
»Pedro Cunha
»Nelson Garrido
»Paulo Ricca
»Miguel Madeira
»Daniel Rocha
»Paulo Pimenta
»Adriano Miranda
»Manuel Roberto
»Enric Vives-Rubio
»Rui Gaudêncio
»Nuno Ferreira Santos

O Blographo mora aqui
Bem-vindos!

30 maio, 2009

Kannisto


Aino Kannisto, UnderSheet
© Aino Kannisto


As fantasias de Aino Kannisto

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 30.05.2009)

Este é o último fim-de-semana em que se podem visitar as exposições dos Encontros da Imagem de Braga. A da artista finlandesa Aino Kannisto, no Museu Nogueira da Silva, permite uma viagem por um território muito pessoal de fantasias, mesmo que encenadas sempre dentro de casa

"As minhas fotos são fantasias", escreve a finlandesa Aino Kannisto (n. Espoo, 1973) no catálogo da exposição que tem nos Encontros da Imagem de Braga. Quem puder ainda visitar as suas fotografias no Museu Nogueira da Silva (hoje e amanhã) terá oportunidade de viajar por essas suas memórias e devaneios, que ora se apresentam como sonhos, ora como pesadelos, mesmo que aparentemente aí se descortine um encantatório estado de graça e de suspensão do tempo.

Esteja Aino (que se assume como modelo e personagem das suas histórias, à imagem de uma Cindy Sherman) na lavandaria pública à espera de levar para casa a roupa lavada, ou sentada à mesa da cozinha depois de fazer as compras, ou simplesmente no banho, ela está sempre noutro lugar, a viver outras situações que não aquelas que o décor parece documentar. "Construo cenas ficcionais, que perpetuo com a câmara. Eu própria sou a figurante das minhas fotografias. Mas elas não são auto-retratos no sentido tradicional", diz a artista, que nunca dá título aos seus trabalhos. São ficções que tanto podem adquirir uma atmosfera poética, como quando a personagem dessas histórias - sempre sozinha em cena, num cenário maioritariamente confinado ao espaço doméstico - se esconde por trás de uma janela que reflecte as árvores do exterior, como podem assumir uma violência inesperada, como quando segura ao colo um coelho morto, que tinge de sangue o seu vestido branco, sentada numa cadeira de baloiço azul...

Quatro das fotografias que compõem a série de 16 agora exposta nos Encontros de Braga foram compradas pelo Museu Colecção Berardo, em Lisboa, onde estiveram já em exposição, no ano passado. Mas a obra de Aino Kannisto está igualmente representada na Colecção BESart. Licenciada em Arte pelo Departamento de Fotografia da Universidade de Helsínquia, a artista tem ainda os seus trabalhos representados em várias colecções europeias e mostrou as suas fotografias em galerias de Copenhaga, Estocolmo, Oslo e Milão.


Aino Kannisto, Two Mirrors
© Aino Kannisto

29 maio, 2009

PHE09 - arranque

Cristóbal Hara, Bolaños de Calatrava, 1997
© Cristóbal Hara, VEGAP, Madrid, 2007


O Quotidiano do PhotoEspaña começa em Lisboa


(P2, Público, 29.05.2009)


Está de regresso ao Museu Colecção Berardo, em Lisboa, a extensão do PhotoEspaña que este ano voltou a escolher Portugal para arranque do vasto programa do festival que durante a próxima semana inaugurará dezenas de exposições em Madrid e Cuenca. O Quotidiano, tema escolhido pelo comissário geral Sérgio Mah para a edição deste ano, assume abordagens muito distintas nos trabalhos de Cristóbal Hara e Mabel Palacín, os dois artistas espanhóis escolhidos para as exposições que hoje abrem ao público no Centro Cultural de Belém.

Sérgio Mah assume O Quotidiano “em sequência” e “em relação profunda” com O Lugar, o tema da edição do ano passado. A acrescentar à reflexão sobre a espacialidade, a geografia e a topografia dos lugares surge agora o confronto de fotógrafos e artistas visuais com “a experiência e a percepção da vida quotidiana”, através dos gestos comuns e das mais banais manifestações do dia-a-dia, um universo cada vez mais explorado e potenciado por suportes como a Internet, em substituição de meios mais tradicionais como a televisão. A ambição do comissário passa ainda por compreender e colocar em diálogo o crescente interesse dos artistas pelo “reconhecível” e pelo “documental” nas diferentes artes visuais.

Para explicar aquilo que mais lhe interessa registar na fotografia do quotidiano de pequenas localidades de toda a Espanha, Cristóbal Hara recorre a uma técnica que conhece bem - a construção de imagens. Muito económico nas palavras, pede apenas para imaginarmos com ele duas fotografias. Na primeira brilharia um mega-concerto com todo o tipo de efeitos de luz, som, imagem e pirotecnia. Na segunda apareceria um homem a tocar viola, sozinho, num palco apenas iluminado pelo lusco-fusco. A Cristóbal interessa-lhe a simplicidade, a crueza e a banalidade do que em potência lhe transmitiria a segunda fotografia. O conjunto de imagens que agora mostra em Lisboa traçam o seu percurso de duas décadas pelos mais obscuros lugarejos espanhóis em busca dessa “geografia vernacular” em torno da morte, do sexo, da violência, da religião e do sentido comunitário das populações minúsculas. Os animais, em particular os cavalos e o universo tauromáquico mais primitivo e pobre, são sujeitos com presença destacada. Os nomes das terras por onde passou estão longe de constar em guias turísticos: Cuéllar; Villarín de Campos; Bajo Aragón; Pinofranqueado; Zúbar.

Notam-se os resquícios da linguagem fotográfica do fotojornalismo, área da fotografia a que primeiro se dedicou, mas encontram-se em muitas imagens sinais de que quis fugir a este registo, como quando corta caras no enquadramento e as esconde na sombra. O uso de negativos de cores mais saturadas, mais perto de um género de fotografia amadora, em vez do clássico preto e branco, suporte com que trabalhou no início, ajudaram-no a “libertar-se” das amarras do discurso fotográfico do jornalismo. “Acho que consegui encontrar o meu registo quando comecei a fotografar a cores, comecei a divertir-me”, disse ao PÚBLICO durante a apresentação da mostra que inclui ainda um vídeo inédito e um documentário realizado para o canal franco-alemão Arte.

Uma das séries de fotografias mais intensas da exposição foi captada em Denia entre 1997 e 2004. Mostra bonecas de plástico semi-queimadas depois de rituais satíricos que se inspiram na actualidade. O formato de impressão escolhido, o triplo do da maioria das restantes fotografias, funciona bem não só pelo impacto do tema – bocados de corpos de plástico e cinzas flashados no alcatrão – como também pela escala real daquelas figuras que parecem saídas de um filme de terror. Enquanto folheava o livro Autobiography (Steidl), do qual fazem parte estas fotografias, Hara confessava estar orgulhoso com o resultado. “Tive muita sorte”. Mas a explicação que deu a seguir mostra que não foi só sorte: “Neste tipo de celebrações fotografam-se quase sempre as bonecas a arder e tudo o que rodeia a acção dos rituais. Ninguém fotografa os bocados que ficam depois das fogueiras”. Hara fotografou. Autobiography parte do conjunto da sua obra para um auto-retrato. As imagens da série de Denia evocam o pecado.

Embora esteja longe do ofuscamento tecnológico, as criações videográficas e fotográficas de Mabel Palacín utilizam recursos e suportes mais elaborados, muito distantes das fotografias directas e sintéticas de Hara. Os modos e as técnicas de fazer são outros, mas a experiência do quotidiano está bem presente nos vídeos Hinterland e A distância correcta e nas sequências de fotografias As portas Espanholas. Em Hinterland (periferia), Palacín parte apenas de uma imagem fotográfica para criar uma narrativa em vídeo com mais de 11 minutos em torno de um lugar e de um conjunto de personagens. Estamos sempre a ver a mesma imagem, mas o corte e costura da montagem, com a ajuda de separadores com pistas narrativas, instalam a confusão entre o que é novo e o que já foi visto. O sentimento de repetição só não é maior porque os efeitos de zoom e os enquadramentos procuram sempre pequenas diferenças. Nos primeiros momentos da projecção ainda se pensa que são várias fotografias a compor a narrativa. A meio desconfia-se. E no fim fica-se perto da certeza. Na sala seguinte surge a única fotografia que esteve na base do vídeo. Foi captada na periferia de uma cidade do Norte da Itália, uma zona do tecido urbano híbrida e que funciona como local de passagem, de distribuição e de exploração industrial. A fealdade domina a cena (e o cenário). A composição meticulosa da imagem fotográfica que serviu como ponto de partida mostra como a partir de um momento particular se podem construir infinitas narrativas e relatos do sucedido. Uma narrativa banal – como é o caso – é só uma possibilidade.

O segundo vídeo, A distância correcta, mistura movimentos banais do dia-a-dia com excertos de clássicos do cinema e cinema de autor. Através de uma distância correcta entre um e outro universo, Palacín executa um jogo de interacção e convergência de diferentes momentos narrativos. A chave está no uso da mesma linguagem visual – aqui, a cinematográfica. Já As Portas Espanholas partiram daquilo que a artista classifica como uma “anedota” – a conclusão de Palacín de que só em Espanha as portas não fecham apenas com o trinco, é sempre preciso uma chave. A disposição dos três conjuntos é assumidamente filmográfica e maleável. A leitura vertical de três imagens resulta em distintos começos e fins, de acordo com a disposição das molduras na parede.

A porta do PhotoEspaña em Portugal já está aberta. Falta abrir a de Espanha.

28 maio, 2009

debater

Fernando Taborda, Estrada da Vida, 1954


Jorge Silva Melo e Lúcia Marques são os convidados do II Encontro Batalha de Sombras, a exposição comissariada por Emília Tavares sobre a fotografia portuguesa dos anos 50 patente no Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira. O debate terá lugar no próximo sábado, às 17h00, no auditório do MNR.

»»Posts relacionados
»(À conversa com... Emília Tavares)
»(Batalha de sombras)

27 maio, 2009

Primavera em Betão



O Núcleo de Arte Fotográfica do Instituto Superior Técnico (NAF) está a promover um concurso de fotografia subordinado ao tema Primavera em Betão. Podem ser enviadas para o NAF 3 fotografias, a cores ou a preto e branco, registadas com câmaras analógicas ou digitais. O prazo de entrega termina a 24 de Junho. O regulamento pode ser consultado aqui

Encontros da Imagem


Xulia Arandas, Burkas
© Xulia Arandas


Mulheres sem fronteiras

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 24.05.2009)

Não terá sido ao acaso que a direcção dos Encontros da Imagem de Braga escolheu um mosteiro para cenário da principal exposição da edição deste ano da iniciativa, que decorre até final de Maio. O tema e as motivações da exposição colectiva Fronteiras do Género vão bem com a atmosfera de um antigo lugar de clausura. Esta dimensão e o seu oposto, de protesto (às vezes, pelo lado da ironia) e mesmo de combate social e político, compõem as imagens mais impressivas do conjunto de trabalhos das 22 mulheres fotógrafas, portuguesas e estrangeiras, que formam este núcleo dos Encontros.

Entramos na sala do milenar Mosteiro de Tibães, nos arredores de Braga, e somos recebidos por cinco produções das Guerrilla Girls, um colectivo feminista americano radical, que questiona desde o olhar de Hollywood sobre a mulher - um dos cartazes é um simulacro de poster de um filme intitulado The Birth of Feminism, protagonizado por Pamela Anderson, Halle Berry e Catherina Zeta-Jones e realizado por... Oliver Stone - até à sua representação no mundo das artes plásticas - outro cartaz pergunta por que é que a mulher tem de se despir para entrar na iconografia dos museus; outro ainda regista a evolução da percentagem de mulheres artistas na Bienal de Veneza, desde a primeira edição em 1895 (2,4 por cento) até cem anos depois (9 por cento)...

A mulher aprisionada surge logo a seguir, na série Burkas, de Xulia Aranda, que a figura enredada na sua própria condição feminina. O tema das burkas e da submissão da mulher ao estereótipo e à condição social de subalternidade nas sociedades dominadas pelo islão surge mais à frente, nos trabalhos de Susana Mendes da Silva e de Shirin Neshat.

Há, depois, a mulher-mãe nas diferentes poses que ela pode assumir perante a maternidade: desde a revolta e a violência sobre si própria no vídeo e na série de fotografias de Júlia Galán (que nestas retoma uma cena forte do filme de Tsai Ming-Liang O Sabor da Melancia) às poses das mães pós-parto nos trabalhos de Juliana Stein, que ora se apresentam como "documento", ora como "monumento", como escreve o crítico de arte brasileiro Artur Freitas, no texto do catálogo.

Solidão e fragilidade
Da figuração (e também desconstrução) do glamour, da moda, da publicidade e da mulher objecto sexual - "Odeio ser gorda, come-me por favor", grita Ana-Perez Quiroga, no serviço de porcelana em que "serve" o seu corpo nu à mesa da refeição - falam as imagens de Ana Laura Aláez (o vídeo Make-up sequences), Mariana Nuñez, Cláudia Huidobro e Sophie Carlier. Até que em três instalações inesperadas - Point de vue, de Anna Malagrida, Terre annoncée, de Aurore de Sousa; e La mémoire: un voyageur du temps, de Marie-Elsa Niels - o feminino ganha também a dimensão da poesia, do sonho, da solidão, da fragilidade, da delicadeza. Respectivamente: um tríptico de janelas embaciadas pela humidade faz transparecer um exterior insondável; as mãos de uma mulher tornam-se véus para uma visão religiosa; pequenos cubos de gelo encerram flores e frutos entre o nascimento e a morte...

E há, ainda, EU, de Celeste Cerqueira, uma instalação de placas caneladas que representam os contornos dos países da União Europeia e sobre as quais é projectado um vídeo, numa montagem em que "a dinâmica social do sujeito/cidadão se encontra enredada por vezes nas ilusões vendáveis do poder político", descreve a autora.

Para além de Fronteiras do Género, os Encontros da Imagem apresentam outros Olhares femininos em diferentes museus e galerias de Braga.

(a programação completa dos Encontros está aqui)

=ColecçãoàVista=18

Félix Bonfils (1831–1885), Caire, Tombeaux des Mameluks, Cairo, Egipto, c. 1870
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Fotografia arqueológica

Estas imagens permitem-nos, para além da beleza da composição, ter uma perspectiva histórica do desenvolvimento urbano e dos monumentos antigos, há mais de 130 anos. Félix Bonfils foi um fotógrafo francês que desenvolveu a sua actividade no Médio Oriente. Nasce e vive em França até 1867, altura em que se muda com a família para Beirute, onde abre, com a sua mulher, Lydie, o estúdio Maison Bonfils. Esta designação seria alterada em 1878, passando a F. Bonfils et Cie quando o filho, Adrien, toma conta do negócio. Recorre ao processo de colódio húmido e regista o Egipto, Líbano, Palestina, Síria, Grécia, Istambul (na época Constantinopla), produzindo vários álbuns, impressões e cartões estereoscópicos (fotografias coladas num cartão que quando visualizadas por um estereoscópio produzem um efeito tridimensional).
(texto:CPF)

25 maio, 2009

Grand Tour


Edmond Lebel (1834-1908), modelo para pintura, Petite marchande de figue et de noix, 1868
© Musée d'Orsay, dist. RMN/Patrice Schmidt

O desenvolvimento dos transportes fez uma parte, a novidade fotográfica (aliada à pintura) fez outra e o romantismo italiano do século XIX fez o resto. A tentação de artistas e aristocratas endinheirados pelo Grand Tour italiano, derradeiro paraíso da Europa do século XIX onde a antiguidade clássica brilhava, resultou num circuito turístico desejado. Uma exposição no Mussée de Orsay, em Paris, recupera essa paixão melancólica pela paisagem e pela arquitectura italianas através da íntima relação entre a fotografia e a pintura de artistas que ali quiseram captar ambiências e costumes.
O museu publica um bom texto sobre a mostra aqui

Voir l'Italie et mourir. Photographie et peinture dans l'Italie du XIX siècle
Musée d' Orsay, Paris
Até 19 de Julho

demasiado perto




Sérgio C. Andrade
(No passado, 25 de Maio de 1954, P2, Público)

Robert Capa morre na Guerra da Indochina

Há uma fotografia, um despacho noticioso de apenas cinco linhas e uma afirmação que se mostraria premonitória dos riscos de levar até aos limites uma ética profissional. A fotografia – a última fotografia – mostra um grupo de soldados, de costas, a avançar temerariamente no delta do Rio Vermelho, no Vietname, em plena guerra da Indochina. Nas costas deles, mas perto deles – fatidicamente perto –, Robert Capa haveria de perecer imediatamente após este clique, porque sempre levou demasiado à letra o seu princípio profissional, estético e mesmo ético: “Se as tuas fotografias não estão suficientemente boas, é porque tu não estavas suficientemente perto.”

O despacho noticioso desse dia 25 de Maio de 1954 da Associated Press dizia laconicamente: “Robert Capa, fotógrafo da Life Magazine, morreu neste dia depois de ter pisado uma mina em Thai Binh, na região norte da Indochina.” Há ainda a descrição de que o fotógrafo tinha ficado com as pernas dilaceradas, mas com a câmara fotográfica junto às mãos.

Foi assim a vida de Robert Capa, nascido em Budapeste, Hungria, em 1913, e baptizado Endre Ernö Friedman – o nome que haveria de assumir mais tarde tornou-se um pseudónimo profissional mas também existencial. Capa esteve sempre perto dos acontecimentos. E por isso ajudou a fazer História: na Guerra Civil de Espanha (como ainda agora se comprovou, uma vez mais, revelados os negativos que captou, com a sua companheira Gerda Taro e o seu amigo “Chim” durante os anos do conflito); no Dia D do desembarque aliado na Normandia, na 2ª Guerra Mundial; na guerra na Palestina, em 1948; na guerra da Indochina, em 1954. Sempre perto dos acontecimentos. E, por uma vez, demasiado perto.

24 maio, 2009

{photoarquia}

Hamachrome-Slide para a Casa Garcez
col. particular

A partir de 1923, e por escritura social de 22 de Fevereiro desse ano, Arnaldo Garcez que, entretanto, deixara a actividade jornalística, fundou a casa Garcez Lda dedicada à venda de máquinas fotográficas e outro material do ramo e que viria a situar-se no Chiado, em Lisboa. Associou-se, então, com Joaquim Gomes Alvarez e Rui Vale. Adquiriu, por esse tempo, a representação comercial para Portugal dos papéis sensíveis e filmes fotográficos da conhecida marca belga Gevaert, com fábrica próximo de Anvers. Era frequentador assíduo da Liga dos Combatentes e da Brasileira do Chiado.

António Pedro Vicente, in Arnaldo Garcez, Um Repórter Fotográfico na 1ª Grande Guerra, ed. CPF

Eggleston

William Eggleston, da série Paris
©
William Eggleston Artistic Trust

O desafio da Fondation Cartier era difícil - fotografar Paris. Durante três anos, William Eggleston, considerado um dos grandes impulsionadores da fotografia a cores, flanou pela cidade e reincidiu nas composições saturadas. O resultado, diz a Fondation Cartier, anda entre o "pitoresco e o cosmopolita", o "sublime e o trivial", o "quotidiano e o extraordinário".
Para além desta nova série de fotografias, o mestre americano revela uma faceta menos conhecida da sua arte - um conjunto de pinturas nunca vistas em público.

Paris, de William Eggleston
Fondation Cartier pour l´art contemporain, Paris
Até 21 de Junho

23 maio, 2009

REFLEX

Finalista REFLEX 2008

Gerações é o tema da quinta edição do Prémio de Fotografia REFLEX, iniciativa da associação CAIS que conta com o apoio do BES. Cada participante poderá apresentar um máximo de 3 fotografias. Só são admitidas imagens em suporte digital, com upload feito em www.reflex.com.pt/
O prazo para o envio de imagens termina às 23h59 do dia 29 de Junho. O regulamento pode ser consultado aqui

 
free web page hit counter