03 junho, 2009

=ColecçãoàVista= 19


Ramón Zabalza Ramos, Mocejón, Toledo, 1986
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Tempestade

As viagens de Ramón Zabalza ao interior de Espanha tinham como objectivo perceber as diferentes culturas. As particularidades encontradas nos ciganos e a documentação escrita existente motivaram-no a interessar-se verdadeiramente por este povo e a levar a cabo o projecto de o retratar.
Durante 20 anos Zabalza acompanhou várias famílias ciganas. Em 1995 publica o livro Gypsies Portrayed, photographes and reminiscences que, entre outras coisas, demonstra a curiosidade pela forma de vida, a convivência, a experiência e a capacidade de observação do fotógrafo. Num acampamento em Mocejón, Zabalza não teve autorização para fotografar, mas deixou-se ficar por perto, observando. À meia-noite trovejou imenso e os ciganos desmontaram as tendas, carregaram os carros e fugiram enquanto Zabalza os fotografava às escuras.
(texto:CPF)

31 maio, 2009

Blographo

Paulo Ricca, mau tempo na Foz, 1990
© Paulo Ricca/Público


Os fotojornalistas do Público acabam de lançar o Blographo, um blogue colectivo que mostrará as melhores imagens captadas ao serviço do jornal. Em jeito de apresentação, o primeiro post de cada um recupera a fotografia (e alguns pormenores sobre o momento em que foi tomada) que lhes valeu a primeira primeira página do jornal. Alguns recuaram até 1990, ano em que o Público saiu para as bancas.
No blographo vão mostrar-se as melhores imagens vindas do trabalho diário de todos os repórteres e vão privilegiar-se formas criativas de contar estórias pela imagem fotogáfica. E, se os leitores ajudarem, vai discutir-se fotojornalismo, os problemas e saídas da mais nobre expressão da fotografia.

Os fotojornalistas do Público são:
»Pedro Cunha
»Nelson Garrido
»Paulo Ricca
»Miguel Madeira
»Daniel Rocha
»Paulo Pimenta
»Adriano Miranda
»Manuel Roberto
»Enric Vives-Rubio
»Rui Gaudêncio
»Nuno Ferreira Santos

O Blographo mora aqui
Bem-vindos!

30 maio, 2009

Kannisto


Aino Kannisto, UnderSheet
© Aino Kannisto


As fantasias de Aino Kannisto

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 30.05.2009)

Este é o último fim-de-semana em que se podem visitar as exposições dos Encontros da Imagem de Braga. A da artista finlandesa Aino Kannisto, no Museu Nogueira da Silva, permite uma viagem por um território muito pessoal de fantasias, mesmo que encenadas sempre dentro de casa

"As minhas fotos são fantasias", escreve a finlandesa Aino Kannisto (n. Espoo, 1973) no catálogo da exposição que tem nos Encontros da Imagem de Braga. Quem puder ainda visitar as suas fotografias no Museu Nogueira da Silva (hoje e amanhã) terá oportunidade de viajar por essas suas memórias e devaneios, que ora se apresentam como sonhos, ora como pesadelos, mesmo que aparentemente aí se descortine um encantatório estado de graça e de suspensão do tempo.

Esteja Aino (que se assume como modelo e personagem das suas histórias, à imagem de uma Cindy Sherman) na lavandaria pública à espera de levar para casa a roupa lavada, ou sentada à mesa da cozinha depois de fazer as compras, ou simplesmente no banho, ela está sempre noutro lugar, a viver outras situações que não aquelas que o décor parece documentar. "Construo cenas ficcionais, que perpetuo com a câmara. Eu própria sou a figurante das minhas fotografias. Mas elas não são auto-retratos no sentido tradicional", diz a artista, que nunca dá título aos seus trabalhos. São ficções que tanto podem adquirir uma atmosfera poética, como quando a personagem dessas histórias - sempre sozinha em cena, num cenário maioritariamente confinado ao espaço doméstico - se esconde por trás de uma janela que reflecte as árvores do exterior, como podem assumir uma violência inesperada, como quando segura ao colo um coelho morto, que tinge de sangue o seu vestido branco, sentada numa cadeira de baloiço azul...

Quatro das fotografias que compõem a série de 16 agora exposta nos Encontros de Braga foram compradas pelo Museu Colecção Berardo, em Lisboa, onde estiveram já em exposição, no ano passado. Mas a obra de Aino Kannisto está igualmente representada na Colecção BESart. Licenciada em Arte pelo Departamento de Fotografia da Universidade de Helsínquia, a artista tem ainda os seus trabalhos representados em várias colecções europeias e mostrou as suas fotografias em galerias de Copenhaga, Estocolmo, Oslo e Milão.


Aino Kannisto, Two Mirrors
© Aino Kannisto

29 maio, 2009

PHE09 - arranque

Cristóbal Hara, Bolaños de Calatrava, 1997
© Cristóbal Hara, VEGAP, Madrid, 2007


O Quotidiano do PhotoEspaña começa em Lisboa


(P2, Público, 29.05.2009)


Está de regresso ao Museu Colecção Berardo, em Lisboa, a extensão do PhotoEspaña que este ano voltou a escolher Portugal para arranque do vasto programa do festival que durante a próxima semana inaugurará dezenas de exposições em Madrid e Cuenca. O Quotidiano, tema escolhido pelo comissário geral Sérgio Mah para a edição deste ano, assume abordagens muito distintas nos trabalhos de Cristóbal Hara e Mabel Palacín, os dois artistas espanhóis escolhidos para as exposições que hoje abrem ao público no Centro Cultural de Belém.

Sérgio Mah assume O Quotidiano “em sequência” e “em relação profunda” com O Lugar, o tema da edição do ano passado. A acrescentar à reflexão sobre a espacialidade, a geografia e a topografia dos lugares surge agora o confronto de fotógrafos e artistas visuais com “a experiência e a percepção da vida quotidiana”, através dos gestos comuns e das mais banais manifestações do dia-a-dia, um universo cada vez mais explorado e potenciado por suportes como a Internet, em substituição de meios mais tradicionais como a televisão. A ambição do comissário passa ainda por compreender e colocar em diálogo o crescente interesse dos artistas pelo “reconhecível” e pelo “documental” nas diferentes artes visuais.

Para explicar aquilo que mais lhe interessa registar na fotografia do quotidiano de pequenas localidades de toda a Espanha, Cristóbal Hara recorre a uma técnica que conhece bem - a construção de imagens. Muito económico nas palavras, pede apenas para imaginarmos com ele duas fotografias. Na primeira brilharia um mega-concerto com todo o tipo de efeitos de luz, som, imagem e pirotecnia. Na segunda apareceria um homem a tocar viola, sozinho, num palco apenas iluminado pelo lusco-fusco. A Cristóbal interessa-lhe a simplicidade, a crueza e a banalidade do que em potência lhe transmitiria a segunda fotografia. O conjunto de imagens que agora mostra em Lisboa traçam o seu percurso de duas décadas pelos mais obscuros lugarejos espanhóis em busca dessa “geografia vernacular” em torno da morte, do sexo, da violência, da religião e do sentido comunitário das populações minúsculas. Os animais, em particular os cavalos e o universo tauromáquico mais primitivo e pobre, são sujeitos com presença destacada. Os nomes das terras por onde passou estão longe de constar em guias turísticos: Cuéllar; Villarín de Campos; Bajo Aragón; Pinofranqueado; Zúbar.

Notam-se os resquícios da linguagem fotográfica do fotojornalismo, área da fotografia a que primeiro se dedicou, mas encontram-se em muitas imagens sinais de que quis fugir a este registo, como quando corta caras no enquadramento e as esconde na sombra. O uso de negativos de cores mais saturadas, mais perto de um género de fotografia amadora, em vez do clássico preto e branco, suporte com que trabalhou no início, ajudaram-no a “libertar-se” das amarras do discurso fotográfico do jornalismo. “Acho que consegui encontrar o meu registo quando comecei a fotografar a cores, comecei a divertir-me”, disse ao PÚBLICO durante a apresentação da mostra que inclui ainda um vídeo inédito e um documentário realizado para o canal franco-alemão Arte.

Uma das séries de fotografias mais intensas da exposição foi captada em Denia entre 1997 e 2004. Mostra bonecas de plástico semi-queimadas depois de rituais satíricos que se inspiram na actualidade. O formato de impressão escolhido, o triplo do da maioria das restantes fotografias, funciona bem não só pelo impacto do tema – bocados de corpos de plástico e cinzas flashados no alcatrão – como também pela escala real daquelas figuras que parecem saídas de um filme de terror. Enquanto folheava o livro Autobiography (Steidl), do qual fazem parte estas fotografias, Hara confessava estar orgulhoso com o resultado. “Tive muita sorte”. Mas a explicação que deu a seguir mostra que não foi só sorte: “Neste tipo de celebrações fotografam-se quase sempre as bonecas a arder e tudo o que rodeia a acção dos rituais. Ninguém fotografa os bocados que ficam depois das fogueiras”. Hara fotografou. Autobiography parte do conjunto da sua obra para um auto-retrato. As imagens da série de Denia evocam o pecado.

Embora esteja longe do ofuscamento tecnológico, as criações videográficas e fotográficas de Mabel Palacín utilizam recursos e suportes mais elaborados, muito distantes das fotografias directas e sintéticas de Hara. Os modos e as técnicas de fazer são outros, mas a experiência do quotidiano está bem presente nos vídeos Hinterland e A distância correcta e nas sequências de fotografias As portas Espanholas. Em Hinterland (periferia), Palacín parte apenas de uma imagem fotográfica para criar uma narrativa em vídeo com mais de 11 minutos em torno de um lugar e de um conjunto de personagens. Estamos sempre a ver a mesma imagem, mas o corte e costura da montagem, com a ajuda de separadores com pistas narrativas, instalam a confusão entre o que é novo e o que já foi visto. O sentimento de repetição só não é maior porque os efeitos de zoom e os enquadramentos procuram sempre pequenas diferenças. Nos primeiros momentos da projecção ainda se pensa que são várias fotografias a compor a narrativa. A meio desconfia-se. E no fim fica-se perto da certeza. Na sala seguinte surge a única fotografia que esteve na base do vídeo. Foi captada na periferia de uma cidade do Norte da Itália, uma zona do tecido urbano híbrida e que funciona como local de passagem, de distribuição e de exploração industrial. A fealdade domina a cena (e o cenário). A composição meticulosa da imagem fotográfica que serviu como ponto de partida mostra como a partir de um momento particular se podem construir infinitas narrativas e relatos do sucedido. Uma narrativa banal – como é o caso – é só uma possibilidade.

O segundo vídeo, A distância correcta, mistura movimentos banais do dia-a-dia com excertos de clássicos do cinema e cinema de autor. Através de uma distância correcta entre um e outro universo, Palacín executa um jogo de interacção e convergência de diferentes momentos narrativos. A chave está no uso da mesma linguagem visual – aqui, a cinematográfica. Já As Portas Espanholas partiram daquilo que a artista classifica como uma “anedota” – a conclusão de Palacín de que só em Espanha as portas não fecham apenas com o trinco, é sempre preciso uma chave. A disposição dos três conjuntos é assumidamente filmográfica e maleável. A leitura vertical de três imagens resulta em distintos começos e fins, de acordo com a disposição das molduras na parede.

A porta do PhotoEspaña em Portugal já está aberta. Falta abrir a de Espanha.

28 maio, 2009

debater

Fernando Taborda, Estrada da Vida, 1954


Jorge Silva Melo e Lúcia Marques são os convidados do II Encontro Batalha de Sombras, a exposição comissariada por Emília Tavares sobre a fotografia portuguesa dos anos 50 patente no Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira. O debate terá lugar no próximo sábado, às 17h00, no auditório do MNR.

»»Posts relacionados
»(À conversa com... Emília Tavares)
»(Batalha de sombras)

27 maio, 2009

Primavera em Betão



O Núcleo de Arte Fotográfica do Instituto Superior Técnico (NAF) está a promover um concurso de fotografia subordinado ao tema Primavera em Betão. Podem ser enviadas para o NAF 3 fotografias, a cores ou a preto e branco, registadas com câmaras analógicas ou digitais. O prazo de entrega termina a 24 de Junho. O regulamento pode ser consultado aqui

Encontros da Imagem


Xulia Arandas, Burkas
© Xulia Arandas


Mulheres sem fronteiras

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 24.05.2009)

Não terá sido ao acaso que a direcção dos Encontros da Imagem de Braga escolheu um mosteiro para cenário da principal exposição da edição deste ano da iniciativa, que decorre até final de Maio. O tema e as motivações da exposição colectiva Fronteiras do Género vão bem com a atmosfera de um antigo lugar de clausura. Esta dimensão e o seu oposto, de protesto (às vezes, pelo lado da ironia) e mesmo de combate social e político, compõem as imagens mais impressivas do conjunto de trabalhos das 22 mulheres fotógrafas, portuguesas e estrangeiras, que formam este núcleo dos Encontros.

Entramos na sala do milenar Mosteiro de Tibães, nos arredores de Braga, e somos recebidos por cinco produções das Guerrilla Girls, um colectivo feminista americano radical, que questiona desde o olhar de Hollywood sobre a mulher - um dos cartazes é um simulacro de poster de um filme intitulado The Birth of Feminism, protagonizado por Pamela Anderson, Halle Berry e Catherina Zeta-Jones e realizado por... Oliver Stone - até à sua representação no mundo das artes plásticas - outro cartaz pergunta por que é que a mulher tem de se despir para entrar na iconografia dos museus; outro ainda regista a evolução da percentagem de mulheres artistas na Bienal de Veneza, desde a primeira edição em 1895 (2,4 por cento) até cem anos depois (9 por cento)...

A mulher aprisionada surge logo a seguir, na série Burkas, de Xulia Aranda, que a figura enredada na sua própria condição feminina. O tema das burkas e da submissão da mulher ao estereótipo e à condição social de subalternidade nas sociedades dominadas pelo islão surge mais à frente, nos trabalhos de Susana Mendes da Silva e de Shirin Neshat.

Há, depois, a mulher-mãe nas diferentes poses que ela pode assumir perante a maternidade: desde a revolta e a violência sobre si própria no vídeo e na série de fotografias de Júlia Galán (que nestas retoma uma cena forte do filme de Tsai Ming-Liang O Sabor da Melancia) às poses das mães pós-parto nos trabalhos de Juliana Stein, que ora se apresentam como "documento", ora como "monumento", como escreve o crítico de arte brasileiro Artur Freitas, no texto do catálogo.

Solidão e fragilidade
Da figuração (e também desconstrução) do glamour, da moda, da publicidade e da mulher objecto sexual - "Odeio ser gorda, come-me por favor", grita Ana-Perez Quiroga, no serviço de porcelana em que "serve" o seu corpo nu à mesa da refeição - falam as imagens de Ana Laura Aláez (o vídeo Make-up sequences), Mariana Nuñez, Cláudia Huidobro e Sophie Carlier. Até que em três instalações inesperadas - Point de vue, de Anna Malagrida, Terre annoncée, de Aurore de Sousa; e La mémoire: un voyageur du temps, de Marie-Elsa Niels - o feminino ganha também a dimensão da poesia, do sonho, da solidão, da fragilidade, da delicadeza. Respectivamente: um tríptico de janelas embaciadas pela humidade faz transparecer um exterior insondável; as mãos de uma mulher tornam-se véus para uma visão religiosa; pequenos cubos de gelo encerram flores e frutos entre o nascimento e a morte...

E há, ainda, EU, de Celeste Cerqueira, uma instalação de placas caneladas que representam os contornos dos países da União Europeia e sobre as quais é projectado um vídeo, numa montagem em que "a dinâmica social do sujeito/cidadão se encontra enredada por vezes nas ilusões vendáveis do poder político", descreve a autora.

Para além de Fronteiras do Género, os Encontros da Imagem apresentam outros Olhares femininos em diferentes museus e galerias de Braga.

(a programação completa dos Encontros está aqui)

=ColecçãoàVista=18

Félix Bonfils (1831–1885), Caire, Tombeaux des Mameluks, Cairo, Egipto, c. 1870
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Fotografia arqueológica

Estas imagens permitem-nos, para além da beleza da composição, ter uma perspectiva histórica do desenvolvimento urbano e dos monumentos antigos, há mais de 130 anos. Félix Bonfils foi um fotógrafo francês que desenvolveu a sua actividade no Médio Oriente. Nasce e vive em França até 1867, altura em que se muda com a família para Beirute, onde abre, com a sua mulher, Lydie, o estúdio Maison Bonfils. Esta designação seria alterada em 1878, passando a F. Bonfils et Cie quando o filho, Adrien, toma conta do negócio. Recorre ao processo de colódio húmido e regista o Egipto, Líbano, Palestina, Síria, Grécia, Istambul (na época Constantinopla), produzindo vários álbuns, impressões e cartões estereoscópicos (fotografias coladas num cartão que quando visualizadas por um estereoscópio produzem um efeito tridimensional).
(texto:CPF)

25 maio, 2009

Grand Tour


Edmond Lebel (1834-1908), modelo para pintura, Petite marchande de figue et de noix, 1868
© Musée d'Orsay, dist. RMN/Patrice Schmidt

O desenvolvimento dos transportes fez uma parte, a novidade fotográfica (aliada à pintura) fez outra e o romantismo italiano do século XIX fez o resto. A tentação de artistas e aristocratas endinheirados pelo Grand Tour italiano, derradeiro paraíso da Europa do século XIX onde a antiguidade clássica brilhava, resultou num circuito turístico desejado. Uma exposição no Mussée de Orsay, em Paris, recupera essa paixão melancólica pela paisagem e pela arquitectura italianas através da íntima relação entre a fotografia e a pintura de artistas que ali quiseram captar ambiências e costumes.
O museu publica um bom texto sobre a mostra aqui

Voir l'Italie et mourir. Photographie et peinture dans l'Italie du XIX siècle
Musée d' Orsay, Paris
Até 19 de Julho

demasiado perto




Sérgio C. Andrade
(No passado, 25 de Maio de 1954, P2, Público)

Robert Capa morre na Guerra da Indochina

Há uma fotografia, um despacho noticioso de apenas cinco linhas e uma afirmação que se mostraria premonitória dos riscos de levar até aos limites uma ética profissional. A fotografia – a última fotografia – mostra um grupo de soldados, de costas, a avançar temerariamente no delta do Rio Vermelho, no Vietname, em plena guerra da Indochina. Nas costas deles, mas perto deles – fatidicamente perto –, Robert Capa haveria de perecer imediatamente após este clique, porque sempre levou demasiado à letra o seu princípio profissional, estético e mesmo ético: “Se as tuas fotografias não estão suficientemente boas, é porque tu não estavas suficientemente perto.”

O despacho noticioso desse dia 25 de Maio de 1954 da Associated Press dizia laconicamente: “Robert Capa, fotógrafo da Life Magazine, morreu neste dia depois de ter pisado uma mina em Thai Binh, na região norte da Indochina.” Há ainda a descrição de que o fotógrafo tinha ficado com as pernas dilaceradas, mas com a câmara fotográfica junto às mãos.

Foi assim a vida de Robert Capa, nascido em Budapeste, Hungria, em 1913, e baptizado Endre Ernö Friedman – o nome que haveria de assumir mais tarde tornou-se um pseudónimo profissional mas também existencial. Capa esteve sempre perto dos acontecimentos. E por isso ajudou a fazer História: na Guerra Civil de Espanha (como ainda agora se comprovou, uma vez mais, revelados os negativos que captou, com a sua companheira Gerda Taro e o seu amigo “Chim” durante os anos do conflito); no Dia D do desembarque aliado na Normandia, na 2ª Guerra Mundial; na guerra na Palestina, em 1948; na guerra da Indochina, em 1954. Sempre perto dos acontecimentos. E, por uma vez, demasiado perto.

24 maio, 2009

{photoarquia}

Hamachrome-Slide para a Casa Garcez
col. particular

A partir de 1923, e por escritura social de 22 de Fevereiro desse ano, Arnaldo Garcez que, entretanto, deixara a actividade jornalística, fundou a casa Garcez Lda dedicada à venda de máquinas fotográficas e outro material do ramo e que viria a situar-se no Chiado, em Lisboa. Associou-se, então, com Joaquim Gomes Alvarez e Rui Vale. Adquiriu, por esse tempo, a representação comercial para Portugal dos papéis sensíveis e filmes fotográficos da conhecida marca belga Gevaert, com fábrica próximo de Anvers. Era frequentador assíduo da Liga dos Combatentes e da Brasileira do Chiado.

António Pedro Vicente, in Arnaldo Garcez, Um Repórter Fotográfico na 1ª Grande Guerra, ed. CPF

Eggleston

William Eggleston, da série Paris
©
William Eggleston Artistic Trust

O desafio da Fondation Cartier era difícil - fotografar Paris. Durante três anos, William Eggleston, considerado um dos grandes impulsionadores da fotografia a cores, flanou pela cidade e reincidiu nas composições saturadas. O resultado, diz a Fondation Cartier, anda entre o "pitoresco e o cosmopolita", o "sublime e o trivial", o "quotidiano e o extraordinário".
Para além desta nova série de fotografias, o mestre americano revela uma faceta menos conhecida da sua arte - um conjunto de pinturas nunca vistas em público.

Paris, de William Eggleston
Fondation Cartier pour l´art contemporain, Paris
Até 21 de Junho

23 maio, 2009

REFLEX

Finalista REFLEX 2008

Gerações é o tema da quinta edição do Prémio de Fotografia REFLEX, iniciativa da associação CAIS que conta com o apoio do BES. Cada participante poderá apresentar um máximo de 3 fotografias. Só são admitidas imagens em suporte digital, com upload feito em www.reflex.com.pt/
O prazo para o envio de imagens termina às 23h59 do dia 29 de Junho. O regulamento pode ser consultado aqui

22 maio, 2009

lens


Ainda está fresquinho o novo blogue sobre fotografia, vídeo e jornalismo visual do New York Times, o Lens. Para um começar doce, aconselho o vídeo dos bastidores da produção das fotografias da tarte explosiva (aqui).

20 maio, 2009

Benoliel no PHE09

Joshua Benoliel, comício republicano de protesto contra o Juízo de Instrução Criminal, Igreja dos Anjos, 1910

Finalmente a exposição Joshua Benoliel Repórter Fotográfico comissariada por Emília Tavares para a última edição do LisboaPhoto, em 2005, atravessa fronteiras e faz uma itinerância digna. Será uma das grandes exposições do PHotoEspaña deste ano. Emília Tavares foi entrevistada para o portal do PHotoEspaña. Aqui

19 maio, 2009

Hugh van Es, 1941-2009


Hugh van Es, Saigão, 29 de Abril de 1975


O fotógrafo holandês Hugh van Es morreu na semana passada em Hong Kong, onde vivia desde 1967. Van Es captou a imagem que ficou como símbolo da derrota americana na Guerra do Vietname. A 29 de Abril de 1975, na fuga desesperada perante a derrota mais que certa, um grupo de cidadãos americanos sobe em fila para o telhado de uma casa em Saigão onde um UH-1 Huey da Força Aérea dos EUA os espera. Um erro do editor de fotografia que recebeu a imagem fez com que durante muito tempo se pensasse que o edifício onde decorre a retirada se tratasse da embaixada dos EUA. Na verdade, era a casa onde se instalou a CIA.
Hugh van Es cobriu o desenrolar da guerra entre 1969 e 1975, primeiro ao serviço da Associated Press e depois ao serviço da United Press International. Em 1975, quando as tropas norte-vietnamitas cercavam Saigão, Van Es captou a retirada atabalhoada de milhares de militares americanos e civis que quiseram abandonar a cidade.
A imagem que o tornou famoso é a prova de que muitas vezes basta estar no local certo, no momento certo para se testemunharem grandes momentos. Instalado no telhado do prédio onde estava sediada a UPI, Van Es não deve ter perdido muito tempo antes de disparar perante o que se estava a passar à sua frente.
Segundo o repórter de guerra Peter Arnett, citado pela BBC, Van Es foi um dos poucos jornalistas ocidentais que arriscou testemunhar o fim da guerra.
Depois do conflito no Vietname, Van Es, voltou a Hong Kong e continuou a cobrir guerras, incluindo a invasão soviética do Afeganistão e a revolta Moro nas Filipinas.
(fontes: BBC, Washington Post)

18 maio, 2009

Tommasini

Alfio Tommasini, da série Antonio & Paloma
©
Alfio Tommasini

O prémio Melhor Portfolio Emergentes’09 dos Encontros da Imagem de Braga foi para o fotógrafo suíço Alfio Tommasini. O trabalho reconhecido chama-se Antonio & Paloma e mostra o quotidiano de uma família cigana nas ruas de Madrid.
Para além do vencedor, o júri destacou os trabalhos de Rodrigo Amado, Virgílio Ferreira, Helena Gonçalves, Frédérique Aguillon e Mafalda Marques Correia. Ao todo, competiam 40 fotógrafos previamente seleccionados. Um grupo de 15 críticos convidados pelos Encontros da Imagem escolheram depois o projecto vencedor que terá direito a uma exposição individual na próxima edição.
Os trabalhos de todos os finalistas serão mostrados durante o festival e ficarão disponíveis no portal dos Encontros da Imagem. aqui
Para conhecer melhor o trabalho vencedor de Alfio Tommasini clique aqui

=ColecçãoàVista= 17

Man Ray (1890-1976), Printemps, Paris, ca 1930
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

O inovador

Man Ray, pseudónimo de Emmanuel Rudnitzky, surge da adopção das palavras homem (man) e raio (ray).
Foi um dos mais importantes fotógrafos do século XX, com profundas ligações aos movimentos dada e surrealista. Conjuga uma grande capacidade plástica aliada a um enorme rigor técnico. Entre outras temáticas, fotografou com especial interesse a natureza e o meio urbano, com destaque para a sua cidade de eleição, Paris.
Com uma notável capacidade de observação e composição, desenvolveu um grande trabalho de laboratório, aprofundando e desenvolvendo técnicas fotográficas como a solarização/efeito Sabatier, os fotogramas, a exposição múltipla e diversas técnicas originais de sensibilização e impressão fotográficas. Man Ray representou a figura do artista multifacetado e vanguardista contrariando as tendências puristas da época.
(texto:CPF)

Yashica-D


O Rui ajudou-me a meter o rolo de 120 mm na Yashica-D. Da maneira como se vão tornando raras as películas, convém chamar por quem sabe. Meter um rolo - só a expressão já parece do Mesolítico. É todo um cerimonial que se instala, desde o momento que se rompe o cartucho até ao primeiro disparo, ainda na incerteza sobre se a língua do negativo ficou bem presa no carreto. Agora só quero ver se esta maravilha ainda está aí para as curvas. Mal se fechou a porta, disparámos logo duas vezes. Tenho impressão (quase, quase a certeza absoluta) que a minha Yashica-D (nº de série D 2100039) não me vai deixar ficar mal.

17 maio, 2009

Inês e S. Tomé

© Inês Gonçalves


A tragédia de Carlos Magno em S. Tomé e Príncipe

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 17.05.2009)

O tchiloli é uma representação teatral popular de S. Tomé e Príncipe, que encena as intrigas da corte de Carlos Magno como se elas fossem o paradigma cultural da população local. É uma celebração ritual, um acréscimo de solenidade para os momentos fortes do quotidiano: um casamento, um funeral ou apenas uma festa. E esta representação - que terá chegado ao então território colonial português no século XVIII associado à exploração da cana-de-açúcar - está de tal modo enraizada na cultura local que as personagens que cada membro da população representa em palco acabam por se colar à sua vida quotidiana e à sua própria identidade.

Foi este facto que mais impressionou a fotógrafa Inês Gonçalves e o documentarista Kiluanje Liberdade, e é isso que está documentado na exposição S. Tomé, Máscaras e Mitos (que é também o título de um documentário sobre o mesmo tema), que a Galeria Pente 10, em Lisboa, vai inaugurar na próxima terça-feira e mostrar até 31 de Julho.

Olhando as fotografias, é notório que, mesmo fora de cena, as pessoas continuam a vestir a pele (e não apenas os figurinos) das suas personagens. Há imperadores, reis e princesas, damas de rainha e sibilas, ministros e marqueses, beltrões a gamelões, que continuam a sê-lo no seio da comunidade. São "personagens anónimos a ganharem protagonismo no seu ambiente natural", escreve Adelaide Ginga, num dos textos no catálogo da exposição - o documentário, feito em coprodução com a RTP, espera ainda exibição em Portugal.

As fotografias de S. Tomé, Máscaras e Mito foram feitas em Janeiro de 2008, a convite da Bienal de S. Tomé e Príncipe, que levou Inês Gonçalves e Kiluanje Liberdade de regresso a África, no que foi o retomar de uma parceria que já tinha resultado, em 2007, no trabalho Agora Luanda (com textos de Delfim Sardo e José Eduardo Agualusa).

Evocando agora a sua experiência em S. Tomé, Inês Gonçalves diz que ficou "com imensa vontade de lá voltar", para captar outras personagens e outras representações desta Tragédia (nome genérico da representação teatral), que evoca desgraça. "A cada um a tarefa e o prazer de entender o que ambiguamente, como todos os grandes retratos fazem, e como toda a arte o faz, estas fotografias mostram. A clareza descritiva de todas elas é parte do seu fascínio", escreve João Carneiro, no outro texto do catálogo da exposição.

S. Tomé, Máscaras e Mito, de Inês Gonçalves
Galeria Pente 10, Travessa da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa
Até 31 de Julho


16 maio, 2009

NYPF

Red Head, 1967, 2008-2009
© Carlos Ranc, cortesia do artista e da galeria Nina Menocal

O New York Photo Festival decorre até domingo. Jody Quon, directora de fotografia da New York Magazine falou com o Photo Distric News a propósito da exposição que comissariou a partir de obras do colectivo Mondongo (Juliana Laffitte, Manuel Mendanha e Agustina Picasso) e sobre os trabalhos Rene & Radka, Grant Worth e Carlos Ranc. Hank Willis Thomas apresenta as suas colagens de imagens apropriadas de pinups dos anos 70.



15 maio, 2009

explicar

s/t, da série When light casts no shadow, 2008
© Edgar Martins


Edgar Martins, vencedor da última edição do prémio BES Photo, faz hoje, às 17h00, uma visita guiada à exposição que tem patente no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. A entrada é livre e gratuita.

13 maio, 2009

/uma fotografia, um nome\


Elsa Penalva, da série Retratos
© Elsa Penalva

Mesmo a sós, olhar uma fotografia é uma experiência partilhada; admitimos (e desejamos) que outros vejam o mesmo que nós e do mesmo modo, que tenhamos idêntica impressão. Tudo isto se torna muito claro se a imagem nos perturba e for difícil de classificar.

A imagem suscita um sentimento de pertença ou de exclusão, mas não é igual para todos, não há, de facto, comunidade de percepção da fotografia. E, por razões acrescidas, a interpretação do observador distingue-se habitualmente da do fotógrafo.

Desde as suas origens que associamos o retrato ao seu contexto, os adereços, o mobiliário, o tipo de fundo, a atitude e a própria expressão. Se a integração social num grupo deixou de nos ocupar, continuamos a tentar procurar o seu significado.

Mas o que se destaca no retrato é o olhar – esse olhar que dirigimos a um corpo ou um retrato é ainda um tocar. A repetida actualização da ruptura com o corpo da mãe, que a todos é imposta. Como o seio ou o falo, o olhar é um objecto de desejo parcial; parcial porque incompleto e desconhecido. E então, o olhar é um instrumento de assimilação psíquica do mundo, fabrica equivalentes psíquicos.

E é assim que domesticamos, com a fotografia, realidades temidas e perturbadoras.

Tudo cabe no fantasma depressivo provocado pelo corte com a mãe e que se revela em todas as separações. E é isso que vejo nesta perturbante imagem de rosto-máscara de Elsa Penalva. Como a raiz grega da palavra esta imagem traz-nos o ícone, qualquer coisa que está para lá da posse, mesmo se a tocamos. Como o ícone há uma construção mental que lhe subjaz, um desejo palpável de deixar rastro, de marcar o olhar do outro e de si mesma. E é isso a que a fotografia apela, a rastro, vestígio em nós. E não a morte como a palavra latina, imago. Mesmo no retrato, o fotógrafo quer deixar a sua presença, o seu domínio.

Tudo se adensa neste retrato com o papel da máscara; a imagem que é já retrato-cópia é aqui ela mesma e o seu duplo, a máscara que se ajeita à pele, continuando e, obviamente deformando o rosto. Há um contraste evidente entre a sensibilidade da mulher, o olhar firme e claro, apesar de imóvel, e os traços duros da máscara. Repetindo o olhar, absorvendo o conjunto, é a máscara que se impõe. E nela cabe ainda a evidência da vida da fotógrafa.

A unidade entre o que vive e o inorgânico é uma das habituações do nosso tempo; habitamos em próteses e elas habitam em nós. Há muito que as fronteiras se esbateram entre o que somos e a simbiose em que nos transformamos, seja pelos fármacos que absorvemos, seja pelas próteses que nos dão visão, audição ou capacidade de movimentos. Mas o medo da ligação entre o animal que somos e o mineral que não queremos ser continua para lá da repetição dos mitos. A máscara é esse instrumento de tornear o interdito e o horror. A máscara está ligada à morte, mas também a outra vida. Funciona plenamente como desejo, traz-nos outros lugares, outros cultos e outra personalidade. Na arqueologia dos mitos é e não é, fornece alteridade. Acho que é essa alteridade que esta fotografia nos oferece. Não apenas a velha duplicidade do homem, mas o não-ser apenas máscara, ser também humano. Mas na coisa fotografada, o que é humano é sempre decididamente humano, - alterável e perecível, mas proporcionando vida a qualquer máscara.

O vínculo entre a realidade e o corpo é precisamente o sentimento que temos da realidade. Para nós que observamos, conta a realidade e não a máscara; para a fotógrafa, que sublimou a sua pulsão de fuga de si, importará a máscara.

Porque é uma produção humana, a fotografia nunca se deixa verdadeiramente ler.

Maria do Carmo Serén

Elsa Penalva vive em Cascais e é investigadora.

esconder


É um passo à frente e uns quinhentos atrás. Primeiro Barack Obama surpreendeu com a autorização para se captarem fotografias do repatriamentos de soldados americanos mortos em combate no estrangeiro contrariando uma regra proibicionista que já tinha 18 anos e que atentava contra a liberdade de informar. Agora, segundo o New York Times, o mesmo presidente não quer a divulgação de fotografias de militares americanos a maltratar prisioneiros quando, ainda no mês passado, o Pentágono e a American Civil Liberties Union tinham chegado a um acordo pela divulgação destas fotografias. São muito diferentes os sujeitos, os contextos e as implicações destes dois tipos de imagens. O que parece mais óbvio é o medo das consequências que uma imagem fotográfica pode provocar.

Ballen

Roger Ballen, da série Boarding House
© Roger Ballen

A Phaidon acaba de lançar Roger Ballen: Boarding House, sobre a transitoriedade e a vivência de pessoas e objectos num espaço residencial intervencionado com desenhos e esculturas. É um trabalho peculiar que tenta entrar na psique e nos nossos mais abstrusos pesadelos ("Oh, these pictures are a bit like Diane Arbus or Weegee"). Ballen é um dos fotógrafos presentes na edição deste ano do PHotoEspaña e um dos autores que me despertou mais curiosidade nos últimos tempos.
Para ver imagens deste livro clique aqui

todos



Agora somos todos fotógrafos e o New York Photo Festival (de 13 a 17 de Maio) quer mostrar as nossas fotografias. Pelo menos é o que diz aqui

12 maio, 2009

And/Or




O livro de Susan Meiselas In History (ICP/Steidl), que resume boa parte do seu trabalho na fotografia documental de causas, ganhou o 2009 And/Or Photography Book Award da Kraszna-Krausz Foundation. Os prémios And/Or estão entre os mais reputados do Reino Unido na área editorial da fotografia e da imagem em movimento. Photography and Cinema de David Campany (Reaktion Books) venceu na categoria Best Moving Image Book.
No ano passado, comprei o livro de Susan e desesperei na fila dos autógrafos. Havia muita gente. Quando chegou a minha vez dei por ganho cada momento que ali passei. Porque vale a pena falar com Susan. Nem que seja por dois minutos. E com outras 50 pessoas a olhar e a desesperar.


11 maio, 2009

entre aspas

Inês Gonçalves
© Enric Vives-Rubio/Público

[Fotografar] Para mim, é um desafio. Sei que é uma invasão, mas fazer uma entrevista também é. Uma invasão interessante e boa porque, ao contrário do que se possa imaginar, é raríssimo que uma pessoa não queira mesmo ser fotografada.

Inês Gonçalves em conversa com Ana Sousa Dias, Pública, 10.05.2009

=ColecçãoàVista= 16

Margaret Bourke-White, Italy Entrance to Ponte Real Bailey Bridge on the road to Benafro, 1944
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Pioneira

Margaret Bourke-White (1904-1971) destacou-se no fotojornalismo de tendência política e social e foi considerada pioneira de muitos momentos importantes da fotografia. Foi a primeira repórter fotográfica da revista Fortune e a primeira mulher a quem foi dada permissão para fotografar em território soviético, na década de 1930. Pelas mãos de Henry Luce, Bourke-White integrou a equipa da revista Life a partir de 1936, trabalhando como correspondente de guerra durante a II Guerra Mundial. Depois da capitulação da Alemanha, as suas chocantes fotografias da libertação de campos de concentração atraíram a atenção de todo o mundo. Em 1946 viajou até a Índia para documentar a luta desse país pela liberdade.
(texto:CPF)

09 maio, 2009

MadridFoto

Edward Burtynsky, Silver Lake Operations #12, Lake Lefroy, Western Australia, 2007
Cortesia Galeria Nicholas Metivier


À procura de novos compradores
Sérgio B. Gomes, Madrid
(P2, Público, 9.05.2009)

Não é uma entrada de rompante. Nem era para ser. Pelo menos é o que dizem os organizadores da MadridFoto, a feira de fotografia contemporânea que abriu portas pela primeira vez este fim-de-semana na capital espanhola. Embora a atitude da entrada em cena tenha sido feita com pezinhos de lã, a ambição mais ou menos declarada é a de se tornar, a curto prazo, numa alternativa à Paris Photo, a principal referência do sector na Europa, e mesmo à Photo Miami, um dos faróis da fotografia nos Estados Unidos.

A italiana Giulieta Speranza, directora artística da feira, quer pôr em prática uma "concorrência leal" e só vê vantagens na existência de competição. "Queremos que no futuro nos possam comparar com outras grandes iniciativas da mesma área, mas não procuramos o confronto", disse ao PÚBLICO pouco depois do arranque oficial da feira que estará aberta até amanhã. Apesar de se atravessar uma conjuntura de negócios pouco favorável e "um ano difícil", Enrique Polanco, principal promotor da ideia, sublinhou a resposta positiva na primeira edição de 47 galerias – 16 madrilenas, 15 do resto de Espanha e 16 estrangeiras, entre as quais duas portuguesas, a Carlos Carvalho Arte Contemporânea (Lisboa) e a Mário Sequeira (Braga). E a intenção para as próximas edições é estabilizar o número de galerias até às 70 (a Paris Photo tem quase o dobro de expositores). Ou seja, os argumentos passam mais pela qualidade do que pela quantidade ou dimensão.

O tamanho reduzido ao indispensável e a organização do espaço expositivo – que mais parece uma ilha dentro do gigantismo oceânico da Feria de Madrid - são aliás apresentados como pontos fortes da MadridFoto que espera receber entre 6 a 8 mil visitantes. Concebido pelo arquitecto Andrés Jaque, o modelo imita a largueza e a cumplicidade das praças citadinas em substituição dos nichos labirínticos, menos dialogantes com os vizinhos do lado. As vantagens são nítidas para quem percorre o espaço à procura de ver fotografia de uma maneira menos claustrofóbica. E os expositores também se mostram agradados com esta divisão equilibrada (todas as galerias têm o mesmo espaço). "A feira é democrática e arejada", foi a descrição dada ao PÚBLICO por Oliva Arauna, responsável pela galeria madrilena com o mesmo nome. Ao longo do dia da inauguração, foram usadas palavras sinónimas para classificar a mostra e o ambiente que a rodeia.

Agressividade de principiante à parte (ou a falta dela), o certo é que a MadridFoto se estreia num contexto particularmente interessante no que diz respeito às actividades ligadas à fotografia em Espanha: o país tem festivais consolidados e reconhecidos mundialmente; exposições nos grandes museus e instituições públicas com nomes que marcaram a história da fotografia, que marcam a contemporaneidade e que ficam na memória; dinâmica editorial variada e de qualidade; produção teórica regular; coleccionismo privado em crescendo; várias galerias (muitas em exclusivo) dedicadas à fotografia por todo o país; vários prémios e bolsas de estudo e produção; e um público que responde e participa. Com todos estes condimentos faltava ainda uma iniciativa espanhola de âmbito internacional ligada à venda da fotografia para o caldo ficar completo. É esse o espaço que a MadridFoto, exemplarmente organizada, quer agora preencher. E uma das grandes apostas passa pela conquista de novos coleccionares de um suporte que consegue passar ao lado do arrefecimento das vendas noutros campos da arte – uma das vantagens é a grande amplitude de preços, que torna provas de qualidade acessíveis a compradores com carteiras menos recheadas. "A fotografia funciona muito bem nestes momentos porque os preços são mais ajustados", afirmou ao El País Lorena de Corral, comissária independente que participou no comité de selecção da feira. A propósito da primeira edição da MadridFoto e da aproximação do festival PHotoEspaña (começa na primeira semana de Junho), o suplemento de cultura do mesmo diário, Babelia, dedicou recentemente um caderno especial à fotografia, classificada num dos títulos como "moeda estável".

"Faltam as vintage"
Oliva Arauna vinha de apresentar a um possível comprador os dois auto-retratos de Jorge Molder que ocupam lugar de destaque no seu espaço. As expectativas para a venda das imagens do fotógrafo português são "grandes". Diz Arauna que, em Espanha, há muitos coleccionadores a admirar a obra de Molder. As duas provas da série Ocultações 8 são muito recentes (2008), assim como quase todas as cópias dos outros artistas que levou à feira (excepção para o maliense Malik Sibidé). Para a galerista, à MadridFoto "faltam as vintage", as provas de época impressas a partir dos negativos de fotógrafos consagrados num prazo até cinco anos contados (quando possível) a partir da data do registo original. Essa presença daria à feira maior "solidez" e traria "a autenticidade" que por vezes se revela demasiado diluída na imagem fotográfica e que faz com que muitos compradores ainda franzam o sobrolho. Habitualmente, os coleccionadores dão muito valor às provas de época e estão dispostos a pagar mais por este tipo de imagens. Giulieta Speranza diz-se consciente desta ausência, mas afirma que seria "arriscado" apostar já em todo o leque temporal da história da fotografia o que a levou a concentrar-se apenas em autores e tiragens recentes. "Vamos fazer o contrário do que fez a Paris Photo que começou com as cópias vintage", anunciou Speranza sem colocar de lado a hipótese de vir a incorporar a fotografia antiga nas próximas edições da feira.

Galeristas portugueses optimistas
Os dois galeristas portugueses que decidiram apostar na MadridFoto mostraram-se optimistas em relação às vendas e apontam a fotografia como um suporte seguro no negócio da arte e que tem mostrado um interesse crescente por parte dos compradores. Carlos Carvalho considera-a "uma das áreas artísticas com mais futuro". Levou até Madrid trabalhos de Daniel Blaufuks, Paulo Catrica, Carla Cabanas, Roland Fischer, Antía Moure e Manuel Vilariño. "Tenho um stand homogéneo com obras grandes. Não trago selos para a crise. Trago obras com consistência", disse ao PÚBLICO enquanto alguém virava uma fotografia de Catrica que tinha sido colocada ao contrário. Por seu lado, Mário Sequeira sublinhou o número de clientes espanhóis que compram já na sua galeria e que seguem com atenção o trabalho de Helena Almeida, um dos nomes do portfólio de artistas que representa na feira ao lado de outros consagrados como Axel Hütte, Candida Hofer e Nan Goldin, que tem actualmente uma exposição em Braga. Fora das galerias portuguesas, para além de Molder, apenas André Cepeda marcou presença na galeria galega adhoc onde apresentou um conjunto de 3 fotografias da série River captadas nos EUA no ano passado.

O corpo e a paisagem
À medida que se percorrem as praças da MadridFoto e as galerias que as fecham em círculo é possível ir arrumando mentalmente quase tudo o que se vê em duas grandes categorias – corpo e paisagem. Por mais voltas que se dêem, por mais técnicas, tecnologias, formatos e suportes que se encontrem, a figuração humana e a paisagem permanecem como troncos principais da árvore genealógica do sujeito fotográfico. E as feiras de fotografia têm essa grande vantagem de juntar num espaço comum a diversidade de formas de ver e de representar ideias e realidade. É um local estratégico para apreciar todas as derivas e ramificações que se abrigam em qualquer um dos dois campos. E é um momento ainda melhor para assistir às mais acirradas divergências de gosto e de escolha. Quando, por exemplo, se ouve a forma apaixonada como o inglês Nicholas Mativier (da galeria canadiana com o mesmo nome) fala das paisagens industriais abstractas de Edward Burtynsky e, a uns metros de distância, se olha para a cara de enfado do holandês Martin Rogge (Flatland) a vociferar: "Odeio paisagem!".


Nazif Topçuoglu, Gossip, 2007
Cortesia Galeria Fatland

 
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